I. Chega a tempestade Foi como aconteceu. Na noite em que finalmente cedeu a pior onda de calor da história no norte da Nova Inglaterra a noite em julho de 19



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O NEVOEIRO

I. Chega a tempestade


Foi como aconteceu. Na noite em que finalmente cedeu a pior onda de calor da história no norte da Nova Inglaterra — a noite em julho de 19... toda a região oeste do Maine foi devastada pelas mais terríveis tempestades que já testemunhei.

Morávamos em Long Lake e vimos a primeira dessas tempestades abrindo caminho sobre a água, em nossa direção, pouco antes do escurecer. Durante uma hora o ar havia ficado absolutamente parado. A bandeira americana colocada por meu pai em nossa casa de barcos, em 1936, jazia flácida contra seu mastro. Nem mesmo as pontas oscilavam. O calor era como uma coisa sólida, parecendo tão profundo, tão soturno como água de poço. Naquela tarde, nós três tínhamos ido nadar, porém a água não causava alívio, a menos que se fosse bem no fundo. Acontece que, nem eu e nem Steff queríamos ir para o fundo, porque Billy não podia. Billy tem cinco anos.

Tivemos uma refeição fria às cinco e meia, beliscando desanimadamente sanduíches de presunto e salada de batata no passadiço que dá para o lago. Ninguém parecia querer algo mais além de Pepsi, que estava em um balde de aço com cubos de gelo.

Depois que terminamos, Billy voltou a brincar em suas barras de exercícios por algum tempo. Eu e Steffy ficamos sentados, sem falar muito, fumando e espiando o soturno espelho chato do lago até Harrison, no lado oposto ao nosso. Alguns barcos à motor troavam para lá e para cá. Os pinheiros na margem contrária pareciam empoeirados e murchos. Para oeste, nuvens enormes e purpúreas acumulavam-se lentamente, maciças como um exército. Relâmpagos faiscavam dentro delas. Na casa ao lado, o rádio de Norton, sintonizado para aquela estação de música clássica, transmitida do alto do Monte Washington, soltava uma alta torrente de estática, sempre que brilhava algum relâmpago. Norton era um advogado de Nova Jersey e aquela casa junto ao Long Lake era apenas uma residência de verão, sem qualquer fornalha ou calefação. Dois anos antes, havíamos tido uma disputa sobre divisas, que acabou indo parar no tribunal do condado. Eu venci. Norton dizia que eu vencera porque ele era um forasteiro. Não havia excessos de amizade entre nós.

Steff suspirou desanimada e abanou o alto dos seios com a barra de sua frente única.

Duvidei que aquilo a refrescasse muito, mas o movimento melhorava bastante a vista.

— Não quero assusta-la — falei — mas acho que vem uma tempestade e tanto por ai.

Ela me fitou dubitativamente.

— Já tivemos trovoadas na noite de anteontem e ontem também, David. Não deram em nada.

— Esta noite vai ser diferente.

— Você acha?

— Se a coisa ficar preta, vamos para o andar de baixo.

— Acha mesmo que haverá temporal?

Meu pai tinha sido o primeiro a construir uma moradia que resistisse o ano inteiro, naquele lado do lago. Quando pouco mais do que um garoto, ele e seus irmãos haviam levantado uma casa de verão onde a nossa agora se assentava, mas uma tempestade de verão, em 1938, a derrubara até os alicerces, com paredes de pedra e tudo. Só a casa de barcos escapara. Um ano mais tarde, ele havia começado a casa grande. Agora, as árvores é que sofrem nos temporais fortes. Envelheceram e o vento as derruba. É a maneira da mãe natureza limpar a casa periodicamente.

— Para ser franco, não sei — falei, em tom sincero. Eu tinha apenas ouvido histórias sobre a grande tempestade de trinta e oito. — Contudo, o vento pode soprar do lago como um trem expresso.

Billy apareceu. pouco depois, queixando-se de que não estava divertido brincar nas barras de exercício, porque ele estava "todo suado". Afaguei seus cabelos, desmanchando-os, e lhe dei outra Pepsi. Mais trabalho para o dentista.

As nuvens cúmulos de trovoadas, estavam chegando mais perto, empurrando o azul do céu. Agora não havia mais dúvida sobre a iminência de uma tempestade. Norton desligara seu rádio. Billy sentou-se entre sua mãe e eu, espiando o céu como que fascinado. Os trovões ribombavam, rolando lentamente através do lago, ecoando e voltando a nós. As nuvens se torciam e rolavam, agora encimando todo o lago, e pude ver uma coifa delicada de chuva que caía delas. Tudo ainda muito distante. Enquanto olhávamos, provavelmente devia estar chovendo em Bolster's Mills, talvez até em Norway.

O ar começou a mover-se, primeiro intermitente, erguendo a bandeira e deixando-a cair de novo. Começou a refrescar e a brisa se firmou, primeiro esfriando a transpiração de nossos corpos, depois parecendo congelá-la.

Foi então que avistei o véu prateado, cruzando o lago. Em segundos, apagou Harrison da vista e veio direto para nós. Os barcos a motor tinham desaparecido do cenário.

Billy levantou-se de sua cadeira, uma réplica em miniatura de nossas cadeiras de diretor, completa com seu nome pintado às costas.

— Papai! Olhe!

— Vamos entrar — falei, levantando-me e passando o braço em torno de seus ombros.

— Você viu, papai? O que era aquilo?

— Um ciclone de água. Vamos entrar.

Steff lançou um olhar rápido e assustado para meu rosto.

— Vamos, Billy — disse em seguida. — Faça o que seu pai mandou.

Entramos pelas portas deslizantes de vidro que dão para a sala de estar. Fechei as portas, empurrando-as em seus trilhos, depois parei e olhei novamente para fora. O véu prateado já fizera três-quartos do trajeto através do lago. Reduzira-se a uma espécie de xícara de chá girando loucamente entre o céu negro, cada vez mais baixo, e a superfície da água, que ficara cor de chumbo, raiada de branco cromado. O lago começava a oferecer uma fantástica semelhança com o oceano, havia ondas enormes que se quebravam e lançavam espuma acima das docas e quebra-mares. Lá fora, no meio, ondas de crista espumosa jogavam as cabeças para um e outro lado.

Espiar o ciclone líquido era hipnótico. Estava quase sobre nós, quando um relâmpago riscou tudo com tanta luminosidade, que a paisagem permaneceu em negativo nos meus olhos, por trinta segundos depois disso. O telefone fez um assustado ting! e, quando me virei, vi minha esposa e meu filho, parados bem à frente do janelão que nos dá uma vista panorâmica do lago a noroeste.

Tive uma daquelas terríveis visões — creio que são reservadas exclusivamente para maridos e pais — em que a janela panorâmica se estilhaçava com um som grave de tosse seca, disparando flechas de vidro ao estômago nú de minha esposa, ao rosto e pescoço de meu garoto. Os horrores da Inquisição nada são, comparados às sinas que nossa mente arquiteta para os entes queridos.

Agarrei os dois com firmeza e os puxei dali.

— Diabo, o que estão fazendo? Saiam daí!

Steff deu-me um olhar assustado. Billy apenas olhou para mim como parcialmente despertado de um sono profundo. Guiei-os para a cozinha e apertei o interruptor da luz.

O telefone tilintou novamente.

Então, o vento chegou. Era como se a casa houvesse decolado, imitando um 747. Ouvia-se um assobio arquejante e agudo, às vezes aprofundando-se em um rugido grave antes de glissar para um uivo ululante.

— Vá para baixo! — falei para Steff, agora precisando gritar, a fim de ser ouvido.

Diretamente acima da casa, os trovões estremeciam pranchas gigantescas e Billy encolheu-se, agarrado à minha perna.

— Venha você também! — gritou Steff.

Assenti, fazendo gestos para acalmá-la. Precisei arrancar Billy de minha perna.

— Vá com sua mãe. Preciso apanhar algumas velas, para o caso da luz faltar.

Ele a seguiu, e eu comecei a abrir armários. Velas são coisas engraçadas, sabem como é.

A gente as guarda, todas as primaveras, sabendo que uma tempestade de verão pode interromper a energia elétrica. No entanto, chegado o momento, elas se escondem.

Agora, eu vasculhava o quarto armário, passando pelos quinze gramas de erva que comprara com Steff, quatro anos atrás, mas que ainda não fora inteiramente fumada, passando pelas dentaduras chocalhantes de dar corda, pertencentes a Billy e compradas na Loja de Novidades de Auburn, passando pelas fotos espalhadas que Steff sempre esquecia de colar em nosso álbum. Olhei debaixo de um catálogo da Sears e atrás de uma boneca Kewpie, de Taiwan, que eu ganhara na Feira de Fryeburg, derrubando garrafas de leite em madeira, com bolas de tênis.

Encontrei as velas atrás da boneca Kewpie, com seus vidrados olhos mortos de ser humano. Ainda estavam embrulhadas no celofane. Quando fechei a mão em torno delas, as luzes apagaram-se e a única eletricidade era a que provinha do céu. A sala de refeições iluminava-se em uma série de flashes rápidos, brancos e purpúreos. Ouvi Billy começando a chorar lá embaixo e o murmúrio sufocado de Steff tentando acalmá-lo.

Eu tinha que dar mais uma espiada na tempestade.

O ciclone líquido já devia ter passado sobre nós ou se dissolvera junto à margem, mas eu não conseguia ver além de vinte metros na superfície do lago. A água estava em absoluto torvelinho. Vi o embarcadouro de alguém — dos Jasser, talvez — arrancado com seus esteios principais, virando-se alternadamente para o céu e enterrando-se na água encapelada.

Desci. Billy correu a agarrar-se em minhas pernas. Levantei-o no colo e o abracei com força. Depois acendi as velas. Sentamo-nos no quarto de hóspedes, abaixo do saguão de meu pequeno estúdio e nos entreolhamos, à tremeluzente claridade amarelada das velas, enquanto ouvíamos a tormenta urrar e sacudir nossa casa. Uns vinte minutos mais tarde, ouvimos um ruído de madeira lascando, depois a queda, quando um dos grandes pinheiros foi derrubado nas proximidades. Em seguida, houve silêncio.

— Será que já terminou? — perguntou Steff.

— Talvez — respondi. — Talvez, apenas por algum tempo.

Subimos ao andar de cima, cada um carregando uma vela, como monges indo às vésperas. Billy carregava a sua, com cuidado e orgulhosamente. Carregar uma vela, carregar o fogo era uma grande coisa para ele. Ajudava-o a esquecer que tivera medo.

Estava muito escuro, para ver-se quais os danos existentes em volta da casa. Já passara da hora de Billy dormir, mas nenhum de nós sugeriu levá-lo para a cama. Sentados na sala de estar, ouvíamos o vento e olhávamos os relâmpagos.

Cerca de uma hora mais tarde, o temporal voltou. Durante três semanas, a temperatura passara dos trinta e dois graus e, em seis daqueles vinte e um dias, o Serviço Nacional de Meteorologia sediado no aeroporto de Portland, anunciara temperaturas acima de trinta e cinco graus e meio. Tempo esquisito. Além do extenuante inverno que havíamos atravessado e da primavera atrasada, algumas pessoas tinham desencavado aquela velha piada sobre os efeitos retardados dos testes com a bomba A nos anos cinqüenta. Isso é, naturalmente, o fim do mundo. A mais velha piada de todas.

A segunda borrasca não foi tão violenta, mas ouvimos a queda de várias árvores, enfraquecidas pela primeira investida. Quando o vento começou a esmorecer novamente, ouviu-se uma forte pancada no teto, como um punho que caísse sobre a tampa de um ataúde. Billy deu um salto e olhou apreensivamente para o alto.

— Ele agüenta, campeão — falei.

Billy sorriu nervosamente.

Por volta das dez da noite, chegou a última borrasca. Terrível. O vento ululava quase tão alto como da primeira vez e os relâmpagos pareciam explodir em toda a nossa volta.

Mais árvores caíram e ouvimos um ruído de madeira estilhaçada, seguido de uma queda, perto da água. Steff sufocou um grito. Billy acabara dormindo em seu colo.

— O que foi isso, David?

— Acho que foi a casa de barcos.

— Oh! Oh, meu Deus!

— Vamos todos para baixo novamente, Steffy — falei.

Tomei Billy nos braços e levantei-me com ele. Os olhos de Steff estavam arregalados e cheios de medo.

— Será que vamos ficar bem, David?

— Claro.

— Fala sério?

— Naturalmente.

Fomos para baixo. Dez minutos mais tarde, quando a borrasca final atingiu o auge, houve uma barulheira de vidros espatifados no andar de cima — a janela panorâmica.

Talvez a minha visão de horas antes não houvesse sido assim tão louca. Steff estivera cochilando e acordou com um pequeno grito agudo, enquanto Billy se remexia inquietamente na cama de hóspedes.

— A chuva entrará em casa — disse ela. — Acabará com os móveis.

— Se entrar, paciência. Está tudo no seguro.

— Isso não torna as coisas melhores — disse ela, em voz perturbada e reprovadora. — A cômoda de sua mãe... nosso sofá novo... a TV colorida...

— Psst — falei. — Durma.

— Não posso — respondeu ela, mas dormia cinco minutos depois.

Fiquei acordado por outra meia hora, tendo uma vela acesa por companhia, ouvindo o temporal caminhar e falar lá fora. Tive a sensação de que, pela manhã, haveria uma porção de residentes das margens do lago ligando para seus agentes de seguro, um bocado de serras zumbindo, enquanto os moradores cortavam as árvores caídas em seus tetos e varado suas janelas, bem como inúmeros caminhões amarelos da companhia de eletricidade rodando nos arredores.

O temporal agora diminuía, sem nenhum sinal de nova borrasca. Subi ao andar de cima, deixando Steff e Billy na cama. Examinei a sala de estar. A porta de vidro deslizante agüentara o rojão. Entretanto, no lugar onde antes houvera a janela panorâmica, agora havia um buraco chanfrado e recheado de folhas de bétula. Era o topo da velha árvore que crescia junto à entrada lateral para o porão, desde que eu podia recordar. Olhando para seu topo, agora visitando nossa sala de estar, podia entender o que Steff quisera dizer, ao falar que o seguro não tornava as coisas melhores. Eu amara aquela árvore.

Havia sido uma rude veterana de muitos invernos, a única árvore no lado da casa dando para o lago, que ficara isenta de minha própria serra de cadeia. Enormes estilhaços de vidro em cima do tapete, refletiam e repetiam a claridade de minha vela. Lembrei-me de avisar a Steff e Billy. Teriam que usar seus chinelos ali. Os dois gostavam de perambular descalços pela manhã.

Desci novamente ao andar de baixo. Dormimos os três na cama de hóspedes, com Billy entre nós dois. Sonhei que via Deus caminhando através de Harrison, no lado oposto do lago, um Deus tão gigantesco que, da cintura para cima, ficava perdido em um cristalino céu azul. No sonho, eu podia ouvir o estalo lacerante e o ruído de árvores lascadas se quebrando, quando Deus pisava forte nos bosques, imprimindo Suas pegadas entre as árvores. Ele circulava o lago, seguia para o lado de Bridgton, em nossa direção. Todos os chalés e casas de verão explodiam em chamas branco-púrpura, como relâmpagos, e logo a fumaça encobria tudo. A fumaça encobria tudo como um nevoeiro.


II. Depois da tempestade. Norton. Viagem à cidade.
— Poxa! — exclamou Billy.

Ele estava em pé junto à cerca divisória entre nossa propriedade e a de Norton, com os olhos cravados em nossa entrada para carros, mais abaixo. Essa entrada de carros segue por uns duzentos e cinqüenta metros até uma estrada rural que, por sua vez, após uns setecentos e cinqüenta mais, emenda-se a uma outra, asfaltada e com duas pistas, chamada Estrada Kansas. Da Estrada Kansas, pode-se ir a qualquer lugar desejado, desde que seja Bridgton.

Vi o que Billy olhava e meu coração gelou.

— Não chegue mais perto, campeão. Onde você está já chega!

Billy não discutiu.

A manhã era brilhante e tão límpida como um toque de sino. O céu que mostrara uma tonalidade suja e obscura durante a onda de calor, recuperara um vívido azul que era quase outonal. Havia uma brisa leve, desenhando alegres manchas mosqueadas de sol na entrada de carros e movendo-as de um lado para outro. Não muito longe de onde estava Billy, ouvia-se um permanente ruído sibilante e, sobre a relva, estava o que, à primeira vista, seria tomado por um confuso enrodilhado de serpentes. Os cabos de força que vinham até nossa casa haviam caído emaranhados, a cerca de seis metros de distância, e jaziam sobre um retalho queimado de relva. Os cabos contorciam-se preguiçosamente e cuspiam. Se as árvores e o gramado não estivessem tão encharcados pelas chuvas torrenciais, aquilo poderia significar o fim para a casa. Agora, no entanto, havia apenas aquele retalho negro, onde os fios tinham tocado diretamente.

— Isso pode letocrutar uma pessoa, papai?

— Hã-hã. Pode sim.

— E o que a gente faz com isso?

— Nada. Vamos esperar pela companhia de eletricidade.

— E quando é que eles chegam?

— Não sei. — Garotos de cinco anos têm uma infinidade de perguntas a fazer. — Acho que eles andam muito ocupados esta manhã. Quer dar uma caminhada até o fim da alameda comigo?

Ele começou a andar e então parou, olhando nervosamente para os fios. Um deles se revirara e caíra de lado preguiçosamente, como que em um aceno.

— Papai, a letricidade pode andar no chão?

Uma pergunta sensata.

— Pode, mas não se preocupe. A eletricidade quer o chão, não você, Billy. Nada lhe acontecerá, se ficar longe dos fios.

— Ela quer o chão — murmurou Billy, caminhando para mim.

Seguimos pela entrada de carros, de mãos dadas. A coisa havia sido pior do que eu imaginara. Vi árvores caídas sobre a alameda em quatro pontos diferentes, uma delas de pequeno porte, outra mediana e uma vetusta, cujo tronco deveria medir metro e meio. O musgo aderira a ela como um corpete enlameado.

Galhos, alguns quase despidos das folhas, jaziam por toda parte, em desordenada profusão. Eu e Billy fomos até a estrada rural, atirando os ramos menores para o meio do mato, às margens da alameda. Aquilo me recordava certo dia de verão, talvez uns vinte e cinco anos antes; eu talvez não fosse muito mais velho do que Billy agora.

Todos os meus tios estavam ali e haviam passado o dia nos bosques, com machados e machadinhas, cortando mato. Já tarde avançada, haviam-se acomodado todos em volta da mesa de cavaletes que meus pais usavam para piqueniques e entregaram-se a uma refeição monstro de cachorros-quentes, hamburgeres e salada de batata. A cerveja Gansett rolara como água, e meu tio Reuben mergulhara no lago inteiramente vestido, inclusive com os sapatos. Naquele tempo, ainda havia alces nos bosques.

— Posso descer até o lago, papai?

Ele já se cansara de atirar galhos, de maneira que a coisa a fazer com um garotinho, quando se cansa, é deixá-lo fazer algo diferente.

— Claro — respondi.

Voltamos juntos e então Billy foi para a direita, contornando a casa e mantendo uma grande distancia dos fios caídos. Eu tomei a esquerda e fui à garagem, pegar minha serra McCullough. Como desconfiara, já podia ouvir a cantiga desagradável de outras serras, abaixo e acima, na margem do lago.

Completei o tanque, tirei a camisa e ia voltar para a alameda, quando Steff saiu. Ela olhou nervosamente para as árvores caídas, atravancando a entrada de carros.

— Está muito difícil?

— Posso dar um jeito — respondi. — E lá dentro?

— Bem, já limpei os vidros partidos, mas você terá que fazer algo com aquela árvore, David. Não podemos ficar com uma árvore na sala de estar.

— Não — concordei. — Acho que não podemos.

Entreolhamo-nos ao sol da manhã e demos risadinhas sufocadas. Coloquei a serra na área cimentada e beijei Steff, segurando suas nádegas com firmeza.

— Não faça isso — murmurou ela. — Billy está...

Ele surgiu gritando, enquanto dobrava a esquina da casa.

— Pai! Papai! Você tem que ver o...

Steff vira os fios soltos e gritou para ele tomar cuidado. Ainda a boa distância deles, Billy estacou de súbito e fitou a mãe, como se ela estivesse doida.

— Eu estou legal, mamãe — disse ele, naquele cuidadoso tom de voz que se emprega para acalmar os muito velhos e senis.

Depois caminhou para nós, mostrando o quanto estava bem. Steff começou a tremer em meus braços.

— Está tudo bem — falei em seu ouvido. — Billy sabe sobre esses fios.

— Sim, mas pessoas morrem — respondeu ela. Vêem anúncios na televisão o tempo todo, alertando sobre fios soltos, mas mesmo assim... Billy, quero que vá imediatamente para dentro!

— Oh, mãe, poxa! Quero mostrar a casa de barcos a papai!

Billy tinha os olhos quase esbugalhados de excitamento e desapontamento. Acabara de testemunhar uma amostra retardada do apocalipse e queria partilhá-la.

— Entre agora mesmo! Aqueles fios são perigosos e...

— Papai disse que eles querem o chão, não a mim...

— Não discuta comigo, Billy!

— Vou descer e dar uma espiada, campeão. Desça você também. — Pude sentir Steff retesar-se contra mim. — Vá pelo outro lado, filho.

— Tá bem! Eu vou!

Billy passou por nós correndo e desceu a escada de pedra que seguia para o oeste da casa, pulando os degraus de dois em dois. Desapareceu de vista com a fralda da camisa esvoaçando ao vento, e uma exclamação pairou no ar — "Uau!" — quando localizou outra peça de destruição.

— Ele já sabe sobre os fios, Steff. — Tomei-a delicadamente pelos ombros. Billy tem medo deles. Isso é bom. Deixa-o em segurança.

Uma lágrima lhe deslizou pelo rosto.

— Estou com medo, David.

— Ora, vamos! Tudo já terminou.

— Será? No inverno passado... e na primavera retardada... Na cidade, deram o nome de primavera negra... Eles disseram que nunca mais houvera outra, desde 1888...

"Eles", certamente significavam a Sra. Carmody, dona do Antiquário de Bridgton, uma loja de quinquilharias que Steff gostava de vasculhar de quando em quando. Billy adorava acompanhá-la. Em um dos sombrios e poeirentos aposentos dos fundos, corujas empalhadas com olhos orlados de dourado, estendiam as asas para sempre, enquanto os pés agarravam-se eternamente a troncos envernizados; raccons empalhados formavam um trio à volta de uma "corrente", que não passava de um comprido fragmento de espelho empoeirado, e um lobo comido de traças, espumando serragem em vez de saliva em torno da queixada, arreganhava a boca em arrepiante e eterno rosnado. A Sra. Carmody garantia que o lobo tinha sido abatido por seu pai, quando bebia no arroio Stevens, em certa tarde de setembro de 1901.

As expedições à loja de antiguidade da Sra. Carmody faziam bem a minha esposa e meu filho. Ela se infiltrava em uma fileira cheia de vidros espelhados, enquanto ele via a morte, sob o nome de taxidermia. Contudo, eu ainda achava que a velha exercia uma influência bastante desagradável sobre e mente de Steff que, em outros sentidos, era prática e obstinada. A Sra. Carmody encontrara o ponto vulnerável de Steff, seu calcanhar de Aquiles mental. Aliás, Steff não era a única na cidade que ficava fascinada com os pronunciamentos góticos da Sra. Carmody e seus remédios populares (sempre prescritos em nome de Deus).

Água com tocos de cigarros é boa para contusões, quando seu marido gosta de usar os punhos, depois de uns três drinques. Pode-se saber que tipo de inverno vai chegar, contando-se os anéis das lagartas em junho ou medindo a espessura dos favos de mel em agosto. E agora, que o bom Deus nos proteja e guarde, A PRIMAVERA NEGRA DE 1888 (acrescente tantos pontos de exclamação quantos achar que deva). Eu também ouvira a história. É do tipo que gostam de passar adiante, por aqui — se a primavera for fria o suficiente, o gelo nos lagos eventualmente ficará negro como um dente cariado. É coisa rara, ocorrência que dificilmente acontece em um século. Eles gostam de falar nisso para os outros, mas duvido que com maior convicção do que a Sra. Carmody.

— Tivemos um inverno duro e uma primavera atrasada — falei. — Agora, vamos ter um verão muito quente. Houve esta tempestade furiosa, mas já terminou. Não está agindo com naturalidade, Stephanie.

— Essa não foi uma tempestade comum — disse ela, na mesma voz roufenha.

— Não, não foi. Nisso, concordo com você

Bill Giosti é que me contara a história da Primavera Negra, Bill possuía e dirigia — já há uma temporada — o Giosti's Mobil, em Casco Village. Ele operava a casa com seus três filhos beberrões (e ajuda ocasional dos quatro netos beberrões... quando estes podiam largar um pouco a lanternagem de seus snowmobiles e bicicletas para estradas de terra). Bill estava com setenta anos, aparentava oitenta e podia beber como se tivesse vinte e três, quando sentia disposição. Eu e Bill havíamos levado o Scout para encher o tanque, no dia seguinte ao de uma tormenta-surpresa em meados de maio, que deixou a região com quase trinta centímetros de neve molhada e compacta, que cobriu a grama e flores recentes. Giosti andara entornando uns copos e estava feliz em passar adiante a história da Primavera Negra, com floreios pessoais.



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