Intervenção no descerramento da placa evocativa do Patrono da Escola Secundária António Gedeão, em Almada, em 25 de Outubro de 2006



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Intervenção no descerramento da placa evocativa do Patrono da Escola Secundária António Gedeão, em Almada, em 25 de Outubro de 2006
Em ocasiões como estas, entende-se por vezes dizer palavras de circunstância. Por regra, não me inclino a fazê-lo.

Dizendo, naturalmente, o que penso e sinto, gosto, se possível, de ir um pouco mais longe, E quando isso não é possível, ou não é aconselhável, preferiria ficar calado. Esta atitude obriga a pensar no que se vai dizer e como se vai dizer, para que o pensamento não seja traído e se consiga transmiti-lo a quem ouve.


Já visitei esta Escola anteriormente e gosto de voltar cá porque gostei do que vi nessas ocasiões. Como compreenderão, tenho boas razões para ser particularmente sensível ao facto de ter sido dado à Escola o nome de António Gedeão, nome evocativo do poeta mas também do professor, atento e sensível, mas também austero e rigoroso, que terá procurado resguardar a sua intimidade por detrás do pseudónimo.

Entretanto, sou, sobretudo, sensível aos sinais da presença de António Gedeão — ou da sua memória — que nesta Escola se mantêm, se conservam e vão perdurando, na medida e como testemunho do interesse e empenhamento da comunidade que habita a Escola e lhe dá vida, num contexto de dificuldades e contingências que marcam o sistema educativo nacional e o País.


António Gedeão, o homem, o ser pensante, não se distingue do professor em cujo Bilhete de Identidade constava o nome de “Rómulo Vasco da Gama Carvalho”. Rómulo — Vasco da Gama — foi também, de algum modo, um descobridor. Começou por descobrir o caminho para o ensino, e escolheu o ensino dos jovens naquelas idades em que principiam a interrogar-se sobre a vida e o mundo. Descobriu esse caminho para si e descobriu para muitos outros um mundo de conhecimentos – o mundo da ciência - abrindo caminho a vocações, ao desfazer de dúvidas e hesitações, de muitos, que buscavam, por sua vez, os seus próprios caminhos. Descobriu também dentro de si a chave do caminho para o coração e a sensibilidade das pessoas, que a poesia encerra. E lembrou, com sentido pedagógico, que o artista e o cientista são ambos “construtores, (…) descobridores, (…) definidores: um, do mundo de dentro; outro, do mundo de fora”.
Não tenho dúvida em dizer, parafraseando Rómulo – Gedeão, que, em certo sentido, mais profundo do que poderá parecer, “a poesia comanda a vida”, e de algum modo faz também avançar o mundo.
Rómulo de Carvalho foi professor durante cerca de quarenta anos e nunca se arrependeu desse caminho que livremente escolheu. Como ele próprio diz, fê-lo por amor e porque entendeu assim ser útil aos outros, vontade de ser útil que o orientou ao longo da vida.

Por muito do que tenho vivido, visto e ouvido ao longo do tempo, acredito que Rómulo de Carvalho foi bem sucedido nesse objectivo.


A obra de Rómulo de Carvalho, sendo vasta e rica, surpreende talvez sobretudo, pela variedade da forma e do conteúdo. Vastidão, riqueza e variedade que demonstram a universalidade do seu génio, se me é permitida a expressão, que considero justa.
Na pedagogia e na didáctica, na investigação histórica e na sociologia, na poesia, na literatura e na expressão verbal em geral. Em todas estas áreas fez obra útil e notável. Mas também se aplicou na arte de fabricar objectos úteis, por exemplo, para o ensino da Física e a demonstração de leis físicas.

Praticou a carpintaria, construiu móveis, aprendeu a arte da encadernação. Ilustrou trabalhos seus e fotografou, designadamente, a sua cidade – Lisboa —, para conservar, para memória futura, alguns dos seus monumentos e lugares de interesse histórico, em fotografias rigorosamente anotadas com a informação pertinente respeitante a esses objectos urbanos que herdámos de um passado mais ou menos distante, e que tantas vezes são mal conhecidos e maltratados.


Importa dizer que todo o ser humano encerra em si potencialidades que as condições da vida e o ambiente social frequentemente não permitem que se manifestem e desenvolvam, até onde poderiam chegar se lhes fossem dadas asas para voar. Potencialidades que muitas vezes não chegam sequer a revelar-se. O ambiente familiar e social e, em larga medida, a Escola, partilham a responsabilidade do êxito ou do insucesso da construção pessoal desse ser humano, que vivendo, ele, em sociedade, virá a reflectir-se necessariamente na construção dessa mesma sociedade. Não é fácil distinguir com total acerto qual a distribuição dessa responsabilidade pelos vários intervenientes nem o peso dos factores inatos no desenvolvimento pessoal.
Entretanto, meu Pai tinha a noção aguda da sua responsabilidade pessoal como educador e como professor, nesse processo. E dá porventura mais valor à forma do que ao conteúdo do ensino. Ou, talvez melhor, mais ao método de estudar do que à matéria do estudo. É esta valorização do método, no estudo e do rigor no trabalho, que ressalta dos seus textos didácticos e leva, por exemplo, a que a leitura dos seus “Cadernos de Iniciação Científica destinados especialmente a jovens estudantes, mantenha hoje inegável interesse mais de 20 anos após a sua primeira publicação.
Na obra de Rómulo de Carvalho, tanto na obra científica como na obra literária, é constante a presença do passado, no sentido de trazer ao conhecimento do leitor, ou de lhe lembrar, a contribuição dos antepassados, homens e mulheres de todas as condições que ajudaram a construir e deram forma ao mundo e à sociedade que hoje conhecemos, e que caberá às novas gerações fazer evoluir e transmitir aos que virão depois. E é neste sentido que Rómulo de Carvalho faz notar que “Cada nova geração de homens que aparece no Mundo tem à sua disposição tudo quanto os homens antes deles pensaram e descobriram”. E acrescenta: “Podem até os novos repensar o que os seus antepassados já tinham pensado e acharem que estavam erradas as respostas que eles deram”. Para isso, digo eu, terão que observar, e voltar a observar os fenómenos naturais, a natureza, procurar uma explicação para o que observam e pô-la à prova, provocando uma experiência. “A experiência provocada é uma experiência científica”, ensina Rómulo de Carvalho, e sublinha que “Todo o conhecimento provém da experiência. A ciência que é conhecimento, provém da experiência”. O que não deve, naturalmente, entender-se, digo eu, como afirmação de que todo o conhecimento é científico. Certamente, do tal “mundo de dentro” mas também muitas vezes do “mundo de fora”.

Gostaria de terminar com uma breve referência que é um retrato expressivo da forma como Rómulo encarava a função do professor, referência que é extraída de um dos primeiros livros escolares que publicou, um Guia de Trabalhos Práticos de Química, editado em 1957, para aquilo que na altura se chamava 3º Ciclo do Ensino Liceal, e que, se não erro, corresponde hoje, aproximadamente, ao Ensino Secundário.


Numa breve introdução a abrir esse Guia, pode ler-se: “Um laboratório de Química presta-se optimamente à apreciação das qualidades dos estudantes. Basta olhar para as mesas e para o chão depois das aulas terminadas, para conhecermos as virtudes e os defeitos de cada um, no campo da actividade a que nos referimos.” E que era, essa actividade, diz o autor, a actividade pessoal que caracteriza o curso dos trabalhos práticos, actividade e liberdade de acção que deve ser encarada pelo estudante com muita seriedade e não como um passatempo.

Depois de referir a eventual desarrumação do material, tubos de ensaio sujos ou mal lavados, troca de rolhas nos frascos, etc., conclui dizendo: “O aluno deve efectuar o seu trabalho sem desordem e sem atropelos; deve proceder em cada momento da sua observação, convencido de que irá tirar proveito dela e não com a pressa indiferente de quem está ali apenas para se desobrigar de uma exigência do programa de estudos; deve deixar a sua mesa de trabalho arrumada e tão limpa quanto possível sem se sentir diminuído ou ridicularizado por ter de pegar num pano húmido e, com ele, lavar o tampo da mesa.”

Agradeço a vossa atenção.

Frederico Carvalho



25 de Outubro de 2006

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