Incrível atraçÃO



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INCRÍVEL ATRAÇÃO

Nick's Kind of Woman

Margot Early


Ela não podia viver sem aquele homem!
Diana Sutter costumava ser sensata e equilibrada, desde que não estivesse ao lado de Jack Colter... E ela jamais conseguira ficar longe desse fascinante aventureiro.

Diana o desejava de todo o coração, mas não se considerava o tipo de mulher por quem Jack pudesse se apaixonar. Ela teria de superar seus próprios limites, se quisesse conquistar para sempre o homem de seus sonhos!




Revisão: Catarina C.
Projeto Revisoras

Prólogo


Corredeiras do rio Colorado, Moab, Utah. Tempos de ginásio.
— Não se aproxime desse rapaz, Diana. Esse jovem foi maltratado durante toda a vida; por isso, transformou-se em um animal. Ele é como uma fera ferida. Cuidado, minha filha, não é boa companhia para você...

Diana navegava nas tormentosas corredeiras do rio. Ao chegar ao remanso, onde as águas claras se espraiavam entre as rochas diante de uma pequena praia, desembarcou do bote inflável e o escondeu entre as pedras.

Mais adiante, resguardada entre arbustos, uma canoa. Ele havia roubado a embarcação dos estaleiros da Rio Bravo Esportes Radicais, empresa do pai de Diana.

O caminho era pedregoso, e as areias, movediças. Diana odiava andar por trilhas, rios ou florestas. Cuidadosa e preocupada, decidira guardar o uniforme escolar na mochila e vestir uma calça comprida e uma fina blusa de seda azul.

Seguindo entre pedras e rochedos, Diana ouviu um som metálico. Olhou para cima. Lá estava ele, sorrindo, com uma lata de cerveja na mão.

Seus olhos eram castanho-escuros. Ao fitá-lo e sentir seu cheiro agreste, Diana compreendeu que seu pai tinha razão.

Naquela manhã, o jovem havia enfrentado o professor e o diretor, recusando-se a cumprir castigo após as aulas. O pai de Diana foi chamado às pressas para solucionar o impasse.

Na hora do almoço, Grace, irmã de Diana, contara o ocorrido, advertindo:

— Todos desconfiam de que papai gosta dele. Assim, vão pensar que é nosso irmão.

O rapaz continuava sorrindo no alto da ribanceira, sem demonstrar interesse por sua presença. Diana tentava se convencer de que fora até ele por cortesia. No fundo, não resistira ao desejo e à curiosidade de estar a sós diante de um jovem atraente e fascinante.

— Olá — ela arriscou. — Trouxe alguns livros. Poderíamos estudar inglês juntos. Eu poderia ler o mito de Teseu para você. É uma bela história. Verá...

Jack sorriu, enigmático e distante. Diana reparou nas roupas do rapaz e, comparando-as com as suas, ficou constrangida. Ele usava apenas um par de velhos tênis, uma calça jeans desbotada e camisa de malha branca.

Com esforço, Diana subiu até Jack. Ao ver-se diante do rapaz, quase entrou em pânico. Pensou em voltar para casa antes que seu pai chegasse da Rio Bravo Esportes Radicais. Consultou o relógio. Dispunha ainda de mais uma hora. Tomou coragem e perguntou, com desenvoltura:

— Você tem outra cerveja?

— Não.

— Eu gosto de cerveja.



— E daí?

Os dois tinham menos de quinze anos e, na verdade, Diana jamais havia tocado num copo de cerveja.

Jack virou a lata, limpou a boca com a mão e atirou-a para longe, contra as pedras do rio. Voltou-se para Diana e pôs-se a caminhar. Ela o seguiu em silêncio até mais acima, onde, entre grandes rochedos, se abria uma caverna. No centro, uma fogueira. Um cantil e outros equipamentos se aglomeravam num canto.

A tarde primaveril estava fresca e azul. Os raios de sol cintilavam nas corredeiras. Jack sumiu em direção à corrente. Diana supôs que ele pretendia banhar-se.

Era difícil entender o contraditório vínculo de seu pai com aquele jovem belo e rebelde. Era evidente que ele o ajudava e apoiava. Curiosa, arriscou:

— Meu pai não lhe deu um aquecedor solar? Jack não respondeu.

"Como esse garoto consegue viver como um eremita? Nem sequer dispõe de geladeira... Deve refrescar suas latas de cerveja nas corredeiras do rio."

Um mosquito picou-lhe o braço.

"Este lugar é um horror. Não entendo por que meu pai insiste em que Jack freqüente a escola."

— Você não usa sabonete, Jack? Eu poderia trazer um para...

Em silêncio, Jack reapareceu com duas cerveja nas mãos. Diana quase deixou cair ao chão a lata gelada atirada em sua direção.

Ela sorriu e, abrindo-a com ágil movimento, provou a bebida. Sentiu-se adulta, apesar de não apreciar o amargor do líquido. Pensou em sua irmã Grace e recordou que no próximo domingo a acompanharia a uma festa de aniversário. Grace era apenas onze meses mais velha.

Diana tomou mais um gole e perguntou:

— Qual sua idade?

— Tenho quase quinze anos.

— E quando é seu aniversário?

— Antes do seu.

Jack era, às vezes, gentil. Numa ocasião, fez questão de ajudá-la, ao vê-la sobrecarregada de livros nos corredores da escola.

Os dois se sentaram diante da caverna, sobre as rochas. O sorriso malicioso de Jack alertou-a. Ao abrir o compêndio de mitologia grega, Diana sentiu um odor masculino, sensual e penetrante.

Suspirou fundo e comentou:

— Você deveria tomar um banho. O aquecedor solar é ótimo. Eu já o usei quando acampava com meu pai e minha irmã. A água do rio faz bem para os cabelos...

— Seus cabelos são lindos, Diana — disse ele, tocando-os.

Os de Jack eram castanhos, quase negros. Ela, arrepiada, conteve o impulso de acariciá-lo, imaginando que talvez tivesse bebido demais.

— Bem, agora vou ler o mito de Teseu, o herói ateniense. Preste atenção.

Sua voz era firme e pausada. Diana acompanhava a leitura apontando o texto com o dedo indicador.

Em silêncio, Jack a observava, como a perguntar: "Por que não acariciou meus cabelos?"

A leitura prosseguiu até o sol poente deitar seus raios difusos sobre os vermelhos paredões que se erguiam das margens das corredeiras do rio Colorado.

Jack não conseguia se concentrar, apesar de a história ser interessante. A presença e a proximidade de uma garota tão linda a seu lado o deixava confuso e excitado. Ao mesmo tempo, sentia-se envergonhado por precisar de alguém para ajudá-lo em seus estudos.

— Daqui a pouco, terei de ir embora, Jack. Eu e minha irmã aprendemos de cor um poema deste livro e fizemos uma aposta para saber quem o recita mais rápido.

— Hum...


— Faça o seguinte: o poema é este. Vou recitá-lo. Você me avisa quando eu cometer algum erro. Certo?

Jack sorriu, indiferente. Afinal, mal conseguia ler. Quando Diana insistiu, afastou o livro, irritado. Diana levantou-se:

— Preciso ir embora. Pode ficar com a história de Teseu.

— Ora, Diana, fique mais um pouco.

Ela recordou que Jack havia roubado a canoa de seu pai e havia navegado por perigosas corredeiras. Alguém com tal coragem só poderia ser uma boa pessoa, pensou Diana.

— Afinal, por que você veio até aqui? O que quer? E isso? — perguntou Jack, com um gesto grosseiro e sensual.

Diana, assustada, respondeu:

— Você está enganado. Não é nada do que está pensando. Preciso ir embora. Desculpe-me.

Jack seguiu-a até o bote inflável.

Diana, temendo ser agarrada a qualquer momento, não virou para trás.

Afastou-se, rápida, e, quando o bote inflável se aproximava da corredeira, voltou-se ao ouvir uma gargalhada.

Jack acenava diante de sua caverna, no alto dos rochedos.


Capítulo 1


Moab, Utah. Solstício de inverno. Catorze anos depois.
Diana Sutter guardava o segredo havia quase dez anos. O sensual e clandestino encontro ocorria nas noites do solstício se inverno, cuja primeira noite costumava comemorar.

Um pinheiro iluminado e enfeitado cintilava no canto da sala.

A sala, decorada com ramos e folhagens típicas, tinha outros recantos enfeitados e iluminados com pequenos cometas, carrinhos, cavalos, coelhos e adornos.

Diana fazia questão de embelezar sua casa com elementos da natureza para esperá-lo.

A primeira vez, anos atrás, ele surgira exausto e inquieto, como um animal selvagem recém-domesticado.

Diana foi até a janela. As cores do deserto esmaeciam, anunciando o pôr-do-sol.

Em breve, Jack chegaria.

Ansiosa, reviu os enfeites da árvore de Natal, os arranjos florais e os laços do belo presente que comprara para Jack.

Acenderam-se as luzes de decoração das casas vizinhas. A noite se aproximava.

Diana deixou as cortinas abertas para que todos pudessem apreciar a lareira crepitante e o confortável ambiente da sala de visitas.

Diante do espelho, conferiu roupas e maquiagem. Estava bonita. Suas linhas, realçadas por uma calça branca de lã e por uma malha estampada em tons avermelhados, eram de uma mulher jovem e sensual. Sobre a pequena mesa ao lado do sofá, uma garrafa de conhaque francês, dois cálices de cristal e uma tábua de frios convidavam ao prazer.

Diana pensou em beber um gole. Desistiu. Pegou um cigarro, mas não chegou a acendê-lo. Por que estaria tão nervosa?

Bem sabia a razão de sua angústia: a bela e cativante Helen Shephard.

"Esqueça essa moça. Jack não ama essa mulher. Você verá. É apenas um romance passageiro...", pensava Diana, quando ouviu o ruído de uma caminhonete diante do portão.

Jack observou o sobrado, que, abandonado durante anos, havia sido reformado e mobiliado por Diana.

Os jardins cobertos de neve povoavam-se de sombras projetadas pelo piscar colorido das luzes decorativas do Natal.

Uma forte nevada caíra sobre a cidade dias atrás. A neve se acumulava na calçada, deixando livre apenas o leito da rua.

Apoiado na direção da caminhonete, Jack olhava a garrafa de vinho tinto que trazia sobre o banco. Respirou fundo e pensou: "Dessa vez é definitivo. Tenho de deixá-la".

11

Jack, apesar de desejar romper o relacionamento, sentia-se tentado a passar mais uma noite com Diana.



O coração de Diana disparou ao vê-lo aproximar-se. Jack era um homem moreno, forte, tão alto quanto Zachary, marido de Grace.

Ao abrir a porta, ele a saudou e entregou-lhe a garrafa de vinho.

— Oi, Jack. Tudo bem? — cumprimentou, nervosa e hesitante.

Seus encontros costumavam ser tensos. Diana ficava aturdida só de imaginar que alguma coisa errada pudesse ocorrer entre os dois.

Jack entrou e olhou a árvore e a decoração natalina. Decidiu que aquele não era o momento indicado para um rompimento.

Diana estava linda com seus cabelos loiros soltos sobre os ombros. Era sem dúvida a mais bela mulher que Jack havia conhecido em toda a vida. Na cama, Diana realizava prodígios. No entanto, era insuportável conviver a seu lado.

Junto à lareira, ele a abraçou, pensativo.

Diana fechou os olhos, dizendo a si mesmo que dessa vez tudo daria certo entre eles. Tomariam vinho e, em instantes, desfrutariam das intimidades do amor.

Nus, ambos pronunciariam palavras que só podem ser ditas no solstício de inverno.

Jack a soltou. Diana esperou por um gracejo, uma palavra amável, pois nessas ocasiões ele se tornava alegre e espirituoso.

— Tudo bem com você, Diana?

— Claro, Jack. Estou ótima.

Horas antes, os dois haviam estado nos escritórios da Rio Bravo Esportes Radicais, fechada ao público na temporada de inverno. A empresa foi fundada pelo pai de Diana, Sam Sutter, falecido dois anos atrás.

Meses antes, Jack comprara a parte de Grace da Rio Bravo Esportes Radicais e tornara-se sócio de Diana no empreendimento.

A decisão pareceu excelente a Diana, pois Jack poderia levar uma vida organizada e estável, abandonando a rebeldia e o hábito de esconder-se em rios e montanhas por meses inteiros, vivendo como um eremita.

O próximo passo seria casar-se.

Esse era o sonho de Diana.

— Vamos abrir essa garrafa de vinho? — perguntou ela.

— Claro, claro — respondeu Jack, ao tirar o grosso abrigo de lã.

Diana pressentiu que alguma coisa não estava bem.

— Sabe, não posso ficar por muito tempo...

Ela suspirou e, afundando-se no sofá, perguntou, afetando indiferença:

— Helen Shephard?

"Diana é uma mulher de classe, mas tenho de acabar logo com isso", resolveu Jack.

— Imagine... — respondeu ele, observando um grande livro ilustrado de alpinismo deixado sobre as revistas e jornais.

Diana o amava. O livro lá estava apenas para sensibilizá-lo. Ela não apreciava alpinismo e ignorava o quanto Jack gostaria de conhecer seus verdadeiros interesses.

Em seu quarto, Diana estudava textos e roteiros, além de desenhar e costurar trajes para os espetáculos montados pelo grupo teatral de Moab. Ela gostava de fazer a própria roupa e havia dedicado tempo e carinho para costurar várias calças e camisas para Jack. Lá também estavam os livros de onde Diana escolhia histórias para contar na biblioteca e no museu da cidade. Adorava trabalhar com jovens e adolescentes. Jack se perguntava se essa paixão não teria sido inspirada por ele.

Era incrível. Diana fazia qualquer coisa para mantê-lo por perto.

Angustiado, Jack constatou que, como sempre, naquela noite, tudo havia sido disposto para agradá-lo.

— Helen Shephard nada a tem a ver com isso. De qualquer modo, seria difícil para mim encontrá-la amanhã no escritório.

Diana não levou a sério o comentário. Em várias ocasiões, após o solstício de inverno, Jack inventara pretextos para desaparecer: excursões por rios da América do Sul, desafios de alpinismo e até mesmo cursos de enfermaria e de busca e resgate na selva, que o tornaram membro da Defesa Civil de Moab.

Durante vários invernos, Jack participou da patrulha florestal. Costumava reaparecer com a primavera, semanas antes da abertura da temporada de caiaque no rio Colorado, quando dava aulas de sobrevivência na selva e primeiros socorros aos turistas.

Agora, era diferente. Afinal, Jack se transformara em empresário. Suas responsabilidades como cidadão eram claras e definidas.

A garrafa de vinho não foi aberta. Jack não ficaria.

— Que história é essa de ser difícil me encontrar amanhã no escritório, Jack?

Nervoso, ele respondeu:

— Sabe, Diana, nosso relacionamento não tem futuro. Não percebe?

Ela sorriu, acendendo um cigarro.

— Nós sempre soubemos disso, Jack. O que importa é o presente.

— Tudo bem, Diana. Nós nos conhecemos e prometemos jamais mentir um para o outro. Você sabe que eu jamais me casaria com você — afirmou, apoiando a cabeça nas mãos.

— E o que o faz pensar que desejo me casar, Jack? — perguntou, desafiante.

Jack nada respondeu. Levantou-se e tirou do bolso da jaqueta um pequeno embrulho em papel verde com tarjas douradas.

— Trouxe isto para você, Diana.

— Agradeço, mas não quero.

Enquanto ele guardava o presente recusado, Diana perguntou:

— Você tem se encontrado com Helen Shephard?

— Helen nada tem a ver conosco. Jack não queria magoá-la.

— Então se trata de nossa empresa. Certo?

— Não. A Rio Bravo Esportes Radicais é um assunto à parte. Afinal, Diana, você quer falar sobre negócios ou sobre nós?

— Foi você mesmo quem se referiu ao escritório. Não foi?

— Foi, mas o que quero dizer nada tem a ver com o trabalho. Conversaremos depois. Vou indo. Vejo-a amanhã cedo na Rio Bravo, tudo bem?

Contendo as emoções, Diana acompanhou-o até a porta.

— Quer levar seu vinho?

— Eu o trouxe para você, Diana.

— Então, obrigada. Até amanhã.

Jack teve desejo de beijá-la. Conteve-se, porém. Ele a amava demais para arriscar-se.

Diana esperou que a caminhonete arrancasse e sumisse na noite fria.

Amuada, desabafou tirando os sapatos e deitando-se no sofá. Pensou o que fazer com o presente que comprara para Jack. Depois de alguns minutos de tristes pensamentos, serviu-se de generosa dose de conhaque. Conformada, preparou-se para enfrentar a mais longa noite do ano. Levantou-se e fechou as cortinas para que ninguém pudesse ver sua solidão e seu pranto.

Diana havia esperado demais por Jack. Aquele romance doentio jamais deveria ter começado. Nunca deveria ter aceito ser amiga de Jack durante trezentos e sessenta e quatro dias ao ano e sua amante apenas por um. Numa ocasião, dia de seu aniversário, o presente de Jack fora uma noite de paixão. Quando o pai de Diana faleceu, ele se mostrou solidário e amoroso. Ficou a seu lado durante semanas. Às vezes, aparecia de forma inesperada e apaixonada. Depois, sumia.

Durante dez anos, havia sido uma amante fiel e discreta.

Deprimida, Diana foi para o quarto. Tirou o bracelete de prata e o guardou numa caixa de madeira trabalhada. A jóia era um presente de Jack. Naquele tempo, ele era muito ligado a Sam Sutter, seu pai. Jack considerava o fato de serem amantes uma verdadeira deslealdade contra o bom Sam. Já naquela época Jack achava que pouco se podia esperar daquele relacionamento, pois suas personalidades eram diferentes, quase antagônicas.

O bracelete de prata, a partir de então, tornou-se um símbolo das sensuais noites de solstício de inverno.

Diana não conteve o pranto. Por que apaixonar-se, se ambos sabiam que aquele amor era impossível? Era estranho, mas durante muito tempo Jack e Diana cultivaram a ligação absurda, a ponto de ela aceitar encontrá-lo apenas na noite mais longa do ano.

Agora, Helen Shephard havia surgido. Angustiada,

Diana imaginou Helen nos braços de Jack, deitada na fria neve, a observar as estrelas, planejando viagens para os Andes, para os Alpes, para os tetos do mundo. Talvez Jack estivesse no apartamento que ela compartilhava com duas guias de turismo, desempregadas, na baixa estação.

Uma vez Helen convidou Diana para uma festa. Foi terrível estar entre mulheres fortes e queimadas de sol, capazes de enfrentar corredeiras e escalar picos e montanhas distantes. As moças, descontraídas em seus trajes esportivos, sorriram ao vê-la chegar com vestido de noite, pérolas e finos sapatos de cromo. Diana ficou perplexa ao ver aquelas jovens tratarem os homens de igual para igual, desafiando-os, contando histórias de excursões e viagens solitárias a países exóticos. Tempos depois, Helen convenceu-a a participar de uma excursão ao Grand Canyon com um grupo de guias. A viagem, sugerida por Jack, transformou-se num festival de comentários sobre a inabilidade e a pouca disposição de Diana para a vida ao ar livre.

Com o passar do tempo, Diana acabou conformando-se por encontrá-lo nas noites de solstício de inverno, convencida de que pelo menos uma vez por ano Jack era todo seu.

Agarrada ao travesseiro, Diana chorava.

Era preciso desistir de Jack Colter. Aquilo não era vida, era um tormento.

O rio estava gelado. Grandes blocos de gelo moviam-se na corredeira, refletindo a luz das estrelas. Da cabine da caminhonete, estacionada diante da Rio Bravo Esportes Radicais, Jack observava o espetáculo.

Costumava se sentir aliviado quando rompia um relacionamento afetivo. Dessa vez, porém, era diferente.

Estava triste e deprimido. Tentava imaginar o que fazer para recuperar-se. Talvez fosse interessante tomar cerveja com os amigos. Poderia ir também até o apartamento de Helen.

Amuado, resolveu entrar. O escritório estava todo iluminado. Diana havia pedido que instalasse luzes de Natal na fachada da empresa.

Quando Jack abriu a porta, surgiu diante dele a imagem de Sam Sutter com seus olhos azuis e expressivos. No mesmo instante, recordou o dia em que Sam foi sepultado e as semanas de amor e paixão que viveu ao lado de Diana. Sam sempre exigira que Jack se mantivesse longe das filhas.

Jack tinha plena consciência de que, ao magoar Diana, havia cometido mais um crime contra a memória de seu benfeitor.

— Olá, Sam. Você aqui outra vez? — disse Jack, acendendo as luzes.

Aquela era a sua casa. Jack havia sido criado e educado nos escritórios da Rio Bravo Esportes Radicais. Anos depois, comprou um estúdio nas encostas do rio. Deitou-se no sofá do escritório de Diana.

A sirene de uma ambulância soou ao longe. O que teria ocorrido?, perguntou-se.

Pensando em Diana, Jack excitou-se de imediato. Decidiu passar a seu próprio escritório. Quase nunca o freqüentava. Afinal, aquele fora o domínio de Sam Sutter, um lugar cheio de evocações e projetos que jamais seriam executados.

Depois de minutos de indecisão, Jack pegou a chave da caminhonete que havia anos tornara-se marca registrada da Rio Bravo. Trancou a porta e saiu.

A caminhonete atravessou a ponte sobre o rio Colorado e dirigiu-se rápida para Moab.

O que pretendia fazer no lugar aonde ia era mais uma boa razão para não voltar a dormir com Diana.

Depois de um sono leve e agitado Diana acordou às três da madrugada sentia-se só, abandonada. Recordou como era bom ler e contar histórias para Jack. Ele jamais seria um leitor, mas adorava ouvir as lendas da távola redonda e outros contos que Diana inventava ou lia na intimidade do quarto. Ele falava sobre si mesmo e comentava a respeito de seus segredos e angústias. Beijava-a com carinho depois de prolongados momentos de êxtase e prazer. Seu corpo, talhado como o de um herói grego, era belo e excitante. A tez morena de Jack contrastava com a pele alva e macia de Diana. Adormeciam abraçados, saciados e felizes. Nessas ocasiões, Jack a adorava, repetindo aos seus ouvidos: "Diana, eu te amo, querida".

O que havia acontecido com essa paixão, com esse desejo incrível que os envolvia havia tantos anos?, perguntava-se Diana, sem obter resposta.

"Será difícil para mim encontrá-la amanhã no escritório..." O que Jack quereria dizer com essas palavras?

Diana sabia que se ele ficasse para dormir, a noite seria maravilhosa. Jack voltaria várias vezes até o problema surgir outra vez: os esportes de alto risco. Era por isso que, depois do solstício de inverno, Jack desaparecia. Jamais desistiria de suas aventuras e sabia que Diana nunca o acompanharia em suas viagens. Solicitado por belas esportistas, Jack não excursionava sozinho.

— Não posso casar-me com você, Diana — dissera Jack na noite anterior.

Na verdade, fora sincero. Apesar da incrível atração que os unia, Diana tinha consciência de que não compartilhava sua paixão pela aventura.

Tinha de admitir: não era o tipo de mulher para Jack.

Ao fechar os olhos, Diana se imaginou atravessando rios e florestas, com mochila e equipamentos nas costas, vencendo alturas e desafios. Viu-se navegando sobre as corredeiras de Westwater Canyon, percorrendo de bicicleta tortuosas trilhas... Seria ela capaz de fazer tudo isso? E as corredeiras? Teria coragem de enfrentá-las? Talvez fosse esse o momento de demonstrar a Jack seu próprio valor, aceitando esses desafios. E claro que começaria por algo menos perigoso. Seria preciso treinar, fazer exercícios e, o pior de tudo, deixar de fumar.

Depois de divagar por longos momentos, Diana concluiu ser esse o único caminho que a levaria de volta aos braços de Jack.

Diana Sutter decidiu se tornar o tipo de mulher com que Jack Colter sonhava.

Nas montanhas próximas de Moab, Jack procurava na areia vestígios da tribo dos anasasis, grupo étnico que vivera séculos antes em Four Corners. Mais ao sul, outras tribos também haviam deixado trabalhos em madeira, cerâmica colorida e objetos de uso pessoal. Graças às leis de proteção aos sítios arqueológicos, esses indícios e relíquias existentes no parque foram preservados.

Passava das quatro da madrugada. A caminhonete o aguardava mais adiante. Equipada com tração nas quatro rodas, era o veículo ideal para chegar a pontos inacessíveis das montanhas. Estava na hora de voltar aos escritórios da Rio Bravo Esportes Radicais.

Descendo a trilha até a caminhonete, Jack pensava na vida que levava. Nada tinha a esconder, mas Diana não acreditaria se ele contasse onde estivera após deixá-la. Recordou a infância difícil e os inesquecíveis momentos passados ouvindo histórias lidas por ela.

Quando Sam Sutter faleceu, Jack contou a Diana toda sua história de fome e sofrimento. Ela o ouviu sem dizer palavra, aceitando-o tal como era. Amaram-se durante semanas. Ao chegar a primavera, o chamado dos rios e montanhas prevaleceu. Jack voltou à sua vida aventureira e solitária. Mas, dessa vez, havia outras e fortes razões para deixá-la.

Quarenta minutos depois, Jack chegou ao lugar onde a caminhonete se encontrava estacionada. Ao ligar o contato, constatou um grave problema: falta de óleo. Descer naquelas condições poderia fundir o motor. O sensato era deixar o veículo e ir a pé. Seria uma longa caminhada.

Com um suspiro resignado, Jack tomou a mochila, o cantil e o abrigo de lã, feito por Diana. Naquela noite, perdera a oportunidade de ter recebido seu presente de solstício de inverno.


Novo México
Rory Abbot iluminava com a lanterna as paredes de barro de uma cabana em ruínas nas montanhas. O sítio arqueológico já havia sido mapeado, e as escavações estavam programadas para março. Não havia razão alguma para Rory ter permanecido no local até quase o romper da aurora.

Satisfeita por ter passado a noite na cabana, Rory recordou que deveria partir, pois a esperavam para uma palestra na universidade.

Aquele era um projeto pessoal, e ela não resistiu ao desejo de voltar à cabana para verificar se o predador de sítios arqueológicos havia retornado. O indivíduo havia escavado em vários pontos.

Rory participava de pesquisas arqueológicas desde jovem. Agora, ao finalizar a tese de doutorado em arqueologia, seria nomeada supervisora de campo em Broken Sandal e assistente do professor John Frazier.

Rory Abbot amava a história da humanidade. Pesquisar sítios arqueológicos, descobrir culturas ocultas pelo tempo e a inclemência dos elementos fazia parte de sua natural curiosidade por conhecer seu próprio passado. Rory se dedicava a essa tarefa com carinho e obstinação. Odiava os vândalos que, desrespeitando normas e procedimentos arqueológicos, buscavam lembranças, recordações ou objetos a serem vendidos para decoração. O resultado dessa atividade irresponsável era a perda de indícios, vestígios e provas da existência de outras culturas e civilizações.

O lugar parecia estar como da última vez em que o havia visitado.

Mas era imprescindível começar as escavações.



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