História da filosofia



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HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Décimo primeiro volume

NICOLA ABBAGNANO
obra digitalizada por ângelo Miguel Abrantes.

Se quiser possuir obras do mesmo tipo ou, por outro lado, tem livros que não se importa de dar, por favor, contacte-me:

Ângelo Miguel Abrantes, R. das Açucenas, lote 7, Bairro Mata da Torre, 2785-291, S. Domingos de Rana. telef: 21.4442383.
VOLUME XI
EDITORIAL PRESENÇA

TITULO ORIGINAL STORIA DELLA FILDSOFIA


Copyright by NICOLA ABBAGNANO
Reservados todos os direitos para a língua portuguesa à EDITORIAL PRESENÇA, LDA. - R. Augusto Gil, 2 clv.-E. - Lisboa

XII
O POSITIVISMO EVOLUCIONISTA


§ 647. POSITIVISMO EVOLUCIONISTA: O PRESSUPOSTO ROMâNTICO

A outra orientação do positivismo é a evolucionista. Esta orientação consiste em tomar o conceito de evolução como o fundamento de uma teoria geral da realidade natural e como manifestação de uma realidade - sobrenatural ou metafísica - infinita e ignota. O ponto de partida desta orientação, ou seja, o conceito de evolução, é extraído da doutrina do transformismo biológico, que foi elaborada por Lamarck e Darwin: ele apresenta-se, efectivamente, como a generalização de tal doutrina. Mas tal generalização é condicionada pelo pressuposto romântico de que o finito é a manifestação ou revelação do infinito, já que só em virtude deste pressuposto, os


processos evolutivos singulares, que a ciência pode

verificar fragmentariamente em alguns aspectos da natureza, se unem num processo único, universal, contínuo e necessariamente progressivo. Sob este aspecto, o evolucionismo positivista é a extensão ao mundo da natureza do conceito da história elaborado pelo idealismo romântico. Tal como a história na doutrina de Fichte ou de Schelling, a natureza, na teoria de Spencer, é um processo de desenvolvimento necessário, cuja lei é o progresso.


§ 648. HAMILTON E MANSEL
A introdução da filosofia romântica na Inglaterra fez-se através da obra de Hamilton, que, com a doutrina da incognoscibilidade do absoluto, constitui também um precedente do positivismo de Spencer.
William Hamilton (nascido em Glasgow a 8 de Março de 1788, falecido em Edimburgo a 6 de Maio de 1856) foi uma figura notável sobretudo pela sua
vastíssima erudição filosófica, que o levou a contactar directamente com a filosofia alemã do romantismo.

O seu primeiro escrito foi um estudo intitulado Filosofia de Cousin, aparecido na «Edinburgh Review» de 1829. Em 1836, foi nomeado professor de lógica e metafísica na Universidade de Edimburgo. As suas


Lições de metafísica e de lógica, compostas no primeiro ano de ensino, foram depois repetidas por ele durante vinte anos sem qualquer alteração e publicadas postumamente por Mansel (4 vol., 1859-60). Em 1852, Hamilton publicou uma recolha de artigos com o título Discussões de filosofia e literatura;

e, em 1856, as Obras de Thomas Reid com notas e comentários.


As Lições, de Lógica de Hamilton constituem um
dos mais brilhantes tratados da lógica tradicional no século XIX. Foram tão importantes as correcções que fez à lógica tradicional, que estas viriam a revelar-se fecundas no campo da lógica matemática; nomeadamente, o princípio da quantificação do predicado, segundo o qual nas proposições se deve considerar a quantidade não só do sujeito mas também do predicado. Tal quantificação efectua-se, de facto, ou mediante o uso dos quantificadores (por exemplo, «Pedro, João, Jaime, etc., são todos apóstolos») ou
mediante modos indirectos como a limitação e a
excepção ou, de uma maneira subentendida, como quando se diz: «Todos os homens são mortais», devendo entender-se: «Todos os homens são alguns mortais».
As Lições de metafísica apresentam em primeiro lugar uma versão da teoria da percepção imediata própria da escola escocesa, de que, sob certos aspectos, Hamilton é um continuador. Hamilton, todavia, traz a esta teoria uma modificação importante, negando que a percepção imediata faça conhecer as coisas tais como são em si mesmas. «A teoria da percepção imediata, diz ele, não implica que nós percebamos a realidade material absolutamente e em si mesma, isto é, fora da relação com os outros órgãos e as
nossas faculdades, pelo contrário, o objecto total e
real da percepção é o objecto exterior em relação com
os nossos sentidos e com a nossa faculdade cognitiva. Mas, embora relativo a nós, o objecto não é representação, não é uma modificação do eu. Ele é o
não-eu-o não-eu modificado e relativo, talvez, mas sempre não-eu» (Lectures on Metaphisics, 1, 1870, p. 129). A teoria da percepção imediata, não elimina, portanto, segundo Hamilton, o relativismo do conhecimento, o qual se baseia em três razões: 1.o a existência não é cognoscível absolutamente em si mesma mas só de modos especiais, 2.o estes modos só podem ser conhecidos em relação com as nossas faculdades,

3.o não podem estar em relação com as nossas faculdades senão como determinadas modificações dessas mesmas faculdades (Ib., 1, p. 148). Decerto que nesta forma a doutrina da percepção imediata não tem o mesmo significado que a escola escocesa do senso comum lhe conferira: esta escola, de facto, entendia aquela doutrina no sentido de que os objectos são percebidos imediatamente e em si mesmos. Além disso, entre um objecto condicionado e tornado relativo pela sua relação com as faculdades humanas e uma «ideia» no sentido de Descartes e de Berkeley a diferença é puramente verbal.


A relatividade do conhecimento permite a Hamilton afirmar a incognoscibilidade, e não a inconcebilidade, do Absoluto. Contra Cousin e Schelling, Hamilton afirma esta incognoscibilidade, ao passo que, de acordo com eles, defende a existência do Absoluto, cuja realidade se revelaria na crença.
«Pensar é condicionar, afirma (Discussions, p. 13), e uma limitação condicional é uma lei fundamental das possibilidades do pensamento. O Absoluto não é concebível senão como uma negação da possibili-


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dade de ser concebido». Por outro lado, «a esfera da nossa crença é muito mais extensa do que a esfera do nosso conhecimento; e, portanto quando nego que o
Infinito possa ser conhecido por nós, estou bem longe de negar que ele possa e deva ser crido por nós» (Ib., II, p. 530-31). Esta superioridade da crença sobre o conhecimento vincula Hamilton à escola escocesa; mas para Hamilton, a crença é, romanticamente, a revelação imediata e primitiva que o próprio Infinito faz de si ao homem e que, por conseguinte, condiciona o próprio processo do conhecer. Falando da percepção da realidade externa, Hamilton reconhece que, propriamente falando, nós não sabemos se o
objecto de tal percepção é um não-eu, e não uma percepção do eu; só a reflexão faz crer que o seja «porque obedecemos à fé numa necessidade originária da nossa natureza que nos impõe tal crença» (Reid's Works, p. 744-50).
Ao nome de Hamilton está ligado o de Henry Longuevifie Mansel (1820-71) que foi o seu intérprete. Em dois livros, Os limites do pensamento religioso (1858) e Filosofia do condicionado (1866), Mansel construiu sobre as premissas de Hamilton uma
teologia negativa. Deus como absoluto e infinito é inconcebível. Ele não pode no entanto ser concebido como causa primeira, já que a causa existe apenas em
relação ao efeito e ao absoluto repugna toda a relação. Toda a tentativa de o conceber de algum modo dá lugar a dilemas insolúveis. «0 absoluto não pode ser
concebido nem como consciente nem como inconsciente; nem como complexo nem como simples; não
II

pode ser definido nem mediante diferenças nem mediante a ausência de diferenças: não pode ser identificado com o universo nem pode ser distinto dele»


(Limits of Rel. Thought, p. 30). Do mesmo modo, o infinito que deveria ser concebido como todo em potência e nada em acto revela precisamente nisto a sua impossibilidade de ser concebido, já que «se pode ser o que não é, é incompleto, e se é todas as coisas, não tem nenhum sinal característico que o possa distinguir de uma coisa qualquer» (Ib., p. 48). Esta incognoscibilidade do Infinito e do Absoluto é, todavia, relativa ao homem, não pertence à natureza do próprio Absoluto. «Nós somos obrigados, diz Mansel (1b., p. 45), pela própria constituição do nosso espírito a crer na existência de um Ser absoluto e infinito». Esta crença funda-se na nossa consciência moral e intelectual, na estrutura e no curso da natureza e na revelação» (Phil. of the Conditioned. p. 245). Mas tão-pouco estes fundamentos da crença permitem afirmar alguma coisa sobre os atributos de Deus. Subsiste uma diferença enorme entre a mais alta moralidade humana concebível e a perfeição divina, distância que pode ser de algum modo abolida pelo conceito escolástico de analogia.
A doutrina de Hamilton e Mansel é ao mesmo tempo um cepticismo da razão e um dogmatismo da fé. O cepticismo da razão foi utilizado como fundamento do agnosticismo que caracterizava em boa parte o positivismo evolucionista. O dogmatismo da fé iria ter a sua continuação histórica no espiritualismo inglês contemporâneo.
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§ 649. A TEORIA DA EVOLUÇÃO


Se o princípio romântico do infinito que se revela ou realiza no finito é a categoria tacitamente pressuposta pela filosofia positivista da evolução, a teoria biológica da transformação da espécie é, de facto, o
seu ponto de partida. Com efeito, o evolucionismo é uma generalização desta doutrina biológica, generalização tacitamente fundada nesta categoria.
Podem-se encontrar antecedentes imediatos da teoria do transformismo biológico nalgumas intuições de Buffon (1707-88). O famoso autor da História natural (1749-88), embora declarando-se explicitamente partidário da doutrina tradicional da fixidez das espécies vivas, admite hipoteticamente a possibilidade de que se tivessem desenvolvido a partir de um tipo comum, através de lentas variações sucessivas, verificadas em todas as direcções. Foi ainda em Buffon que Kant, provavelmente, se inspirou ao propor a hipótese (1790), no parágrafo 80 da Crítica do Juízo, de «um verdadeiro parentesco» das formas vivas e
da sua derivação de uma «mãe comum», assim como a ideia de uma evolução contínua da natureza da nebulosa primitiva até ao homem. Porém, tais hipóteses eram apenas intuições genéricas, não apoiadas num sistema coordenado de observações. O primeiro a apresentar de um modo científico a doutrina do transformismo biológico foi o naturalista francês João Baptista Lamarck (1744-1829). Na sua Filosofia zoológica (1809) e na História natural dos animais sem vértebras (1815-22), Lamarck enunciava quatro leis que deviam presidir à formação dos organismos ani-
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mais: 1.o a vida, pela sua própria força, tende continuamente a aumentar o volume de cada corpo vivo e a estender as suas partes; 2.1> a produção de um


novo órgão animal resulta do aparecimento de uma
nova necessidade e do novo movimento que esta necessidade suscita e encoraja; 3.o o desenvolvimento dos órgãos e a sua força de acção estão constantemente na razão directa do uso dos próprios órgãos;

4.o tudo o que foi adquirido, perdido ou modificado na organização dos indivíduos é conservado e transmitido mediante a geração dos novos indivíduos. Estas quatro leis são a primeira formulação científica do modo por que se verificaria a transformação dos organismos. Tal modo é reportado substancialmente ao princípio de que o uso dos órgãos, requerido pelas necessidades e, portanto, pelo ambiente exterior, pode modificar radicalmente os próprios órgãos.


As ideias de Lamarck não tiveram nenhuma ressonância imediata devido sobretudo ao enorme apoio que a tese oposta da fixidez das espécies teve durante alguns decénios mercê da autoridade de George Cuvier (1769-82), o fundador da paleontologia, ou seja, do estudo dos restos fósseis das espécies extintas. No seu Discurso sobre as revoluções do globo (1812), Cuvier explicou a extinção das espécies fossilizadas mediante catástrofes, gerais que periodicamente destruiriam as espécies vivas de cada época geológica, dando ensejo a que Deus criasse novas. O transformismo biológico só pôde afirmar-se quando esta teoria das catástrofes foi eliminada; e
essa eliminação foi obra do geólogo inglês Charles Lye11 (1797-1875). Nos seus Princípios de geologia
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(1833), Lye11 expÔs a tese de que o estado actual da terra não é devido a uma série de cataclismos mas à acção lenta, gradual e insensível das mesmas causas que continuam a actuar sob os nossos olhos. Tal doutrina tornava impossível explicar a génese e a extinção das espécies vivas mediante causas extraordinárias ou sobrenaturais e abria definitivamente a via ao transformismo biológico.


Este fez a sua entrada triunfal na ciência com a obra de Charles Darwin (12 de Fevereiro de 1809-19 -Abril de 1882). Sobrinho de um naturalista, chamado Erasmo, Darwin foi o tipo do cientista inteiramente dedicado à s suas pesquisas. Depois de uma
viagem por mar durante cinco anos, dedicou-se a recolher e a ordenar o material para a sua grande obra A origem das espécies, que apareceu em 1859. O livro teve um sucesso fulgurante e a primeira edição, de mais de 1.000 exemplares, esgotou-se no primeiro dia de venda. Seguidamente, Darwin publicou A variação dos animais e das plantas no estado doméstico (1868) e Descendência do homem (1871). O último trabalho notável de Darwin foi a Expressão das emoções no homem e nos animais (1872), a que se seguiram alguns trabalhos científicos menores. Em 1887, o filho de Darwin, Francisco, publicou dois volumes intitulados A vida e a correspondência de Charles Darwin, que contêm também uma breve autobiografia do filósofo, e que são indispensáveis para a compreensão da sua personalidade.
O mérito de Darwin consiste em ter elaborado uma completa e sistemática teoria científica do transformismo biológico, fundando-a num número enorme
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de observações e de experiências, e em a ter apresentado precisamente no momento em que a ideia romântica do progresso, nascida no terreno da investigação histórica, alcançava a sua máxima universalidade e parecia indestrutível. A teoria de Darwin assenta em duas ordens de factos: LO, a existência de pequenas variações orgânicas que se verificam nos


seres vivos ao longo do curso do tempo e por influência das condições ambientais, variações que, em parte, pela lei das probabilidades são vantajosas aos indivíduos que as apresentam: 2.O a luta pela vida, que se verifica necessariamente entre os indivíduos vivos pela tendência da cada espécie a multiplicar-se segundo uma progressão geométrica. Este último pressuposto é evidentemente extraído da doutrina de Malthus (§ 638). Destas duas ordens de factos se segue que os indivíduos em que se manifestam mutações orgânicas vantajosas têm mais probabilidades de sobreviver na luta pela vida; e em virtude do princípio de hereditariedade haverá neles uma tendência pronunciada para deixar em herança aos seus descendentes os caracteres acidentais adquiridos. Tal é a
lei da selecção natural, que «tende, diz Darwin (Origens das espécies, 4.O, § 18), ao aperfeiçoamento de cada criatura viva em relação com as suas condições de vida orgânicas e inorgânicas, e, por conseguinte, na
maior parte dos casos, com um progresso da organização. Todavia, as formas simples inferiores podem perpetuar-se por muito tempo se forem convenientemente adaptadas às suas simples condições de vida. «A acumulação das pequenas variações e a sua conservação por meio da hereditariedade produzem as
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variações dos organismos animais que, nos seus termos extremos, é a passagem de uma espécie à outra.

O que o homem faz com as plantas e os animais domésticos produzindo gradualmente as variedades que são mais úteis às suas necessidades, pode fazê-lo a natureza numa escala muito mais vasta, pois «que limites se podem pôr a esse poder que actua durante longas eras e perscruta rigorosamente a estrutura, a organização inteira e os hábitos de cada criatura, para favorecer o que está bem e rejeitar o que está mal?» (1b., 14, § 2).
Desta teoria se segue que entre as várias espécies devem ter existido inúmeras variedades intermédias que ligavam estreitamente todas as espécies de um mesmo grupo; mas, evidentemente, a selecção natural exterminou estas formas intermédias de que, no entanto, se podem encontrar traços nos fósseis (Ib., 6.o, § 2). Além do estudo dos fósseis, o dos órgãos rudimentares, das espécies chamadas aberrantes e da embriologia pode conduzir a determinar a ordem progressiva dos seres vivos. «Se nós, escreve Darwin, não possuímos árvore genealógica, nem livro de oiro, nem brasões hereditários, temos, no entanto, a possibilidade de descobrir e seguir os traços das numerosas linhas divergentes das nossas genealogias naturais, mediante a herança, desde há muito conservada, dos caracteres de cada espécie» (Ib., 14.O, § 5). A conclusão de Darwin é nitidamente optimista: crê ter estabelecido o inevitável progresso biológico do mesmo modo que o romantismo idealista e socialista acreditava no inevitável progresso espiritual. «Nós podemos concluir com alguma confiança que nos será
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permitido contar com um futuro de duração incalculável. E como a selecção natural actua apenas para o bem de cada indivíduo, todo o dom físico ou intelectual tenderá a progredir para a perfeição» (1b.,

14.-, § 6).
A outra obra fundamental de Darwin, A descendência do homem, tende, em primeiro lugar, a estabelecer que «não existe nenhuma diferença fundamental entre o homem e os mamíferos mais elevados no que respeita às faculdades mentais». A única diferença entre a inteligência e a linguagem do homem e a dos outros animais é uma diferença de grau que se explica pela lei da selecção natural e também, em parte, pela escolha sexual a que Darwin atribui, para a evolução do homem, uma importância bastante maior do que para a evolução dos animais. Darwin não crê que o conhecimento da descendência do homem de organismos inferiores diminua de algum modo a dignidade humana. «Quem visse um selvagem na sua terra natal, escreve em As origens do homem, (trad. ital., p. 579) não sentiria muita vergonha se se visse obrigado a reconhecer que o sangue de uma criatura mais humilde lhe corre nas veias. Quanto a mim, preferia muito mais ter descendido daquele heróico macaco que enfrentou o seu terrível inimigo para salvar a vida ao seu guardião ou daquele velho babuíno que desceu da montanha para arrancar
triunfante o seu jovem companheiro a uma furiosa matilha de cães, do que de um selvagem que se compraz em torturar os seus inimigos, oferece sacrifícios de sangue, pratica o infanticídio sem remorsos, trata as
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suas mulheres como escravas, não conhece o que é a


decência e é dominado por grosseiras superstições».
Darwin, foi e quis ser exclusivamente um cientista. Só raramente, e dir-se-ia contra vontade, se decidiu a exprimir as suas convicções filosóficas e religiosas; e sempre em privado, em cartas particulares não destinadas à publicação. Contudo, estas convicções, foram-lhe inspiradas pela sua doutrina da descendência inferior do homem, descendência que não pode autorizar uma grande fé na capacidade do homem para resolver certos problemas fundamentais. «Per-unto a mim mesmo, escreve numa carta (Vida e
corresp., trad. franc., p. 368), se as convicções do homem, que se desenvolveu a partir do espírito de animais de ordem inferior, têm algum valor e se se pode ter alguma confiança nelas. Quem poderia confiar nas convicções do espírito de um macaco, se é que existem convicções num espírito semelhante?» Noutra carta de 1789 (1b., p. 353-54) exprime-se assim: «Sejam quais forem as minhas convicções sobre este tema, elas só podem ter importância para
MI próprio. Mas, já que mo perguntais, posso assegurar-vos que o meu juízo sofre amiúde flutuações... Nas minhas maiores oscilações, nunca cheguei ao
ateísmo no verdadeiro sentido da palavra, isto é, nunca cheguei a negar a existência de Deus. Eu penso que, em geral (e sobretudo à medida que envelheço), a descrição mais exacta do meu estado de espírito é a
de agnóstico». O termo agnosticismo fora criado em

1869 pelo naturalista Thomas Huxley (1825-956) que chegara, antes da publicação da Origem das espécies, a inferir por si próprio a transformação das espécies


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biológicas e que se tornou logo um dos mais entusiastas partidários de Darwin. «0 termo, diz HuXley (Collected Essays, V, p. 237 e sgs.) veio-me à mente como antítese de «gnóstico» da história da Igreja que pretendia saber muito sobre coisas que eu ignorava». Tal termo implica já, na mente de Huxley, uma referência àquela impossibilidade de conceber o


Absoluto e o Infinito em que haviam insistido Hamilton e Mansel. Mas, para Darwin, este termo tem um
sentido menos explícito, significando simplesmente a
impossibilidade de encontrar no domínio da ciência quaisquer asserções que confirmem ou desmintam decisivamente as crenças religiosas tradicionais. Darwin, no entanto, supunha possível negar decididamente qualquer «intenção» da natureza, isto é, toda a causa final, e aduzia a este propósito a existência do mal e da dor (Vida e corresp., trad. franc., 1, p. 361-62). Porém, estava convencido de que «o
homem será no futuro uma criatura bastante mais perfeita do que é actualmente» (1b., p. 363); e, na
realidade, as suas convicções científicas e toda a estrutura sistemática da sua teoria da evolução se fundam no pressuposto da ideia do progresso que dominava o clima romântico da época. Através da obra de Darwin, a ciência inseriu o mundo inteiro dos organismos vivos na história progressiva do universo.
§ 650. SPENCER: O INCOGNOSCíVEL
A época era, pois, propícia a uma teoria do progresso que não o restringisse ao destino do homem no mundo, mas sim o estendesse ao mundo inteiro, na
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totalidade dos seus aspectos. Elaborar a doutrina do progresso universal e pôr em relevo o valor infinito e, portanto, religioso (mesmo quando só misteriosamente religioso) do progresso, tal foi o objectivo que Spencer se propôs ao difundir em Março de 1860 o


plano do seu Sistema de filosofia, de vastas proporções.
Herbert Spencer nasceu a 27 de Abril de 1820 em Derby, em Inglaterra e foi engenheiro dos caminhos de ferro em Londres. Publicou primeiramente alguns artigos de carácter político e económico; em

1845, tendo recebido uma pequena herança, obedeceu à sua vocação filosófica e abandonou a carreira de engenheiro para se dedicar à sua actividade de escritor. De 1848 a 1853 pertenceu à redacção do «Economist». O primeiro resultado da sua actividade foram os Princípios de psicologia, publicado em 1855. Em

1857, publicou um ensaio sobre o progresso (0 progresso, sua lei e sua causa), que é muito significativo pela sua orientação fundamental. E em 1862 saía o primeiro volume do Sistema de filosofia sintética projectado em 1860, Primeiros princípios que é a sua
obra filosófica fundamental, a que se seguiram os
dois volumes dos Princípios de biologia (1864-67), e em seguida: Princípios de psicologia (2 vol., 1870-72), Princípios de sociologia (Parte 1, 1876; Instituições cerimoniais, 1879; Instituições políticas, 1882; Instituições eclesiásticas, 1885), Princípios de moralidade (Parte I, As bases da ética, 1879); Parte IV, A justiça, 1891-, Parte 11 e Parte 111, 1892; Parte V,

1893). A estas obras seguiram-se: A classificação das ciências (1864); A educação (1861); O estudo da


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sociologia (1873); O homem contra o estado (1884); Os factores da evolução orgânica (1887); Ensaios (2 vol., 1858-63); Estática social (1892); A inadequação da selecção natural (1893); Fragmentos vários, (1897); Factos e comentários (1902); Autobiografia (2 vol..

1904)-, Ensaios sobre a educação (1911). Estes últimos dois escritos são póstumos. Spencer morreu a 8 de Dezembro de 1903 em Brigton.
No artigo sobre o progresso de 1857 (recolhido mais tarde nos Ensaios) que é o primeiro esboço do seu sistema, pode-se ver claramente qual é a inspiração fundamental do evolucionismo de Spencer: devia este servir para justificar, mediante a sua lei e a sua causa fundamental, o progresso, entendido como



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