Intertextualidade: entrando e saindo do texto



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INTERTEXTUALIDADE: ENTRANDO E SAINDO DO TEXTO.

Lucila Bezerra Quinderé da Cruz - UFRN-DEPED-NEPELC


A intertextualidade constitui-se uma das categorias de análise da pesquisa O ENSINO DE LITERATURA: PROFESSORES E APRENDIZES E A ATUAÇÃO NA COMUNIDADE DE INTÉRPRETES NAS ESCOLAS DA REDE PÚBLICA DO RIO GRANDE DO NORTE (CNPq,1999), na 1ª Sessão de Leitura em que o texto lido A Bela Borboleta, de Ziraldo e Zélio (1995), evidencia a conexão entre elementos similares aos contos de fadas, o que nos instiga a investigar em que esse texto se diferencia e o que ele, com sua diferença, torna mais evidente a comparação intertextual, dentro da perspectiva de que todo texto é escrito em função de outro(s) texto(s), no campo da produção. Isso nos leva a enfocar de modo especial, as formas encontradas por professores e alunos ao relacionar textos que promovam as operações produtoras de sentido, no campo da recepção, portanto nos leitores, cuja leitura do texto, deveria levá-los a outros textos em que a conexão era visível, explícita e sofisticada.

Feito isso, verificamos que esse relacionamento entre os textos funciona como apoio para o leitor se acercar e atribuir sentidos ao texto literário. Significa dizer também, que muito favorece o leitor entrar e sair do texto ao adotar estratégias para a identificação das semelhanças e dos pontos diferenciais entre eles. Daí concluirmos que, é nessa busca que se desenvolvem os sentidos, que se constrói a compreensão do texto.

Nesse ponto, observemos alguns episódios da 1ª Sessão de Leitura após a realização da leitura em voz alta, ao se processar a discussão do texto, quando a professora perguntou:

ALGUÉM CONHECE OS PERSONAGENS DESSA HISTÓRIA? Os alunos, sujeitos da pesquisa, responderam:


Turma A:

Josias: Os Sete Anões.

Júlia: Branca de Neve.

Vários: Branca de Neve e Patinho Feio.

Turma B:

Jonas: O Gato-de-Botas.

Celes: Branca de Neve e os Sete Anões.

Miguel: O Gato de Relógio

Maria: Peter Pan.

Felix: O Patinho Feio.

Turma C:

Profª: Agora, eu queria saber o que vocês acharam da história.

Ney: Bonita e importante.

Profª: Por que?

Ney: Porque em um livro tem vários personagens de outros livros, em um só.
Com esses episódios (T. A e B), os alunos evidenciam campos de sentido no processo de acercamento do texto, a partir do reconhecimento de personagens e apresentam atitudes metacognitivas, ou seja, expõem seu conhecimento, acionando a memória, a emoção e as informações prévias. Essas estratégias indicam caminhos para explorar a categoria INTERTEXTUALIDADE como um recurso que possibilita ao leitor atribuir sentido ao texto.

Como a professora da turma C, a de controle, não participou do planejamento do experimento, fez uma abordagem diferente do procedimento adotado pelas professoras das turmas A e B. Estas formularam uma pergunta direta que requereu dos alunos respostas objetivas. Por outro lado, a forma abordada pela professora da turma C, foi aberta, ou seja, estimulou os alunos a falar e a se expressar com mais liberdade, o que fez os alunos se sentirem à vontade para expor suas opiniões ou idéias. Diante da resposta generalizada do aluno, a professora, como mediadora, instigou-o a reelaborar o seu pensamento. Em decorrência da atitude de scaffolded/andaimagem (Graves, Graves,1995), exercida pela professora, o aluno Ney aprofundou sua resposta com mais informações, revelando seu repertório de leitura dos contos de fadas ─ Porque em um livro tem vários personagens de outros livros, em um só ─ o que revela que ele ao identificar os personagens, estabeleceu relações entre os textos já conhecidos e o que estava lendo, fato que comprova a entrada desse aluno no texto.



É nesse momento que o professor deve expandir o conceito de intertextualidade, explicando-o de forma direta. No ato da leitura, encontramos personagens, partes da história, cenas, diálogos que se parecem com outras histórias do nosso conhecimento. A nossa memória e afetos nos levam aos textos já conhecidos, que a leitura atual nos faz lembrar. A relação entre o texto que estamos lendo, com os já conhecidos, os teóricos chamam de intertextualidade, ou seja, um texto nos leva a outros textos (Kristeva, 1969, Perrone-Moisés, 1978, Walty, 1996, Savioli e Fiorin, 1998). Atuando como mediador desse processo, o professor deve fornecer aos alunos operadores de leitura, compreendidos como chaves para abrir caminhos que ajudem o leitor a entrar no texto na busca de construção de sentidos. Esta compreensão nos leva a concordar com Walty (1996, p. 30) ao afirmar que a intertextualidade
É uma dessas chaves que nos permitem penetrar no texto, à medida que faz dialogar um texto com outros textos, da mesma época ou de épocas diferentes, de um mesmo espaço ou de espaços diferentes. Assim, a leitura não perde seu caráter dinâmico,mantendo-se um processo em que texto, intertexto e contexto não se isolam.
Ao verificar que todo texto é um objeto heterogêneo (de diferente natureza) seus níveis de abrangência podem se dar em sentido amplo e restrito, segundo Koch (1998, p. 46):
NÍVEIS DE ABRANGÊNCIA DA INTERTEXTUALIDADE

  • AMPLO o discurso/interdiscursividade




  • RESTRITO de conteúdo x de forma

explícita x implícita

das semelhanças x das diferenças
Nessa análise, pelas evidências encontradas no texto dessa sessão de leitura, vamos nos ater ao nível de abrangência da intertextualidade em sentido restrito, ou seja, na relação desse texto com outros textos previamente existentes, naqueles que, efetivamente foram produzidos cujos tipos podemos considerar: de conteúdo x de forma; explícita x implícita; das semelhanças x das diferenças (Kock, ibidem, p.47).
Quando os alunos reconheceram alguns personagens da narrativa A Bela Borboleta: Os Sete Anões, Branca de Neve, O Patinho Feio, O Gato-de-Botas e Peter Pan, eles ensaiaram o estabelecimento de relações entre os textos, no nível restrito. Dos 09 personagens inseridos na história da Bela Borboleta, eles identificaram apenas 05. Ao verificarmos que o reconhecimento dos personagens não se deu em sua totalidade, inferimos que essa omissão está relacionada à ausência de repertório de leitura, que limita o conhecimento prévio dos alunos. Nesse caso, compete ao mediador aproveitar as respostas dadas para instigar nos alunos o interesse para conhecer os outros personagens dessa narrativa. Para promover a intertextualidade, o professor pode fazer as seguintes questões, recorrendo às páginas do livro:
Qual(is) desse(s) personagem(s) chamou(aram) mais a sua

atenção?

Por que chamou sua atenção?

De onde vocês conhecem esses personagens?

Como era a história de cada personagem?

O que esses personagens, que são de outras histórias, estão

fazendo nesta narrativa?

O que eles faziam nas suas histórias?

Que outros personagens fazem parte desta narrativa?
Essas questões favorecem o conflito sócio-cognitivo (Almasi, 1995), ou seja, provocam o estabelecimento de relações que instigam aos leitores decifrarem o enigma do texto e conforme as respostas dadas, o professor deve expandir informações sobre os personagens e ainda solicitar aos alunos que narrem as histórias que eles conhecem, provocando a identificação e a comparação dos sentimentos manifestos dos personagens nos textos referenciais com o texto atual.

Observamos, nessa disposição, que a intertextualidade constitui-se em um desafio para que os alunos avancem nas relações que este recurso possibilita. Portanto, o mediador deve ter repertório de leitura para identificar os personagens e as narrativas intertextos, para, assim, assumir a atitude scaffolded/andaimagem, ou seja, ele deve expandir conhecimentos, estabelecer relações, clarificar aspectos obscuros do texto, apoiar os alunos nas suas intervenções, promovendo a mediação no ato da leitura. Professor e alunos, sabedores desse processo de relações entre os textos que circulam na sociedade, relacionando quem os produz e quem/como os recebe, torna-se mais fácil descobrir a gênese da leitura e, conseqüentemente, o espaço do leitor.

A leitura passa a ser percebida, na perspectiva de Smith (1991), como a inserção do texto num entrelaçamento de relações que envolvem as informações trazidas pelo próprio texto e as que compõem o repertório do leitor. Torna-se evidente que quanto maior o repertório de leitura mais possibilidades tem o leitor de realizar uma leitura mais sofisticada e interativa com o texto.

O professor, exercendo a atitude scaffolded, deve fazer uma síntese do perfil dos personagens nas histórias originais e encaminhar os alunos para estabelecerem relações com os personagens da narrativa atual.

A relação dos sentimentos/perfis de cada personagem em suas histórias do passado e do presente faz com que o leitor apreenda com mais facilidade o sentido que a esses personagens está sendo dado nesse texto, além de fazê-lo inferir o porquê de suas entradas nessa narrativa. Isto só é possível porque a ficção tendo a função de jogo, de simulação, favorece, sob o nosso ponto de vista, a entrada simultânea dos personagens e leitores na narrativa, ao ancorarmos em Eco (1994, p. 137) com a afirmação: Por meio da ficção, nós, leitores, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente. E assim, por analogia, os personagens vivenciam essa experiência por meio da intertextualidade, saindo dos seus livros e entrando no livro da Bela Borboleta.

Exemplificando, vejamos as relações entre dois personagens da história, suas características nas histórias originais e os papéis que desempenham na Bela Borboleta.


O Gato-de-Botas: O LÍDER.
Personagem central do conto de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1810) exerce o papel de líder. É esperto por concepção, e foi “herdado” por um garoto pobre, filho de um moleiro. É quem toma todas as iniciativas para arrumar a vida de seu amo, usando de artimanhas e inteligência, convencendo um rei de que seu amo era o “marquês de Carabá”, dono de vastos domínios. Assim o pobre amo consegue se casar com a princesa.

O Gato-de-Botas (atual) é o líder da ação, é ele quem arranja a luta, conservando sua condição original de esperteza, conforme o conto de Perrault/Grimm. E, sob sua liderança, perfilam-se os personagens convocados por ele e que estão presentes no imaginário das crianças.



Peter Pan: MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER.
É o personagem criado pelo romancista e dramaturgo inglês James M. Barrie (1860/1937). Apareceu pela primeira vez no conto O Pequeno Pássaro Branco. Mais tarde esse conto foi transformado na peça de teatro Peter Pan, o Menino que Não Queria Crescer, de 1904. Peter Pan sai da Terra do Nunca para salvar outros personagens. Na sua atuação revelam-se sentimentos de solidariedade, justiça, agilidade e coragem.
Na Bela Borboleta é o Gato de Botas que sai do seu próprio livro à procura de outros personagens, convocando-os para salvar a borboleta presa no livro. Os mesmos sentimentos que movem o Peter Pan estão presentes na atitude do Gato de Botas.
Portanto, a categoria intertextualidade, em sua discursividade, está evidenciada através do diálogo entre o texto O Gato-de-Botas de Charles Perrault (1697) e o dos irmãos Grimm (1810), o texto original de Peter Pan de James M. Barrie (1904), a versão de Peter Pan de Monteiro Lobato (1971) e o texto da Bela Borboleta de Ziraldo (1995).
Para que haja um entendimento maior dos comentários tecidos tomemos, como exemplos, alguns fragmentos de Peter Pan de Monteiro Lobato e o texto de Ziraldo.
Do texto A Bela Borboleta, analisemos este episódio:
Epa, epa, epa, epa, epa, epa, epa! ─exclamaram os Sete Anões.

Faça logo! ─Falou o Coelhinho do Relógio (Ziraldo, p.8).


O emprego da palavra epa (sete vezes – equivale ao número de anõezinhos na Bela Borboleta), seguido da fala do Coelho do Relógio, constatação essa que nos leva a Peter Pan, ao texto adaptado por Monteiro Lobato, neste episódio:
... o relógio bateu oito horas — bem, bem, bem,bem, bem, bem...

A senhora errou, Dona Benta! ─ berrou logo Emília, que não deixava escapar coisa nenhuma. ─ A senhora só bateu seis bens.



Dona Benta riu-se.

Não faz mal ─ disse ela. ─ Os dois que faltam ficam subentendidos. Mas o relógio bateu oito horas... (Monteiro Lobato, p.13).

Ao relacionar esses textos, identificamos a fonte em que beberam Ziraldo e Zélio para produzir A Bela Borboleta.

Vejamos ainda o episódio em que Wendy reconhece Peter Pan como o conhecedor de fadas:


__ A primeira fada apareceu no mundo no dia em que a primeira criança nascida deu a primeira risadinha.

__ Oh, nesse caso deve haver uma fada para cada criança do mundo, porque todas as crianças dão uma primeira risadinha – observou Wendy.

__ Assim devia ser – confirmou Peter Pan, __ se as fadas não fossem as criaturas mais fáceis de morrer que existem. Morrem como passarinhos. Cada vez, por exemplo, que uma criança diz que não acredita em fadas, morre uma delas. (Monteiro Lobato, p. 21-22).


__Eu não estou presa, porque cada vez que uma menina __ que gosta do Gato-de-Botas, por exemplo __ abre este livro e move as suas páginas, eu bato as minhas asas!
__ Eu não estou presa, porque, cada vez que o pai de um menino __ com saudades do Peter Pan __ tira este livro da estante e torna a passar suas páginas, eu volto a voar (Ziraldo, p.22-23).
O uso da expressão cada vez está presente na explicação dada pela borboleta como um determinante textual que nos remonta ao conteúdo do diálogo de Peter Pan e Wendy acerca do nascimento/morte das fadas, relacionado ao sorriso das crianças e ao discurso da borboleta acerca da fantasia peculiar à leitura de literatura. A borboleta se configura como a metáfora do livro e da fada. Cada vez que lemos a borboleta/livro fazemos renascer a borboleta/fada.
No episódio em que Peter Pan dá lições de vôo a Wendy.
__ Antes de mais nada vocês precisam tomar umas lições de vôo.

__ É assim __ e Peter Pan deu uma demonstração esvoaçando pelo quarto como se fosse uma borboleta (Lobato, p. 26).
Explicação da borboleta:
Eu vôo... quando alguém abre o livro e folheia minhas asas ou faz mover estas páginas ─terminou a borboleta toda emocionada, quase virando poeta (Ziraldo, p. 24).

Certamente o Peter Pan, não está presente na Bela Borboleta por acaso. Como o personagem que voa como uma borboleta, parece nos convidar a viajar nas páginas do livro/borboleta e seguir nesse vôo apaixonante da leitura num trânsito livre por mundos imaginários.

Assim na Bela Borboleta, por meio da intertextualidade, a tradição se une para enfrentar o presente, as forças se unem para enfrentar o presente ─ libertar a borboleta/livro.

Daí enfatizarmos que o professor como leitor mais experiente, deve conhecer as histórias clássicas para fazer a leitura desse texto. Pois, como afirma Eco (1994, p.132):


Levar a sério as personagens de ficção também pode produzir um tipo incomum de intertextualidade: uma personagem de determinada obra ficcional pode aparecer em outra obra ficcional e, assim, atuar como um sinal de veracidade.
É o que acontece com a obra ficcional A Bela Borboleta com a entrada dos personagens dos 07 contos de fadas originais, o que pode ser esclarecido por Eco (ibidem, p.132) quando diz:
Quando se põem a migrar de um texto para o outro,as personagens ficcionais já adquiriram cidadania no mundo real e se libertaram da história que as criou.
Nessa ação, os personagens são parte essencial desse texto novo que lhe imprimem nova pulsação, novos sentidos. Consigna-se assim o texto como o espaço textual: confluência, cruzamento sintático e semântico de textos existentes. A sintaxe narrativa da Bela Borboleta apresenta uma organização textual com elementos literários criativos e inovadores que revelam o caráter parodístico desta obra. Quando se atribuem papéis aos personagens dos contos de fada nessa narrativa, exerce-se um deslocamento, ou seja, recorre-se a um outro perfil que passa a ser protagonizado pelos personagens selecionados pelo autor.

Nessa perspectiva, Sant’Anna (2001, p.27-28), nos afirma que, Falar de paródia é falar de intertextualidade das diferenças, levando-nos à compreensão desse recurso literário como uma forma de inverter ou ampliar o sentido de um texto matriz, anunciando o novo, o diferente, criando um novo paradigma, um novo discurso, que se constrói numa relação dialógica com os textos que o antecedem.

Por fim, retomamos o ponto máximo desse jogo textual que A Bela Borboleta se firma, como um exemplo singular da relação intertextual e por apresentar um nível mais sofisticado de intertextualidade que é o revelar-se como um tema metalingüístico ─ o livro é intertexto do livro ─ que sob a ótica do autor, fala da sua finalidade, de que é feito para ser lido, dando um testemunho que o livro só é livro quando está nas mãos do leitor. Fechado, ele significa morte, repouso. É da sua natureza ─ querer estar sempre nas mãos dos leitores. O tema leitura é retomado como referência ao objeto livro e aos elementos que o compõe.

Em seu desfecho, confirmam-se as hipóteses: as fadas não estão mortas! Os contos de fadas devem ser vivificados tanto na produção quanto na recepção. Foi acreditando nessa premissa que as personagens saíram do livro A Bela Borboleta, retornando aos seus livros de origem como realçam, especificamente, os determinantes textuais presentes nas páginas 30 e 31, nas linguagens verbal e não-verbal dessa narrativa, que tematiza um convite implícito à leitura dos textos originais ─ os contos de fadas.



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