HistÓria da Filosofia



Baixar 0.87 Mb.
Página1/16
Encontro29.11.2017
Tamanho0.87 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16

HistÓria da Filosofia

Volume catorze

Nicola A bbagnano
HISTÓRIA DA FILOSOFIA
VOLUME XIV
TRADUÇÃO DE: CONCEiÇÃO JARDIM EDUARDO LOCIO NOGUEIRA NUNO VALA.DAS
CAPA DE: J.
COMPOSIÇÃO E IMPRESSÃO
TIPOGRAFIA NUNES
R. D. João I V, 590 - Porto
EDITORIAL PRESENÇA . Lishoa 1970

TITULO ORIGINAL STORIA DELLA FILOSOFIA


Copyright by NICOLA ABBAGNANO
Reservados todos os direitos para a língua portuguesa à EDITORIAL PRESENÇA, LDA. - R. Augusto Gil, 2 e/v.-E. ~ Lisboa

xiii
O NEO-EMPIRISMO


§ 805. CARACTERISTICAS DO NEO-EMPIRISMO
Sob o nome de «neo-empirismo» ou de «empirismo lógico» podem ser reagrupadas todas aquelas filosofias que entendem e praticam a filosofia como análise da linguagem. Mas por análise da linguagem podem compreender-se duas coisas diferentes:
1.o A análise da linguagem científica, isto é, da linguagem própria das ciências parcelares; e neste caso a filosofia é reduzida à lógica, à qual é ainda atribuída a tarefa de determinar as condições gerais e formais que tornam possível uma qualquer linguagem.
2.o A análise da linguagem comum, isto é, das formas de expressão próprias do senso comum e usadas na vida quotidiana; e neste caso a tarefa da

filosofia será a de interpretar estas formas e de

investigar o seu significado ou os seus significados autênticos, eliminando os equívocos a que conduz o uso impróprio de tais significados.
À primeira posição pode dar-se o nome de «positivismo lógico» porque, tal como o positivismo clássico, privilegia a ciência e considera-a como única forma válida de conhecimento. À segunda pode chamar-se «filosofia analítica», nome que é usado pelos seus próprios defensores.
Ambas as formas do neo-empirismo consideram que a simplificação da linguagem conduz à eliminação dos problemas tradicionais da filosofia e, sobretudo, dos da metafísica que façam uso do vocabulário e da sintaxe da linguagem científica ou comum que é estranho a esse vocabulário e a essa sintaxe. Esses problemas tornam-se assim «privados de sentido» se a linguagem em que vêm expressos for reconduzida às suas regras. Reconhecê-los como privados de sentido é o papel curativo ou terapêutico da filosofia, da qual portanto se pode dizer que tem por tarefa a libertação da própria filosofia.
A esfera da linguagem, isto é, dos significados ou dos usos linguísticos, tem no neo-empirismo, e em certa medida, a função que a «experiência» tinha no velho empirismo; ou seja, a de constituir o critério ou norma da investigação filosófica. Mas o mais importante precedente histórico do neo-empirismo é a dicotomia instaurada por Hume entre as proposições que se referem às relações entre as ideias (tais como as proposições matemáticas) e as

proposições que se referem a factos: as primeiras

têm em si mesmas a sua verdade, as segundas só são verdadeiras se estiverem de acordo com a experiência (§ 468). Esta dicotomia é geralmente admitida pelas correntes neo-empiristas, e é para elas, tal como para Hume, a base para a eliminação da metafísica, cujas proposições não entram nem numa

nem noutra categoria. Mas a verificação empírica supõe o recurso a dados imediatos e, portanto, uma teoria da experiência, do mesmo modo que a análise das proposições matemáticas supõe a lógica. O neo-empirismo aproveita de Mach a teoria da experiencia, e de Russell os princípios fundamentais da sua

indagação lógica. Simultâneamente, utiliza todo o rico património de investigações metodológicas provocadas pela tendência crítica prevalecente nas matemáticas, na física e nas outras ciências nos últimos decénios; e participa no enriquecimento dessa tendência com contributos de importância fundamental.
§ 806. ESCOLAS NEO-EMPIRISTAS
O neo-empirismo foi primeiro uma tendência seguida pelo chamado «Círculo de Viena», isto é, por aquele conjunto de estudiosos de várias proveniências que se juntou, a partir de 1923, à volta de Moritz Schlick. O Tractatus, de Wittgenstein. (o qual, no entanto, só ocasionalmente se encontrava com alguns membros do Círculo), publicado pela primeira vez nos «Annalen der Naturphilosophie» de

1921, e a obra de Carnap, que fora chamado para

a Universidade de Viena em 1926, forneceram as principais bases das discussões do Círculo, nas quais tomaram parte, entre outros, H. Haim, F. Waisman, H. FeigI, Otto Neurath, Philip Frank, K. Gõdel, G. Bergmann, K. Popper e H. Kelsen.
Ao Círculo de Viena ligou-se o grupo de Berlim, que se constituiu em 1928 com o nome de «Gesellschaft fü r empírische Philosophie» à volta de Hans Reichenbach, e que inclui entre outros K. Lewin, W. KõhIer e C. G. Hempel. A colaboração entre os dois grupos estabeleceu-se sobretudo na revista «Erkenntnis» que se publicou de 1930 a 1938 e que foi dirigida por Carnap e Reichenbach,
Na Polónia, surgiu um movimento análogo por influência de Casimir Twardowsky, que fora aluno de Bolzano na Universidade de Viena e que renovou na Polónia a tradição dos estudos lógicos, mais tarde retomada por T. Kotarbinski, Jan. Lukasiewiez, Alfred Tarsky e muitos outros.
Depois da vitória do nazismo na Alemanha e na Áustria, muitos representantes do neo-empirismo retiraram-se para os Estados Unidos da América, tendo aí encontrado um ambiente receptivo sobretudo entre os pensadores da corrente pragmatista que se inspiravam em Peirce e Dewey. Foi assim possível retomar a ideia, expressa em 1929 numa espécie de manifesto, do Círculo, de uma «ciência unificada» que tivesse por objecto toda a realidade acessível ao homem e que se servisse de um único método de análise lógica. Nascia assim a Enciclopédia Internacional da Ciência Unificada, que se começou a publicar em Chicago em 1938 sob a direcção

10

de Neurath, Carnap e Morris e que publicou monografias assinadas por cientistas e filósofos de muitos países (Bohr, Dewey, Rougier, Reichenbach, Russell, Tarski, etc.). Apesar do valor de muitos dos contributos publicados na Enciclopédia, não nos devemos esquecer de que ela mostra uma substancial diferença de opiniões sobre o próprio modo de entender a unidade da ciência. Com efeito, esta unidade é ainda compreendida por Neurath no sentido clássico, como combinação dos resultados das várias ciências e tentativa de os reunir num sistema axiomático, único (Internat. Enc. of Un. Sc., 1, 1, 1938, p. 20). É entendida por Dewey como uma exigência de estender o papel e a função da ciência a todo o palco da vida (Ib., p. 33); para Russell, apresenta-se como «unidade de método»; para Carnap, como



unidade formal que respeita às «relações, lógicas entre os termos e as leis dos vários ramos da ciência» (Ib., p. 49); para Morris, como «uma ciência da ciência», isto é, implicando que tal unidade se verificasse no âmbito da semiótica, de que ele é defensor (Ib., p. 70). Por outros termos, o próprio conceito da ciência unificada não se apresenta suficientemente unificado nos seus diversos defensores, que atribuem a essa expressão significados diversos e demonstram assim, de facto, o seu carácter utópico. Na realidade, o conceito de unidade da ciência não é um conceito científico mas sim filosófico que, portanto, acolhe e respeita a diversidade das filosofias.
Mais do que unidade, pode-se falar legitimamente de «conexões» ou relações recíprocas entre as ciências; e tais conexões ou relações constituem

11

problemas filosóficos importantes aos quais se dedicam útilmente os neo-empiristas (e não apenas eles).


Em 1939 Wittgenstein foi chamado a Cambridge, na Inglaterra, para suceder na cátedra a G. E. Moore. Nessa época, começava a elaborar a segunda forma da sua filosofia, que se inspira no clima filosófico característico da Inglaterra nestes últimos decénios: o da chamada «filosofia analítica», que assume como tarefa fundamental a análise da linguagem comum.
Hoje, no entanto, o neo-empirismo já não é apanágio de uma escola localizada. Muitas das suas exigências foram largamente aceites, e os resultados a que se chegou, sobretudo no campo da metodologia das ciências e da crítica da lógica, podem ser examinados e discutidos independentemente das posições polémicas em que se inspiravam os seus primeiros defensores.
§ 807. NEO-EMPIRISMO: SCHliCK
O homem em torno do qual se concentra o Círculo de Viena, Moritz Selilick (1882-1936), foi assassinado na escadaria da Universidade de Viena e

o seu assassino foi exaltado pelo nazismo como sendo

o homem que impedira o desenvolvimento de uma filosofia «viciosa». Os fragmentos publicados postumamente com o título Natureza e cultura (1952) dão-nos a conhecer a oposição de Sclilick à estrutura moral da sociedade e do estado nazis. A vida moral era considerada por Sclilick como a continuação da vida natural e, logo, como directamente

12

dirigida ao prazer e consistindo essencialmente na escolha do prazer. A antítese polémica desta posição era constituída, segundo Schlick, pela filosofia dos valores e pela sua tentativa de tornar absolutos os próprios valores.


Schlick começava por realizar uma interpretação crítico-realista da ciência (Teoria geral do conhecimento, 1918); mas aceitou imediatamente o ponto de vista de Wittgenstein e Carnap, reproduzindo-o e desenvolvendo-o em numerosos artigos publicados no «Erkenritnis» e noutras revistas, artigos que depois da sua morte foram recolhidos em livro. O seu ponto de partida é o de Wittgenstein: a filosofia não é uma ciência mas sim uma actividade; e é uma actividade intrínseca ao próprio exercício da investigação científica. Esta, com efeito, é condicionada pela rigorosa comprovação dos termos que emprega; e esta comprovação é precisamente o objectivo da filosofia. Mas a filosofia não pode ser definida como «ciência do significado» dado que na comprovação dos significados não chega a proposições mas sim a actividades ou a experiências imediatas. «A descoberta do significado de uma proposição deve, em
última análise, terminar num acto, num procedimento imediato, como por exemplo na indicação de uma cor; não pode ser dada numa proposição. A filosofia como procura do significado, não pode consistir em proposições, não pode ser um ciência. Essa procura não é mais do que uma espécie de actividade mental» (Gesammelte Aufsãtze, 1938, p.

130). A filosofia conserva assim, aos olhos de Schlick, a sua dignidade -de «rainha das ciências»-,


13

mas a rainha das ciências não pode ser uma ciência, mesmo atendendo à sua inclusão no campo especulativo de todas as actividades científicas. Deste ponto de vista, não existem outros problemas cognitivos além dos científicos. Quanto aos chamados problemas filosóficos, ou são resolúveis pelos métodos das ciências parcelares ou são problemas fictícios que devem ser considerados carentes de sentido. Por exemplo, o problema de o mundo ser finito ou


infinito, que Katit julgara impossível de resolver, foi resolvido, no sentido da finitude do mundo, pela física moderna, mais precisamente pela teoria da relatividade generalizada e por observações astronómicas. Por outro lado, existem problemas que não são susceptíveis de uma solução que possa ser verificada empIricamente: tal é, por exemplo, o problema do «mundo externo», entendido como uma realidade transcendente que se encontra para além da natureza dada empiricamente. A existência ou não existência deste inundo externo nada altera em relação à experiência efectiva: não pode assim ser comprovada experimentalmente e, como tal, carece de sentido. Aqui deparamos, segundo Sclilick, com o critério que permite distinguir os problemas verdadeiros dos falsos. «Uma questão é em princípio resolúvel se
pudermos imaginar as experiências que deveríamos fazer para dar-lhe uma resposta. A resposta a uma
pergunta é sempre uma proposição. Mas para entender uma proposição devemos poder indicar exactamente quais as circunstâncias particulares que a
tornariam verdadeira ou falsa. ‘Circunstâncias’ significa factos de experiência; sendo assim, a experiên-

14

cia decide sobre a verdade ou falsidade das proposições, isto é, verifica as proposições; será resolúvel todo o problema que puder ser reduzido à experiência possível» (Ib., págs. 141-142). A diferença entre o velho e o novo empirismo consiste no facto de o primeiro ser uma análise das faculdades humanas e o segundo uma análise das expressões em geral. Todas as proposições, linguagens, sistemas de símbolos, e mesmo filosofias, devem exprimir qualquer coisa. Mas para que assim seja é necessário que exista alguma coisa que possa ser expressa: esse é o material do conhecimento, e afirmar que deve ser dado pela experiência é uma forma de dizer que as coisas devem existir antes de as conhecermos. Schlick mostra-nos o pressuposto fundamental da sua concepção, pressuposto que é também o de toda a moderna metodologia da ciência: conhecer não significa identificar-se com o objecto conhecido. «A** ffituição, a identificação do espírito com um


objecto, não é o conhecimento do objecto e não ajuda a alcançá-lo, pois não realiza a tarefa que define o conhecimento. Esta tarefa consiste em encontrar o nosso caminho por entre os objectos, em
prever o seu comportamento, e isto faz-se descobrindo a sua ordem, assinalando a cada objecto o seu lugar na estrutura do mundo. A identificação com uma coisa não nos ajuda a encontrar esta ordem, antes nos impede de o fazer. A intuição é desfrute, e este é vida, não conhecimento. E se disserem que isto é mais importante do que o conhecimento, eu não os contradirei; mas esta é mais uma razão para não o confundir com o conheci-

15

mento (que tem uma importância própria)» (Ib., p. 196). Schlick vê em Sócrates o pai da filosofia assim entendida. «Foi um investigador do significado das proposições, particularmente daquelas que servem aos homens para avaliar mutuamente o seu


comportamento moral. Reconheceu que estas proposições, as mais importantes para dirigir a nossa
conduta, são também as mais incertas e difíceis dado que não se atribui às proposições morais nenhum significado claro e unívoco. E o mesmo sucede ainda nos nossos dias, salvo no que se refere ao significado das proposições que são continuamente confirmadas ou refutadas pelas nossas experiências quotidianas, tais como as que tratam dos utensílios, da nutrição, das necessidades e das comodidades da existência humana. Pelo contrário, reina hoje nas coisas de ordem moral a mesma confusão que nos tempos de Sócrates» (Ib., p. 396).
§ 808. NEO-EMPIRISMO: NEURATH
A ala extrema das primeiras posições empiristas é representada pelo sociólogo e economista vienense Otto Neurath (1882-1945), que foi um dos filósofos mais importantes do Círculo de Viena e o mais resoluto defensor da unidade de todas as ciências na linguagem (Sociologia empírica, 1931; Unidade da ciência e da psicologia, 1933; Fundamentos das ciências sociais, 1944, na EncicUintern. da ciência unificada). O ponto de vista de Neurath é o de um nominalismo radical que reduz a ciência à linguagem,
16

sem referência a nada externo. «A linguagem, afirma (in «Scientia», 1931, p. 299), é essencial para a


ciência: é apenas no seio da linguagem que ocorrem todas as transformações da ciência, e não num confronto da linguagem com um ‘mundo’, com um conjunto de ‘coisas’, cuja diversidade seria reproduzida pela linguagem. Fazer uma tal tentativa seria entrar no campo da metafísica. Apenas a linguagem científica pode falar da própria linguagem, isto é, uma
parte dela pode falar da outra parte; mas não se
pode passar para além da linguagem». Esta intranscendibilidade da linguagem, é a tese fundamental de Neurath, que se encontra neste ponto em polémica com os outros representantes do Círculo de Viena, especialmente com Carnap e Sclilick («Erkenntnis»,

111, 1932, págs. 204 e segs.; IV, 1933, págs. 346 e


segs.). O critério de verdade das proposições linguísticas não consiste no seu confronto com dados ou experiências imediatas mas sim no seu confronto com outras proposições linguísticas, dentro do sistema universal da linguagem científica. As expressões só podem ser confrontadas com outras expressões; são consideradas verdadeiras quando cabem no sistema linguístico geral e falsas quando não encontram lugar nele, mas não é possível falar de «linguagem» e emitir juízos sobre ela colocando-nos fora da própria linguagem, no ponto de vista da «realidade». Esta é, para Neurath, «a totalidade das proposições», isto é, a linguagem, já que não existe isomorfismo, ou seja, correspondência entre linguagem e realidade, mas sim uma identidade; e como a realidade é a linguagem, também a linguagem é a realidade, isto
17

é, um facto físico ao mesmo título de qualquer outro. É esta a tese do fisicalismo, na sua forma extrema.


Deste ponto de vista, Neurath rejeita a existência de «protocolos originários» relativamente a um sujeito singular, rejeitando deste modo o solipsismo de Carnap. Uma proposição protocolar, enquanto proposição linguística, é em si mesma universal e inter-subjectiva mesmo que inclua nomes próprios e
circunstâncias bem determinadas. É evidente que este ponto de vista deve excluir, como privado de sentido ou como puro lirismo», qualquer problema filosófico que não possa ser formulado na linguagem física, e tende mesmo a reduzir a própria linguagem ao facto físico do som. Neurath formulou nestes termos as premissas de uma sociologia fisicalista, uma parte da ciência unificada que estudaria o comportamento social. Esta sociologia devia limitar-se à observação das correlações de factos existentes entre os fenómenos sociais, tentando prever o
futuro. A sua última formulação deste conceito (na Enciclopédia da ciência unificada), no entanto, refere-se largamente ao carácter incerto e problemático de toda a previsão sociológica.
§ 809. WITTGENSTEIN: LINGUAGEM E FACTOS
A figura dominante do neo-empirismo é a de Ludwig Wittgenstein, nascido em Viena em 26 de Abril de 1889 e falecido em Cambridge a 29 de Abril de 1951. Antes da primeira guerra mundial
18

foi para Cambridge estudar com Russell durante alguns anos. Depois da guerra foi professor em escolas elementares austríacas e esteve em contacto com alguns membros do Círculo de Viena. Em 1929 voltou a Cambridge onde, em 1939, sucedeu na cátedra a Moore. Durante a segunda guerra mundial foi por algum tempo empregado num hospital de Londres. Demitiu-se da cátedra em 1947.


Em 1921 publicava nos «Annalen der Naturphilosophie» o Tratado lógico-filosófico, que no ano
seguinte (1922) foi publicado em Londres, traduzido e prefaciado por Russell. Durante todo o resto da sua vida só publicou um artigo (Observações sobre a forma lógica, nos Actos da «Aristotelian Society»,

1929). Mas deixou inéditos numerosos manuscritos, alguns dos quais correram privadamente a Inglaterra com o nome de Cadernos azuis (Blue Book, 1933-34) e de Cadernos castanhos (Brown Book, 1934-35). Foi deste material inédito que se extraíram mais tarde as Investigações filosóficas., publicadas em 1953, as Notas sobre os fundamentos da matemática, em


1956, e os Cadernos azuis e castanhos, em 1958.
O Tratado e os outros escritos, especialmente os publicados nas Investigações filosóficas, constituem as principais fontes de inspiração das duas correntes fundamentais do neo-empirismo: o Tratado foi a base do neo-positivismo, e os outros escritos da filosofia analítica. A principal fonte de inspiração da primeira fase do pensamento de, Wittgenstein foi a
obra de Russell.
A filosofia de Wittgenstein é substancialmente, nas suas duas faces, uma teoria da linguagem. Com
19

efeito, os termos de que se serve são dois: o mundo, como totalidade de factos, e a linguagem como totalidade de proposições que significam tais factos. As proposições, por sua vez, enquanto palavras, signos, sons, etc., são factos; mas, diferentemente dos outros factos, que ocorrem mas que são mudos, eles têm um significado que consiste precisamente em factos. Estes pressupostos constituem os limites genéricos de todas as investigações de Wittgenstein. No Tratado lógico-filosófico, a relação entre os factos do mundo e os da linguagem é expressa pela tese segundo a qual a linguagem é a refiguração lógica do mundo. Não existe, de acordo com este autor, uma esfera do «pensamento» ou do «conhecimento» que seja mediadora entre o mundo e a linguagem. Afirmações como as seguintes: «A refiguração lógica dos factos é o pensamento» (Tract., 3); «A totalidade dos pensamentos verdadeiros é uma refiguração do mundo» (3.01); «0 pensamento é a proposição significante» (4), equivalem à identificação do pensamento com a linguagem e à extensão ao pensamento da mesma limitação que vale para a linguagem: não é pensável nem exprimível aquilo que não for um


facto do mundo. É este o pressuposto empirista fundamental da filosofia de Wittgenstein.
Como se disse, e na opinião de Wittgenstein, o mundo é «a totalidade dos factos»; mais precisa’ mente, a totalidade dos factos atómicos (Sachverhalte = estados das coisas), isto é, dos factos que ocorrem independentemente uns dos outros (2.04-2.062). Todo o facto complexo é composto por factos atómicos. Por sua vez, um facto atómico é
20

composto por objectos simples, isto é, indecomponíveis, que constituem «a substância do mundo» (2.021). Chama-se forma dos objectos ao conjunto dos modos determinados em que eles se podem combinar nos factos atómicos. É por isso que a forma dos objectos é também a estrutura do facto atómico, sendo o espaço, o tempo e a cor considerados como formas dos objectos (2.0251-2.034).


Os objectos assim entendidos são aquilo a que Mach chamava «elementos» e que identificava com as sensações (§ 785). Segundo Mach, estes elementos entram na composição das coisas e dos processos psíquicos que permitem o conhecimento das coisas. Segundo Wittgenstein, os objectos entram na composição dos factos atómicos que são os elementos constitutivos do mundo e, sob a forma de nomes, na composição das proposições atómicas que são
os elementos constitutivos da linguagem. Com efeito, a proposição é, segundo este autor, a refiguração (Bild) de um facto; mas não no sentido de construção de uma imagem ou cópia e sim no de uma refiguração formal ou lógica do facto, isto é, da representação de uma configuração possível dos objectos que constituem o facto. Toda a refiguração deve ter qualquer coisa em comum com a realidade refigurada. A proposição tem em comum com o facto atómico a forma dos objectos, isto é, uma determinada possibilidade de combinação dos objectos entre si. Isto estabelece a conexão necessária entre as proposições e os factos: conexão que por um lado torna os factos refiguráveis, isto é, exprimíveis na linguagem, e que por outro lado toma válida, ou
21

seja, dotada de sentido, a própria linguagem, garantindo-lhe a sua concordância com o mundo. Deste ponto de vista, uma proposição tem sentido se exprime a possibilidade de um facto: isto é, se os seus constituintes (signos ou palavras) se combinam numa forma que seja uma forma possível de combinação dos objectos que constituem o facto. Wittgenstein afirma que o sentido de uma proposição consiste numa «situação construída através da experiência» (4.031), pretendendo dizer com isto que uma proposição que seja dotada de sentido refigura um facto possível, e possível na medida em que é possível a combinação de objectos que o constituem. O sentido da proposição é diferenciada da sua verdade, que existe quando a proposição refigura não um facto possível mas sim um facto real. A forma afirmativa e a forma negativa da mesma proposição (por ex., « Esta rosa é vermelha», «esta rosa não é vermelha») têm sentido por serem igualmente possíveis; mas só uma delas é verdadeira (4.05-4.061).


Deste ponto de vista, é fácil justificar a validade das ciências empíricas da natureza. Com efeito, «o
mundo é completamente descrito por todas as proposições elementares acrescidas da indicação de quais são verdadeiras ou falsas» (4.26); e «a totalidade das proposições verdadeiras c constitui a ciência natural total ou a totalidade das ciências naturais» (4.11). Mas as ciências são constituídas, para além das proposições elementares, por leis, hipóteses e teorias; acerca do valor destes instrumentos, Wittgenstein assume uma atitude que reproduz a


Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   16


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal