Introdução 2 Narcisismo 4



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1.3. Inferioridade dos órgãos e vergonha


 

Meus comentários até aqui podem ser vistos como uma tentativa de arrumar a casa antes de partir para uma viagem. Em outras palavras, o trabalho sobre os aspectos libidinais do narcisismo está mais ou menos feito, mas quero ordenar a miscelânea antes de deixá-la para trás. A viagem deveria levar-nos para o território agreste da fúria narcísica e, mais tarde, para a longínqua região da psicologia de grupo. Mas uma olhadela num tópico que se situa em sua maior parte dentro da área já conhecida da catéxia libidinal do self, ainda que se estenda até o território ignoto do narcisismo e da agressão, poderá servir de ponte para o novo empreendimento. Permitam que me refira a esse tópico utilizando um nome que anda um tanto depreciado hoje em dia3 “inferioridade dos órgãos” (Adler, 1907).


Em suas “Novas Conferências Introdutórias” (1933, p. 66), Freud censurou o escritor Emil Ludwig – ainda que sem mencionar-lhe o nome. Em uma das novelas biográficas (1926) que constituíam sua especialidade, Ludwig interpretou a personalidade do Imperador Guilherme II de conformidade, com as teorias de Alfred Adler.
Ele atribuiu a presteza com que o Hohenzollern se sentiu ofendido e partiu para a guerra com reações a um sentimento de inferioridade dos órgãos. O Imperador nascera com um braço atrofiado. O membro defeituoso tornou-se uma ferida que ficou sensível através de toda a sua vida e resultou na formação do caráter que, segundo Ludwig, foi um dos importantes fatores que levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial.
Não é isso!, disse Freud. Não foi a lesão congênita em si que resultou na sensibilidade do Imperador Guilherme às feridas narcísicas, mas sim a rejeição que sofrera por parte de sua orgulhosa mãe, que não conseguiu aceitar a criança imperfeita.
Não é preciso fazer muito esforço para acrescentar os aperfeiçoamentos psicodinâmicos adequados à formulação genética de Freud. A falta de respostas “especulares” de confirmação e aprovação por parte da mãe impede a transformação da catéxia narcísica arcaica do self corporal do filho (essa transformação normalmente é conseguida com o auxílio da crescente seletividade de aprovação e de admiração da mãe).
Dessa forma, a catéxia narcísica intensa e grosseira do self corporal grandioso (no caso do Imperador Guilherme, o braço atrofiado) permanece inalterada e sua grandiosidade e seu exibicionismo arcaico não podem ser integrados ao restante da organização psíquica que pouco a pouco alcança a maturidade. Com isso, a grandiosidade e o exibicionismo arcaico ficam dissociados do ego ligado à realidade (“divisão vertical” do psiquismo) ou então ficam separados desse ego mediante repressão (“divisão horizontal”).
Privados da função mediadora do ego ligado à realidade, a grandiosidade e o exibicionismo arcaico, portanto, não mais serão passíveis de modificação sob influências externas ulteriores, ainda que algum dia essas influências sejam de aceitação e aprovação: isto é, não há possibilidade de uma “experiência emocional corretiva” (Alexander et al., 1946). Por outro lado, o self (corporal) grandioso-exibicionista arcaico vez por outra forçará suas exigências arcaicas, seja contornando a barreira de repressão através do setor verticalmente dissociado do psiquismo ou rompendo as frágeis defesas do setor central. E subitamente esse self arcaico inundará de catexias exibicionistas não neutralizadas o e o ego ligado à realidade e subjugará os poderes neutralizadores desse ego que ficará paralisado e experimentará vergonha e raiva intensas.
Não conheço bastante acerca da personalidade do Imperador Guilherme para poder avaliar se a formulação precedente realmente se aplica a ele. Mas creio que estou em terreno mais firme quando desconfio que Emil Ludwig não aceitou de bom grado a crítica de Freud. Seja como for, mais tarde ele escreveu uma biografia de Freud (Ludwig, 1947) que é a expressão sem disfarces da fúria narcísica – de fato, tão grosseira4 que mesmo aqueles que se opunham à psicanálise e a Freud consideraram um embaraço a vulgaridade do ataque de Ludwig e dele se descartaram. Seja como for, a propósito do Imperador Guilherme e de seu biógrafo, não tenho dúvidas quanto a que a ubíqua suscetibilidade em relação aos defeitos e falhas corporais pode ser facilmente explicada dentro do arcabouço metapsicológico das vicissitudes das catéxias libidinais do self grandioso e, em particular, do self corporal grandioso-exibicionista.
O tema do sentimento de inferioridade nas crianças a propósito das pequenas dimensões de seus órgãos genitais (no menino, em comparação com o pênis do homem adulto; na menina, em comparação com o órgão do menino) pode justificar algumas observações especiais.

A suscetibilidade das crianças a propósito de seus órgãos genitais atinge o ápice durante a fase fálica, que é fundamental no desenvolvimento psicossexual – as suscetibilidades tardias a propósito desses órgãos devem se compreendidas como resíduo (por exemplo, durante a latência) ou como revivescência (por exemplo, durante a puberdade) do exibicionismo da fase fálica.


A importância dos órgãos genitais durante a fase fálica é determinada pelo fato que, nesse período tais órgãos constituem transitoriamente a principal área do “narcisismo (corporal) da criança” – não apenas são os instrumentos de intensas interações (fantasiadas) libidinais objetais, mas também carregam catéxias narcísicas colossais (as catéxias narcísicas das fezes durante a fase anal e as catéxia narcísicas de determinadas funções autônomas do ego durante a latência são exemplos mais antigos e mais recentes de áreas principais do narcisismo infantil durante os estágios evolutivos precedentes e subseqüentes). Assim, os órgãos genitais são o ponto focal das aspirações e das suscetibilidades narcísicas da criança durante a fase fálica. Se tivermos presentes esses fatos e ainda insistirmos em que o componente exibicionista do narcisismo infantil, em sua maior parte, não está neutralizado, então compreenderemos também a importância, que muito se tem discutido, da inveja infantil do pênis. Esse tema tem despertado muita discussão cáustica e anticientífica, levando mesmo ao grotesco espetáculo de fileiras científicas de homens que atribuíam o fenômeno exclusivamente às mulheres e de fileiras de mulheres que negam sequer a existência ou a importância desse fenômeno.
Algumas das dificuldades podem ser resolvidas se levarmos em conta a intensidade das catéxias exibicionistas e particularmente se não subestimarmos a importância do órgão genital visível nesse contexto: em outras palavras, se tivermos presente que as exigências narcísicas do período fálico não são mais – mas também não são menos – que um importante exemplo de uma série de exigências de respostas especulares imediatas aos aspectos concretamente exibidos do corpo ou das funções físicas ou mentais da criança. E essa série de exigências é própria do desenvolvimento.
O fato de que o pênis vai crescer não serve de consolo para o menino; e o fato de que um aparelho complexo, embora invisível, estará amadurecendo e irá permitir à menina gerar filhos também não chega a consolá-la dentro do arcabouço da psicologia do exibicionismo infantil – não obstante a existência simultânea de outras fontes de gratificação narcísica direta, bem como de confirmação especular substitutiva, que favorece a aquisição de sublimação nas crianças dos dois sexos.
Também a vergonha do adulto quando outras pessoas olham para uma parte defeituosa de seu corpo – de fato, sua convicção de que os outros estão olhando para lá5!– se deve à pressão da libido exibicionista arcaica, não-transformada, com que o órgão defeituoso ficou catexizado.

O constrangimento, a propósito do órgão defeituoso e a tendência a corar quando esse órgão está sendo olhado por outras pessoas são os corolários psicológico e psicofisiológico da irrupção de catéxias exibicionistas não-transformadas (voltarei a esse tópico no contexto da metapsicologia da fúria narcísica).

 

1.3.1. O papel causal do narcisismo perturbado em determinados tipos de automutilação e de suicídio


 

Relacionadas às formulações precedentes sobre a “inferioridade dos órgãos” estão aquelas concernentes à automutilação dos psicóticos e a certos tipos de suicídio. Em relação tanto à automutilação quanto ao suicídio, precisamos discernir entre o motivo desses atos e a capacidade de executá-los.


Creio que, em muitos casos, a motivação para as automutilações dos psicóticos não se origina de conflitos específicos – tais como a culpa pelo incesto levando à remoção de um órgão que simboliza o pênis mau. Acho que isso se deve antes ao fato de ter ocorrido uma desagregação do self corporal e de os fragmentos desse self corporal que não podem ser retidos dentro da organização total do mesmo tornarem-se uma carga insuportavelmente dolorosa e por isso serem removidos. O esquizofrênico que (como o jovem do ensaio de Kleist sobre o teatro de marionetes) olha para o espelho durante horas ou dias está tentando unir, por meio do olhar, seu self corporal que está fragmentando. Se falharem esse e outros esforços semelhantes (por exemplo, a estimulação do self corporal total através da atividade física exagerada) no sentido de substituir as catéxias narcísicas que produzem a coesão, então o órgão será removido.
A compreensão da motivação da automutilação não é, por si mesma, suficiente para explicar a concretização de tais atos. Uma pessoa pode sentir em si mesma algo semelhante à ordem bíblica: “Se teu olho te ofende, arranca-o (Mateus, 18:9), mas não ser capaz de obedecer a tal comando. A capacidade de realizar um ato de automutilação grosseira depende, ao menos em alguns casos, do fato de o órgão que o psicótico remove perder sua catéxia libidinal narcísica; isto é, não faz mais parte do self e pode, portanto, ser posto fora como um corpo estranho. Essa explicação aplica-se a todos os casos nos quais o ato de automutilação é realizado tranqüilamente pelo paciente psicótico. As automutilações efetuadas durante estados de desvario emocional podem ter motivações diferentes e a capacidade de efetuá-las depende da concentração quase total da atenção do psicótico em alguns objetivos delirantes.
Então, a capacidade de realizar o ato não se baseia na fragmentação do self corporal, mas numa escotomização da percepção do psicótico – similar aos casos em que soldados, durante um ataque frenético às linhas inimigas, podem temporariamente deixar de dar-se conta do fato de haverem sofrido grave lesão física.
Considerações semelhantes também podem ser aplicadas a determinados tipos de suicídio no que se refere tanto à motivação que leva ao ato quanto à capacidade de realizá-lo. Esses tipos de suicídio, em sua maior parte, baseiam-se na perda da catéxia libidinal do self.

De maneira semelhante a certas automutilações, esses suicídios não se originam de conflitos estruturais específicos – não constituem, por exemplo, um passo dado no sentido de expiar a culpa edípica. Caracteristicamente, esses suicídios são precedidos, não de sentimento de culpa, mas de sentimentos de vazio e de desalento insuportáveis ou então de vergonha intensa, isto é, são precedidos de sinais de profunda perturbação no território das catéxias libidinais do self.

 



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