Inclui-se na segunda geração modernista, um grande escritor, o qual costumo chamar "escritor completo", por ser poeta, cronista, crítico e musico: Vinícius de Moraes



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Encontro06.04.2018
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O AMOR, AS MULHERES E... VINICIUS DE MORAES

A segunda fase ou geração modernista compreende um período em que os poetas encontram-se maduros, ou seja, não estão preocupados em escrever com radicalismo, subjugando os meios culturais acadêmicos. Eles estão livres (estética e/ou estilisticamente) para escrever sem se preocupar se estão voltando à alguma outra época literária. É o momento do “alargamento” da poesia, que se dá principalmente nos temas, questionando a existência humana, o sentimento de “estar-no-mundo”, das inquietações social, religiosa, filosófica e amorosa.

Diferentemente da radicalização adotada pelos escritores da década de 20, os poetas das décadas de 30 e 40, buscam liberdade para incluir em seus poemas, os versos regulares, o soneto, o madrigal, a balada, elementos até então combatidos pelos poetas da primeira fase.

Inclui-se na segunda geração modernista, um grande escritor, o qual costumo chamar “escritor completo”, por ser poeta, cronista, crítico e musico: Vinícius de Moraes. Suas obras, como ele mesmo advertiu, consistem de duas fases: a primeira transcendental e a segunda, mais realista. Detenho-me, neste ensaio, a comentar e analisar em algumas de suas poesias, um dos temas freqüentes de sua segunda fase: o amor e a mulher. Vamos ao corpus do ensaio.

Vinícius de Moraes nasceu em 1913 no Rio de Janeiro. Sua poesia inicial, como dissemos, denota certa impregnação religiosa, com poemas longos, de acentos bíblicos, mas que abandonou pouco a pouco em favor de sua tendência natural: a poesia intimista, pessoal, voltada para o amor físico, com uma linguagem ao mesmo tempo realista, coloquial e lírica.

Segundo Ruy Castro, “Vinícius foi um civilizador. Ao fazer a sua transição pessoal da gravata para o peito nu, da cadeira de espaldar alto para a mesa da calçada, do soneto para a canção e do mistério para o paganismo, ele ajudou a definir o caráter de Ipanema, do Rio e da língua portuguesa” e ainda, “o que torna Vinícius um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem. E a coragem de enfrentá-lo (“Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem”). Parte, desde o principio, dos temas fundamentais: o mistério, a paixão e a morte.”

Durante a sua aceitação da imanência (o encontro do cotidiano – 2ª fase), a mulher começa a crescer como foco de interesse na poesia de Vinícius, ocupando aqui o lugar primordial. Em princípio, a mulher está envolta em misticismo:

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces



Porque nada te poderei dar senão a magoa de me veres eternamente exausto

No entando a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida...

(em Ausência)

transformada em um ser superior, divino, completamente idealizado. Posteriormente ela será explorada, juntamente com o amor, de forma sensual. Para tal, o escritor utilizou-se de uma linguagem mais simples, em verso livre, com comunicação direta, crua e dinâmica, como é o caso de Soneto da Devoção:

Essa mulher que se arremessa, fria



E lúbrica em meus braços, e nos seios

Me arrebata e me beija e balbucia

Versos, votos de amor e nomes feios.

(...)

Essa mulher é um mundo! – uma cadela

Talvez... – mas na moldura de uma cama

Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Encontra-se aqui, explicitamente, a relação carnal entre o homem e a mulher, sem marca alguma de arrependimento, o que seria comum mas, em sua primeira fase.

Ao tratar do amor, nada mais justo que citar sua composição mais conhecida Soneto da Fidelidade:

De tudo, ao meu amor serei atento



Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu conhecimento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angustia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amo (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

Neste poema, cuja composição fora intercalada na canção “Eu sei que vou te amar”, pode-se encontrar claramente, características clássicas, começando pela estrutura que é um soneto (influência de Camões, do século XVI), até chegar à linguagem concisa e lógica. Agora, o poeta entrega-se ao amor de corpo e alma: Quero vivê-lo em cada vão momento, sem preocupar-se se será feliz ou não, desde que viva o amor: Que seja eterno enquanto dure.

Vinicius tematiza o amor ainda em outros sonetos como o Soneto de Amor Maior, com uma visão positiva, de um amor louco, também entregue de corpo e alma, dando tudo de si mesmo “Fiel à sua lei de cada instante/ Desassombrado, doido, delirante/ Numa paixão de tudo e de si mesmo”; já em Soneto da Separação, a visão acaba tornando-se negativa “De repente do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma”...

Voltando ao tema da mulher, observe os seguintes versos:



CONJUGAÇÃO DO AUSENTE

Foram precisos mais de dez anos e oito quilos

Muitas cãs e um principio de abdômen

(sem falar na Segunda Grande Guerra, nas descobertas da penicilina e na

[desagregação do átomo)

Foram precisos dois filhos e sete casas

(Em lugares como São Paulo, Londres, Cascais, Ipanema e Hollywood)

Foram precisos três livros de poesia e uma operação de apendicite

Algumas prevaricações e um exequatur

Fora preciso a aquisição de uma consciência política

E de incontáveis garrafas; fora preciso um desastre de avião

Foram precisas separações, tantas separações

Uma separação...

(...)

A realidade vivida pelo poeta, está muito visível nos versos acima. Casado nove vezes, cada casamento vivido por Vinicius era uma nova e intensa paixão, uma mais forte que a outra. Conforma o tempo passava, as paixões passavam, e deixavam marcas, profundas. Cada separação era uma decepção. É exatamente isso que trata o poema – de uma separação. A mulher amada deixa a casa, e em cada canto deixa um pedaço seu: “Tua graça caminha pela casa”, mas o poeta não perde a esperança de que sua amada retorne, e com ela, a alegria: “Vejo-te em cada prisma, refletindo/ Diagonalmente a múltipla esperança/ E te amo, te venero, te idolatro/ Numa perplexidade de criança.

Extremamente romântico em Poemas dos olhos da Amada, Vinicius utiliza-se de um órgão sensorial para descrever sua amada, e conseqüentemente, a poesia. O olhar de um ser humano, dificilmente engana, podemos enxergar coisas invisíveis com os próprios olhos, como podemos enxergar nos olhos de um outro, sentimentos inexplicáveis. O jogo de claro/escuro na primeira estrofe, demonstra uma imagem de esperança

Ó minha amada



Que olhos os teus

São cais noturnos

Cheios de adeus

São docas mansas

Trilhando luzes

Que brilham longe

Longe dos breus...”

Na segunda estrofe, o poeta vê nos olhos da amada muita dor e amores deixados: “Quantos naufrágios nos olhos teus...”.



Enfim, como se pode analisar, Amor e Mulher andam juntos em praticamente todas as poesias de Vinícius de Moraes, ligadas a esse tema. Independentes da fase em que estão inseridos, os poemas de Vinícius têm, cada uma ao seu modo, alguma coisa a nos ensinar. Não importa que sejamos românticos ou realistas, e sim que o amor e as coisas boas da vida sejam infinitos enquanto durarem.

Com linguagem e estética de fácil compreensão, qualquer um pode entrar em contato com as obras de Vinícius de Moraes e, descobrir um pouco de si em cada linha lida.

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