Introdução 2 Narcisismo 4



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2.4. A transformação da fúria narcísica em agressão madura


           

Muitas vezes, é mais revelador examinar os fenômenos transicionais do que as extremidades de um espectro de manifestações contrastantes; e muitas vezes é mais instrutivo estudar pontos intermediários numa seqüência de desenvolvimento do que comparar o início com o final desse desenvolvimento. Essa máxima é verdadeira para o estudo da transformação da fúria narcísica em agressão madura: as estações intermediárias nesse desenvolvimento e as imperfeições remanescentes merecem nossa atenção.


O paciente A não conseguia que seu superego insuficientemente idealizado lhe proporcionasse o fornecimento interno adequado de apoio narcísico (ver a discussão desse caso em Kohut, 1971, p. 57-73) e precisava da aprovação externa para poder conservar seu equilíbrio narcísico. Conseqüentemente tornou-se muito dependente de figuras idealizadas de seu ambiente, das quais almejava louvor. Cada vez que essas figuras deixavam de responder por não perceberem sua necessidade, ele se enfurecia e as criticava amarga e sarcasticamente durante as sessões analíticas. Mas quando seu defeito estrutural melhorou, em resultado de extensa elaboração de sua transferência idealizadora, sua fúria modificou-se. Ele continuou a queixar-se dos atuais representantes da figura idealizada arcaica (seu pai, que o tinha desapontado no início de sua vida), mas seus ataques tornaram-se menos amargos e sarcásticos, adquirindo uma mescla de humor e ficando mais de acordo com as deficiências reais daqueles a quem criticava. E houve outra modificação notável: enquanto anteriormente ele alimentava suas querelas no isolamento (mesmo nas sessões analíticas, suas queixas tinham predominantemente a forma de solilóquio e não de mensagem), agora se aliava aos colegas de trabalho e era capaz de desfrutar, em agradável camaradagem com eles, do prazer de prolongados bate-papos dos quais os patrões eram “dissecados”. Em estágios posteriores da análise quando o paciente já tinha dominado grande parte de suas dificuldades psicológicas e especialmente quando haviam desaparecido determinadas fantasias homossexuais de que muito se envergonhava, ainda havia evidências de alguma raiva das figuras idealizadas eu que lhe negavam aprovação – mas agora havia não somente humor benigno em vez  de sarcasmo e companheirismo em vez de isolamento, mas também, a capacidade de ver alguns aspectos positivos lado a lado com os defeitos naqueles a quem criticava.
Outro exemplo clínico: o paciente P., cuja atitude em relação ao filho de oito anos de idade era muito reveladora12. Em geral, mantinha boas relações com o menino e passava grande parte do tempo com ele, em atividades agradavelmente compartilhadas. Mas também podia acontecer de ficar repentinamente furioso diante de transgressões sem importância, castigando a criança com severidade. Lentamente, à medida que a análise se desenvolvia, o paciente apercebeu-se de sua vulnerabilidade narcísica e compreendeu que tendia a responder com violenta raiva quando se sentia frustrado pelos objetos narcisicamente catexizados. E, no entanto, no início ele era incapaz de admitir o fato, muitas vezes aparentemente inequívoco, de que reagia ao trauma de uma ferida narcísica, tornando-se injustificadamente áspero em relação ao filho. Permanecia convencido de que sua intransigência se justificava objetivamente, era inflexível na defesa de seu comportamento e declarava que a firmeza e a justiça irredutível eram melhores para seu filho do que a bondade inoportuna e a tolerância sem escrúpulos. Por muito tempo, suas racionalizações pareceram perfeitamente seguras e a análise não avançava nessa direção. Afinal, sua vontade moralista de castigar começou a ceder e foi substituída por uma crescente empatia em relação ao menino, após ter-se lembrado de algumas cenas de sua infância e depois de haver compreendido a significação dinâmica dessas recordações. Sua mãe tinha sempre reagido com castigos severos, moralmente apoiados, cada vez que ele tentava desenredar-se de seu universo narcísico. E agora ele fazia o mesmo quando sentia que um alter-ego tentava afastar-se dele – fosse o analista, através de atividades (tais como uma interrupção temporária do tratamento) que perturbavam o equilíbrio da transferência narcísica, ou o filho, através de atividades que demonstravam que, cada vez mais, se tornava independente dele. Em geral, o que o paciente considerava falta grave e punia severamente era um dos movimentos mais recentes do filho – o de passar para o jardim do vizinho sem lhe ter pedido permissão ou o de voltar para casa atrasado, ainda que um ou dois minutos.
Nos dois exemplos precedentes, restringi-me a apresentar uma seqüência de acontecimentos clínicos que demonstram como a fúria narcísica se abranda (e é aos poucos substituída por agressões que estão sob o controle do ego) em conseqüência da transformação, alcançada através da análise, da matriz narcísica de que surge essa fúria.
O primeiro exemplo (o Sr. A.) ilustra a maneira pela qual a fúria sarcástica do paciente gradualmente foi sendo dominada e a maneira pela qual a empatia com os alvos de sua raiva aumentou à medida que diminuía a necessidade do objeto idealizado.
O segundo exemplo (o Sr. P.) mostra como o impulso moralista de castigar que o paciente apresentava foi pouco a pouco sendo dominado, e como a empatia com a vítima de sua fúria aumentava à medida que ele começava a controlar seu envolvimento narcísico com figuras alter-ego e compreendia o fato de estar repetindo uma situação crucial de sua própria infância.
 

2.5. Implicações terapêuticas


 

Cheguei agora ao ponto em que a convergência da experiência clínica e da reflexão teórica me permite resumir e reafirmar determinadas conclusões. Nosso objetivo terapêutico no tocante à fúria narcísica não é a transformação direta da fúria em agressão construtiva nem o estabelecimento direto de controle do ego autônomo sobre ela.


Nosso objetivo mais importante é a transformação gradual da matriz narcísica da qual surge a fúria. Se esse objetivo for alcançado, as agressões no setor narcísico da personalidade serão utilizadas a serviço de ambições e propósitos realistas de um self firmemente estabelecido e também de ideais acalentados e de objetivos de um superego que agora tomou a si a função do objeto onipotente arcaico e que se tornou independente desse objeto.
É preciso admitir que a prática – por exemplo, no final de uma análise bem-sucedida das perturbações narcísicas da personalidade – nem sempre é fácil avaliar até que ponto a tendência à fúria narcísica ficou superada, como também nem sempre é fácil saber se as agressões agora são atividades de um self maduro e estão sob o domínio do ego. Mas aquilo que é verdade a propósito do término do trabalho analítico nos outros setores da personalidade também acontece aqui: não devemos fazer exigências excessivas a nossos pacientes nem a nós mesmos. Ao contrário, o paciente deveria encarar abertamente o fato de haver nele uma tendência residual a ficar temporariamente sob a influência da fúria narcísica quando suas expectativas narcísicas arcaicas são frustradas e de ter de estar atento para a possibilidade de vir a ser dominado por um ataque de furor.

Se o paciente conseguir encarar frontalmente a existência de uma psicopatologia residual, isso só lhe trará vantagens quando, após o término da análise, tiver de tomar conta sozinho de seu bem-estar psicológico, sem a ajuda do analista13.


A persistência de algumas manifestações sutis e aparentemente superficiais de mau funcionamento psíquico constitui, às vezes evidência mais segura de que o trabalho analítico ficou incompleto do que a ocorrência ocasional de grosseiras perturbações de comportamento em condições de tensão. Na área que estamos examinando, em particular, podemos dizer que as manifestações sutis de que o paciente continua sendo incapaz de mobilizar sequer um mínimo de empatia e compaixão pela pessoa que é alvo de sua fúria, bem como de que se recusa, formal e arrogantemente, a tentar sequer considerar a posição e as motivações do outro, constituem indicações mais seguras de que o trabalho analítico no setor narcísico está incompleto do que as manifestações gritantes de sua tendência a reagir ocasionalmente – e em situações de tensão incomum – com lampejos do mesmo tipo de fúria que, antes da análise, ocorria freqüentemente em resposta a provocações sem importância.
O moralismo cruel do paciente P. em relação ao filho e o dogmatismo inamovível de sua convicção de que estava agindo adequadamente quando aplicava os castigos constituem mais claramente demonstrações de que seu comportamento era essencialmente motivado pela fúria narcísica do que a severidade propriamente dita das punições que impunha à criança. É bem verdade que os castigos eram desproporcionais. (É claro que ninguém se surpreenderá ao saber que os castigos consistiam principalmente em restabelecer vingativamente seu controle narcísico, fosse privando prolongadamente o filho de privilégios como sair de casa ou então desterrando-o para seu quarto). Mas esses castigos nunca eram impostos de maneira descontrolada ou sádica.
 


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