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INSTITUTO VARGAS DE PESQUISA

PROJETO MEMÓRIA DO MOVIMENTO POLÍTICO DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO BRASIL

ENTREVISTADORES: Mônica Bara Maia e Deivison Amaral

ENTREVISTADO: Manuel Augusto Oliveira de Aguiar

LOCAL: Recife/PE

DATA: 15 de Maio de 2009

DURAÇÃO DA ENTREVISTA: 3 horas e 28 minutos

TRANSCRIÇÃO: Danielle Lerro

CONFERÊNCIA: Verônica Barroso

EDIÇÃO: Mônica Maia

REVISÃO: Corina Moreira

Sumário


1 – Apresentação, a cegueira e o início da vida escolar 3

2 – A ida para São Paulo e a experiência no Instituto de Cegos Padre Chico 4

3 – &O retorno para Recife, onde no Colégio Nóbrega cursa dois anos do Clássico e, no Colégio Universitário da Universidade Católica conclui o segundo grau 10
4 – O ingresso na Universidade 11

5 – A formação em Programação 12

6 – A contratação pela Chesf 15

7 – A vinculação ao movimento nacional e as lideranças da época

8 - O AIPD, O I Congresso Brasileiro de Entidades e Pessoas com Deficiência e O surgimento das instituições de pessoas com deficiência: 18

9 – A criação do Meps e a diversidade dentro do movimento 19

10 – A hierarquia entre as deficiências e o fim da Coalizão Nacional 20

11 – O Conselho Estadual de Apoio às Pessoas Portadoras de Deficiência 26

12 – A Associação Pernambucana de Cegos: o CERV, os convênios de empregabilidade, caixas de remédio em braile e o projeto do cão-guia 29

13 – O Censo Estadual sobre Pessoas com Deficiência 33

14 – A preparação de propostas para a Constituinte 35

15 – As especificidades por área de deficiência e o fim da Coalizão 37

16 – Avaliação dos ganhos pós-Constituinte 38

17 – As hierarquias regionais entre as deficiências 39

18 – A criação e atuação da CORDE 40

19 – Avaliação da atuação dos Conselhos 44

20 – A criação do Instituto Aleijadinho 44

21 – Atuação na Superintendência Estadual de Apoio à Pessoa com Deficiência 45

22 – I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com deficiência 49

23 – O folder da Turma Abre Alas 49

24 – O Estatuto da Pessoa com Deficiência e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 52

25 – Avaliação do movimento e desafios futuros 53


1 – Apresentação, a cegueira e o início da vida escolar
Deivison Amaral: Eu queria começar perguntando seu nome, idade e local de nascimento.

Manuel Aguiar: Manuel Augusto Oliveira de Aguiar, 60 anos, –- conhecido como Manuel Aguiar, brigo pelo U do “Manuel”. Natural de Surubim, uma cidade do interior de Pernambuco, na divisa da Zona da Mata Norte com o Agreste Setentrional.
Sou o segundo, de uma família de 10 filhos, dos quais os dois mais velhos apresentaram, a partir dos dois anos de idade, uma deficiência visual que foi se agravando a partir do nosso crescimento. Roberto, que era meu irmão mais velho, ficou cego aos 15 para 16 anos, e eu fiquei cego aos nove, dez anos de idade, quando parei de estudar. Tive dos meus pais uma postura muito diferenciada para aquele momento, apesar de todo o conjunto de constrangimentos que isso trazia para meu pai, como um Juiz de Direito, um típico patriarca, que esperava a chegada do primogênito, o varão da família, ter os dois primeiros filhos, homens, cegos, numa época em que isso era muito forte. Infelizmente, meu pai não conseguiu ver o sucesso dos filhos. Roberto tornou-se professor universitário, Doutor pela London School, e faleceu há cinco anos por um descuido com sua própria saúde.
Deivison Amaral: Qual o nome de seus pais?
Manuel Aguiar: José Albino de Aguiar e Helena Oliveira de Aguiar.
Mas, deixa eu complementar o meu caminhar de estudante no interior... Sendo meu pai Juiz de Direito da cidade, logo, não tinha diretor de escola que dissesse ao Juiz de Direito que não aceitava o filho dele na escola! Contudo, mesmo assim, eu passei por um período muito crítico, porque enquanto Roberto conseguiu ler até os 15, 16 anos –- e ele era uma pessoa muito aplicada –-, eu já não consegui ler mais a partir dos nove. Eu tive, até os treze anos, uma interrupção nos estudos. Papai conseguiu uma professora itinerante, Profa, Maria de Lurdes, que vinha duas vezes por semana à Vitória de Santo Antão, onde morávamos na época, para me ensinar o braile, e ela conseguiu alguns livros impressos neste sistema. Todavia, eram muito poucos e não correspondiam ao adotado pelo colégio. Por conseguinte, eu era um estudante ouvinte e muito pouco cobrado. Para os professores, principalmente os do interior, ter em sala de aula um aluno cego era inusitado e muito complicado para eles. Imaginem para mim que sofria perdas e constrangimentos por todo o lado. Os professores enfatizavam o meu esforço, a minha condição de cego. Passei, então, a ser mais um estimulador para ‘esporro’ da turma do que mesmo um cara que tinha que aprender. As minhas provas eram assim: “— Quem descobriu o Brasil? — Eu acho que foi Pedro...” “— 9,5. Pronto. Muito bem!” E aí: “— Estão vendo? Vejam que pessoa esforçada.” Por isso que eu disse: eu era mais um estimulador do ‘esporro’ da turma.
Posteriormente, em conversa com meu pai, já aos meus 13 para 14 anos, eu disse: — Pai, se eu ficar aqui, vou ser um Doutor de canudo na mão, mas analfabeto.” Ele: — Já percebi isso. E estou a procura de uma alternativa.” E lá fui eu embora estudar no Instituto Padre Chico1, em São Paulo, com 14 para 15 anos.
Nesse intervalo, dos 9 aos 14 anos, duas coisas me marcarão para sempre e me fizeram compreender minha condição de cego e revelaram as contradições da sociedade. Fatos que lá adiante vão ser determinantes em meu comportamento e no caminho que virei a trilhar.
Fui apresentado ao braile. Aí, foi a primeira ou talvez, a mais forte porrada do momento. Quando declaram não transparente e nem muito conscientemente: “Tu agora és cego”. Esta é a ratificação, não tem que viver mais com muita esperança de voltar a enxergar. Fora as outras perdas que você vai tendo, de amigos, a casa era cheia, eu batia bola — eu tinha o apelido, na época, de Didi, porque eu era um jogador razoável. Quando perdi a visão, sumiu. Sumiram todos. Por quê? Porque eu passei a ser o coitadinho do ceguinho que não tinha mais como conviver, interagir com aquele grupo.
A convivência no campo — Meu pai tinha uma pequena fazenda e eu passava o dia por lá. Para um guri de 12 anos, a convivência com a rotina das tarefas — cortar capim na forrageira, preparar a ração dos animais, cuidar e, é claro, montar a cavalo —, encantavam e minimizavam a dor das perdas. Aprendi novas referências para conhecer e identificar pessoas; dos animais, seus mugidos latidos e pios, e coisas. Ouvir o ruído do silêncio e diferenciar o barulho. Passei a ter um domínio espacial e equilíbrio muito legal. E, no sopapo, do ensaio de acertos e erros, aprendia a reconhecer e conviver com minha nova realidade. Esta liberdade e o isolamento que o campo me garantia, ouviram meu choro e me ensopavam de tristezas e alegrias, dúvidas e esperanças do meu futuro. Refazia meu tudo. Também, conviver com o trabalhador da fazenda me revelou muitas coisas. Sua solidariedade, sua crença, sua esperança que tudo, tanto para mim como para ele iria melhorar.

— Fé em Deus! Creia Manezinho, que tudo vai da certo.


Recordo-me de um fato que muito me marcou nessa época: uma mulher de um vaqueiro da fazenda, deu a luz a quadrigêmeas: as quatro Marias. Homenagem a Mãe de Jesus. Isso, creio, ocorreu em 1962. O que causou uma mobilização de todos com aquelas pobres menininhas. Mas, que infelizmente, morrera todas, sequencialmente, por causa da pobreza de seus pais, o que muito me incomodou.
Eu, o filho do Juiz de Direito, autoridade maior da cidade, classe média, convivia na fazenda com o cara que plantava o sustento dos animais e dele. Que tirava o leite e cortava capim, com o cara que roçava a roça, como vocês dizem, que papai era o dono. Contudo, as Marias não conseguiram se criar. E, não sei bem porque, eu comecei a me ligar nisso, ter essa preocupação. Estas contradições entre minha realidade, a realidade de quem trabalha e mora no campo e os que viviam na cidade. Isso, que me marcava e me marcou para sempre. Fatos que só iria compreender suas razões e sentir seus reflexos lá na frente, na minha vida de adulto.
E, fui-me embora, eu, para São Paulo, com essa aprendizagem, terminar o ginásio no Instituto Padre Chico.

2 – A ida para São Paulo e a experiência no Instituto de Cegos Padre Chico


Manuel Aguiar: Entre o Benjamin Constant [no Rio de Janeiro] e o Instituto Padre Chico, em São Paulo, o último foi o preferido por meu pai. O Padre Chico por uma razão simples: não queria que eu ficasse só. Ele tinha uma irmã. Minha tia Cordélia, que trabalhava em Recife, num instituto de previdência — acho que o IAPC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários). Dita a razão e feita a justificativa junto ao Instituto, que concordou com a transferência dela para São Paulo, e lá foi ela transferida para me acompanhar. Foi transferida para que não ficasse isolado em São Paulo, uma atitude natural de um pai preocupado com seu filho, que, pela primeira vez se separava da família e, naquela condição de cego...
Uma das grandes experiências da minha vida foi São Paulo. Primeiro porque cortei o cordão umbilical. Chorava feito um bode embarcado. Eu nunca tinha me separado da família e foi assim: tem que ser, porque é o teu futuro cara, tu tens que estudar. Então, São Paulo, olha eu aqui. Aqui é o lugar que cego pode aprender. E comecei a perceber, comecei a entender, como a minha vida seria uma vida muito difícil.
O colégio era maravilhoso, em termos de recursos, muito bom: professores sabiam braile, livros em braile, não na profusão que a gente precisava. Mas havia uma biblioteca. Todo um espaço para a pessoa cega, ensino de música, coral, artes manuais, oficina onde se aprendia a empalhar cadeiras, fazer escovas diversas, etc. 95% dos alunos eram cegos. Face à minha pouca escolaridade, tive que estudar muito para aceitar o desafio de cursar o segundo ano. Desafio por quê? Após a avaliação de conhecimento que fiz, meu pai foi orientado para que eu repetisse o primeiro ano. “Não papai, estou no segundo e vou cursar o segundo ano ginasial.” “Você quem sabe, filho, e é o responsável para que isto aconteça.” E assim foi o que ocorreu.
Mônica Maia: Em que ano você chegou ao Padre Chico?
Manuel Aguiar: Em 1964, no dia 10 de abril. Íamos de carro e deveríamos sair de Vitória de Santo Antão, meu pai, mamãe e tia Cordélia no dia 31 de março. Mas, às 4:30 horas da manhã, palmas no portão de casa. Estranho! E lá foi papai, e eu o acompanhando, abrir a porta da casa. Surpresa! Quatro ou cinco militares e um deles, um tenente, que se dirigindo a meu pai, trocaram algumas palavras. O que percebi é que eles iam tomar conta da cidade.
A viagem foi suspensa, só acontecendo cinco dias depois, e nós levamos cinco dias para chegar a São Paulo.
Os estudos, os amigos cegos, a aprendizagem naquele mundo, as discordâncias e o Grêmio. Eu ainda estava numa posição dúbia: sou cego, não sou cego; sou cego, não sou cego. Mas eu estava no mundo dos cegos e comecei a perceber que algumas coisas estavam erradas, equivocadas. Pelo menos para a minha verdade.

A minha experiência de cego:


Havia uma rotina e convívios estabelecidos e exigidos pela organização no Colégio. A partilha de tarefas e responsabilidades. Uma coisa muito boa. Tinha que lavar as galerias, lavar os sanitários, lavar e encerar a sala de estudos coletiva e os dormitórios e toda semana tinha um grupo responsável para realizar estes serviços. Regime de rodízio. Então, algumas pessoas diziam: “está explorando”; davas alguma discussão. Mas eu e uma grande parcela dos alunos, achávamos que estávamos compartilhando aquele espaço, era diferente. E, também, era nossa contrapartida em razão do colégio ser gratuito.
Também, era de nossa responsabilidade o cuidar de nossos pertences pessoais (roupas, sapatos e materiais de uso individual).

Era um colégio Católico e dirigido por freiras. De disciplina rígida e muito exigente com o ensino-aprendizagem de toda a turma. Dos pequenos, médios e maiores. Era esta a divisão dos alunos. Havia um bom e constante acompanhamento do desempenho e resultados de nossas obrigações, o que nos impunha uma aplicação constante em todas as tarefas escolares e extraescolares.


Início de uma futura vida de militância: junto com alguns colegas, iniciamos uma discussão sobre as atividades e objetivos do nosso Grêmio Estudantil. Resultado: assumimos a direção do Grêmio. Conseguimos desbancar a Diretoria anterior, porque o Grêmio tinha uma visão muito e exclusivamente literária, de discussão de textos, de apresentações musicais e jograis e achávamos que a gente podia fazer mais, podia discutir a forma de reabilitação dos cegos, a forma de aprendizagem, de organização e participação no nosso dia a dia. Conseguimos com que o grêmio apanhasse outra estrutura de ver e encaminhar as coisas. Era meio dúbia: assistencialista e autodeterminação. Uma visão pueril e ainda utópica.
Filiei-me à JEC (Juventude Estudantil Católica) e comecei a ter uma militância mais direcionada aos anseios de meu mundo no Padre Chico e de lá de fora. Fiquei mais atento aos fatos que aconteciam e porque aconteciam.
Ficava com o ouvido meio do lado de fora, em um radinho portátil. Estávamos em 1964, todo aquele contexto político, ouvindo: “A polícia bateu e prendeu não sei quem, nos estudantes que estavam pedindo isso e aquilo. Mais por que bater e prender?”
Bem, começava uma militância que passava a observar que havia muita superproteção em relação a nós. Não sabia bem o que era isso, mas eu via, por exemplo, no Dia das Crianças. O que era o Dia das Crianças? Era uma festinha no auditório cantando “criança feliz, feliz a cantar”, um professor ou uma professora lendo historinhas e depois um lanchinho e distribuição de brinquedos, mas todo mundo sentado no lugar. Eu parava e pensava: “Eu fui criança de outro jeito.” Aí convenci uma pessoa ligada à Diretoria, a Irmã Luiza, que me salvou da expulsão inclusive, que conversava comigo e ficava meio pra lá, meio pra cá: “Manuel, será que isso vai dar certo?” Então na próxima festa do Dia das Crianças, um desafio: a gente botou a meninada pra subir em pau de sebo, para correr dentro do saco, para correr com ovo na colher.
Caiu, tropicou, mas eu ficava lá do outro lado, batendo palma e a meninada vinha correndo. Claro que eles se dirigiam a um ponto único, afunilavam e chegavam, 15 em cima de mim. Uma festa!
Deivison Amaral: Eles se divertiram.
Manuel Aguiar: Eu passei a ser o tio querido, o que causou incômodo, evidentemente. Bom, também, é que ganhei uma afilhada, Valquíria, que perdi o contato com meu retorno para Recife. Mas este fato trousse uma reflexão para todos. Para algumas pessoas da direção, professores e alunos menos conservadores, o que deu margem para a introdução de mudanças nas regras daquele regime conservador.
Deivison Amaral: Manuel, você disse que você e seu irmão mais velho são deficientes visuais. Qual o motivo da deficiência?
Manuel Aguiar: É genética, uma síndrome que ainda não tem um diagnóstico muito seguro. Não está muito firmado sobre a configuração dessa síndrome como provocadora da cegueira na gente, há dúvidas. Não sei te dizer nem qual é o nome agora, não sei se é Marfan2. Na realidade, ela vai corrompendo o globo ocular: Tivemos catarata congênita, descolamento de retina, nós dois, o que levou à cegueira. Embora sejam dez filhos, três ficaram cegos. Minha penúltima irmã ficou cega aos 30 anos, ou seja, há uma diferença na terapia aplicada, porque na época, lá atrás, em 1960, era um tipo de informação, era outra realidade. Nós chegamos a ir para a Europa. Meu pai fez o que pôde e o que não pôde e, em 1967, nos levou para a Europa, Barcelona, Dr. Barraquer, na busca de um diagnóstico definitivo, que terminou sendo igual ao que ele já tinha aqui.
Deivison Amaral: Eu queria perguntar o tipo de formação que você teve, no Padre Chico, para facilitar a sua vivência como cego.
Manuel Aguiar: Muitas. Veja, o colégio ofertava diversos recursos. Na época, dentro de uma visão muito assistencialista, muito caritativa, cristã, mas você tinha uma aprendizagem no dia-a-dia, uma formação educacional de nível excelente que muito concorreu para nossa habilitação, reabilitação.
Havia um processo de reabilitação precário, ainda tradicional, mas havia algumas coisas muito interessantes: educação física. Fazíamos educação física duas vezes por semana. Isso era uma coisa que me preocupou.
Tinha sido proibido de fazer Educação Física. Cego era considerado incapaz para este tipo de atividade e, lamentavelmente, até hoje estamos impedidos nas escolas, embora, pratiquemos várias modalidades esportivas. E olha lá as inseguranças: como íamos ver os exercícios que o professor mandasse fazer? Como íamos marchar sem perder o prumo?
— Marchar, gritava o professor Jadi! E como é que cego ia marchar sem se perder um dos outros? Seria um tal de bate um no outro... Simples: era uma fila indiana, um com a mão no ombro do outro para ninguém se perder, claro! E alguém com baixa visão ou professor Jadi lá na frente. E o professor Jadi: “Vamos lá, marchem seus preguiçosos!”
E para aprender os exercícios, ou professor ou alguém que já os sabia, vinha ensinar aos aprendizes. E lá ia eu! Mas, no inverno, um problema para o nordestino: imagina fazer ginástica às seis da manhã, em junho e agosto, em São Paulo!
Solução: ficar no fim da fila e, quando passar na porta do banheiro, pular para dentro. Fugir daquele frio danado! Consequência disto e outros questionamentos: ganhei do Jadi o apelido de ‘Miguel Arraes’.
Praticávamos também natação, futebol e outros esportes que não me recordo agora. As atividades da Vida Diária (AVD), que hoje tem outro nome, Atividade para a Vida Autônoma (AVA), aprendíamos no cotidiano. A gente aprendia mais no sopapo do que na orientação. De repente passava alguém e dizia: “Seu cabelo está despenteado, moleque. Penteia o cabelo.” “Ajeita a camisa”. “Os cadarços dos sapatos estão desatados”. “Não sabe dar o laço?” Então, vamos aprender.
Já a tão desejada locomoção, o sonho da independência, do ir e vir, da autonomia, liberdade, esta ainda só existia na Fundação para o Livro do Cego no Brasil (FLCB), hoje, Fundação Dorina Nowill. Quem andava sozinho, tinha aprendido no sopapo. Causava inveja, pelo menos para mim. E Dona Cordélia: “Nem pense nisto!” Mas, em geral, eram alunos que perderam o contato com suas famílias e, quase sempre, maiores de idade, que tinham que ir à luta.
Foi assim que nós tomamos consciência de nossa realidade de cegos. O Padre Chico nos enriquecia com todas essas experiências, mas eu queria fazer locomoção, eu queria ir para o mundo. Aí comecei um processo esquisitíssimo para mim.
Então, vamos em busca da liberdade do ir e vir. E me escrevi na Fundação, que era dirigida já na época pela Dorina Nowill. O que aconteceu? Eu ia toda semana para aquela Fundação para um processo de avaliação terapêutica psicológica, para depois poder aprender a usar a bengala. Comecei a questionar isso. O doutor Adolfo era meu, não sei se era psicólogo, não me lembro mais, só sei que eu sentava naquela salinha e olhava para a cara daquele homem e ficava parado. Conversa, conversa, conversa. No primeiro dia eu conversei, depois de uns três meses virei pra ele e disse: “Quando é que vou aprender a andar de bengala?” E ele: “O senhor tem que passar por um processo psicológico de avaliação.” Disse: “Não preciso disso não, eu quero ir para a rua.” Na outra sessão eu entrei calado e saí mudo.
Mônica Maia: Todos os alunos do Padre Chico passavam por esse processo na Fundação do Livro para o Cego?
Manuel Aguiar: Não, nem todos. Alguns ousavam sair sozinhos.
Um belo, dia falei com a Irmã Luiza e disse que achava que o colégio tinha que disponibilizar um curso de locomoção, porque eu achava o processo da Fundação muito estereotipado. Na Fundação, a gente já entrava com algum trauma –- e quem não tem? Só eu, porque era cego? Eu larguei a Fundação, sobre os protestos de minha dedicada Tia Cordélia.
Claro que no colégio, depois de uma grande demanda de um grupo de alunos e a interveniência do grêmio, eis que apareceu uma professora de locomoção, Dona Sarah. Era uma mulher preparada, gaúcha. Sabia e dominava o que fazia. E, nada daquela história de psicólogo... Vamos à prática. Pegue a bengala e vamos lá!
Mônica Maia: Sarah Couto César?
Manuel Aguiar: Não. Não sei. Sei que ela era gaúcha e alta, como toda gaúcha, ou quase todas... Apresentei-me. Ela disse: “O senhor quer aprender por quê?” Eu tinha meus 16 anos e disse: “Professora Sarah, porque não quero mais andar agarrado na saia de minha tia. Quero ir para os meus cantos, passear, namorar, me divertir... Ela riu e, no segundo dia, já me entregou uma bengala, disse: “Você vai começar a andar aqui dentro, no colégio.”
Bom, em trinta dias eu fiz o curso de locomoção, trinta dias úteis, e ela dizia que eu era muito ousado. Todas as tarefas que me foram dadas as cumpri com grande ansiedade.
Mas houve uma coisa que me incomodou bastante. Tive que usar uns óculos de soldador! Sabe por quê? Porque como eu tinha uma visão de claridade, de luz, tinha que usar aqueles óculos, para não ver nada, aquela coisa feiíssima, e tinha que sair com aquilo na rua. Se cego já chama a atenção, imagina com aquilo!

Mas eu tinha um objetivo e disse: “Dane-se tudo, esses óculos são lindos.” Até que ela disse: “Pode tirar os óculos. O senhor está autorizado a sair sozinho.” Pôxa! Foi maravilhoso! Aí fui para o mundo...


Deivison Amaral: Ainda no Padre Chico, você disse que se filiou à Juventude Estudantil Católica, a JEC, e atuou no grêmio. Vocês tiveram uma atuação política, pensando no quadro nacional político da época, ou só voltado para as questões da pessoa com deficiência?
Manuel Aguiar: Só focado no meu dia a dia, só focado naquele mundo em que eu vivia. Em mudar a cabeça. Mudar o modo de ver e a compreensão da condição de cego e, por consequência, algumas rotinas do Colégio. E nesse caminho, andei ousando em demasia...
Não sei se você conhece, mas o Seminário Central de São Paulo é colado com o Instituto de Cegos Padre Chico, na Avenida Ipiranga. O que facilitou o meu envolvimento com a turma da JEC.
Algumas ousadas intromissões e suas consequências:
Um belo dia, fui chamado para ir à diretoria. Qual a razão? Porque andei fazendo uns discursos "subversivos"! "Subversivo", não-político, para o caráter do momento, mas de contestação e reivindicatório, o que resultou em uma grande repreensão da Diretoria.
Contestei: rezar-se de mais neste Colégio. “Acho bom rezar, o colégio é católico, tudo legal. Agora, tu tens que fazer com que eu vá para a reza por espontaneidade, não por obrigação. Postura que causou surpresa, visto que, partia de um aluno que mantinha uma participativa e costumeira atitude (religiosa), dita por alguns, de beata.
Não sei se só por nosso barulho, mas creio que, também, por consequência dele, caiu o Capelão ortodoxo.
Outro lance interessante foi a chegada do padre Orliens, não me lembro bem o nome, um padre jovem, de idéias novas e com empatia com as nossas causas. Colei nesse cara. Achava as idéias dele maravilhosas.
Deivison Amaral: Era um padre francês?
Manuel Aguiar: Não, acho que era mineiro mesmo.
Deivison Amaral: Pelo nome eu achei que fosse.
Manuel Aguiar: Ele virou capelão do colégio e, penso, não durou seis meses. Primeiro, porque ele começou assim: “Vamos confessar, quem quer se confessar?” E ia pelo pátio, andando e confessando; acabou com a obrigatoriedade de ter que rezar ali e acolá; fazia uma missa participativa.
Cheguei, com mais alguns colegas, para Orliens e dissemos: “Padre, gostaríamos de criar um momento de discussão coletiva aqui. Vamos fazer? Pensamos no seguinte...
“Havia uma tensão muito forte entre a gente, uma tensão sexual, já que era um colégio misto, embora rapazes e moças ficassem definitivamente separados, restritos a contatos eventuais; Alunos e alunas não se encontravam a não ser na sala de aula. Quando, no intervalo, se levantavam para bater um papo e tocavam na mão da menina, aparecia alguém na porta: “Volte para o seu lugar”. Isso criava uma tensão muito forte, todo mundo adolescente, os hormônios lá por cima...
Depois de uma conversa com o pessoal do grêmio, a Irmã Luiza, nossa porta-voz e Fada Madrinha, e com o padre Orliens, a gente criou um momento, aos domingos um fórum de discussão. Ia lá uma pessoa falar sobre comportamento, por exemplo. Fazia 30 minutos de papo e, depois, dava cinco questões que a gente discutiria em grupos mistos, na área da piscina do colégio. Eram uma piscina e um auditório belíssimos. O grupo respondia às questões e apresentava as respostas para a plenária.
Estava indo maravilhosamente bem, até que, um belo dia, um casal mais apaixonado se amou onde não deviam. Pronto. Uma confusão: “Está vendo o que o senhor e seu grupo inventaram?”. O Padre foi defender a causa. Dançou o Padre... Talvez tenha sido a gota d'água que faltava para ele ser convidado a ir para outras paragens... Acabaram-se os encontros dominicais de estudos, porque não tem nada que fazer rapaz se encontrar com moças, pois só dá no que deu...
Minha participação e contestação no Coral do Colégio:
Era lindo o coral do colégio. Mas, não sei por que motivo apareceu uma ordem maluca: “Todo mundo do ginásio agora vai ser cantor do coral. ” Imagine eu cantando! Eu desafinava o coral.

Discordamos. Pedimos para que os participantes fossem apenas aqueles que tivessem interesse e boa voz. Não. É para que os que não participem do Coral não fiquem a toa; todos terão que participar. Resultado: no dia da aula, lá estava eu sacaneando com os companheiros. Todo mundo cego ou quase cego. A Professora Vitória era quase cega. E comecei a jogar bolinhas de papel nas pessoas. Tinha um amigo meu, Manuel Vieira, de quem gostava muito, estava lá na frente. Ele tinha uma voz legal e grande musicalidade. Era barítono, era um dos que sustentavam o coral. Então, joguei-lhe um livro em braile. Vocês conhecem um livro em braile? Só que a minha fada madrinha, Irmã Luiza, era quem estava de olheira... Havia três pessoas chamadas Manuel, ela vai para frente e diz: “Seu Manuel, o senhor não tem vergonha?” Logo o senhor! E eu virava para o outro Manuel. E ela: “Seu cínico!” Pensei: “Pôxa! Me dei mal”. Chamou-me de novo a Diretoria, quase fui suspenso, mas ela me sustentou. Disse, então, para a diretoria: “Isso aqui é um céu, mas vocês precisam preparar a gente para viver do outro lado. O mundo é lá fora e a realidade é outra.”


A minha experiência em São Paulo foi uma experiência muito rica. Foi no Pe. Chico onde ganhei a minha única medalha. Mamãe dizia: “Veja o seu irmão Roberto, ele tem várias medalha. Seu irmão nunca conseguiu conhecer um quarto lugar.” Aí Eu dizia: “Mamãe, conte de trás para frente que você me acha entre os primeiros...” E a única medalha que eu tenho, com muito orgulho, é uma Medalha de Honra ao Mérito por Companheirismo.
Eu queria ficar em São Paulo, mas quem mandava era o velho e ele disse: “Que é isso, cara, vem embora para Recife.” Voltei para Recife onde cursei concluí o curso médio e o terceiro grau.

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