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Instituto de Psicologia - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Aula 06  História de Psicologia – 2007/2

 

Influências Médicas

Leslie Spencer Hearnshaw

 

Hearnshaw, L. S. (1987). The shaping of modern psychology



(Capítulo 10, pp.149 -169). London: Routledge.

(Tradução de) - Traduzindo para fins de ensino.

Revisão de Eduardo A. S. dos Santos

 

I



Parece à primeira vista surpreendente o fato de que antes do século XIX, influências médicas tenham tido uma parte tão pequena na formatação da psicologia. Discussões criticas sobre a natureza da alma e sobre a medicina científica tiveram uma origem comum nas cidades gregas da Ásia Menor. Aristóteles teve uma formação médica, e no mundo muçulmano, que recebeu a tradição do pensamento antigo depois do colapso de Roma, filósofos importantes como Avicena, também praticaram a medicina. Platão em  tempos antigos, Moses Maimonides na Idade Média, e Spinoza mais recentemente tinham um vago conceito sobre saúde mental ou algumas idéias sobre a natureza do conflito mental. Mas suas intuições psicoterapêuticas tiveram, comparativamente, pouco efeito na corrente principal da psicologia filosófica. Medicina e psicologia tiveram caminhos separados. Talvez dois motivos expliquem isso. O primeiro é que o ponto de vista dos filósofos era estático, em que o núcleo central da alma humana - dita divina razão, espirito ou mente consciente - ficava acima e fora do mundo material. A loucura era concebida, portanto, como devida a intrusões de fora, ou intrusões materiais causadas por desequilíbrio do humor ou intrusões sobrenaturais causadas por influências celestiais ou demoníacas. Daí o termo “alienista”, que persistiu como uma designação de psiquiatra até o século XIX. Era tomado como verdade, então, que o fenômeno dos distúrbios mentais não poderia acrescentar nada à essência da natureza da alma ou ao seu funcionamento. Em segundo lugar, e acima de tudo, o que os médicos podiam oferecer para os psicólogos era muito limitado. Na época de Hipócrates, eles tinham uma vaga classificação das doenças mentais, tinham um entendimento muito pouco preciso do organismo e menor ainda sobre a base material da mente; e também não tinham muito para oferecer sobre o tratamento de desordens mentais. Então os psicólogos acharam de pouco interesse os escritos médicos. Na verdade a psicologia contribuiu mais para a medicina do que a medicina para a psicologia.

O crescimento do espírito científico, especialmente o desenvolvimento da ciência da vida nos séculos XVII e XVIII, começou a colocar fundamentos para uma mudança. Antes da metade do século XIX, os descobrimentos médicos começaram a fazer impacto na psicologia. No começo do século XX, eles começaram a ter maior influência. Vários fatores estiveram envolvidos neste desenvolvimento, fora das mudanças gerais, sociais e intelectuais, sobre as quais escritores como Foucault e Ellenberger1 chamaram atenção. Houve um progresso no próprio campo da psiquiatria. Gradualmente o estudo das desordens mentais tornou-se reconhecido como um campo de estudos especiais a ser desenvolvido através de métodos científicos e de observações. Quando Robert Burton escreveu seu famoso e mal impresso livro  “A Anatomia da Melancolia” em 1621, ele conseguiu enumerar, entre as causas da melancolia, Deus, diabos, bruxas, mágicos e as estrelas.  O “Tratado sobre a Loucura” de William Battie, escrito só um século depois do de Burton, era um diferente tipo de trabalho, fundamentado em longas observações de insanos num hospital londrino, o St. Lukes, que foi estabelecido e dirigido por Battie; ele foi uma  tentativa sistemática de “descobrir as causas, os efeitos e a cura da loucura”.2

Battie, como tem sido reconhecido, iniciou uma nova era na psiquiatria de várias formas. Como o primeiro médico de reputação com uma base científica ... que fez da insanidade seu objeto de trabalho em tempo integral e que expôs a “loucura” para uma especialidade médica respeitável.   Ele se tornou o primeiro professor de psiquiatria na Inglaterra, se não no mundo, e criou oportunidade para estudos da insanidade que vinham sendo encobertos por séculos de antigas tradições”.3

            O exemplo de Battie levou muitos outros hospitais para doentes mentais a se desenvolverem, pavimentou o caminho para Pinel e Tuke, e para o tratamento psicoterapêutico do século XIX. As bases haviam sido colocadas para uma psiquiatria mais científica e humana e os psicólogos não podiam mais ignorar este fato4.

            Duas outras importâncias de uma natureza mais geral fundamentalmente ajudaram a quebrar as barreiras que separavam a medicina e a psicologia: a descoberta do inconsciente da mente e a teoria da evolução. Assim como a mente havia sido identificada com a consciência, por Descartes e seus sucessores, as forças “alienígenas” responsáveis pelo colapso mental não podiam mais ser localizadas dentro da mente; elas tiveram que ser consideradas como materiais ou sobrenaturais. Uma escola de pensamento, do tempo de Thomas Willis (1621-1675), enfatizou a base física das desordens mentais e este ponto de vista ainda prevalece; outros, impressionados pelo poder da imaginação humana, enfatizaram o fator psicológico envolvido no colapso mental, e para eles a mente inconsciente seria um aliado útil. “A idéia de um processo mental inconsciente, escreveu L. L. Whyte, foi, em muitos aspectos, concebida em torno de 1700, TOPICAL em torno de 1800, sendo efetiva em 1900”5. Concebida intuitivamente por escritores imaginativos, a idéia adentrou a filosofia com o século XVII com os platonistas de Cambridge, na Inglaterra, e com Leibniz na Alemanha, e começou a florescer entre os pensadores românticos e idealistas do século XIX na Alemanha. Mas o que a trouxe decisivamente para o âmbito da medicina, foi a chegada do Mesmerismo, mais para o fim do século XVIII. Os fenômenos que Franz Mesmer (1734-1815) produziu em suas sessões não eram novidades. Os médicos-sacerdotes de tribos primitivas, os chamãs do leste e estranhas figuras como Paracelso, e os grandes “feiticeiros” irlandeses no oeste, sabiam como produzir, de maneiras diferentes, efeitos similares. Mas Mesmer formulou propostas que poderiam ser testadas cientificamente, vinculando estes fenômenos com manifestações de “um fluido universalmente distribuído e contínuo ... de uma natureza incomparavelmente rarefeita” e “com propriedades similares às do ímã”, e afirmando que “este princípio poderia curar desordens nervosas diretamente e outras desordens indiretamente”6. A Academia Francesa de Ciências, em 1784, testou as afirmações de Mesmer e achou suas hipóteses físicas indefensáveis. Desta maneira, eles concluíram que não havia uma coisa chamada de “magnetismo animal” e nem um fluido rarefeito. Seus efeitos curativos eram essencialmente resultado da imaginação de seus pacientes. Mas, sem dúvidas, existiam curas e Mesmer, apesar de seu estrelismo, não só foi a primeira fonte nos tempos modernos do que logo após foi chamado de “hipnose”, mas também de todas as escolas de psicoterapia. Além disso, foi através da hipnose que a influência dos fatores inconscientes no comportamento tornou-se claramente demonstrada, e a doutrina da mente inconsciente deixou de ser  meramente uma abstração filosófica.

            A outra grande influência que desenvolveu o relacionamento entre a medicina e a psicologia foi a teoria da evolução, que trouxe a mente para um mundo natural como fator de adaptação dos organismos aos seus meios. Falhas de adaptação e desajustes foram capazes de esclarecer cada vez mais os processos fundamentais envolvidos no funcionamento perfeito de organismos bem adaptados. Eles foram capazes de revelar o processo dinâmico envolvido na luta pela sobrevivência. O desenvolvimento foi visto não mais como uma ordem divina, mas como resultado de uma interação complexa de forças genéticas e do meio ambiente que poderia não dar certo em algum estágio. Embora este fato sozinho não fornecesse uma resposta para os problemas psiquiátricos, ele os colocou em um novo plano e abriu caminho para uma abordagem mais dinâmica para a psicologia. Mais do que isto, ele forçou os psicólogos a pensarem em termos de dimensão histórica, a ver o adulto como produto de uma criança e o homem civilizado contra o pano de fundo de um homem primitivo. As aberrações de uma mente desordenada, que a uma certa época parecia uma coisa certamente bizarra, tomaram um novo significado e um enorme interesse por parte dos psicólogos. Quando Freud entrou em cena, no fim do século XIX, a medicina e psicologia haviam definitivamente se unido.

 

II

Havia, entretanto, uma exceção ao negligenciamento geral pela psicologia acerca dos achados médicos, uma derradeira contribuição da antiga medicina que a psicologia havia tomado: a doutrina dos temperamentos. Pensadores antigos como Anaximandro, Alcmaeon e Empédocles consideravam saúde como um equilíbrio entre opostos, e propuseram a teoria dos quatro elementos básicos (terra, ar, fogo e água) e das quatro qualidades básicas (calor, frio, umidade, secura). Hipócrates, no seu tratado “A natureza do homem”7, estendeu esta doutrina para a psicologia, definindo quatro “humores” ou quatro substâncias fluídicas (sangue, fleuma, biles amarela e biles preta) presentes no corpo humano. As características morais e físicas dos humanos, bem como as doenças das pessoas, dependiam da mistura (crasis) destes quatro humores8. Galeno amplificou a doutrina e descreveu quatro temperamentos básicos (sangüíneo, melancólico, colérico e fleumático) e cinco formas mistas9. A doutrina dos quatro temperamentos persistiu através da Idade Média até o mundo moderno.10 Foi aceita por Kant na sua “Antropologia”, por Herbart no seu “Manual de Psicologia” e mesmo por Wundt no seu livro “Psicologia Psicológica”11. Talvez mais surpreendente ainda, Pavlov concluiu dos seus experimentos sobre condicionamento em cachorros que existiam somente quatro temperamentos básicos e, embora ele tenha proposto uma nova explicação em termos de excitação e inibição, ele adotou a terminologia antiga para denominá-los. “O velho ponto de vista”, ele falou, “é essencialmente correto” (12)



            Mais comumente, no entanto, a doutrina antiga foi modificada, ampliada e enriquecida por estudiosos do século XIX, como Jung, Kretschmer, Sheldon e outros13; eles introduziram suas próprias terminologias idiossincráticas, e tiraram suas conclusões a partir de dados clínicos e de medições precisas físicas. Outros tentaram confirmar as diferenças temperamentais com estudos fatoriais e estatísticos.14 Apesar desses desenvolvimentos, ainda se vê uma continuidade entre as teorias modernas e antigas, e a doutrina do temperamento, originária da medicina, foi incorporada à psicologia diferencial moderna, e tornou-se parte da teoria da personalidade.

 

III

O primeiro grande psicólogo a integrar amplamente a psicologia filosófica, a instrumental e a médica foi William James, e o excitamento que seu trabalho trouxe foi largamente devido a isto. Os seus feitos, no entanto, não são nada mais do que o resultado de um século de trabalho de outros, começando tentativamente na Grã Bretanha dos primórdios do século XIX, e então tomado pelos psicólogos franceses. Na Alemanha, embora a psicologia e a psiquiatria fossem altamente desenvolvidas, existia menor interação entre elas, talvez porque cada disciplina tivesse tomado sua identidade muito cedo.

            Dugald Stewart (1753-1828), professor de filosofia moral em Edinburgh, foi, parece, “o primeiro filósofo a reconhecer o potencial científico do mesmerismo”.15 Ele considerou os fenômenos produzidos por Mesmer como “informações inestimáveis para ampliar nosso conhecimento das leis que regulam a conexão entre a mente humana e o organização do nosso corpo”.16 Embora as palestras de Stewart não tenham sido publicadas até 1827, é provável que, quando ele se retirou de sua careira em 1809, essas observações tenham sido feitas na primeira década do século. O relacionamento entre a medicina e a psicologia foi desenvolvido, pelo lado da medicina, pelo médico, de Edinburgh, John Abercrombie, cujo trabalho “Perguntas a respeito dos poderes intelectuais” (1830) incluiu uma boa quantidade de dados clínicos, e,. pelo lado da filosofia, por William Hamilton, o mais lido dos filósofos escoceses, que disse que “na loucura, na febre, no sonambulismo e em outros estados anormais, a mente atrai capacidades e sistemas extensivos de conhecimentos que em outros momentos eram totalmente inconscientes” e usou isso como evidência para a existência de uma região inconsciente da mente.17 Depois da introdução do mesmerismo na Inglaterra em 1828, e seu uso logo após em cirurgias pelo eminente cirurgião John Elliotson, o hipnotismo (como foi primeiro denominado por James Braid de Manchester), tornou-se naquela época extremamente popular.18 Braid, de certa forma, desmistificou o hipnotismo, tratando-o como um estado dos centros cerebroespinais comparável ao sono, e isto tornou-se de grande interesse para a nova escola de psicólogos fisiologistas ingleses, entre os quais W. B. Carpenter (1813-1885) e T. Laycock  (1812-1876) foram os representantes mais proeminentes.19 Ambos escreveram tratados sistemáticos sobre psicologia e ambos apoiaram a idéia daquilo que eles chamaram de “cerebração inconsciente”. Embora eles brigassem entre si sobre prioridades,  concordavam essencialmente que “o estudo científico das várias formas de atividade anormal é provavelmente o campo mais promissor para as investigações psicológicas” (20). Henry Maudsley (1835-1918), o psiquiatra que deu seu nome ao Maudsley Hospital em Londres, fez uma tentativa ainda mais ambiciosa “de trazer os exemplos instrutivos apresentados pela mente doentia para confirmar os obscuros problemas da ciência da mente”.21 Infelizmente, na Grã Bretanha, naquela época, não havia estudo organizado de psicologia como uma disciplina independente em qualquer universidade, e os departamentos de filosofia estavam cedendo, cada vez mais, a dominação de influências idealistas opostas à psicologia empírica. Então as novas idéias destes pioneiros não enraizaram imediatamente.

            No mundo que falava alemão, apesar do fato de que Hegel na sua Philosophie des Geistes” (1830) dedicasse um espaço considerável ao magnetismo animal e à insanidade, os descobrimentos médicos tiveram pouco impacto nos psicólogos, já que eles estavam devotados ao estudo generalizado da mente normal, numa perspectiva quantitativa, fisiológica e experimental. Na verdade, Lotze, no seu Mediziniche Psychologie (1852), introduziu alguns dados patológicos na parte final do seu trabalho,23 mas, embora ele tenha tido algum treino na medicina, os seus interesses eram essencialmente filosóficos. Wundt também discutiu brevemente anomalias da consciência (alucinação, sono, sonho e hipnose), no seu Physiologischen Psychologie, e contribuiu com um trabalho chamado de Hypnotismus und Suggestion na sua revista.24 Nenhuma das figuras de liderança da psicologia alemã, no entanto, considerou os dados da psicopatologia como chave importante para o entendimento do funcionamento da mente humana.

            Foi deixado para os psicólogos franceses o aprofundamento da relação entre psicologia e psicopatologia, e por causa das influências que seus trabalhos exerceram sobre William James, por exemplo, e em Freud, eles adquiriram extrema importância histórica. O terreno estava preparado para o desenvolvimento francês por uma sucessão de psiquiatras eminentes, como P. Pinel (1745-1826), J. Esquirol (1772-1840) e J. Moreau de Tours (1804-1884), que tinham colocado a França na frente do progresso psiquiátrico. Aí veio a renascer o hipnotismo. Isto começou quando o médico interiorano A. Liébeault (1823-1904) estabeleceu-se em Nancy em 1864, e, usando sugestões e hipnose, conseguiu curas fantásticas. Desdenhando publicidade e realização de shows, e no início ignorado pelos médicos, ele eventualmente chegou ao conhecimento de H. Bernheim (1840-1919), um hábil professor de medicina na Universidade de Nancy. Bernheim se converteu e tornou o trabalho de Liébeault conhecido para o mundo. Em Paris, uma escola rival sob J. M. Charcot (1835-1893), neurologista num hospital mental de Salpêtrière, afirmou, em oposição aos médicos de Nancy, que o estado hipnótico era um fenômeno histérico e que poderia ser invocado somente em pacientes histéricos. Nas suas demonstrações, Charcot tentava provar que os sintomas histéricos, tais como anestesia e paralisia, poderiam ser ambos produzidos e abolidos por técnicas psicológicas e que a histeria, portanto, era essencialmente um distúrbio psicológico.25

            Este trabalho logo começou a interessar filósofos e psicólogos, e os “experimentos naturais” de psicopatologia começaram a ser considerados como uma fonte natural de descoberta psicológica. H. Taine (1828-1893), um professor de filosofia, um homem de letras e de história, foi o primeiro a incorporar informações da psicologia anormal para ajudar a explicar os funcionamentos do intelecto humano26. Quando foi traduzido para francês e inglês, ele não somente fez uso do material dos casos de Salpêtrière e de outros dados patológicos, mas também do material do associacionismo britânico e de escritores médicos como Abercrombie, Braid, Carpenter e Tuke. O verdadeiro fundador da escola francesa de psicologia foi T. Ribot (1839-1903), que em 1888 foi indicado como professor de psicologia experimental no Collège de France. No seu primeiro livro A psicologia inglesa contemporânea,27, ele já notou a importância do que ele chamou de “teratologia psicológica”(isto é, o estudo de anomalias e “monstros” na ordem psicológica), e ele continuou escrevendo uma série de trabalhos sobre distúrbios da memória, vontade e personalidade. “O distúrbio”, dizia ele, “torna-se um instrumento sutil de análise; torna o experimento impossível por qualquer outro método”,28 porque, “vendo como o ego é dissolvido, nós descobrimos como ele é feito”.29 Nem introspecção nem experimentação em sujeitos normais poderiam fornecer informações similares, já que a “personalidade não é um evento momentâneo, mas, uma história”30 Existiram limitações no trabalho de Ribot, porque ele propriamente dito não tinha treinamento médico e ele tinha que se valer do material de casos de segunda mão, apesar de ter uma cadeira de psicologia experimental, ele próprio não fazia experimentos. Mas ele escrevia bem e exerceu uma influência considerável na França e na América, onde seus trabalhos (incluindo os mais tardios sobre afetos e imaginação) foram traduzidos, e conseguiram grande popularidade.31

            O seu contemporâneo mais jovem, A. Binet (1857-1911), também mais conhecido por seu trabalho sobre inteligência e um dos fundadores da “psicologia individual” (psicologia diferencial), também começou sua carreira no campo da psicopatologia.32 Como um psicólogo que se fez por si mesmo e que nunca se formou em medicina ou filosofia, juntou-se a Charcot no Salpêtrière, e trabalhou por algum tempo no “magnetismo animal”, como ele ainda o chamava,33 com o psiquiatra C. Féré. Embora mais tarde tenha se desiludido com os métodos de Charcot, continuou a escrever sobre o hipnotismo e a usar o hipnotismo em suas pesquisas experimentais sobre o raciocínio.34 Ele considerava este enfoque importante, já que a “psicologia clássica ... representa o lado da mente que está na luz, sem levar em conta que existe também um lado nas sombras”.35 Quando mais tarde voltou sua atenção para os problemas da inteligência, colaborou com o psiquiatra T. Simon no exame das crianças subnormais. Quando Binet morreu, Claparède o reconheceu como um psicólogo de “versatilidade original e gênio fecundo”.36 Na verdade, o trabalho de Binet foi grandemente inspirado na medicina.



            A tradição estabelecida com Ribot foi continuada na Sorbonne por G. Dumas (1866-1946), um psicólogo qualificado através da medicina, que é mais conhecido pela edição de um volume de sete livros do Novo Tratado de Psicologia (1930-1949), no qual ele dava uma ênfase considerável ao lado afetivo da vida e a seus distúrbios, e pelo psiquiatra Pierre Janet (1859-1947), que sucedeu Ribot no Collège de France em 1902. Janet é uma figura interessante que pavimentou o caminho mas que foi quase completamente apagado por Sigmund Freud. Sobrinho do filósofo Paul Janet, e também com formação filosófica, Pierre Janet interessou-se por hipnotismo quando lecionava filosofia em Le Havre e fez uma série de experimentos hipnóticos, com o sujeito Léonie, um caso clássico de personalidade múltipla. Sua descrição desse caso e de outros casos no livro O Automatismo Psicológico (1889) foram chamadas de “tesouro para toda a psicologia dinâmica moderna”.37 Isso precedeu aos primeiros trabalhos de Freud na psicoterapia por muitos anos, e foi ainda mais marcante porque naquela época Janet não tinha formação médica. Ele continuou sua qualificação em medicina, trabalhando por algum tempo no laboratório de Charcot, e foi recomendado para uma cadeira de psicologia experimental em 1898. Ele, no entanto, não era realmente um psicólogo experimental. Ele acreditava que os enfoques matemáticos e fisiológicos dos experimentalistas tinham feito com que eles tivessem se retirado do assunto principal. “Estudo acurado de detalhes do comportamento, da necessidade de amar e ser amado, do ciúme, da timidez, etc. ... o que antigamente era considerado como acessório menor, como acessório literário da verdadeira psicologia, agora se torna o âmago principal de uma psicologia verdadeiramente prática e útil”,38 e estes detalhes poderiam ser fornecidos, ele acreditava, somente através da experiência clinica. Foi neste campo que Janet trabalhou pelo resto de sua vida. Ele foi um clínico admirável que dizia que “a observação clínica e a descrição de tipos característicos são mais úteis do que teorias sistematizadas”.39 Portanto sua teorização era bastante modesta e centrada no modelo econômico de energias mentais, o que possibilitava “fazer um orçamento de rendas de entradas e de gastos da mente, da mesma forma que hoje em dia podemos fazer o orçamento de gastos e entradas num âmbito comercial”.40 Ele era crítico da psicanálise que ele considerava como um sistema especulativo da filosofia, ao invés de uma área da ciência médica.47 Não sabemos o quanto seus trabalhos iniciais influenciaram Freud, essa é uma questão de alguma disputa. Freud reagia friamente às críticas de Janet, e chegou a negar que a psicanálise devia alguma coisa ao trabalho prévio de Janet.42 Na visão de Ellenberger, no entanto, este fato foi muito além, especialmente mais cedo, em 1909, quando Freud tinha admitido ter seguido o exemplo de Janet, ao tentar penetrar nos processos psíquicos de histeria.43 O que podemos tomar como certo é que Freud muito cedo não somente introduziu novos métodos de tratamento, mas também um novo enfoque teórico. Como Freud dizia:

“As diferenças entre nossa teoria e a de Janet é que nós não atribuímos a fissão psíquica a uma falta congênita de capacidade, de parte do aparato mental, para sintetizar as suas experiências, mas nós explicamos de uma maneira dinâmica através do conflito de forças opostas, reconhecendo neste conflito um esforço nativo de cada complexo mental contra o outro”.44

            Sem dúvida, foi a poderosa teorização de Freud que finalmente fez com que a psicologia e a medicina se juntassem irrevogavelmente. Esta conjunção, no entanto, foi o resultado de todo um longo século de reaproximação, no qual os pioneiros foram os franceses , que tiveram o papel de liderança.

 

IV



Perto da metade do século, depois de sua morte, Sigmund Freud (1856-1939) permanece como uma figura controversa. Puristas científicos ainda mantêm que a psicanálise, o sistema de teoria e de terapia que Freud criou, é nada mais do que “uma estupenda brincadeira intelectual”45 e sua descrição da estrutura psíquica meros “mitos homéricos”.46 Muitos psicólogos compartilham deste ceticismo e desconfiança, rejeitando Freud, apesar de seus dons literários e imaginativos, como um cientista falso.47 Ainda, em contraste definido para aqueles pareceres, nós falamos que a psicanálise é, “talvez, o mais importante corpo de idéias, colocadas no papel, no século XX”,48 e a mais poderosa de todas as influências que tem formado a psicologia contemporânea.49 Nós nos confrontamos mais uma vez com a velha divisão entre objeto e metodologia, entre aqueles que pressionam o rico conteúdo do material psicológico e aqueles que pressionam as rigorosas necessidades de metodologia científica. Para os primeiros Freud é uma grande figura, para os últimos ele é seriamente deficiente. É necessário, claro, distinguir influência de validade. Doutrinas podem ser influentes sem ao mesmo tempo serem válidas; elas podem levantar questões significativas e despertar fortes emoções, sem terem fornecido convincentes respostas ou satisfeito necessidades de lógica. Qualquer que seja a validade da teoria psicanalítica, pode haver pequena dúvida que, pela extensão de seu conteúdo, ela tem mudado a face da psicologia.

            A última realização de Freud foi ter trazido psicólogos face a face com toda a cadeia de problemas humanos, com as questões centrais que tem sido tratadas por grandes pensadores, artistas e escritores desde tempos antigos, mas tem sido quase excluídas de áridas abstrações das escolas acadêmicas  com problemas de amor e ódio, de felicidade e miséria, com a agitação de descontentamento social e violência, assim como insignificantes erros e escorregões de todos os dias da existência; com os elevados edifícios de crenças religiosas assim como as bonitas, mas trágicas, tensões da vida familiar. Freud poderia, certamente, ter dito, nas palavras do poeta romano, "humani nihil a me alienum puto".50 Qualquer aspecto da natureza humana, da mais bestial à mais sublime, encontrou um lugar na psicologia freudiana. Os mínimos detalhes de comportamento são olhados como significantes e partes do "texto sagrado".51 Não há obstáculos longos entre o normal e o anormal. A humanidade sofreu de uma neurose universal. Todos sonharam e "o sonho é o produto patológico, o primeiro membro da classe".52 Então, a psicanálise, que começou como um sistema de terapia, “terminou sendo um assunto puramente médico”53 Tornou-se um sistema geral de psicologia, com implicações teóricas de grande importância. Acima de tudo, restaurou o modelo hierárquico, que Platão estabeleceu, mas os sistemas dualísticos e materialísticos dos tempos modernos têm destruído, e o colocou numa posição evolucionária e progressista. Primeiro havia o "id", a base biológica com suas instintivas direções; então o "processo primário" da psique, o primitivo estágio fantasista do desenvolvimento mental; seguido pelo "secundário", processos mais racionais do "ego"; e, finalmente, o socialmente determinado "superego". Na complexa personalidade do homem, todos esses níveis coexistiram, não, contudo, em paz, mas em freqüente conflito. Freud foi profundamente influenciado por Darwin e o conceito de vida como envolvendo um processo dinâmico de batalha.54 Ele concebeu a vida interior do homem como uma área de forças em disputa, tal qual o mundo de natureza externa. E como o mundo natural podia somente ser explicado em termos de sua história e desenvolvimento através do tempo, assim a personalidade humana poderia somente ser explicada à luz da infância, assim como da raça e do próprio indivíduo. Freud, bem versado, tanto nas humanidades como nas ciências de vida, fez a mais ambiciosa tentativa já feita em fundir essas duas classificações, e isto é o que dele ficou de importante mesmo se a validade científica de alguma de suas teorias esteja aberta para perguntas. A fraqueza de Freud foi que ele nunca estabeleceu uma metodologia satisfatória para validar suas introspecções. As técnicas hermenêuticas nas quais ele confiou, nunca foram adequadamente formuladas, e certamente ele fez injustas e erradas reivindicações para estabelecer a psicologia "sobre fundamentos similares àqueles de qualquer  outra ciência, tal  como a física".55 Ao reivindicar isto, Freud enganou a si mesmo e a muitos dos seus seguidores. As razões de sua posição contraditória não são, portanto, difíceis de se achar.

            A atração magnética que muitos pensadores e escritores do século XX têm por Freud, deve-se em parte ao fato de que seu sistema de psicologia, embora único e original na sua síntese final, é derivado da confluência de um certo número de correntes de pensamento do século XIX, como observaram vários comentadores recentes. Excelente lingüista e educado dentro dos padrões clássicos, Freud conheceu desde cedo as obras de arte da literatura européia antiga e moderna. Além disso, como judeu, ele foi herdeiro de uma rica tradição do pensamento judaico. Em base a isto, o estudo da medicina e das ciências naturais era tido na mais alta conta. Durante alguns anos Freud se engajou na pesquisa, com algumas distinções, nas áreas da fisiologia, anatomia cerebral, neurologia e farmacologia. Na escola de medicina de Viena, onde Freud estudou e fez pesquisa, predominava a ideologia de Heimholtz, que era tão avançada quanto qualquer outra. Nela, Freud recebeu a influência de professores e colegas destacados como Brücke, Meynert e Exner. Sua perpétua aderência ao Weltanschauung, científico e determinista, sua tentativa antecipada de expor suas idéias psicológicas em termos psicológicos em "projeto para uma psicologia científica"57 e sua duradoura crença em que “todas as nossas idéias provisórias na psicologia serão algum dia baseadas em subestrutura orgânica”58 foram conseqüências da sua educação básica. Mais do que isso, como o próprio Freud observara em sua autobiografia,59 as teorias de Darwin influenciaram-no fortemente quando estudante, e elas permaneceram como uma pedra primeira do seu sistema psicanalítico.60 Entre outras coisas, Darwin demonstrou que "os instintos são tão importantes quanto as estruturas corporais para o bem estar de cada espécie",61 e entre os mais poderosos instintos encontrava-se, claro, o instinto sexual. Freud não foi o descobridor da importância do sexo na vida humana. A sexologia, o estudo clínico e científico do funcionamento sexual, floresceu no final do século XIX. A primeira edição Psycopathia Sexualis de Kraft-Ebbing foi publicada em 1886, os estudos sobre fetichismo de Binet em 188762 “As Perversões do Instinto Sexual” de Moll em 1891 e o primeiro volume dos "Estudos da Psicologia do Sexo" de Havelock Ellis em 1897. O sexo já estava sendo um assunto muito discutido antes da publicação, em 1905, dos "Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade" de Freud. Freud também não foi o primeiro psicoterapeuta. Vários alunos da escola de França o precederam. Ele não assumiu seu trabalho psicoterapêutico até ter estudado com Charcot, nem publicou nenhum dos seus estudos de caso até depois de ter visitado Liebeault e Bernheim em Nancy. O sistema psicanalítico eventualmente surgido foi o resultado de uma boa quantidade de ingredientes científicos e médicos contemporâneos.

            Mas isto não é tudo; pois Freud nunca foi simplesmente um cientista. De fato, ele até admitiu não ser "realmente um cientista (mas) ... um conquistador, um aventureiro" .63 Embora se declarasse contrário à filosofia, ele possuía a tendência especulativa de um filósofo, e algumas partes de sua "metapsicologia" apresentam uma chocante semelhança com os sistemas de outros pensadores influentes do século XIX, particularmente com os de Schopenhauer e Nietzsche. Freud sempre relutou em admitir que fora influenciado pela filosofia, afirmando de fato que ele tinha uma “incapacidade constitucional”64 para a filosofia. Mas as suas declarações de desinteresse não eram inteiramente convincentes. Enquanto estudante, ele assistiu as palestras do filósofo Brentano,65 quando jovem, fez a tradução de alguns ensaios de J. S. Mill, entre eles um sobre Platão.66 Mais tarde ele admitiu ter uma duradoura admiração por Spinoza e embora Freud tenha declarado não ter conhecido os escritos de Schopenhauer e Nietzsche, Sulloway escreveu "de fato, tanto as idéias de Schopenhauer quanto as de Nietzsche eram tão amplamente discutidas dentro dos círculos intelectuais do fim do século XIX, que Freud não podia ter escapado a uma educação razoavelmente geral nestas doutrinas. Mais do que isso, Freud não citou esses dois escritores em "A Interpretação dos Sonhos" em 1900. As correntes românticas e irracionalistas do pensamento alemão estavam, conseqüentemente, entre os ingredientes da psicanálise.

            A psicologia acadêmica como tal, por outro lado, não contribuiu grandemente com o sistema freudiano. Ele estava, escreveu seu biógrafo Ernest Jones, "mal informado no campo da psicologia contemporânea".69 Somente dois psicólogos, Herbart e Fechner, parecem tê-lo influenciado em certa medida. Ainda estudante, leu um texto de Herbart e se diz que a idéia da repressão pode ter-se originado nesta leitura.70 Certamente ele tomou alguns empréstimos de Fechner, por ter admitido que “seguia este pensador em muitos pontos importantes”.71 Esses empréstimos, no entanto, eram conceituais, não metodológicos. A abordagem experimental e quantitativa era fundamentalmente estranha às tentativas freudianas e o “Projeto para uma psicologia científica”72 derivou de uma combinação de conceitos neurofisiológicos com os da psicologia introspectiva pré-experimental.

            O termo “psicanálise” foi pela primeira vez empregado por Freud em 1896.73 Naquele momento, muitas das idéias chaves que ele tinha absorvido durante os 25 anos anteriores já tinham sido fundidas numa nova e poderosa síntese; ele tinha começado a sua auto-análise, a qual não somente reforçou suas convicções, mas também acrescentou novos materiais. Ele já tinha também esboçado as novas técnicas de livre associação e de interpretação dos sonhos, as quais formaram o centro dos seus métodos psicoterapêuticos. Como forma de explorar o inconsciente, a livre associação era uma inovação da parte de Freud. Foi sugerido que esta técnica pode ter surgido de um ensaio sobre escrita criativa do autor L. Börne com cujo trabalho Freud estava familiarizado.74 De fato, a utilidade da livre associação no diagnóstico já tinha sido apontada alguns anos antes por Francis Galton em seus “Experimentos psicométricos”, mas nada há que indique que Freud tenha lido o artigo de Galton, o qual surpreendentemente antecipava as descobertas da psicanálise. Galton tinha observado como as associações de devaneios revelavam as profundezas ocultas da mente e traziam à tona “muitos incidentes já esquecidos, que nunca pensei que fizessem parte do meu estoque de pensamentos”.75 “Eles revelam os fundamentos dos pensamentos de um homem com mais brilho e veracidade do que mostraria para o mundo”.76 É isto precisamente o que Freud descobriu depois de abandonar a terapia por hipnose, porque esta não conseguia enfrentar os dois problemas de crucial importância, a resistência e a transferência  bloqueios da memória e a revivescência de antigas emoções ligadas à família dentro da situação analítica. A terapia psicanalítica, a qual se baseia numa completa honestidade, pretendia lidar com estes dois problemas básicos e provocar uma alteração permanente na economia mental do paciente. Sua eficiência é, obviamente, ainda muito discutida. Vale a pena também destacar que o próprio Freud nunca foi um “apaixonado pela terapia”77 e nos últimos anos da sua vida expressou sua dúvida em relação à sua eficácia geral.78 Seu principal interesse nunca foi terapêutico mas teórico e o alto valor que ele deu ao seu trabalho sobre sonhos foi essencialmente por causa de sua contribuição à teoria.

            “A teoria dos sonhos”, escreveu Freud, “ocupa um lugar especial na história da psicanálise”.79 “Ela contém ... a mais valiosa de todas as descobertas que eu tive a feliz sorte de realizar”.80 Os sonhos, está claro, tinham sido assunto de interesse dos filósofos desde o tempo de Aristóteles, e houve um ressurgimento considerável da literatura sobre este assunto no século XIX. Freud estava familiarizado com esta literatura e devotou quase um quarto de sua “Interpretação dos Sonhos” (1900) a estudá-la. Muitas das idéias que encontraram um lugar dentro da sua própria teoria originaram-se em idéias dos predecessores de Freud81 e, mais uma vez, é na sua síntese convincente que se encontra o mérito de Freud. A grande importância dos sonhos, segundo Freud, devia-se a que eles permitiam o ingresso às importantes áreas reprimidas da mente, às “imperecíveis” regiões primitivas,82 cujos conteúdos não emergiam somente nos sonhos, mas também nos distúrbios neuróticos e psicóticos. A hipótese central de Freud era que não existiam “sonhos sem importância”.83 Os sonhos eram motivados, eram a expressão dos desejos; eles tinham, portanto, um significado que podia ser descoberto. O significado não era, porém, aparente, pois o conteúdo “manifesto” do sonho não revelava explicitamente o conteúdo “latente”. A “censura” do sonho e os processos de “trabalho do sonho”, apresentavam disfarces, condensações e distorções. Os sonhos, portanto, deviam ser interpretados e isto podia ser feito, em parte, fazendo com que o paciente fizesse associações em torno do conteúdo do seu sonho, e em parte traduzindo certos símbolos oníricos comumente usados, apoiando-se em analogias de origem folclórica e mitológica. Os sonhos geralmente tinham várias camadas de significados, sendo que o extrato mais profundo, acreditava Freud, era proveniente das experiências infantis, freqüentemente dos três primeiros anos de vida e possuidor de uma significação sexual.

            Muitas das proposições de Freud em relação aos sonhos parecem conter ao menos um elemento de verdade. O material onírico não é certamente uma mera evocação casual do conteúdo psíquico aleatoriamente trazido à tona por estímulos fisiológicos e somáticos. O conteúdo dos sonhos tem uma tendência psíquica. Calvin Hall, ao analisar uma ampla amostra de sonhos, observou a grande quantidade de sonhos com assuntos pessoais, íntimos, conflituais e emocionais e a ausência de sonhos relacionados a assuntos profissionais e técnicos.84 Jung, também observou que “uma série de sonhos não era uma cadeia sem sentido de acontecimentos isolados e incoerentes mas ... os passos sucessivos de um processo de desenvolvimento planejado e ordenado”.85 Na determinação da amostra, os fatores motivacionais parecem ter uma parte, já que a teoria freudiana requer que os julgamentos sejam feitos a partir do estudo dos sonhos de crianças86 e de povos primitivos.87 Há também provas que sustentam a teoria de Freud do simbolismo dos sonhos,88 e o conceito de um modo de pensar mais primitivo e simbólico. Piaget, por exemplo, observou que os símbolos oníricos estão estritamente relacionados a outras formas de simbolismo, tais como o simbolismo lúdico dos jogos infantis.89 Não é, portanto, extravagante considerar os sonhos como parte de “um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos, cujo estudo pode nos ensinar sobre os estágios iniciais do desenvolvimento da vida mental”.90 Os sonhos, como Freud disse, têm uma significação psicológica, e por sondar as regiões inacessíveis da mente, são uma ajuda valiosa no psicodiagnóstico.

            Em dois pontos a teoria dos sonhos de Freud era inadequada. Ele desconhecia as profundas mudanças psicológicas que acompanham os sonhos, mudanças estas que somente foram descobertas a partir da década de cinqüenta, e não formulou normas satisfatórias para a interpretação do conteúdo dos sonhos. Em 1953, Aserinsky e Kleitman relataram a existência de dois tipos de sono, o sono paradoxal, ou de rápido movimento dos olhos (REM), e o sono ortodoxo.91 O sono REM ocupa até um quarto do tempo de sono dos adultos, em intervalos de aproximadamente 90 minutos, e é durante estas fases que os sonhos acontecem. Muitas mudanças fisiológicas acompanham o sono REM, entre elas mudanças nos ritmos elétricos do cérebro, mudanças no fluxo de sangue em direção aos órgãos genitais, mudanças no tono muscular, nos batimentos cardíacos e na respiração. Estes fenômenos ocorrem não somente no homem, mas também em todas as espécies de mamíferos92 e portanto pressupõe-se que tenham algum valor na evolução. É impossível confirmar que nos animais o sono paradoxal seja acompanhado de sonhos, mas pareceria que os sonhos não têm somente uma função psicológica e de segurança para o sono, como Freud sugeriu, mas pelo menos em parte também biológica.

            As limitações das normas de Freud para a interpretação dos sonhos são um ponto fraco importante das suas teorias. “A acumulação de exemplos similares nos proporciona a certeza necessária”, afirmou Freud.93 Isto, claro, é um sofisma lógico, e não exclui tendências ou idéias preconcebidas sistemáticas; e quando ele afirma que “qualquer coisa num sonho pode significar seu contrário”, 94 qualquer esperança de falsificação parece ter desaparecido, e uma teoria não é científica a menos que esteja aberta à falsificação. Podemos dizer quase com certeza, que Freud apontou para aspectos de profunda importância mas não ofereceu provas científicas convincentes.

            Entretanto, A interpretação dos Sonhos continua sendo uma obra de arte, e, no último capítulo, Freud resumiu pela primeira vez os princípios básicos da teoria psicanalítica: o conceito de realidade psíquica (“uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material”95); a doutrina do inconsciente e de localização psíquica; a idéia de regressão; a distinção entre processos primários e secundários; a natureza da repressão; os aspectos motivacionais da mente e a importância do passado na compreensão do presente. Foi nestas bases que foram erguidos os suplementos teóricos dos restantes quarenta anos da vida de Freud. Os desenvolvimentos ocorreram em três áreas principais: a doutrina dos instintos, a classificação da estrutura psíquica e a elaboração de vários mecanismos de defesa.

            A doutrina freudiana dos instintos passou por uma série de mudanças e foi marcada, até o fim, por uma certa provisoriedade. Em sua autobiografia, Freud mencionou a natureza especulativa e provisória da sua teoria final, na qual ele postulou duas pulsões instintivas, Eros ou libido e “a pulsão de morte”.96 A libido, claro, tinha sido uma característica da psicanálise desde o início. Em seu ensaio sobre a neurose da ansiedade, escrito em 1895,97 Freud indicava que a ansiedade era decorrência de um desvio da libido sexual. Mais tarde, ele definiu a libido como “a energia ... desses instintos que estão relacionados com tudo o que pode ser compreendido sob o termo ‘amor’”.98 O sexo, neste sentido amplo da palavra, estava presente na infância e nos primeiros anos de vida e estava formado de várias partes componentes: oral, anal e genital, as quais, nas perversões, não estavam normalmente misturadas.99 De importância fundamental para o desenvolvimento sexual na teoria freudiana é o “complexo de Édipo” (as relações emocionais da criança com seus pais) e mantinha que este era o “complexo nuclear de toda neurose”.100 Sem dúvida, a ênfase de Freud na sexualidade foi uma contribuição importante e esclarecedora para a psicologia, expondo um tema que a psicologia acadêmica tinha com freqüência ignorado, mas perante as mais recentes evidências101 ela se mostra excessivamente dogmática e rígida em seus preceitos.

            O “instinto de morte” foi acrescentado posteriormente e provocou ainda maiores controvérsias. Ele foi apresentado em “Além do Princípio do Prazer” em 1920 para explicar os fenômenos das “repetições compulsivas” e das neuroses traumáticas. Tratava-se de uma idéia complexa que envolvia uma tendência homeostática à restauração do equilíbrio, em última instância, do equilíbrio da existência inanimada e um elemento agressivo e destrutivo, cujo alvo era o ego (self) mas capaz de ser direcionado para fora.102 Era um conceito confuso, de origem mais romântica do que biológica e rejeitado por muitos, até por vários dos seus seguidores. Contudo, Sulloway o considera uma parte importante do sistema freudiano,103 por introduzir um equilíbrio entre a evolução (progressão) e a involução (regressão) e por dar algum lugar às tendências agressivas do homem. “Realmente parece”, disse Freud, “que é necessário para todos nós destruir alguma coisa ou pessoa a fim de não destruirmos a nós mesmos”.104 Ele não tinha ilusão em relação à bondade da natureza humana. Até o apóstata Jung teve que admitir que “toda aquela efusividade em relação à bondade inata do homem ... foi jogada aos ventos por Freud”.105

            A teoria freudiana dos instintos, reconhecida por ele como sendo meramente experimental, recebeu apoio indireto dos etologistas que trabalhavam com animais. Uma análise das fantasias românticas do homem, na maneira como é projetada em suas criações e formas artísticas, sugerem também que o sexo e a agressão ocupam obsessivamente seus pensamentos. O amor e o ódio, essas “entidades lendárias, grandiosas pelo seu caráter indefinido”106 devem ter certamente uma parte importante em qualquer descrição realística da natureza humana e, ao reconhecer seu papel fundamental, Freud estava somente revivendo antigas intuições de poetas e filósofos gregos.

Nos anos imediatamente posteriores à publicação de Além do Princípio do Prazer, Freud apresentou seu novo modelo estrutural da mente, dividido em ego, id e superego.107 De fato, o modelo não faz mais do que reconhecer que a composição psicológica do homem inclui componentes biológicos, pessoais e sociais. Especial na construção de Freud era a fraqueza do sistema do ego pessoal, o qual representava “o que nós chamamos razão e saúde mental”108 Para Freud, o ego era controlado por “três amos tirânicos ... o mundo externo, o superego e o id110 e era passivo em essência perante estas três forças, sendo que o id representava “o lado obscuro e inacessível da nossa personalidade”,111 os seus anseios biológicos, e o superego, através do poder da consciência, o rigor das pressões mundanas. Na filosofia de Freud, “deixar de superestimar as propriedades da consciência é uma condição indispensável para se ter qualquer insight verdadeiro sobre o desenvolvimento dos eventos psíquicos”.112 Sem dúvida, o desprestígio que Freud infligiu ao ego foi uma correção valiosa nas imagens clássicas dos racionalistas e dos voluntaristas, mas muitos dos seus sucessores psicanalistas acreditam que ele foi longe demais em tornar o ego um objeto passivo das forças inconscientes, uma entidade destruída pelo conflito e principalmente preocupada com a defesa da sua precária condição.113

            O conceito de defesa, e os vários mecanismos envolvidos na defesa do ego, vieram finalmente a desempenhar uma parte fundamental na teoria freudiana. Ele tinha usado a expressão “processos de defesa” num dos seus primeiros escritos,114 abandonando-a depois, para retomá-la novamente como uma designação geral de todas as técnicas que o ego usa nos conflitos capazes de conduzir a uma neurose.115 Este conceito incluía a repressão, mas também a deslocação, a racionalização, a negação, a projeção, a formação de reação e a sublimação. Muitos destes mecanismos, que foram descritos sistematicamente pela sua filha, Anna Freud, em O Ego e os Mecanismos de Defesa (1936), foram confirmados experimentalmente116 e constituem talvez a contribuição mais substancial da psicanálise para a psicologia.

            Entretanto, Freud não limitou a psicanálise à exploração da psique individual; ele aplicou suas descobertas à explicação dos fenômenos sociais, religião, arte, antropologia e dos problemas gerais das sociedades civilizadas.117 Sua abordagem é diametralmente contrária à do seu antecessor Karl Marx. Enquanto que Marx sustentava a idéia que a psique humana refletia e estava determinada pelas pressões sociais, Freud pensava o contrário, que os fenômenos da sociedade eram projeções da psique humana. Ele considerava a religião como expressão das neuroses obsessivas, a arte como a projeção das fantasias e os ritos e práticas do homem primitivo, assim como seus totens e seus tabus, como o resultado das mesmas forças que levavam o homem civilizado às neuroses. Freud não negava a natureza social do homem. Ele não teria concordado com Rieff em que “a psicanálise é a doutrina do indivíduo que se defende da usurpação dos seus direitos”.118 Ao invés disso, ele reconheceu que “na vida psíquica do indivíduo, sempre tem uma outra pessoa envolvida ... a muito precoce psicologia individual já é ao mesmo tempo psicologia social”.119 O que ele duvidava era o primado da sociedade e do assim chamado instinto social, e ele considerava um engano a esperança dos marxistas e dos revolucionários que a natureza humana pudesse ser modificada através das reformas sociais. Ele considerava o entusiasmo revolucionário uma manifestação neurótica; somente a gradativa soberania da razão poderia salvar a civilização.120 Sem dúvida, ao entrar em territórios já ocupados por estudantes de religião, arte, antropologia e sociologia, a psicanálise era às vezes imprudente em seus pronunciamentos e predispunha-se a ser acusada de intromissão em assuntos que não compreendia completamente. A metodologia da psico-história dos fenômenos culturais levanta mais suspeitas metodológicas do que a psicanálise dos indivíduos.121 Contudo, ninguém que tenha vivido e sofrido com os acontecimentos da década de 30, como foi o caso de Freud, pode pôr em dúvida que a vida social e política pode ser dominada por fantasias horríveis e bizarras, por forças demoníacas provenientes das profundezas inconscientes do homem. Freud estava certo, até um certo ponto, ao procurar explanações psicológicas para os fenômenos sociais. O seu problema era essencialmente o de encontrar uma metodologia apropriada, e neste sentido ele foi muito mal sucedido.

            Não há dúvida de que Freud tinha sempre como princípio o método científico, nem de que ele considerava a psicanálise uma metodologia científica. “O trabalho científico”, ele afirmava, “é o único caminho capaz de conduzir-nos ao conhecimento da realidade”,122 e “o intelecto e a mente são objetos da pesquisa científica da mesma maneira que o são as questões não humanas”.123 Embora o psicanalista não pudesse fazer experiências na maneira em que um físico podia,124 a forma em que se chegava às teorias através da observação, tinha no fundo uma lógica similar, tanto na física quanto na psicologia.125 Contudo, apesar destas profissões de fé, o que Freud de fato fez nas suas sessões psicanalíticas não se parecia em nada com o que os cientistas faziam. Como observara Farrel, “A lógica (da psicanálise) é muito diferente daquela de um cientista proeminente”.126 A psicanálise baseia-se na interpretação, na leitura de significados, geralmente de significados ocultos obtidos das frases verbalizadas por aqueles que estão sendo analisados. Implica, como Freud afirmou no início de seu Discurso Introdutório:

“...um intercâmbio de palavras entre o paciente e o médico. O paciente fala, conta das suas experiências passadas e impressões presentes, reclama e expressa seus desejos e emoções. O médico escuta, tenta dirigir o processo de pensamentos do paciente, o faz pensar em certos assuntos, dirige sua atenção em determinadas direções, lhe da explicações e observa as reações de entendimento ou negação invocadas”.127

Este procedimento objetivo duvidoso é claramente uma técnica “geisteswissenchaftlich” e não “naturwissenschaftlich”, e é interessante notar que o exemplo paralelo que Freud ofereceu no discurso citado foi o do trabalho de um historiador que analisava as evidências. Porém, Freud declarou aderir estritamente aos métodos das ciências naturais. O primeiro a apontar para esta anomalia, no freudismo, foi o crítico russo Voloshinov, em 1927.128 Tornou-se uma doutrina central de Lacan e da escola francesa de analistas. O principal erro de Freud foi que, identificando-se equivocadamente com os cientistas naturais, não conseguiu explicar e justificar as técnicas hermenêuticas que de fato ele estava empregando. Como observou o filósofo francês Paul Ricoeur, “a psicanálise nunca foi bem sucedida em explicar como suas asserções eram justificadas, como suas interpretações eram autênticas, como sua teoria pode ser verificada”.129

            Entretanto, Freud era um grande pensador desejoso de pôr disciplina na vastidão de especulações de seus seguidores freqüentemente desequilibrados. A disciplina não fazia parte da psicanálise; ela devia ser imposta, pela autoridade de Freud e pelo seu controle autocrático do movimento. A psicanálise, portanto, logo apresentou a aparência anacrônica de uma “escola”, isolada das disciplinas a ela ligadas, que mantinha a pureza do seu credo de uma maneira autoritária. Ninguém que não tivesse sido alguma vez analisado poderia apreciar sua validade; cada praticante devia se submeter a uma análise de treinamento. A psicanálise era “uma unidade da qual os elementos não podiam ser separados de acordo com a fantasia de cada um”.130 Não são estas as características de um empreendimento científico, e por esta razão a psicanálise, apesar do profundo impacto que provocou, nunca foi inteiramente aceita pela comunidade psicológica.

 



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