Introdução 2 Narcisismo 4



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1.4. Narcisismo e agressão


 

A hipótese de que há uma tendência a matar profundamente enraizada na composição psicobiológica do homem e de que essa tendência se origina de seu passado animal – em outras palavras: a suposição de que existe no homem uma propensão inerente em direção à agressão (bem como a conseqüente conceituação da agressão como instinto) protege-nos contra o engodo da confortadora ilusão de que a belicosidade humana poderia ser facilmente abolida, bastando para isso que nossas necessidades materiais fossem satisfeitas. Mas essas formulações amplas contribuem pouco para a compreensão da agressão como fenômeno psicológico. É obvio que não basta dizer que fenômenos tais como a beligerância, a intolerância e a perseguição se devem à regressão do homem em direção à expressão indisfarçada do impulso instintivo. E a queixa freqüentemente ouvida de que a pequena espessura da camada civilizada da personalidade humana é que é responsável pelos males efetuados pela agressão humana é atraente em sua simplicidade, mas não acerta o alvo.


É verdade que os protagonistas da mais horrenda das manifestações de agressão na história da moderna civilização ocidental proclamaram em alto e bom som que seus atos destrutivos foram realizados a serviço de uma lei da natureza. Os nazistas justificaram sua guerra e o extermínio daqueles que consideravam fracos e inferiores olhando seus malfeitos através da ótica de um darwinismo vulgarizado: o direito inerente do mais forte, a sobrevivência da raça mais apta para o bem da humanidade. Ma não acredito que, apesar das teorias deles próprios, possamos chegar mais perto da compreensão do fenômeno nazista concebendo-o como uma regressão em direção ao biologicamente simples, em direção ao comportamento animal – seja essa regressão louvada, como o foi pelos próprios nazistas, ou condenada e desprezada, como o acabou sendo pelo resto do mundo.
No final das contas, seria agradável se conseguíssemos explicar as coisas dessa maneira, isto é, se pudéssemos declarar – numa aplicação simplista de um princípio do tipo Mal-Estar – na Civilização – que Hitler explorou s a facilidade com que uma nação civilizada abandona a estreita camada de seus freios, levando aos indescritíveis acontecimentos da década de 1935-1945. Mas a verdade é – e precisamos tristemente admitir – que tais eventos não são bestiais no sentido primário do termo, mas sim decididamente humanos. Constituem parte intrínseca da condição humana, um fio da teia do complexo padrão que configura a situação humana. Enquanto nos afastarmos desses fenômenos com terror e repulsa e indignadamente declararmos que constituem um retorno à barbárie, uma regressão ao animalesco e ao primitivo, na verdade estaremos privando-nos de uma oportunidade para aumentar nossa compreensão da agressividade humana e nosso domínio sobre ela.

O psicanalista não deve, portanto, eximir-se da tarefa de aplicar ao campo da história o saber que tem acerca do indivíduo, em particular de aplicá-lo ao papel crucial da agressão humana no moldar a história do homem. E minha convicção é de que haveremos de alcançar resultados palpáveis devotando nossa atenção à agressão humana na medida em que surge da matriz do narcisismo arcaico, isto é, ao fenômeno da fúria narcísica.


A agressão humana é mais perigosa quando está ligada às duas grandes constelações psicológicas absolutistas: o self grandioso e o objeto onipotente arcaico. E a destrutividade humana mais pavorosa não é encontrada em forma de comportamento primitivo, regressivo e selvagem, mas sim em forma de atividades metódicas e organizadas nas quais a destrutividade daqueles que as executam está amalgamada com a absoluta convicção acerca de sua própria grandeza e com a devoção que têm às figuras onipotentes arcaicas. Poderia apoiar essa tese citando os discursos autocompadecidamente jactanciosos e idólatras de Himmler, dirigidos aos quadros dos SS que eram executores da política de extermínio dos nazistas (ver Bracher, 1969, p. 422-423; ver também Loewerberg, 1971, p. 639) -, mas sei que me perdoarão se eu não expuser aqui essas provas.

 

2. A Fúria Narcísica


 

Em sua forma sem disfarces, a fúria narcísica é uma experiência familiar que, em geral, o observador empático do comportamento humano identifica com facilidade. Mas qual é sua essência dinâmica? Como deveria ser classificada? Como deveríamos delinear o conceito e definir a significação do termo?


Responderei inicialmente à última dessas perguntas, todas interligadas. Falando estritamente, a expressão fúria narcísica refere-se apenas a uma faixa específica do amplo espectro de experiências que se estende desde ocorrências triviais, como um aborrecimento passageiro que sentimos quando alguém deixa de corresponder a nosso cumprimento ou de reagir à nossa piada, até transtornos assustadores, como o furor do catatônico e as querelas dos paranóicos. Mas, seguindo o exemplo de Freud (1921, p. 91), vou usar o termo a potiori e referir-me a todos os pontos do espectro como fúria narcísica, de vez que, com essa designação, estamos indicando a mais característica ou a mais bem conhecida de uma série de experiências que não somente formam uma continuidade, mas, com todas as suas diferenças, estão essencialmente relacionadas entre si.
E que é que têm em comum todas essas experiências diferentes que designamos pelo mesmo nome? A que categoria psicológica pertencem todas elas? Quais são suas determinantes comuns? E qual é sua substância metapsicológica comum?
É auto-evidente o fato de que a fúria narcísica pertence ao extenso campo psicológico da agressão, da raiva e da destrutividade, e que constitui fenômeno circunscrito específico dentro dessa grande área. Além do mais, do ponto de vista da psicologia social, a fúria narcísica é claramente análoga à componente de luta da reação de luta-e-fuga com que os organismos biológicos respondem ao ataque. Dito de modo mais específico é fácil observar que o indivíduo narcisicamente vulnerável responde à ferida narcísica real (ou antecipada), seja com uma retirada tímida (fuga) ou com fúria narcísica (luta).
De vez que a fúria narcísica é claramente manifestação da tendência humana para respostas agressivas, alguns analistas acreditam não haver necessidade de outras explicações, visto que já está estabelecido o contexto causal pré-consciente em que se espera que ocorra.
Alexander, por exemplo, tratou desse importante fenômeno psicológico identificando sua posição numa seqüência típica de atitudes pré-conscientes e conscientes. Ele tentou esclarecer a significação psicológica e a posição metapsicológica da vergonha e da raiva, duas fundamentais manifestações vivenciais e comportamentais do equilíbrio narcísico perturbado, num artigo (1938) que influenciou importantes trabalhos de inúmeros autores (por exemplo, Saul, 1947; Piers e Singer, 1953; e com mais amplos aperfeiçoamentos individuais, Eidelberg, 1959, e Jasobson, 1964). Nessa contribuição, ele apresentou o esquema de um ciclo autoperpetuador de fenômenos psicológicos: artifício explicativo que é atraente por sua clareza pedagógica e por sua similaridade com formulações convincentemente utilizadas em outros ramos da ciência – por exemplo, na física.
Alexander descreve o ciclo dinâmico de hostilidade à culpa à submissão à agressão reativa à culpa etc. Assim, restringe-se a explicar a fúria narcísica (em seus termos: a agressão reativa que se segue à submissão vergonhosa) no contexto da dinâmica causal das experiências pré-conscientes e do comportamento ostensivo, sem pesquisar o fenômeno em profundidade, isto é, sem tentar descobrir suas dimensões inconscientes e suas raízes evolutivas.
A fúria narcísica ocorre sob muitas formas; mas todas elas compartilham um matiz psicológico específico que lhes confere posição distinta dentro do vasto território da agressão humana. A necessidade de vingar-se, de reparar uma afronta, de desfazer uma ofensa a qualquer custo, e a compulsão inexorável, profundamente enraizada, de perseguir todos esses objetivos e que não dá sossego àqueles que sofreram uma ferida narcísica – esses são os aspectos característicos da fúria narcísica em todas as suas formas e que a distinguem das outras espécies de agressão. E qual a importância específica das feridas psicológicas (tais como o ridículo, o desprezo, a derrota ostensiva) que tendem a provocar a fúria narcísica? E como é que essas provocações externas interagem com os aspectos suscetibilizados da personalidade tendente à fúria e à vingança?
Ruth Benedict (1946) atribui a tendência à fúria narcísica nos japoneses, por exemplo, aos métodos de educação das crianças através do ridículo e da ameaça de ostracismo, bem como à importância sociocultural que esse povo dá à conservação do decoro. Portanto, não é de admirar, diz Benedict, que “algumas vezes as pessoas tenham explosões em atos da máxima agressividade. Elas não partem para essas agressões quando seus princípios ou sua liberdade são desafiados [...], mas sim quando percebem um insulto ou uma calúnia” (p.293).
O desejo de transformar uma experiência passiva numa experiência ativa (Freud, 1920, p.16), o mecanismo de identificação com o agressor (A. Freud, 1936), as tensões sádicas retidas por aqueles que na infância foram tratados sadicamente pelos pais – todos esses fatores ajudam a explicar a presteza com que o indivíduo tendente à vergonha responde a uma situação potencialmente provocadora de humilhação, por meio de um simples remédio: infligir ativamente (muitas vezes antecipadamente) aos outros as feridas narcísicas que ele próprio mais teme sofrer. O Sr. P., por exemplo, excessivamente tendente à vergonha e narcisicamente vulnerável, era mestre numa forma específica de sadismo social.
Embora pertencesse a uma família conservadora, tornara-se muito liberal em seus pontos de vista sociais e políticos. Estava sempre ávido por informar-se a acerca da origem nacional e religiosa de seus conhecidos e, declarando-se racional e sem preconceitos, constrangia-os em reuniões sociais introduzindo na conversa o assunto de sua situação minoritária. Embora se defendesse contra o reconhecimento da significação de suas perversas manobras através de racionalizações muito bem-acabadas, com o tempo se deu conta de que experimentava uma excitação de colorido erótico nessas ocasiões. Conforme sua descrição, havia um rápido momento de silêncio na conversa durante o qual a vítima lutava para recuperar a tranqüilidade depois que a atenção pública se havia dirigido para sua desvantagem social e, embora todas agissem como se não tivesse percebido o constrangimento da pessoa vitimada, a significação emocional da situação era clara para todo mundo.

À medida que o Sr. P. foi compreendendo a verdadeira natureza de seus ataques sádicos através de exposição pública do defeito social dos outros e à medida que foi aprofundando o conhecimento de seu próprio medo de se expor e do ridículo, foi também sendo capaz de lembrar-se de violentas emoções de raiva e vergonha que sofrera na infância. Sua mãe, filha de um pastor fundamentalista, não somente costumava constranger e humilhar o menino em público, mas também insistia em expor e inspecionar-lhe os órgãos genitais – dizia ela que era para descobrir se ele se havia masturbado. Quando criança tinha feito fantasias de vingança – os precursores de suas atuações sádicas atuais – nas quais expunha cruelmente sua mãe aos olhares de espanto dele próprio e de outras pessoas. Mas o sadismo aumentado, a adoção de uma política de ataque preventivo, a necessidade de vingança e o desejo de tornar ativa uma experiência passiva6 não dão uma idéia completa de alguns dos aspectos mais característicos da fúria narcísica. Em suas formas típicas, há uma total desconsideração pelas restrições racionais e um desejo limitado de reparar a ferida e alcançar vingança. A irracionalidade da atitude vingativa torna-se ainda mais assustadora diante do fato de que – nas personalidades narcísicas, tanto quanto nos paranóicos – a capacidade de raciocinar está, na maioria das vezes, não somente intacta, mas até mesmo aumentada, enquanto sob o domínio e a serviço de uma emoção avassaladora. (Esse perigoso aspecto da psicopatologia individual é equivalente a um fenômeno social igualmente maligno: a subordinação da classe racional dos técnicos a um líder paranóico e a eficiência – e mesmo o brilhantismo – de sua cooperação amoral ao realizar os desígnios desse líder)7.






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