Herculano Pires Revisão do Cristianismo



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J. Herculano Pires

Revisão do Cristianismo



Frederic Church

Aurora Boreal



Conteúdo resumido


Nesta obra Herculano nos oferece uma visão histórica do fenômeno cristão e de suas dimensões espirituais, com base nas pesquisas universitárias de suas origens e do seu desenvolvimento na era mitológica.

É um livro de estudo e não de polêmica. Propõe a revisão total do cristianismo atual como exigência irrevogável da Era cósmica em que estamos entrando.

Além disso, o autor procura reintegrar a figura de Jesus de Nazaré na sua verdadeira condição humana, demonstrando que ele era um homem real e não representa um agregado de mitos e símbolos, que figura na linha dos profetas de Israel. Esclarece, ainda, que Jesus não previu nem desejou a Igreja Cristã, que ele não foi um fundador de religião, nem mesmo um reformador religioso.

Sumário


Introdução 4

1
A Descoberta do Cristo 5

2
A Mitologia Cristã 9

3
A Herança Mágica 18

4
A Revelação 27

5
O Culto Cristão 37

6
O Olimpo Cristão 44

7
Cristo e o Mundo 53

8
A Desfiguração do Cristo 64

9
Os Mandatários de Deus 72

10
A Existência de Jesus 80

11
A Razão do Mito 92

12
O Mito da Razão 99

13
Matéria, Mito e Antimatéria 111





Introdução


um abismo entre o Cristo e o Cristianismo, tão grande quanto o abismo existente entre Jesus de Nazaré, filho de José e Maria, nascido em Nazaré, na Galiléia, e Jesus Cristo, nascido da Constelação da Virgem, na Cidade do Rei Davi em Belém da Judéia, segundo o mito hebraico do Messias. Por isso a Civilização Cristã, nascida em sangue e em sangue alimentada, não possui o Espírito de Jesus, mas o corpo mitológico do Cristo, morto e exangue. Por isso o Padre Alta estabeleceu, em Paris, a diferença entre o Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários. Não podemos condenar o processo histórico, que brotou, rude e impulsivo, das condições humanas de civilizações agrárias e pastoris, mas não é justo que o conservemos em nosso tempo de abertura para novas dimensões da realidade humana e da realidade cósmica.

O Mahatma Gandi exclamou, ao ler os Evangelhos: “Como pôde uma árvore como esta dar os frutos que conhecemos?” Kalil Gibran Kalil viu Jesus de Nazaré encontrar-se com o Jesus dos Cristãos numa colina do Líbano, onde conversaram, e Jesus de Nazaré retirar-se murmurando: “Não podemos nos entender.” Melanchton assustou-se com a depuração da Reforma e perguntou a Lutero: “Se tiras tudo dos Cristãos, o que lhes pretendes dar?” Lutero respondeu: “Cristo.” As atuais Teologias da Morte de Deus, nascidas da loucura de Nietsche, provam a razão de Lutero. A Nova Teologia do Padre Teilhard de Chardian oferece-nos os rumos da renovação. E o Papa João XXIII, um camponês que voltou ao campo, tentou limpar a seara. É tempo de compreendermos que Jesus de Nazaré não voltou das nuvens de Betânia, mas em espírito e verdade, para conduzir-nos a toda a Verdade Prometida.



O Autor

1
A Descoberta do Cristo


Na Galiléia dos Gentios, sob o domínio romano de Israel, as esperanças judaicas do Messias cumpriram-se de maneira estranha e decepcionante. Nasceu o menino Jesus em Nazaré, na extrema pobreza da casa de um carpinteiro, próximo à Decápolis impura, as dez cidades gregas que maculavam a pureza sagrada da terra que Iavé cedera ao seu povo. Era penoso para os judeus aceitarem esse desígnio do Senhor, que mais uma vez lhes impunha terrível humilhação. José, o carpinteiro, casara-se com uma jovem de família pobre e obscura, com pretensas ligações à linhagem de Davi. Jesus devia nascer em Belém de Judá, a Cidade do Rei cantor, poeta e aventureiro. E devia chamar-se Emmanuel segundo as profecias. Iavé certamente castigava os judeus pela infidelidade do seu povo, que deixara a águia romana pousar no Monte Sião. Toda a heróica tradição de Israel se afogava na traição à aliança divina da raça pura, do povo eleito, com o poder impuro de César.

A decepção dos judeus aumentava ante a desairosa situação social de José, velho e alquebrado artesão, casado com uma jovem que já lhe dera vários filhos. Jesus não gozava sequer das prerrogativas de primogênito. Herodes, o Grande, que se contentara, no ajuste com os romanos, a dominar apenas a Galiléia e além disso construíra o seu palácio sobre a temível impureza das terras de um cemitério, tremeu ante esse novo desafio aos brios da raça e condenou os que aceitavam esse nascimento espúrio como sendo o do Messias de Israel. Era necessário, para sua própria segurança, desfazer esse engano. O menino intruso devia ser sacrificado, e para isso bastava recorrer às alegorias bíblicas e espalhar a lenda da matança dos inocentes. Nos tempos mitológicos em que se encontravam era comum tomar-se a Nuvem por Juno. Mas o menino, que nascera de maneira incomum, filho de família pobre (e por isso suspeita), cresceu revelando inteligência excepcional que provocava a admiração do povo. Submetido à sabatina ritual dos rabinos do Templo de Jerusalém, para receber a bênção da virilidade, assombrara os doutores da Lei com o seu conhecimento precoce. Mas esse brilho fugaz era insuficiente para lhe garantir a fama messiânica. Logo mais ele se mostrava integrado na família humilde à condição inferior e aprendendo com o velho pai a profissão a que se dedicaria. Não obstante, para prevenção de dificuldades futuras, as raposas herodianas incumbiram-se de propalar a lenda da violação da honra conjugal de Maria pelo legionário Pantera. Com esse golpe decisivo, o perigo messiânico ficava definitivamente anulado.

Não seria possível que o povo aceitasse a qualificação messiânica para um bastardo.

Defendido pela humilhação da sua posição social e pelas próprias confusões que teciam a seu respeito, Jesus crescia e se preparava na obscuridade, para o cumprimento da sua missão. Quando se sentiu integrado na cultura hebraica, senhor das escrituras e das tradições da raça, iniciou as suas atividades públicas. Sua própria família então se revoltou contra o perigoso atrevimento daquele jovem delirante. Sua mãe e seus irmãos, como relatam os Evangelhos, tentaram fazê-lo voltar para casa e a oficina rústica do pai. Foi então que seu primo, João, o Batista, que já antecipara o seu trabalho messiânico, preparou-lhe as veredas da sua semeadura revolucionária. Na própria Galiléia, Jesus encontrou os seus primeiros discípulos. Homens humildes, mas cheios de fé, de esperança, dispuseram-se a segui-lo. Era difícil lutar com aqueles voluntários de uma causa cujo alcance não podiam compreender. Mas eram eles os companheiros e servidores com que podia contar. Suas atitudes claras e enérgicas, seus princípios racionais, desprovidos das superstições rituais da tradição, assustavam e muitas vezes aturdiam aquelas almas sedentas de luz e de prodígios messiânicos. Sua popularidade cresceu rapidamente no seio de um povo que sofria com o jugo romano, a infiltração constante e irreprimível dos costumes pagãos nas classes dominantes, sob a complacência covarde de um rabinato embriagado pelos interesses imediatistas. Renasceram então as antigas lendas a seu respeito. Os que o aceitavam, levados pelas aspirações messiânicas, propalavam estórias absurdas sobre a sua infância e adolescência obscuras, com o entusiasmo fanático da ignorância do clima mitológico da época. Os que a ele se opunham, atrelados ao carro dos interesses romanos e dos seus aliados judeus, ressuscitavam as lendas do seu nascimento vergonhoso e das suas relações secretas com Satanás e com ordens ocultistas mágicas, como a dos Essênios, geralmente temidas pelas atrocidades que praticavam em seus redutos indevassáveis.

A figura humana de Jesus de Nazaré, o jovem reformador do Judaísmo, que pregava o amor e a fraternidade entre os homens, ia rapidamente se transfigurando num mito contraditório, ora de semblante celeste e atitudes meigas, ora de rosto irado e chicote em punho. Os discípulos procuravam enquadrá-lo nas profecias bíblicas, certos da sua condição messiânica. A mentalidade mítica, profundamente diversa da mentalidade racional que ele encarnava, naquela fase de transição histórica e cultural, aceitava mais facilmente a profecia como realidade dos próprios fatos reais. O sentido de suas palavras, e até mesmo das expressões alegóricas, de que às vezes se servia, para se fazer mais compreensível, eram entendidas de maneiras diversas, segundo a capacidade de compreensão de certos indivíduos ou grupos. Esse é um processo de deformação bastante comum nos tempos de ignorância e que hoje se repete nos meios e regiões ainda não atingidos pelo progresso. Os fenômenos de fanatismo religioso e misticismo popular, ainda em nossos dias, revelam a mecânica emocional dessas estranhas e não raro bárbaras metamorfoses da interpretação popular de ensinos racionais e de fatos comuns transformados em acontecimentos misteriosos. Por exemplo: quando Jesus se comparava lucidamente ao cordeiro dos sacrifícios rituais no Templo, pois sabia que pagaria com sangue a sua audácia, os ouvintes entendiam que ele afirmava o poder mágico e redentor do seu sangue. Quando o Batista aludia ao símbolo de pureza da pomba branca, que descia sobre os que se batizavam, os ouvintes extasiados tinham a visão mental da pomba pairando sobre a cabeça do Messias. Mais tarde, na elaboração tardia dos textos evangélicos, em tempos e lugares diferentes, com os dados fornecidos pelas logias (anotações de apóstolos e discípulos) ou mesmo de informações orais deturpadas pelo tempo, transfiguradas pelo sentimento de veneração que crescera através dos anos, os elementos míticos se infiltravam no relato, amoldando a realidade distante às condições mitológicas da época.

Assim se forjou, naturalmente, no processo sócio-cultural submetido às condições da evolução histórica, a Nova Mitologia do Cristianismo, em que o próprio mito bíblico do Messias judeu foi coberto pela máscara grega do mito de Cristo. Os discípulos gregos de Jesus, por força da própria predominância da cultura grega sobre a hebraica, deram a Jesus um nome grego que ele jamais tivera, e que passaria a designar no futuro a sua doutrina. A redação dos Evangelhos em grego sancionaria esse processo, que se firmaria definitivamente na elaboração posterior da teologia cristã. A assimilação das doutrinas de Platão, por Santo Agostinho, e de Aristóteles por São Tomás de Aquino, dariam a última demão no edifício grego do Cristianismo. O Evangelho de João, último a ser escrito, adotando de início o mito grego do Verbo, herdado da cultura egípcia, é uma das provas mais flagrantes dessa helenização do Cristianismo.

Os estudos e as pesquisas de tipo universitário, independentes da Igreja, desde Renan a Guignebert, paralelamente com as pesquisas e estudos espíritas, promoveram em nosso tempo, a partir de meados do Século 19, a revisão universal do Cristianismo. Renan e Kardec iniciaram essa revisão na mesma época, na segunda metade do século passado, tendo Kardec uma precedência de dez anos e pouco sobre Renan no trato do assunto. Em “Obras Póstumas”, de Kardec, os espíritos avisam este que o livro de Renan o ajudará na difícil tarefa de restabelecer a verdade sobre o Cristianismo.



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