Historiografia Republicana



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História. Uma História

- História e Historiografia. Um inventário do Brasil: 1958-2008 – uma perspectiva-


Introdução
Escrevo para os interessados em História. Para esses eu os convido a acompanhar-me nessas reflexões. Aqui evitarei as citações senão as que forem absolutamente necessárias, porque o objetivo dessas linhas é discorrer sobre a História e seu significado, sem o peso da erudição, – até porque o autor não seria a melhor fonte para esse intento – e o formalismo dos trabalhos acadêmicos. A essas linhas acrescento alguns comentários de leituras que influíram em minha formação e na de outros de minha geração, além de fatos e situações vividas aqui evocadas para que o leitor se situe ao tempo dessa trajetória. E ainda incluo como apêndice trabalhos redigidos ao longo de minhas atividades docentes, mais como registro de reflexões decorrentes de uma atividade intelectual formadora de minhas convicções filosóficas, teóricas e historiográficas.

Os mais de quarenta anos de magistério me possibilitaram compreender o quanto é tortuoso desenvolver idéias sobre um fenômeno que nos é tão intensamente experimentado. Minha primeira convicção de que o estudo da História me era não apenas interessante mas necessário ocorreu quando estudante. Foi quando participei do Programa Nacional de Alfabetização, antes Plano, desenvolvido que fora pelo educador Paulo Freire sob os auspícios da administração municipal de Natal (RGN) do prefeitro Djama Maranhão, e que contou com o concurso do também educador Moacir de Góes. Naquela capital nordestina foi implantado o projeto bem sucedido intitulado “De pé no chão se aprende a ler”, alfabetizando em poucas horas centenas e centenas de analfabetos e pondo-os em condições de votar e, com isso, influir nos destinos políticos da região e depois do país, quando o presidente João Goulart nomeou ministro Paulo de Tarso, a quem coube transformar aquela experiência num plano de âmbito nacional. Com Paulo Freire aprendi que o conhecimento da realidade auscultando os seus membros é muito mais importante do que toda e qualquer erudição. O povo produz sua história e qualquer intervenção visando elevar a sua condição de vida passa necessariamente pela apreensão de sua vida, seus anseios e necessidades, vocabulário e tudo quanto possa fornecer dados substantivos para a ação social e política. Nascia naquele momento a perspectiva da História que tanto acalentava mas não sabia exprimir. Em anexo se encontra um breve relato dessa experiência ilustrada por depoimentos de contemporâneos, alguns mencionados e outros anônimos.

A História é vida, já dizia o historiador José Honório Rodrigues. Foi, aliás, através de seus textos que intensifiquei meus estudos sobre essa matéria prima do conhecimento. Antes de deparar-me com esse historiador brasileiro enveredei por leituras dos considerados clássicos da historiografia ocidental, a começar, evidentemente, por Marc Bloch. Lia-o, confesso hoje, mais por ter sido um combatente da resistência francesa do que por seus méritos de historiador. Foi de seu singelo texto sobre O Que é História, lido em duas oportunidades, que me dei conta da interferência do momento no processo de apreensão de uma obra. No primeiro momento eu o li como um texto introdutório ao conhecimento histórico. No segundo eu o li na cadeia. Na realidade li um outro livro que me chamara atenção na primeira leitura desaparecera nesta segunda, cuja dimensão do texto enveredou para outros aspectos não percebidos na leitura anterior. Posso dizer que na primeira li o texto, na segunda o autor e personagem daquele trabalho1.

Sem o saber estava naquele momento convidativo à reflexão, não obstante as circunstâncias adversas, tomando ciência do significado mesmo da História em nossas vidas, pois a leitura se encontrava condicionada a situação de vida de quem se submete à interação com o outro, não importa se essa interação aconteça mediada por uma escrita redigida por alguém que não mais exista senão através de suas idéias. Assim, no instante em que terminei a segunda leitura do pequeno livro de Bloch pude me aperceber que não estava apenas tomando contato com uma disciplina a ensinar-me o que era a História, mas com a própria História. Era ao mesmo tempo um leitor e um protagonista de um determinado momento histórico a determinar-me o modo de recepcionar aquele escrito em face das condições em que se dera o seu contato com ele.

Talvez por isso, a História como aprendizado de vida sempre me fascinou mais do que a História como inventário de feitos e fatos. O acontecer despertava mais do que o acontecido, o que me inclinaria mais tarde a me voltar para os estudos e pesquisas na área da História Política. Por outro lado, a sentença segundo a qual toda História é Política, da mesma forma que toda ação política se integra a um circuito necessariamente político, fez-me crer tratar-se de uma escolha talhada para combinar minha inserção como cidadão e minha inclusão no rol dos aprendizes de historiador, pretensão esta que alimentei pela primeira vez ainda nas salas de aula do ensino secundário. Nelas só me interessavam as aulas de História, nem sempre bem desenvolvidas pelos meus professores, segundo minhas avaliações super rigorosas, se comparadas as de seus colegas.

Com o tempo passei a ter uma noção do que é ser um historiador, ou mais propriamente, um profissional de História, dado que a pergunta recorrente, que sempre me fizeram os alunos me deixava aflito para dar de pronto uma resposta que fosse ao mesmo tempo satisfatória a mim e aos meus interlocutores. Penso que três faculdades são necessárias para que se forme um historiador. São elas: a erudição, no sentido de um conjunto de informações sistematizadas e bem organizadas; a pesquisa e sobretudo o gosto de compulsar documentos; e, finalmente, a capacidade interpretativa, sem a qual pouco valem as duas primeiras condições. Pude desenvolver essa assertiva em aulas de Introdução à História e de Metodologia Histórica nos cursos ministrados na PUC/RJ, na USU e na UGF, em cujos departamentos atuei como professor dessas disciplinas. Assim, não basta ter uma teoria ou uma visão de mundo se a elas não estiverem reunidas esses elementos que chamo de faculdades. Todos dependem exclusivamente do exercício profissional na incessante busca de um aprendizado contínuo.

A História como ciência do movimento, numa feliz definição de Pierre Vilar, eis o sentido que me pareceu mais próximo da visão que me arrebatara para os estudos históricos. Não só porque o movimento traduz a sucessão de eventos a marcarem o processo histórico, como também se aplicam as igualmente sucessivas avaliações e reavaliações produzidas pela Historiografia. Nada, portanto, é estático, sobretudo em razão de o passado não comportar a idéia de alguma coisa sem vida, amorfa. Dessa maneira, aquele conceito muito difundido acriticamente segundo o qual a História é a ciência do passado (sic) constante em alguns manuais tradicionais de História não resista a mais sóbria das argumentações. A própria relação entre ciência e passado não explicava convenientemente o significado deste e tampouco acrescentava alguma coisa para a noção de ciência, cujo emprego parecia ter o papel de argumento de autoridade. Era ciência e portanto era autoexplicativa e pronto.

O encontro com uma dimensão científica no trato da História surgiu em minha vida intelectual através de duas leituras de divulgação das leituras clássicas do marxismo, as de Leo Huberman2 e a de Adam Schaff3, que mobilizaram o meu interesse pela relação da História com a Ciência, na lógica argumentativa de Marx e Engels, de modo a fornecer subsídios preciosos, embora genéricos, para que pudéssemos usar em nossos debates e polêmicas com eventuais adversários ideológicos. Eram tempos de leituras ainda superficiais, de divulgadores, alguns bem fundamentados e outros não tanto, mas que nos faziam interessar pela História. Tínhamos alguma dificuldade em estabelecer a conexão dos clássicos do marxismo com os objetos de estudos mais específicos, o que acarretava generalizações sempre perigosas quanto não absolutamente impróprias.

Antes de enveredarmos pelos caminhos dessa conversa cabem alguns esclarecimentos. Podemos tratar o vocábulo História como substantivo, verbo e adjetivo. Assim, quando invoco o primeiro estou a atender um sentido mais geral, aquele que expressa o que o vocábulo contém para quem a evoca ou dele se ocupa. É o sentido de representação de uma situação vivida, de algo significativo para a apreensão de seu conteúdo, seja esse algo um episódio, um personagem ou uma dada situação a envolver coletividades. Substantivamente a História está presente na nossa própria existência. Ela é necessariamente histórica. Desse modo não somos nós que estamos na História como se fosse alguma coisa a parte de nosso ser. Nós somos História.

Há o sentido verbal do termo. Historiar ou Historicizar representam maneiras de se referir a maneira de examinar uma questão que pressuponha uma recorrência ao conhecimento histórico. Não se pode conjugar o verbo se não formos capazes de detectar os problemas apresentados ao desafio de nossos conhecimentos. É claro que a simples conjugação do verbo não diz rigorosamente nada, pois é possível, por exemplo historiar um filme a partir da seqüência de imagens, sem que se perceba a mensagem do cineasta. Da mesma forma é possível analisar o mesmo filme dispensando-se as imagens cronológicas e se centrando nos momentos em que o seu conteúdo propõe reflexões, cujo enredo proposto pelo cineasta é apenas uma dos encaminhamentos para os problemas apresentados.

Mas, História também possui um outro sentido, o da adjetivação, não desprezível para ser aqui ignorada. Quando se exclama, é histórico esse seu discurso!, está-se dando um colorido e uma ênfase a atos e pronunciamentos considerados de grande relevância. Outros usos no mesmo sentido dotam o vocábulo de elementos dignificantes de modo a fazer da História alguma coisa tão profundamente sentida e apreciada por quem a aplica e a interpreta. Esse é uma das polissemias existentes para a palavra História.

No entanto, a polissemia mais conhecida e portanto comum é a que compreende os significados de rerum gestarum e res gestae, isto é, a História contada, narrada e que se integra à corrente da Historiografia, por ser exatamente uma espécie de escrita dos fatos históricos; e, a História evento, que se processa enquanto acontecimentos sujeitos à apreciação futuro ou imediata dos historiadores. Logo, a História que se faz no sentido de sua interpretação, ou a História que se faz no sentido de atos e fatos que se registram no tempo, são ambas produzidas pelo ser humano em suas inquietudes e ações decorrentes de impulsos que os levam a dar sentido a espécie humana.

O gosto pela História data da origem dessa espécie. Desde o primeiro ato de nossas vidas, tanto na acepção da vida histórica quanto na da vida individual, o caráter histórico está presente. Na mais remota de nossas lembranças como espécie distinta daquelas a nos ligar aos símios, de modo a se criar à idéia de um elo perdido, ponto no qual teria sido gestada a espécie hominídea, há indícios e vestígios de uma manifestação histórica. A Pré-história deriva exatamente desse interesse em pesquisar o transcurso desse período antecedente ao que a documentação comprova as ações de formas comunais e societárias da humanidade, com suas crenças e toda uma produção cultural a distinguir-se da dos que o antecederam nessa longa caminhada em direção à reafirmação da espécie no planeta.

Hábito ou necessidade de se cultivar o passado, eis a característica mais diferenciada da espécie humana em relação as demais. Na verdade, o ser humano não se distingue tão-somente por atributos de natureza material, como o de transformar o ambiente em que vive. Este atributo é também comum a outras espécies. O que efetivamente as distingue dos seres humanos é que esses animais não modificam os meios através dos quais se opera a transformação do ambiente. Eis o fator diferencial mais destacável de nossa espécie. E para realizá-lo não bastam apenas a existência de uma poderosa consciência das suas necessidades, se não tiver presente na percepção dessas necessidades um inventário de domínios que se acumularam ao longo de gerações. Dessa maneira, os antepassados são o que poderíamos chamar da ferramenta cognitiva mais pretérita e indispensável com vistas à obtenção de uma consciência das condições reais de sua vida.

A esse repertório de conhecimentos que foi sendo reproduzido de tempos em tempos poderemos chamar de Historicidade. Ela pode ter outras definições, mas a que me parece mais consistente e mais costumeiramente usual é a que a vincula ao passado como referência para o presente. E é o seu sentido etimológico, pois se trata de fato da idade da História, ou seja, o ajuntamento de realizações cujo contato com ele não se pode deixar escapar, justamente para que se possa dar continuidade à epopéia da humanidade em direção ao seu destino de plenitude insaciável. Agrega-se a esse sentido, a idéia de uma cultura política, se a esta se entender como um conjunto de práticas sedimentadas ao longo do tempo e do espaço, e cujo significado diz respeito a um campo de observação da realidade, não importa se representada localmente ou universalmente.

Ciência da alteridade, assim como a Antropologia, a História incorporou uma dimensão senão nova pelo menos mais renovada, no que se refere ao uso de métodos até então ausentes. Trata-se do que se convencionou chamar de História do Presente. Uma História Imediata ou que transcorra enquanto objeto de análise do Historiador em seu próprio tempo. Os pruridos que a fizeram observar com vistas ao que se propunha ser uma interpretação isenta de subjetividade, como se isso fosse possível em matéria de ciência cujo sujeito e objeto são, ambos, de carne e osso, foram removidos pela convicção de que o caráter verdadeiramente científico se encontra na construção daquilo que resulta do trabalho inteligente do Historiador. É precisamente por intermédio deste trabalho que uma obra se torna não só exeqüível como capaz de ser inteligível aos que a leiam e testemunho de época para o patrimônio cultural e científico da humanidade.

Com base nesses pressupostos penso que é o momento de avançarmos em direção à idéia de História, seja como conceito operacional a ser trabalhado por quem a utiliza, ou como portadora de uma identidade, de modo a situá-la no rol das ciências e, portanto, incluindo-a na longa relação de matérias indispensáveis ao saber. Desde já essas idéias de ciência e saber atribuídas ao conhecimento histórico impõem alguns comentários. A exemplo do que prometi ao leitor acima, não os aborrecerei com pesadas citações. Deixarei de lado os argumentos de autoridade, porquanto o propósito aqui é o de manter-me no tom coloquial de uma conversa e, como tal, adicionar eventualmente um ou outro comentário mais caudaloso quando se fizer necessário.

Quando Marx propunha ser a História uma espécie de matriz geradora de outras ciências, ele estava considerando um elemento fundamental de sua concepção filosófica, segunda a qual é inadmissível dispensar o dado histórico nas tarefas de elaboração do conhecimento científico. A premissa da contextualização como condição necessária para o cientista, não importa de que campo da ciência, é de fundamental importância e indispensável fator para a abordagem dos fenômenos. E aí se põe a questão estrutural mais primária da História, tal qual o dilema do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro? É possível falar do indivíduo desvinculado de sua História ou desta como uma entidade sem corpo e idéias? Sem dúvida, o problema que se coloca é de natureza epistemológica e nos conduz a questão da atitude gregária, que sugere a impossibilidade de se examinar o ser humano fora de seu ambiente, necessariamente coletivo, e em conseqüência, histórico. Essa ambivalência a conjugar o particular com o geral, a individualidade e subjetividade com a coletividade e objetividade, produz até hoje variadas leituras.

Cabe aqui uma breve incursão sobre o momento em que me tornei um historiador assumidamente marxista. Bem depois de ter me situado no espectro da esquerda, com os compromissos que tal definição acabam por acarretar, pus-me a ler os chamados clássicos do marxismo, a começar, como sempre me sugeriram amigos e companheiros, com O Capital. O apoio em leituras paralelas de marxistas igualmente credenciados para quem deseja acrescentar a indispensável massa crítica a respeito da filosofia marxista enveredei pela obra de Lênin. Foi dele que tive o impulso de conhecer uma das fontes do marxismo, o filósofo Hegel e, especialmente, a sua dialética. Recordo que após a leitura da Lógica hegeliana e o seu estudo sobre a dialética do senhor e do escravo pude, com convicção fundamentada, entender a importância desse filósofo para Marx, como sentenciara Lênin, ao dizer que não se poderia compreender Marx sem que se lesse Hegel, e em especial a sua Fenomenologia do Espírito

Acompanhei um momento dos mais fecundos das reflexões acerca da função da História e do papel do Historiador. Esse momento ocorreu nos anos sessenta do século passado, embora tenha suas origens no segundo pós-guerra. O debate em torno dessa questão e das questões paralelas a essa, consistia em dar um sentido universalista para a História, a partir da constatação de que em toda cultura a referência da História está presente. E sua presença é visceral, inteiramente indispensável para a compreensão do mundo e das coisas. Além disso, o responsável pelo fabrico dessa coisa visceral, o Historiador, deveria ter um papel altamente relevante, porquanto era de sua competência a operação de dar sentido às realidades examinadas. Em decorrência desse debate acadêmico e intelectual, filosoficamente falando, surgira em seguida a polêmica sobre o herói na História. Em outras palavras a indagação: quem faz a História? Os grandes líderes ou as massas?

Indivíduos e massas, heróis e vilões, líderes carismáticos e lideranças populares, esse leque de referências ressurgiria com certa freqüência nos tempos da Guerra Fria, e o curioso é que não se confinava apenas no espectro da direita, mas ganhara adeptos entre os estudiosos da esquerda no campo das ciências sociais. Se tais discussões acaloradas se faziam quase exclusivamente impulsionadas pelas paixões ideológicas a atravessar as mentes mais ou menos brilhantes dos seus contendores, era indiscutível a presença de um elemento que pouco a pouco foi desaparecendo, a atitude de instigar à reflexão e a inspirar formulações para os mais diferentes problemas da humanidade. No Brasil da geração de meados do século vinte figuras como Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto e Darcy Ribeiro, este principalmente nos anos sessenta, foram dos mais entusiastas defensores de projetos para um país que começava a se descobrir como parte integrante de um cenário mundial do qual deveria participar como força transformadora.

Ao freqüentar os cursos do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) decidi-me pelo Curso de História. Antes me dividira entre esta e o Curso de Ciências Sociais, divisão esta que tentei ainda levar por algum tempo até que as múltiplas tarefas me levaram a optar definitivamente pelos estudos históricos. Mas, os tempos do ISEB me marcaram e entre essas marcas se encontra um debate surdo, nunca manifesto por completo, entre Vieira Pinto e Anísio Teixeira. O primeiro a defender a revolução das massas, e o educador baiano, a renovação das elites. Estava sendo praticada a querela a envolver os protagonistas da História, fossem eles representados por coletividades vinculadas aos segmentos sociais marginalizados ou as individualidades detentoras de uma função específica, a de conduzir os anseios das maiorias, e para tanto serem portadoras de certos atributos sem os quais esses objetivos não se concretizariam.

Naquela época, a História era ensinada a partir de uma sucessão interminável de fatos, de onda destacavam-se figuras de expressão institucional, sem que se argüisse em que condições e circunstâncias esses fatos e essas personagens se projetavam, ou que motivações os levavam a adotar determinadas atitudes. Cultivava-se uma erudição do quantitativo da informação, pouco importando o significado de tantos eventos para serem memorizados pelos educandos. E esse método de transmitir volumes incalculáveis de dados era praticado em todos os níveis de ensino, do primário ao superior. Dessa maneira o gosto pela História era escasso, só interessando aos que nutriam uma curiosidade quase mórbida pelas coisas do passado.

O Projeto da História Nova, uma coleção que se propunha a apresentar a História do Brasil de uma maneira a pôr em relevo o povo brasileiro e as forças políticas dominantes, numa clara filiação à perspectiva marxista, obteve receptividade imediata entre os estudiosos da História fossem ou não identificados com essa perspectiva. Os eventuais reparos críticos eram ignorados ou deixados de lado em razão de uma novidade, cujo mérito era o de substituir aquelas visões dominantes, elaboradas em torno de construções factuais, conservadoras e amorfas dos relatos históricos, sempre centrados no poder instituído e limitados à esfera das instituições. E em paralelo a essas visões vivia-se um momento de intensa agitação cultural e política, o que tornavam ainda mais anacrônicas as narrativas derivadas dessa tendência historiográfica.

A renovação historiográfica produzida pela Escola dos Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre ainda não havia sido assimilada por completo em muitas partes do mundo, inclusive no Brasil. Em parte porque a projeção dessa Escola no mundo ocidental ocorre, não por acaso, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial (1945), e em parte também pela letargia intelectual de nossos acadêmicos pouco afeitos a curiosidades intelectuais. Até porque o fator a revolucionar o pensamento histórico trazido pela Escola de Bloch, Febvre e o principal de seus continuadores, Fernand Braudel, era a introdução da história-problema, isto é, a primazia no questionamento e não na arrumação dos fatos cronologicamente, como era praxa se fazer pelo método tradicional, o popularmente conhecido factual.

Os trabalhos desses historiadores franceses já circulavam pelas estantes de nossos conterrâneos mais ligados às coisas que se passavam na Europa, mas a aplicação de seus conceitos e campos novos de estudos carecia de estudos entre nós. De modo que iniciativas como o que fora executada por Nelson Werneck Sodré e seus seguidores no âmbito do ISEB se encontravam mais afetas à influência do marxismo do que dos Annales. A propósito, a relação entre essa Escola a sugerir uma nova abordagem para a investigação histórica e o marxismo seria objeto de muito interesse dos estudiosos. Afinal, a estreita vinculação dos fatores econômicos e sociais, de modo a se entender a indissolúvel integração dessas duas esferas, de certo modo só reforçava a análise empreendida por Marx e seus seguidores. E isso sem que se esqueça que Marc Bloch jamais escondeu seu apreço pelo método do Materialismo Histórico.

As muitas afinidades entre os Annales e o Marxismo não foram prontamente identificadas pelos historiadores. Para os historiadores não marxistas o legado produzido pelos fundadores da Nova Escola Francesa consistira tão-somente no alargamento do campo de pesquisa dos historiadores e, sobretudo, na maior aproximação da História em relação às Ciências Humanas. Ignoravam qualquer semelhança ou parentesco com a obra do filósofo alemão. Essa ênfase aos novos horizontes proporcionados pela proposta dos Annales, era uma maneira de considerar a Concepção Materialista da História como uma corrente histórica superada, em face da incorporação de métodos e técnicas de investigação mais eficazes no trato dos novos problemas e objetos da História. Ressaltar o papel revisionista dos autores da primeira geração dessa Escola dos Annales era também uma forma de promover a atualização do conhecimento histórico.

Os historiadores marxistas não reagiram com muito entusiasmo diante da presença dos ventos novos trazidos pelo movimento renovador da Historiografia francesa. De um modo geral, foram pouco receptivos e poucos creditaram aos estudos empreendidos por Bloch e Febvre um valor histórico capaz de abrir perspectivas inovadoras para a Concepção Materialista da História. Na França essa resistência durou pouco tempo, mas mesmo assim a incorporação de categorias e conceitos produzidos pelos intérpretes mais destacados dos Annales não contaria com uma acolhida plenamente favorável. E ao contrário do ideário de Marx profundamente centrado numa leitura quase canônica, o dos Annales diversificara de tal maneira que muitas vertentes foram concebidas e ganharam vôo próprio à revelia de seus mentores.



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