Iii seminário Linguagem e Identidades: múltiplos olhares



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III Seminário Linguagem e Identidades: múltiplos olhares



CONHECENDO OS ENCANTOS DA CIDADE POR MEIO D’OS TAMBORES DE SÃO LUÍS, DE JOSUÉ MONTELLO

Nayara Araújo dos Santos1

Orientadora: Conceição Belfort2

RESUMO
Este trabalho visa a compreender a relação entre o turismo cultural e a literatura. Tem-se como objetivo principal estabelecer a relação entre os bens/espaços simbólicos da obra literária “Os tambores de São Luís” (Os TSL), de Josué Montello, com dois outros campos interdisciplinares: turismo e pedagogia, destacando a importância da literatura como elemento motivacional para viagens. Identifica-se os bens/espaços simbólicos da obra TSL, relacionando-os com o turismo cultural da capital maranhense e percebendo-se pontos que convergem para o fato de que a literatura seja motivadora de viagens.

Palavras-chave: Turismo Cultural. Literatura. Turismo Pedagógico.
ABSTRACT
This work aims to understand the relationship between cultural tourism and literature. It has as main objective to establish the relationship between the goods / symbolic spaces of the literary work "The drums of St. Louis" (The TSL), Josué Montello, with two other interdisciplinary fields: tourism and education, highlighting the importance of literature as motivational element for travel. Identifies the goods / work spaces symbolic of TSL, relating them to cultural tourism capital of Maranhão and realizing that converge to points to the fact that literature is motivating travel.

Keywords: Cultural Tourism. Literature. Educational Tourism.
1. INTRODUÇÃO

O que motiva alguém a ler um livro? A capa, o autor, o título? Influência de amigos? Ou a pura magia de poder “estar” num mundo diferente sem ter que sair do lugar? Esta última motivação é uma das que mais chamam atenção, uma vez que ao ler um livro nos tornamos parte dele, imaginando-nos e nos colocando na história narrada.

O turismo e a literatura possuem uma estreita relação. A partir da leitura, muitos ficam interessados em visitar/conhecer o lugar descrito no livro. Assim, pode-se perceber que um apoia o outro: ao aguçar a curiosidade da pessoa que lê, a obra lhe dá motivação.

Analisaremos a obra “Os tambores de São Luís” (Os TSL), de Josué Montello, a fim de mapear os bens/espaços simbólicos citados no livro, estabelecer sua relação com o turismo cultural e, enfim, sugerir a utilização de roteiros pensados a partir do livro para a prática do Turismo Pedagógico ou Turístico.

Ao definir uma tipologia de turismo ao turista, que se dispõe a conhecer a cidade descrita na obra do maranhense Josué Montello, destaca-se o turismo cultural, que “compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura” (Marcos Conceituais – Ministério do Turismo).

A leitura é um fator motivacional ao turismo cultural. E, também, importante para a sustentabilidade dessa atividade, uma vez que esse tipo de viajante buscará, durante sua experiência turística, preservar a singularidade e a identidade do lugar visitado, pois será motivado pelo “espírito cultural” do livro que tanto lhe chamou atenção.

O artigo visa analisar a influência da literatura como um fator motivador do turismo cultural, pois se percebe que a estreita relação entre a literatura e a história faz com que muitos livros tornem-se verdadeiros guias de viagem. Sendo assim, quando um turista vai conhecer o que o livro descreve, vai em busca de informações que encontrou no livro: as histórias, lendas, cultura.

Este artigo tem o intuito de apontar a relevância da literatura como motivação para o turismo cultural e a importância da sustentabilidade desta atividade turística, haja vista que quando um turista é motivado pela leitura, tem mais conhecimento e informação sobre a cidade e também, a priori, mais respeito à cidade que visita. A obra Os TSL pode ser vista como um “guia turístico” da capital maranhense, na medida em que o narrador destaca/descreve todo o percurso trilhado pelo personagem principal da narrativa – Damião – dando oportunidade ao leitor de construir um mapa, ao mesmo tempo, espacial e simbólico da cidade.

Essa imagem da cidade, proporcionada pelo romance literário possibilitou estruturar, pedagogicamente, a confecção de roteiros turísticos para turistas e alunos do curso de Turismo. Esses roteiros tornarão a visita à cidade e o ensino dos alunos mais interessantes e estimulantes, além de servir como um meio de propagar a educação patrimonial.

O artigo teve como método de pesquisa o qualitativo, iniciando-se com a identificação dos bens/espaços simbólicos citados na obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, a partir da leitura da referida obra. Logo em seguida, fez-se a relação entre esses bens/espaços simbólicos identificados com turismo cultural, uma vez que estes tem relação direta com esta tipologia de turismo.

O estudo tem um caráter interdisciplinar e explicativo, pois a pesquisa se da em torno de bibliografias do turismo, literatura e da pedagogia, além de explicitar como se dá a relação entre a literatura e o turismo cultural.

A literatura atrai, em especial, o turista que quer conhecer os mistérios, as lendas, histórias, os prédios históricos, as ruas, tudo aquilo que foi descrito no livro. Segundo o Ministério do Turismo, o viajante desta modalidade vem em busca de atrativos como:



  • sítios históricos – centros históricos, quilombos;

  • edificações especiais – arquitetura, ruínas;

  • obras de arte;

  • espaços e instituições culturais – museus, casas de cultura;

  • festas, festivais e celebrações locais;

  • gastronomia típica;

  • artesanato e produtos típicos;

  • música, dança, teatro, cinema;

  • feiras e mercados tradicionais;

  • saberes e fazeres – causos, trabalhos manuais;

  • realizações artísticas – exposições, ateliês;

  • eventos programados – feiras e outras realizações artísticas, culturais, gastronômicas;

  • outros que se enquadrem na temática cultural.

Assim, confirma-se com Simões (2008) se a proposição é a de cultura como recurso, a literatura enquanto uma expressão da cultura é tomada com o mesmo propósito; portanto, como recurso estratégico para suscitar o turismo cultural e o desenvolvimento local.



2 A RELAÇÃO ENTRE A LITERATURA E O TURISMO CULTURAL
A literatura possui uma estreita relação com as viagens desde a Antiguidade, quando a literatura era baseada nas narrações das primeiras viagens. Essa conexão é tanta que o primeiro “guia turístico”, de Santiago Compostela, é composto por histórias que relatam as “jornadas de viagem, as qualidades das terras e pessoas e sua descrição” (MONTEJANO, 2001, p. 307).

Entendendo-se por turismo cultural a atividade na qual o turista é motivado a conhecer outro local no intuito de adquirir mais informação, conhecimento e vivenciar a cultura do outro. Nota-se que a literatura é um meio de motivar turistas para essa finalidade, ou seja, turismo cultural. Montejano (2001) agrupa as seguintes atividades que estão relacionadas ao turismo cultural:

a) Entrar em contato com as diferentes épocas históricas, artísticas e culturais, mediante visita de conjuntos monumentais, museus, rotas e itinerários histórico-artísticos, monumentais etc.;

b) As manifestações culturais e de espetáculos por meio de festivais de música, cinema, teatro, representações religiosas, touradas, concertos e ciclos de ópera, exposições de arte: pintura, escultura, fotografia etc.;

c) Participar de cursos, seminários, simpósios culturais, cursos de idiomas no estrangeiro – por exemplo, universidades de verão;

d) Manifestações folclóricas, gastronômicas e de artesanato, por meio de festas importantes e típicas, festivais folclóricos musicais, jornadas gastronômicas ou cursos de culinária, exposições e cursos de artesanato etc.


A partir dessa variedade de atividades que um turista da modalidade cultural pode fazer, observa-se uma estreita relação do turismo com a literatura. Os romances são grandes divulgadores da história e cultura de uma sociedade. Ao ler um livro com enfoque histórico-cultural, o leitor pode ser motivado a conhecer a cultura descrita na obra. Além disso, a história pode favorecer a localidade receptora no planejamento de atividades e roteiros que se relacionem a esta, tornando a atividade mais interessante para o turista e, quando bem realizada, atrai mais clientes. Destaca-se o fato de que se o turista tiver sido motivado pela obra a conhecer a cidade, ele achará a viagem mais interessante e terá seu desejo realizado.

A literatura muitas vezes pode servir de guia turístico, uma vez que os livros trazem, com detalhes, os bens/espaços simbólicos de uma sociedade e por ter toda uma história por trás desses aguça mais ainda a imaginação e serve como propulsor de uma viagem.

[...] a literatura é aqui considerada como suscitadora de viagem e, por essa concepção, guia para roteiros turísticos, na medida em que oferece um mapeamento de espaços e bens simbólicos, trazidos à cena através de patrimônios (material e imaterial) que configuram o perfil identitário de um lugar a ser visitado. (SIMÕES, 2004, p.01)
Os visitantes impulsionados pela literatura já têm uma ideia de como a cidade e sua cultura sejam, uma vez que leram no(s) livro(s) como são sua paisagem e seu cotidiano. Sendo assim, esses leitores que se tornam turistas querem conhecer a cidade através do(s) livro(s) que leram, passear pelos mesmos lugares/paisagens que os personagens passaram e degustar, tocar, sentir, viver as mesmas experiências destes.

O turismo cultural é uma das modalidades da atividade que se percebe menor impacto sobre a localidade turística, pois vê-se o turista cultural como um ser mais responsável, educado e ciente dos seus deveres e direitos.

O turismo cultural surge como uma alternativa por tratar-se de um turismo de minorias, cujos protagonistas, que seriam turistas não institucionalizados, experimentais, experienciais e existenciais, são mais educados e respeitam o meio ambiente natural e cultural. O turismo cultural de acordo com essa premissa, teria menos efeitos negativos nos núcleos receptores, e durante um tempo seu aumento proporcional foi bem recebido. Por outro lado, trata-se de pessoas que procuram um contato íntimo com a população local, respeitando seu modo de vida, sem pretender impor seus padrões; são pessoas que se adaptam com facilidade à cultura local e consomem estados e espírito em lugar de coisas materiais. Um estudo realizado nos Estados Unidos e no Canadá confirmou que os “turistas culturais” têm mais dinheiro que outros, gastam mais e permanecem mais tempo no local; hospedam-se em hotéis, compram mais, têm nível de educação mais alto, predominando o gênero feminino e a faixa adulta. (BARRETO, 2007, p. 84)
É necessário valorizar essa modalidade de turismo, pois, além de não prejudicar a cultura visitada, traz mais renda por serem turistas que consomem mais. Entretanto, há malefícios que podem advir dessa modalidade de turismo, conforme destaca Swarbrooke (2000): a superutilização de sítios culturais e localidades – o grande número de turistas não adequados a estes espaços podem gerar danos; a falta de controle local – o governo local e a população ficam de fora do processo e sua respectiva renda; a trivialização ou perda da autenticidade – as danças tradicionais podem sofrer alterações tanto no seu calendário quanto na sua estrutura a fim de agradar o turista; a fossilização de culturas – o desejo de se conservar a cultura tradicional faz com que a mesma torne-se imutável, o que não é uma característica da cultura, pois esta é transformada o tempo todo; o turismo polêmico e moralmente problemático – a atividade esquece-se de propor discussões com a comunidade para que esta se coloque diante do que está sendo proposto.

Acredita-se que turistas atraídos pela literatura sejam, em geral, mais conscientes, ou seja, têm noção de que é necessário preservar aquela cultura, pois já possuem outra relação com esta quando visitam a cidade – admiração, valorização à cultura. Esse turista é incapaz de fazer ações que possam prejudicar a cidade visitada.

Ver a literatura enquanto bem cultural promotor do turismo sustentável aponta-nos uma saída diante da racionalidade da globalização, assim, local + cultura + diferença constituem alternativas para um mundo que insiste, devido à lógica do consumo, na uniformização de modos de ver este mesmo mundo. (SACRAMENTO, 2011, p.02)
Valorizar a literatura local seria de grande relevância, pois os moradores da localidade podem se utilizar da fama de sua literatura, tornando-a promotora do turismo na cidade, atraindo os turistas de cunho cultural, que são considerados mais conscientes, educados e os que geram maior dinamização na economia. Ter esta cultura valorizada também é um meio de garantir a sustentabilidade da atividade uma vez que, segundo Chias (2007, p.26) “a autenticidade é precisamente a base de um turismo sustentável”, sendo este o tipo de turismo mais idealizado pelos planejadores da atividade.

A literatura traz muitos benefícios ao turismo, como a motivação – atraindo turistas às cidades descritas nas histórias, a sustentabilidade – agindo como educadora dos turistas e promoção do turismo – divulgando as características, a imagem do Brasil através dos livros.




    1. Os textos literários podem motivar a atividade turística?

Ao ler um livro que traga descrições detalhadas da cidade onde se localiza a história contada, além de se viajar nos fatos, chega-se a imaginar o caminho que o personagem faz. A partir dessa leitura, torna-se motivado a fazer e conhecer esse trajeto – como no seguinte fragmento da obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello:

Antes que ele desaparecesse, sempre a enfiar o impresso por baixo das portas, Damião mudou de calçada, ainda ouvindo o baticum dos tambores. Para trás, em linha reta, ficava o cemitério do Gavião, com o padre Policarpo, a Genoveva Pia, a Aparecida, o dr. Celso Magalhães, a dona Bembém, a dona Páscoa, a dona Calu, o amigo barão, cada qual no seu jazigo ou na sua cova rasa, na santa paz do Senhor. À frente, era o largo do Quartel; em seguida, torcendo para a direita, a rua das Hortas, o largo da Cadeia, a praia do Jenipapeiro e por fim a Gamboa, com a casa de sua bisneta, num cômoro verde que escorregava para o mar. (MONTELLO, 2005, p.18 – grifos nossos)
O autor, além de nos fazer imaginar a história e o trajeto, coloca o leitor a par de alguns patrimônios da cidade de São Luís: Cemitério do Gavião, Largo do Quartel, Rua das Hortas, Largo da Cadeia, Praia do Jenipapeiro e Gamboa, todos patrimônios culturais que fazem parte da área considerada pela UNESCO Patrimônio da Humanidade. Essa passagem motiva o leitor a conhecer os locais descritos, a fim de viver/sentir o que os personagens passaram na história.

A literatura, além de propagar a cultura do local, faz com que a população destas cidades descritas nos livros valorize ainda mais sua cultura. Dando mais importância a esses bens materiais e imateriais da cidade, ao ler:

Agora, quando as noites se fechavam, estilhaçando-se em estrelas por cima da cidade adormecida, ouvia-se o som compassado dos zabumbas, das matracas e dos maracás, madrugada adentro, por cima do baticum ritual dos tambores da Casa das Minas. Vinha de vários pontos da ilha, sobretudo da Maioba, do Turu, de Vinhais, do Anil e do Matadouro, e não se limitava à percussão dos instrumentos, porque trazia consigo a toada dos cantadores, nos ensaios do bumba-meu-boi. (MONTELLO, 2005, p. 351)
Josué Montello, além de ressaltar bens materiais da cidade de São Luís como a Casa das Minas, destaca o bumba-meu-boi e o tambor das minas, que são bens imateriais da capital maranhense. O bumba-meu-boi e o tambor de minas são manifestações características da cultura maranhense. “O bumba-meu-boi é uma mistura de danças dos índios da região com o som e ritmos dos tambores trazidos pelos negros africanos” (Faleiro, 2010), manifesta-se no mês de junho, época do São João, onde os bois se apresentam durante o mês inteiro nos arraiais da cidade. O tambor de minas é uma dança onde mulheres vestidas com saias rodadas dançam dentro de um círculo formado por homens batendo os tambores. Além dessas manifestações culturais, o autor ainda aponta alguns bairros relevantes da cidade.

Ao ler esse fragmento, o leitor mergulha na obra e faz uma viagem ao passado da cidade, com bumba-bois dançando e tocando no meio das ruas, quando não existia muita violência e, por isso, era comum as pessoas dançarem despreocupados pelas ruas. Quem não conhece São Luís também passa a imaginar a cena e quando chega à cidade quer olhar o que leu no livro. Entretanto, como a cultura está passível a mudanças, uma vez que acompanha as modificações ocorridas na sociedade, algumas coisas vão sendo modificadas ao longo do tempo, mas a memória do cidadão ludovicense é capaz de transmitir ao visitante o que ele veio conhecer. Os casarões são um dos meios pelo qual a memória é capaz de transmitir o que se viveu ali nos tempos passados.

Essa memória resguardada nas histórias dos livros é “eficiente”, uma vez que faz com que os moradores se lembrem de como é/era sua cultura e os leitores que não conhecem a cidade tenham acesso a este modo de vida a partir da literatura. Quando chegam ao lugar descrito nos livros, os turistas reconhecem a história nos bens/espaços citados. Esses monumentos, como integrantes do processo turístico, são símbolos do passado existentes no cotidiano e fazem com que se instigue a memória coletiva.

As experiências poderão ser bem mais prazerosas para o turista motivado pela leitura de um livro sobre a cidade retratada na obra. O turista contrastará a realidade com a ficção, sentirá outra emoção, perceberá os bens/espaços apresentados de outra forma. Diferente de quem nunca leu nada sobre o que está conhecendo, que está vendo e ouvindo alguma informação sobre este patrimônio.

Portanto, conhecer e vivenciar a cultura torna-se importantíssimo para que o indivíduo seja parte dela; faz, assim, com que a preservação seja mais efetiva, pois se o turista se torna ativo, não deixará que ela se extinga com o tempo – consequentemente, o turismo na cidade se prolongará e trará renda para muitas famílias.

Compreende-se, assim, que a literatura é um grande propulsor do turismo, pois além de divulgar a cultura dos lugares descritos para outros, faz com que o sentimento de nacionalismo seja revigorado, dando motivação aos autóctones para que se preserve a cultura.


3 TURISMO PEDAGÓGICO A PARTIR DA OBRA “OS TAMBORES DE SÃO LUÍS”
A obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, é um livro riquíssimo para se criar roteiros, pois temos vários percursos detalhados na história: o caminho de Damião até a casa da bisneta, do padre Policarpo para ir até ao Convento de Santo Antônio (Seminário) dar aula, o percurso de Damião de “descobrimento” de São Luís, os passos de Damião e padre Policarpo até o Largo da Cadeia onde o escravo foi enforcado entre outros, que também podem ser utilizados com a finalidade de ensinar.

Destaca-se, assim, o Turismo Pedagógico que segundo Álvares, Linhares e Taveira (apud BAHL, 2004) é uma atividade que se inicia e termina na escola cuja coordenação pedagógica e o professor criarão um roteiro no qual os alunos poderão identificar o conteúdo através do trajeto realizado. A finalidade e os objetivos a serem alcançados por essa atividade serão definidos pelos “pensadores” do roteiro, esta modalidade é caracterizada segundo esses autores citados como:

Uma atividade educativa sob a forma de experiência turística, na qual os alunos assumem a condição temporária de turistas, segundo um plano pedagógico definido pela escola para melhor exploração de conhecimentos aproveitando-se da riqueza do meio ambiente. (Alavares, Linhares e Taveira apud Bahl, 2004, p. 143)
Esta prática de turismo também é caracterizada por Beni (2002), ao mostrar que não é uma realidade moderna, mas que vem desde a época do Grand Tour, quando os jovens filhos de pais com boas condições financeiras eram enviados a outros países para que complementassem seus estudos.

Retomada da antiga prática amplamente utilizada na Europa e principalmente nos Estados Unidos por colégios e Universidades particulares, e também adotada no Brasil por algumas escolas de elite, que consistia na organização de viagens culturais mediante o acompanhamento de professores especializados da própria instituição de ensino com programa de aulas e visitas a pontos históricos ou de interesse para o desenvolvimento educacional dos estudantes. (Beni, 2002, p.15)


A partir dessas definições e descrições de Turismo Pedagógico, relaciona-se este com roteiros que podem ser criados a partir da obra “Os tambores de São Luís”, pois, a partir da história do livro, tiram-se muitos ensinamentos, tanto da História do Maranhão quanto da Geografia, por exemplo. Ao associar essas assertivas com a pedagogia, nota-se que a utilização desses percursos com os alunos tornará o ensino de alguns conteúdos bem mais prazerosos e, quando o aprender tem essa conotação, torna-se bem mais significativo. O aluno terá, assim, a oportunidade de relacionar o assunto dado na sala de aula com a realidade em que vive (AUSUBEL, 1982), chegando de forma mais eficaz ao conhecimento, logo, aprendendo. Portanto, as viagens podem ter essa finalidade educativa:

Dessa forma, os escritores começam a refletir sobre seus escritos e ensaios sobre a viagem, como é o caso de Montaigne ou de Sir Francis Bacon, que, em sua obra “Of Travel” (1612), estima que a viagem deve fazer parte da educação de jovens e da experiência de pessoas com mais idade. (MONTEJANO, 2001, p. 308)


Montejano (2001) mostra que a relação entre as viagens e a educação é um fenômeno estudado desde o século XVII. Sendo assim, o ato de viajar não está somente ligado a fatores como o se divertir, relaxar, mas também obter conhecimentos.

Ressalta-se a utilidade do livro para se criar roteiros para estudantes, que irão, em primeiro lugar, ter o prazer de ler a obra e, em segundo lugar, conhecer sua cidade através da história do livro, colocando em prática os percursos que o personagem do livro fez.

A prática pedagógica construtivista utiliza-se do conceito de mediação, inserida nas relações sociais da escola, para atingir níveis cognitivos superiores, gerando conhecimento. Portanto, enfatizamos novamente que na situação escolar, poderão servir de mediadores os colegas, o professor, a função simbólica ou qualquer situação que interponha a relação sujeito – objeto, desempenhando um papel equilibrador. Nesse contexto, um dos papéis do professor é planejar e propiciar mediadores que facilitem a aprendizagem. (NOGUEIRA, 1998, p. 77)
Esse tipo de metodologia, que relaciona com viagens, excursões passeios, é geralmente aplicada por professores que se adequam ao construtivismo. O aluno é visto como capaz de formar/construir seu conhecimento através, apenas, de incentivos do professor para que o discente possa refletir e analisar o conteúdo e, portanto, chegar ao conhecimento. Com a prática tradicional em decadência, pelo menos esperasse que esta seja minimizada uma vez que a mesma não dá a oportunidade ao aluno de formar sua criticidade, pois, segundo Saviani (2006, p. 42), esta prática é uma “aprendizagem com base na memória e na repetição e consistia em uma abordagem dedutiva do saber: ir do simples ao complexo ou do geral para o particular”. Sendo assim o aluno não coloca a “cabeça para pensar”, apenas segue o senso comum, pois não pratica sua criticidade.

O interessante deste tipo de roteiro é que oportuniza ao professor tornar seu ensino mais interdisciplinar, já que “A prática do Turismo Pedagógico proporciona um diálogo com a natureza e a cultura, além de proporcionar a conexão de diversas áreas do conhecimento” (BAHL, 2004, p. 143). Pode-se usar, por exemplo, o roteiro de Damião com padre Policarpo até a praça onde o escravo foi enforcado, o mestre poderá comentar sobre a escravidão no Maranhão, ao longo do roteiro pode, ainda, mostrar o patrimônio cultural da cidade e discutir com os alunos a importância deste patrimônio, abordar a literatura do Estado, propiciar aos alunos a oportunidade de conhecer a cidade/fazer turismo.

O Turismo Pedagógico é uma prática também apoiada pelo PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais, documento que norteia a educação no país, garantindo que os conteúdos sejam iguais para toda a nação, o mesmo frisa:

É importante salientar que o espaço de aprendizagem não se restringe à escola, sendo necessário propor atividades que ocorram fora dela. A programação deve contar com passeios, excursões, teatro, cinema, visitas a fábricas, marcenarias, padarias, enfim, com as possibilidades existentes em cada local e as necessidades de realização do trabalho escolar. (BRASIL, 1997, p. 67 – grifos nossos)


Os passeios e excursões ressaltados no PCN são práticas que teóricos da aprendizagem como Froebel (1987) e Freinet (1978) também abordam, pois o primeiro acredita que a natureza auxilia o aluno a compreender a si mesmo e aos outros e o segundo que as “aulas passeio”, como foram caracterizadas por este autor, motivariam o aluno a aprender, porque o interesse do aluno não estaria na escola e sim fora dela. Portanto,

“[...] o turismo pedagógico é uma forma de propor ao aluno uma participação ativa no processo de construção do conhecimento, pois proporciona meios para que ele possa tornar-se um cidadão criativo, dinâmico e interessado em atuar, de forma efetiva, na comunidade, contribuindo para o desenvolvimento de uma sociedade mais consciente em todos os níveis” (MOLETTA, 2003, p. 11-12)


Destaca-se, assim, o que Freinet e Froebel afirmam: o turismo é uma motivação ao aluno para que este se interesse pelo assunto estudado, faz com que aprenda da melhor forma possível, compreenda o conteúdo e construa seu conhecimento de forma crítica. A partir dessas premissas, “a aprendizagem é mais rápida e duradoura se for agradável e satisfatória em si mesma, e as melhores experiências educacionais assumem uma natureza lúdica” (PARKER, 1978, p. 112).

O Turismo Pedagógico trará esse tipo de abordagem, para que o aluno saia da sala de aula para compreender e relacionar o estudo livresco com a realidade do seu entorno. Essa saída dos muros da escola dará motivação ao aluno que, ao estar envolvido com a atividade, aprenderá de forma mais eficaz.

Portanto, a obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, um dos autores mais renomados do Maranhão, pode ser um meio de criarem-se roteiros pedagógicos e turísticos.
3.1 Construindo roteiros turísticos a partir da obra literária “Os tambores de São Luís
O autor Josué Montello descreveu minuciosamente a cidade de São Luís através dos percursos realizados por alguns personagens da obra. O livro torna-se referência para a construção de roteiros que tenham como identidade a literatura e o escravismo no Maranhão, por se tratar de um clássico da literatura maranhense e por contar a história dos escravos no Estado.

O primeiro roteiro refere-se ao percurso que o personagem Damião realiza desde o início da obra, quando sai de sua casa localizada no Largo de Santiago e vai, a pé, para a Gamboa, à casa da bisneta conhecer o trineto que estava para nascer: Largo de Santiago – Rua das Cajazeiras – Rua de São Pantaleão – Beco das Crioulas – Rua do Passeio – Rua de Santana – Rua da Estrela – Rua de Nazaré – Rua do Giz – Rua Grande – Av. Silva Maia – Rua das Hortas – Largo da Cadeia – Quinta da Vitória (Gamboa – Casa de Bia).

O segundo roteiro refere-se ao caminho realizado pelo cocheiro para levar o Padre Policarpo ao enforcamento do escravo, a fim de que o este fosse abençoado antes de sua morte. Esse percurso é viável ser feito a pé, porém, também pode ser realizado com outra forma de locomoção. Neste é válido lembrar somente o horário que será realizado o percurso, pois se pode notar a falta de segurança em alguns pontos do trajeto, porém ele é bastante viável. O caminho realizado: Palácio da Sé – Rua de Nazaré – Largo do João do Vale – Rua da Estrela – Igreja do Desterro (largo – onde foi enforcado).

O terceiro, quarto e quinto roteiros correspondem aos caminhos realizados pelo Padre Policarpo. O primeiro desses é o percurso do padre para ir ao Seminário dar aulas aos aspirantes a padre: Palácio da Sé – Rua dos Afogados – Rua de São João – Largo de Santo Antônio. O segundo o trajeto de volta da Igreja de Santo Antônio, onde se localizava o Seminário: Largo de Santo Antônio – Rua de São João – Rua do Sol – Palácio da Sé e o terceiro à caminhada do Tracajá, como era conhecido o padre Policarpo, para a casa onde residia sua filha: Palácio da Sé – Rua dos Afogados – Rua de São João – Largo de Santiago.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura e a história caminham juntas. A literatura é um meio de divulgar, registrar, transmitir a história, o turismo cultural “ganha”, assim, uma fonte motivadora de turistas desta vertente. Uma vez que o turismo cultural está diretamente ligado ao conhecimento da história e cultura de um povo.

A obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, é uma importantíssima “peça” da literatura maranhense e por descrever minuciosamente a cidade de São Luís, encontra-se nesta uma fonte de roteiros que podem revelar a cidade a turistas. Porém, a riqueza desses percursos é tanta que se pode utilizá-los com alunos, uma vez que, acredita-se na teoria de David Ausubel, na qual o aluno teria um aprendizado significativo quando relaciona o assunto estudado a algo concreto que faça parte da sua realidade. Sendo assim, esses roteiros estimulariam tanto o aprendizado quanto a preservação, pois a Educação Patrimonial estaria envolvida com essa prática que se intitula Turismo Pedagógico.

Conclui-se assim que a obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, além de ser capaz de atrair turistas à cidade de São Luís, é uma riquíssima fonte de roteiros que dariam um maior atrativo aos city tours realizados pela cidade e, acima de tudo, ajudaria no aprendizado significativo dos alunos a certos assuntos dando-lhes um caráter interdisciplinar, pois o trajeto abre a oportunidade de abordar diversas disciplinas.


REFERÊNCIAS
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1 Bacharel em Turismo pela Universidade Federal do Maranhão.

2 Profa. Dra. do Departamento de Turismo da Universidade Federal do Maranhão.



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