História Universal da Destruição dos Livros Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque Fernando Báez



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V
Andrônico, formado na ilha de Rodes, suposto décimo primeiro diretor do Liceu, realizou a edição definitiva das obras de Aristóteles e Teofrásio. Até 40 a.C. ou 20 a.C., entusiasmado pelos trabalhos de Tiranião, editou as obras e deixou no quinto volume um catálogo de títulos hoje perdido. Porfírio admitiu a existência de uma edição feita por Andrônico, organizada por assuntos e não por datas, edição que ele imitou ao classificar as Enêades de Plotino.

Não há como saber o que Andrônico refundiu, mas mudou a história dos escritos aristotélicos ao provocar o esquecimento de seus livros populares.

Pode ter criado o termo metafísica para se referir aos tratados relacionados com a filosofia primeira. Mouraux, cético ante essa suposição, sugeriu que o catálogo de Laércio já continha o título de Metafísica, mas, dado que existe uma lacuna de cinco títulos na quarta coluna das cinco nas quais foi transcrito o catálogo, pode-se pensar que esse espaço era ocupado, com outros quatro títulos, pela Metafísica. De qualquer maneira, trata-se apenas de uma nova conjetura.

Cícero não conheceu a edição de Andrônico porque morreu em 43 a.C, mas pôde reconhecer precocemente as diferenças existentes entre os escritos exotéricos e os acroamáticos. Em De Finibus (V5,12), estabeleceu que os escritos morais foram "escritos popularmente", como se fossem exotéricos, enquanto os outros eram mais burilados e difíceis. Numa de suas cartas revelou seu gosto por ir à vila do filho de Sila, Fausto, para ler os livros de Aristóteles. Fausto herdou todas as riquezas do pai, entre as quais se sobressaía a biblioteca apreendida em Atenas, e pelo menos durante algum tempo foi o centro de atenção dos intelectuais. O esbanjamento o arruinou e em pouco tempo teve de publicar a lista de seus bens para adjudicá-los em leilão. Com a venda, a biblioteca ficou em casas diferentes e desde então os volumes se perderam.

A única coisa que se sabe é que o imperador Caracala (188-217), numa crise de loucura, mandou queimar muitos dos livros de Aristóteles e da escola peripatética porque o considerava responsável pela morte de Alexandre, isto é, atribuiu-lhe o envenenamento sofrido por ele.
VI
Na história da perda dos escritos de Aristóteles há uma lacuna que deu origem à mais intensa discussão de todos os tempos no âmbito literário. Trata-se do desaparecimento ou destruição do segundo livro da Poética, dedicado ao estudo da comédia antiga e do conceito de catarse. Sua existência foi questionada, mas há provas suficientes para demonstrar o contrário. De fato, aparece em três catálogos da obra de Aristóteles preparados na antigüidade. O comentarista Eustrácio, em 1100, por exemplo, em seus Comentários sobre a Ética Nicomáquia, disse que Aristóteles mencionou o Margites de Homero no primeiro livro da Poética, o que evidencia uma continuação. É o mesmo caso de William de Moerbeke, que, em sua tradução latina da Poética, usou um título ilustrativo: "Primus Aristotilis de arte poética liber explicit." Esse primus fez tremer dezenas de professores de filosofia.

Existem várias teorias a respeito da perda. Cito algumas das mais importantes:

1. Umberto Eco, em O nome da rosa (1980), propôs uma hipótese interessante: o segundo livro foi destruído progressivamente pela Igreja na sua tentativa de conter a influência das comédias.

2. Jacob Bernays se baseou numa citação do filósofo Proclo, em que discutia os efeitos da comédia e da tragédia nas emoções humanas, para mostrar que no século V d.C. ainda se podia ler a obra.

3. Ingram Bywater escreveu que o segundo livro se perdeu quando os livros de Aristóteles estavam em rolos de papiro separados, e por isso não foram transferidos para os códices.

4. Valentín Garcia Yebra, no prólogo de sua tradução castelhana da Poética, colocou que o segundo livro desapareceu pelo desinteresse pela comédia e a elaboração de sinopses cuja superficialidade provocou a falta de cópias da obra original.

5. O helenista Richard Janko teve outra idéia: a Poética era o último dos livros na edição das obras de Aristóteles, o que pode ter ocasionado falta de interesse na reprodução e o volume desapareceu sem deixar outro rastro que a sinopse bizantina, o Tractatus Coislinianus, que, segundo ele, é um resumo desse segundo livro.

Quero destacar que minha suspeita, solitária, cética, procede precisamente da idéia de Janko. O desinteresse foi a verdadeira causa do desaparecimento desse mítico segundo livro, e uma tradição paralela, secreta, persuasiva, começou desde então com sinopses para recuperar o conteúdo: uma dessas tentativas é o famoso Tractatus Coislinianus.


Mais bibliotecas em ruínas
A história cultural da Grécia clássica, como se viu, é também a história de dezenas de bibliotecas desaparecidas. Além das que foram mencionadas, que por sinal são as de maior prestígio, houve outras. - Aulo Gélio comentou que a biblioteca do tirano Pisístrato foi levada pelo persa Xerxes e devolvida pelo rei Seleuco.

No século II a.C., Mar Ibas insistiu em que Seleuco, ao ser nomeado rei, queimou todos os livros encontrados no mundo "porque queria que a contagem do tempo começasse por ele". Nas chamas da biblioteca de Atenas ardeu o manuscrito da História, de Tucídides, e, de acordo com seu estranho relato, Demóstenes voltou a ditar o livro porque o sabia de memória. Segundo Luciano de Samósata, o orador copiou à mão oito vezes esse volume. Outros livros que devem ter queimado foram as edições da Ilíada e da Odisséia, cuja primeira edição escrita foi produzida pelo tirano Pisístrato.

Não há como saber o que aconteceu com bibliotecas como a de Atenas, fundada por Adriano. Os ptolomeus mandaram construir também em Atenas o Ptolemaion, um prédio que tinha uma biblioteca regular. Há uma inscrição onde se pode ler que "[...] dedicaram um copo à deusa mãe e a Estefanoro 17 dracmas, de acordo com o decreto de Dioscorides, filho de Dioscorides de Fegas. Também doaram cem livros à biblioteca no Ptolemaion segundo o decreto [...]".

E, assim como esse texto, conservaram-se outros. Nada sobrou da biblioteca construída por Arquimedes de Siracusa para o tirano Hierão num navio de luxo chamado Alexandrina. Eurípides teve uma extraordinária biblioteca particular, que se dispersou com sua morte.

Na Anábase há uma passagem memorável (VII, 5, 14) em que o narrador, depois de uma tentativa de motim, referiu-se à sua chegada a Salmideso, em cuja costa encontraram "muitas camas, muitas arcas, muitos livros e muitos objetos transportados pelos navegadores em baús [...]". O espetáculo impressionou Xenofonte, aluno e amigo de Sócrates.

Há uma inscrição com um catálogo alfabético relativo à biblioteca de Rodes. A ordem mantida oferece um modelo do que era um catálogo:


Beócios

Aristaichmos, um

Cleon, um

Fedondas ou sobre a [oligarquia]

Sobre a legislação dos atenienses, cinco

Hegésias, Discursos em favor dos atenienses

Aspásia, um

Alcibíades, um

Teodectes, Arte, quatro

Sobre a Anfictionia, um

De Teopompo, Lacônico, um

Corintíaco, um

Mausolo, Olímpico, um

Felipe, um

Encômio de Alexandre, um
Antíoco III, o Grande, fundou uma biblioteca na Síria e designou o poeta Euforião de Caleis (276 d.C.-200 a.C.) como diretor. Uma inscrição do século II a.C. prova que existiu uma biblioteca em Cos, apoiada por benfeitores interessados em contar com melhores textos. Entre outros dados, a inscrição registra uma doação de 100 dracmas. Hoje sequer as ruínas dessas duas bibliotecas subsistem.

A epigrafia tornou possível conhecer outras bibliotecas como a de Milasa, na Ásia Menor. "Em Tauromênio houve, segundo uma inscrição descoberta, uma biblioteca anexa ao ginásio. A mesma coisa se pode dizer de Olímpia, Afrodísia, Corinto, Dirráquio, Edesa, Nisa, na Caria, Prusa, Esmirna, Solos e em Pela, construída por Felipe da Macedônia. Também não sobreviveram.

Em Delfos, houve uma biblioteca com livros de ouro: "Um livro de ouro de Aristômaco de Eritréia, que ganhou o concurso duas vezes com um poema épico, foi dedicado ao tesouro dos Siciônios de Delfos [...].” Temos provas da existência de bibliotecas em Egina, Creta, Chipre e Eritréia, igualmente extintas. Os arquivos dos santuários não se preservaram: nada resta dos textos e registros de Pritaneu, de Metrão, de Dura Europos, de Creofilakião, de Epidauro.

O fim do domínio grego legalizou, por assim dizer, o esquecimento e condenou à destruição milhares de obras e centros intelectuais. Segundo Galeno, fatores como incêndios e terremotos, abundantes nesse tempo, destruíram igualmente incontáveis livros entre os gregos.



CAPÍTULO 6

Israel
A Arca e a destruição das Tábuas da Lei
A história de Israel é a história da relação de um povo com um Deus extremamente ambíguo. Os intermediários desse vínculo se destacaram por sua ira e ciúme, o que pode explicar por que o primeiro líder hebreu foi um destruidor de livros. Como se sabe, Moisés, depois de descer de uma montanha no deserto do Sinai com o escrito redigido por Jeová com o próprio dedo, encontrou o povo adorando um bezerro de ouro e, "num acesso de cólera, atirou as tábuas e as quebrou ao pé da montanha" (Êxodo, 32,19). Além disso, mandou matar irmão, amigo e parente dos culpados; ao fim da sangrenta jornada, morreram três mil pessoas como sacrifício a Deus, que perdoou o povo e convidou Moisés a voltar a lapidar duas pedras para escrever os chamados Dez Mandamentos (Êxodo, 34,1). Essa história se torna mais complexa quando se sabe que Jeová exigiu a construção de uma Arca para guardar as tábuas.

A Arca da Aliança, construída por Besalel (cujo nome significa "à sombra de Deus"), era feita de acácia preta de dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura e um côvado e meio de altura (Êxodo, 25,10), mais ou menos 1,65 m de comprimento por l m de altura e largura. A concepção de seu exterior e interior foi revelada em minúcias a Moisés: "Revistam a arca de ouro puro, por dentro e por fora. E em toda a volta coloquem uma moldura de ouro. Façam também quatro argolas de ouro e ponham nos quatro cantos, ficando duas argolas de cada lado. Façam cabos de madeira de acácia e revistam de ouro. Enfiem os cabos nas argolas nos lados da arca, para que ela possa ser carregada. Os cabos ficarão nas argolas da arca e não serão tirados dela."

A tampa era de ouro, com dois querubins alados de ouro esculpidos nos extremos. Século após século, a Arca constituiu um talismã sagrado contra os inimigos. Esteve em vários lugares até que Jeremias a escondeu numa gruta secreta, onde deveria permanecer (Macabeus, 2,1-8). Nunca mais se soube das tábuas.
O livro de Jeremias
A Bíblia contém outra passagem em que se evidencia a antigüidade da queima de livros no mundo hebraico. O profeta Jeremias ditou suas palavras ao escriba Baruc, que entregou o texto a Judi, um filho de Natanias, que por sua vez não hesitou em levá-lo ao rei:

[...] O rei estava sentado na residência de inverno - estava-se no nono mês - e o fogo do braseiro ardia diante dele. E havendo Judi lido três ou quatro colunas, o rei as cortava com o canivete do escriba e as jogava no fogo do braseiro, até que o rolo inteiro ficasse consumido [...]. (Jeremias, 36, 22-23)

A destruição desse texto não impediu que tivéssemos o atual livro de Jeremias, mas anunciou as perseguições que os romanos poriam em prática.
A adoração do livro hebraico
A idéia de um livro ditado por Jeová fez os judeus acreditarem que se tratava de um livro sagrado, cujo sentido encerrava toda a racionalidade possível do mundo. O curioso dessa tradição está em suas conseqüências: ao considerar sagrados os livros, cada letra passou a ter uma significação mágica (estudada pela Cabala), mas em seu idioma original e em nenhum outro.

Existia uma tendência à proteção das escrituras. O historiador Flávio Josefo contou que os judeus preferiam deixar-se matar a aceitar a profanação de seus textos. Uma das razões do levante dos macabeus foi justamente a destruição de obras pelos soldados de Antíoco IV: "[...] e os livros da Lei que encontravam eram rasgados e lançados ao fogo. Quem fosse encontrado com um livro da Aliança em seu poder e observada a Lei, era, em virtude do decreto do rei, condenado à morte [...]".

No entanto, os romanos reprimiram o orgulho judaico e devastaram muitos livros. A destruição de Templo de Jerusalém no ano 70 acabou com centenas de textos, embora os judeus conseguissem esconder alguns. O próprio Josefo se arriscou para salvar volumes do Templo. Segundo uma hipótese atual, no Templo havia oficiais religiosos; o restante eram cópias feitas por escribas competentes.

Os manuscritos do Mar Morto
Em 1947, jovens beduínos que perseguiam uma cabra entraram numa gruta a leste do Mar Morto, perto das ruínas da antiga comunidade de Qumran, e para sua surpresa, encontraram vários jarros cilíndricos que continham manuscritos sagrados. Divulgado o achado, arqueólogos e teólogos iniciaram a exploração de 11 grutas e conseguiram recuperar uma biblioteca escondida durante dois mil anos, com rolos intactos e alguns outros destruídos, que são, para os filólogos, uma charada sinistra (15 mil fragmentos).

Os textos, escritos em hebraico, aramaico e, excepcionalmente, em grego, são extraordinários. O primeiro aspecto surpreendente é que se trata da primeira coleção conhecida de escritos do Antigo Testamento. Até então, o Códice Alepo, do século X, era o códice bíblico mais antigo. Assim, há uma cópia do livro de Isaías anterior em mais de mil anos a qualquer outra. O segundo aspecto se relaciona com o próprio ato de esconder a biblioteca: foi deliberadamente oculta nas grutas nos anos 66 ou 70, quando as tropas romanas combatiam os judeus rebeldes. O terceiro aspecto é que a escrita dos rolos é atribuída aos essênios.

Como quarto aspecto, convém destacar o material usado: quase todos os manuscritos são feitos de peles, papiros e pelo menos um de cobre. Escritos com uma tinta à base de carvão, não mostram preocupação para com os sinais de pontuação ou divisão dos parágrafos e, como muitos manuscritos gregos, tampouco respeitam os espaços entre palavras. O mais extenso deles, chamado Manuscrito dos Salmos, apareceu em 1956 na Gruta 11, e as colunas conservadas apresentam de 14 a 17 linhas. O Tetragramaton, a quarta letra do nome divino de Deus, surge nesse manuscrito para glorificar seu poder. Como quinto aspecto, os rolos foram divididos em três categorias: bíblicos, apócrifos e sectários.

A prova do temor causado por esses manuscritos é a história do jesuíta José O'Callaghan. Esse erudito estudou durante toda a vida um pedacinho de papiro encontrado na Gruta 7, descoberta em 1955, e se atreveu a afirmar, num artigo de 1972, que o fragmento de papiro conhecido como 7Q5 é um fragmento do Evangelho de São Marcos (6,52-53), escrito provavelmente no ano 50, o que significa, entre outras coisas, que esse diminuto texto, com apenas algumas letras, demonstra de forma contundente a existência histórica de Cristo, porque sua composição é apenas posterior à sua morte em cerca de trinta anos. Tal achado lhe valeu certamente toda espécie de críticas violentas e ataques tolos. Os teólogos não parecem preparados para admitir a existência de Cristo para além da fé.


Os profetas bibliófagos
Os raros casos de bibliofagia (isto é, de "livros comidos") mais famosos estão descritos no Antigo e no Novo Testamento. Ezequiel disse que Deus lhe apresentou um papiro e ordenou:

"Abre bem tua boca e come o que te vou dar." Olhei então e eis que uma mão se estendia para mim e nela havia um livro em forma de rolo. E o livro desenrolou-se diante de mim e vi que a escrita cobria ambos os lados; e o que nele estava escrito eram lamentações, gemidos, ais.

E disse-me: "Homem, come este rolo e depois vai falar aos filhos de Israel." Abri a boca e Ele fez-me comer o rolo. E disse-me: "Homem, alimenta teu ventre e enche tuas entranhas com este rolo que te estou dando." Comi-o e eis que na minha boca parecia doce como mel. (2,8 e 3,1-4).

No Apocalipse de João de Patmos se retoma essa idéia de engolir uma obra:

[...] Então a voz que ouvi do céu falou-me de novo e disse: "Vai, e toma o pequeno livro aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e a terra." Fui eu, pois, ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o pequeno livro. E ele me disse: "Toma, e devora; ele te será amargo nas entranhas, mas te será, na boca, doce como mel." E tomei o pequeno livro da mão do anjo, e comi-o! E ele era, na minha boca, doce como o mel; mas depois de o ter comido, amargou-me nas entranhas. Então me foi dito: "Urge que ainda profetizes de novo a numerosas nações, povos, línguas e reis [...]." (10,8-11)
Sem dúvida, o sabor doce e amargo deve se referir ao conteúdo, belo na superfície e forte no interior. Engolir o livro garantia a transferência de propriedades, a transmissão de conhecimentos. Em vez de lê-lo, o bibliófago recebe diretamente o ensinamento e fica capacitado a falar várias línguas ou se expressar de forma mais segura.

Por volta de 130 d.C., Artemidoro escreveu sobre os sonhos e em seu catálogo mencionou aqueles em que se comem livros: "[...] Sonhar que come um livro é bom para pessoas instruídas, para sofistas e para todos aqueles que ganham a vida dissertando sobre livros [...]."

Muitos povos eram antropófagos para obter poderes sobrenaturais. Se assumiam as propriedades divinas de um livro, acreditando-se ser ele parte de Deus, não nos deve parecer estranha a ambição de devorá-lo. Gérard Haddad afirmou que "comendo o Livro de seu grupo de origem, cada pessoa sofre uma profunda metamorfose. Pela identificação amorosa com seu grupo, com a inscrição numa genealogia que ela implica, recebe aptidão futura para engendrar, para se converter por sua vez em homem e pai nesse grupo
CAPÍTULO 7

China
Shi Huandi, o Destruidor
Zhao Zheng se tornou em 246 a.C., aos 13 anos, líder de Qin, um dos tantos feudos nos quais estava dividida a China antiga. A pouca idade do rapaz, por certo, entusiasmou os inimigos, mas se tratou de uma apreciação superficial e não de uma avaliação correta. De nariz proeminente, olhos grandes, voz forte e hábitos de guerra, filho da concubina de um comerciante endinheirado, Zhao Zheng não pôde exercer a autoridade até 238 a.C., mas assim que se tornou rei matou o amante da mãe e mandou para o exílio o tutor regente.

Logo começou a campanha contra o restante dos feudos dominantes e os subjugou um a um. Acreditava que as causas das intermináveis guerras na região residiam na condição feudal. Tentaram assassiná-lo, mas, como sempre acontece nesses casos, fortaleceram sua coragem. Em 230 venceu o último príncipe Han. Em 228 capturou Hantan. Em 226 conquistou Yan. Em 225 acrescentou ao seu território Daliang, capital de Wei. Em 223 subjugou Chu. Em 221, Qi, na atual província de Shandong, foi sua. Em 220, uma campanha feroz o tornou dono de Fujiang e Guangxi. Já em 215 a.C. era dono de um verdadeiro império, e mandou colocar uma inscrição em Taizhan: "Juntei todo o mundo pela primeira vez."

Não hesitou em matar, subornar e destruir todos os opositores, convertendo-se, ao mesmo tempo, em monarca rico e poderoso. Além disso, era ansioso, ególatra e nunca benevolente. Um dia decidiu adotar um título universal para declarar sua majestade. Proclamou-se então Huandi (augusto soberano) e, certo de sua imortalidade, colocou antes desse título o de Shi (Primeiro), e assim se tornou Shi Huandi. Seguindo uma tradição, considerou oportuno basear sua dinastia em três princípios: o número 6, a água e a cor preta.

Assessorado por seu leal ministro Li Si, um dos discípulos mais inteligentes de Xunzi, da escola dos legalistas, impôs a doutrina da lei. Medidas, pesos, largura das estradas, roupas, opiniões, formas de luta e até o idioma, tudo foi uniformizado. Centralizou o exército, sujeitou muitas atividades econômicas a controles que implicavam, quase sempre, a conversão dos comerciantes em agricultores. Criou 36 distritos com administradores cuidadosamente vigiados. O historiador Arthur Cotterell disse: "Em sua luta para impor a uniformidade se converteu num dos grandes destruidores da História [...]."

Misterioso, Shi Huandi nunca se deixava ver, e era impossível saber em qual de seus 260 palácios se encontrava. No fundo, não queria só impressionar, mas reduzir as chances de seus inimigos. Viajava sem avisar para lugares remotos, em busca do elixir da imortalidade ou para seduzir virgens. Venerava, com a paixão dos déspotas, o reinado da ordem.

Com objetivo militar fez com que o general Meng Tian, à frente de trezentos mil soldados, unisse em 214 a.C. as antigas muralhas nas frias terras da fronteira do norte, para assim consolidar uma única Grande Muralha, destinada a conter as invasões dos xiongnus. Na construção desse bastião militar morreram milhares de homens, mesmo sem concluí-lo. Foi reformada no século IV e complementada nos séculos XV e XVI. Também mandou construir uma tumba monumental, perto de Xianyang, na qual trabalharam setecentos mil homens durante 36 anos. Como guardas de seu estranho mausoléu foram esculpidos milhares de soldados de terracota.

Em 213 a.C, ano em que um grupo de homens tentava reunir todos os livros em Alexandria, Shi Huandi mandou queimar todos os livros, exceto os que tratavam de agricultura, medicina ou profecia. Entusiasmado por suas ações contra a casta dos letrados, criou uma biblioteca imperial dedicada a defender os escritos dos legalistas, defensores de seu regime, e mandou confiscar o restante dos textos chineses. De casa em casa, os funcionários se apoderaram dos livros e os queimaram numa pira, para surpresa e alegria de quem não os tinha lido.

O pior delito era esconder um livro, punido com o envio do infrator para trabalhar na construção da Grande Muralha. Sima Qian (por volta de 145a.C.-85 a.C.), o grande cronista da China, relatou assim o acontecimento:

[...] As histórias oficiais, com exceção das Memórias de Ts'in, devem ser queimadas. Menos as pessoas que ostentam o cargo de letrados de vasto saber; aqueles que no império ousem esconder o Shi King e o Schu King ou os discursos das Cem Escolas deverão se dirigir às autoridades locais, civis e militares para que os queimem. Aqueles que ousem dialogar entre si sobre o Shi King e o Schu King serão aniquilados e seus cadáveres expostos em praça pública. Os que se servem da antigüidade para denegrir os tempos presentes serão executados juntamente com seus parentes. [...] Trinta dias depois que o decreto seja promulgado, aqueles que não queimaram seus livros serão marcados e enviados a trabalhos forçados [...].
Centenas de letrados teimosos morreram nas mãos dos verdugos e suas famílias sofreram incontáveis humilhações. Além disso, essa medida acabou com centenas de escritos recolhidos em ossos, conchas de tartaruga e tabletas de madeira.

Shi Huandi odiava os escritos de Kongfuzi ou Confúcio e os mandou queimar. Alguns anos mais tarde, quando limpavam a Biblioteca Central, os serventes descobriram uma cópia escondida dos escritos de Confúcio. Não é impossível que um bibliotecário enganasse dessa forma a autoridade constituída.

Em 206 a.C., no entanto, aconteceu um fato alheio aos planos do imperador: a guerra civil não respeitou a condição venerável da biblioteca, que foi arrasada. Só em 191 a.C., durante a dinastia Han, pôde se reconstituir a memória da China, pois numerosos eruditos conservaram na memória livros inteiros e, salvo alguns descuidos que ainda hoje perturbam os sinólogos americanos, puderam recompor a literatura de seu tempo.
A perseguição aos textos budistas
O período de destruição de livros iniciado por Shi Huandi não cessou nos anos seguintes. Por volta de 99 a.C., o cronista Sima Qian, chamado o Heródoto oriental por sinólogos europeus, não descreveu corretamente a magnificência, o poder e a legitimidade do imperador ao se referir às lutas contra os invasores hsiung-un, e essa falta de delicadeza de sua parte, talvez a timidez de certos adjetivos, custou-lhe um julgamento que culminou com sua castração e a queima do material. Hoje se lê seu texto Shiji de maneira incompleta.

A introdução do budismo na China foi acidentada. Os neo-confucianos repeliram o budismo por considerá-lo não-substancial, por sua teoria da renúncia e do vazio. Assim como no passado os confucianos foram perseguidos pelos membros da escola legalista, eles combateram e provocaram o desprestígio do budismo. Em todo caso, o Mahayana, ou Grande Veículo, conseguiu se impor a partir do século I d.C. depois da adaptação de expressões como sangha, ou comunidade de monges, e a revisão das relações de família e da iluminação. A possibilidade de qualquer pessoa poder ser um Budhisattva, ou Salvador, se propagou no espírito popular. Durante esse processo, não foram poucas as vezes em que os textos budistas sofreram confisco e destruição. As perseguições a monges e livros ocorreram quase desde o princípio e se acirraram de 446 a 452, em 574 e ainda Wuzong, em 845, mandou arrasar 4.600 templos e dezenas de escritos.

Na chamada Rota da Seda, na China, descobriu-se, em 1900, uma série de grutas no setor sul de Dunhuang, em Mogao,227 um oásis em meio ao terrível deserto de Gobi, e em seu interior foram encontrados milhares de textos sagrados do budismo, muitos em bom estado, mas outros em fragmentos, pertencentes aos séculos V ao XI. Ao que parece, as grutas começaram a ser pintadas e utilizadas desde 366, quando o bonzo Yuezun escavou, depois de uma visão, a primeira gruta. Ao longo de 1.500 anos, desde os Dezesseis Reinos até a dinastia Yuan, manteve-se esse espírito que levou à idéia da Cova dos Cânones Budistas, uma espécie de biblioteca onde foram guardados cinqüenta mil manuscritos e obras artísticas. Com esse depósito de livros sagrados se pretendeu proteger uma cultura de qualquer possibilidade de censura. O número de grutas do setor sul ultrapassou quinhentas. Nas 243 grutas do setor norte havia livros de sutras em oito idiomas: chinês, tibetano, uigur, sânscrito, xixia, basba, uigur-mongol e sírio. Entre outros, apareceu o misterioso livro Ouro quebrado e alguns fragmentos do livro Sutras originais, de Ksitigarbha, o único exemplar existente.



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