InterpretaçÃo fenomenológico existencial



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INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL
Sobre o Sentido do Interpretativo na Concepção e método da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial


Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL

Rua Alfredo Oiticica, 106 Farol. 57032-010 Maceió Al. Brasil

Internet: e-mail: affons@nornet.com.br Site: http://www.terravista.pt/FerNoronha/1411

1998

INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
Sobre o Sentido do Interpretativo na Concepção e Método da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

Há canções e há momentos


Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar


Ela vai ao infinito,
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na platéia e na voz


Há canções e há momentos
Em que a voz vem da raiz
Eu não sei se quando triste
Ou se quando sou feliz


Eu só sei que há momento
que se casa com canção
De Fazer tal casamento
Vive a minha profissão

(Milton Nascimento e Fernando Brant


“Canções e Momentos”.

1. INTRODUÇÃO

Numa boa observação da concepção, prática e desdobramentos das Psicoterapias fenomenológico-existenciais – e aqui referimo-nos especificamente à Gestalt Terapia e à Abordagem Centrada na Pessoa – não podemos nos furtar à constatação de que a valorização, a priorização, de um certo tipo de interpretação tem sido sempre um seu pressuposto e elemento fundamental: quer seja do ponto de vista de sua fundamentação filosófica, de sua teoria ou do seu método.

Neste sentido, parece perfeitamente correto dizer e assumir que estas abordagens: as abordagens fenomenológico-existenciais, em particular a Gestalt Terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa, são abordagens eminentemente interpretativas. Hermenêuticas.

Evidentemente que não estamos aqui nos referindo ao termo interpretação no seu sentido psicanalítico. Ou, mais especificamente, não estamos nos referindo aqui ao termo interpretação no seu sentido explicativo, que é tão comum e contumaz. Nem estamos tentando desvendar ou definir qualquer sentido novo desta utilização psicanalítica ou explicativa do termo interpretação.

Trata-se mais especificamente de ressaltar o sentido e a concepção especificamente fenomenológico existenciais, radicais, deste termo na concepção e prática das abordagens fenomenológico existenciais em Psicologia e Psicoterapia. Para ressaltar a sua concepção específica, enquanto tal, como um fundamento filosófico, teórico e metodológico.

De início, é necessário observar algo bastante claro, e que é curiosamente negligenciado, ou obscurecido, seja no âmbito da vida cotidiana, no âmbito da psicologia ou da psicoterapia em geral, ou no âmbito da academia, ainda que obviamente evidente: o termo interpretar não tem apenas o seu sentido psicanalítico-explicativo, ou um sentido meramente explicativo. Na verdade este parece ser um de seus sentidos mais pobres. O termo interpretar tem uma outra área de sentido que lhe é bastante específica e própria, e que é a do seu sentido especificamente fenomenológico existencial compreensivo.

De um ponto de vista fenomenológico existencial, interpretação é o “desdobramento das possibilidades da compreensão”, como Heidegger1 o definiu. Entendida aqui a compreensão como a própria constituição do vivido do ser-no-mundo.

De modo que a concepção fenomenológico-existencial de interpretação é intimamente ligada à concepção da compreensão no seu sentido fenomenológico-existencial. Compreensão esta que configura-se na própria constituição fenomenal do vivido.

Trata-se então, para uma compreensão do sentido e concepção do interpretativo e de seu valor no âmbito da Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais, de mudar o referencial. Ao invés do referencial explicativo da hermenêutica de uma interpretação naturalista, a interpretação compreensiva do ser-no-mundo. O desdobramento da compreensão, das possibilidades de ser do ser-no-mundo.

De certa forma, este sentido é bastante difundido, e compreensível, quando é aplicado à interpretação de atores de teatro, ou de cinema, ou das artes cênicas em geral. Curiosamente, não obstante, queda-se em geral negligenciada e obscurecida a fonte da analogia, ou seja, o fato de que os seres humanos vivem de interpretar o seu ser-no-mundo, vivem da interpretação fenomenológico existencial de seu vivido, na criação de si e do mundo que lhe diz respeito, e na potencialização de seus devires.

Nietzsche2 já observava neste sentido:

Em torno de todo espírito profundo brota sem cessar uma máscara, só podemos progredir mascarados...”

Maffesoli3, igualmente, indicará:

O verdadeiro teatro é portanto o da cotidianidade (...) Assim, tudo o que diz respeito à ‘dramaturgia’ é, de início, uma realidade cotidiana.”

Os psicoterapeutas fenomenológico existenciais perceberam profundamente esta dimensão da realidade existencial, e a importância existencial, regeneradora e propiciadora da criatividade, e do crescimento humanos, das possibilidades da potencialização da interpretação fenomenológico-existencial, como modalidade natural de interpretação e de potencialização da própria existência. E foram profundamente conseqüentes com relação a esta constatação da importância da interpretação fenomenológico-existencial como perspectiva de filosofia da vida, como princípio de concepção e de método de suas abordagens de psicologia e de psicoterapia.

De modo que, por dentro de suas reflexões teóricas, filosóficas, e metodológicas, o privilegiamento da interpretação intensiva do vivido do cliente, pelo próprio cliente (evidentemente): interpretação compreensiva fenomenológico existencial, constituiu-se sempre como um item, se não o item, fundamental de suas abordagens. Ainda que nem sempre tenha ficado especificamente explícito desta forma, isto se esclarece na concepção da psicoterapia e do trabalho psicológico como aparentados da arte, e mesmo nos desdobramentos destas abordagens, com a arte-terapia, por exemplo, com o modelo de trabalho com sonhos e a prática da Gestalterapia, e com o desdobramento dos recursos na prática da Abordagem Centrada na Pessoa.

Neste ensaio buscamos caracterizar e discutir a interpretação no seu sentido fenomenológico-existencial, precisando este seu sentido, e distinguindo-o do sentido da interpretação explicativa. Comentamos, também, o modo como a interpretação fenomenológico-existencial constituiu-se e constitui-se como fundamento de filosofia da vida, de concepção e método das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e de psicoterapia.

2. EXPLICAÇÃO, COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

Para o entendimento da concepção e do método das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, e do sentido e valor do interpretativo no seu âmbito, é da mais alta importância a distinção entre as concepções de Explicação e de Compreensão.

A concepção de Compreensão, mormente a partir da influência do desenvolvimento da Fenomenologia em Fenomenologia Hermenêutica heideggeriana, caracteriza-se especificamente como a apreensão, e o próprio processo de constituição do vivido em seus próprios termos. Ou seja, em sua natureza especificamente pré-conceitual, pré-reflexiva, pré-teórica, na intuição originária da vivência de consciência. O vivido nada tem de empiria objetivista, de coisa do mundo natural, e nos é dado pela intuição imediata, fenomenal, vivencial, anteriormente a qualquer forma de reflexão ou de conceituação. É empírico, na medida em que é vivencial e não teorizante, mas não é objetivista. Para privilegiar este vivido desenvolveu-se a Fenomenologia como Ontologia Hermenêutica Existencial.

De modo que a compreensão, num sentido fenomenológico existencial é a própria constituição imediata do vivido no ser-no-mundo. A interpretação é o desdobramento das possibilidades de ser da compreensão.

A explicação, não tem esta imediatez do vivido. Ela é da ordem da abstração. A explicação é da ordem da retórica, da ordem do discurso4, e articula relações entre elementos do mundo natural.

Sobre a concepção da compreensão Heidegger observa:5

El encontrarse es una de las estructuras existeciarias en que se mantiene el ser del ‘ahí. Com igual originalidad que ella constitutye este ser el ‘compreender’. El encontrarse tiene en cada caso su comprensión, aunque sólo sea sofrenándola. El comprender és siempre afectivo. (...) concebimos el fenómeno como un modo fundamental del ‘ser del ahí’.



(...) Lo que se puede en el compreender enquanto existenciario no es ningun ‘algo’, sino el ser enquanto existir. En el comprender reside existenciariamente la forma de ser del “ser ahí” como ‘poder ser’. El ‘ser ahí’ no es algo ‘ante los ojos’ que posea además como dote adjetiva la de poder algo, sino que es primariamente ‘ser posible’. El ‘ser ahí’ es en cada caso aquello que él puede ser y tal qual él es su possibilidad.”*

Num outro momento, Heidegger6 já observa:

El ente constituído esencialmente por el ‘ser-en-el-mundo’ es él mismo en cada caso su ahí”.

De modo que explicamos o mundo natural, de um ponto de vista objetivista, compreendemos o mundo efetivamente vivido, o vivido do mundo, o ser-no-mundo.

Daí que o termo interpretação adquire os dois de seus sentidos que nos interessam. Radicalmente diferentes. Ou seja: o sentido da interpretação como interpretação explicativa, que caracteriza-se por uma atitude naturalista diante de objetos do mundo natural, na busca de suas relações e aclararmento conceitual do seu sentido; e o outro sentido de interpretação que é o seu sentido fenomenológico existencial, como interpretação que constitui-se como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão da facticidade e da afetividade existenciais do ser-no-mundo7.

3. INTERPRETAÇÃO EXPLICATIVA E INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

Tão impregnado na cultura contemporânea é o uso do termo interpretar no sentido de

ajuizar a intenção, o sentido de (...) explicar, explanar ou aclarar o sentido de (...)”8,

que perdemos paulatinamente, no âmbito da cultura da vida cotidiana, no âmbito da psicologia e da psicoterapia, e no âmbito acadêmico, o sentido de interpretar como

“(...) representar(...)9

Entendido aqui representar como

“(...) tornar presente; patentear, significar (...) levar à cena; exibir, encenar (...) figurar, aparentar (...) desempenhar (...), apresentar-se, oferecer-se ao espírito (...), aparecer (...)10

Ao lado das práticas e estratégias de poder, as concepções e perspectivas psicanalíticas contribuíram decisivamente para esta consolidação da hegemonia do sentido explicativo do termo interpretar na vida cotidiana, no âmbito da psicologia, da psicoterapia e do meio acadêmico. De modo que o sentido de interpretar como representar, presentificar, exibir, figurar, aparentar, apresentar, aparecer foi ficando num plano secundário, tendendo a ser relegado não simplesmente ao campo das artes, como lhe é bem próprio, mas relegado, mais restritivamente ainda, ao palco, no sentido restrito e formal, de desempenho da arte teatral, ou das artes cênicas em geral.

Não obstante, a interpretação fenomenológico-existencial, que é própria, num certo sentido, da arte teatral, é especificamente própria de qualquer arte. Qualquer artista interpreta no desempenho de sua arte, no processo artístico específico da produção de suas obras, na medida em que apresenta, figura, faz aparecer, presentifica, o vivido de sua inspiração. O artista engendra no mundo a existência da originalidade e sutileza de sua inspiração. Isto é, naturalmente, característico da arte em geral, mas manifesta-se de modo mais patente na arte teatral e nas artes cênicas.

Mas, mais que isto, isto só é assim na medida em que as artes em geral são apenas condensações e particularizações de uma arte maior, que é a arte humana de viver criativamente. De viver criando efetivamente no afrontamento e enfrentamento de nossas questões existenciais. É a compreensão do vivido e a identificação com esta compreensão, ou seja, com o desdobramento das suas possibilidades ativas de ser: a sua afirmação, que se configura como interpretação do vivido, e possibilidade de nossa originalidade e de nossa criatividade como seres-no-mundo. Vivemos, desta forma, na nossa melhor forma, da interpretação de nosso vivido, da interpretação fenomenológico-existencial de nosso ser-no-mundo.

A interpretação explicativa tem uma longa história. Remonta aos primórdios da hermenêutica e da exegese religiosa, como atividades de interpretação dos textos sagrados. A Psicanálise insere-se na sua perspectiva. Avocando-se a capacidade da exegese e da hermenêutica, da interpretação explicativa, não de textos, sagrados ou não, mas de pessoas. E desta forma constitui a sua postura, teoria e metodologia clínica. Nessa linha, não seria muito talvez pensar que a Psicanálise lida com o psiquismo do cliente como se este fosse um texto a ser desvendado em sua verdade e explicado.

A Psicanálise, pelo menos em algumas de suas formas mais comuns, passa a ser um tremendo reforço à hegemonia da interpretação explicativa. Na verdade esoteriza-se, em suas popularizações, como a instância interpretativa do humano por excelência no contexto da sociedade moderna, instância esta que configura-se como uma patrona de peso da interpretação explicativa, amplamente hegemônica na perspectiva desta.

A interpretação fenomenológico-existencial vai sendo depreciada. O que é compreensível no âmbito de uma sociedade que deprecia o corpo, o vivido, os sentidos, que deprecia a existência, a vida, em sua peculiaridade e forças próprias. Com efeito, tende-se a entender a interpretação no sentido fenomenológico-existencial como relegada e restrita aos palcos, ao mesmo tempo em que a própria atividade artística vai recebendo da sociedade em geral, e da Psicanálise, um estatuto marginal patologizado, similar ao do funcionamento neurótico. Consideração que, de um modo geral, recebe a própria vida em sua espontaneidade, na medida em que, inclusive, o pathos é identificado ao doentio.

A Fenomenologia e o Existencialismo iniciam um vigoroso movimento de resgate do valor existencial e ontológico da interpretação fenomenológico existencial. Nietzsche11 consagra a perspectiva de que “tornamo-nos algo que somos” em existência. E preconiza, desta forma, a importância da interpretação fenomenológico-existencial como um estilo de viver que entendendo a vida como efetivamente inocente, afirma-a irrestritamente.

No desenvolvimento de sua hermenêutica ontológica, Heidegger12 precisa, o sentido da interpretação fenomenológico-existencial como desdobramento das possibilidades ativas de ser da compreensão:

En cuanto comprender, el ‘ser-ahí’ proyecta su ser sobre possibilidades. Este comprensor ‘ser relativamente a possibilidades’ és él mismo, por obra de la repercussión de las possibilidades enquanto abiertas sobre el ‘ser-ahí’, un ‘poder ser’. El proyectar del comprender tiene la possibilidad peculiar de desarrollarse. Al desarrollo del compreender lo llamamos ‘interpretación’. En ella el comprender se apropia, comprendiendo, lo comprendido. En la interpretación no se vuelve el comprender outra cosa, sino él mismo. La interpretación no és el tomar conocimiento de lo comprendido, sino el desarrollo de las possibilidades proyectadas en el compreender.*

Fica claro, assim, o sentido da interpretação fenomenológico existencial, como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão. Compreensão esta que constitui-se origináriamente como vivido do ser-no-mundo.

A arte humana de viver, a criatividade existencial que nos permite criar a originalidade de nossa vida, que nos permite produzir respostas criativas para nossas questões existenciais, que nos permite ajustarmo-nos criativamente na relação com o mundo que nos diz respeito, deriva do exercício desta capacidade de podermos identificarmo-nos e sermos intérpretes (fenomenativo-existenciais) de nosso próprio ser-no-mundo, no desdobramento de suas possibilidades de ser.

Analogamente à forma como um artista interpreta a sua inspiração na produção de sua obra de arte, ou como um ator interpreta o seu próprio vivido de seu personagem, é a interpretação de nosso próprio vivido, em suas possibilidades de ser, como ser-no-mundo, a ativa e original interpretação de nossa existência, que nos potencializa existencialmente, que potencializa a nossa criatividade existencial, e que nos permite a elaboração de uma super abundância de forças de vida, que é própria do funcionamento artístico, e da riqueza da existência.

Michel Maffesoli13 observa:

(...) a teatralidade, o espetáculo não são acréscimos relativamente secundários, mas o cimento capaz de permitir que o conjunto social seja um todo contraditório mas ordenado. Numa tal perspectiva, o que se pode dizer é que a poesia não constitui um domínio separado, mas que, ao contrário, encontra-se estreitamente imbricada na vida de todos os dias. O verdadeiro teatro é, portanto, o da cotidianidade (...). Em relação a uma expressão ‘natural’, a arte como entidade separada não passa de uma criação recente; o teatro é de início o da rua antes de se tornar uma construção específica, e além disso as regras que regem essa construção específica existem certamente de maneira latente na representação da vida corrente. (...) Assim, tudo que diz respeito à ‘dramartugia’ é, de início uma realidade cotidiana (...). A sociedade enquanto interação de elementos heterogêneos que negociam sua presença mútua nada mais é do que uma vasta e complexa ‘representação’, onde os ‘papéis’ se trocam, se sucedem, se opõem, se eliminam etc.


Toda atividade individual e social provém do domínio teatral. O que chamamos de ‘encontro’ na relação afetiva ou na linguagem poética, mais simplesmente tudo que possui o traço da vizinhança ou que é da ordem da relação, sem falar deste complexo altamente trágico que é a família, tudo isto constitui uma encenação mais ou menos consciente onde se misturam, num conjunto fragmentado, o grotesco, a tragicomédia ou mesmo o patético e o épico.”

De modo que, longe de estar restrita ao palco, a interpretação fenomenológico existencial é a matéria prima de nosso ser-no-mundo, de nosso ser-com-os-outros, ser-no-mundo e ser-com os outros que dependem de nossa liberdade e capacidade para interpretá-los em sua riqueza, potência, sutilezas, necessidades e carecimentos próprios.

Alternativamente, é em função da incapacidade, da impotência, por múltiplos fatores possíveis, para a rítimica interpretação fenomenológico existencial de nós próprios que perdemos em originalidade, em força, que perdemos em criatividade, em saudável e necessária agressividade, no afrontamento e enfrentamento das questões relevantes de nossa atualidade existencial, que perdemos em brilho e vitalidade, e criamos eventualmente uma vida embotada, aquém de nossas possibilidades de ser, dolorida, estagnada, deprimente e depressiva, obsessiva, compulsiva, desequilibrada.

4. COMPORTAMENTO, AÇÃO E INTERPRETAÇÃO.

Se constatamos por um lado a importância existencial e valor ontológico da interpretação fenomenológico existencial, constatmos, por outro, no desenvolvimento da sociedade das culturas da civilização ocidental, a restrição progressiva de suas condições de possibilidade. Hannah Arendt14 já observava que a cultura da sociedade contemporânea favorece o comportamento e desprivilegia a ação.
Um fator decisivo é que a sociedade, em todos os seus níveis, exclui a possibilidade da ação (...). Ao invés da ação a sociedade espera de cada um dos seus membros um certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendente a ‘normalizar’ os seus membros, a fazê-los ‘comportarem-se’, a abolir a ação espontânea ou a reação inusitada.

(...)Esta igualdade moderna, baseada no conformismo inerente à sociedade (...) só é possível porque o comportamento substitui a ação como principal forma da relação humana (...)

É o mesmo conformismo, a suposição de que os homens se comportam ao invés de agir, que está na base da moderna ciência econômica (...) que, juntamente com o seu principal instrumento, a estatística, se tornou a ciência social por excelência.
O comportamento é a atividade previsível e padronizada da pessoa, definida e ancorada nos padrões sociais, nos hábitos e nas expectativas. A ação envolve os níveis mais vivenciais da pessoa, mais subjetivos, singulares, irrepetíveis e originais. A ação é assim única e original. E é exatamente a ação que vai sendo progressivamente extinta, em privilégio do conformismo do comportamento dos particulares de uma sociedade que se automatiza cada vez mais, automatizando inclusive a atividade das pessoas que a ela compõem. De modo tal que ganha interesse a observação de que

Num mundo de máquinas cada vez mais exatas e perfeitas ganha sentido cada vez mais valioso a capacidade humana de errar*.

A ação, tal como a define Arendt, caracteriza exatamente a interpretação fenomenológico-existencial. E é exatamente a possibilidade desta modalidade de vida, desta modalidade de interpretação, que perde espaço e é desqualificada na vida cotidiana, no âmbito da psicologia e da psicoterapia, e do meio acadêmico, à medida em que são privilegiadas formas da socialidade que valorizam o comportamento em detrimento da ação. A conseqüência é que as pessoas perdem cada vez mais a humana condição de ser atores de si mesmas, de sua existência, de seu ser-no-mundo, atores de sua realidade, e transformam-se cada vez mais em espectadoras da realidade e de si próprias, enquanto crescem como autômatos conformados, como indicava Fromm15. Mais que isto, com a redução das possibilidades da ação, e da interpretação fenomenológico-existencial, as pessoas perdem as suas capacidades de regeneração, de auto-criação e recriação, de potencialização e re potencialização de suas forças de vida.

Paralelamente hipertrofia-se o lugar da interpretação explicativa, como recurso de dominação e de controle social, a níveis não raro ridículos, com as óbvias implicações de poder que isto comporta. A interpretação explicativa é normativa e facilmente recurso de dominação e de normatização, ligada com freqüência à promoção do comportamento e à extinção das possibilidades da ação. Desenvolve-se assim e sobrevaloriza-se a interpretação de hermenêuticas explicativas, ainda que eventualmente dissimuladas em sua natureza, à medida em que negligencia-se e obscurece-se as possibilidades especificamente existenciais e terapêuticas da interpretação compreensiva de uma hermenêutica fenomenológico-existencial.



  1. RESGATE E POTENCIALIZAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL COMO UMA CONCEPÇÃO E PRÁTICA DE PSICOTERAPIA.

As Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais compreenderam profunda, e praticamente, as observações ligados a estas questões que nos vinham dos campos do Existencialismo, da Fenomenologia e da Filosofia Política, e os valores por estes elaborados a partir dessas observações. De modo que apreenderam e derivaram daí uma compreensão e uma concepção do valor fundamental da interpretação fenomenológico existencial, como perspectiva de filosofia da vida, como princípio teórico e de método na prática de seus modelos de psicologia e de psicoterapia. Desenvolveram-se, assim, fundadas importantemente na elaboração de concepções, de práticas e de modelos de relação ligados sempre à potencialização das possibilidades da interpretação fenomenológico existencial de seus clientes. Neste sentido, ainda que não o tenham, às vezes, enfatizado e especificado suficiente e adequadamente em sua teoria, vivem, em seu método, teoria e filosofia, da possibilidade da potencialização da interpretação na primeira pessoa, da interpretação como representação, figuração, da interpretação como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão, como desdobramento das possibilidades de ser do vivido.

Estas abordagens buscaram situar-se, assim, numa perspectiva heterogênea com relação às tendências em nossa cultura de desqualificação da humana possibilidade da interpretação ativa e eminentemente vivida de seu ser-no mundo. Compreenderam, desde o início, os seus formuladores a impertinência fenomenológico-existencial de uma centração em uma hermenêutica explicativa do psiquismo, da estrutura de personalidade, dos padrões de comportamento e atos, do cliente. Em particular diante da flagrante automatização das pessoas à medida em que o comportamento tendia e tende a substituir progressivamente a ação.

O desenvolvimento e desdobramento da Fenomenologia e do Existencialismo ofereceu a estas abordagens poderosos elementos filosóficos, teóricos e metodológicos para a formulação de perspectivas que ressaltavam a importância da afirmação do vivido pré-reflexivo, e do processo de sua compreensão intensiva e intensiva interpretação por parte do cliente. O que naturalmente derivava da descoberta do valor terapêutico, digamos, valor de potencialização das forças de vida e de propiciamento do crescimento, desta prática intensiva e natural da humana atividade de, ativa, vivida e vívidamente, interpretar-se a si mesmo. Não de um ponto de vista explicativo, mas a interpretação compreensiva, como desdobramento das possibilidades do vivido factual e afetivo da atualidade, e das eventuais crises da atualidade, do cliente como ser-no-mundo.

Foi na prática, experiencial, experimental, estritamente existencial, desta forma de interpretação fenomenológico-existencial que esses pioneiros foram descobrir as ricas possibilidades de potencialização dos mecanismos de auto-regulação do organismo.

Isto é trabalho de pioneiros como Rogers, Perls, Moreno. E nem sempre é bem compreendido por contemporâneos seus e sucessores. Frequentemente, ainda hoje, muitos destes entendem a necessidade de uma compreensão empática do cliente, compreendem algo da importância de uma consideração positiva incondicional pela experiência do cliente, mas não entendem o valor existencial, organísmico, conceitual e metodológico da interpretação fenomenológico-existencial, e o valor fundamental da psicoterapia e do espaço da prática psicológica e psicoterapêutica como espaços, existencialmente experienciais e experimentais, de privilegiamento de uma intensa atividade de interpretação fenomenológico-existencial de si por parte do cliente, a partir da intuição do vivido de sua atualidade e da atualidade de suas eventuais crises existenciais.

Na verdade a Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial entendeu desde os seus primórdios, em Otto Rank, por exemplo, a importância de abrir mão do poder de diagnosticar na prática psicoterápica, a inutilidade e o potencial danoso deste poder, a esterilidade de uma hermenêutica explicativa do cliente, em privilégio do interesse por um outro paradigma de psicoterapia, que tinha os seus fundamentos na prática intensiva da interpretação fenomenológico-existencial e era mais aparentado da atividade artística. Não é à toa que Otto Rank, um fundamental inspirador da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, vai valorizar uma compreensão artística do homem, e aproximar da arte as possibilidades de sua prática psicoterapêutica.

Numa cultura, não obstante, em que habitualmente se dá um desprivilegiamento do corpo, do vivido e dos sentidos, um desprivilegiamento da vida, uma cultura na qual muitos poderes enraízam-se exatamente neste desprivilegiamento e na heteronomia, nem sempre é fácil abrir mão dos poderes de diagnosticar o outro, de interpretar o outro explicativamente, de “terapeutizar” o outro.

Daí que há, frequentemente, dentro da própria Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, inclusive, uma dificuldade de entender a radicalidade de sua fundamentação e da fundamentação de sua prática na potencialização da interpretação fenomenológico existencial por parte do cliente, em parceria ativa, atenta e interessada com o terapeuta, intérprete fenomenológico-existencial, também, do seu próprio vivido, na pontualidade do seu encontro dialógico com o cliente.




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