Histórias de canções: Chico Buarque



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Histórias de canções

CHICO BUARQUE

Wagner Homem

LeYa


3ª reimpressão

Copyright © Wagner Homem, 2009.

Coordenação editorial Pascoal Soto

Assessoria editorial Leonel Prata

Assistência editorial Max Gimenes

Preparação de textos Fátima Couto

Revisão de texto Tulio Kawata

Capa Sérgio Campante

Projeto gráfico e diagramação Amanda Dafoe

Foto do autor Ana Elisa Valente Homem


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

___________________________________________________________________

Homem, Wagner

Histórias de canções : Chico Buarque / Wagner Homem. -- São Paulo : Leya, 2009.

ISBN 978-85-62936-02-9

1. Buarque, Chico, 1944- 2. Buarque, Chico, 1944- - Canções e música - História 3. Compositores - Brasil 4. Música popular - Brnsll - Letras 5. Músicos - Brasil I. Título.

09-09916 CDD-781.630981

___________________________________________________________________

Índices para catálogo sistemático:

1. Canções : Buarque, Chico : Música popular

brasileira : História 781.630981

2009

Todos os direitos desta edição reservados à



TEXTO EDITORES LTDA.

[Uma editora do grupo Leya]

Av. Angélica, 2163 - Conjunto 175/178

01227-200 - Santa Cecília - São Paulo - SP - Brasil

wwwleya.com

Abas
Tenho com Chico a amizade mais sólida que construí nesses quarenta e alguns anos de profissionalismo.

Digo sempre que ela é protegida pela distância. Nos conhecemos naqueles primeiros minutos que sucedem a adolescência, e tantas águas rolaram, entre acordes, viagens, risos, gravações e pequenas dissonâncias: sou corintiano e ele tricolor, e jogando futebol nos consideramos, sem dúvida nenhuma, um melhor que o outro.

Mantemos vivo até hoje um código de humor único. Críamos vários personagens pela vida afora, e às vezes me surpreendo tendo certeza da existência deles.

DORVALZINHO, ex-craque brasileiro radicado na Itália, hoje muito bem de vida, casado com um famoso proprietário de uma famosa grife italiana; JURURU, endiabrado e bem dotado indiozinho, que poucos dias atrás foi preso por não pagar pensão alimentícia a nove filhos de seis mulheres diferentes; ZE L., um convincente amigo a quem Chico depositava, e creio que ainda deposita, exagerada confiança; isso sem falar de um longínquo país que visitamos, construído em meio a altas montanhas: Téresa, Terésa ou Teresá (nunca se soube a pronúncia certa). Tinha um rei e um idioma de uma palavra só: olorô, que, aliás, originou uma das primeiras canções que fiz com Vinícius: "Olorô Bahia". Onde Começa a mentira e acaba a verdade?

Bem, Wagner, isso tudo pra dizer que a ideia de escrever um livro contando histórias verdadeiras de músicas verdadeiras de um compositor verdadeiro é maravilhosa. Músicas têm histórias, e é bom saber delas, principalmente das de Chico.

Adorei o livro. Saudade de você, Chico, parceiro e amigo, que leva consigo pedaços importantes da minha vida; e boa sorte a você, Wagner, nessa nova e criativa empreitada.

Toquinho
Aba 2



Wagner Homem nasceu em Catanduva (SP), em 1951. É "deformado", segundo ele mesmo diz, em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e hoje atua na área de Tecnologia da Informação.

Desde 1965, quando ouviu "Pedro Pedreiro", Wagner se interessa pela obra de Chico. Em 1998, quase dez anos após conhecer Chico Buarque, ele sugeriu ao músico a produção de um site pessoal, contendo toda a sua obra. Com o layout aprovado e todas as letras revisadas pelo próprio Chico, ele começou a incrementar o site, colocando em um link denominado "Notas" fatos interessantes da obra de Chico que ouvia ou lia nos mais variados lugares. A seção cresceu e passou a ser uma das mais procuradas pelos internautas, curiosos para conhecer os bastidores da vida do artista.

O site viria a ganhar, por três anos consecutivos, o prêmio iBest, concurso de websites corporativos e pessoais criado em 1995 para incentivar as iniciativas do mercado que acabava de nascer e que hoje se consolidou como mania nacional. Além do site de Chico, Wagner Homem fez também o da cantora Maria Bethânia e o do escritor Mario Prata.
Para as minhas Anas, Carolina, Elisa e Luiza.

Sumário
11 As primeiras canções

17 1964/66

Se todo mundo sambasse seria tão fácil viver

51 1967

Mas eis que chega a roda-viva

63 1968

Um marinheiro me contou

que a brisa lhe soprou

que vem aí bom tempo

77 1969/71

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia

105 1972/73

Deus me deu pernas compridas e muita malícia

pra correr atrás de bola e fugir da polícia

123 1974

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

131 1975

E qualquer desatenção, faça não,

Pode ser a gota d'água

139 1976

Mas o que eu quero é lhe dizer

Que a coisa aqui tá preta

155 1977

Eu era tão criança, e ainda sou,

querendo acreditar que o dia vai raiar

165 1978

Pois já não vales nada, és página virada,

descartada do meu folhetim

179 1979

Jamais cantei tão lindo assim

189 1980

Ah, se já perdemos a noção da hora,

se juntos já jogamos tudo fora,

me conta agora como hei de partir

197 1981

O que é bom para o dono é bom para a voz

207 1982

Me ensina a não andar com os pés no chão.

Para sempre é sempre por um triz

213 1983

Quando eu choro de rir, te perdoo por te trair

223 1984

Nossa pátria-mãe tão distraída,

sem perceber que era subtraída

em tenebrosas transações

235 1985

Eis o malandro na praça outra vez,

Caminhando na ponta dos pés

241 1986

Te quero, te quero, dizer que não quero

teus beijos nunca mais

247 1987/88

Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente

257 1989

Para Mané para Didi para Pagão para Pelé e Canhpteiro

265 1990/93

Meu maestro soberano foi Antonio Brasileiro

277 1994/97

Soberba, garbosa, minha escola é um cata-vento a girar.

É verde, é rosa. Oh, abre alas pra Mangueira passar

287 1998

Cidade maravilhosa, és minha.

O poente na espinha das tuas montanhas

quase arromba a retina de quem vê,

de noite, meninas, peitinhos de pitomba

299 2000/01

Guarde numa caixa preta a tímida canção,

no fundo falso da gaveta do coração

307 2005/09

Lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente.

Que futuro tem aquela gente?

Perdido em ti, eu ando em roda.

É pau, é pedra, é fim de linha, é lenha, é fogo, é foda

322 Cronologia

335 Bibliografia

337 Agradecimentos

339 Índice onomástico

350 Índice das canções

As primeiras canções


O país que viu nascer a nova geração de compositores da MPB (Música Popular Brasileira) saía do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) Enquanto o mundo tentava curar as feridas da Segunda Guerra, no Brasil o estado de direito ainda engatinhava quando foi sacudido pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. Em que pese o trauma, as eleições daquele ano ocorreram na data prevista, e em 1955 Juscelino se elegeria presidente da República.

Não obstante as tentativas da UDN (União Democrática Nacional), sob a liderança de Carlos Lacerda, de impedir sua posse, ele assumiu em 31 de janeiro de 1956. Imediatamente solicitou ao Congresso a suspensão do estado de sítio e aboliu a censura à imprensa. Na primeira reunião ministerial, expôs o que ficou conhecido como Programa de Metas, que, com o lema "Cinquenta anos em cinco", fazia uma clara opção pelo desenvolvimento quase que a qualquer custo. A ampliação e diversificação do parque industrial, a construção da nova capital, Bra­sília, com projeto do urbanista Lúcio Costa e prédios do arquiteto Oscar Niemeyer, e a conquista da Copa do Mundo de Futebol, na Suécia, em 1958, infundiam na população um orgulho jamais visto.

Ao desenvolvimento econômico correspondia uma efervescência cul­tural. Em 1955, Nelson Pereira dos Santos leva às telas o filme Rio 40 graus, que se tornou um marco do que viria a ser conhecido como Cine­ma Novo. No teatro, o povo torna-se protagonista na peça Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pelo Teatro de Arena, em São Paulo, em 1958. No mesmo ano, também em São Paulo, é criado o Teatro Oficina, cujas produções balançaram a cena durante décadas. Ainda na dramaturgia, surgem novos autores, como o polêmico Plínio Marcos, com a peça Barrela.

Em agosto saía pela Odeon o compacto simples de João Gilberto trazendo no lado B "Bim bom", de sua autoria, e no lado A "Chega de sau­dade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que daria nome ao revolucio­nário LP de 1959. Era a Bossa Nova, estilo que até hoje, 51 anos depois, influencia músicos em todo o planeta. Chico era, então, um adolescente.

11
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de junho de 1944, Francisco Buarque de Hollanda foi o quarto filho dos sete que o historiador Sérgio Buarque de Holanda teve com Maria Amélia Cesário Alvim. Dois anos depois, Sérgio é convidado a dirigir o Museu do Ipiranga, e a família transfere-se para São Paulo, onde nascem as três irmãs mais novas. Essa pequena trupe muda-se em 1953 para a Itália, lá permanecendo por dois anos, enquanto Sérgio leciona na Universidade de Roma.

Embora Chico afirme em diversas entrevistas que a atração pela lite­ratura é anterior ao gosto pela música, um fato chama a atenção: antes de partir para Roma, deixou para a avó um bilhete, de uma crueldade ingênua, só permitida às crianças: "Vovó Heloísa. Olhe vozinha não se esqueça de mim. Se quando eu chegar aqui você já estiver no céu, lá mesmo veja eu ser um cantor do rádio".

São dessa época suas primeiras aventuras musicais - marchinhas de carnaval, influência, talvez, do que ouvia no rádio da babá índia. Curiosa­mente, foi essa índia que, anos depois, introduziu a primeira televisão na casa dos Buarque de Holanda.

Na Itália, Chico estudou em escola americana, e em pouco tempo falava três idiomas: português em casa, italiano na rua e inglês na esco­la. De volta a São Paulo, cursou o Colégio Santa Cruz, de padres cana­denses progressistas, e ali escrevia contos e crônicas no jornal escolar Verbâmidas. A experiência levou-o a acreditar que um dia seria escritor. Mas o LP Chega de saudade adiou esse sonho por alguns anos. A batida inconfundível de João Gilberto, com seus acordes econômicos, o arreba­tara para a música.

Não só a ele. Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros que viriam a integrar o primeiro time da MPB foram picados pela mesma mosca. A forma intimista da Bossa Nova, com apenas um banquinho e um violão, sem a necessidade de um vozeirão impostado, facilitava a vida de quem desejasse se aventurar por esse caminho.

Chico se lembra de que passava horas com um amigo tentando imitar os acordes do genial baiano. Da imitação para a composição foi um pulo. Uma de suas primeiras músicas, "Canção dos olhos" (1959), cantada à exaustão nos barzinhos e shows escolares, é uma cópia deslavada do estilo de João Gilberto,conforme o próprio Chico reconhece em sua entrevista ao MIS (Museu da Imagem e do Som) em 1966.

12
Em 1961 assume a presidência da República o ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, que renuncia após sete meses de uma ges­tão tumultuada. Não menos tumultuadas foram a posse e o governo do vice João Goulart. Identificado pelos militares como homem de esquerda, Jango assumiu com poderes reduzidos, num improvisado regime parla­mentarista instaurado em setembro de 1961 e que duraria até o início de 1963, quando um plebiscito restaurou o presidencialismo.

Investido de poderes presidenciais, Jango adotou o projeto do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) denominado Reformas de Base - um con­junto de propostas que visava promover alterações nas estruturas econô­micas, sociais e políticas que garantissem a superação do subdesenvol­vimento e permitissem uma diminuição das desigualdades sociais.

No cenário externo, vivia-se a afirmação da Revolução Cubana (1958- 59) e a crise dos mísseis soviéticos (1962) instalados em Cuba - que por pouco não levou a um confronto nuclear as duas superpotências de en­tão, União Soviética e Estados Unidos.

Em 1963, Chico ingressa na FAU (Faculdade de Arquitetura e Ur­banismo da Universidade de São Paulo), menos por escolha do que por falta de alternativa. Para música não havia boas escolas, e o curso de Letras era tido, na época, como coisa para mulheres. E do futebol, outra de suas paixões, ele desistiu após ter treinado no minúsculo Clube Atlético Juventus, na Mooca, em São Paulo. O urbanismo, então, afigurava-se como a saída para quem, desde criança, desenhava ci­dades imaginárias.

O golpe de 1964 jogou um balde de água fria na efervescência política que ele vivia no ambiente universitário, ainda que de forma discreta. Decepcionado, sua atenção se voltava cada vez mais para a música. Logo, o "Carioca", como era conhecido, batizou de "sambafos" os encontros com amigos num barzinho próximo ao Mackenzie, para tocar violão, cantar e, evidentemente, exalar o hálito da bebida que consumiam. O hino do grupo era o samba "Oba", de Osvaldo Nunes, que exaltava o bloco carnavalesco Bafo da Onça.

13
Essa onda que eu vou

Olha a onda, iaiá

É o Bafo da Onça que acabou de chegar

Essa onda que eu vou

Olha a onda, iaiá

É o Bafo da Onça que acabou de chegar
Pipocavam em São Paulo shows de música em que na primeira parte se apresentavam os novatos e na segunda apareciam nomes já consagra­dos. O Carioca do sambafo participou de vários deles, mostrando suas composições. Além de "Canção dos olhos", apresentava "Marcha para um dia de sol" (provavelmente de 1960-61, já que nem Chico se lembra mais).
Eu quero ver um dia

numa só canção

o pobre e o rico

andando mão em mão

que nada falte

que nada sobre

o pão do rico

o pão do pobre...


Pela abordagem ingênua da questão social, a canção logo foi apeli­dada, para desgosto do autor, de "João XXIII", numa referência ao papa que publicara as encíclicas Mater et magistra (1961) e Pacem in terris (1963). É possível, porém, que o tom conciliatório da letra derive de uma experiência vivida por Chico quando ainda estudava no Santa Cruz. Como membro da OAF (Organização de Auxílio Fraterno), ele ia com regularida­de até a região da Estação da Luz entregar cobertores e outras doações aos moradores de rua.

Em entrevista para Tarso de Castro, na Folha de S.Paulo de 11-9-1977, mesmo considerando o caráter assistencialista da ação, ele admite a im ­portância que isso teve na sua formação: "... pra um cara como eu, quo morava ali no que seria a Zona Sul de São Paulo [...] e que estudou em colégio de menino rico, de repente ter essa missão, duas vezes por semana, era multo importante".

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Levado pela irmã mais velha, Miúcha, Chico cantou a marcha num dos redutos da boa música da época, o João Sebastião Bar, onde ouviu a pro- messa da grande estrela do local, Claudette Soares, de que iria gravá-la. Ficou só na promessa. A cada novo disco da cantora ele corria pra ver se sua música estava lá — e nada.
Na última hora, saía o disco, eu procurava e não tinha a música, e eu morria de triste [...] Ela foi gravada quando eu já não acreditava nela. Quando eu acreditava nela, ninguém acreditava em mim, por­que eu era muito moleque. Quando parei de acreditar nela, eu já estava mais crescido, então resolveram gravar — mas aí a música já não tinha mais sentido nenhum...
admitiria no depoimento ao MIS. Ele se referia ao fato de a cantora Maricene Costa ter gravado a música em 1964, quando ele já havia perdido o interesse por ela: "Nem João XXIII concorda com aquele tipo de ecumenismo social. Não adianta conciliar rico e pobre, o negócio é não haver distinção", diria ele em entrevista para a revista Realidade em 1967.

Gostando ou não, foi a primeira vez que suas composições puderam ser ouvidas em disco, embora na voz de outrem.

Era só treino. O jogo ainda estava por começar.

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(Figura 001)

Jair Rodrigues ("Disparada"),

Nara Leão e Chico Buarque ("A banda")

recebem o prêmio de primeiro lugar no

II Festival de Música Popular Brasileira.
[OBS.: No livro não há imagens coloridas, todas são em P&B]

16
1964/66

Se todo mundo sambasse seria

tão fácil viver


O cenário para o início do jogo era o Brasil do regime militar. Em 1º de abril de 1964, um golpe depôs o presidente João Goulart. No dia 9 do mesmo mês, um Ato Institucional cassou quarenta mandatos de par­lamentares.

A censura começa a mostrar as garras ao proibir (e depois liberar) a exibição do filme Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. No mesmo mês estreia no Rio a peça Liberdade, liberdade, de Millôr Fernan­des e Flávio Rangel. Em São Paulo, o Teatro de Arena monta Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com músicas de Edu Lobo. Em dezembro, o show Opinião, no Rio de Janeiro, colocava lado a lado Nara Leão — expoente da Bossa Nova — e os compositores populares Zé Kéti e João do Vale.

Em 1965, o Ato Institucional nº 2 dissolve os partidos políticos e esta­belece o bipartidarismo, em que a Arena (Aliança Renovadora Nacional) apoia o regime, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) reúne a es­quálida oposição. Ainda no mesmo ano é inaugurada a TV Globo, que se transformaria na maior rede de televisão do país.

17
Tem mais samba (1964)

Chlco Buarque

Para o musical Balanço de Orfeu, de Luiz Vergueiro


Tem mais samba no encontro que na espera

Tem mais samba a maldade que a ferida

Tem mais samba no porto que na vela

Tem mais samba o perdão que a despedida

Tem mais samba nas mãos do que nos olhos

Tem mais samba no chão do que na lua

Tem mais samba no homem que trabalha

Tem mais samba no som que vem da rua

Tem mais samba no peito de quem chora

Tem mais samba no pranto de quem vê

Que o bom samba não tem lugar nem hora

O coração de fora

Samba sem querer
Vem que passa

Teu sofrer

Se todo mundo sambasse

Seria tão fácil viver


Chico considera essa canção o marco zero de sua carreira profissional. Foi uma encomenda feita pelo produtor Luiz Vergueiro para o show Balanço de Orfeu, que estreou em 7 de dezembro de 1964 no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo.

Em depoimento para o jornalista e escritor Humberto Werneck, Luiz conta que a música funcionaria como uma espécie de moral da história para o confronto entre a Bossa Nova e a Jovem Guarda. A canção seria cantada no final do espetáculo, por todo o elenco, numa mais do que esperada vitória da Bossa Nova.

A primeira sugestão de Chico não satisfez o diretor, e a música só ficou pronta na véspera da estreia. Era "Tem mais samba" — que, além de marco inicial, indicaria "uma das constantes em seu trabalho: a criação por encomenda [aquela foi a primeira], contra o relógio, mas nunca em prejuízo da beleza e do prazer de criar", segundo Werneck.

18
Juca (1965)

Chico Buarque
Juca foi autuado em flagrante

Como meliante

Pois sambava bem diante

Da janela de Maria

Bem no meio da alegria

A noite virou dia

0 seu luar de prata

Virou chuva fria

A sua serenata

Não acordou Maria


Juca ficou desapontado

Declarou ao delegado

Não saber se amor é crime

Ou se samba é pecado

Em legitima defesa

Batucou assim na mesa

O delegado é bamba

Na delegacia

Mas nunca fez samba

Nunca viu Maria


Durante um dos "sambafos", o grupo fazia tanto barulho que os vizi­nhos chamaram a polícia. Enquanto os guardas tentavam encerrar a cantoria, Chico improvisou os versos que depois seriam incorporados à letra de "Juca": "O delegado é bamba/ Na delegacia/ Mas nunca fez samba/ Nunca viu Maria".

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Lua çheia (1965)

Toquinho-Chico Buarque
Ninguém vai chegar do mar

Nem vai me levar daqui

Nem vai calar minha viola

Que desconsola, chora notas

Pra ninguém ouvir
Minha voz ficou na espreita, na espera

Quem dera abrir meu peito

Cantar feliz

Preparei para você uma lua cheia

E você não veio

E você não quis


Meu violão ficou tão triste, pudera

Quisera abrir janelas

Fazer serão

Mas você me navegou

Mares tão diversos

E eu fiquei sem versos

E eu fiquei em vão
O amigo e compositor Toquinho lembra como surgiu a primeira parce­ria dos dois e sua primeira canção gravada em disco:
Eu estava com uma das moças que faziam a coreografia, dançando no show Balanço de Orfeu. Chamava-se Vera, morena, alta, corpo bem-feito. Por sua vez, Chico habituara-se a passar quase todas as noites no teatro, pelo gostinho de ouvir sua música, e às vezes esticava a noite com a gente. Num dos jantares na casa do diretor, na intimidade de uísques e outras fontes de inspiração, enquanto eu tocava uma música, Chico aproveitava o embalo e, brincando com a moça, inventava versos com rimas em "era": "Linda noite que te espera, oh, Vera/ Quisera abrir janelas, fazer serão...". No dia seguinte, mais sóbrio, organizou melhor a poesia e se surpreendeu: "Mas a letra é boa mesmo! Podemos fazer uma música!".

20
O nome da musa não é pronunciado na canção, que inicialmente tinha o título de "Primavera", mas ficava subentendido - para quem soubesse da história - pela ênfase dada às rimas em "era".


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Sonho de um carnaval (1965)

Chico Buarque


Carnaval, desengano

Deixei a dor em casa me esperando

E brinquei e gritei e fui vestido de rei

Quarta-feira sempre desce o pano


Carnaval, desengano

Essa morena me deixou sonhando

Mão na mão, pé no chão e hoje nem lembra não

Quarta-feira sempre desce o pano


Era uma canção, um só cordão

E uma vontade

De tomar a mão

De cada irmão pela cidade


No carnaval, esperança

Que gente longe viva na lembrança

Que gente triste possa entrar na dança

Que gente grande saiba ser criança


A voz de Chico só chegaria às lojas de discos em 5 de maio de 1965, quando a RGE lançou o compacto com as canções "Pedro pedreiro" e "Sonho de um carnaval". A composição é, segundo o próprio Chico, o iní­cio do uma transição para marcar seu próprio espaço, já que tudo o que vinha fazendo até então tinha as digitais da Bossa Nova ou das músicas que costumava ouvir no rádio o nos encontros de seus pais com amigos. No seu depoimento ao MIS ele afirma:
A mudança começou com "Sonho de um carnaval", embora haja ainda umas duas ou três músicas anteriores a isso que eu ainda

21
considero [...]. Em seguida veio "Pedro pedreiro", que acho que já é uma nova fase, porque eu já me preocupava e sentia que era uma coisa mais minha.


A televisão no Brasil estava prestes a completar quinze anos, e ha­via no país 2,3 milhões de aparelhos. As emissoras tiveram sensibilidade para captar o movimento que acontecia entre os jovens e incorporá-lo à sua grade. A maior parte da programação era ao vivo e repleta de pro­gramas musicais.

Embora participasse dos shows promovidos pelo radialista Walter Sil­va, Chico não pensava em se profissionalizar. Mesmo assim ele inscreveu "Sonho de um carnaval" no I Festival Nacional da Música Popular Brasileira da TV Excelsior. Para defendê-la na primeira eliminatória, realizada no Cassino do Guarujá em 27 de março de 1965, a organização escalou um cantor profissional, já familiar nas rodas do João Sebastião Bar, mas que Chico conhecia vagamente.

Era o paraibano Geraldo Vandré, que conseguiu levar a música para a final que se realizaria no auditório da TV Excelsior no Rio de Janeiro, em 6 de abril de 1965. Vandré se queixava ao arranjador, o maestro Erlon Chaves, de que o tom era muito baixo para sua voz, e quase não se ouvia a letra.

"Sonho de um carnaval" não ficou entre as cinco primeiras, e o festival foi vencido por "Arrastão", de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, cantada por Elis Regina. Mesmo não tendo grandes pretensões, Chico sentia-se um vitorioso por haver chegado tão longe. Mas não foi nada agradável passar pelo saguão do teatro e ouvir João de Barro, o Braguinha - autor de tantos sucessos, entre os quais a imortal letra para "Carinhoso", de Pixinguinha-, dizer que a música era uma porcaria.

Mas houve quem gostasse. E alguém de grosso calibre, como o compositor e violonista Baden Powell, que ficara em segundo lugar com a "Valsa do amor que não vem", em parceria com Vinicius de Moraes. Baden não escondia sua preferência pela canção, e seu apoio rendeu dividendos, como Chico deixou registrado no seu depoimento ao MIS:
O Baden Powell foi um sujeito entusiasmadíssimo [...] Ele torcia por "Sonho de um carnaval", e falava a toda hora na música. E porque ele falava, todo mundo começou a dar bola, e resolveram gravar a

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música. Foi a primeira vez que me entrosei no meio. Tive um reco­nhecimento - não popular ainda, mas do meio [...].


De fato, o próprio Vandré a incluiu no seu álbum Hora de lutar (1965), e, um ano depois, o conjunto vocal MPB-4 a gravaria em seu disco de 1966.

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Pedro pedreiro (1965)

Chico Buarque
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa

E a gente vai ficando pra trás

Esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento

Desde o ano passado

Para o mês que vem
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande no bilhete pela federal

Todo mês

Esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando aumento

Para o mês que vem

Esperando a festa

Esperando a sorte

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E a mulher de Pedro

Está esperando um filho

Pra esperar também
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro está esperando a morte

Ou esperando o dia de voltar pro Norte

Pedro não sabe mas talvez no fundo

Espera alguma coisa mais linda que o mundo

Maior do que o mar

Mas pra que sonhar

Se dá o desespero de esperar demais

Pedro pedreiro quer voltar atrás

Quer ser pedreiro pobre e nada mais

Sem ficar esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento para o mês que vem

Esperando um filho pra esperar também

Esperando a festa

Esperando a sorte

Esperando a morte

Esperando o norte

Esperando o dia de esperar ninguém

Esperando enfim nada mais além

Da esperança aflita, bendita, infinita

Do apito do trem


Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)


Entretanto, o sucesso do compacto se deveria a "Pedro pedreiro". Quando a compôs, Chico sabia que estava fazendo algo diferente.

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Quando fiz "Pedro pedreiro", tive a sensação de que pela primeira vez estava compondo uma música realmente minha, que já não era mais imitação de Bossa Nova. Daí em diante, as coisas come­çaram a acontecer,


disse ele a Almir Chediak, organizador do Songbook Chico Buarque.

Em 1985, numa entrevista à Rádio do Centro Cultural São Paulo, ele admite que, embora tenha havido uma mudança, a canção


ainda era resquício do movimento que havia da chamada resistên­cia, que foi logo depois de 64, quando veio aquela onda toda do Opinião, da oposição que se fazia dentro dos teatros, na música popular - já que noutros campos a oposição foi abortada, calada, e então se transferiu das fábricas, da praça pública e do Congresso para as artes: o teatro, o cinema e a música.
Numa das raras vezes em que Sérgio Buarque de Holanda falou nobre o filho, em depoimento de 1968 para o primeiro número da revista Pais & Filhos, ele identificou na letra uma influência do autor de Grande sertão: veredas: "Quando fez 'Pedro pedreiro', inventou uma palavra: 'penselro'. Talvez inspirado em Guimarães Rosa, que também era dado a Inventar palavras". Anos depois, no DVD Uma palavra, o próprio Chico admitiria:
Teve uma época que eu só lia Guimarães Rosa. Eu queria ser Guimarães Rosa. [...] Quando gravei minha primeira música - hoje eu me envergonho um pouquinho disso, porque é difícil você querer ser Guimarães Rosa -, inventei esse "penseiro", é claro que pra fazer uma rima, uma aliteração [...] mas era aquela coisa de achar que pareceria Guimarães Rosa. Parece nada.
No livro Chico Buarque - Cidade Submersa, do Regina Zappa e Bruno Veiga, Chico faria uma nova revelação acerca da canção que o colocou no cenário musical:
Tem uma coisa sobre "Pedro pedreiro" que nunca me lembrei de

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dizer: não tem nada a ver com samba antigo, era pós Bossa Nova, mas tem a ver com uma coisa que me impressionou muito naquele tempo - o violão percussivo do Jorge Ben. Não sabia fazer o violão dele, mas fiquei muito impressionado com aquilo.


Impressionadas também ficavam as pessoas que ouviam a canção: ninguém menos que Tom Jobim, ao ouvi-la em 1966, no dia em que se conheceram, e a poetisa e dramaturga Renata Palottini, que escreveu uma peça baseada na história do pedreiro, para a qual Chico fez as músicas.

Mas havia quem não se impressionasse. Num veículo no qual se pode sentir a cada segundo que tempo é de fato dinheiro, incomoda­va a duração de uma música com sessenta versos, em que a palavra "esperando" aparece nada menos que 36 vezes. Um dos produtores do programa do Chacrinha disse a Chico, sem meias palavras: "Não dá pra esse trem chegar mais cedo, não?". Naquele dia, nem o trem nem "Pedro pedreiro" chegariam ao palco da TV Excelsior. Indignado com a proposta de mutilação da cria que ainda estava lambendo, o autor simplesmente pegou seu violão, deu meia-volta e foi-se embora.

O radialista Walter Silva lembra as condições em que foi gravado o disco de estreia:
A RGE cedeu, após insistentes pedidos, o Estúdio B para a grava­ção [...] Uma sala diminuta, onde havia uma mesinha para locutor, uma cadeira e um microfone [...] não dava mais de 4 metros quadra­dos. Com o pé sobre a cadeira e tocando violão, assim foi feita a primeira gravação de Chico Buarque.
A gravadora autorizou a prensagem de apenas quinhentas cópias do compacto, mas em pouco tempo viu-se obrigada a fazer novas tiragens, já que "Pedro pedreiro" entrara para as paradas de sucesso.

O compacto rendeu um contrato para Chico aparecer nos programas da TV Record. Não era muito, mas dava para pagar a prestação de um fusca usado, seu primeiro carro, e abandonar a faculdade do arquitetura, para desgosto de dona Maria Amélia, que, cautelosa, trancou a matrícula do filho, na esperança de que um dia ele mudasse de ideia.

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Mais do que o carro ou o dolce far niente, "Pedro pedreiro" rendeu um convite de Roberto Freire para que Chico musicasse Morte e vida severina, auto de Natai escrito pelo poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto em 1955, que descreve as vicissitudes de um retirante que abandona o sertão em busca de uma vida melhor.

Inicialmente Chico recusou o convite, por não se sentir preparado para tamanha empreitada. Ele ainda era o estudante da FAU, e a música, um apêndice na sua vida. Diante da insistência, capitulou e, com 21 anos incompletos, resolveu aceitar a encomenda.

Chico reconhece que a experiência foi fundamental ao obrigá-lo, logo no início da carreira, à disciplina e à organização que um traba­lho de equipe exige, e para mostrar-lhe que música e letra devem se amalgamar para resultar numa peça única. Só não participou da escolha e discussão do texto, etapas já cumpridas quando ele se integrou ao grupo. No mais, tudo era objeto de muita discussão. Pôs-se a ler e reler toda a obra de João Cabral; pesquisou a música regional do Nordeste; com frequência fazia consultas a especialistas, e em casa, sozinho, ia fazendo as canções. Há quem afirme que obrigava as irmãs a cantar os diversos coros em duas vozes. No início inseguro, não levava as canções pessoalmente. Mandava-as em fita. O trabalho foi evoluindo, e ele, per­dendo o medo.

A peça, com direção de Silnei Siqueira, estreou em 11 de setembro de I965 inaugurando o Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo). Chico postou-se no fundo do teatro - hábito que conservaria através dos tempos - e surpreendeu-se com a aceitação do público e, depois, da crítica, que chegou a afirmar que ele "não musicou o poema, mas sim ex­traiu dele a musicalidade". Surpresa maior viria em abril do ano seguinte, quando a peça ganhou o primeiro prêmio no IV Festival Internacional de Teatro Universitário de Nancy - França. No final do espetáculo, a plateia explodiu numa ovacão de mais de dez minutos. E desta vez ele estava no palco, com seu violão, tocando suas músicas.

Chico Buarque não faz chover, mas pelo menos um milagre pode ser a ele atribuído: o de ter convencido João Cabral de Melo Neto de que música e barulho não dão a mesma coisa. O poeta ern contra a encenação, que, soube-se mais tarde, foi feita à sua revelia. Porém, ao ver a montagem, ficou tão encantado que seguiu com o grupo para Portugal.

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Numa das conversas com Chico, o autor do poema chegou a indicar sua preferida: "Funeral de um lavrador", por coincidência uma das que Chico menos gosta e que mais sucesso fez, ganhando gravações de Nara Leão e Odete Lara. Como musicar um poema não é tarefa simples, por haver versos praticamente "imusicáveis", alguns tiveram que ser cor­tados. Um deles tinha a expressão "cada casebre se torna/ no mocambo modelar/ que tanto celebram/ os sociólogos do lugar". O poeta quis saber do compositor se a intenção havia sido a de poupar alguém. Esse alguém seria o sociólogo Gilberto Freyre. Mas era tão somente uma questão de métrica mesmo.

Embalada pelo sucesso obtido em Nancy, a Philips lançou em 1966 o LP Morte e vida severina, gravado ao vivo no Tuca.

O jogo havia começado.

Em fevereiro de 1966, o general Castello Branco torna indiretas as eleições para governadores, que ocorreriam naquele ano, gerando pro­testos em várias capitais. A censura proíbe o romance O casamento, de Nelson Rodrigues.

Para Chico, entretanto, o ano prometia. Logo no início, teve grava­das três de suas canções ("Olê, olá", "Pedro pedreiro" e "Madalena foi pro mar") no LP Nara pede passagem. Era um atestado de qualidade ser interpretado por Nara Leão, reconhecida descobridora de talentos, não apenas novos, como Chico, Sidney Miller e Edu Lobo, mas também de esquecidos compositores como Cartola, Nelson Cavaquinho, João do Vale, entre outros.

Logo Chico gravaria o seu segundo compacto, com "Olê, olá" e "Meu refrão".

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Olê, olá (1965)

Chico Buarque
Não chore ainda não

Que eu tenho um violão

E nós vamos cantar

Felicidade aqui

Pode passar e ouvir

E se ela for de samba

Há de querer ficar
Seu padre, toca o sino

Que é pra todo mundo saber

Que a noite é criança

Que o samba é menino

Que a dor é tão velha

Que pode morrer

Olê olê olê olá

Tem samba de sobra

Quem sabe sambar

Que entre na roda

Que mostre o gingado

Mas muito cuidado

Não vale chorar
Não chore ainda não

Que eu tenho uma razão

Pra você não chorar

Amiga me perdoa

Se eu insisto à toa

Mus a vida é boa

Pra quem cantar
Meu pinho , toca forte

Que pra todo mundo acordar

Não fale da vida

Nem fale da morte

Tem dó da menina

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Não deixa chorar

Olê olê olê olá

Tem samba de sobra

Quem sabe sambar

Que entre na roda

Que mostre o gingado

Mas muito cuidado

Não vale chorar
Não chore ainda não

Que eu tenho a impressão

Que o samba vem aí

E um samba tão imenso

Que eu às vezes penso

Que o próprio tempo

Vai parar pra ouvir
Luar, espere um pouco

Que é pro meu samba poder chegar

Eu sei que o violão

Está fraco, está rouco

Mas a minha voz

Não cansou de chamar

Olê olê olê olá

Tem samba de sobra

Ninguém quer sambar

Não há mais quem cante

Nem há mais lugar

O sol chegou antes

Do samba chegar

Quem passa nem liga

Já vai trabalhar

E você, minha amiga

Já pode chorar

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Criada logo após "Pedro pedreiro", Chico diz que essa canção é uma espécie de filha crescida da primeira.


Acho que ela trazia uma coisa além de "Pedro pedreiro". Eu lembro que fiquei uns três, quatro meses sem mostrar para ninguém. Um dia, na casa do Roberto Freire, toquei e gostaram. Depois disso, comecei a ter certeza.
E, de fato, havia nela alguma coisa nova. Almir Chediak lembra-se das dificuldades que experimentou para tirar a harmonia: "Me deu um trabalho danado. Há nela uma seqüência harmônica diferente de tudo, uma coisa muito original".

Caetano Veloso conheceu Chico cantando "Olê, olá" num dos shows do Teatro Paramount, em 1965. Encantado com a melodia e a facilidade com que o compositor trabalhava a letra, copiou-a num pedaço de papel e anexou-a a uma carta encaminhada a Dedé, sua namorada, dizendo: "Conheci um cara que é a coisa mais linda". A amizade atravessaria dé­cadas, não sem pequenos arranhões.

Deve-se a "Olê, olá" o estilo inconfundível do atual programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo. Convidado por Fernando Faro, não havia meio de fazer o cantor olhar para a frente, o que obrigou o diretor a colocar uma câmera no chão a fim de mostrar o rosto e os olhos cada vez mais famosos.
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Meu refrão (1965)

Chico Buarque


Quam canta comigo

Canta o meu refrão

Muu melhor amigo

É meu violão


Já chorei sentido

De desilusão

Hoje estou crescido

Já não choro não

Já brinquei de bola

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Já soltei balão

Mas tive que fugir da escola

Pra aprender essa lição


Quem canta comigo

Canta o meu refrão

Meu melhor amigo

É meu violão


0 refrão que eu faço

É pra você saber

Que eu não vou dar braço

Pra ninguém torcer

Deixa de feitiço

Que eu não mudo não

Pois eu sou sem compromisso

Sem relógio e sem patrão


Quem canta comigo

Canta o meu refrão

Meu melhor amigo

É meu violão


Eu nasci sem sorte

Moro num barraco

Mas meu santo é forte

E o samba é meu fraco

No meu samba eu digo

O que é de coração

Mas quem canta comigo

Canta o meu refrão


Quem canta comigo

Canta o meu refrão

Meu melhor amigo

É meu violão

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Em 1966 ele tinha composições suficientes para um show. "Meu re­frão" deu nome ao espetáculo idealizado por Hugo Carvana e Antonio Carlos Fontoura, que estreou no final de agosto de 1966 na boate Arpège, Rio de Janeiro, com dezesseis canções interpretadas pelo autor, por Odete Lara e pelo MPB-4. Um personagem - não convidado - apareceu pela primeira vez na vida de Chico: a censura.
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Tamandaré (1965)

Chico Buarque


Zé qualquer tava sem samba, sem dinheiro

Sem Maria sequer

Sem qualquer paradeiro

Quando encontrou um samba

Inútil e derradeiro

Numa inútil e derradeira

Velha nota de um cruzeiro
"Seu" Marquês, "seu" Almirante

Do semblante meio contrariado

Que fazes parado

No meio dessa nota de um cruzeiro rasgado

"Seu" Marquês, "seu" Almirante

Sei que antigamente era bem diferente

Desculpe a liberdade

E o samba sem maldade

Deste Zé qualquer

Perdão, Marquês de Tamandaré

Perdão, Marquês de Tamandaré
Pois é, Tamandaré

A maré não tá boa

Vai virar a canoa

E este mar não dá pé, Tamandaré

Cadê as batalhas?

Cadê as medalhas?

Cadê a nobreza?

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Cadê a marquesa, cadê?

Não diga que o vento levou

Teu amor até


Pois é, Tamandaré

A maré não tá boa

Vai virar a canoa

E este mar não dá pé, Tamandaré

Meu marquês de papel

Cadê teu troféu?

Cadê teu valor?

Meu caro almirante

O tempo inconstante roubou
Zé qualquer tornou-se amigo do marquês

Solidário na dor

Que eu contei a vocês

Menos que queira ou mais que faça

É o fim do samba, é o fim da raça

Zé qualquer tá caducando

Desvalorizando

Como o tempo passa, passando

Virando fumaça, virando

Caindo em desgraça, caindo

Sumindo, saindo da praça

Passando, sumindo

Saindo da praça
Uma das canções do show era "Tamandaré", em que Chico, co­mentando a desvalorização da moeda, brincava com a figura do almi­rante Joaquim Marques Lisboa, marquês de Tamandaré, estampado nas notas de 1 cruzeiro. A Marinha brasileira entendeu que havia na Ietra desrespeito à figura de seu patrono, e a música foi proibida. Já naquela época ele não levava desaforo pra casa. O psicanalista Roborlo Freire conta que o compositor reagiu com bom humor ã proibição, inserindo estes versos na melodia de "Meu refrão" durante algumas apresentações:

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Você me procura

Pede explicação

Depois me censura

O que é de coração

Mesmo assim não brigo

Não me importo não

Pois quem canta comigo

Canta o meu refrão

Meu melhor amigo

É o meu violão
A canção permaneceu proibida por muito tempo, e só foi gravada em 1991, pelo Quarteto em Cy, no CD Chico em Cy.
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Noite dos mascarados (1966)

Chico Buarque

Para o musical Meu refrão
Quem é você?

Adivinhe, se gosta de mim

Hoje os dois mascarados

Procuram os seus namorados

Perguntando assim:

Quem é você, diga logo

Que eu quero saber o seu jogo

Que eu quero morrer no seu bloco

Que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou seresteiro

Poeta e cantor

O meu tempo inteiro

Só zombo do amor

Eu tenho um pandeiro

Só quero um violão

Eu nado em dinheiro

Não tenho um tostão

Fui porta-estandarte

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Não sei mais dançar

Eu, modéstia à parte

Nasci pra sambar

Eu sou tão menina

Meu tempo passou

Eu sou Colombina

Eu sou Pierrot


Mas é carnaval

Não me diga mais quem é você

Amanhã, tudo volta ao normal

Deixe a festa acabar

Deixe o barco correr

Deixe o dia raiar

Que hoje eu sou

Da maneira que você me quer

O que você pedir

Eu lhe dou

Seja você quem for

Seja o que Deus quiser

Seja você quem for

Seja o que Deus quiser


Era necessária uma nova música para substituir a proibida. Foi assim que nasceu "Noite dos mascarados". Em poucos dias Chico compôs a canção. Vinicius de Moraes organizava a trilha sonora do filme Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman, e sugeriu sua inclusão em dueto com Elis Regina. O feito resultou num dos pouquíssimos trabalhos conjuntos dos dois grandes nomes.

"Noite dos mascarados" também marcou a estreia de Chico no cine­ma, interpretando a si mesmo ao lado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão e Ronnie Von. Desde essa primeira experiência, Chico não gostou de se ver em cena, por se considerar um péssimo ator. Não obstante, ele iria reincidir algumas vezes.

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Com açúcar, com afeto (1966)

Chico Buarque


Com açúcar, com afeto

Fiz seu doce predileto

Pra você parar em casa

Qual o quê

Com seu terno mais bonito

Você sai, não acredito

Quando diz que não se atrasa

Você diz que é operário

Vai em busca do salário

Pra poder me sustentar

Qual o quê

No caminho da oficina

Há um bar em cada esquina

Pra você comemorar

Sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto

Você vai puxar assunto

Discutindo futebol

E ficar olhando as saias

De quem vive pelas praias

Coloridas pelo sol

Vem a noite e mais um copo

Sei que alegre ma non troppo

Vocâ vai querer cantar

Na caixinha um novo amigo

Vai bater um samba antigo

Pra você rememorar


Quando a noite enfim lhe cansa

Você vem feito criança

Pra chorar o meu perdão

Qual o quê

Diz pra eu não ficar sentida

Diz que vai mudar de vida

Pra agradar meu coração

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E ao lhe ver assim cansado

Maltrapilho e maltratado

Ainda quis me aborrecer

Qual o quê

Logo vou esquentar seu prato

Dou um beijo em seu retrato

E abro os meus braços pra você


É a primeira canção em que Chico assume a posição feminina, reve­lando a capacidade que se tornaria uma de suas marcas registradas. Foi composta por encomenda de Nara Leão, que gostava muito de cantar mú­sicas "onde a mulher fica em casa chorosa, e o marido na rua, farreando". Ao inseri-la no seu próprio disco, Chico fez, no texto da contracapa, um comentário machista, do qual se envergonharia anos depois: "Insisti ainda em colocar no disco o 'Com açúcar, com afeto', que eu não poderia cantar por motivos óbvios". Pode parecer estranho, mas em 1966 era inconcebí­vel um homem, mesmo sendo Chico Buarque, interpretar uma mulher.

Diferentemente de hoje em dia, quando ele tem controle quase que total sobre sua obra, no início da carreira quem administrava o uso das canções eram as editoras, e não tardou para que os marqueteiros de en­tão a utilizassem na propaganda de um bombom.

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Morena dos olhos d'água (1966)

Chico Buarque


Morena dos olhos d'água

Tira os seus olhos do mar

Vem ver que a vida ainda vale

O sorriso que eu tenho

Pra lhe dar
Descansa em meu pobre peito

Que jamais enfrenta o mar

Mas que tem abraço estreito, morena

Com jeito de lhe agradar

Vem ouvir lindas histórias

Que por seu amor sonhei

Vem saber quantas vitórias, morena

Por mares que só eu sei


O seu homem foi-se embora

Prometendo voltar já

Mas as ondas não têm hora, morena

De partir ou de voltar

Passa a vela e vai-se embora

Passa o tempo e vai também

Mas meu canto ainda lhe implora, morena

Agora, morena, vem


Inúmeras matérias de jornal atribuem à psicanalista e socialite Eleonora Mendes Caldeira o status de inspiradora dessa música. Uma das poucas vezes em que Chico falou publicamente sobre o assunto foi no DVD À flor da pele:

Todo mundo gosta [...] de querer ligar canções ou obras à vida de seus autores, o que glamoriza a biografia, mas empobrece a imaginação [...] O que acontece também é que você pode fazer canções e depois atribuir, dar de presente... [...] "Ah! Essa foi pra você". Você

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pode fazer uma canção pra determinada pessoa e tal. [...] A canção é feita pensando na pessoa, mas o que vem depois, as palavras que estão ali, não são biográficas. Os nomes que estão nas canções... não me lembro no meu caso de ter feito... [...] Outros fazem. [...] As minhas são todas inventadas. [...] Aquela menina era bonita. Você não vai botar isso na entrevista. Hoje ela é uma senhora. [...] Eu lem­bro que ia à missa dos dominicanos... eu e a minha turma... pra ver a Eleonora. Ela era simplesmente maravilhosa [...] mas eu não ousava chegar muito perto [...] Tinha medo de tirar pra dançar porque podia levar uma tábua, como se dizia na época. Mas depois que eu virei famoso, deu pra chegar a ela sem medo de levar tábua.


Como se vê, ele não disse um sim ou um não peremptório. As irmãs Ana de Holanda (Bahia) e Maria do Carmo (Pii) têm outra versão. Garan­tem que quando Chico terminou "Morena dos olhos d'água", ligou para mais de uma mulher dizendo serem elas a musa.
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A banda (1966)

Chico Buarque


Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor


A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor


O homem sério que contava dinheiro parou

O faroleiro que contava vantagem parou

A namorada que contava as estrelas parou

Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu

A rosa triste que vivia fechada se abriu

E a meninada toda se assanhou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu

A lua cheia que vivia escondida surgiu

Minha cidade toda se enfeitou

Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto

O que era doce acabou

Tudo tomou seu lugar

Depois que a banda passou


E cada qual no seu canto

Em cada canto uma dor

Depois da banda passar

Cantando coisas de amor


Chico lembra-se de ter ouvido Gilberto Gil cantar "Ensaio geral" no Sandchurra, bar da Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, e um dos pontos de encontro dos jovens artistas. Ficou impressionado e pensou um lazer uma música pra ganhar dessa no II Festival de Música Popular Brasileira, que aconteceria em setembro e outubro naTV Record.

Ele acabara de voltar da Europa, por onde excursionara com Morte e vida Severina, e havia composto uma série de canções, entre elas "A Banda" e "Morena dos olhos d'água".

Primeiro veio a ideia de uma banda passando, depois a música e, finalmente a letra. Composta em um único dia, na sua casa da rua Buri, na hora do almoço, ficaram faltando os versos finais: "Aquele final todo foi posterior. Não queria deixar a banda tocando para sempre na rua". Mas era "Morena dos olhos d'água" que ele pretendia inscrever no festival e que, certo dia, cantou para Gilberto Gil e Torquato Neto. Não era sua intenção, porém, no entusiasmo, cantou também a marchinha, mesmo incompleta. Chico imaginava que a música iria pegar e a inscreveu no festival. O que ele não previu foi o tamanho do sucesso.

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Na segunda eliminatória, em 28 de setembro de 1966, ela foi can­tada apenas por Nara Leão. O diretor Manoel Carlos percebeu que os metais da banda que a acompanhava prejudicavam o entendimento da letra e que o tempo de dois minutos era muito pequeno, e sugeriu que na terceira eliminatória o autor cantasse a marcha uma vez, ape­nas com violão, para depois Nara entrar e repeti-la com os arranjos de banda feitos por Geni Marcondes. A alteração foi entendida por alguns concorrentes como um privilégio, mas prevaleceu até a final.

Pode ser que o fato de Chico formar com Nara uma dupla que conquistava a simpatia do público tenha também pesado na deci­são dos produtores. Dias antes da final, a Revista do Rádio promo­vera uma enquete entre seus leitores: "A banda" recebeu 35.743 votos contra 17.855 dados a "Disparada" (Theo de Barros e Geral­do Vandré), que seria sua grande concorrente.

A polarização entre "A banda" e "Disparada", defendida por Jair Ro­drigues, ganhara uma dimensão inimaginável, a ponto de o jornal O Estado de S. Paulo escrever: "Desde o finzinho de setembro, só duas torcidas contam: a da Associação Atlética Disparada e a da Banda Fute­bol Clube". "A expectativa era tão grande que alguns teatros e cinemas chegaram a suspender suas sessões", conta Zuza Homem de Mello em seu livro A Era dos Festivais - Uma parábola.

A final aconteceu numa segunda-feira, 10 de outubro de 1966, no Teatro Record, que ficava na rua da Consolação. No auditório a plateia, dividida, gritava, balançando faixas e cartazes enquanto aguardava o resultado. Não menos tenso era o clima nos bastidores depois que Chico, percebendo - ou sabendo - que venceria, sugeriu que houvesse empate entre as duas.

O que gerava tensão nos organizadores era a ameaça que acom­panhava a inusitada proposta: ele se recusaria publicamente a rece­ber o prêmio sozinho. Uma festa como aquela, transmitida pela tevê, não podia terminar em confusão. Na queda de braço, Chico venceu no palco e também nos bastidores. Cada uma das canções levou metade do prêmio que caberia ao primeiro lugar.

Chico jamais fez qualquer comentário sobre o episódio. O resultado da votação (sete a cinco em favor de "A banda") foi mantido em sigilo por quase quatro décadas, Os votos ficaram num cofre na casa de Zuza Homem de

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Mello, que só revelou os números em seu livro já citado.

Logo após o festival, chegaram às lojas os compactos de Chico e de Nara com a marchinha. Este último chegou a vender 100 mil cópias em apenas uma semana, animando a RGE a produzir e lançar ainda em outubro o LP Chico Buarque de Hollanda. No mesmo mês ele integrou o júri do I Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, durante o qual 6 mil pessoas exigiram que o jurado comparecesse ao palco e com ele cantaram a marcha que tomava conta do país.

Bandas de todos os países e tipos a incorporaram ao seu repertório. As gravações se multiplicavam. Até mesmo um dos mais famosos palha­ços do Brasil, Carequinha, gravou a marcha com coro infantil de Irany de Oliveira e a Bandinha de Altamiro Carrilho. Pelo mundo afora surgiam as mais bisonhas versões da letra, que não guardavam qualquer semelhan­ça com a original, como no caso da alemã, feita por Weyriche Conta:


E certamente este ano

já se pode prever

o mundo da moda trará

o que agrada a Rosita

quando no México, à noite

ao carnaval se vai [...]

Uma moda como a banda

ainda não houve

Os cocos se transformam em roupagens

E a brincadeira continua

A banda está aí
"A banda" ainda lhe renderia seu primeiro programa de televisão e o primeiro embate com a ditadura militar. O programa, comandado por ele e por Nara Leão, ia ao ar pela TV Record e chamava-se Pra ver a banda passar. A performance tímida e pouco televisiva do ambos lhes valeu o título de "maiores desanimadores de auditório", dado pelo escritor de novelas Manoel Carlos, na época diretor de televisão. Já o embate com a ditadura ocorreu quando o governo resolveu usar "A banda" numa pro-

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paganda de alistamento militar. Chico protestou, e a peça deixou de ser veiculada. Haveria confrontos piores.

Os elogios vinham de todos os lados. O poeta maior Carlos Drummond de Andrade dedicou-lhe uma crônica, publicada no Correio da Manhã:
O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e espe­rança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e a banda vêm trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, a falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a feste­jar com uma pirâmide de caméiias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar nelos o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não e não se sente,

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como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.



Meu partido está tomado. Não da Arena nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergên­cia, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solu­ção. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e princi­palmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compre­ender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm respon­sabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão con­tando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressenti­dos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrangem terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos os que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.
Até mesmo o irascível Nelson Rodrigues exaltava a canção em texto publicado no jornal O Globo:
Imaginem vocês que, um dia desses, entro em casa e encontro minha mulher, Lúcia, e a minha filhinha, Daniela, com olhos mare-

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jados. Acabavam de ouvir "A banda", ou seja, a mais doce músi­ca da Terra. Dias depois, eu próprio ouvi a marchinha genial. E a minha vontade foi sair de casa, me sentar no meio-fio e começar a chorar. Com "A banda", começa uma nova época da música popular no Brasil.


Apesar de saudada com entusiasmo por figuras tão díspares, "A banda" não fez de Chico a tal "unanimidade nacional" que se propalava. Havia quem visse no lirismo e na singeleza da canção um retrocesso, uma postura alienada para uma época que exigia o engajamento polí­tico dos artistas. O que o patrulhamento ideológico de então chamava de alienação era, na verdade, uma atitude pensada, conforme o próprio Chico esclareceu em entrevista à Rádio do Centro Cultural São Paulo:
Quando compus "A banda" eu me lembro que - pra não dizer que havia unanimidade - havia, sim, uma discreta condenação por parte da esquerda que ainda insistia em ouvir o grito do Opinião, o grito de um "Carcará" e tal. A Nara Leão, aliás, me acompanhou nesse movimento, porque ela também já estava um pouco cansada dessa tal música de protesto que se fazia então, que não passava das portas do teatro e que, no fim das contas, era ineficaz. "A banda" era uma retomada do lirismo, proposital mesmo, porque eu não era tão inocente assim quanto parecia. Eu tinha um passado - também discreto, porque eu era muito garoto - de luta estudantil.
O sucesso foi tal que câmaras municipais de todo o país lhe confe­riam o título de cidadão honorário. Em algumas localidades o prefeito lhe entregava a chave da cidade, como se faz com o Rei Momo no carnaval. Chico era carregado por uma enxurrada de shows país afora.
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Quem te viu, quem te vê (1966)

Chico Buarque


Você era a mais bonita das csbrochaa dessa ala

Você era a favorita onde eu era meste-sala

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Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua

Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua


Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Quando o samba começava, você era a mais brilhante

E se a gente se cansava, você só seguia adiante

Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado

Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado


Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe

De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse

Eu não sei bem com certeza por que foi que um belo dia

Quem brincava de princesa acostumou na fantasia


Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria

Quero que você assista na mais fina companhia

Se você sentir saudade, por favor não dê na vista

Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista


Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer

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Mostrada pela primeira vez em fevereiro de 1967, no programa Pra ver a banda passar, a canção foi composta, segundo Chico, bem ao estilo de Ataulfo Alves, um dos compositores que ele admirava e com quem se encontrava com alguma frequência num barzinho próximo à TV Record. Nara Leão resolveu incluí-la no seu LP daquele ano, e o compositor suge­riu que se eliminasse uma ou duas estrofes, por entender que a letra era muito longa. Porém ela chegou completa às paradas de sucesso na voz de Nara. Em gravações posteriores Chico suprimiu a estrofe, que, todavia, ficaria gravada na memória popular:
O meu samba se marcava na cadência dos seus passos

O meu sono se embalava no carinho dos seus braços

Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão

Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão


Com dois LPs e alguns compactos, sem que percebesse, ele entrava no centro de um furacão chamado Roda-viva.

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49 [página em branco]



(Figura 002)

Chico Buarque durante ensaio

da peça Roda-viva.


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1967

Mas eis que chega a roda-viva


O ano de 1967 começava com uma nova Constituição outorgada, que pretendia dar ares de normalidade ao arbítrio que se instalara. Em março Castello Branco daria posse ao segundo presidente militar, o marechal Arthur da Costa e Silva. Confirmando a desvalorização da moeda que Chico cantara em "Tamandaré", em fevereiro uma reforma monetária insti­tuía o cruzeiro novo, equivalente a mil cruzeiros antigos. Grupos armados de esquerda se organizavam no campo e nas cidades. O governo cria o CIE (Centro de Informações do Exército) - órgão de inteligência para conter a oposição. Aumentam as denúncias de torturas a presos políticos. Surge o movimento tropicalista.

Entre uma e outra viagem, apresentações em tevês e dois festivais, Chico gravou três compactos e o LP Chico Buarque de Hollanda vol. 2, e escreveu a peça Roda-viva, que tanto daria o que falar.

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Ano-novo (1967)



Chico Buarque
O rei chegou

E já mandou tocar os sinos

Na cidade inteira

É pra cantar os hinos

Hastear bandeiras

E eu que sou menino

Muito obediente

Estava indiferente

Logo me comovo

Pra ficar contente

Porque é Ano-novo
Há muito tempo

Que essa minha gente

Vai vivendo a muque

É o mesmo batente

É o mesmo batuque

Já ficou descrente

É sempre o mesmo truque

E quem já viu de pé

O mesmo velho ovo

Hoje fica contente

Porque é Ano-novo
A minha nega me pediu um vestido

Novo e colorido

Pra comemorar

Eu disse:

Finja que não está descalça

Dance alguma valsa

Quero ser seu par

E ao meu amigo que não vê mais graça

Todo ano que passa

Só lhe faz chorar

Eu disse:

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Homem, tenha seu orgulho

Não faça barulho

O rei não vai gostar


E quem for cego veja de repente

Todo o azul da vida

Quem estiver doente

Saia na corrida

Quem tiver presente

Traga o mais vistoso

Quem tiver juízo

Fique bem ditoso

Quem tiver sorriso

Fique lá na frente

Pois vendo valente

E tão leal seu povo

0 rei fica contente

Porque é Ano-novo


A despretensiosa canção de pouco mais de um minuto, com letra longa e sem refrões de impacto, exceção feita ao verso "porque é Ano-novo" que fecha cada estrofe, não despertou grande interesse, talvez eclipsada pelos demais sucessos que o disco continha. Mas não passou incólume. Adélia Bezerra de Meneses, autora de Desenho mágico - Poesia e política em Chico Buarque, lembra que a ditadura entendeu o recado: uma crítica à alegria por decreto que o governo gostaria que reinasse entre a população. Durante alguns meses sua execução em rádio foi proibida.

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Um chorinho (1967)

Chico Buarque

Para o filme Garota de Ipanema, de Leon Hirszman


Ai, o meu amor, a sua dor, a nossa vida

Já não cabem na batida

Do meu pobre cavaquinho

Quem me dera

Pelo menos um momento

Juntar todo sofrimento

Pra botar nesse chorinho

Ai, quem me dera ter um choro de alto porte

Pra cantar com a voz bem forte

E anunciar a luz do dia

Mas quem sou eu

Pra cantar alto assim na praça

Se vem dia, dia passa

E a praça fica mais vazia


Vem, morena,

Não me despreza mais, não

Meu choro é coisa pequena

Mas roubado a duras penas

Do coração

Meu chorinho

Não é uma solução

Enquanto eu cantar sozinho

Quem cruzar o meu caminho, não para não
Mas não faz mal

E quem quiser que me compreenda

Até que alguma luz acenda, este meu canto continua

Junto meu canto a cada pranto, a cada choro,

Até que alguém me faça coro pra cantar na rua

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A música foi cantada por Chico no filme Garota de Ipanema, num am­biente típico dos encontros de bossanovistas: um banquinho, um violão e gente sentada no chão. No DVD Cinema ele diz que do filme pouco se lembra, porque


tinha uma história de que a gente bebia muito - e, de fato, bebia. En­tão aproveitavam, e já que bebia mesmo, bebia em cena... Davam uísque pra gente, e quando rodava você já tava bêbado, e quando assistia acho que também tava bêbado - por isso não lembro como era esse filme.
A peça Roda-viva nada tinha de político. Refletia tão somente o am­biente em que Chico vivia e com o qual estava assustado: o show business. Ele descreve a trajetória do cantor popular Benedito Silva, engolido pelo esquema da televisão. Num primeiro momento o Anjo, seu empresário, o transforma em Ben Silver, depois em Benedito Lampião, para, finalmente, quando não mais atende aos interesses da máquina, induzi-lo à morte.

A encenação ficou a cargo de José Celso Martinez Correa, que tinha em seu currículo a controvertida montagem de O rei da vela (Oswald de Andrade) - que se tornaria um marco do Tropicalismo. Numa época em quo se acreditava que o teatro devia sacudir e provocar a platéia, a história serviu de pretexto para os exercícios do diretor, mas também para Chico despregar-se da incômoda imagem de bom moço que lhe imputa­vam. Tudo foi feito de comum acordo com o autor, que jamais se eximiu de qualquer responsabilidade.

A peça estreou no Teatro Princesa Isabel em 15 de janeiro de 1968, e tinha no elenco Marieta Severo, com quem Chico se casara. Após a temporada carioca, houve uma montagem em São Paulo. Na noite de 17 de julho, a organização paramilitar CCC (Comando de Caça aos Comunistas) invadiu e depredou o teatro, destruiu o cenário e espancou violentamente os atores.

Ninguém foi responsabilizado. Até mesmo um apoiador do regime como Nelson Rodrigues escreveu: "Desde a primeira Missa, nunca se viu, aqui, indignidade tamanha". No primeiro espetáculo após o ato terrorista, Chico estava presente, solidarizando-se com o elenco. Meses depois a agressão se repetiria em Porto Alegre, pondo um ponto final na carreira da peça.

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Chico suspeita, não sem motivos, que o CCC pretendia atacar o elen­co do espetáculo Feira Paulista de Opinião, dirigido por Augusto Boal, que acontecia em outra sala do mesmo teatro. Como a função da Feira já havia terminado, o grupo resolveu atacar a Roda-viva, para não perder a viagem. O que torna essa hipótese plausível é que o general que o interrogou em dezembro de 1968 referia-se a uma cena em que um ator defeca num capacete militar. Chico pensou: "Ih! O Zé Celso exagerou". Tempos depois ele soube que a cena descrita acontecera na Feira Pau­lista de Opinião.
Roda-viva (1967)

Chico Buarque

Para a peça Roda-viva, de Chico Buarque
Tem dias que a gente se sente

Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu

A gente quer ter voz ativa

No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega o destino pra lá

Roda mundo, roda-gigante

Rodamoinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração


A gente vai contra a corrente

Até não poder resistir

Na volta do barco é que sente

O quanto deixou de cumprir

Faz tempo que a gente cultiva

A mais linda roseira que há

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega a roseira pra lá

Roda mundo (etc.)

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A roda da saia, a mulata

Não quer mais rodar, não senhor

Não posso fazer serenata

A roda de samba acabou

A gente toma a iniciativa

Viola na rua, a cantar

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega a viola pra lá

Roda mundo (etc.)


O samba, a viola, a roseira

Um dia a fogueira queimou

Foi tudo ilusão passageira

Que a brisa primeira levou

No peito a saudade cativa

Faz força pro tempo parar

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega a saudade pra lá

Roda mundo (etc.)
"Roda-viva" obteve o terceiro lugar no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record (setembro e outubro de 1967), que teve como vencedora "Ponteio" (Edu Lobo-Capinan). Em segundo ficou "Domingo no parque" (Gilberto Gil) e, em quarto, "Alegria, alegria" (Caetano Veloso). Estas duas foram as responsáveis pela incorporação da guitarra elétrica à MPB: os Mutantes, grupo expoente do rock brasileiro, acompanharam Gil em "Domingo no parque"; em "Alegria, alegria", Caetano contou com a participação dos Beat Boys, vinculados à Jovem Guarda.

Estimulada em boa medida pela imprensa, é dessa época a dicotomia estéril "Chico ou Caetano", que permeou durante muito tempo as discussões sobre MPB.

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Januária (1967)

Chico Buarque


Toda gente homenageia

Januária na janela

Até o mar faz maré cheia

Pra chegar mais perto dela

O pessoal desce na areia

E batuca por aquela

Que, malvada, se penteia

E não escuta quem apela


Quem madruga sempre encontra

Januária na janela

Mesmo o sol quando desponta

Logo aponta os lados dela

Ela faz que não dá conta

De sua graça tão singela

O pessoal se desaponta

Vai pro mar, levanta vela


Numa noite de boemia, o pintor Di Cavalcanti prometeu a Chico um quadro seu. Cumpriu a promessa enviando Januária, que foi o ponto de partida para essa composição.

Quando eu organizava as canções para o livro Chico Buarque letra e música, Chico me perguntou de onde eu havia tirado o verso "logo aponta os lábios dela", já que o correto era "logo aponta os lados dela". Respondi que era assim mesmo que ele cantava no LP de 1968. Preocupado com o erro, pus-me a escutar o velho vinil, até que, finalmente, o ouvido viciado conseguiu entender que, de fato, era "lados". Inconformado com minha falta de sensibilidade, compartilhei a dúvida com pessoas amigas, e 90% delas entendiam "lábios". Não foi um consolo nem uma justificativa, mas me senti aliviado quando descobri que tanto Isaurinha Garcia (no álbum Chico Buarque e Noel Rosa) como Caetano Veloso (no CD Contemporâneos, de Dori Caymmi) cantam "lábios". Imediatamente enviei um e-mail ao compositor narrando o fato e concluí: "Só privilegiados têm ouvido igual ao seu. Eu e Caetano, só o que Deus nos deu". Chico nunca respondeu.

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Em 2004, na exposição comemorativa de seus 60 anos, com curado­ria de seu sobrinho Zeca Buarque Ferreira, um manuscrito mostrava que num primeiro rascunho o verso era "sempre aponta a casa dela".
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Carolina (1967)

Chico Buarque


Carolina

Nos seus olhos fundos

Guarda tanta dor

A dor de todo esse mundo

Eu já lhe expliquei que não vai dar

Seu pranto não vai nada mudar

Eu já convidei para dançar

É hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor

Uma rosa nasceu

Todo mundo sambou

Uma estrela caiu

Eu bem que mostrei sorrindo

Pela janela, ói que lindo

Mas Carolina não viu
Carolina

Nos seus olhos tristes

Guarda tanto amor

O amor que já não existe

Eu bem que avisei, vai acabar

De tudo lhe dei para aceitar

Mil versos cantei pra lhe agradar

Agora não sei como explicar

Lá fora, amor

Uma rosa morreu

Uma festa acabou

Nosso barco partiu

Eu bem que mostrei a ela

O tempo passou na janela

Só Carolina não viu

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Chico estava na casa de um amigo em Salvador quando soube pelo rádio que a música, interpretada pela dupla Cynara e Cybele, ficara em terceiro lugar no II Festival Internacional da Canção Popular (outubro de 1967), perdendo para "Margarida" (Gutemberg Guarabyra) e "Travessia" (Milton Nascimento). Ele tinha motivos pra não gostar da canção, e com os anos surgiriam outros. O jornalista Humberto Werneck conta, em Chico Buarque letra e música, que, por orientação do ator Hugo Carvana, ele aceitara um convite para apresentar o programa Shell em show maior na jovem TV Globo. Gravou o primeiro e simplesmente não apareceu para gravar o segundo, de tão envergonhado que ficou. E como televisão, além de show, é sobretudo business, a Globo decidiu cobrar judicialmente a multa contratual. O superintendente da emissora, Walter Clark, fez chegar a Chico a proposta conciliatória: bastava uma música inscrita no festival e o processo terminaria. Ele aceitou, e assim nasceu "Carolina", cuja letra foi feita num avião, "nas coxas mesmo".

Esse, porém, não seria o único dos motivos. Em 1968 a música apa­receria como uma das preferidas do marechal Costa e Silva, na voz de Agnaldo Rayol. Mas não para por aí. A gravação de Caetano Veloso no seu LP de 1969 seria um dos arranhões a abalar a sólida amizade dos dois compositores.

Em entrevista ao tablóide Opinião, Caetano negou que houvesse de­boche na gravação:


É uma das poucas boas gravações que eu já fiz (só gosto dela, de "Coração vagabundo" e de mais uma ou duas). Uma "Carolina" bem emocional. Também foi a época que eu fiquei confinado na Bahia e via sempre na televisão a música em todos os programas de ca­louros. Ela virou uma espécie de subtexto lírico nacional, e eu sei que o Chico nem ligava muito pra ela. Cantando daquela maneira, eu senti que estava modificando isso, descarregando um pouco da minha irritação.
Mais tarde Caetano retoma o assunto em seu livro Verdade tropical:
Claro que havia uma agressividade necessária contra o culto unânime a Chico em nossas atitudes. Quando gravei, em 69, a "Carolina"

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num tom estranhável, eu claramente queria, entre outras coisas, relativizar a obra de Chico (embora não fosse essa, ali, a principal moti­vação). [...] É preciso ter em mente que a glória indiscutível de Chico nos anos 60 era um empecilho à afirmação do nosso projeto.


Em que pesem as desavenças - todas mais que superadas -, é de Caetano uma das melhores definições do papel que Chico representou naquele momento da música popular brasileira: "Chico Buarque anda pra frente arrastando a tradição".

O tempo e uma boa causa proporcionaram a reaproximação entre o criador e a criatura tão problemática. Em 1987 o Banco do Brasil produziu o disco Há sempre um nome de mulher para a campanha pelo aleitamen­to materno, e Chico não titubeou em gravar "Carolina", após vinte anos.

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(Figura 003)

Chico Buarque e Tom Jobim no conturbado

III Festival Internacional da Canção, em que

"Sabiá" saiu vencedora.

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1968

Um marinheiro me contou

que a brisa lhe soprou

que vem aí bom tempo
No explosivo ano de 1968, o PC do B (Partido Comunista do Brasil) prepara-se para a luta armada no Araguaia. Nas cidades, aumenta o nú­mero de manifestações estudantis violentamente reprimidas (algumas com mortes), de greves, atentados e assaltos a bancos e instalações militares. Por seu lado, a direita contra-ataca destruindo editoras e teatros com matiz de esquerda. Em 26 de junho acontece no Rio de Janeiro a Passeata dos Cem Mil. Em outubro o governo prende quase mil jovens reunidos em Ibiúna-SP, no Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Nesse ambiente foi lançado o terceiro LP de Chico e aconteceram os mais conturbados festivais de que ele participou, conseguindo, entretanto, classificar uma canção em cada um deles.

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Ela desatinou (1968)

Chico Buarque


Ela desatinou

Viu chegar quarta-feira

Acabar brincadeira

Bandeiras se desmanchando

E ela inda está sambando
Ela desatinou

Viu morrer alegrias

Rasgar fantasias

Os dias sem sol raiando

E ela inda está sambando
Ela não vê que toda gente

Já está sofrendo normalmente

Toda a cidade anda esquecida

Da falsa vida da avenida onde


Ela desatinou

Viu morrer alegrias

Rasgar fantasias

Os dias sem sol raiando

E ela inda está sambando
Quem não inveja a infeliz

Feliz no seu mundo de cetim

Assim debochando

Da dor, do pecado

Do tempo perdido

Do jogo acabado

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Nem toda composição tem uma história, um motivo ou uma fonte de inspiração precisa. Indagado sobre a origem de "Ela desatinou", ele acre­dita que tenha sido uma cena de foliões desorientados pela cidade após o carnaval. Após dizer que o que importa é a obra em si e não a sua pe­riferia, ele arremata: "Tenho a impressão que foi notícia de jornal. Mas se não for, pode ser, porque isso deve acontecer sempre".
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Retrato em branco e preto (1968)

Tom Jobim-Chico Buarque


Já conheço os passos dessa estrada

Sei que não vai dar em nada

Seus segredos sei de cor

Já conheço as pedras do caminho

E sei também que ali sozinho

Eu vou ficar, tanto pior

O que é que eu posso contra o encanto

Desse amor que eu nego tanto

Evito tanto

E que no entanto

Volta sempre a enfeitiçar

Com seus mesmos tristes velhos fatos

Que num álbum de retratos

Eu teimo em colecionar


Lá vou eu de novo como um tolo

Procurar o desconsolo

Que cansei de conhecer

Novos dias tristes, noites claras

Versos, cartas, minha cara

Ainda volto a lhe escrever

Pra lhe dizer que isso é pecado

Eu trago o peito tão marcado

De lembranças do passado

E você sabe a razão

Vou colecionar mais um soneto

Outro em branco e preto

A maltratar meu coração

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A canção de Tom Jobim, feita em 1965, chamava-se "Zíngaro" - por­que Tom, vivendo nos Estados Unidos, sentia-se como um cigano -, e já havia sido gravada no LP A Certain Mr. Jobim, com a participação do arranjador alemão Claus Ogerman. Tom passou a Chico diversas músicas desse álbum, e a primeira letra que saiu foi "Retrato em branco e preto".

Nos primórdios da parceria, estimulada por Vinicius de Moraes, Tom pouco palpitava, o que viria a acontecer com muita freqüência quando o tempo e a intimidade permitiram. Chico atribui a benevolência e a tolerân­cia iniciais ao paternalismo do maestro, que queria dar uma forcinha ao jovem letrista. Mesmo assim houve discussões.

Quando o Quarteto em Cy estava para gravar a canção, Chico decidiu mudar a expressão "peito tão marcado" por "peito carregado", e explicou ao parceiro que "tão" havia sido uma muleta para completar as sílabas da canção. A alteração foi aceita, mas logo depois o maestro telefonava pedindo que mantivesse a versão original, porque "peito carregado" tinha também a conotação de tosse. Chico cedeu.

Em outra ocasião Tom teria dito a Chico que ninguém fala: "retrato em branco e preto", e que a expressão correta seria "preto e branco". Ao que Chico teria respondido: "Então tá. Fica assim: 'Vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco'". Diante de uma tamancada tão convincente, Tom entregou os pontos.
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