Integración: Cooperación y Conflictos III seminário internacional dos espaços de fronteira



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III SEMINARIO INTERNACIONAL DE LOS ESPACIOS DE FRONTERA (III GEOFRONTERA)

Integración: Cooperación y Conflictos

III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DOS ESPAÇOS DE FRONTEIRA (III GEOFRONTEIRA)

Integração: Cooperação e Conflito


EJE TEMATICO A LA QUE SE PRESENTA EL TRABAJO

EIXO TEMÁTICO DA INSCRIÇÃO DO TRABALHO

Eixo temático 4: Fronteiras, Integração e Estado Nacional

O significado da noção de sertão/fronteira na literatura de Alfredo D’Escragnolle Taunay e Euclides da Cunha e seu impacto no pensamento social brasileiro do século XX: o caso de Mato Grosso

Carlos Martins Junior marinscjr@gmail.com1

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Antonio Firmino de Oliveira Neto firmino.neto@ufms.br2

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Julio - 2015

RESUMO

O objetivo deste artigo é analisar, tendo como fonte as obras literárias A Retirada da Laguna, de Alfredo D´Escragnolle Taunay, e Os Sertões, de Euclides da Cunha, o significado da noção de sertão elaborada por esses dois autores no final do século XIX e início do século XX, bem como o impacto que suas concepções causaram no pensamento social brasileiro. Partindo do pressuposto de que, ao longo do século XX, sobretudo o pensamento de Euclides da Cunha sobre os sertões passou a orientar inúmeros projetos de colonização do interior do país, o artigo propõe ainda uma análise do processo de inserção dos “sertões” de Mato Grosso nos quadros do capitalismo internacional, bem como a consolidação política e econômica da região mato-grossense como “fronteira da nação”. O ponto de chegada consiste em apontar que, longe de constituir uma realidade empírica objetivamente identificável, a fronteira que emerge das narrativas produzidas pelo pensamento social brasileiro a partir de Taunay e Euclides da Cunha é, sobretudo, simbólica.



Palavras chave: sertão; fronteira, Mato Grosso; literatura, pensamento social
1 – Apresentação
Na composição imaginária da identidade brasileira, a extensão territorial do país tem sido um dos elementos fundamentais a alimentar o orgulho nacional. Própria de países de formação colonial, no Brasil essa visão territorialista, na qual a “argumentação geográfica ganha um peso significativo na justificativa da identidade e da unidade política”, acabou por identificar o país com seu território muito mais do que defini-lo como uma nação (MORAES, 2011: 83).

A importância da integridade territorial foi tema intensamente enfatizado, desde que no Brasil começou-se a elaborar uma história nacional pelos sócios do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Fundada em 1838, a instituição incumbiu-se de formular um projeto nacional pautado, sobretudo, na idéia da “edificação material do país”, cujo cerne residia na “incorporação, pelo processo de expansão territorial não interrompido com a emancipação política, das partes do território que ainda não haviam sido integrados pela economia nacional (MORAES, 2011: 87-88).

Apoiada em modelos descritivos do cenário geográfico, social e racial, os quais seriam fecundados pelas teorias cientificistas em voga entre a intelectualidade brasileira da chamada “geração de 1870”, no final do século XIX a visão do “país a construir” já estava plenamente difundida nas narrativas sobre a nação, presentes tanto nas ideologias produzidas por agentes vinculados ao Estado, quanto em produtos culturais mais intelectualizados como os programas de ensino do Colégio Pedro II, as pesquisas e ensaios acadêmicos e, especialmente, a literatura. Nesse processo, cuja gênese coincide com o período romântico da ficção brasileira, nas narrativas que se dispuseram a pensar as origens e a perenidade da nacionalidade estendida horizontalmente à totalidade territorial do país, a noção de fronteira, inicialmente figurada como “sertão”, ocupou lugar central.

Fiel às lições do Romantismo, que associa história e nação na busca da singularidade cultural de um povo, a ficção romântica brasileira, mais que criar tipos, personagens e enredos, fixou-se, para inventar essa singularidade, nos conjuntos regionais da natureza do país. (GINSBURG, 1985). Ansiosa por apalpar toda a topografia brasileira, essa narrativa ficcional revestiu-se, como observou Flora Sussekind, de uma poderosa “imaginação geográfica” que a levava a cumprir a exigência de um melhor conhecimento do território e que, na falta de um "sentimento espontâneo de nacionalidade, fortalecia cartográfica, literária e paisagisticamente a idéia de uma comunidade imaginária delimitada nacionalmente" (SUSSEKIND, 1994: 457). Explicitamente, esse impulso de revelar uma essência nacional significou, no plano literário, a tomada de consciência do espaço geográfico do país, que procurou realizar o registro da maior parte das características regionais de todos os quadrantes (CÂNDIDO, 1993: 102).

Nos quadros do romantismo nacional o “sertão” ensejou, conforme Fernando Cristóvão, o surgimento de uma literatura própria, originária da confluência de três elementos essenciais: 1º) a descrição das “terras brasílicas em oposição à terra lusitana”, o que conferiu um sentido nacional à literatura sertanista; 2º) a oposição entre o mundo rural e o mundo urbano; 3º) a oposição entre tempo passado e o tempo presente. Os dois últimos elementos aludem à dicotomia litoral–interior, que marcou profundamente as representações do território brasileiro (CRISTÓVÃO, 1994: 43). A partir daí, enquanto referência espacial que poderia estar presente em qualquer região, o “sertão” assumiria, simultaneamente, uma conotação positiva, ao emergir como espaço privilegiado em que a natureza e as verdadeiras tradições ainda sobreviviam intactas, e outra negativa, ao aparecer como lugar do rural e do passado, onde a civilização não havia penetrado, portanto, associado à barbárie e ao atraso. Se o primeiro aspecto está presente em autores que celebraram o “sertão” como lugar do encontro dos homens com a natureza e onde a civilização surgia como ameaça de destruição da harmonia rural, o romantismo também abarcou outra corrente cujos autores, enfatizando a dicotomia litoral-interior, inauguraram uma nova fase da literatura sertanista do século XIX, na qual a "tensão dramática substituiria a quietude contemplativa" ou o "encanto paradisíaco" do sertão (CRISTÓVÃO, 1994: 44).

É nessa versão mais densa do regionalismo que se insere a literatura de Alfredo D´Escragnolle Taunay, profundamente marcada pela participação desse autor no front mato-grossense da guerra com o Paraguai, e de Euclides da Cunha que, em 1897, viveu a experiência da Guerra de Canudos (1896-1897) no interior da Bahia, como correspondente do jornal O Estado de São Paulo. Entre seus escritos, tem particular interesse aqui A Retirada da Laguna e Os Sertões, respectivamente, livros nos quais, em razão de suas experiências no interior do país em momentos de extrema tensão, esses autores resignificaram os “sertões” e seus habitantes, articulando-os com preocupações relacionadas à construção e à totalização territorial e identitária da nação.

A opção por utilizar A Retirada da Laguna e Os Sertões como fontes de análise se justifica na medida em que, embora frutos de uma tradição intelectual para a qual o sertão constituía-se na fronteira primordial do país, cuja conquista seria capaz de elaborar a unidade territorial da qual dependia a nação, Taunay e Euclides da Cunha inovaram ao resignificar o sertão como fronteira econômica a ser expandida, a fim de que o Brasil pudesse cumprir seu destino de grande potência econômica mundial.

Feitas essas observações, o objetivo deste artigo é, analisar, com base nas duas obras citadas, o significado da noção de sertão elaborada por Alfredo D´Escragnolle Taunay e Euclides da Cunha, bem como o impacto que as concepções desses autores causaram no pensamento social brasileiro do século XX. Partindo do pressuposto de que, ao longo do século XX, sobretudo o pensamento de Euclides da Cunha sobre os sertões passou a orientar inúmeros projetos de colonização do interior do país, o artigo propõe ainda uma análise do processo de inserção dos “sertões” de Mato Grosso nos quadros do capitalismo internacional, bem como sua consolidação política e econômica como “fronteira da nação”. O ponto de chegada consiste em apontar que, longe de constituir uma realidade empírica objetivamente identificável, a fronteira que emerge das narrativas produzidas pelo pensamento social brasileiro a partir de Taunay e Euclides da Cunha é, sobretudo, simbólica.


2 – O sertão/fronteira na narrativa literária do Visconde de Taunay e Euclides da Cunha
Publicado no Brasil em 18743, A Retirada da Laguna é considerado um dos livros mais significativos do fim do Romantismo, podendo ser comparado a Os Sertões de Euclides da Cunha. No esforço de dar ao leitor uma idéia mais ou menos exata dos lugares onde, em 1867, ocorreram os dramáticos acontecimentos presentes na narrativa, o livro acabou por se constituir num elemento chave para a incorporação de Mato Grosso no imaginário geográfico da nação, apresentado pelo autor como um “grande e remoto sertão", uma fronteira externa e interna do Brasil em que deveriam ser fincados os marcos importantes da nacionalidade e da presença do Estado Imperial.

São basicamente dois os eixos temáticos de A Retirada da Laguna: a carência estrutural vivida pela coluna do exército brasileiro encarregada de expulsar os paraguaios do Sul de Mato Grosso, e a constatação de que o território por ela palmilhado era praticamente desconhecido da maioria dos brasileiros das grandes cidades. Assim, acompanhando a trajetória dos expedicionários, o leitor entra em contato com os “sertões mato-grossenses”, percorrendo desde as terras baixas do "pestilento pantanal", onde a febre e o beribéri matariam inúmeros soldados, até o encontro com climas mais saudáveis e "panoramas de incomparável beleza”, capazes de impressionar até mesmo “homens primitivos, pouco afeitos ao sentimento de admiração tão comum entre povos civilizados (TAUNAY, s/d: 37).

Mesmo atravessando belos e generosos trechos da natureza sertaneja, a coluna padece enormes dificuldades. Faltam alimentos e contingentes, há carência de estudos do terreno a ser percorrido, de senso de direção e de diretrizes claras de comando. Tudo isso contribuindo para aumentar a tensão entre os expedicionários, só diminuída quando da chegada à fronteira com o Paraguai. Instante revestido de uma dimensão simbólica, assim expressa por Taunay:

Momento solene este, em que entre oficiais e soldados não houve quem pudesse conter a comoção! O aspecto da fronteira que demandávamos a todos surpreendeu. É que era realmente novo. Podiam alguns já tê-la visto, mas com olhos de caçador ou de campeiro, indiferentes. A maior parte dos nossos dela só haviam ouvido vagamente falar; e agora estava ali à nossa frente como ponto de encontro entre duas nações armadas, e como campo de batalha (TAUNAY, s/d, p. 51).

Fantasmagórica, perdida entre "cerrados insalubres” incapazes de firmar limites internacionais, ainda assim a fronteira cumpria a função de distinguir o nacional e o estrangeiro - o nós e os outros - contra quem, em tempos de guerra, pode-se lutar até a morte, sem que tal conduta seja considerada criminosa (HARDMANN, 1992: 299; ARON, 1986: 382).

Expulsa pelo exército paraguaio, a coluna volta a perambular pelos "desertos da Pátria”, perdida, faminta, esfarrapada e doente. A salvação vem do Guia Lopes, que Taunay representa como um arquétipo do sertanejo. Definido como “homem das solidões" e orgulhoso do profundo conhecimento da terra em que vivia o Guia Lopes desenhado por Taunay era fisicamente forte, rude, desconfiado, supersticioso, dono de um excessivo amor próprio e pouco afeito a obedecer às hierarquias formais de uma sociedade “civilizada". Sentimentos típicos, conforme o autor, do “convívio com os selvagens”. Não obstante, Taunay também o descreve como um súdito fiel do Império, regime que mesmo de longe sabia reverenciar, pois, numa iniciativa que criava os domínios do Estado nacional brasileiro, sozinho tomou posse de “imensa floresta”, no meio da qual fincara uma cruz rudimentar com a inscrição “PII (Pedro Segundo)” (TAUNAY, s/d: 35, 111-112).

Assim, em A Retirada da Laguna Taunay, munido de um sentimento de paisagem praticamente destituída do sentido de espetáculo, elaborou a narrativa de um mundo arruinado, lugar em que a natureza exuberante se entrelaçava com o lado obscuro da natureza básica de homens primitivos, selvagens, guerreiros. Ao mesmo tempo, no conjunto da narrativa tudo funciona como se a natureza fosse a nossa maior grandeza, nosso bem maior. Éramos superiores porque a possuíamos e, apesar disso, não éramos bárbaros, mas heróicos descendentes de europeus, fato que garantia o nosso quinhão de “civilização”. Por isso, em meio à catástrofe da derrota de uma batalha para os paraguaios anuncia-se um devir, o que caracteriza a obra como um convite à construção da nacionalidade e um aviso de que esta mesma construção estava em perigo, constantemente ameaçada pela barbárie escondida entre a natureza imponente, pronta para atacar a civilização que demorava a se estender por aquele pedaço distante do Brasil (ALAMBERT JUNIOR, 1995, p. 91).

É que, influenciado pela formação profissional de engenheiro militar e por sua experiência como homem público a serviço do Império, Taunay olharia para o sertão não como quem busca uma expressão da essência nacional, mas como aspecto de um Brasil “esquecido"; verdadeira esfinge geográfica que só se decifrava e tinha acesso pelas artes militares e a observação científica, passo decisivo para a sua efetiva incorporação ao território nacional e integração à civilização.

A percepção de Taunay (mas não só dele) sobre os sertões promoveu alguns deslocamentos em relação à visão dos intelectuais do período colonial, para quem o sertão correspondia a uma imensidão territorial sem limites, que se oferecia ao colonizador disposto a alargar seus domínios e edificar o mais distante possível uma fronteira. Da perspectiva nacional do autor de A Retirada da Laguna, o sertão descortinava-se como parte intrínseca e indissociável do imenso patrimônio do país, cujos términos eram definidos pelos marcos fronteiriços que delimitavam o território da nação, configurando-se no plano interno como o “outro geográfico” do litoral “civilizado”. Portanto, a noção de sertão prefigurava as regiões pouco devassadas sob domínio de uma população escassa, primitiva e praticamente selvagem ou, na própria expressão de Taunay, “todo e qualquer terreno ainda não de todo ganho ao trabalho e à civilização” (TAUNAY, 1923, p. 45). Nesse sentido, ampliavam-se os limites do sertão se comparado com os pressupostos presentes na visão colonial, uma vez que este passava a englobar praticamente todo o mundo rural brasileiro ainda não alcançado pela agricultura mercantil exportadora, mais especificamente as áreas em que predominavam a pecuária, as atividades extrativas e os pequenos núcleos urbanos dispersos pelo interior do país. Conseqüentemente, também em relação àqueles que os habitavam os sertões elaborados por intelectuais do Império como Taunay eram mais amplos que os da percepção colonial, pois enquanto esta tomava os indígenas como referência para a barbárie, a perspectiva nacional tendia a estender o qualificativo de bárbaro a toda população sertaneja, apontando-a como gente inculta, despreparada para o trabalho e alheia ao movimento do progresso (GALETTI, 2000: 208-209).

Nunca é demais destacar que em nenhuma das perspectivas apresentadas acima – tampouco naquelas que surgiriam ao longo do século XX - o termo sertão/fronteira qualifica um tipo empírico de paisagem geográfica, ou seja, um lugar que tem como traço comum a combinação de objetos naturais e objetos fabricados, ou sociais (SANTOS, 2004: 53-54). Não se constituindo, necessariamente, como uma materialidade criada pelos grupos sociais em suas relações com lugares da superfície terrestre, o sertão que emerge das construções discursivas dos intelectuais do Império é, portanto, simbólico, uma imagem à qual se associam valores culturais que, em larga medida, introduzem objetivos práticos de ocupação ou reocupação dos espaços enfocados (MORAES, 2011: 101). Nesse sentido simbólico, o sertão transformava-se em referência espacial que poderia estar presente em qualquer lugar do país: no emaranhado da caatinga nordestina, na Zona da Mata Atlântica onde vicejava a lavoura cafeeira, na imensidão dos pampas gaúchos, nos chapadões e cerrados do Planalto Central, nos pantanais mato-grossenses ou na Amazônia.

De todo modo, não seria de todo incorreto afirmar que Taunay antecipou aspectos que ganhariam maior relevância no pensamento social brasileiro após a instauração da República, como a apreensão do sertão enquanto lugar da barbárie, ou seja, a própria expressão do atraso do país, e, simultaneamente, como fronteira de recursos humanos e naturais inestimáveis.

Coube a Euclides da Cunha, outro intelectual de formação militar, efetivar uma nova e importante inflexão nos discursos e representações sobre os sertões. Jornalista, e engenheiro militar formado pela Academia Militar da Praia Vermelha do Rio de Janeiro, seus escritos foram profundamente influenciados pelas ideologias cientificistas que dominaram o cenário intelectual brasileiro entre a última década do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, período apontado pela historiografia brasileira como um marco da ascensão de um projeto de modernização do Brasil e de redefinição da identidade nacional.

Tais influências estarão presentes tanto em Os Sertões, livro que resultou da incursão realizada pelo autor ao semi-árido nordestino, em 1897, como correspondente de O Estado de São Paulo na cobertura da 4ª expedição militar contra Canudos, quanto nos ensaios relativos à sua expedição à Amazônia, em 1905, na função de chefe da Comissão Brasileira do Alto Purus para o reconhecimento das fronteiras entre Brasil e Peru. Experiência da qual derivou a obra inconclusa Um Paraíso Perdido, na qual o contato com a natureza da região o levou a falar da Amazônia como uma “terra sem história”, em que a ocupação humana é efêmera, desordenada e sempre incompleta.

É em Os Sertões, livro que desde o lançamento, em 1902, seria cultuado como uma obra prima, que a visão de Euclides da Cunha sobre o sertão e o sertanejo se revela como matriz para inúmeras obras e autores que se propuseram a “interpretar” o Brasil ao longo do século XX.

Numa eloqüente passagem da narrativa Euclides da Cunha descreve a sensação de estranhamento dos expedicionários, em relação à terra e aos homens que encontravam quando de sua chegada a Canudos. Lugar por ele definido como um “ponto de tangência de duas sociedades de todo alheias uma à outra”, marcado pela “discordância absoluta e radical entre as cidades da costa e as malocas de telha do interior, que tanto desequilibra o ritmo de nosso desenvolvimento evolutivo e perturba a unidade nacional”. Segundo Euclides, ao atingi-lo os expedicionários logo perceberam aquela “violenta transição”:

Salta-se do trem; transpõem-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas; e topa-se para logo, à fímbria da praça — o sertão... [...]. Os novos expedicionários ao atingirem-no [...] viam-se em terra estranha. Outros hábitos. Outros quadros. Outra gente. Outra língua mesmo, articulada em gíria original e pinturesca (sic). Invadia-os o sentimento exato de seguirem para uma guerra externa. Sentiam-se fora do Brasil. A separação social completa dilatava a distância geográfica; criava a sensação nostálgica de longo afastamento da pátria. [...] O que ia fazer-se era o que haviam feito as tropas anteriores — uma invasão — em território estrangeiro. Tudo aquilo era uma ficção geográfica (CUNHA, 2000: 434).

Transmitindo a sensação de se sentir um estrangeiro na própria pátria, Euclides da Cunha não só questionava a unidade territorial do Brasil, para ele uma “ficção geográfica”, como chegava mesmo a duvidar das possibilidades de estruturação de uma nacionalidade una e indivisa, na medida em que, diferente de outros povos “civilizados” do mundo, continuávamos a conviver com fossos profundos entre duas regiões cujas sociedades praticamente se ignoravam: o litoral, moderno, urbanizado e europeizado, e o sertão, anacrônico, pastoril e estagnado. Aqui litoral e sertão metaforizam instâncias não apenas conflituosas, mas opostas, que na razão ocidental separam o horizonte da modernidade daquele universo, tão temível quanto romantizado, da tradição (MURARI, 2007: 23).

Em Os Sertões reside, portanto, a gênese de uma das imagens mais persistentes da estrutura sócio-espacial do país: a existência de “dois Brasis”, que se contrastavam e confrontavam. País dual cuja terra pródiga e exuberante também podia ser estéril e desolada, a ponto de transformar a luta pela vida num fenômeno de adaptação do homem ao meio. Fenômeno que, na visão de Euclides da Cunha, seria o mais adequado para explicar tanto a “passividade” do sertanejo, quanto o rompimento dessa “passividade” por atos bruscos de “rebeldia”. Para ele:

[O sertanejo] é o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte, preparando-se sempre para um recontro (sic) que não vence e em que não se deixa vencer, passando da máxima quietude à máxima agitação [...] Reflete nestas aparências que se contrabatem a própria natureza que o rodeia – passiva ante o jogo de elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos (sic), sob o reverberar dos estios abrasantes. É inconstante como ela. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. Ela talhou-o à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto... (CUNHA, 2000: 103-104)

Nessa linha de raciocínio, Euclides da Cunha também colocava em contraste as populações do litoral e do interior. De seu ponto de vista, não sendo portador do “raquitismo exaustivo e neurastênico do litoral” por ter de se adaptar a um meio que lhe era hostil, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, tratando-se da “perfeita tradução moral dos agentes físicos de sua terra” (CUNHA, 2000: 99-103).

Lançando mão das teorias evolucionistas que davam suporte científico à idéia de progresso como único caminho possível para a unificação da nacionalidade, em sua defesa da predestinação histórica do “homo americanus”, tipo humano resultante da miscigenação de raças, em particular do branco com o índio - para ele o sertanejo autêntico derivado do mameluco paulista, “tipo autônomo, aventuroso, rebelde, libérrimo, com a feição perfeita de um dominador de terras” (CUNHA, 2000: 73) -, argumentava Euclides:

Não temos unidade de raça. Não teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma. Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social. Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos. A afirmativa é segura (CUNHA, 2000: 64-65).

Para pensar e propor o fim do distanciamento entre os “dois Brasis”, Euclides da Cunha operou uma inversão da noção de sertão dominante em sua época. Superando o dilema racial derivado das teorias cientificistas, as quais imputavam valor negativo às características raciais do sertão para defini-lo como antítese insuperável da nação desejada, em Os Sertões, obra que ocupa uma zona transitória entre a temática racial e a temática da civilização via progresso, ele passaria a definir o sertanejo não como um degenerado, mas como um “retrógrado” (CUNHA, 2000: 96). Anacronismo explicado não como substância determinada por condicionamentos de ordem genética como apontava Taunay, mas como um estado resultante dos “três séculos de abandono a que foram relegados aqueles desconhecidos singulares” (CUNHA, 2000: 97).



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