Instituto de Psicologia Universidade Federal do Rio Grande do Sul



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V

O conteúdo extremamente rico da psicologia freudiana junto com seus fundamentos metodológicos incertos a conduziu inevitavelmente a variadas conseqüências. A falta de critérios lógicos e rígidos abriu caminho para diversas interpretações e para uma divisão do movimento psicanalítico em várias facções coloridas com concepções filosóficas, pontos de vista sociais e as personalidades dos seus dirigentes, enquanto que o psicólogo interessado na ciência, impressionado embora crítico, observava ambivalente desde ambos os lados.

            As tendências fissíparas do movimento psicanalítico afloraram desde muito cedo. Em 1912 Freud já tinha começado a reunir em torno de si um pequeno grupo de seguidores. Alfred Adler (1870-1937) foi um dos membros fundadores do grupo e o primeiro a sair, em 1911.131 Adler, cujas experiências iniciais foram no campo da medicina social e industrial e sendo ele mesmo um ardente socialista desde o ponto de vista político, não tardou em discordar, por um lado, do que ele considerava uma ênfase excessiva de Freud no sexo e, por outro, da pouca importância dada às posições de dominação nas relações humanas. Desde seu ponto de vista, a pulsão original era o impulso de dominação e a razão primária de toda neurose era o complexo de inferioridade. Embora seu sistema tenha sido chamado de “psicologia individual”, a ênfase principal estava na importância do “interesse pelo social”. “O interesse pelos assuntos sociais é a compensação verdadeira e inevitável de todas as fraquezas naturais do indivíduo”,132 escreveu ele, e a tarefa principal da terapia era reforçar este interesse. Embora Adler tenha trabalhado amplamente no nível do bom senso, e não tenha sido um grande nem profundo pensador, alguns dos seus conceitos penetraram o pensamento psicológico e ajudaram a promover a abordagem social à higiene mental.133

            Dois anos após a deserção de Adler, veio a de C. G. Jung (1875-1961). Jung tornou-se o preferido dos seguidores de Freud, foi eleito o presidente da Associação Psicanalítica Internacional e foi nomeado editor do Jahrbuch. Tendo iniciado sua carreira no hospital psiquiátrico de Bergholzli, próximo de Zurich, sob a direção de E. Bleuler, Jung já tinha realizado importantes trabalhos sobre esquizofrenia e sobre associação de palavras,134 antes de interessar-se por entrar em contato com Freud. A colaboração entre ambos foi íntima durante seis anos,135 mas ideologicamente eles sempre foram pólos opostos. Filho de um pastor suíço, desde cedo Jung foi anti-materialista e acreditava na realidade espiritual. Entre seus primeiros trabalhos a serem publicados, estavam os escritos sobre os limites das ciências exatas e sobre fenômenos ocultos.136 Seu principal interesse era a religião e acreditava que “Deus falava principalmente através dos sonhos e das visões”.137 Assim, enquanto que para Freud o inconsciente era “um depósito de lixo moral”,138 para Jung era fonte de luz espiritual. “O irracional não pode nem deve ser extirpado. Os deuses não podem nem devem morrer”.139 Conforme estes pontos de vista, Jung achava que nos pacientes que se encontravam na segunda metade de suas vidas, os problemas psicológicos eram sempre essencialmente problemas religiosos. Em vista destas diferenças ideológicas, foi talvez surpreendente que a relação entre ambos durasse tanto tempo. Apesar da forte inclinação mística do seu jeito de olhar o mundo, e do seu namoro com a alquimia, os cultos orientais e o ocultismo, Jung fez várias contribuições de valor para a psicologia  sua técnica de associação de palavras, o conceito de “complexo” e sua diferenciação entre extroversão e introversão. E embora sua doutrina dos “arquétipos” (as construções simbólicas ancestrais herdadas sobreviventes dos tempos primitivos) possam ser incertas, os paralelos que ele traçou entre o simbolismo dos sonhos e os símbolos místicos de culturas antigas levantam questões intrigantes.

            Na medida em que a psicanálise expandiu-se pelos países desenvolvidos, suas tendências fissíparas continuaram, e adquiriu em cada terra um disfarce diferente. Embora os seguidores oficiais de Freud aderidos à Associação Psicanalítica Internacional, fundada em 1910, continuassem a crescer em número, e de fato, aumentaram em mais de 10 vezes entre 1925 e 1975, as psicoterapias rivais cresceram ainda mais rapidamente. Este foi o caso dos Estados Unidos, onde inumeráveis conflitos dividiram o movimento psicanalítico,140 alimentados pelo individualismo e anti-autoritarismo típicos do jeito de ser norte-americano. Analistas excêntricos como O. Rank, T. Reik e W. Reich encontraram lá o lugar apropriado para eles. Os terapeutas socialmente orientados tais como Karen Horney, E. Fromm e H.S. Sullivan encontraram um número de seguidores; e muitos americanos optaram pelos sistemas terapêuticos atenuados da “psicologia de aconselhamento” e de “terapia centrada no cliente”, ao invés do credo frio da psicanálise pura. Na Grã Bretanha, país no qual Freud passou o último ano de sua vida, e onde a sua filha Anna continuou seu trabalho, ocorreram cisões similares entre os freudianos ortodoxos, os seguidores de Melanie Klein, que levou o processo analítico até os primeiros meses de vida, a escola de relações objetais de W. R. D. Fairbairn e H. Guntrip, a qual criticou a doutrina dos instintos de Freud, e a escola de Bowlby, com sua ênfase nas relações mãe, filho e as conseqüências da perda da mãe. Também na Grã Bretanha surgiu um número considerável de psicoterapeutas ecléticos que aceitaram algumas mas não todas as descobertas freudianas. Nem na França o movimento psicanalítico foi imune a divisões. J. Lacan, o mais eminente analista francês, foi expulso da Associação Psicanalítica Internacional em 1963 por ter métodos de terapia e pontos de vista heterodoxos demais. Na Europa e também posteriormente nos Estados Unidos, as influências filosóficas derivadas do existencialismo e da fenomenologia começaram se fazer sentir, sob a liderança de homens como K. Jaspers na Alemanha, L. Binswanger e M. Boss na Suíça, R. D. Laing na Grã Bretanha e Rollo May nos Estados Unidos. Reuben Fine, um historiador da psicanálise, não estava exagerando ao relatar a situação quando escreveu sobre seus “conflitos internos incuráveis, tão semelhantes em muitos sentidos aos conflitos que a psicanálise encontra nos seus pacientes”.141

            Estes “inumeráveis conflitos” entre as escolas psicodinâmicas pós-freudianas eram uma conseqüência direta e inevitável de um marco metodológico imperfeito, que as expunha às irrupções da moda ideológica. Em meio a essa grande confusão, Szasz sugeriu que o próprio conceito de doença mental é um mito, e que o modelo médico usado no tratamento de distúrbios no comportamento humano é completamente inadequado. “Os psiquiatras não estão interessados nas doenças mentais e seus tratamentos. Na prática, eles lidam com problemas pessoais, sociais e éticos”.142 Sem dúvida, Szasz apontou para um importante problema, mas o remédio que ele sugere é pior que a doença, pois de fato ele nega as bases biológicas da natureza humana reafirmando a dicotomia fatal corpo-mente. Um ponto que ficou claro durante a era pós-freudiana é que, certamente, corpo e mente não podem ser divorciados, que os processos mentais têm raízes nas funções orgânicas, e que as funções orgânicas, por sua vez, são influenciadas pelos processos mentais. A aproximação entre corpo e mente que Freud introduziu não pode ser revertida. Apesar das fraquezas metodológicas do freudismo, de várias maneiras ele inaugurou uma nova era na psicologia.

            Em grande parte graças ao trabalho de Freud a psicologia não foi mais considerada como limitada ao estudo introspectivo da consciência, como tinha sido vista por muitos psicólogos acadêmicos até o final do século XIX; tornou-se inevitavelmente o estudo da personalidade como um todo, enraizada na biologia, desenvolvendo-se no tempo e modelada pelas relações interpessoais e sociais. A clínica tornou-se, para a pesquisa psicológica, um ponto de encontro tão essencial quanto o laboratório. A barreira existente entre a psicologia e a medicina foi derrubada e isto teve conseqüências a longo termo mais amplas do que a simples incorporação dos conceitos psicanalíticos. Compelida a estudar problemas da vida real, a psicologia estava a caminho de se tornar não somente um estudo acadêmico, mas uma profissão. A interação entre a psicologia e a medicina tornou-se bilateral e variada. Muitas linhas de inquérito tornaram-se igualmente significativas para ambas as disciplinas, como por exemplo, a pesquisa da atividade elétrica do cérebro, o efeito das drogas, a química do cérebro, as conseqüências do estresse e a influência das emoções no funcionamento do corpo. A psicologia também começou a contribuir significativamente com a prática e a pesquisa médica através da sua sofisticação metodológica, suas técnicas de avaliação e suas incursões no campo da medicina comportamental. Uma parceria frutífera surgiu de repente entre o psiquiatra e o psicólogo clínico.

            O impacto da medicina na psicologia geral no primeiro terço do século XX pode ser medido pelo contraste dos textos publicados na virada do século com aqueles publicados uma geração depois. Na Grã Bretanha, nas primeiras edições do “Manual of Psychology” de G. F. Stout, o texto mais amplamente usado (1ª edição em 1898, a 3ª em 1913, a 5ª em 1938), quase não há vestígios de influência médica, além de uma breve referência a cegos, surdo mudos como Laura Bridgman e Helen Keller, e um curto capítulo sobre a patologia da auto-consciência. Contrariamente, a “Social Psychology” de R. H. Thouless (1ª edição em 1925, 2ª edição entitulada “General and Social Psychology” em 1937) inclui extensivas referências à psicologia anormal e à psicanálise”, e a sua abordagem geral foi enfeitada tanto pelos conceitos psicodinâmicos quanto pela psicologia acadêmica mais antiga. Os textos americanos apresentam um desenvolvimento semelhante, como podemos ver comparando trabalhos clássicos como Outline of Psychology de Titchener, publicado pela primeira vez em 1896 e reimpresso muitas vezes durante a primeira década deste século, ou o Psychology (1904) de Angel, ou Psychology: A Study of Mental Life” de Woodworth, o qual, mesmo na primeira edição (1921), já tomava conhecimento da psicanálise e admitia que “embora suas teorias fossem criticáveis, Freud fez importantes contribuções ao estudo da personalidade”.143 Como Woodworth tinha observado alguns anos antes na sua Dynamic Psychology (1918), “as condições mentais anormais oferecem uma grande quantidade de fatos para serem observados, e a necessidade de levar em conta esses fatos em qualquer tratamento da vida mental adequado tem sido uma das forças que levou a psicologia a uma atitude científica”.144

            A primeira década do século XX testemunhou muitas mudanças na psicologia, mas entre as mais importantes esteve a influência de fontes de informação inteiramente novas. Delas, as mais significativas foram talvez as médicas, mas como disse Jung aos seus estudantes da mente humana, não foram as únicas:

“Portanto, o homem que desejar aprender sobre a mente humana não tirará quase nenhum proveito da psicologia experimental. Será muito melhor para ele guardar suas vestes acadêmicas e peregrinar com o coração humano pelo mundo. Lá, nos horrores da prisão, do hospício e do hospital, nas tabernas, nos bordéis e nas casas de jogo, nas recepções dos elegantes, nas reuniões socialistas, igrejas, nos renascimentos religiosos, nos êxtases das seitas, através do ódio e do amor, através da experimentação da paixão em todas suas formas no seu próprio corpo, ele coletaria mais ricos conhecimentos do que os textos poderiam lhe oferecer ... Pois entre o que a ciência chama de psicologia e o que as necessidades práticas da vida diária exigem da ‘psicologia’, há um grande oceano” (145).



            Esta é, claro, uma visão romântica da situação, embora a atitude de rejeição em relação à psicologia experimental observada em Jung seja em parte justificada pelo tipo de experiências que estavam sendo realizadas nos laboratórios alemães. Hoje em dia, suas escrituras seriam menos aplicáveis. A concentração irreal da psicologia no campo da consciência foi derrubada por mais de uma influência. Entre elas, a aproximação entre a psicologia e a medicina foi a que chegou mais longe, seguida em importância pelos desenvolvimentos na psicologia social e nas ciências sociais, ao estudo das quais devemos agora nos dedicar.

 

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