Herculano Pires Pesquisa sobre o Amor



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Herculano Pires
Pesquisa sobre o Amor

William Holman Hunt - O pastor galante

Conteúdo resumido
“Pesquisa sobre o Amor” é uma síntese da visão humanística e filosófica de Herculano sobre a sociedade, e em especial o relacionamento afetivo entre o homem e a mulher.

No livro, Herculano demonstra que a sexualidade é a concretização do poder criador do homem e da mulher, na conjugação afetiva dos elementos biológicos, sob a regência do Amor. E acrescenta: “O sexo é o instrumento dessa realização genética que exige do casal humano a doação total dos poderes espirituais e corporais nele concentrados, no ato da criação”.

Com sua visão de filósofo espírita, o autor penetra em terreno de extrema atualidade para decifrar a paixão, a atração sexual, os seus equívocos e construções, a solidão, o romantismo, a juventude e a velhice. Por fim, Herculano demonstra que para conhecermos o amor divino devemos partir do amor humano, pois este último está ao alcance da nossa percepção.
Sumário



I
O Despertar da Existência 3

II
A Busca do Outro 11

III
O Charco do Amor 21

IV
Amor e Convivência 31

V
As Metades Biológicas 39

VI
Amor e Sexualidade 47

VII
Amor e Realidade 55

VIII
O Amor Romântico 63

IX
Amor e Desejo 70

X
A Mulher no Amor 76

XI
O Amor da Era Cósmica 82




I
O Despertar da Existência


O amor é o clarim que convoca o ser para a existência. É o toque de caixa que o arranca do mistério do não-ser. Um casal se encontra e se funde no ato do amor, dois corpos vibram no mesmo diapasão, o poder criador convulsiona as entranhas conjugadas na busca da plenitude impossível, desencadeiam-se as forças genéticas e a fecundação se processa no ritmo das células germinais. O fruto do amor se define na caverna platônica como o número primeiro dos pitagóricos, solitário no inefável. O estremecimento erótico gera a década de um novo cosmos. Deus nasce na gruta escura da contradição dialética de espírito e matéria. Quem perturbar ou interromper esse processo divino de uma nova gênese será um deicida. A cólera dos elementos se desencadeará sobre ele, porque um novo ser se projetou na existência e ninguém em parte alguma e em nenhuma circunstância, tem o direito de profanar a intimidade secreta em que a vida brota do ser, em busca do amor.

A solidão do não-ser se rompe quando o Ser Supremo e Absoluto pronuncia o fiat do relativo. Nasce então, primeiro a relatividade, em que o Absoluto se parte em pedaços e migalhas, como o pão; depois a temporalidade, em que a experiência desenvolve os trigais do futuro; e, por fim, a existencialidade, em que o ser relativo se projeta na conquista da reascendência, que é o amor em essência, na atualização das potencialidades possíveis. Nessa fusão do ser, do tempo e do amor a se projetar na existência, como um bólide que romperá a barreira da morte para lançar-se no infinito atemporal.

Essa não é uma parábola mística, nem uma cogitação filosófica ou o resultado de uma análise científica, mas a intuição total da realidade ôntica em suas perspectivas ontológicas e existenciais. O não-ser não é uma negação, mas uma cripto-hipótese do Inefável pitagórico que se realiza na mônada, essa semente do real-irreal, que, no existencial gera as almas-viajoras do Plotino, povoando as hipóstases da estrutura cósmica imóvel com a inquietação, as angústias e o sentimento da fragilidade existencial. A metamorfose é a lei suprema que rege o império de todo o esquema da infinitude inefável. A única chave de que o ser dispõe (como homem, anjo e deus) para mergulhar no mistério genésico é o Amor, que ele perde na existência, arrebatado no delírio das paixões, e só pode recuperar na transcendência. O ser que se imanencia no real-irreal cai no onjeto, que só a angústia, o desespero e a dor podem quebrar para libertá-lo de si mesmo.

Aceitar a imanência e apegar-se a ela é uma tendência natural do ser na existência. Ele cai na rotina e se faz estagnação. Marginaliza-se como água parada ao lado do fluxo existencial. Acomoda-se ao ritmo das coisas, dos objetos e das convenções, que são objetos sócio-culturais. Embora a cultura seja necessariamente um fluxo, sua relação genética com a sociedade tende sempre a diminuir a sua flexibilidade. Essa diminuição pode resultar em estagnação total, como se vê na história das grandes culturas orientais e particularmente no exemplo da China Antiga. Todo ser – tudo o que é – tende a conservar-se como é. Esse instinto de conservação tanto existe nos objetos concretos como nos abstratos. A dualidade universal nos mostra que o existente (o homem) apega-se mais ao sensível do que ao inteligível. É mais dominado pela afetividade às sensações do que pelo raciocínio. As sensações o retêm imantado ao plano genético, impedindo a sua entrega ao fluxo da evolução cultural e do desenvolvimento mental. As energias vitais preponderam nele sobre as energias intelectuais. Ele pensa, aspira e sonha, mas, principalmente, se acomoda à rotina, da qual somente se afasta quando forçado. Essa disposição acomodatícia cresce e engorda nas relações familiais, sociais e nos compromissos profissionais. Daí a necessidade de períodos duros, de situações problemáticas, de sofrimento e dor para arrancá-lo da rotina. O ser projetado na existência encontra a festa do mundo e a ela se entrega, mas a própria existência dispõe de recursos para fazê-lo sentir que é um ser dotado de consciência, deveres e responsabilidade. O apego ilusório às coisas e à rotina fazem parte de um processo disciplinar. A festa do mundo exige pagamento de entrada e permanência, exerce vigilância sobre ele e seu comportamento.

Logo na infância a sua afetividade se desenvolve em direções várias e ele sente a ameaça da solidão e a necessidade de buscar alguém. O instinto de imitação desperta-lhe o desejo de encontrar o parceiro ou a parceira da vida, como vê no modelo geral dos casais. Sua inocência aparente o impele a sonhos de convivência misteriosa com alguém que o espera numa esquina do mundo. Por baixo da inexperiência infantil fermentam os resíduos de um passado desconhecido, agitam-se os vetores de energias maduras e tensas, de mecanismos psicobiológicos prontos a aflorar no processo de maturação. Na fase infantil dos tateios, da curiosidade, das perguntas e dos espantos, a inteireza do ser aguarda o momento de impor a sua realidade à realidade do mundo.

Repete-se em cada nascimento, em cada penetração de um ser na existência, o episódio do Cavalo de Tróia. Ante a muralha do existencial os seres inexistentes vigiam como os guerreiros gregos, protegidos por seus deuses. Um não-ser ingênuo e puro, impotente e abandonado, é deixado ante a porta-fortaleza. Os troianos, os que vivem e existem na realidade plena, por trás da muralha, encantam-se com a doçura e a fragilidade daquela criança exposta aos perigos, abrem a porta e a recolhem, embalando-a em seus braços poderosos, sem dar ouvidos às profecias de Cassandra. Mas no interior da criança estão ocultos os conquistadores experientes. A existência, essa Tróia cercada de muralhas no planalto da vida, vai ser conquistada ferozmente pelos instintos de conquista e domínio que explodirão no anoitecer. Cada não-ser busca a sua Helena raptada, a sua contrafação que o completará no plano existencial. Não há guerra gratuita, batalha sem objetivo. Cada ser lançado na existência é, ao mesmo tempo, um vetor energético e uma busca emocional de realização humana. Muito antes de o primeiro eclodir da virilidade na puberdade a marca do amor definia o não-ser como o conquistador da existência.



Para os que estão por trás da muralha, na realidade troiana, a imobilidade e a beleza escultural do Cavalo de Tróia representam apenas a ingenuidade infantil dos sonhadores gregos. Mas cada um deles, ao romper a muralha existencial, está armado com os poderes de Eros. Basta se acomodarem na existência para se firmarem nela, para logo se atirarem na batalha do amor, não para destruir, mas para conquistar. A destruição que causarem decorrerá da resistência que lhes opuserem, mas cada destruição exterior corresponderá a uma conquista interior. A existência é o mundo do existente e ao mesmo tempo a rota da sua projeção ao alvo que ele terá fatalmente de atingir: o Amor. Por isso ele se empenhará na luta da conquista existencial em treinamento constante, não para combater os outros seres e conquistar as suas posses, mas para conquistar a si mesmo e descobrir em si, no seu próprio interior, as jazidas auríferas das quais extrairá o tesouro de suas potencialidades convertidas na atualização de si mesmo. Por isso dizem os filósofos existenciais que a existência é subjetividade pura. O mundo existencial não é o mundo material em que o ser realiza a sua façanha grega. Esse mundo é apenas o palco eventual da sua batalha íntima, aquele point d’optique romântico da expressão de Victor Hugo, ali, por trás das máscaras e em meio das cortinas em que ele representa o seu papel, centralizando em aparatos convencionais toda a riqueza e diversidade das dores e inquietações dos homens. A conquista da vida não pertence a ele, mas àquele poder que, segundo Hegel, se desdobra na História e para Bergson é o elâ vital que se infiltra na matéria e a domina, gerando as espécies vivas e plasmando as suas formas, os seus instrumentos de ação exterior. O homem é o ser de si mesmo, a alma, a personalidade, o eu oculto que só se revela no processo de relação. Mas arrasta consigo o ser do corpo, de que trata Kardec, esse estranho Sancho, escudeiro, escudeiro do Quixote nas lutas contra os moinhos de vento. Mas Sancho não é o não-ser ou a sombra do ser, como querem alguns pensadores, pois tem o seu próprio ser e exerce a função de vigilante e crítico do cavaleiro audaz. Ambos avançam, como Davi, ao encontro dos gigantes de um só olho, não pelos gigantes mas por Dulcinéia. Abater os gigantes, que são deformações da realidade, é função do Cavaleiro que o pajem não consegue compreender. Rocinante obedece ao Quixote como o ser do corpo obedece ao ser espiritual, mas Sancho é o crítico da razão comum, do bom senso burguês que não pode entender as ações heróicas do cavaleiro por sua Dama. A visão esquizofrênica do Quixote abrange a supra-realidade dos símbolos dos mitos, mas a visão normal de Sancho, condicionada pelo nível prático da vida no burgo, não alcança além das aparências materiais. Por isso, o ser verdadeiro, aquele que é em si por si, limita-se a utilizar Sancho como utiliza Rocinante em suas investidas contra as deformações do homem, a começar de si mesmo, para que o mundo de Dulcinéia se torne adequado à sua beleza e à finura do seu espírito. A natureza dramática do homem, que Unamuno acentuou, decorre dessas contradições internas da sua posição existencial. Descartes já havia observado a necessidade de prevenir-nos contra a confusão habitual da alma com o corpo. Dessa confusão resulta o abastardamento do amor, reduzido a simples exigência biológica e em conseqüência e logo mais atirado entre os subprodutos sensoriais. O amor assim amesquinhado e aviltado vinga-se do homem nivelando-o com os animais e rebaixando-o a eles, que têm pelo menos a desculpa da inconsciência.

Richet, o fisiologista, depois de suas numerosas e bem sucedidas pesquisas metapsíquicas, chegou à conclusão de que a finalidade da vida humana se reduz à reprodução e, portanto, à manutenção da espécie. Uma conclusão tipicamente fisiológica, apegada à visão exclusiva das funções animais. Mas, já no fim de sua existência, reformulou o seu injusto veredicto, admitindo, como escreveu a Bozzano na Itália e a Cairbar Schutel no Brasil, que os fenômenos metapsíquicos provam a natureza espiritual do homem e que mors janua vitae, ou seja: a morte é a porta da vida. A famosa proposição posterior de Hideggard, de que o homem se completa na morte, referendou a afirmação de Richet. O homem é o existente, o ser enquanto projetado na existência. Seu trajeto existencial vai da concepção do ventre materno até o momento final da morte. Admitir a inocuidade desse trajeto, como simples círculo vicioso de gerações incessantemente destinadas ao aniquilamento é reduzir o ser à nadificação sartreana, mas o nada, como Kant demonstrou, não passa de um conceito vazio, uma palavra que podemos considerar como simples emissão de sons sem sentido. Sua única justificativa está na sua natureza relativa rés, da Coisa em si e do Todo, do conjunto da realidade universal que é plenitude. A natureza estrutural do Universo, hoje definitivamente provada pelas Ciências, dá mais razão a Talles de Mileto, para quem o mundo é pleno de deuses, do que a todos os pregoeiros do nada. Todos os sofismas levantados contra a visão teológica da realidade caíram no absurdo ante as conquistas científicas deste meio século. O Universo é uma estrutura de forças que se sustenta e desenvolve no jogo incessante dos seus poderes em equilíbrio perpétuo. As concepções escatológicas esbarram na impossibilidade total, absoluta, de sua comprovação. Os deuses de Talles podem ser substituídos pelas leis naturais, pois a mitologia do seu tempo nada mais era que a visão antropomórfica da realidade. Mesmo assim, os pensadores mais penetrantes e coerentes não podem dispensar a presença de uma inteligência atuante na ordenação e manutenção da realidade. Para os homens da era mitológica, essa inteligência era múltipla e gerou o politeísmo. Para os homens da era da razão a fonte inteligente dessa unidade absoluta, da natureza monística da realidade universal, só pode ser uma, concentrando seus poderes múltiplos na figura de uma consciência cósmica, que é o Tao dos antigos chineses, o Zeus grego cercado de auxiliares anteomórficos mas soberano em suas decisões, o Marduc persa que dividia e organizava o caos na estruturação de suas leis ou o Deus Único do Judaísmo e do Cristianismo. O Ateísmo é hoje uma posição falsa do pensamento que só se justifica pela rebelião necessária e justa do passado contra a concepção antropomórfica de Deus pelas religiões da violência. Mas essa justificativa se aplica ao passado e não às condições culturais da atualidade.

Se há complexa organização cósmica, como negar-lhe a condição afetiva que gera o Amor com uma finalidade superior e o condiciona aos instrumentos da reprodução genésica para que os seres não se percam nos delírios da sensualidade, mas valorizem a si mesmos como necessários e significativos na ordem estrutural do Universo?

Se o pensamento filosófico atual, a partir das pesquisas teológicas de Kierkegaard, desenvolvendo-se na cogitação ontológica de Hideggard e tropeçando nas contradições de Sartre, para depois se firmar no transcendentalismo de Jaspers, confirma-se no avanço das Ciências e coloca-se numa posição irremovível ante a realidade do ser, é evidente que o problema do amor se desloca do romantismo para o campo do racionalismo. É através da razão que podemos captar a natureza real do sentimento e descobrir a sua significação profunda, o seu verdadeiro sentido nas relações existenciais.

Simone de Beauvoir confessa que ao ler Sartre teve de arrastar-se por longos subterrâneos escuros e asfixiantes até encontrar a alvorada de uma conclusão libertadora. É difícil pensarmos numa alvorada ante uma conclusão nadificadora. Mas o nada sartreano se desfaz ante a sua posição humanista, o seu amor pela Humanidade. O filósofo do Nada nega-se a si mesmo e tripudia sobre a sua doutrina negativa ao encontrar pelo menos uma suposição de vitória do homem sobre a sociedade, da liberdade sobre a tirania. Este é um exemplo da história do pensamento atual que demonstra a importância do amor nos descaminhos da existência. Amor e liberdade constituem a bandeira de Sartre e são a única senha que lhe dá passagem à posteridade. Seu mergulho na essência do ser levou-o à angústia da frustração total e absoluta. Mas o seu amor pelos homens o salva, levando-o à conclusão que ele não buscou, mas que a própria existência lhe ofereceu num gesto generoso – a de que toda frustração do pensamento se converte em compensação quando mantemos acesa no coração a lâmpada do amor.

Fala-se muito no amor em termos convencionais. A expressão italiana fazer amor propagou-se no mundo e contaminou as novas gerações. É uma expressão de baixeza repugnante, porque reduz o sentido do amor ao ato sexual e ao comércio aviltante do ser como no mercado das sensações carnais. Em recente pesquisa no Rio a maioria dos jovens universitários declarou não ver nenhuma distinção entre amor e sexo. Chegamos ao máximo no aviltamento da criatura humana e essa situação vexatória só pode ser combatida com recursos culturais que afugentem as trevas da ignorância dos nossos meios universitários. Trata-se de um problema puramente cultural.




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