Introdução 2 Narcisismo 4



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2.3. A fúria narcísica pode ficar sob o domínio do ego?


 

Será que a fúria narcísica pode ser subjugada, isto é, será que ela pode ficar sob o domínio do ego? A resposta a essa pergunta é afirmativa – mas é preciso restringir e definir o “sim”.


Durante a análise de uma perturbação narcísica da personalidade, quando uma parede defensiva de tranqüilidade aparente (que tinha sido mantida à base do isolamento social, do distanciamento e da superioridade fantasiada) começa a ceder, temos então o direito de considerar o aparecimento da fúria narcísica, de repentinos ataques de fúria às feridas narcísicas, como sinal de afrouxamento de uma estrutura rígida de personalidade e, portanto, como sinal de progresso analítico. Portanto, esses desenvolvimentos não devem ser censurados pelo analista nem tampouco precipitadamente identificados como uma parte do mundo psicológico arcaico, mas devem, por algum tempo, ser aceitos como aprovação implícita. No entanto, quer tivesse estado presente desde o início da análise do analisando narcísico, quer tenha surgido após o afrouxamento terapêutico de sua personalidade essa fúria não deve ser confundida com a agressão madura. A fúria narcísica escraviza o ego e só lhe permite funcionar como seu instrumento e seu racionalizador. A agressão madura está sob o controle do ego, e o grau de sua neutralização é regulado por esse ego em conformidade com os propósitos para os quais é empregada. Portanto, a mobilização da fúria narcísica não é um pouco final em análise, mas o início de nova fase – uma fase de elaboração que é concluída quando o domínio do ego nesse setor da personalidade já estiver estabelecido.
A transformação da fúria narcísica não é conseguida diretamente – por exemplo, através de apelos ao ego no sentido de que aumente o controle sobre os impulsos de raiva -, mas de modo indireto, secundariamente à gradual transformação da matriz do narcisismo da qual surgiu a fúria. O exibicionismo e a grandiosidade arcaicos do analisando devem ser gradualmente transformados em auto-estima inibida em seus objetivos e em ambições realistas; e seu desejo de fundir-se num selfobjeto onipotente arcaico deve ser substituído por atitudes que estejam sob o controle do ego – por exemplo, pelo entusiasmo por ideais significativos e pela devoção a esses ideais. Concomitantemente com essas transformações, a fúria narcísica cederá de modo gradual e as agressões maduramente ajustadas do analisando passarão a ser empregadas a serviço de um self firmemente estabelecido e de valores ciosamente acalentados.
O abandono das exigências narcísicas – a pré-condição para o abrandamento da fúria narcísica – não é, porém, absoluto. (Nesse contexto, ver Tausk, 1913.). Ao admitir a existência de uma vida psíquica inconsciente, por exemplo, nós, analistas, não estamos renunciando incondicionalmente a uma posição narcísica que manteve a coesão dos selves, mas desviando o foco de nosso narcisismo para diferentes conteúdos ideacionais e ajustando a neutralização das catéxias narcísicas. Em vez de sustentar nosso sentido de autoconfiança através da crença de que nossa consciência tem um âmbito que abrange tudo, adquirimos agora um novo auto-respeito a partir dos derivados do relacionamento com um selfobjeto onisciente e onipotente, tais como o prazer pela aprovação dada pelo superego à resistência com que toleramos os aspectos desagradáveis da realidade ou a alegria que sentimos por temos vivido de acordo com o exemplo de uma figura admirada de mestre – Freud.
A ênfase que ponho no fato de o narcisismo não precisar ser destruído, mas poder ser transformado, está de acordo com o apoio que dou a uma atitude que não seja hipócrita em relação ao narcisismo como força psicológica sui generis que tem sua própria linha de desenvolvimento e que não deveria – nem poderia realmente – ser abandonada. Também na situação psicanalítica uma atitude destituída de hipocrisia por parte do analista em relação ao narcisismo, a familiaridade desse analista com as formas e transformações dessa constelação psíquica e o reconhecimento despojado de crítica de seu valor biológico e sócio-cultural hão de reduzir a resistência e a fúria narcísica do analisando contra o processo analítico. A objetividade tolerante do analista em relação ao narcisismo do paciente não pode, é claro, suprimir toda a resistência e a fúria narcísica, mas há de reduzir a resistência inespecífica inicial contra um processo em que outra pessoa pode saber algo sobre os pensamentos e desejos de alguém antes mesmo que esse alguém os conheça. Além do mais, através da redução das resistências narcísicas inespecíficas torna-se mais fácil o reconhecimento das resistências narcísicas específicas como repetição e como transferência. Portanto, o analista não deve inicialmente aliar-se de maneira indiscriminada ao ego do paciente voltado para a realidade quando esse ego rejeita as exigências de um self grandioso não-transformado ou quando tenta negar a persistente necessidade infantil de total controle sobre o selfobjeto narcisicamente investido11. Ao contrário, o analista deve mesmo ser compreensivamente tolerante em relação à fúria que surge no paciente quando suas necessidades narcísicas não são total e imediatamente satisfeitas. Se o analista conservar sua atitude empática em relação à fúria que surge no paciente quando suas necessidades narcísicas não são total e imediatamente satisfeitas. Se o analista conservar sua atitude empática em relação às necessidades do paciente e em relação à sua raiva e se, em resposta a essa atitude do analista, o ego do paciente voltado para a realidade também aprender a aceitar compreensivamente as exigências do self grandioso e sua tendência para a fúria, haverá então uma redução daquelas resistências inespecíficas nas quais o paciente que se sente tratado como uma criança birrenta começa de fato a comportar-se como uma criança birrenta incompreendida.
Só então serão mobilizadas as resistências específicas contra o descobrimento das necessidades, desejos e atitudes específicos reprimidos. As resistências narcísicas inespecíficas, em geral, são acompanhadas de muita raiva; as resistências específicas são, porém habitualmente caracterizadas pela presença de hipocondria e de outros medos indefinidos. A reativação transferencial da necessidade original de aprovação através de uma atitude especular, bem como a necessidade de fundir-se num objeto arcaico idealizado, faz crescer a tensão narcísica e leva à hipocondria; e cria o terror indefinido de ter de sofrer outra vez a antiga rejeição por parte de um ambiente que não responderá empaticamente às necessidades narcísicas infantis reativadas.

 



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