Introdução 2 Narcisismo 4



Baixar 173.95 Kb.
Página5/8
Encontro11.07.2018
Tamanho173.95 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8

2.1. Dois fenômenos relacionados à fúria narcísica


 

Passo agora a examinar duas formas de ódio que estão relacionadas à fúria narcísica: a raiva de uma pessoa que, devido a deficiência ou lesão cerebral, é incapaz de resolver determinados problemas simples e a raiva de uma criança que sofreu um ferimento doloroso de pouca importância.


 

2.1.1. A “reação catastrófica” e outras ocorrências semelhantes


 

Se uma pessoa com lesão cerebral não obtém sucesso ao esforçar-se para realizar alguma tarefa que deveria ser efetuada facilmente – por exemplo, dizer o nome de um objeto familiar ou então colocar uma peça redonda ou quadrada na abertura adequada -, essa pessoa pode responder à sua incapacidade com a raiva intensa e frenética que é conhecida como “reação catastrófica” (Goldstein, 1948)8. Essa raiva deve-se ao fato de repentinamente a pessoa deixar de ter o controle de seus próprios processos de pensamento, de uma função que é considerada a mais intimamente própria de cada um – isto é, como parte do self. “Não deve ser! Não pode ser!” Sente o afásico quando se vê incapaz de dizer o nome de um objeto familiar, como um lápis: e a maneira furiosa pela qual se recusa a aceitar a desagradável verdade de que é realmente incapaz fica ainda aumentada pelo fato de sua fala espontânea poder estar relativamente preservada e de seu sensório estar claro.


Consideramos que nossos processos de pensamento pertencem ao núcleo de nosso self e recusamo-nos a admitir que possamos não ter controle sobre eles. Estar privado da capacidade de nomear um objeto familiar ou de resolver um problema simples é algo que se experimenta como ainda mais inacreditável que a perda de um membro. Podemos ver nosso próprio corpo e uma vez que a percepção está primariamente dirigida para o mundo exterior, é mais fácil pensar sobre ele em termos objetivos. Mas consideramos os processos de pensamento, que são invisíveis, inseparáveis de nosso próprio self ou então coincidentes com ele. É possível, portanto, viver o luto pela perda de um membro, como pela perda de um objeto amado9; mas uma falha no território de nossas funções mentais é vivida como uma perda do próprio self.
Uma variante atenuada da reação catastrófica é familiar a todo o mundo: o aborrecimento que sentimos quando não conseguimos lembrar uma palavra ou nome. E nossos pacientes, especialmente no início da análise, experimentam os lapsus linguae e as outras manifestações do inconsciente como feridas narcísicas. Ficam com raiva por causa da súbita exposição de falta de onipotência na área de sua própria mente – e não por terem exposto um desejo ou uma fantasia inconsciente específica. “[...] o vestígio de afeto que se segue à revelação do lapso” diz Freud, “é evidentemente da mesma natureza do sentimento de vergonha [...]” (1901. p. 83).
É instrutivo observar nosso próprio comportamento em seguida a um lapsus linguae, especialmente em circunstâncias (tais como numa conferência) em que nosso exibicionismo está mobilizado. A reação da vítima ao perceber que a platéia está se divertindo é muito específica: ou declara que a revelação foi intencional ou afirma compreender o significado do lapso e poder interpretá-lo pessoalmente.

Com isso nossa tendência imediata é de negar a perda do controle mais que de esconder o conteúdo inconsciente. Ou seja, dito de outra maneira: a motivação primária de nossa atividade defensiva é a humilhação decorrente de uma falha no território do self grandioso onipotente e onisciente, e não a culpa pelo impulso proibido inconsciente, sexual ou agressivo, que foi revelado.


A preocupação exagerada com a situação na qual a pessoa sofreu uma ferida narcísica humilhante (por exemplo, uma gafe) deve ser compreendida semelhantemente, como furiosa tentativa de erradicar a realidade do incidente através de métodos mágicos, mesmo a ponto de desejar que o chão se abra para poder desaparecer e apagar a recordação que a atormenta.
 

2.1.2. A reação da criança aos ferimentos dolorosos


 

O outro fenômeno que esclarece a significação da fúria narcísica é a reação emocional das crianças aos ferimentos leves. Quando uma criança tropeça ou prende o dedo numa porta, sua resposta expressa uma quantidade de sentimentos. Poderíamos dizer, com Freud (1926), que nos sentimentos da criança “algumas coisas parecem estar presas às outras [...] e mais tarde serão separadas” (p.169). A criança expressa não somente a dor física e o medo, mas também seu narcisismo ferido. “Como pode ser? Como pode ter acontecido tal coisa?” parecem perguntar seus gritos enfurecidos. E é instrutivo observar como ela pode oscilar entre protestos enfurecidos contra a imperfeição de seu self grandioso e censuras raivosas contra o selfobjeto onipotente que permitiu que acontecesse o fato10.

 

2.2. O conteúdo vivencial da fúria narcísica


 

As diversas formas de fúria narcísica, a reação catastrófica do portador de lesão cerebral e a raiva da criança que se vê repentinamente sujeita a um ferimento doloroso são experiências muito distantes entre si quanto ao impacto psicológico e às conseqüências sociais que possam ter. E, no entanto, por trás de todos esses estados emocionais está a insistência intransigente na perfeição do selfobjeto idealizado e na inexistência de limites ao poder e ao saber de um self grandioso que deve continuar sendo o equivalente do “prazer puro” (Freud, 1915, p.136). O fanatismo da necessidade de vingança e a compulsão sem fim a acertar as contas após uma ofensa não são, portanto, atributos de uma agressividade que está integrada aos propósitos adultos do ego – ao contrário, tal obsessão mostra que a agressão foi mobilizada a serviço de um self grandioso arcaico e que se desenvolveu dentro do plano de uma percepção arcaica da realidade. O indivíduo tendente à vergonha, que está pronto a experimentar as contrariedades como feridas narcísicas e a responder-lhes com raiva insaciável, não reconhece seu opositor como um centro de iniciativa independente com que casualmente está em contradição.



As agressões empregadas na luta pelas causas maduramente experimentadas não são ilimitadas. Por mais que sejam vigorosamente mobilizadas, seu objetivo é definido: a derrota do inimigo que interrompe o caminho que conduz à meta desejada. Por outro lado, aquele que sofreu uma ferida narcísica não consegue sossegar enquanto não tiver reduzido a pó um agressor vagamente percebido que se atreveu a contrariá-lo, a discordar dele ou a brilhar mais que ele. “Mágico espelho meu, haverá no mundo alguém mais bonito do que eu” pergunta o self grandioso-exibicionista. E quando se lhe diz que há alguém mais bonito, ou mais forte, ou mais inteligente, então, com a perversa madrasta da Branca de Neve, ele nunca mais terá sossego, pois nunca mais conseguirá apagar a evidência que desmentiu sua convicção de ser singular e perfeito.
O opositor que é alvo de nossas agressões adultas é percebido como distinto de nós mesmos, quer o ataquemos porque nos atrapalha em nossa tentativa de alcançar nossas metas libidinais objetais, quer o odiemos porque interfere na satisfação de nossos desejos narcísicos integrados à realidade. Mas o inimigo que desperta a fúria arcaica daquele que é narcisicamente vulnerável é visto por este, não como fonte autônoma de impulsos, mas como falha numa realidade narcisicamente percebida. O inimigo é parte recalcitrante do próprio self expandido sobre o qual a pessoa narcisicamente vulnerável contava exercer pleno controle. Em outras palavras, o fato puro e simples de a outra pessoa ser independente ou diferente é experimentado como ofensivo por aqueles que têm intensas necessidades narcísicas.
Agora ficou claro que a fúria narcísica surge quando o self ou o objeto deixa de viver de acordo com as expectativas dirigidas às suas funções – seja pela criança que insiste, de maneira mais ou menos adequada à fase, na grandiosidade e na onipotência do self e do selfobjeto, seja pelo adulto narcisicamente fixado, cujas estruturas narcísicas arcaicas não foram transformadas por terem ficado isoladas do restante do psiquismo em crescimento, em conseqüência da frustração traumática das exigências narcísicas infantis adequadas à fase. Ou então, para descrever a modalidade psicodinâmica em outros termos, podemos dizer: embora todo o mundo tenda a reagir com constrangimento e raiva às feridas narcísicas, as experiências mais intensas de vergonha e as mais violentas formas de fúria narcísica surgem em indivíduos para os quais é indispensável um sentimento de controle absoluto sobre o ambiente arcaico porque a conservação da auto-estima – e, de fato, a do próprio self – depende da disponibilidade incondicional de um selfobjeto especular que aprove e confirme ou de um selfobjeto idealizado que permita a fusão.
Ainda que sejam diferentes as suas manifestações, todos os casos de fúria narcísica têm alguns aspectos em comum porque todos surgem da matriz de uma visão do mundo narcísica ou pré-narcísica. O modo arcaico de vivenciar explica porque todos aqueles que estão possuídos de fúria narcísica mostram total falta de empatia para com aquele que os ofendeu. Isso explica o desejo intransigente de lavar a ofensa que foi cometida contra o self grandioso e a fúria implacável que surge quando se perde o controle sobre o selfobjeto especular ou quando o selfobjeto onipotente não está disponível. E o observador empático há de compreender a importância mais profunda do estímulo aparentemente insignificante que provocou o ataque de fúria narcísica e não vai surpreender-se pela gravidade aparentemente desproporcional da reação.
É claro que essas considerações também são válidas dentro do contexto da situação psicanalítica. Todo mundo tente a reagir à psicanálise como a uma ferida narcísica porque ela desmente nossa convicção de que temos total controle sobre nossa mente (Freud, 1917b.). Mas as mais graves resistências narcísicas contra a análise aparecerão naqueles pacientes cuja necessidade arcaica de se proclamarem oniscientes e de pretenderam ter total controle tiver permanecido relativamente sem modificações por terem sido eles privados (seja muito rapidamente ou de maneira inadequada à fase) de um selfobjeto onisciente ou por terem recebido confirmação inadequada para a convicção de perfeição do self apropriada à fase.

 



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal