Identidade e parentesco na construção e desconstrução da



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REFMUR – RED DE ESTUDIOS DE FAMILIA MURCIA

PRIMER CONGRESO INTERNACIONAL:

FAMILIAS: COMPLEJIDADES DEL PASADO Y DEL PRESENTE
Eixo temático: identidade e parentesco.
Murcia, 1-2, febrero, 2011.



Identidade e parentesco

na construção e desconstrução da cultura teuto-brasileira

(1876-1973).


Sergio Odilon Nadalin*


Resumo

O presente texto estrutura-se como uma nota prévia a respeito da pesquisa que está sendo desenvolvida na UFPR (Curitiba), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil (CNPq). Um dos objetivos da investigação sintetiza-se na necessidade de configurar e caracterizar práticas de parentesco e compadrio, no âmbito de um grupo social cuja identidade caracteriza-se em função do luteranismo, e que atua em espaços limitados por “fronteiras étnicas”; estas fronteiras assim se definem até, pelo menos, a conjuntura da Segunda Guerra Mundial. O quadro é de urbanização, e o período em referência para a investigação é balizado pelos anos de 1876 e 1973, ultrapassando as “rupturas” anunciadas para o período referente à Guerra. Do grupo, extraí uma “amostra”, demarcadas pelas fichas de família (modelo Fleury-Henry) dos descendentes de Christian e Christine Strobel, imigrantes alemães oriundos de Glauchau, na Saxônia. O casal teve filhos, que lhes deram netos. Estes também tiveram filhos e netos, e essas quatro gerações agregam-se em 53 casais, que geraram 166 filhos e que, batizados na Igreja Evangélica Luterana, demandaram, pelo menos, 332 padrinhos e madrinhas.

Em relação às uniões matrimoniais registradas nos livros da paróquia, foi possível arrolar as testemunhas ou os “padrinhos de casamento”, identificadas segundo o estado civil, origem étnica (e paroquial) e as relações com os noivos. Em seguida, os batismos, que foram classificados em função do número de “testemunhas”, segundo o parentesco com os pais da criança. As considerações finais chamam a atenção para o fato de que, pelo menos no que espelha o comportamento dos descendentes do primeiro casal Strobel em Curitiba, o compadrio entre os luteranos parece se definir – mais do que pela identidade étnica – pelo parentesco. Essas características dizem respeito, principalmente, aos tios e tias (do lado materno) do batizando, e aos parentes (do lado das noivas), no que se refere às testemunhas de casamento.

Nessa [nossa] casa nasceu mais uma menina, sendo a minha terceira irmã.



A mesma devia ser batizada, mas a igreja mais próxima ficava em São José

dos Pinhais e para chegar lá levavam-se horas de caminhada.

Era difícil para meus pais se ausentarem por tanto tempo. Um vizinho

nosso, [o] senhor Rocha, prontificou-se a levar a criança até São José para

batizá-la, e também assumir o papel de padrinho. Meus pais aceitaram

de bom grado esta oferta e no dia marcado o casal acompanhado

por uma escrava que servia como ama chegou em montarias para

que levassem a criança para o batismo. Naquela época não existiam ainda

em todo Paraná, igrejas luteranas, e assim nossa irmã foi batizada por um

padre católico. Ao entardecer voltaram com a criança devidamente

batizada, sem que meu pai tivesse a despesa de um vintém.

Este casal, que antes já era muito prestativo para nós, a partir deste batizado

tornou-se mais amigo ainda, pois ficaram, com este ato, compadres dos nossos pais.

O fato de ser compadre é levado muito a sério pelos brasileiros e considerado como

uma deferência especial para os escolhidos.” [Strobel, 1987:62-63.]


Introdução
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) congrega paróquias constituídas em grande parte por descendentes de imigrantes germânicos, organizadas principalmente por toda região meridional brasileira, onde se concentraram os núcleos imigrantes que começaram a chegar no Brasil na década de 1820.1 Algumas dessas paróquias localizam-se atualmente em Curitiba, reunidas numa União Paroquial,2 congregando, entre outros, descendentes de alemães que se espalham por toda a região metropolitana.

Essa união é conseqüência do desenvolvimento de uma só organização paroquial, fundada em 1866 (a Deutsche Evangelische Gemeinde), numa conjuntura em que se instalaram os primeiros núcleos de imigrantes de origem alemã na capital paranaense. As paróquias curitibanas guardam como parte de sua memória séries contínuas de registros de batismos, casamentos e óbitos, documentação que testemunha, de diversas maneiras, a construção de uma identidade étnica germânica (Deutschtum) e, principalmente, teuto-brasileira (Deutschbrasilianertum). É dessa forma que as mencionadas fontes permitem recompor as relações de compadrio (tanto de casamento como de batismos), objeto desta comunicação.

Assim é que o texto estrutura-se como uma nota prévia a respeito da pesquisa que está sendo desenvolvida em Curitiba, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).3 Seus objetivos sintetizam-se na necessidade de configurar e caracterizar práticas de parentesco e de nominação,4 no âmbito do grupo social e religioso que atua em espaços limitados por “fronteiras étnicas” [Barth, 1998] que assim se definem até, pelo menos, a conjuntura da Segunda Guerra Mundial. O quadro é de urbanização (estou me referindo a Curitiba), e o período em referência para a investigação é balizado pelos anos de 1876 e 1973, que dizem respeito ao primeiro e último nascimento das crianças cujos batismos foram considerados para este estudo. Importa observar que a duração assinalada ultrapassa os traumas e “rupturas” vivenciadas pela comunidade no que diz respeito a uma parte do governo de Getúlio Vargas e a participação do Brasil na Guerra (1937 a 1945).

O problema: identidade e parentesco num contexto de contatos culturais.
Em 1994, comuniquei um texto argumentando a favor da afinidade construída pela amizade construída num contexto de “imigração”5 e reforçada posteriormente por laços de compadrio estabelecidos por ocasião do casamento de Carl August Langermann e Wilhelmine Lindemuth, sendo padrinhos o casal Johann e Emilie (née Schlottag) Mehl. Anos mais tarde, Emma, filha dos Langermann, casou-se com Otto, filho de Johann e Emilie Mehl. Não foi por acaso que Otto era afilhado da mãe da noiva, que o batizou ainda solteira. As histórias das famílias constituídas pelos dois casais cruzaram-se ainda na Colônia Dona Francisca,6 provavelmente pelo fato de serem, todos, originados da Pomerânia e falarem o mesmo dialeto, pela circunstância provável de que devem ter decidido juntos a mudança para Curitiba e, finalmente, pela vizinhança – instalaram-se na região colonial ao norte da capital paranaense. Enfim, além dos laços de casamento que dessa forma se estabeleceram e, ainda, pelo reforço do compadrio: a última filha do casal Langermann recebeu o mesmo prenome de Emilie (Mehl), sua madrinha. 7

As circunstâncias da imigração e do “migrar de novo” impediam que relações “parentais” mais amplas existissem, pelo menos nos moldes de uma sociedade estável: é exemplar o fato de que Wilhelmine, a mulher de Carl Langermann, não tinha parentes em Curitiba.8 O fenômeno da migração e do desarraigamento familiar conseqüente impediu a observação de alternâncias de gerações no compadrio, como Woortmann verificou em Dois Vizinhos, no Rio Grande do Sul.9 Segundo a antropóloga, algumas estruturas são evidentes na colônia por ela estudada. Uma delas refere-se ao estabelecimento de relações de reciprocidade entre o afilhado e seu “pai espiritual”, que paga sua dívida apadrinhando o neto de seu padrinho [1995:201]. Se não foi bem assim, algo semelhante ocorreu em Curitiba: Wilhelmine Lindemuth, ainda solteira, foi madrinha de Otto, filho de Johann Mehl; mais tarde, depois de casada sua filha com o afilhado, o mesmo foi, por sua vez, padrinho do sétimo filho de Wilhelmine (justamente nominado August Otto Gustav). Resgatava, assim, sua dívida com a madrinha.

Portanto, num contexto como esse, podemos imaginar que vínculos pessoais criavam-se e se desenvolviam muito mais facilmente. Em verdade, esses vínculos constituíam alicerces de uma solidariedade comunitária, base de uma futura identidade étnica construída pelo grupo social e religioso ao qual pertenciam [Nadalin, 2010].10 Isso tudo me permite supor que esta história poderia ser generalizável numa comunidade fundada por imigrantes, inclusive nas décadas seguintes – até porque parte do crescimento demográfico e da manutenção de uma cultura imigrante na paróquia em foco sempre foi resultado da continuidade do fluxo imigratório, pelo menos até a época da Segunda Guerra Mundial.11
Assim, a minha hipótese se radica na possibilidade de um freio conservador engendrado por valores constituídos pela comunidade étnica. Essas forças agiriam contraditoriamente às tendências das sociedades modernas que, ao abandonar o “juramento da amizade”, característico do compadrio tradicional, teriam preferido a “flexibilidade” à “permanência”, mais adaptado a seu individualismo, à mobilidade social e geográfica e ao liberalismo econômico.12 De fato, na França, na Alemanha e na Inglaterra, a confraternidade substituiu, depois de séculos, os laços rituais de compadrio, embora seja comum renovar laços fraternos com amigos muito próximos, na ocasião do batismo [Fine, 1994: 127; 128].

Do ponto de vista estrito, estamos tratando de pessoas que testemunham um ato religioso. Mas, esses testemunhos são mais do que isso: a prática e suas representações, apropriadas em parte pelas igrejas cristãs, desde há séculos qualificam-nos como “padrinhos” e “madrinhas”. Talvez bem mais recentemente, no casamento; com muito mais significado, no batismo. Assim é que, quanto a estas testemunhas, a tradição católica as integra à família do batizando, como “parentes espirituais”.13 Entre os luteranos, sugere-se que o padrinho e a madrinha, através do seu exemplo pessoal e das promessas na cerimônia batismal, devem integrar o batizando na vida da fé em Cristo.14 Nessa direção, os padrinhos e madrinhas constituiriam companheiros dos pais numa educação cristã, o que levaria naturalmente os luteranos, em especial aqueles que estão inseridos num meio cuja maioria é católica, a considerarem-nos como – na falta deles – substitutos dos pais. Isso os integraria, em especial, à família da criança; duplamente, se já fossem parentes de sangue.15

Todas essas questões me trazem novamente aos objetivos desta comunicação, e foi assim que eu cheguei, por meio de um relato de memórias, à família de Christian August Strobel e de sua mulher Christine Friederika (née) Herold [Strobel, 1987] e seus descendentes.

Os dois emigraram da Saxônia com seus filhos Emilie Bertha, Gustav Hermann e Emil Robert, desembarcaram em São Francisco do Sul, perto de Dona Francisca (ao norte da Província de Santa Catarina), e logo subiram a serra na direção do planalto curitibano, pelo caminho alguns anos depois percorrido pelos Mehl e pelos Langermann. Aliás, seria de estranhar se todos não se conhecessem, uma vez que a residência dos Strobel serviu de hospedagem a muitos “remigrantes” oriundos da mesma colônia em Santa Catarina: situando-se em São José dos Pinhais, ao sul de Curitiba, o domicílio estava localizado, já no planalto, cerca do caminho que fazia a ligação do litoral catarinense com a capital paranaense.

A partir daí, o casal e seus filhos prosperaram, 16 e a linhagem por eles instituída constituía trama e urdidura da malha de relações intra e interfamiliares, articulando a comunidade étnica e a sociedade de origem luso-brasileira em geral.17

Na medida em que parte dos descendentes manteve-se fiel à comunidade luterana, separei as fichas de famílias de quatro gerações da referida linhagem para constituírem, hipoteticamente, uma amostra do que poderia estar acontecendo durante a história do grupo, no que diz respeito às relações de parentesco e à identidade étnica.18 Engastada nesta problemática geral está a tentativa de estudar até que ponto, em Curitiba, verificou-se o modelo proposto para Dois Vizinhos, uma comunidade camponesa e católica e também de origem germânica. Ou seja, um modelo em que o irmão do pai tem por obrigação ser padrinho do sobrinho, e a irmã da mãe, a madrinha (Woortmann, 1995:199). No caso daquela colônia, cuja maioria era católica e camponesa, tal modelo traduziria um reforço de laços de parentesco, pois no batismo casam-se simbolicamente padrinho e madrinha, 19 unindo a família da mãe e a do pai.



Questões metodológicas – o desenvolvimento das análises.
Mesmo levando em conta as objeções de René Gertz em relação à sempre referida homogeneidade dos grupos constituídos por imigrantes e descendentes (1998:9-10; 17; 40-45), estou considerando que a linhagem fundada no Brasil por Christian e Christine Strobel constituiria parte de uma comunidade étnica em permanente construção e “desconstrução”, pelo menos até a conjuntura concernente à Segunda Guerra Mundial.20 Para a efetividade dessa hipótese, não é só importante, mas fundamental, considerar a dinâmica do agregado social nos diversos contextos concernentes à sua história; da mesma forma, que os vários membros do grupo ocupavam posições diferenciadas no “espaço” delimitado pela relativa porosidade das “fronteiras étnicas”. Ou seja, o grupo não é homogêneo, muito menos monolítico; ao contrário, é contraditório e complexo. 21

Conforme mencionei acima, do conjunto de famílias reconstituídas para o período 1866 a 1987, foi retirada uma “amostra” formada por quatro gerações da linhagem fundada pelo casal em referência, todos membros da Comunidade Evangélica Luterana de Curitiba no período 1876-1973. 22 Este procedimento levou à constituição de uma base de dados, conforme mostra a tabela 1, abaixo.23 Os números não são muito representativos, o que exigirá um manuseio cuidadoso – principalmente a partir da observação de cada geração.24



Christian e Christine Strobel, além dos 3 filhos que vieram com eles da Alemanha, tiveram mais 3 em Curitiba. Os 6 constituem, portanto, a primeira geração observada nesta pesquisa, conforme é possível observar na mesma tabela 1. Uma filha do casal casou-se na catedral (“família E”25) e, dos 15 casais que constituem os netos sobre os quais se tem a informação do casamento, 13 foram unidos pelo matrimônio na comunidade (famílias M); sucessivamente, dos bisnetos, 21 e, dos tetranetos, todos os 7 – os sete que restaram na comunidade –, 26 casados com descendentes de alemães. Destes, 3 sumiram da observação durante a vida matrimonial, o que é consistente com o que estava ocorrendo no grupo.

Assim, a mesma tabela 1 denuncia a contrapartida de um fenômeno importante que está ocorrendo na comunidade luterana. Desde os anos 1930, em especial a partir do Estado Novo de Vargas e do envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial, colocava-se em questão a identidade teuto-brasileira, que entrou em profunda crise: a Alemanha não foi só derrotada; com o desmantelamento do nazismo, destruiu-se de vez o mito incrustado no inconsciente coletivo dos alemães e seus descendentes, o mito do Reich, do pangermanismo e da superioridade do que era “alemão”, abalando a ideologia do Deutschtum (e, por ricochete, do Deutschbrasilianertum). Essas transformações repercutem na organização, após a Guerra, da Igreja Luterana no Brasil (IECLB), que aprofunda o discurso de uma vocação missionária, substituindo as “Deutsche Gemeinden” no Brasil, de característica “imigratória”. 27







Tabela 1 – Linhagem Strobel, a base de dados; 1876-1973.








Gerações

Nro. de ca-

sais observs

(MF/EF)*

Nro. de filhos

arrolados

(Nascidos)

Nro. de filhos observados**

(Batismos)

Número de

padrinhos







1ª.

(1876-1902)***

> filhos

06

34

28

75








2ª.

(1899-1940)***

> netos

15

57

52

129








3ª.

(1926-1970)***

> bisnetos

25

57

52

149








4ª.

(1951-1973)***

> tetranetos

07

21

21

56








Todas gers.

53

159

153

409







* Casais MF, casados na comunidade; Casais EF, casados fora da comunidade. **Não incluídos nascimentos reencontrados (“rouges”). ***Cronologia correspondente a primeira e última criança nascida na coorte de uniões.

Fonte: Comunidade Evangélica Luterana de Curitiba. Registros de Batismos.





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