Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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11.
Psi e o desenvolvimento moral


A investigação das funções psi tem as conseqüências inevitáveis de um mergulho nas profundezas do psiquismo. Alguns parapsicólogos de tipo fanaticamente científico não querem reconhecer esse fato e protestam contra as ilações de Rhine no campo das conseqüências morais, sociais, políticas e ideológicas da Parapsicologia. Mas o que mais valoriza o trabalho de Rhine e seu grupo é exatamente a amplitude de vistas que o caracteriza. Rhine não é apenas um pesquisador, é também um pensador. E um pensador capaz de tratar os resultados de suas experiências não apenas de maneira matemática e lógica, mas também emocional.

É precisamente nesse ponto que o carro pega, segundo alegam os seus adversários. Porque um cientista deve ser frio, racional e não emotivo. Deve ser sobretudo positivo, não passar além daquilo que os dados da experiência objetivamente oferecem ao seu exame. Essa é a mentalidade típica do mecanicismo. O cientista apresentado como uma espécie de robô, de homem metálico que abdica da parte fundamental de sua natureza humana para funcionar como diafragma de máquina fotográfica. Rhine não é assim nem deseja parecer assim. Como Einstein, tem a coragem de sentir febre diante das conclusões da sua pesquisa.

Em seu livro The Reach of the Mind, apresentando os resultados de mais de quinze anos de investigação, começa por colocar o que chama, com muita razão, “o problema central do homem”. Sua primeira frase é socrática: “Vós e eu, os seres humanos, o que somos?” E ele mesmo responde: “Ninguém o sabe”. A seguir exclama: “É quase incrível essa ignorância do conhecedor a respeito dele mesmo!” Sim, porque o homem é um conhecedor insaciável que estende a sua curiosidade em todas as direções, que tudo conquista e domina, menos a si mesmo. O que leva Rhine a advertir: “Os historiadores do século XXI ficarão assombrados ao constatarem que o homem demorou tanto em concentrar as suas investigações sobre o problema da sua própria essência”.

Mais assombrados ficarão ao se lembrarem de que Sócrates já proclamava a necessidade do conhecer-se a si mesmo antes do conhecer o mundo. A pesquisa científica de psi não pode, por isso, limitar-se à zona periférica das percepções. Deve aprofundar-se, como o faz Rhine, em termos de estrutura e essência. Inútil criticá-lo por isso. O processo de investigações psi, uma vez desencadeado, terá forçosamente de prosseguir até às suas últimas conseqüências. E as últimas conseqüências, tanto na prática científica quanto na cogitação filosófica, tanto na experiência quanto no pensamento – na ordem empírica e na racional – são sempre de sentido moral.

Rhine acentua este aspecto contraditório do nosso tempo: enquanto nas Faculdades de Teologia preparam-se jovens pregadores instruídos em velhos princípios de fé, nas Faculdades de Medicina, a poucos metros de distância das primeiras, formam-se jovens médicos instruídos nos princípios da descrença. E ambos, o sacerdote e o médico vão operar no meio social, muitas vezes encontrando-se aos pés do mesmo leito, cada um com sua verdade particular, oposta e irredutível à verdade do outro. O mesmo enfermo, entretanto, aceita e ajusta as duas verdades diante dos dois perigos que enfrenta: o da morte e o da sobrevivência.

A incapacidade da Ciência para provar que o homem é apenas corpo só encontra equivalente na incapacidade da Religião para provar que o homem é espírito. Nada mais justo que nessa situação de conflito insanável o Existencialismo sartreano nos proponha a moral da ambigüidade. Moral, aliás, que antes de sua formulação por Simone de Beauvoir já superava na prática os antigos padrões morais derruídos ao impacto das transformações sociais e culturais. Acusado de espiritualismo, no sentido de preconceito prejudicial à investigação científica, Rhine responde com a colocação das cartas na mesa. Literal e efetivamente é essa a sua atitude. As cartas e os dados sobre a mesa para que o problema seja solucionado nos termos da evidência cartesiana.

No final de The Reach of the Mind declara serenamente: “Se as futuras descobertas excluírem toda possibilidade de aceitação da hipótese da sobrevivência podemos antecipar, com segurança, que o desaparecimento das teorias de toda a espécie sobre a ressurreição não seria mais lamentável que o da existência dos antigos anjos alados, ou o da velha doutrina do enxofre entre os intelectuais das escolas teológicas de hoje”. As conseqüências morais que Rhine pretende tirar da investigação de psi não são de ordem espiritualista ou materialista, mas de ordem real ou verídica. O que importa não é a posição mental diante dos fatos, mas a realidade das comprovações. Porque tanto é prejudicial, do ponto de vista científico, o preconceito espiritualista quanto o materialista. Ambos, como assinala Ernst Cassirer, acabam por fazer os fatos empíricos deitarem no leito de Procusto das simples teorias.

A verdade, portanto, e não as suposições – a verdade que ressalte dos fatos – eis o que importa. E essa verdade, como o demonstra Rhine, já não admite contradições no estado atual das investigações parapsicológicas. Quando publicou o livro a que aludimos, as investigações ainda não haviam atingido o desenvolvimento de hoje. Mas assim mesmo Rhine podia afirmar que “as experiências de ESP e Pk demonstram que a mente está livre das leis físicas”. E acrescentava: “Estas investigações oferecem a única comprovação indiscutível que pode contribuir para a solução do problema da liberdade moral”.

A conclusão de Rhine é um anúncio dos novos tempos. É um programa do Reino, que renova em bases científicas o manifesto do Sermão da Montanha. A descoberta das funções psi e de seu alcance oferece bases experimentais para a formulação de uma nova moral. Não a moral ambígua destes tempos de incertezas e de contradições, mas a moral positiva dos tempos que já se abrem diante de nós, a moral apoiada no conhecimento da natureza extrafísica do homem. Uma coisa é a crença nessa natureza, outra coisa, e bem diversa, é a certeza científica. Como dizia Denis Bradley: “Afirmar eu creio não é o mesmo que afirmar eu sei”. Por isso psi se apresenta no quadro científico do nosso tempo como o resgate moral da Ciência e, portanto, da razão. A malsinada razão atinge em psi o momento de afirmar a sua vitória decisiva, superando a si mesma. Dessa vitória e dessa superação resulta a moral psi que, na precognição de Rhine, estruturará o novo mundo.

Muitos perguntam o que entendemos por uma razão que supera a si mesma. Basta olhar para a graduação do processo racional em nosso mundo para ter a resposta. Vamos da razão da ignorância à razão da astúcia (a chamada razão diabólica), até à razão do sábio. Mas acima desta existe a razão do sábio-santo, que é o verdadeiro sábio, a razão iluminada pela intuição e a fé.

Porque a razão é a experiência vital dinamizada no espírito em forma de categorias mentais. Essa experiência e suas categorias dinâmicas se elevam ao plano da intuição e com ela se fundem na visão global e endopática do todo. A razão que supera a si mesma é a que rompe os limites sensoriais e se eleva além do tempo e do espaço nas asas de psi.



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