Inês Pedrosa



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Inês Pedrosa

Nas tuas mãos


BIOGRAFIA
Inês Pedrosa nasceu em 1962.

Com o romance Nas Tuas Mãos ganhou o Prémio Máxima de Literatura.

De Inês Pedrosa, a Dom Quixote publicou:
Mais Ninguém Tem (história infantil com ilustrações de Jorge Colombo)

A Instrução dos Amantes

Nas Tuas Mãos

Fazes-me Falta

Fotobiografia de José Cardoso Pires

20 Mulheres para o Século XX

Poemas de Amor (antologia)

NAS TUAS MÃOS



«A tua cabeça rodou na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas. Quando os teus dentes morderam os meus lábios alguém gritou “Bravo!” como na ópera e eu soube que nunca uma rapariga havia sido assim amada.»

Inês Pedrosa

GRANDES AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Edição Visão / Dom Quixote Selecção JL
Inês Pedrosa 1997
Impressão: Printer, Barcelona Junho de 2003

Índice


PRIMEIRA PARTE - O Diário de Jenny

SEGUNDA PARTE - O álbum de Camila

TERCEIRA PARTE - Cartas de Natália

PARA O FERNANDO




O DIÁRIO DE JENNY

(...) Who goes to bed with what



Is unimportant. Feelings are important.

Mostly I think of feelings, they fill up my life

Like the wind, like tumbling clouds


In a sky full of clouds, clouds upon clouds.”

JOHN ASHBERY




1.
A tua cabeça rodou na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas. Quando os teus dentes morderam os meus lábios alguém gritou «Bravo!» como na ópera e eu soube que nunca uma rapariga havia sido assim amada. «Espere», dizias tu, «connosco há-de ser diferente.» Travavas-me o corpo todo com um beijo na palma da mão, os meus dedos agarravam-se, entontecidos, à curva funda das tuas pálpebras, e desse canto macio de pele eu inventei um homem para sonhar até ao dia branco da nossa eternidade. António. Dou-te esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade.

António. Muito prazer. Chamo-me António José Castro Morais mas toda a gente me trata por To Zé. Raptaste-me ao terceiro dia: «Jennifer. Diga à sua mãe que hoje está muito cansada para passear e venha comigo ver a vida verdadeira.» O meu nome é Jenny, porque o pai que eu não cheguei a conhecer adorava a heroína da Família Inglesa do Júlio Dinis, uma família aliás semelhante à nossa no culto discreto da riqueza como prolongamento físico da solidez espiritual. Mas tu, António, preferias outra coisa. Eu restituía-te o nome de origem, nem sequer era capaz de pronunciar esse diminutivo portátil que te fazia de toda a gente, e tu inventavas-me para lá do livro de onde eu tinha saído.

Naquela época parecia-me que estas intenções contrárias eram a mesma, um código de segredo automático que escrevia a grande evidência do amor. Só na noite do nosso casamento descobri que havia outra pessoa que te soletrava António, querido. Meu querido. Cuidado. É o auge do sol e todas as formas da montanha se rendem ao totalitário peso da luz. Vais andando, com os binóculos apontados ao mais longínquo dos cumes, e de repente vejo o teu pé direito no ar, sobre o precipício. Grito cuidado e abraço-te pelas costas, cais sobre mim no alto de Meteora. Pões um braço sob a minha cintura, e a tua face recortada a contra-luz rasga-me com a insuportável beleza de uma aparição.«Como te chamas, anjo-da-guarda?» Foi a única vez em que me trataste por tu.

Fizeste o resto da viagem connosco, nesse Verão de 1935. Vinhas dos Mosteiros do Monte Athos, onde nem a sombra de uma mulher se permite, nós vínhamos da desilusão de Atenas, que a minha pobre mãe definia incessantemente como «a viúva alegre dos Deuses», para dar a entender que era culta, mordaz e muitíssimo viúva. Não me lembro de nenhuma das másculas estátuas dos museus de Salónica, apenas manchas de mármore sobre as quais os teus dedos evoluíam, longos, quase impudicos pela transparência dos ossos e das unhas. Esse fascínio pelos teus dedos valeu-me meia dúzia de vitórias ao gamão, no dia em que me levaste às escondidas a ver a vida verdadeira nas sombras sumptuosas das igrejas ortodoxas e nos cafés do cais, povoados de velhos marinheiros gregos com gestos muçulmanos. Explicavas-me as regras mas eu não conseguia ouvir-te, embrulhava-te a voz na velocidade das palavras e na cor incerta da íris, quando sorrias era verde-clara e depois tornava-se castanha, o nariz afilado, perfeito e imóvel como uma decisão, a boca excessiva destoando, lábios grossos com os cantos virados para baixo como uma permanente trincheira de desconfiança.

Nunca fui de falar muito. A minha mãe reforçava convenientemente a minha incomunicabilidade doutrinando-me na lei da poupança verbal: uma ideia, meia palavra. Seguia-te desesperadamente o trilho dos dedos sobre as peças de madeira para que me julgasses inteligente, capaz de te vencer. Nunca mais voltaria a ganhar-te.

Dizem que o amor se faz de uma comunidade de interesses subterrâneos, restos de vozes, hábitos que nos ficam da infância como uma melodia sem letra, paixões pisadas na massa funda do tempo, mas nesses anos entre guerras os sentimentos explicados não interessavam a ninguém. O amor era então uma criação fulminante do tédio e da inocência, feito do carnal recorte da beleza, magnífico de crueldade. Amei-te de repente, com a luminosa injustiça que me afastou de todos os que me amaram por me serem semelhantes. Amaram-me ainda mais depois, durante o nosso longo noivado, que me tornou mundana, e adoraram-me a partir do dia em que me fiz oficialmente tua mulher, ouvia-os sussurrar que estranho, está cada vez mais menina, nunca se viu um caso assim.

Namorámos em bailes e recepções, eu dava-te a mão e o Pedro pegava-me logo na outra mão, sentia a inveja alastrando pelos salões como um perfume sensual, eram meus os dois rapazes mais desejados de Lisboa. Talvez não fossem sequer excepcionalmente bonitos. Quando agora olho tranquilamente para as fotografias da vossa juventude, vejo dois rapazes elegantes procurando atenuar pela distinção dos adereços - os chapéus de aba larga, osfoulards de seda lavrada, os coletes italianos, os casacos de ombros largos - certas irregularidades de formas e traços. Eram magros, o Pedro ligeiramente mais alto do que tu e quase macilento.

Apareciam sempre juntos e nunca demoravam o olhar sobre uma mulher. Falavam de pintura, literatura, viagens, aborreciam a política e os negócios. A combinação entre esses interesses tão raros nos homens do tempo e a vossa suave indiferença às afectações da beleza feminina tornava-vos irresistíveis. Criava-se um zumbido abrasador à vossa entrada, as raparigas apertavam os pulsos umas às outras e segredavam: «Olha o sol e a lua». Tu, meu querido António, eras a lua intrigante - apesar do teu cabelo aloirado e do teu passo bem mais decidido do que o do Pedro. Ele era o sol de melena escura que sorria continuamente só para encandear. Havia também uma espécie de esplendor circulando em torno dos dois que se extinguia quando se olhava para cada um de vós, individualmente.

Tu tinhas para mim uma cintilação própria, António, irradiavas uma luz turva, arroxeada, que me sacudia como uma onda de febre. Seguia os teus passos mecanicamente, enquanto dançávamos. Não conseguia ouvir a música; quase desmaiava de embaraço e prazer escutando a batida do sangue, atroadora, hipnótica, nunca soube se do teu se do meu coração. Ninguém antes te vira dançar.

As raparigas rodeavam-me, em enxames, perguntando que bruxedo te fizera eu. As mais afoitas delas, segundo me contaram, tinham tentado vezes sem conta rodopiar nos teus braços ou nos do Pedro, em vão. Cansei-me de vez das conversas de raparigas, nunca tive uma melhor amiga. A cumplicidade de condição parecia-me quase vergonhosa, conhecia-as demasiado bem do colégio, onde a minha mãe me internara durante cinco anos para me «instruir e disciplinar», à maneira inglesa que herdara dos pais dela.

Creio que nunca me recompus dos risinhos da Vera no refeitório, antes do Pai Nosso da manhã, «sonhei que estava na cama com o Salazar, ai, meninas, acho que estou a precisar de me casar.» Quase todas recebiam cartas de amor com assinaturas femininas, «minha estremosa amiga, olha esta noite para a lua às nove e meia que eu vou estar a olhar também. Tua muito saudosa Alexandra», e as freiras que tudo liam não estranhavam estes arroubos entre meninas, nunca lhes ocorria que eram os meninos do Colégio Militar quem escrevia as cartas assinadas por Alexandras e Paulas e Júlias.

Fardas, as pessoas apaixonavam-se umas pelas outras através do interdito das fardas. Eu tinha um pai morto cheio de condecorações no peito, um pai que morrera sem me ver, em 1917, a bem do futuro de uma Europa inexistente. Tu vestias linho branco ou flanela cinzenta, substituías quase sempre a gravata por lenços de seda que me punham tonta, sôfrega do teu pescoço alto de rapaz.

Ninguém sabia bem de que vivias, viajavas muito, negócios, dizias, e mudavas rapidamente de assunto. A minha mãe desvanecia-se com isso a que chamava pudor, um noivo que se apresentava de chaperon e não exibia os seus dotes profissionais era um prodígio. «Nem percebo o que é que um rapaz tão exquisit viu em ti», disse-me ela, uma vez, no tom de brincadeira que usava para as verdades mais sentidas. Arranjava sempre maneira de meter uma ou duas palavras em inglês em cada frase, e exquisit era uma das suas favoritas. No dia do nosso casamento passou a tratar-te por tu e a dar-te abraços maternais. Perguntou-te se estavas mesmo disposto a fazer feliz this little lady e tu respondeste-lhe em alemão. Se fosse eu, chamar-me-ia atrevida, e havia de amuar de humilhação.

A minha frágil mãe não admitia que o saber alheio a suplantasse, e, aliás, garantiu que eu lhe ficasse sempre atrás. «Dá cá isso, eu faço, tu não és capaz.» O estribilho repetia-se sempre que eu tentava fazer alguma coisa nova; foi quase à revelia dela que aprendi a tocar piano,«larga isso, criança, ainda me desafinas o piano, julgas que podes tapar a tua falta de técnica com a fúria», para ela a fúria era uma prerrogativa de criadores. Já estávamos casados há vários meses quando tu disseste: «Você é tão intensa, Jennifer, nunca supus que uma mulher pudesse ter tanta intensidade.» Foi talvez o maior elogio que recebi de ti, e as hostilidades entre mim e a minha mãe terminaram nesse instante. A minha fúria era afinal um dom, a virtude que te levara a escolher-me como única mulher da tua vida, herdeira do teu nome, senhora de tudo o que era teu.

O Pedro gostava de me escovar os cabelos devagar antes de me fazer as tranças, tu querias ver-me sempre de tranças e laços. Nas repetidas escapadelas do Pedro eu subia a bainha aos vestidos brancos de bordado inglês, punha soquetes e aninhava-me ao teu colo, tu acariciavas-me o rosto, as mãos, as pernas. Uma vez chegaste a deitar-me no chão e encheste-me o peito de dentadas e lágrimas, estiveste quase a possuir-me e depois pediste desculpa, eu disse-te «vem para dentro de mim, não tenhas medo», e tu disseste: «Não posso, meu anjo. Não seria justo para si. Eu sou dele, Jennifer. Se quiser, abandone-me.»

O abandono não é um acto de vontade mas uma consequência do esquecimento, meu amor. Se amasses outra mulher, o meu orgulho traído encontraria forças para deitar pazadas de terra sobre o buraco escuro do meu peito. Mas o teu amor proibido empurrava-te para o limbo trágico onde o meu amor por ti estava afinal condenado a viver. Nem por um segundo me ocorreu desfazer o nosso casamento. No entanto, preciso de te dizer que existiu mais do que pura paixão e livre entendimento na minha decisão de permanecer contigo para sempre. Houve também altivez, querido António. Não suportaria o desolado desprezo da minha mãe, nem o riso das zumbidoras. A mágoa do teu desamor tornava-me incapaz de encarar semelhantes afrontas. A pouco e pouco, desenvolvi a capacidade de me cingir à felicidade essencial de ser a tua mulher. Tu, que nem sequer olhavas para uma mulher, tinhas-me escolhido para viver ao teu lado uma vida inteira. O sexo que eu desconhecia não podia roubar-me o êxtase desta aventura. Permaneceria tua namorada, cúmplice do teu amante.

Segundo a Camila, o amor desesperado faz mal à pele, desfigura e amarelece-nos os contornos, mas connosco nunca, António. O desespero punha-te o fulgor do oiro, acho mesmo que te transfiguraste no dia em que a Camila apareceu. «Como pudeste trair-me tanto, Pedro?» Choraste nos braços dele a noite inteira, aos poucos ele convenceu-te a aceitá-la, ofereceu-ta entre pedidos de perdão e juras de amor. Assim me deste a filha que me impediu de enlouquecer.

Nesses anos em que o amor todo se concentrava na feroz atracção dos corpos, podia-se viver uma vida só do sabor de uns lábios. Eu, pelo menos, vivi.




2.
Todas as noites da minha vida agradeci a Deus o dom desse sentimento que nunca mudou. À minha volta, muitos casamentos desabaram, outros apodreceram depressa, embalados na música veloz de um tempo cada vez mais aflito. O nosso manteve-se branco e suspenso sobre as convulsões do mundo.

No fim da festa, subimos as escadas os três, de mãos dadas, às gargalhadas. «Não vai levar a noiva ao colo?» perguntou alguém, e tu respondeste: «Não. A noiva é que nos leva aos dois pela mão.» As raparigas soltaram gritinhos excitados, chamaram-me abafadora e atiraram-me flores. Senti-me estonteada dentro de uma chuva de pétalas, o champanhe subindo até ao extremo mais lúcido da cabeça, abrindo todas as portas que ligam a alma às vísceras. No corredor escuro, a tua voz soou com uma nitidez de espelho: «Jennifer, minha filha, a menina dorme no quarto do Pedro. Veja se lhe quer mudar alguma coisa para ficar ao seu gosto. Queremos que se sinta bem cá em casa, minha querida.» Depois fizeste-me uma festa no queixo, o Pedro pousou um beijo na minha testa, e os dois entraram no nosso quarto, aquele que tinha a larga cama de dossel da minha avó e os lençóis de linho debruados a frioleiras que ela bordara para celebrar a minha entrada no universo do amor real.

Não percebi porque é que nada sucedia de acordo com as normas, mas nessa noite nem sequer fiquei triste. Estava muito cansada de ter sorrido e dançado o dia inteiro, cansada de ser bonita e espirituosa num vestido pesado de rainha, pensei apenas que me querias proteger, como sempre, ou que simplesmente te agradava prolongar um pouco mais o perverso prazer da espera. Rodei muitas e muitas vezes a aliança no dedo, enchi de beijos o oiro quente e adormeci, já sem medo desse momento de entrega final que tanto me perturbava os sonhos.

Nunca contei esta história a ninguém. Não me pareceu que tivesse qualquer interesse, as pessoas aborrecem as histórias felizes e têm razão, a felicidade convoca o que em nós há de mais melancólico e solitário. Comecei agora a escrevê-la sobretudo para Camila, temo que um dia ela descubra a totalidade dos factos e se zangue connosco. Os factos, minha querida Camila, não existem, são peças de loto que inventamos e encadeamos para nos sentirmos vitoriosos ou, pelo menos, seguros. Cada ser tem o seu segredo, cada amor o seu código intransmissível. Do nosso amor nasceste tu, e devo-te um esforço de decifração desse código que é a tua herança, a luz que te é dada para que a transformes na tua particular aparição.

Sobretudo, não procures no amor o caminho que ele não tem. No fim da Guerra, as pessoas descobriram-se entre ruínas e acreditaram que o mundo podia salvar-se através da construção. Os mestres de obras enriqueceram, passaram a chamar-se empreiteiros e tornaram-se exemplos a seguir para tudo. A utilidade fez-se valor dominante, os filósofos estudaram ciências naturais, estenderam as inquietações sociais em mesas, como dantes só se fazia à massa dos bolos, aos animais vivos ou aos cadáveres humanos, e montaram consultórios para resolver as pessoas. E o amor, que não tem resolução, desapareceu.

O tempo tomou-lhe o lugar, mas o tempo gira ao contrário da luz, do branco para o negro. Por isso é preciso que gire a uma velocidade cada vez maior, para que a vida passe sem darmos por ela. O amor, Camila, é o único travão da morte, foi isto o que tentei dizer quando um relâmpago te roubou o Eduardo. A crueldade do amor é exactamente essa, imobiliza a vida na eternidade, mas o relâmpago escusava de ser tão literal. Se não tivesse vindo nos jornais ninguém acreditaria que um rapaz pudesse desaparecer assim, saindo do mar, aos vinte anos, rachado por um raio caído do céu.

A luz tem os seus desígnios e os seus escolhidos, nasceste marcada por ela, sem essa língua de fogo incendiando o primeiro dos teus corações talvez nunca o tivesses descoberto. Não penses que estou a dourar o drama da tua existência. Tento, pelo contrário, descrever tranquilamente a possível verdade destes setenta e cinco anos que já vivi.

Como sabes, nunca tive que procurar emprego ou desenvolver uma eficiência qualquer. Custa-me tanto ver-te às vezes tão destruída pelo dinheiro, Camila, tu enfureces-te comigo, dizes que é a subserviência das pessoas o que assim te destroça, a facilidade com que se vergam ao poder e abandonam tudo aquilo em que acreditaram juntas, mas é o dinheiro o que assim verga as pessoas, o dinheiro lustroso que as veste da cor do Tempo, um longo manto de retalhos de papel que se confunde com a glória e a felicidade eterna. Respondes rapidamente que sempre assim foi, e é provavelmente verdade, mas eu pertenço à última geração de raparigas poupadas ao flagelo de ganhar a vida. Vi a marquesa de Faya despejando os últimos anéis sobre o pano verde do jogo, vi-a morrer aos pés dos croupiers e ser empurrada para longe da mesa pelos pés ávidos de outros perdedores, mas nunca vi duas amigas degladiando-se pelo favor de um chefe.

Agora que as guerras acabaram, a primeira coisa a que as pessoas parecem capazes de sobreviver é a si mesmas, e é isso o que mais assusta.

Se ao menos o teu trabalho não se parecesse tanto com o amor, Camila, mas essa promiscuidade infiltra-se em ti como uma doença. Quiseste viver do teu talento e agora ele tritura-te como uma máquina registadora. Fotografas uma Terra sem Céu; por mais que me fales de necessidade de distanciamento e de registo irónico eu não consigo deixar de ver uma imensa névoa de gelo retraindo os contornos das tuas imagens irrepreensíveis. Pões nas fotografias o rigor que não encontras na vida, sempre que as pessoas te magoam por omissão fechas-te na câmara escura a sublinhar contrastes.

Atravessei épocas materialmente complicadas, mas a imobilidade do amor manteve-se inalterada no centro da minha vida. Vivi sempre tão apaixonada pelo António como o António pelo teu pai, e ambos me amaram e amam da mesma forma que eu, com firmeza e cumplicidade. Custa-me dizer «no meu tempo», como fazem as pessoas da minha idade, porque o meu tempo é simplesmente o tempo de partilhar o amor com os seres que amo. Por isso tu, que chegaste ao meu colo seis anos depois do dia do meu casamento, tens no meu coração a mesma antiguidade que o teu pai ou o amante dele, que me deu a ventura de conhecer o amor. Resistimos à lâmina fina dos humores e à lenta tenaz das interdependências. Vieste na altura certa, Camila, porque a paixão fecha o mundo. E a prisão exacerba o pior de nós, mesmo sem darmos por isso.

Ao princípio a intimidade deles fazia-me mal. Passava noites inteiras com o ouvido colado à parede odiando-lhes as vozes misturadas, o ritmo conjugado dos corpos, os gritos e o sono. Tinha tanto medo das coisas assombrosas que se passavam naquele quarto que deixei completamente de dormir.

Atravessei dias e noites e noites e dias alucinada, deambulando por uma casa cheia de fantasmas, rezando canções de embalar sobre fadas e anjos-da-guarda, até que caí redonda no alpendre, ofuscada de sol e de cansaço. Acordei na manhã seguinte com as mãos deles brincando dentro do meu cabelo, na cama larga de dossel onde a minha mãe nascera.

«Menina tonta, já sossegou?», perguntou-me o António, e eu vi os nossos três corpos nus brilhando no espelho do toucador, as pernas castamente entrelaçadas como num jogo de crianças.

E à maneira das crianças nos amámos a vida inteira, sem transpor a porta do erotismo, num faz-de-conta implacável feito só de dor e delícia.

Tudo o que há para saber do amor é deslumbrada aceitação. Não se aprende a amar, Camila; não há vontade democrática capaz de espalhar a paixão pelas bolsas de pobreza onde ela não chega, nem fábricas capazes de a produzir em peças, para montagem, construção ou exportação. Não há nada de justo neste sentimento: a justiça, aliás, não passa de um espectáculo de ordenação do mundo, um circo que inventámos para substituir a irracional lei do coração.

Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louca, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte. O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele.
Podia ter abandonado essa quase ridícula condição de virgem casada. Mas nunca me apeteceu, de qualquer forma, ninguém sabia, e nesse tempo a castidade ainda não era um sinal exterior de insucesso.

Tive pretendentes, sim. Lembro-me sobretudo do Manuel Almada, quase triste de tão meigo, irresistivelmente paternalista e aristocratica-mente distraído. Lamuriava-se ao de leve de uma fama de sedutor a eito que lhe dava mais embaraços do que trofeus. Quando era miúdo apaixonava-se pelas pessoas que não conhecia, pelas primeiras imagens do cinema. E no fundo, continuou assim pela vida fora.

Reconheci-me em parte no seu carácter de permanente turista, que declarava que todo o amor vivido é uma degradação do amor. Dizia que amar uma rapariga é, afinal de contas, não amar ninguém, porque as raparigas mudam todos os dias. Tinha razão. O amor dele não me conseguia tocar, porque a mulher que ele via em mim não me conhecia. Era quase dez anos mais novo do que eu, tanta juventude agoniava-me. Se calhar fui a única mulher do mundo a desejar envelhecer. Assustava-me a ideia de acordar todos os dias da vida com a mesma pele lisa de objecto sem passado. Amava as imperceptíveis corrosões do tempo; talvez por isso, diziam-me que parecia cada dia mais nova. Ganhei fama de bondosa por alheamento. Intrigava-me a persistência que as pessoas punham nos actos, para o bem como para o mal.

Creio que por isso mesmo cheguei a desencadear paixões furiosas; tinha todos os sentidos pousados nas substâncias passageiras. Divertia-me o jogo das intensidades. Numa hora beijava, na seguinte enxotava e ria. Ria-me porque nada há de excessivamente grave no mundo. Ria-me porque amava, e amar me bastava.

Não me lembro da experiência da dor. Uma das vantagens do envelhecimento é conseguirmos esquecer aquilo que não nos apetece recordar. Lembro-me de um linguista que se queixava de não ser capaz de esquecer nenhuma das vinte e tal línguas que conhecia. Dizia que se sentia enlouquecer por ter a cabeça cheia de informações de que não necessitava. Sentia-se atafulhado de irrelevâncias. Não penses que te estou a dizer que na velhice as pessoas ficam mais perto da essência da vida; não consigo encontrar uma solução para os problemas do Universo pelo facto de ser velha.


3.
Mas acho que ganhei em frivolidade, sobretudo depois da tua morte, António. Eu era uma rapariga demasiado séria, e agora tornei-me uma velha leviana.

Aos vinte anos, combatia as minhas inseguranças através de um humor bastante cruel. Diziam: «Que céptica, esta rapariga!» e eu julgava que o cepticismo era um sinal de inteligência. Agora, o meu humor tornou-se mais gentil, mais bem comportado. Pelo menos assim o espero. Não quero magoar ninguém. Isso para mim passou a ser fundamental. As pessoas passam metade da vida a maltratar-se umas às outras, por medo e necessidade de afirmação. É uma actividade triste e profundamente inútil. Já não tenho vergonha de ser meiga; foi uma das coisas que me levaste quando morreste.

A meiguice caía-te tão pouco e tão mal que me lembro de todas as vezes em que, sem querer, te empurrei para dentro dela. «Jennifer, minha querida, que paciência tem para os meus amigos», dizias-me tu, por exemplo, quando o Costa Veleno partia a garrafa de Porto no canto da papeleira Império da sala de visitas, vociferando contra aquilo a que ele chamava o conluio do Salazar com a corja dos ingleses. Eu limitava-me a rir enquanto apanhava os cacos, porque, simplesmente, me divertia, António. O Delfim Costa Veleno - «com dois eles, Jenny, escreva com dois eles, não se esqueça que o meu nome é de origem italiana, o meu avô foi um dos mais prestigiados elementos da corte de Victor Emmanuel II» - era um espectáculo fulminante, a testa loira pejando-se-lhe de suores diante dos ricos e poderosos, o corpo baixo e roliço coruscando de energia, os lábios grossos brilhando, indiscretos, entre a breve mosca e o bigode retorcido.

Achava-se particularmente nervoso, o Veleno, ao findar a grande Exposição do Mundo Português de que, nas suas palavras, ele fora um dos pilares centrais. Urrava amargamente sobre a ingratidão do presente para com os Homens que erguem o Progresso da História, e acabava as noites a chorar no ombro do seu pupilo do momento. Eram sempre rapazinhos imberbes, com o tipo plácido e deslumbrado dos moços de recados, aos quais Veleno queria à força transformar em janotas ilustrados. Cansava-se invariavelmente ao fim de seis meses, mas não desistia: trocava um jovem bruto por outro, igualmente manso. A maioria deles desaparecia do nosso convívio sem que tivéssemos sequer conhecido o som das suas vozes. Uma vez pegou-se à tareia com o António Botto, no caramanchão do jardim, acusando-o, doido de ciúmes, de corromper o seu discípulo.

Mas as nossas noites de Veleno acabavam cedo; a dada altura, Delfim emergia, num repente, ainda sacudido de soluços, do canapé do fundo, arrastando o rapaz pelo braço, e, esbugalhando os olhos para disfarçar o inchaço, anunciava: «Bambini: custa-me horrores privar-vos da minha companhia, mas lembrei-me agora que o Secretário dos Negócios Estrangeiros ficou de me telefonar. E quando a Pátria nos chama, não podemos negar-nos, Santa Madonna!»

O Secretário nunca telefonou. No Verão de quarenta e um bebia apocalipticamente agarrado ao folheto Portugal, Mãe do Futuro que me trazia na capa. «Veja, Jenny. Criei-lhes uma estrela e eles não são capazes de pegar no telefone, sequer para me agradecer.» A estrela criada que era eu consolava-o e consolava-se num encolher de ombros lento e piedoso. Troçaste tanto de mim, António: «De musa da boémia a mãe de Portugal, isto é que é uma trajectória, Jenny!» Se ao menos eu fosse capaz de desencadear as tempestades que reservavas ao Pedro, teria valido a pena a minha queda na vaidade, inocência maior.

Veleno nem sequer andava por perto quando me vieram propor a famosa fotografia. Insistira em ciceronear-nos pelo grande Mundo Português que considerava seu, «quero que entendam todos os detalhes da coisa, e quero apresentar-vos ao Almada, ao Telmo e a todos os outros meus queridos amigos artistas», mas largou-nos assim que entrámos no recinto da Exposição, na aflição de se fazer visto pelo Duarte Pacheco, e de cumprimentar todos os representantes do corpo diplomático.

Eu tomava um capilé com a Josefa Nascimento, uma das poucas mulheres com que me dava, na palhota-leitaria próxima do Pavilhão das Missões Católicas, cercado por reproduções de aldeias africanas recheadas de negrinhas sorridentes, quando um homem grisalho de óculos redondos me interpelou delicadamente. Disse-me que o meu rosto era exactamente o que procurava para a capa de uma publicação sobre a mulher portuguesa, Eva e Maria num só olhar, e suplicou-me que, pelo amor de Deus, aceitasse pelo menos fazer testes de imagem, havia mesmo a hipótese suplementar de um filme. No dia seguinte tu partirias com o Pedro para mais uma das vossas incursões românticas pelos casinos de Portugal e Espanha. Aceitei imediatamente, com uma prontidão que surpreendeu a própria Josefa, para a qual o mundo parecia não ter surpresas.

Afinal, o filme chamava-se O Céu nos Teus Olhos e o realizador disse que, mesmo a preto e branco, se percebia que os meus olhos eram verdes. Creio todavia que a minha voz lhes agradou, ou talvez simplesmente não soubessem como mandar para casa uma rapariga tão determinada a ser mais do que uma fotografia. O certo é que me ofereceram um programa de correio sentimental na telefonia, Cartas do Coração por Maria da Felicidade. Durou vinte anos, e nunca te contei. Nem a ti nem a ninguém, nem sequer à Camila. Aliás, parece-me que a Camila me deprezaria um pouco, se soubesse. Um dia, quando eu regressava a casa depois do programa, disse-me que tinha estado a ouvir na rádio uma Maria da Felicidade cuja voz era igual à minha, mas em figurino de mulher fatal. Ria-se: «Como se tu fosses capaz de dizer aquelas patetices sentimentalóides.» Não faz mal. Puxava a voz do ventre e tornava-me perita em homens.

Era uma maneira de me vingar de ti, da solidão do meu segredo, das mulheres que não tinham segredos. Foi também, muitas vezes, a maneira de manter a Rosário connosco, quando todas as outras criadas já tinham partido, ou de conseguir um quilo de bifes. Santa Madonna! - Delfim Veleno nunca teve o prazer de verificar que privava com uma artista de rádio. Dois meses depois do folheto, considerou-me um caso perdido e remeteu-se às suas habituais angústias de ascensão.

Contou-me a história da sua vida logo que o conheci. Explicou-me que o pai lhe dera o nome de Delfim para assinalar o seu destino de redentor, porque ele nascera a 14 de Dezembro de 1914, sobre o assassínio de Sidónio Pais. A mãe morreu-lhe no parto e o pai tornara-se, por força da ruína, um obscuro guarda-livros, que todavia nunca se conformou com essa obscuridade. Delfim foi amestrado desde a mais tenra infância: aos quatro anos, escrevia cartas e tocava piano. Ambrósio Veleno exortou-o obsessivamente ao génio: o filho tinha de ser um Mozart ou um Dante.

Um dia, procurando estimular-lhe o sentido estético, pregou-lhe na gravata uma belíssima borboleta que ficou a debater-se sobre o seu peito, numa agonia feroz, durante um tempo que pareceu a Delfim, então com sete anos de idade, mais do que um século. O pequeno Veleno permaneceu imóvel e mudo durante todo o dia, sem coragem de libertar a borboleta, chorando silenciosamente. «És um fraco», dizia-lhe o pai. «Herdaste o sangue chilro da tua mãe.» O pequeno Veleno cresceu a ouvir dizer que era um fraco, um fraco incapaz de honrar os sonhos e a grandeza dos Velleno. «O meu pai tinha razão, levei a juventude toda a ser um fraco», dizia ele, às vezes, aos íntimos, cofiando a mosca com melancolia. «Mas a culpa não era da minha mãe. Ele vinha de uma família judia muito antiga, que se fez passar por convertida no tempo da Inquisição, e os judeus são gente de têmpera. Nunca se puderam dar ao luxo da languidez, é o que é. Portugal só não morreu debaixo dos seus contínuos deslumbramentos e ataques, porque os judeus lhe foram segurando as raízes. Durante a minha juventude, sonhava todas as noites com os olhos da minha mãe a despedirem-se de mim enquanto eu nascia. Embrulhada em sangue, como uma mártir, procurava em mim uma força que eu não sabia dar-lhe. Acabou por prescindir das forças que tinha para mas oferecer. Arrasto essa culpa até hoje.»

Ambrósio Costa Veleno empregou-se como mordomo nuns fidalgos para pagar o melhor colégio de Lisboa ao filho. Quando o menino fez quinze anos os patrões estavam para fora e Ambrósio decidiu dar uma festa no palacete, para convidar os colegas de Delfim. A festa foi tão falada que chegou aos ouvidos dos donos da casa, e Ambrósio perdeu o emprego. O que em seguida aconteceu prova que a aflição pode acender umas luzes semelhantes às do génio: Ambrósio Veleno foi bater à porta de todos os comércios de Lisboa e fundou um jornalito de distribuição gratuita, integralmente preenchido por anúncios, chamado O Reclame. As ofertas de emprego e de casas para vender ou alugar fizeram da iniciativa um sucesso. O Veleno pai passou de nobre pelintra a burguês endinheirado em muito menos tempo do que o filho levou para completar o sétimo ano do liceu. A abastança veio amaciar fartamente as implacáveis expectativas daquele pai: «Deixa lá, filho, não te apoquentes, quanto mais tempo ficares no colégio mais pessoas importantes conheces, e isto o mundo é mais dos conhecidos que dos sabidos.»

O senhor Ambrósio tinha razão. Veleno conseguiu tornar-se tonitruantemente anti-germânico mesmo antes do fim da guerra e fazer-se encontrado com um director de serviços da Polícia de Defesa do Estado, que lhe arranjou um lugarzinho nos arquivos. «Agora, com a memória da Nação ao meu cuidado, já posso escrever o romance de que o século necessita», anunciou. Josefa Nascimento fez um dos seus sorrisos escarninhos e declarou: «Pobre Veneno. Nem o nome te puseram direito, e já te julgas capaz de matar.»

Josefa Nascimento publicava romances policiais sob o pseudónimo de Joseph Birth.«Pus o meu nome em inglês macho, para vender bem», explicava ela, aos poucos a que confiara a sua existência paralela. Não era obviamente o caso do Bufo Veneno, assim nomeado pelo espírito premonitório de Josefa. Era capaz de dissertar uma noite inteira sobre a Responsabilidade Moral do Escritor - com o António Botto como contraponto mordaz, proclamando, na sua voz afectada, o virtuosismo superior da sensação e a sagrada inefabilidade da carne. A dada altura, como Josefa perseverasse, ele bocejava ostensivamente e rematava: «Deixa-te de retóricas, menina, que com tanta moral tiras-me o ar da alma e fechas-me o entendimento.»

Com mais ou menos moral, o António Botto gostava muito da Josefa. Enternecia-o que ela se guiasse tanto pelo coração, quando defendia estrenuamente a razão. Enternecia-o sobretudo a amizade incondicional que ela votava a Judith Teixeira, uma poetisa ousada cujo primeiro livro - Decadência, de 1923 - tinha sido queimado pelas autoridades. Publicara depois disso mais dois livros, o segundo dos quais, que se chamava Nua, Poemas de Bizâncio, lhe valera o opróbrio público, acabando por remetê-la a um silêncio cada vez mais desesperado. António Botto protegia-a como podia, e arrastava-a para nossa casa, tentando animá-la. Os bens e ouros de Judith foram-se escoando, na sua inglória luta contra o tempo, deixando-a quase na miséria. Josefa sustentou-a, com subtileza e constância, nos últimos anos da sua vida.

Josefa Nascimento não era bonita. Tinha os olhos demasiado juntos sobre um nariz adunco e uma boca de formato desdenhoso, que aproveitava para se mostrar irónica. Mas os seus gestos expansivos irradiavam uma tranquilidade superior que definia outra espécie de beleza. Parecia alheia às pequenas mazelas dos afectos, concentrada na suave salvação do mundo.

A bem da moral, o pai impedira-a de frequentar a Universidade; acabou por casar à revelia com um poeta brasonado e estróina e a responsabilidade arrastou-a pelo pescoço, obrigando-a a trabalhar e estudar ao mesmo tempo. O curso de enfermagem deu-lhe o conhecimento necessário sobre doses e substâncias. Apanhara na infância o vício dos policiais; criança ansiosa, aquele tipo de literatura dava-lhe a garantia de que o poder da razão acaba por vencer. Só aos trinta e tal anos, quando começou a entrar ao fim do dia de trabalho numa casa vazia, se lembrou de cumprir essa vocação adiada. Nunca lhe ocorreu escrever o romance autobiográfico por onde toda a gente se estreia, por respeito para com o marido, que depois de perder tudo ao jogo acabara num hospital psiquiátrico.

«É muito difícil escrever um bom romance policial, o que me levou a pensar que essa seria uma aprendizagem maravilhosa para uma pessoa decidida a ser um escritor sério», confessava. Mais tarde verificou que podia permanecer dentro da chamada fórmula, e mesmo assim dizer algumas verdades acerca dos homens, das mulheres e da sociedade. Ainda por cima, o carimbo policial rendia-lhe público, dinheiro e impunidade: ninguém buscaria mensagens subversivas em livros intitulados Nas Trevas do Coração ou A Noiva Assassinada.

Interessava-lhe sobretudo, nos livros como na vida, explorar os labirintos da escolha individual. Aproximei-me dela à medida que a ouvia falar num tom frio, quase desumano, acerca das compulsões das pessoas, do bem e do mal, e do modo como escolhemos estas palavras.«De uma certa maneira sou muito conservadora», dizia ela, «no sentido em que fico preocupada com a mudança brusca de coisas que foram aperfeiçoadas e funcionaram durante muitos séculos. Por exemplo, não gosto que deitem abaixo edifícios antigos, parece-me que, no geral, por mais justificações estéticas que arranjemos, tendemos a substituí-los por outros piores. Mas sou bastante radical em outros aspectos.»

Era pródiga em ideias sonsas de revolução: organizava uns chás em prol da «Alegria da Maternidade» onde falava de métodos de contracepção e explicava que a instrução e o trabalho exterior das mães desenvolvia extraordinariamente a inteligência dos filhos; criou uma espécie de associação informal de médicas e enfermeiras para valer aos concretos e quotidianos desesperos das mulheres. «Enfim,» dizia, «divirto-me a tentar tornar o mundo um bocadinho menos enervante.»

Os livros vendiam-se cada vez melhor, mas o sucesso nunca a impeliu à revelação da sua identidade: «Bem vê, Jenny, a fama é proporcional ao mistério. Virá um tempo em que as pessoas se esquecerão totalmente disto, apavoradas diante de uma morte sem redenção, e hão-de expor-se até ao osso por um ou dois metros de fama. E não se esqueça que um dos trunfos do meu querido Joseph Birth é a sua enxuta virilidade.

Ou pensa que o seu amigo Veleno se entusiasmaria tanto com os livros do Birth se soubesse que eram meus?» Ri-me. O Delfim elogiava tudo o que fosse aprovado pela elite, e Birth tinha uma certa voga, creio que por ser inglês, e acima de tudo porque a mistura entre a trama policial e citações de D.H. Lawrence e Virginia Woolf lhe conferiam um picante inédito. Na realidade, Veleno nunca devia ter lido sequer uma página, não me parecia possível que ele pudesse gostar de mistérios virulentamente feministas como os dela. «Ah,» disse Josefa, «mas ninguém apreciaria esse feminismo, como você diz, se a mão que o assina fosse de mulher.» Sorriu: «A começar pelas próprias mulheres.»

Contudo, nunca nos tornámos íntimas. Aliás, eu enchia a casa de amigos precisamente para afastar todas as hipóteses de intimidade. Sobretudo, para pulverizar a vossa intimidade. Ou antes, para que aquela festiva multidão de estranhos me oferecesse a ilusão de ser a tua mulher.





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