Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



Baixar 498.76 Kb.
Página22/28
Encontro29.11.2017
Tamanho498.76 Kb.
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   28

10.
Psi e a civilização do espírito


O Cristianismo é uma revolução em marcha. Sua finalidade é instituir na Terra o Reino de Deus. O manifesto do Reino é o Sermão da Montanha. Mas como chegar à realização desse manifesto na ordem social, quando nos afastamos do seu princípio básico que é a natureza espiritual do homem? A partir da pregação de Jesus a revolução cristã se desencadeou. Não demorou muito e punha abaixo o mundo clássico greco-romano para iniciar uma nova ordem. Essa nova ordem começava por um longo processo histórico de fusão conceptual. Daí o caldeirão medieval de que fala Dilthey, em que a concepção greco-romana do mundo se fundiu lentamente com a concepção judeu-cristã. Arnold Toynbee coloca o problema em termos de física ondulatória: fusão da onda grega com a onda siríaca.

Victor Hugo já o dissera, no prefácio de Cromwell: “Uma religião espiritual, suplantando o paganismo material e exterior, se infiltra no coração da sociedade antiga, mata-a e sobre o cadáver de uma civilização decrépita depõe o germe da civilização moderna”. Nada mais claro e mais preciso. O Cristianismo se infiltra na velha estrutura minando-lhe os alicerces. Quando sopra a tempestade bárbara o Império não resiste. Mas em meio à ruína total alguma coisa se mantém firme e vai dirigir o caos; é a estrutura político-religiosa da Igreja, que se apresenta como síntese formidável das conquistas do passado. Encarna a estrutura imperial romana, o monoteísmo judaico e o politeísmo mitológico, a dogmática do mosaísmo e o racionalismo grego, o direito romano e a mística evangélica.

Delta histórico em que deságuam e se misturam os rios das diversas civilizações, o Cristianismo é o momento de sístole da evolução humana. Por isso mesmo se apresenta terrível e contraditório. É o point d'optique da expressão hugoana, em que “tudo o que existe no mundo, na história, na vida, no homem, tudo pode e deve ali se refletir, mas sob a vara mágica da arte”. O desespero judaico e o trágico grego se misturam à esperança cristã da salvação, e dolorosamente se funde a concepção romântica do mundo que florescerá na galanteria cavalheiresca e eclodirá em frutos no Renascimento. A Reforma e a Contra-Reforma assinalam o momento da diástole histórica do Cristianismo, o conflito fecundo em que o germe se rompe para que a germinação se realize. Morre o grão de trigo, segundo a expressão evangélica, para multiplicar-se na colheita futura.

A civilização contemporânea é ainda um momento da diástole. Mas os sinais da sístole já são visíveis. Na diástole o Cristianismo alienou-se, fragmentou-se e perdeu-se no mundo. Mas o fez para conquistá-lo. Na verdade ele apenas continuou a infiltrar-se nas estruturas arcaicas, mas agora para apossar-se delas, dominá-las e fundi-las preparando o Reino de Deus. O racionalismo nos deu as Ciências, que superaram as superstições mitológicas e quiseram reduzir o mundo a uma equação matemática. O homem se transformou em número – não o fecundo número pitagórico, mas a fria e estéril cifra do economismo utilitarista – e esse número passou a existir em termos de soma, multiplicação, subtração e divisão. A qualidade desapareceu alienada na quantidade. Mas como a qualidade é substância e a quantidade é apenas atributo, a primeira voltará a se impor.

A sístole cristã é o momento de volta à qualidade, à essência, ao Ser, ao homem como homem e não como número, ao homem como espírito e não como acidente biológico. O racionalismo se salva da alienação quantitativa superando suas próprias limitações através do avanço científico. É por isso que o rompimento da concepção física do mundo se verifica no próprio campo da Física: os números se opõem ao homem e o definem como o antinúmero, da mesma maneira por que o mundo, na concepção sartreana, se opõe à consciência e a define como não-mundo. Nas ciências psicológicas esse fato se patenteia de maneira dramática através das experiências quantitativas da Parapsicologia. O método fragmentário conduz à reunificação do objeto, as provas quantitativas reafirmam a qualidade una do psiquismo. Isso é o que permite a Rhine proclamar que a Parapsicologia devolve à Psicologia o seu objeto perdido.

É assim que vemos o retorno do homem a si mesmo através da descoberta parapsicológica de suas funções psi. Torna-se agora possível, não apenas em sentido individual, mas no sentido coletivo, obedecer à ordem do Oráculo de Delfos – ”conhece-te a ti mesmo”. Psi, essa espécie de mistério moderno, racionalmente definido por uma letra grega, surge como nova esfinge no caminho de Édipo. Por isso muitos a temem, outros zombam dela, outros querem negá-la, outros reduzir a sua significação ao mínimo possível e outros, ainda, simplesmente desviá-la do caminho. Mas eis que ela está aqui, diante de nós, irremediável e irrevogavelmente. Não há como escapar ao seu fascínio. Denis de Rougemont disse que o Cristianismo primitivo aprendeu a falar grego para cumprir sua missão universal. O mundo moderno será espiritualmente alfabetizado por uma letra grega.

A importância de psi, como se vê, é fundamental para o momento de transição que estamos vivendo. A demonstração científica da natureza espiritual do homem, ainda apenas em início, mas já suficientemente realizada pela investigação parapsicológica, abre a possibilidade de interpretação cientifica dos princípios evangélicos. Surge, não somente no plano da cogitação filosófica, mas na polaridade teórico-prática das ciências modernas – a hipótese parapsíquica como potência atualizada na experimentação – a possibilidade de construção de uma civilização do espírito que superará as limitações da civilização materialista do presente. O homem-cósmico da astronáutica é também o homem-psíquico das funções psi. E é graças a essa verdadeira ação de pinça – o ataque sincrônico através da Física e da Psicologia – que o arcabouço materialista cederá mais rápido do que o supõem os seus defensores.

O mundo consciencial ou a República dos Espíritos que René Hubert proclama, na corrente neokantiana do relativismo-crítico, já não se assemelha à República de Platão mas a um resultado fatal do processo dialético hegeliano. Este processo, por sua vez, revela a sua mola oculta, que o Marxismo e o Existencialismo sartreano ignoraram: é o elã vital bergsoniano em trânsito psíquico através das formas orgânicas. A Parapsicologia animal revela a identidade psíquica do reino biológico, quebrando mais uma vez a aparente dicotomia cartesiana. As funções psi dos animais se elevam no plano hominal, onde a conquista e a elaboração da razão as enriquecem, predispondo-as à criação do novo tipo de racionalismo com que precognitivamente sonharam os escolásticos: o racionalismo-fideísta, signo sob o qual se desenvolverá a civilização do espírito.

Mas o que podemos entender por esse tipo de civilização? O racionalismo-fideísta é a síntese da razão e da fé, a unificação do espírito. O homem dividido reencontra a sua metade perdida, segundo o mito platônico. O amor então se realiza na plenitude do espírito. Se o homem racional era incerteza e desespero, conquista e ganância, em oposição ao homem de fé, que era acomodação e espera, mortificação e medo, o novo homem espiritual será compreensão e esperança, na percepção intuitiva das suas potencialidades, o que vale dizer da sua perfectibilidade. O desabrochar das funções psi o terá sobrelevado às contradições da dialética evolutiva.

Não se trata de um simples sonho, pois são as próprias investigações científicas que abrem essas perspectivas para o nosso século. Estamos no limiar de um mundo renovado pelo poder do espírito, que é o construtor das civilizações.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   28


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal