Herculano Pires Parapsicologia Hoje e Amanhã



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8.
MecMergulho no passado


Tudo quanto escrevemos nos capítulos anteriores a respeito da progressão irresistível das pesquisas paranormais confirma-se neste capítulo. Fomos obrigados a acrescentá-lo a esta nova edição, não apenas para atualizá-la no campo da informação, mas também para sancionar as previsões formuladas no tocante ao avanço das pesquisas. Podemos dizer, ainda, que este capítulo prova a exatidão da segunda parte do volume, que tantos estudiosos demasiado sistemáticos, e sobretudo opiniáticos, haviam considerado como temerária. As perspectivas da Parapsicologia, que desdobramos ali, tornaram-se realidade, em grande parte, muito mais cedo do que esperávamos.

Mec é a sigla de memória extracerebral, o mais recente fenômeno a entrar no campo das pesquisas de psi. Com ele, esse campo de pesquisas se amplia de súbito, rompendo a aparente estagnação em que parecia haver caído. E assinale-se a contradição: representando um mergulho no passado, Mec é, na verdade, um salto no futuro. A colocação científica do problema de Mec, simultaneamente na URSS e nos EUA, por cientistas de reconhecida capacidade e probidade, valeu por um rompimento inesperado das barreiras do preconceito que impediam o avanço das pesquisas e chegavam mesmo a ameaçar a Parapsicologia com a repetição da aparente derrota infligida pelos adversários à Metapsíquica. Podemos agora dizer que esse perigo foi afastado, exorcizado pela audácia dos pesquisadores modernos.

A expressão memória extracerebral surgiu simultaneamente com outras, como: paramemórias e reencarnações sugestivas. É evidente a superioridade teórica da primeira designação, que se emparelha perfeitamente com ESP (percepção extra-sensorial) e ao mesmo tempo rejeita a suspeição de causas puramente sugestivas, que torna anticientífica a última designação. Por sinal que esta última surgiu na Rússia, onde é evidente o interesse ideológico de contestação do significado do fenômeno. Quanto à expressão paramemórias, que também se ajusta à nomenclatura parapsicológica, perde entretanto para Mec no tocante às exigências de clareza e precisão.



Memória extracerebral é um tipo de memória que não pode estar no cérebro, pois este pertence à existência atual do indivíduo, surgiu com o seu corpo, nesta vida, como a tábula rasa dos empiristas – disco virgem para as primeiras gravações sensoriais – enquanto a referida memória corresponde a uma possível existência anterior. De onde vem ela? Esse o problema essencial a ser resolvido pelas pesquisas. Era muito fácil e cômodo, até há pouco tempo, resolvê-lo com um simples dar de ombros, negando a sua existência. Mas agora, com as provas científicas da sua realidade, só resta a evasiva simplória da sugestão ou a escapadela provisória pelas vias da percepção extra-sensorial. Essas duas vias de escape, entretanto, já se encontram bloqueadas pelas conseqüências teóricas e as evidências práticas das pesquisas.

Podemos dividir em três campos, no momento, a área de pesquisas de Mec. De um lado temos o campo ocidental constituído pelos investigadores norte-americanos e europeus; de outro o campo oriental constituído pelos pesquisadores indianos e asiáticos; e por fim o campo soviético, onde se destaca a figura do Professor Wladimir Raikov, da Universidade de Moscou. As pesquisas realizadas no Brasil pelo Eng. Hernani Guimarães Andrade e outros pesquisadores, bem como as da Argentina, enquadram-se naturalmente no campo ocidental.

O pioneiro das investigações no meio universitário, ao que parece, foi o Professor Dr. Hamendras Nat Banerjee, da Universidade de Jaipur, província de Rajastan, na Índia. Desde 1954, segundo ele mesmo nos informou em entrevista pessoal, suas pesquisas vêm aprofundando a questão de maneira sistemática e rigorosa. Vários livros em que apresenta o resultado de seus trabalhos foram editados em inglês pela própria Universidade. Seu fichário de casos excede ao de qualquer outro pesquisador, indo além de um milheiro. Apesar disso, as suas conclusões não são tão positivas como as do Professor Dr. Ian Stevenson, da Universidade de Virgínia, EUA, que parece agir com mais desenvoltura. O Dr. Banerjee dá-nos a impressão de um homem que sofre das restrições naturais determinadas pela sua condição de indiano. Sua posição científica é mais ou menos afetada pelo preconceito ocidental que sempre envolve as figuras da Índia numa auréola mística. Reagindo contra isso, Banerjee se mostra demasiado cauteloso, embora nem sempre consiga manter essa cautela. Stevenson está livre dessa coação e age de maneira mais decisiva.

O pioneirismo de Banerjee, porém, restringe-se à atualidade. Antes dele temos de assinalar a presença vanguardeira do Cel. e Professor Albert De Rochas, Diretor do Instituto Politécnico de Paris, que em 1924 já lançava o seu livro As Vidas Sucessivas, pelos Editores Chacorcan Freres, e o Dr. J. Björkem, que em 1943 publicava em Estocolmo o seu livro Hypnotiska Hallucinationerna, pela Editora Litteraturforlaget. Na Inglaterra, embora não estritamente em plano universitário, o livro This Egyptian Miracle, do Dr. F. H. Wood, despertou grande interesse, relatando o caso de Rosemary, médium espontânea que falava o egípcio faraônico, revelando recordações de uma vida longínqua. Outro livro inglês, recente, e que enquadra o autor nas pesquisas atuais, é o do Dr. Alexander Canon, médico da corte, intitulado Reencarnação e Psiquiatria.

Albert De Rochas foi o pioneiro das pesquisas hipnóticas sobre a reencarnação. Sua técnica é hoje desenvolvida pelo Dr. Raikov, na Universidade de Moscou, favorecendo a posição do pesquisador em face do materialismo oficial da URSS. Daí a expressão reencarnações sugestivas por ele utilizada inicialmente. Mas Banerjee e Stevenson seguem outro método, preferindo o exame dos casos espontâneos de lembranças de vidas anteriores reveladas por crianças. Segundo esses dois cientistas, os casos espontâneos têm a vantagem da naturalidade, enquanto o processo de regressão da memória pela hipnose é artificial e o mais sujeito à suspeita de fabulações inconscientes pelo paciente. Os dois métodos, porém, vão se revelando aos poucos como processos complementares, servindo alternadamente para a comprovação científica da realidade das vidas sucessivas.

Em suas conferências e entrevistas em São Paulo o Dr. Banerjee colocou-se numa posição cautelosa, mas instado por um entrevistador de televisão, no Canal 4, chegou a sustentar a tese da prova da sobrevivência espiritual do homem através da pesquisa sobre a memória extracerebral. O Dr. Stevenson, em seu livro 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, no qual figuram dois casos observados no Brasil, admite que as pesquisas já romperam os limites da simples sugestão, atingindo a evidência, Isto mostra o quanto se avançou no campo da Parapsicologia nestes últimos anos. Mas como poderiam os cientistas chegar à comprovação científica, e portanto irrefutável, de um caso de reencarnação através das manifestações espontâneas ou provocadas da memória extracerebral? É o que procuraremos esclarecer a seguir.

O método seguido por De Rochas é ainda o empregado pelos cientistas atuais, mas aperfeiçoado; com exceção, naturalmente, de Raikov, que não se preocupa com a verificação da realidade da reencarnação, mas apenas com o problema em si, estritamente psicológico, da memória extracerebral. Raikov, na linha pavloviana da psicologia soviética, pretende explicar o fenômeno em termos biológicos. Mas tanto Banerjee como Stevenson, e os demais cientistas que os acompanham nesse campo de pesquisas, seguem as trilhas de De Rochas: verificação objetiva das lembranças nos locais e meios social e familiar em que teria vivido a personalidade anterior, que agora aparece como reencarnada. Essa verificação, dando resultados positivos, é tanto mais significativa quanto menos as pessoas atuais, em cujo meio vive o reencarnado, tiverem informações sobre os fatos lembrados. Ou seja: quanto mais estranhos sejam para os familiares atuais do reencarnado os locais, as pessoas e os costumes de sua existência anterior.

A esse método de verificação acrescentaram-se técnicas modernas de comparação tipológica, tanto de natureza psicológica como biofisiológica. Banerjee e Stevenson servem-se de fichas tipológicas comparativas. Isso é possível nos casos de reencarnações recentes, particularmente em meios sociais afins, por exemplo: no mesmo país, na mesma família ou em famílias interligadas por relações de amizade. É possível também no caso de personalidades que deixaram marcas na tradição local ou na História, tornando-se impossível em casos de reencarnações que implicam distâncias maiores de tempo entre a vida anterior e a atual, porque então escasseiam ou desaparecem totalmente os dados da tipologia anterior. De qualquer maneira, essa técnica de comparação tipológica, quando bem aplicada, proporciona elementos valiosos de evidência.

Stevenson, seguindo tentativas feitas no passado por Sir Oliver Lodge e atualmente por C. J. Ducasse, dá grande importância aos padrões culturais, que podem ser confrontados, entre as duas personalidades, mesmo quando colocada a segunda (a do reencarnado) em situação cultural e social diferente da situação do passado. Nos padrões de comportamento, Stevenson dá grande valor às manifestações claras, precisas, de habilidades que o reencarnado não pode ter obtido na vida presente e que o identificam com a personalidade anterior. Nos padrões físicos, corporais, destacam-se os sinais de nascimento e as deformações que podem identificar, ao menos em princípio, a personalidade atual com a personalidade anterior. Em vários casos há também um elemento ponderável a ser considerado: o aviso de reencarnação, que poderíamos chamar de anunciação, em virtude dos casos clássicos de anunciações de nascimento nas várias religiões. Lembre-se a anunciação do anjo a Maria, a anunciação do nascimento de João e assim por diante. As anunciações, naturalmente mais modestas, feitas no âmbito familiar, têm inegável significação quando o fato se realiza e as suas circunstâncias confirmam a previsão.

Todo esse processo de verificação dos casos de reencarnação não exclui a multiplicidade de teorias explicativas do fenômeno de memória extracerebral. Mas, como em todos os campos da Ciência, e particularmente no setor especifico das Ciências Psicológicas, a verificação depende da capacidade e habilidade do investigador, pois o processo é complexo, implicando numerosos fatores sutis (porque psíquicos) e exigindo elevado grau de bom-senso, de conhecimento dos problemas em causa e de capacidade de discernimento. Como assinala Stevenson, é preciso discernir, por exemplo, entre casos de possessão e de reencarnação. Os casos de possessão pertencem ao capítulo da mediunidade. Uma criatura atual é “possuída” pelo espírito de outra, que se manifesta nela como personalidade alternante. O interessante neste caso é a aceitação científica, e já agora pacífica, dos casos de manifestações mediúnicas. A evidência dos casos de reencarnação supera a fase das discussões teóricas sobre a questão da sobrevivência espiritual e da comunicabilidade dos mortos. Stevenson confunde, em certos casos, a possessão mediúnica com a reencarnação propriamente dita, o que prova que ele não é espírita.

Façamos justiça a Allan Kardec e ao Espiritismo, reconhecendo sua prioridade no campo das investigações científicas sobre a reencarnação. A Revista Espírita (coleção do tempo de Kardec), hoje editada em português, é um valioso repositório de fatos e uma eloqüente demonstração do esforço de Kardec no campo da pesquisa psíquica, para provar a reencarnação. E os métodos hoje postos em prática pelos cientistas têm as suas raízes mais profundas no Espiritismo. Ao contrário do que dizem as pessoas mal informadas ou mal intencionadas, Kardec não tirou o princípio da reencarnação das doutrinas da Índia. O princípio espírita da reencarnação originou-se das manifestações dos espíritos e confirmou-se nas pesquisas. O próprio Richet, no Tratado de Metapsíquica, reconhece que Kardec jamais aceitou um princípio que não fosse confirmado pela experiência, pela investigação de tipo científico. Até mesmo a questão das fichas tipológicas atuais já teve o seu precedente n'O Livro dos Espíritos. O meio ali indicado para saber-se o que se foi no passado é o exame das tendências atuais. Essas tendências, vocações e habilidades, revelam no presente as conquistas efetuadas no passado pelo espírito.

Kardec se considerava um druida reencarnado. O mesmo aconteceu com Léon Denis, continuador de Kardec, a quem Conan Doyle chamou um druida da Lorena, em cuja província ele havia nascido. Kardec publicou na revista um curioso estudo sobre os celtas e sua religião, o Druidismo. Léon Denis desenvolveu esse estudo num livro dos mais belos e mais curiosos: O Gênio Céltico e o Mundo Invisível. Mas ambos, Kardec e Denis, não acreditavam apenas que eram druidas reencarnados na França, território da antiga Gália de Vercingetórix. Eles sabiam que o eram. E sabiam porque? porque haviam constatado as suas tendências, a orientação cultural (o problema dos padrões de cultura) que já traziam em seus espíritos ao nascer, a sua predisposição para o reerguimento dos princípios druídicos (reencarnação, comunicação mediúnica, existência dos vários planos espirituais, lei de causa e efeito, conceito de Deus e lei de evolução) através do Espiritismo.

As provas da reencarnação no Espiritismo abrangem todos os elementos considerados pelas pesquisas científicas atuais. São considerados elementos probantes os seguintes: lembranças de vidas passadas, sinais físicos reproduzidos no reencarnado, anunciação mediúnica de renascimento (comprovada por sinais ou semelhanças temperamentais e tipológicas), súbito reconhecimento pelo reencarnado de locais em que vivera e de pessoas com as quais convivera (sempre que seguidos de comprovações objetivas), simpatias ou antipatias acentuadas e sem motivos imediatos entre pessoas (excluídos os casos de simples atração ou repulsão fluídica por motivos de disposições temperamentais ou psíquicas). Como se vê, a posição espírita, rejeitada pelas Ciências, é a mesma por elas adotada na atualidade. Há profundas diferenças entre as leis da reencarnação no Espiritismo e nas antigas religiões da Índia e de outros povos, bem como na posição dos espíritas ante o problema e a posição dos indianos, por sinal bem ressaltada pelo Dr. Stevenson em seu livro acima citado. A concepção espírita da reencarnação se liga, de um lado, à do Cristianismo primitivo, e de outro lado à concepção druídica, segundo acentuaram Kardec e Denis.

A concepção cristã da reencarnação encontra-se nos próprios Evangelhos e alguns dos Pais da Igreja, como Orígenes, São Clemente de Alexandria e São Gregório de Nazienza. A concepção celta se encontra nas tríades druídicas, exposição da doutrina em estrofes de três versos, largamente estudadas pelos especialistas ingleses, franceses, escoceses e outros. Kardec apresenta essas duas concepções confluindo na Doutrina Espírita, e dialeticamente se fundindo na síntese superior da concepção espírita, o que as investigações científicas estão agora comprovando e referendando. Como se sabe, o princípio da reencarnação vem de épocas imemoriais. Desenvolveu-se amplamente nas civilizações antigas, como a do Egito, as da Mesopotâmia, da Índia e da China. As tradições religiosas de Israel a registram com o nome de ressurreição e os judeus atuais, estudiosos de sua religião, não podem negá-la. Mas o Cristianismo herdou essa tradição e aprimorou-a, apesar de tê-la suprimido (bem como à pneumatologia ou manifestação mediúnica) para vê-la renascer nos tempos modernos através do Espiritismo, que Kardec apresentou como uma forma de Renascimento Cristão.

As concepções da reencarnação variaram através dos tempos e dos povos, desde a forma retroativa da Metempsicose egípcia, que Pitágoras adotou, até às formas confusas da ressurreição judaica e cristã (João Batista era Elias, Jesus um dos profetas antigos e ensinava que é preciso nascer de novo, da carne e do espírito – ou da água e do espírito, o que dá na mesma, pois a água era símbolo do elemento material para os antigos). Essas variações não militam contra, mas a favor do princípio da reencarnação, como realidade interpretada diversamente por diversas culturas. O que a Ciência faz agora com Mec (memória extracerebral) é o que já fez com vários outros problemas religiosos e terá de fazer com outros no futuro: racionaliza-os, integrando-os na cultura contemporânea através da pesquisa e da comprovação. O sobrenatural dá lugar ao natural. A lei da reencarnação deixa de ser um princípio abstrato e passa para o plano da realidade concreta (ou pelo menos verificável) à semelhança das leis físicas e matemáticas. Assim, o estudo e a pesquisa de Mec representam, sem dúvida, uma das mais recentes conquistas da atualidade no campo do Conhecimento, reintegrando esse campo na sua unidade perdida e reintegrando o espírito no quadro das realidades científicas do século.

A falta de pesquisas intensivas sobre a reencarnação, no Brasil e em toda a América de língua castelhana, decorre principalmente da falta de recursos financeiros e de pessoal habilitado. Nos Estados Unidos, como se vê pelos trabalhos ali publicados – e um dos atestados disso é o livro de Ian Stevenson – os pesquisadores são financiados por indivíduos ou instituições que lhes permitem a tranqüilidade, as condições e o tempo necessários. Por outro lado, as condições culturais e a preparação universitária dos pesquisadores facilita a habilitação para esse campo específico e difícil de estudos e investigações. Em nossos países latino-americanos escasseiam recursos, condições e preparação.

Stevenson observou em seu livro que as condições psicológicas no Brasil são mais favoráveis do que na própria Índia, onde uma tradição espiritualista de tipo arcaico, fundamentada em pressupostos místicos e eivada de superstições, dificulta o aparecimento dos casos e mais ainda a sua pesquisa. As condições psicológicas do Brasil decorrem de sua formação cultural, na qual Stevenson destaca duas correntes importantes de contribuição, provenientes de fontes e camadas estruturalmente diversas. A primeira é a corrente africana, folclórica, representada pelas religiões primitivas trazidas até nós pelo tráfico negreiro. É a corrente do Sincretismo Religioso Afro-Brasileiro, da mistura de religiões e crenças do continente negro com o Catolicismo e as crenças indígenas de nossa terra. A segunda é a corrente filosófica francesa, que chegou bem mais tarde, somente em fins do século passado, com o Espiritismo e, portanto, com as obras de Allan Kardec. Entre esses dois extremos da estrutura cultural – o Folclore africano e a Filosofia francesa (esta particularmente em suas conseqüências religiosas) – há porém a vasta área de reação da cultura acadêmica européia, de tipo materialista, que levanta uma barreira de preconceitos contra as pesquisas parapsicológicas.

Há inegavelmente um complexo de inferioridade cultural em toda a América Latina, que não lhe permite o arejamento e a desenvoltura com que norte-americanos e europeus enfrentam o momento de transição em que nos encontramos no mundo. A evolução cultural do nosso tempo já superou, e com muita rapidez, a fase de materialismo defensivo que marcou fortemente a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. As próprias conquistas da Física abriram novas perspectivas para um renascimento espiritualista mundial. Mas os meios intelectuais – e particularmente os universitários – no Brasil e demais países do continente, não conseguiram ainda vencer a sua repugnância instintiva pelos problemas espirituais. Permanecem fechados na casca de tatu do materialismo superado, convencidos de encontrarem-se ainda na trincheira da verdade contra a superstição, sem perceberem que a guerra já acabou e a anistia ampla se faz em todo o mundo. Encastelado assim numa posição retrógrada, o nosso intelectualismo acadêmico se vê acuado, principalmente no Brasil, pelas avalanchas de hordas bárbaras que aumentam sem cessar, tanto no campo da corrente africana quanto no da corrente francesa. Essa teimosia o levará fatalmente a uma derrocada semelhante à do Império Romano, mas enquanto não se der a queda da orgulhosa Roma Imperial a pesquisa de Mec entre nós prosseguirá em ritmo de catacumba, à luz de archotes. Esse aspecto trágico da situação cultural brasileira escapou naturalmente à observação de Stevenson.

Os casos de reencarnação no Brasil, conhecidos particularmente no meio espírita, são numerosos. Mas o interesse existente nesse e em outros meios culturais afins é esterilizado pela indiferença e pela reação dos meios universitários. Essa reação, num país de pouco desenvolvimento cultural, exerce poderosa influência, levando as próprias famílias em que ocorrem os casos de reencarnação a uma curiosa posição de ambivalência: de um lado, elas se orgulham da ocorrência, que as torna objeto de interesse especial dos meios espiritualistas; de outro lado elas se esquivam e disfarçam a situação, com o receio de serem consideradas pelos intelectuais como redutos de superstições, e também com o receio (por sinal muito humano e muito de acordo com o sentimentalismo brasileiro) de exporem os seus parentes reencarnados ao ridículo e lhes criarem situações embaraçosas no futuro. Isso particularmente nos casos de reencarnação com mudança de sexo. Mas apesar disso os ventos do mar largo, que sopram de todos os quadrantes do mundo, e o desenvolvimento cultural acelerado dos últimos anos nos levam a esperar, talvez para mais breve do que se pensa, uma mudança favorável dessa situação opaca para a transparência necessária.

Não é fácil fazer um levantamento geral dos pesquisadores atuais da reencarnação em todo o mundo. Por toda a parte eles se multiplicam sem cessar. Basta correr os olhos em algumas publicações especializadas da Europa e da América, particularmente o Journal of Parapsychology, para se ver a abundância de estudos publicados a respeito. Mas o livro de Ian Stevenson, 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, oferece-nos, já nos agradecimentos do autor aos que com ele colaboraram, uma lista impressionante de figuras exponenciais das Ciências contemporâneas. Na abertura de um ciclo de conferências na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo, o Dr. Banerjee declarou que pôde verificar pessoalmente a existência, na Rússia, de duzentos cientistas empenhados na investigação da memória extracerebral. Banerjee tem estado com certa freqüência nos Estados Unidos, na URSS e no Canadá, três países em que essas pesquisas se processam com mais intensidade.

Ian Stevenson é diretor do Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, EUA. Entre os cientistas atuais citados no seu livro podemos destacar os seguintes: Dr. Karlis Osis, eminente Parapsicólogo norte-americano; Dr. Robert Laid-law, Psicólogo e Diretor do Hospital Roosevelt, de New York; Professor C. J. Ducasse, da American Society for Psychical Research; Professor Gardner Murphy, famoso Psicólogo norte-americano; Dr. J. G. Pratt, do grupo de parapsicólogos da Universidade de Duke, EUA; Professor P. Pal, do Itachuna College de Bengala Ocidental; Professor B. L. Atreya, da Universidade Hindu de Benares; Dr. Jamuna Prasad, Diretor do Gabinete de Psicologia do Ministério da Educação da Índia; Dr. William A. Coates, da Universidade do Ceilão e atualmente na Universidade de Rochester, EUA; Dr. Ananda Maitreya, da Universidade de Vidalankara, Índia; Dra. Louise Rhine, esposa e companheira de pesquisas do Dr. Joseph Banks Rhine, Duke University, EUA.

Mec pertence ao campo de psigama no quadro de classificação dos fenômenos paranormais. Sua própria natureza o inclui nesse campo, pois tratando-se de memória não tem nenhuma forma de manifestação exterior. Não obstante, como todos os fenômenos parapsicológicos, suas provas são sempre objetivas. Só podemos saber se estamos diante de Mec ou de uma fabulação inconsciente pelo confronto das lembranças do paciente com a realidade histórica e social.



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