Introdução 2 Narcisismo 4



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1.2. Perturbações pseudonarcísicas e neuroses pseudotransferencias

O relacionamento entre o foco do desenvolvimento dos impulsos instintivos objetais (o complexo de Édipo) e o foco do desenvolvimento no terreno narcísico (a fase de formação do self) ficará mais claro se compararmos duas formas-padrão de psicopatologia: a psicopatologia edípica nuclear escondida sob uma capa de perturbação narcísica e as perturbações narcísicas ocultas por trás de uma sintomatologia aparentemente edípica.


Quanto à primeira, basta uma breve observação. Todo analista já viu aparecerem paixões e angústias edipianas de trás de uma ampla capa de vulnerabilidade e queixas narcísicas e sabe que a cuidadosa observação de transferência edipiana também vai revelar de que modo as manifestações narcísicas estão relacionadas às experiências edipianas centrais.
Vai mostrar, por exemplo, como um sentimento de baixa auto-estima está ligado a comparações fálicas e a um sentimento de castração; como os ciclos de autoconfiança triunfante e de depressão que se alternam estão ligados a fantasias de sucesso edípico e à descoberta de se estar de fato excluído da cena primária, etc. É claro que não preciso alongar-me.
Passemos agora à Segunda forma-modelo de psicopatologia. Escolhi para estudar um tipo específico e um tanto complexo de perturbação narcísica, apesar de não ser muito comum, porque esse estudo é bastante instrutivo (é preciso acrescentar que são muito mais freqüentes os casos em que as feridas narcísicas sofridas pela criança na fase edípica levam à primeira fragmentação declarada do self).
Acho que, dentre as perturbações analisáveis, em princípio, esse tipo específico defronta o analista com uma de suas tarefas terapêuticas mais penosas e difíceis.
Esses pacientes inicialmente criam a impressão de que se trata de uma neurose clássica. Mas quando a psicopatologia aparente é abordada pelas interpretações, o resultado imediato é quase catastrófico: eles entram numa atuação selvagem, sobrecarregam o analista com exigências amorosas edipianas, ameaçam suicidar-se - em suma, ainda que o conteúdo (dos sintomas, das fantasias e da transferência manifesta) seja triangular edipiano, a própria maneira franca como são exibidos os desejos infantis e a ausência de resistências ao descobrimento desses desejos não estão de acordo com a impressão inicial.
Geralmente, aceita-se que a sintomatologia edipiana nesses casos (por exemplo, de “pseudo-histeria”) não é genuína.

Entretanto, diferentemente daquilo que creio que seja a opinião mais comum (isto é, de que estamos lidando com uma psicose oculta ou com personalidades cujo equilíbrio psíquico está ameaçado por grave fraqueza de ego), estou convencido de que muitos desses pacientes sofrem de perturbações narcísicas de personalidade, estabelecerão uma das formas de transferência narcísica e assim são tratáveis pela psicanálise2.


A psicopatologia nuclear desses indivíduos refere-se ao self. Tendo sido ameaçados quanto à conservação de um self coeso porque no início da vida lhes faltaram as respostas confirmadoras (“especulares”) adequadas por parte do ambiente, voltam-se para a auto-estimulação com a finalidade de reter a precária coesão de seu self experimentador e atuante. A fase edipiana, incluindo seus conflitos e suas angústias, tornou-se paradoxalmente um estimulante terapêutico, e sua própria intensidade é utilizada para contraditar a tendência à ruptura do self – exatamente como a criança pequena tenta utilizar a dor auto-infligida (por exemplo, batendo com a cabeça no chão) a fim de manter um sentido de estar viva e coesa. Os pacientes cuja psicopatologia manifesta serve a essa função defensiva reagirão às interpretações do analista relativas aos aspectos instintivos objetais de seu comportamento com o medo de perder o estímulo que evita a fragmentação; e responderão com uma intensificação da dramatização edipiana enquanto o analista não se voltar para a deficiência do self. Só quando um desvio no foco das interpretações do analista indica que ele está agora em proximidade empática do self em fragmentação do paciente é que estimulação do self através de experiências edipianas exageradas (dramatização na situação analítica, “acting-out”) começa a diminuir.
Talvez valesse a pena repetir neste ponto aquilo que, é claro, já disse em trabalhos anteriores: a única maneira segura de se estabelecer clinicamente o diagnóstico diferencial entre uma perturbação narcísica de personalidade e uma neurose transferencial clássica é a observação da transferência que emerge espontaneamente na situação analítica. Na neurose transferencial clássica, as vicissitudes das situações triangular edipiana vão revelar-se gradualmente. Mas, se estivermos lidando com uma perturbação narcísica da personalidade, haveremos então de testemunhar a emergência de uma das formas de transferências narcísicas, isto é, de uma transferência na qual as vicissitudes de coesão e fragmentação (transitória e reversível do self) estão correlacionadas às vicissitudes da relação do paciente com o analista.
Se quisermos declarar em termos metapsicológicos a diferença entre a neurose transferencial clássica e a perturbação narcísica de personalidade, teremos de focalizar a estrutura da psicopatologia. A propósito das duas diferentes perturbações-modelo mencionadas anteriormente, por exemplo, podemos dizer o que se segue. Nas pseudo-histerias, estamos lidando com pacientes que, por meio da estimulação que obtêm dos impulsos edipianos hipercatexizados, estão tentando manter a coesão de um self que se encontra em perigo. Uma sintomatologia abertamente edipiana é empregada para manter sob controle uma patologia oculta do self. Nas perturbações pseudonarcísicas, por outro lado, estamos lidando com pacientes que estão tentando chegar a um acordo não só com os conflitos, desejos e emoções instintivos objetais do período edípico, mas também – e eis um aspecto que é preciso sublinhar – com as feridas narcísicas a que seu self firmemente estabelecido esteve exposto dentro do contexto da experiência edipiana. Em outras palavras: a presença de aspectos narcísicos – e até a predominância inicial desses aspectos do quadro geral – não altera o fato de a psicopatologia essencial ser de uma neurose clássica.
 


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