Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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13.
Psi e o realismo


O estudo que procuramos fazer, no capítulo anterior, das relações de psi com a crença, levou-nos naturalmente a outro tipo de relações: as de psi como realismo. Não obstante a ambigüidade do termo, sua origem literária o tem definido ultimamente como uma posição existencial. O real aparece em nossa atitude diante do mundo como o aqui e o agora, o presente, e conseqüentemente o dado imediato ou o amanual de Heidegger. Assim, realismo é a nossa integração no real, a nossa vivência das coisas como elas são dadas ao nosso aqui e ao nosso agora, no espaço e no tempo. Humberto Mariotti, que já citamos várias vezes, ao colocar o problema das relações entre a Parapsicologia e o Materialismo Histórico, indica a necessidade de um “realismo espiritual”, que supere o “realismo marxista”. Este é o problema fundamental do momento e não pode ser resolvido apenas no campo religioso ou filosófico: terá de sê-lo no campo científico.

O materialismo marxista não é outra coisa senão uma atitude realista. Mas qual a realidade encarada pelo Marxismo? A realidade do dado imediato, mas um dado submetido à elaboração ideológica, um dado convertido em esquema. A realidade marxista é a da coisa no seu sentido existencial; a realidade linear de Zola ou o realismo do objeto, levado à tela pelo cinema italiano. A força desse realismo está precisamente no seu imediatismo. Contra ele ergue-se o idealismo religioso e filosófico – essa dupla forma de fuga para Passárgada – que só pode interessar aos que amam a ilusão e buscam a utopia, segundo afirmam os chamados espíritos positivos.

Mariotti encara o problema e adverte: “Se o realismo marxista não for superado por um realismo espiritual que o supere em tudo, a consciência materialista continuará a se impor, e vãos serão os protestos dos idealistas e religiosos. As realidades espirituais, se de fato existem, deverão ser expostas ao homem moderno com a mesma objetividade dos fenômenos físicos e sociais”. A esta posição de Mariotti só temos a opor uma objeção: a de que não podemos dividir a realidade e criar outra forma de realismo esquemático, a título de espiritualismo. Elaborar um “realismo espiritual” seria opor um esquema a outro, pura e simplesmente.

Ao provar, como afirma Rhine, a existência de um universo extrafísico, a Parapsicologia não nos oferece uma nova realidade mutilada, mas, pelo contrário, propõe-nos o restabelecimento da realidade total. No campo da Física e da Biologia abrem-se novas perspectivas para esse restabelecimento, com os progressos da Física Nuclear, o desenvolvimento da Biônica e da Cibernética. Mas, enquanto essas novas direções mergulham no imediato, perfurando sem querer o poço do futuro, emaranhadas na velha concepção materialista, a Parapsicologia, pelo contrário, rasga deliberada e corajosamente o véu conceptual do organocentrismo para mostrar o reverso da medalha. Com isso nos coloca num imediato de duas faces, oferecendo-nos um novo tipo de realismo com a inevitável polaridade físico-psíquica. É uma felicidade que na própria União Soviética o Professor Vassiliev, por exemplo, tenha preferido o estudo das funções psi ao exame das simples estruturas orgânicas da vida.

As relações de psi com o realismo foram evidenciadas quando tratamos do problema da origem das religiões. Do meio-realismo de Spencer vimos Bozzano partir para o realismo total de Lang e Freedom Long, distendendo as perspectivas teóricas do organicismo spenceriano na direção do extra-sensorial. Temos aí um exemplo claro do que psi pode oferecer-nos, no tocante à superação do realismo marxista. Embora essa superação esteja sendo feita, como já vimos, de maneira histórica e, portanto, irreversível, em todas as zonas ontológicas do objeto, pelas várias Ciências que alargam as suas possibilidades de investigação, somente a Parapsicologia realiza o avanço conceptual necessário.

Podemos dizer que de certa maneira a natureza analítica das Ciências continua fiel a si mesma nesta hora de transição cultural. As Ciências procedem por unidades, partindo da análise do átomo para a análise das moléculas e das células, nesse esmiuçamento típico da experimentação materialista, da investigação sensorial. A Física descobre o reverso do átomo; a Biologia, a contraparte da célula; a Química, a face oculta da molécula. Mas a Psicologia, ampliando-se nas áreas marginais da investigação parapsíquica, retorna inevitavelmente à sua natureza filosófica ao defrontar-se com a realidade de psi e constatar a impossibilidade de seccionar novamente o imediato. Essa exigência lógica de enfrentar o todo de maneira gestáltica faz da Parapsicologia uma espécie de Renascença Psicológica. Como acentua Rhine, a Psicologia volta ao seu objeto perdido – a alma – e o faz da mesma maneira por que o Quatrocento italiano voltou à cultura clássica, ou seja, procurando compreendê-la de novo em maior profundidade.

O realismo de psi não é nem pode ser apenas psi. Felizmente isso parece bem compreendido pelos principais parapsicólogos que não pretendem fazer das suas investigações o abre-te sésamo do conhecimento total, mas pretendem apenas conquistar o terreno esquecido, a terra de ninguém que se estende aos lados do nosso saber científico. O simples fato de considerar-se a Parapsicologia como disciplina complementar, de natureza efêmera, destinada a sondar as áreas paralelas ao campo da Psicologia, revela a sua humildade. A importância das pesquisas parapsíquicas não está na teoria ou no ato em si das pesquisas, mas nas conseqüências que delas advêm.

Opor, não ao realismo marxista, mas a este, ao positivismo, ao materialismo e ao existencialismo sartreano uma forma nova de realismo é a missão da Parapsicologia. Para tão grande feito não necessita ela de se transformar numa ciência autônoma, nem de gerar uma nova filosofia. Basta-lhe a glória humilde de provar, como o está fazendo, através dos próprios métodos de investigação do materialismo, a existência de outro componente da realidade, negligenciado pelo imediatismo. Quando essa tarefa estiver cumprida as pretensões atuais da Biônica e da Cibernética, que se desenvolvem nos rumos de uma concepção mecanicista da vida, tendente a fazer do homem uma espécie de robô cósmico, estarão frustradas naturalmente. Mas a contribuição de ambas para o aclaramento dos problemas científicos será tão importante, na medida dos respectivos limites, quanto a da Parapsicologia.

Ao integrar o realismo ou a concepção realista do mundo na sua totalidade, com a junção do psíquico ao físico, como duas faces de um mesmo rosto, psi terá aberto as portas de um novo mundo. O real não será mais o simples imediato e o objeto apresentará, na sua perspectiva ontológica, a dupla realidade de que se constitui. Psi nos dará o realismo total da conjugação espírito-matéria, essa polaridade universal a que o realismo imediatista do século procura fugir.

Porque é em vão que o homem se esquiva à realidade ontológica do seu próprio existir. A sua realidade não está na existência, mas no ser que gera e determina o existir. Heidegger, que considera o problema do ser como o único problema realmente filosófico, só tratou da existência como um meio de atingir a realidade ontológica e mergulhar na verdade ôntica. A pesquisa parapsicológica tem um procedimento heideggeriano: a finalidade do seu método quantitativo é a qualidade. Os signos das cartas Zener e os números dos dados de Rhine são instrumentos de manifestação do poder do espírito no plano material da pesquisa científica. A captação quantitativa desse poder, fragmentariamente manifestado nos processos de investigação, conduz ao realismo ontológico em que o conhecimento se integra na plenitude da realidade vivencial, constituída pela polaridade espírito-matéria.




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