Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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5.
Peg – O domínio do tempo


Os hipnotizadores conhecem a técnica de regressão da memória, pela qual podem fazer um sujet voltar no tempo até a vida intra-uterina. O fato de dizer-se regressão da memória provoca algumas confusões. Há pessoas que perguntam: Como lembrar a vida intra-uterina? Mas a regressão produzida pela hipnose não é apenas da memória: é também vivencial. O sujet regressa às condições de sua vida nos anos anteriores apresentando sintomas físicos dos males que sofria. A memória não está apenas no consciente. Temos um porão da memória, do qual podemos tirar mais segredos do que pensava o sagaz Dr. Freud.

Prova disso foi o que fez o Cel. Albert De Rochas, diretor do Instituto Politécnico de Paris, dedicado experimentador do hipnotismo. Certa vez, depois de haver levado um paciente até a vivência intra-uterina, resolveu mandá-lo para mais fundo no tempo. E o que aconteceu foi espantoso: o paciente se transformou numa personalidade diferente, que vivia na encarnação anterior! De Rochas não se atemorizou e fez centenas de experiências, conseguindo levar alguns sujets a três vidas passadas. Fez a comprovação de alguns casos possíveis e publicou um livro a respeito: Les Vies Successives.

Agora, nos Estados Unidos, um banqueiro hipnotizador repetiu a façanha. A paciente, regredindo no tempo, declarou chamar-se Bridey Murphy e ter vivido na Irlanda do século XVI. As pesquisas feitas confirmaram boa parte de suas declarações. Mas o que aconteceu com De Rochas tinha também de acontecer com Morey Bernstein, o hipnotizador que foi posto a ridículo por meio mundo. A Associação Médica Americana refutou oficialmente a experiência e desmoralizou-a. Jacques Bergier, na França, descobriu a fraude de Morey e o pôs em má situação. Entre outras coisas, aconselhou os leitores norte-americanos de Morey a lerem Charcot.

Acontece que Charcot, chegando um dia à Salpetrière, apresentou aos discípulos uma mulher histérica, de nome Alcina, e depois de hipnotizá-la mandou-a ao quadro-negro para escrever na língua que os presentes quisessem. Os Profs. Pannás, grego, e Matias Duval, membro da Academia, ditaram frases em grego antigo e moderno. Alcina escreveu-as sem vacilar. Então, Charcot disse que desejava evocar o espírito de Galeno, o famoso médico grego. E Galeno veio e escreveu em grego do seu tempo, em resposta a uma pergunta de Charcot:

O corpo humano ainda não chegou à sua perfeita conformação. Os sistemas da circulação e da enervação estão suficientemente unidos e relacionados no plano da economia, mas o sistema linfático sofrerá uma evolução de grande proveito, principalmente para a longevidade humana. Em alguns animais inferiores, de vida muito longa, poderiam fazer experiências probatórias desta assertiva.”

Diante disso, Charcot voltou-se para os presentes e disse: “Senhores, não queirais adiantar-vos à nossa época. Não procureis nenhum raciocínio que vos possa dar a explicação clara e verdadeira das nossas experiências. Contentai-vos com a observação experimental que acabais de presenciar”.

Esta pequena mas significativa história é contada por Frederico Vives, que freqüentou as sessões de Charcot. Reproduziu-a por extenso (pois ela é bem maior) Santiago Bossero, num estudo que publicou na Argentina sobre o problema das vidas sucessivas. Temos aqui, pelas mãos de Charcot, outra oportunidade de enfrentar o problema de domínio do tempo. Quem era essa pobre mulher idiotizada que Charcot mandava marchar de um lado para outro, segundo conta Vives, e que no entanto escrevia em grego antigo e moderno ou em outros idiomas clássicos? Voltava ela ao passado?

Alguém descobriria, por certo, uma fraude de Charcot, em conluio com a paciente. Porque há pessoas que só sabem ver fraudes e tolices por toda parte, reservando-se para si mesmas o duplo direito à honestidade e à esperteza. Uma espécie de dialética da impostura. Mas a verdade é que desde todos os tempos, fatos como esses ocorrem na Terra com idiotas e sábios, com santos e bandidos, com tímidos e sagazes. Porque fatos são fatos e não pedem licença para acontecer. Que fez com esses fatos a Parapsicologia? Negou-os, remeteu-os de novo ao porão do inconsciente, fichou-os no arquivo da estupidez humana?

Nada disso. A Parapsicologia, de início, nem tomou conhecimento deles. Era assunto para mais tarde. Os experimentadores desejavam lidar com coisas mais simples. A telepatia, por exemplo, que por sua aparente afinidade com o telégrafo sem fio era mais alegre e menos compromissada. Mas aconteceu que um dia a demonstração experimental de que a telepatia não era condicionada pelo espaço despertou o interesse pela sua relação com o tempo. Além disso, os desvios de percepção nos experimentos de ESP começaram a afetar os seus resultados. Carington foi obrigado a enfrentar o problema da percepção do futuro, porque nas suas experiências com desenhos vários percipientes captavam os desenhos ainda por fazer.

Peg ou precognição é o que se pode chamar um fenômeno atrevido que se infiltrou no trabalho dos experimentadores e obrigou-os a examiná-lo. Daí por diante muita coisa se modificou na Parapsicologia. Para começar, os conceitos vigentes sobre telepatia foram abalados. Mas, por outro lado, houve coisas agradáveis. O Professor Soal, por exemplo, que sempre teve de lutar muito para conseguir um pouco no terreno das pesquisas, havia concluído de maneira negativa o rigoroso exame de seus experimentos com 160 sujeitos, em que obtivera 128.350 respostas sem que pudesse ultrapassar a barreira do acaso. Um fracasso. Mas Carington o adverte quanto aos desvios e Soal resolve cuidar do problema, verificando que dois sensitivos, Mrs. Stewart e Mr. Shackleton, eram precognitivos.

O primeiro não pôde trabalhar com Soal, mas o segundo se colocou à sua disposição. As experiências se realizaram durante a guerra de 39-45. Um bom período para se cuidar do futuro, principalmente em Londres. Per sinal que Shackleton não era apenas precognitivo mas também retrocognitivo. Nos desvios examinados por Soal ele havia adivinhado ora a carta anterior, ora a posterior. Não acertava nunca no alvo, mas acertava muito mais do que isso. Atirando no que via, matava o que não via: o passado e o futuro. Um sensitivo deslocado no tempo e que por isso mesmo era mais valioso.

O ditado popular que usamos acima aplica-se bem a este caso, pois as experiências de Soal não eram feitas com as cartas Zener, mas com as suas próprias. Uma série zoológica. Soal havia se cansado de lidar com as figuras geométricas de Zener e criara as suas próprias figuras, utilizando animais. Os leitores por certo já conhecem este problema das cartas e dos dados, a menos que nunca se tenham interessado por Parapsicologia. Por isso, não tratamos deles até aqui. Mas agora somos obrigados a repetir o que se encontra em todos os livros de informação parapsicológica. E começaremos pelas cartas Zener, que foram as primeiras, hoje mais conhecidas por cartas ESP.

Foram inventadas pelo Dr. Zener, colaborador de Rhine, para substituir as cartas de baralho comum usadas nas experiências. Apenas cinco figuras em maços de 25 cartas, para facilitar o cálculo de probabilidades. Em cada maço o sensitivo tem a probabilidade de acertar cinco por acaso.

As figuras são estas:

E foram exatamente estas figuras que o Professor Marchesi captou em Zagreb quando os experimentadores as distribuíram na mesa de Laboratório de Duke. Projetadas através do oceano, essas figuras impressas em cartas de baralho agiram como projéteis mentais. No caso de Shackleton as cartas eram estas outras, de que não damos as figuras por dificuldades gráficas:


E – Elefante N.° de cartas: 5

G – Girafa Idem 5

P – Pelicano Idem 5

Z – Zebra Idem 5

L – Leão  Idem 5

Total do maço 25


Essas cartas são coloridas, pois Soal se enfastiara das figuras negras e geométricas de Zener, atirando ao mar os seus maços. Curioso: tudo é dramático nesse episódio, com um experimentador pouco feliz nos experimentos, mas rigoroso na elaboração das provas, na sua realização e na avaliação dos resultados. Dir-se-ia que a fleugma britânica de Soal chocou-se com aqueles cartões severos que lhe vinham precisamente da América turbulenta. Sua reação foi completa: jogar as cartas ao mar, escolher figuras de animais para as novas cartas e mandá-las fazer coloridas (reação à frieza geométrica e à severidade da cor negra). Talvez um fundo de fetichismo nessa substituição dos signos de Zener por animais dramáticos, tanto em si mesmos quanto na expressão dos desenhos (que deviam ser bem individualizados) e nas cores vivas.

O maior rigor possível com esse carnaval zoológico nas experiências realizadas. O Agente e Mrs. Goldney, que auxiliava no experimento, sentavam-se frente a frente numa sala e Shackleton e Soai noutra sala. Mrs. Goldney usava cartas numeradas e o Agente tinha diante de si, de costas sobre a mesa, cinco cartas dispostas por Soal e cuja ordem era desconhecida. Mrs. Goldney mostrava um número ao Agente, através de uma abertura especial, feita num velador que os isolava um do outro. O Agente pegava a carta correspondente, na ordem de disposição, ao número mostrado, olhava a carta e emitia a figura, colocando de novo a carta na mesa. Mrs. Goldney só falava para dar sinal ao percipiente na outra sala e pedir-lhe que anotasse a resposta. Ela ignorava completamente qual era a carta indicada pelo número que exibira ao Agente. O percipiente anotava com a simples inicial do animal a sua percepção. As iniciais diferenciadas têm a finalidade de facilitar a experiência e dar-lhe maior segurança.

Essas experiências deram resultados positivos, Shackleton havia agido de acordo com as suas curiosas faculdades, captando sempre as cartas anteriores ou posteriores à que lhe era transmitida. Mais tarde, Soal conseguiu realizar algumas experiências com Mrs. Stewart, sendo bem sucedido. Depois da guerra, Mrs. Stewart realizou novas experiências com Soal, que verificou esta coisa curiosa: ela havia perdido o dom de profecia. Não adivinhava mais a carta seguinte, mas a chamada carta 0, que corresponde ao presente, a carta objetivo. Com essas experiências Soal doutorou-se pela Universidade de Londres.

Shackleton era um homem de 36 anos quando procurou Soal para oferecer-se como sujet. Já conhecia as suas faculdades precognitivas desde os vinte e poucos anos, mas jamais fizera qualquer tipo de experiência científica. Usara algumas vezes as suas faculdades para objetivos práticos, sendo bem sucedido. Por exemplo: ganhar nas corridas de cavalos. Embora a faculdade não seja infalível, um sensitivo como Shackleton pode constituir verdadeira ameaça nesses casos. Outra particularidade desse sensitivo era captar de um golpe o caráter das pessoas que lhe eram apresentadas. Soal teve oportunidade de verificar a realidade dessa percepção.

O leitor há de estranhar, se não estiver habituado ao assunto, a desproporção entre a grandeza dos fatos de precognição relatados no início deste capítulo e a aparente insignificância desse jogo de adivinhação de cartas. Mas essa desproporção é a diferença de garantia. Por ela é que se pode aferir a existência ou não da faculdade. Milhares e milhares de experiências desse tipo, com métodos diversificados pelos vários experimentadores, levam à comprovação científica ou não da realidade dos fenômenos. No jogo de cartas de Shackleton estavam sendo julgados, perante a Ciência, todos os profetas do passado. A heresia científica não poupa sequer os profetas bíblicos.

Nossas referências à pouca sorte de Soal decorrem de uma curiosa situação vivida por ele. De 1934 a 1939 todas as suas experiências foram negativas. E isso no mesmo período em que Rhine obtinha os melhores resultados. Foi esse, certamente, um dos motivos da sua reação dramática à frieza geométrica das cartas Zener. Conta-se que Soal chegou a pensar que a América tinha melhores condições para as experiências de psi do que a Inglaterra. Certa vez teve a oportunidade de experimentar Mrs. Eileen Garret, que obtivera resultados notáveis em trabalhos com Rhine. Inútil experiência. Com Soal, as suas faculdades excelentes pareciam embotar-se.

Como se vê, a advertência de Carington quanto à possibilidade de acertos por desvios salvou-o do desânimo, ou pelo menos da decepção que havia sofrido. A revisão dos dados, provando a existência de resultados altamente significativos, deu-lhe estímulo para o prosseguimento das pesquisas. Este exemplo vale como explicação de muitos casos de abandono de pesquisas, particularmente na fase metapsíquica. Não foram poucos os cientistas, e entre eles o casal Curie, que abandonaram o trabalho por acharem difícil a obtenção de resultados satisfatórios. Acredita-se na existência de indivíduos negativos, diante dos quais os melhores sensitivos nada conseguem. É possível que existam, não por motivos misteriosos, mas por falta de conhecimento da maneira porque devem tratar os sensitivos, ou mesmo por falta de habilidade para esse tipo de experiências. O próprio Soal verificou e advertiu que as experiências devem realizar-se em ambiente de simpatia e cordialidade, evitando-se toda e qualquer forma de constrangimento para os sensitivos.

Não são os fatores materiais, mas os psíquicos, como acentuou Rhine no caso de Marchesi, os que prejudicam a ação do sensitivo. Na proporção em que as pesquisas forem se desenvolvendo e exigindo atividades mais complexas, fornecerão elementos para a revisão de muitas acusações de fraudes do passado. A experiência quantitativa tem os seus limites, como acentuou Ehrenwald, pois os fenômenos provados por ela devem e precisam submeter-se a investigações qualitativas. A complexidade desse novo tipo forçará o estudo mais aprofundado das questões de ambiente e de relações do sensitivo com os pesquisadores e de influência negativa dos métodos de coerção, aplicados intensamente no passado.

Os problemas implícitos na verificação de Peg e Reg (precognição e retrocognição) são numerosos, pois a constatação dessa possibilidade humana de dominar o tempo traz implicações filosóficas e religiosas. Embora a profecia tivesse existido sempre, a verdade é que ela foi encarada, no passado, com uma atitude teológica de aceitação reverente do fato como uma graça. A constatação científica do fato modifica por completo essa situação. Não se trata mais de uma graça, mas de uma faculdade humana, suscetível de experimentação e controle científico. Uma faculdade normal de que todos podem dispor, em menor ou maior grau, pois nós todos a usamos freqüentemente sem disso nos apercebermos.

Quantas vezes prevemos, com referência a nós próprios ou aos nossos amigos, acontecimentos e situações que realmente ocorrem anos mais tarde. Quantas vezes contrariamos as nossas intuições, descrendo de nossa precognição e nos saímos mal em negócios e empreendimentos vários. Nos afazeres diários da vida a precognição a curto prazo é uma constante da nossa percepção. Ela se entrosa de tal maneira na trama das percepções sensoriais que mal a distinguimos, a não ser quando se nos oferece uma ocorrência extraordinária. Manejamos um objeto, um aparelho de barbear, por exemplo, e percebemos que vamos dar um corte no rosto. Antes que possamos evitá-la, a ocorrência se verifica. Foi tão curto o lapso de tempo entre a percepção e a ocorrência, que em geral não notamos o fato precognitivo.

A teoria psicológica da imago pode servir de explicação para as antevisões pessoais. Carregamos conosco, em nosso inconsciente, a imagem dupla do que podemos ser. Essa dupla imagem tem uma face negativa que decorre de nossas tendências da mesma ordem, e uma face positiva pintada com as cores de nossas melhores aspirações. Se nos entregamos às más tendências, afrouxando a vontade, a face negativa da imago se impõe. É fácil percebermos, então, com grande antecedência, as situações amargas em que iremos cair. Se, pelo contrário, incentivamos as nossas boas tendências e empenhamos a vontade na sua realização, os fenômenos de precognição otimista não serão difíceis. Existem, nesses casos, implicações diversas como a da simples dedução. Mas a precognição não é de natureza dedutiva e geralmente contraria o desenvolvimento normal das coisas. Assim, mesmo quando a imago positiva parece estar em realização, podemos ser surpreendidos por uma precognição negativa. Nesse caso a virada da nossa imago pode começar por uma precognição.

Já no tocante aos objetos exteriores a explicação se complica muito mais. E essa complicação exige, muitas vezes, uma concepção estrutural do tempo, como a formulada por J. W. Dunne, em Experimento com o Tempo. A teoria da duração, de Henri Bergson, e do tempo como fracionamento daquela – sucessão de imagens fracionadas da duração, como as fotos de um filme em projeção – também pode auxiliar-nos. Se existe uma estrutura do tempo, que poderia ser o fluir da duração do conceito bergsoniano, é lícito supor que a mente possa percorrê-la, libertando-se do condicionamento existencial do aqui e do agora em que nos encontramos. E há algumas experiências curiosas a respeito. Hornell Hart, em The psychic fifth dimension, trabalho publicado na revista da Sociedade Americana de Pesquisas Psíquicas, em 1953 (páginas 3 a 32), propõe o estudo dos fenômenos de projeção consciente do eu para solução do problema da supervivência do homem. São esses os momentos excepcionais da libertação existencial, que geralmente implicam fenômenos de percepção sincrônica do tempo.

Exemplo curioso nos é dado pelo recente livro do médico Andrija Puharich, O Cogumelo Sagrado, a que nos referimos atrás. Conta o autor que, a 13 de dezembro de 1954, após três dias de intensa atividade física, sem dormir ou descansar, recolheu-se ao seu quarto e atirou-se à cama sem trocar a roupa. O cansaço era enorme e logo adormeceu. Mas, tão logo o fez, viu-se a si mesmo como um espírito liberto do corpo, flutuando no espaço. Via o próprio corpo na cama, sem lhe dar maior importância. Pensou então que poderia visitar alguém nesse estado de libertação. Logo se dirigiu à casa da Sra. Garret, em New York, e depois saiu à procura da Sra. Alice Bouverie, que encontrou na ampla sala de uma casa estranha, que não conhecia. Quis fixar alguma coisa do ambiente, para verificação posterior, se possível. O brocado doirado das paredes já lhe havia chamado a atenção e nele fixou-se. A seguir sentiu que precisava voltar com urgência ao seu quarto, no Estado de Maryland, e acordou com as pancadas de sua filha na porta.

Puharich verificou, depois, a exatidão do que vira na casa da Sra. Garret e nessa estranha visita à Sra. Bouverie. A casa desconhecida era da mãe da Sra. Bouverie e a sala fora perfeitamente descrita, mas as paredes eram forradas de branco. Não obstante, quarenta anos atrás, os brocados das paredes tinham o doirado excitante que o médico vira no seu desprendimento. Mencionamos este episódio por ser recente, ocorrido com um médico-eletrônico e pesquisador parapsicológico. Mas há numerosas ocorrências semelhantes nos anais da pesquisa psíquica. O tempo percebido se mistura com fragmentos do passado ou do futuro, à semelhança do sincretismo bizarro de certos sonhos.

No caso, o Dr. Puharich estava diante de cenas reais do momento de seu desprendimento, numa sala real e atual, mas cujas paredes lhe mostravam o aspecto de quarenta anos passados. Haveria algum motivo particular, nas preferências do médico, para que a sua percepção estrutural do tempo – naquele recorte da estrutura que era a sala no presente – fizesse a fase anterior ressaltar nas paredes com o doirado que tanto o interessou? Seria um caso de percepção seletiva? A mente poderia, assim, selecionar os componentes da estrutura do tempo? E não estaria esse fenômeno ligado aos da seleção mnemônica, já bem estudados no caso da memória?

Todas essas perguntas revelam a complexidade dos problemas levantados pela Pesquisa parapsicológica. Neste caso particular do Dr. Puharich, com a projeção do eu (por ele mesmo posta em dúvida apesar de toda a evidência do fenômeno) o detalhe da cobertura da parede suscita ainda outra questão curiosa. Não haveria, na percepção extra-sensorial, um princípio de pregnância semelhante ao da gestalt ou psicologia da forma? A cobertura física atual das paredes era de pano branco. Mas por baixo dela estava a cobertura anterior, doirada, como uma espécie de resíduo físico. Esse resíduo, que pertence ao passado, ressaltaria no conjunto da percepção como uma forma pregnante. Mas parece evidente que a pregnância, no caso, não seria da forma e sim das condições psíquicas da percepção, ou seja, das disposições psíquicas do percipiente. Isso explicaria muitas incongruências da vidência, tomadas quase sempre como fatores negativos. E confirmaria a referência de Rhine ao condicionamento psíquico e não físico do percipiente.

Alguns expositores de Parapsicologia pretendem estabelecer limites para a precognição e retrocognição. Alegam que há uma diferença fundamental entre os profetas e os percipientes atuais, pois aqueles viam a longo prazo, e estes unicamente a curto ou a curtíssimo prazo. É uma maneira ingênua de tratar o problema, pois não seria possível fazermos experiências científicas atuais, com resultados imediatos, jogando com séculos ou milênios. Não se conhece nenhum limite para essa forma de psi. Os limites arbitrários não são fixados apenas por ingenuidade, mas também pelo interesse sectário. Os expositores que seguem a linha tomista de Amadou, fazendo distinção, também arbitrária, entre o psiquismo e o espírito, querem salvar assim as suas posições religiosas, esquecidos de que a investigação científica já invadiu o domínio religioso por muitas outras brechas.

O que a investigação parapsicológica vem demonstrando não atenta contra a religião e a crença na sobrevivência espiritual do homem, mas também não endossa as posições dogmáticas do sectarismo religioso. Os espiritualistas não dogmáticos nada têm a temer. Muito pelo contrário, só têm de se rejubilar com o avanço de um tipo de pesquisa que invade o campo do espírito, reajustando a concepção espiritual do homem à mentalidade científica.

Os fenômenos de precognição e retrocognição lembram uma afirmação enfática de Krishnamurti: “Nem o tempo nem o espaço existem para o homem que conhece o eterno”. Em termos bergsonianos, para escaparmos à idéia estática de eternidade, poderíamos substituir a expressão o eterno por esta outra: a duração. Aldous Huxley, profundamente místico, estabelece também uma divisão entre o campo do paranormal e o da mística, à maneira de Amadou. Todos esses intentos são justificáveis. Mas parece evidente que se o homem é espírito, e como tal se projeta, não apenas na existência, mas na duração, as suas funções psíquicas são espirituais. Podemos estabelecer, sem dúvida, uma diferença de graus entre vários tipos dessa percepção, mas não estabelecer uma dicotomia de natureza teológica, que só serviria para criar maiores confusões no momento em que nos esforçamos para clarear o caminho.

O tempo é uma estrutura conceptual e de natureza relativa, como queria Einstein, relacionando-o com a ação dos campos gravitacionais. Concebemos o tempo segundo a intensidade do campo em que nos encontramos. Assim, fora da Terra estamos fora do tempo terreno e podemos entrar na órbita de outra forma de tempo, mais acelerado ou mais lento que o nosso. Lá ou aqui, onde o homem estiver, Peg é o seu instrumento de domínio do tempo. Graças às suas funções psi ele pode andar na estrutura do tempo e percorrer o seu império em todos os sentidos. Basta pensarmos um pouco nessa possibilidade para compreendermos o profundo interesse, mesmo do ponto de vista prático, das pesquisas parapsicológicas sobre os fenômenos de precognição e retrocognição.

É bom não esquecer que as pesquisas físicas e as experiências astronáuticas já alteraram, por sua vez, a concepção clássica do tempo, não só na Ciência como no próprio senso comum. Quanto mais avançam essas pesquisas, mais o homem atual se aproxima de uma nova compreensão do tempo e mais fácil se torna a explicação dos fenômenos parapsíquicos de percepção do passado e do futuro.

Estamos num mundo de novas dimensões. Um mundo que cresce em todos os sentidos, desde o demográfico até o conceptual. O avanço das Ciências e das Técnicas revoluciona profundamente o campo geral do Conhecimento. Seria inútil opor sofismas lógicos à realidade experimental do domínio do tempo pela mente. Os fatos são fatos.




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