Introdução 2 Narcisismo 4



Baixar 173.95 Kb.
Página8/8
Encontro11.07.2018
Tamanho173.95 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8

2.6. Uma formulação metapsicológica da fúria narcísica


 

O estudo de agressão naquilo que concerne à área do narcisismo foi focalizado, até aqui, na fenomenologia da fúria narcísica e na explicação da matriz do narcisismo arcaico de que surge a fúria. Como tarefa derradeira, tentarei agora explicar a fúria narcísica em termos metapsicológicos – ainda que saiba que a metapsicologia anda malvista e é até considerada por alguns como sendo pouco mais que um estéril exercício de pensamento.


Em contribuições anteriores (Kohut, 1966, 1968,1971), lancei uma explicação metapsicológica da emoção de vergonha. Naqueles trabalhos, dizia que essa emoção se desenvolve nas condições seguintes: a libido exibicionista é mobilizada e descarregada na expectativa de respostas especulares de aprovação e confirmação, seja por parte do ambiente ou – e nesse contexto falei de sinais de vergonha – por parte do superego idealizado, isto é, da estrutura interna que tomou a si as funções de aprovação do ambiente arcaico. Se a resposta esperada não se segue imediatamente, então o fluxo de libido exibicionista fica perturbado. Em vez de uma suave impregnação do self e do self corporal por um cálido brilho de libido exibicionista aprovada e confirmada em eco, a descarga e o processo de desenvolvimento se desintegram. A inesperada ausência de cooperação do objeto que deveria funcionar como espelho cria um desequilíbrio psicoeconômico que rompe a capacidade do ego de regular a efusão de catéxias exibicionistas. Em conseqüência dessa paralisia transitória, o ego, por um lado, cede à pressão do impulso exibicionista e, por outro, luta desesperadamente para interromper o fluxo. A superfície exibicionista self corporal, a pele, mostra, consequentemente, não a calidez agradável do exibicionismo bem-sucedido, mas calor e rubor, lado a lado com palidez14. Essa mistura desorganizada de descarga maciça (redução de tensão) e bloqueio (aumento de tensão) na área da libido exibicionista é que é experimentada como vergonha.
É possível aplicar considerações semelhantes à experiência de fúria narcísica. Mas, enquanto a perturbação essencial que está por trás da experiência de vergonha se refere ao exibicionismo desenfreado do self grandioso, a perturbação essencial que está por trás da fúria se refere à onipotência da estrutura narcísica. O self grandioso espera ter o controle absoluto sobre um ambiente arcaico narcisicamente experimentado. Os mecanismos adequados – que pertencem ao setor de agressão-controle-poder da personalidade – são postos em movimento, contando com o domínio total sobre o selfobjeto. Quando o ambiente deixar de concordar – seja a mãe-não-empatica que não responde aos desejos da criança, o pé da mesa que teimosamente fica no caminho do dedão do pé da criança ou outro objeto arcaico não-empático do mundo de um adulto narcisicamente fixado -, então as forças que anteriormente se desenvolviam suavemente tornam-se perturbadas.

Paralelamente ao processo descrito a propósito da vergonha, vemos descarga e inibição lado a lado ou em rápida sucessão. A diferença é que aqui, como disse anteriormente, a força que está por trás não é o exibicionismo desenfreado do self grandioso, isto é, a insistência desse self grandioso em ser admirado. No caso da fúria narcísica, o que está por trás é a onipotência do self grandioso, isto é, sua insistência na posse do controle absoluto. Essa mistura desorganizada de descarga maciça (redução de tensão) e bloqueio (aumento de tensão) na área da agressão não neutralizada que surge em seguida à ausência de submissão por parte do selfobjeto arcaico é que constitui o substrato metapsicológico das manifestações e da experiência de fúria narcísica.


 

2.7. A fúria narcísica crônica


 

É preciso acrescentar aqui que, se a fúria não ceder, então os processos secundários tenderão progressivamente a ser arrastados para o domínio das agressões arcaicas, buscando restabelecer o controle sobre o mundo narcisicamente experimentado. A ideação consciente e pré-consciente, em particular no que se refere aos objetivos da personalidade, torna-se cada vez mais submetida à fúria que invade tudo. Além disso, o ego, cada vez mais empresta sua capacidade de raciocinar à tarefa de racionalizar a permanente insistência do self grandioso em manter um poder sem limites: o ego não reconhece as limitações inerentes ao poder do self, mas atribui suas falhas e sua franqueza à malevolência e à corrupção do objeto arcaico que não coopera. E com isso estamos testemunhando o estabelecimento gradual da fúria narcísica crônica, uma das mais perniciosas calamidades do psiquismo humano – seja em sua forma endógena e preliminar de aversão e rancor ou em sua forma externalizada e encenada quer em atos vingativos desconexos, quer numa “vendetta” habilmente planejada15.


 

Observações finais


 

Muitos dos assuntos discutidos neste ensaio, especialmente aqueles englobados numa visão retrospectiva de meus trabalhos anteriores (isto é, sobre o investimento libidinal do self), foram necessariamente formulados de maneira apenas esquemática e precisam ser aperfeiçoados. Porém mais que as deficiências dessa apresentação condensada, o que lamento é não ter conseguido demonstrar a aplicação nem de minhas formulações mais antigas acerca do narcisismo nem das considerações precedentes acerca da fúria narcísica à psicologia de grupo, ao comportamento do homem na história.


Tenho grandes esperanças de que futuros empreendimentos nessa área venham a se mostrar proveitosos. Mas isso fica para o futuro e aqui gostaria de mencionar apenas o seguinte: comecei meu trabalho seguindo em duas direções.
Primeiro, considerando a contribuição que a compreensão do narcisismo pode dar à compreensão da formação e da coesão dos grupos: em particular, o fato de a coesão do grupo ser produzida e mantida, não somente por um ideal de ego sustentado em comum pelos membros do grupo (Freud, 1921), mas também pela idéia de grandiosidade individual de que esses membros compartilham, isto é, por um self grandioso partilhado. Na realidade, há grupos que são caracterizados pelo fato de sua união ser mantida à base desse último vínculo – dito grosseiramente, mais pelas ambições que compartilham do que pelos ideais.
Em segundo lugar, a vida psíquica dos grupos, como a dos indivíduos, mostra transformações regressivas no território narcísico. Quando há interferências sobre o desenvolvimento de formas mais elevadas de narcisismo (como por exemplo, na área do self grandioso, através do bloqueio das saídas aceitáveis para o sentimento de prestígio nacional; e na área da imago parental idealizada, através da destruição de valores grupais, como por exemplo, os valores religiosos), então o narcisismo do grupo regride, com conseqüências deletérias no território do comportamento grupal. Regressões desse tipo tornam-se manifestas, particularmente no que concerne à agressão grupal, que então adquire, abertamente ou não, aspectos de fúria narcísica, seja em sua forma aguda ou, o que é ainda pior, em sua forma crônica.
Mas esse é um trabalho que ainda precisa ser completado, mesmo em sua forma preliminar, e tenho de resistir à tentação de dizer mais alguma coisa sobre isso neste ponto.

 

Fonte

http://www.cearh.com.br/trilhando/3periodo/Reflexoes%20acerca%20do%20Narcisismo/pg01.htm 


1 Para ser exato, seria preciso chamar esse ponto do desenvolvimento de período da formação do “self” nuclear e do selfobjeto. É claro que o selfobjeto arcaico ainda é (experimentado como) parte do self.


2 Ver nesse contexto a distinção entre (1) psicose, isto é, fragmentação permanente ou protraída do self grandioso nuclear e do selfobjeto onipotente nuclear, e (2) perturbação narcísica da personalidade, isto é, coesão instável do self nuclear e do selfobjeto, com fragmentação apenas temporária dessas configurações. Ver, ademais, a classificação das perturbações cuja psicopatologia essencial consiste na fragmentação permanente ou protraída do self ou do selfobjeto, isto é, as psicoses. Estas dividem-se em três grupos, a saber:

(a)    as psicoses francas, em que a sintomatologia reflete abertamente a ruptura das estruturas narcísicas nucleares;

(b)    as psicoses latentes ou casos fronteiriços, em que a sintomatologia esconde em maior ou menor grau o fato de haver ocorrido uma ruptura das estruturas narcísicas nucleares; e

(c)    as personalidades esquizóides, em que a ruptura das estruturas narcísicas nucleares (o desenvolvimento de uma psicose aberta ou de uma psicose latente) constitui a potencialidade patognomônica sempre presente, mas contornada pelo fato de o paciente zelosamente evitar (através do distanciamento emocional) as feridas narcísicas capazes de provocar regressão (Kohut, 1971, Cap. 1).




3 Freud (1914a), no entanto, falou do “valioso trabalho que ele [Adler] havia realizado acerca da inferioridade dos órgãos” (p. 51).


4 Lionel Trilling (1947), que comentou o livro Dr. Freud de Emil Ludwig, encerrou suas observações acerca dessa biografia com a sentença definitiva: “não estamos numa época notável nem pela finura nem pela exatidão do pensamento, mas de fato só raramente vemos um livro tão intelectualmente infame, tão vil e tão vulgar quanto este”.


5 Acho que esse quase-delírio é uma manifestação do impulso exibicionista arcaico que está isolado do restante da organização psíquica e projetado (com objetivo invertido) na pessoa que é o suposto espectador, que se regozija malignamente. É óbvia a relação entre esse fenômeno e o delírio do paranóico que acredita estar sendo observado.


6 Muitos psicoterapeutas, inclusive psicanalistas, traumatizam desnecessariamente seus pacientes através de ataques sádicos a seu narcisismo arcaico. Ainda que cada vez seja maior a compreensão, por parte dos analistas, da importância da reativação das exigências narcísicas arcaicas dos pacientes, tais tendências são difíceis de superar. E repetidas vezes o sarcasmo inadequado do analista torna a se intrometer. Em alguns casos, pelo menos, essa dificuldade se deve ao fato de o psicoterapeuta (ou analista) ter sido tratado, ele próprio de maneira semelhante (por parte de pais e professores, por exemplo, e especificamente, por analista-didata). O fato de que, apesar de ter insight e de fazer esforço, o analista venha a persistir em seu sarcasmo antiterapêutico em relação ao seu paciente narcísico demonstra o poder da necessidade de transformar uma experiência passiva em experiência ativa. Além disso, não devemos deixar de lado o fato de que o motivador da atitude deletéria (isto é, profundamente enraizado no inconsciente, no sentido de infligir no outro uma ferida narcísica) pode ser racionalizado facilmente: os ataques do terapeuta podem ser justificados como tendo sido efetuado para o bem do paciente e ao serviço do realismo – ou de uma moralidade-maturidade.


7 Para uma discussão desses acontecimentos na Alemanha nacional-socialista, ver Rauschning (1938). A relação entre Speer, Ministro do Armamento e da Produção de Guerra - um gênio organizacional -, e Hitler é particularmente reveladora nesse contexto (ver Speer, 1969).


8 O defeito orgânico em si sem dúvida contribui para a redução da capacidade de controlar as emoções e os impulsos. E, no entanto, muitos paciente que respondem com reações catastróficas a condições relativamente suaves (por exemplo, inofensivas situações de teste) não reagem com igual intensidade sob circunstâncias diferentes que poderiam despertar raiva (por exemplo, quando são provocados ou de qualquer modo, incomodados).


9 A descrição que faz Tolstoi do adeus de Anatole Kurágin à perna que lhe havia sido amputada é uma ilustração profundamente comovedora desse processo (1866, Livro 10, Cap.7, p. 907-908).


10 Quando o selfobjeto arcaico não proporciona o apoio narcísico necessário ou não evita nem afasta o mal-estar da criança, ocorre que esta passa a considerá-lo sádico, pois é experimentando como onipotente e onisciente e, assim, as conseqüências de suas ações e de suas omissões sempre são vistas como tendo sido produzidas intencionalmente.


11 Essa recomendação é valida não somente quando a grandiosidade está totalmente reprimida (divisão horizontal no psiquismo), mas também quando as exigências narcísicas arcaicas estão contornando o ego da realidade (divisão vertical), isto é, quando o ego está desaprovando a presença ou a importância das exigências e atuações narcísicas (ver Kohut, 1971, p.183-186).


12 Examinei mais atrás, neste mesmo trabalho, outro aspecto do comportamento desse paciente e que tinha alguma relação com o presente contexto (há também uma referência a ele, ainda que num contexto claramente diferente em Kohut, 1971, p.321-324). Numa reunião da Sociedade Psicanalítica de Chicago (25 de setembro de 1962), ao discutir um trabalho sobre perturbações psicossomáticas, descrevi um problema transitório de fala que ocorreu ao filho (que tinha então três anos e meio de idade) do Sr. P.. Interpretei a gagueira do menino como sendo uma reação ao envolvimento narcísico do pai com ele, bem como à insistência do pai em exercer controle absoluto sobre ele.

Kohut refere-se aqui ao trabalho de Augusta Bonnard “Impediments of Speech: A Special Psychosomatic Instance”, publicado em “The International Journal of Psycho-Analysis (1963), 44:151-162”. O que se segue é a discussão de Kohut, conforme resumida por J. Kavka no “Bulletin of The Philadelphia Association for Psychoanalysis (1962), 12:176”.

Heinz Kohut indiretamente observou a ocorrência temporária de gagueira no filho, de três anos e meio, de um analisando cuja patologia situava-se entre a perversão e a psicose (paranóide). Os limites da personalidade do paciente eram imprecisos e ele muitas vezes reagia às suas próprias transgressões perversas, tornando-se asperamente crítico em relação ao filho. Kohut especulou que semelhante crítica (que não se referia aos impulsos da criança, mas se devia ao fato de essa criança estar incluída no sistema narcísico do educador) não pode tornar-se parte do superego da criança; em vez disso, houve uma fixação numa fase mais primitiva do controle dos impulsos instintivos através de um “objeto” narcisicamente experimentado. Não há possibilidade de ocorrer uma rebelião objetal contra o pai (ou contra o superego). A língua torna-se então o campo de batalha de uma raiva pré-verbal a serviço de uma rebelião que não tem objeto diferenciado e, portanto, fica afastada do ego da criança. O sucesso do trabalho terapêutico da Dra. Bonnard pode, em parte, dever-se ao fato de a atenção que dá aos movimentos da língua da criança ajudá-la a estabelecer o sentimento de propriedade e de domínio sobre esse órgão.


13 O que estou defendendo aqui é que se tome uma atitude de tolerância diante da relação entre ego e id que não é nem de autonomia do ego nem de domínio do ego – isto é, que é menor que a relação ideal. A avaliação comparativa implicada neste contexto justifica um esclarecimento metapsicológico. A autonomia do ego é alcançada quando este consegue funcionar sem ser perturbado pelas pressões provenientes das profundezas. O domínio do ego é atingido quando as forças arcaicas estão integradas ao ego e quando a potência dessas forças pode ser utilizada de acordo com os propósitos do ego. Quando falo complacentemente da atitude pós-analítica de alerta de um ex-paciente em relação à possibilidade de vir a ser dominado por um ataque de fúria narcísica, estou aceitando uma condição que conforme a definição estrita desses termos, não é autonomia nem domínio do ego (ainda que esteja mais próxima daquela do que deste). Refiro-me aqui a vigilância do ego sobre as forças arcaicas que não estão subjugadas: à possibilidade de que o ego venha a manejá-las e controlá-las. Uma relação como essa entre o ego e o id pode ser considerada uma imperfeição tolerável caso se refira a um setor restrito do psiquismo, isto é, se tiver ocorrido no total uma transformação ampla na área da psicopatologia mais importante.

Uma analogia tirada de outro campo pode ilustrar o que quero dizer acerca desse tipo de imperfeição. Certa vez conheci um homem que tinha tantos tiques e espasmos musculares (provavelmente de base orgânica) que sua motilidade volitiva ficava gravemente prejudicada. Mas ele havia aprendido a esperar determinado movimento de tique que pudesse aproveitar para a ação que desejava realizar.




14 Agradeço ao Dr. Milton Malev por ter-me chamado a atenção para a seguinte passagem do Talmude babilônico (Epstein, 1962, p.58B): “Aquele que faz empalidecer o rosto de seu companheiro em público [isto é, aquele que envergonha seu companheiro] é como se tivesse derramado seu sangue” (grifos meus). Essa afirmação não só declara o intenso tormento das feridas narcísicas, mas também parece ter como certo que o corolário fisiológico da experiência dolorosa é uma perturbação na distribuição do sangue (palidez e rubor: “faz empalidecer o rosto” e “derramado seu sangue”) na superfície exibicionista do corpo, especialmente na pele da face.


15 A relação entre fúria narcísica aguda e crônica na área da onipotência do self grandioso é comparável à relação entre vergonha aguda e sentimentos crônicos de inferioridade na área do exibicionismo dessa estrutura narcísica.

Para que fique completo, é preciso mencionar aqui também que a fúria narcísica, em especial em sua forma crônica, se for bloqueada e não puder dirigir-se contra o selfobjeto (que é experimentado como estando fora do self ou do self corporal), pode vir a desviar seu foco e visar o self ou o self corporal. O resultado, no primeiro caso, é a depressão autodestrutiva; no segundo caso, pode ser a doença psicossomática. É preciso notar, nesse contexto, que o paciente P. sofria não somente de manifestações de fúria narcísica aguda e crônica, mas também de grave hipertensão.






Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal