Introdução a Psicologia do Ser



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Orelhas do Livro

A Coleção Anima tem por objetivo oferecer aos especialis­tas em Psicologia e áreas afins, bem como ao leitor interessado, textos de qualidade que, independentemente das correntes as quais os diversos autores aqui reunidos se filiem, contri­buam para uma maior com­preensão do fenômeno do psiquismo humano e da natureza do homem em geral.

O 1º volume desta Coleção Introdução à Psicologia do Ser, de Abraham H. Maslow — é uma das obras mais represen­tativas da Psicologia Humanística, movimento hoje solidamente firmado como a alterna­tiva viável para resolver o impasse entre a psicologia experimental-positivista-behaviorista e o freudianismo ortodoxo.

Essa “Terceira Força” aglutina os partidários de Adler, Hank e Jung, além de todos os neofreudianos e pós-freudianos, psicólogos da perso­nalidade, fenomenólogos, hu­manistas, rogerianos, existen­cialistas e muitos outros.



Introdução à Psicologia do Ser, cuja edição original ven­deu mais de 100.000 exempla­res nos E.U.A., caracteriza-se por um inabalável otimismo em relação ao futuro, baseado nos valores intrínsecos da humani­dade.

Segundo Maslow, “A natu­reza interior, até onde podemos conhecê-la, não parece ser intrinsecamente má; é, antes, neutra ou positivamente “boa”. O que chamamos de comporta­mento mau vem a ser, via de regra, uma reação secundária à frustração dessa natureza in­trínseca.”

Abraham Harold Maslow é atualmente o psicólogo mais popular nos Estados Unidos. Foi presidente da The Ameri­can Psychological Association, tem 65 anos e é o chefe do De­partamento de Psicologia da Universidade Brandeis.

Escritor vigoroso e de invulgar clareza, é autor de The Psychology of Science e Motivation and Personality, além de mais de 100 artigos.

Em sua teoria da metamotivação, procurou desenvolver as bases para uma ideologia que pudesse ser aceita por todos os seres humanos, que pudesse unir todos os seres humanos.

“Não pensem em mim co­mo um antibehaviorista”, es­clarece ele. “Sou antidoutrinário. Sou contra qualquer coi­sa que feche portas ou ampute possibilidades.”


Coleção Anima

Próximo lançamento:



Entrevistas com Carl G. Jung (e as reações de Ernest Jones)

Richard I. Evans.



INTRODUÇÃO A PSICOLOGIA DO SER


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COLEÇÃO ANIMA

ABRAHAM H. MASLOW

INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA DO SER

Tradução de ÁLVARO CABRAL

Título do original em inglês:

TOWARD A PSYCHOLOGY OF BEING
(C) by Litton Educational Publishing, Inc.
A presente tradução baseou-se na edição

publicada por Van Nostrand Reinhold Company, New York.

Direitos desta tradução reservados à

LIVRARIA ELDORADO TIJUCA LTDA.

Departamento Editorial:

Maura Ribeiro Sardinha

Cristina Mary P. da Cunha

Carmen Lúcia R. de Oliveira

Capa: AG Comunicação Visual e Arquitetura Ltda.

Impresso no Brasil

Printed in Brazil
LIVRARIA ELDORADO TIJUCA LTDA.

Rua Conde Bonfim, 422, loja K, Rio de Janeiro — GB

Tels.: 254-2615 264-0398

Este livro é dedicado a

KURT GOLDSTEIN

Índice

Prefácio da Segunda Edição ..................................................................................... 11

Prefácio da Primeira Edição ..................................................................................... 15

Parte I — Uma Jurisdição mais ampla para a Psicologia

1. Introdução: Para uma Psicologia da Saúde ..................................................... 27

2. O que a Psicologia Pode Aprender dos Existen­cialistas ................................. 35

Parte II — Crescimento e Motivação

3. Motivação de Deficiência e Motivação de Cresci­mento ................................. 47

4. Defesa e Crescimento ...................................................................................... 71

5. A Necessidade de Saber e o Medo do Conheci­mento ..................................... 87



Parte III — Crescimento e Cognição

6. Cognição do Ser em Experiências Culminantes .............................................. 99

7. Experiências Culminantes como Agudas Expe­riências de Identidade ........................................................................................................................ 133

8. Alguns Perigos da Cognição do Ser .............................................................. 147

9. Resistência à Rubricação do Ser .................................................................... 159

Parte IV — Criatividade

10. Criatividade nas Pessoas Individuacionantes .............................................. 167



Parte V — Valores

11. Dados Psicológicos e Valores Humanos ..................................................... 181

12. Valores, Crescimento e Saúde ..................................................................... 201

13. A Saúde como Transcendência do Ambiente .............................................. 213



Parte VI — Tarefas para o futuro

14. Algumas Proposições Básicas de uma Psicologia do Crescimento e da Individuação................................................................................................ 223



Apêndice A — Serão as Nossas Publicações e Conven­ções Adequadas às Psicologias Pes­soais? ............................................................. 251

Apêndice B — É Possível uma Psicologia Social Normativa? ............................. 257

Bibliografia ............................................................................................................ 261

Bibliografia Adicional ............................................................................................ 269

A Rede Eupsiquiana ............................................................................................... 275



Prefácio da Segunda Edição
Muita coisa aconteceu no mundo da Psicologia desde que este livro foi publicado pela primeira vez. A Psicologia Humanista — como vem sendo mais freqüentemente cha­mada — está hoje solidamente estabelecida como terceira alternativa viável da psicologia objetivista e behaviorista (mecanomórfica) e do freudianismo ortodoxo. A sua lite­ratura é vasta e está em rápido crescimento. Além disso, está começando a ser usada, especialmente na educação, indústria, organização e administração, terapia e auto-aperfeiçoamento e por vários indivíduos, revistas e orga­nizações “eupsiquianos” (ver a Rede Eupsiquiana, págs. 275-279).

Devo confessar que acabei pensando nessa tendência humanista da Psicologia como uma revolução no mais ver­dadeiro e mais antigo sentido da palavra, o sentido em que Galileu, Darwin, Enstein, Freud e Marx fizeram revo­luções, isto é, novos caminhos de perceber e de pensar, novas imagens do homem e da sociedade, novas concep­ções éticas e axiológicas, novos rumos por onde enveredar.

Esta Terceira Psicologia é agora uma faceta de uma Weltanschauung geral, uma nova filosofia da vida, uma nova concepção do homem, o começo de um novo século de trabalho (isto é, se conseguirmos sustar, entrementes, um holocausto). Para qualquer homem de boa vontade, qualquer homem “pró vida”, há um trabalho a ser feito aqui, efetivo, probo e eficaz, satisfatório, que pode propor­cionar um significado fecundo à nossa própria vida e à dos outros.

Essa Psicologia não é puramente descritiva ou acadê­mica; sugere ação e implica conseqüências. Ajuda a gerar [pág. 11] um modo de vida, não só para a própria pessoa, dentro da sua psique particular, mas também para a mesma pessoa como ser social, como membro da sociedade. De fato, aju­da a compreender até que ponto esses dois aspectos da vida estão realmente relacionados entre si. Fundamental­mente, a pessoa que fornece a melhor ajuda é a “boa pes­soa”. Quantas vezes, tentando ajudar, a pessoa doente ou inadequada causa, pelo contrário, sérios danos.

Devo também dizer que considero a Psicologia Huma­nista, ou Terceira Força da Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Psicologia ainda “mais elevada”, transpessoal, transumana, centrada mais no cos­mo do que nas necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade, da individuação e quejandos. Haverá em breve (1968) um Journal of Transpersonal Psychology, organizado pelo mesmo Tony Sutich que fundou o Journal of Humanistic Psychology. Esses novos avanços podem muito bem oferecer uma satisfação tangí­vel, usável e efetiva do “idealismo frustrado” de muita gente entregue a um profundo desespero, especialmente os jovens. Essas Psicologias comportam a promessa de desenvolvimento de uma filosofia da vida, de um substi­tuto da religião, de um sistema de valores e de um pro­grama de vida cuja falta essas pessoas estão sentindo. Sem o transcendente e o transpessoal, ficamos doentes, violentos e niilistas, ou então vazios de esperança e apá­ticos. Necessitamos de algo “maior do que somos”, que seja respeitado por nós próprios e a que nos entreguemos num novo sentido, naturalista, empírico, não-eclesiástico, talvez como Thoreau e Whitman, William James e John Dewey fizeram.

Creio que outra tarefa que precisa ser realizada antes de podermos ter um mundo bom é o desenvolvimento de uma psicologia humanista e transpessoal do mal, uma que seja escrita com um sentimento de compaixão e amor pela natureza humana e não de repulsa ou de irremediabilidade. As correções que fiz nesta nova edição encon­tram-se, primordialmente, nessa área. Sempre que pude, sem incorrer numa dispendiosa tarefa de reescrever, aclarei a minha psicologia do mal — o “mal de cima” e não de baixo. Uma leitura atenta localizará essas revisões, muito embora sejam extremamente condensadas. [pág. 12]

Essas alusões ao mal talvez soem aos leitores do pre­sente livro como um paradoxo, ou uma contradição com as suas principais teses, mas não é, decididamente não é. Existem certamente homens bons, fortes e bem sucedidos no mundo — santos, sábios, bons líderes, responsáveis, candidatos a políticos, estadistas, homens de espírito forte, vencedores mais do que perdedores, pais em vez de filhos. Tais pessoas estão à disposição de quem quiser estudá-los como eu fiz. Mas nem por isso deixa de ser verdade que existem muito poucos, embora pudesse haver muitos mais, e são freqüentemente maltratados pelos seus semelhantes. Assim, isso também deve ser estudado, esse medo da bon­dade e da grandeza humanas, essa falta de conhecimento sobre como ser bom e forte, essa incapacidade para con­verter a nossa ira em atividades produtivas, esse temor da maturidade e da sublimação que nos chega com a matu­ridade, esse receio de nos sentirmos virtuosos, de nos amarmos a nós próprios, de sermos dignos de amor e de respeito. Especialmente, devemos aprender como trans­cender a nossa tendência insensata para deixar que a com­paixão pelos fracos gere o ódio pelos fortes.

É essa espécie de pesquisa que recomendo mais insis­tente e urgentemente aos jovens e ambiciosos psicólogos, sociólogos e cientistas sociais em geral. E a outras pessoas de boa vontade, que querem ajudar a construir um mundo melhor, recomendo veementemente que considerem a ciên­cia — a ciência humanista — uma forma de fazer isso, uma forma muito boa e necessária, talvez até a melhor de todas.

Simplesmente, não dispomos hoje de conhecimentos bastante idôneos para avançar na construção de Um Mun­do Bom. Não dispomos sequer de conhecimentos suficien­tes para ensinar aos indivíduos como se amarem uns aos outros — pelo menos, com uma razoável dose de certeza. Estou convencido de que a melhor resposta está no pro­gresso do conhecimento. Minha Psychology of Science, assim como Personal Knawledge, da autoria de Polanyi, são claras demonstrações de que a vida da ciência também pode ser uma vida de paixão, de beleza, de esperança para a humanidade e de revelação de valores. [pág. 13]
Agradecimentos
Desejo agradecer a bolsa que me foi concedida pelo Fundo para o Progresso da Educação, da Fundação Ford. Ela pagou-me não só um ano de licença, mas também o trabalho de duas secretárias dedicadas, as Sr.as Hilda Smith e Nona Wheeler, a quem desejo expressar aqui a minha gratidão.

Dediquei este livro a Kurt Goldstein, originalmente, por inúmeras razões. Gostaria agora de expressar também a minha dívida para com Freud e todas as teorias que ele produziu e as contrateorias que elas geraram. Se eu ti­vesse de exprimir numa única frase o que a Psicologia Humanista significou para mim, eu diria que constitui uma integração de Goldstein (e da Psicologia da Gestalt) com Freud (e as várias psicologias psicodinâmicas), o todo combinado com o espírito científico que me foi ensinado pelos meus professores da Universidade de Wisconsin.


A. H. Maslow

[pág. 14]

Prefácio da Primeira Edição
Tive muitas dificuldades ao escolher o título para este livro. O conceito de “saúde psicológica”, embora ainda seja necessário, tem várias deficiências intrínsecas para fins científicos, as quais serão analisadas em vários lugares apropriados, no decorrer do livro. O mesmo pode ser dito de “doença psicológica”, como Szasz (160a) e os psicólogos existenciais (110, 111) recentemente sublinharam. Ainda podemos usar esses termos normativos e, de fato, por ra­zões heurísticas, devemos utilizá-los, desta vez; entretanto, estou convencido de que se tornarão obsoletos dentro de uma década.

Um termo muito melhor é “individuação”,1 no sentido em que o usei. Ele sublinha a “humanidade plena do in­divíduo”, o desenvolvimento da natureza humana biologicamente alicerçada e, portanto, é (empiricamente) nor­mativo para toda a espécie, em vez de sê-lo para determi­nados tempos e lugares; quer dizer, é menos culturalmente relativo. Ajusta-se mais ao destino biológico do que aos modelos de valor historicamente arbitrários e cultural­mente locais, como freqüentemente ocorre com os termos “saúde” e “doença”. Também tem conteúdo empírico e significado operacional. [pág. 15]

Contudo, à parte ser desgracioso de um ponto de vista literário, esse termo provou ter imprevistas deficiências, como: a) implicar egoísmo em vez de altruísmo; b) enco­brir o aspecto de dever e de dedicação as tarefas da vida; c) negligenciar os vínculos com outras pessoas e a socie­dade, e a dependência da plena realização individual de uma “boa sociedade”; d) negligenciar o caráter exigente1 da realidade não-humana e o seu fascínio e interesse in­trínsecos; e) negligenciar o desprendimento do ego e a possibilidade de transcendência do eu; e, finalmente, f) sublinhar, por implicação, a atividade, mais do que a passividade ou receptividade. E tudo isso aconteceu apesar dos meus cuidadosos esforços para descrever o fato empí­rico de que as pessoas individuacionantes são altruístas, dedicadas, sociais, capazes de se transcenderem etc. (97, capítulo 14).

A palavra “eu” parece desconcertar as pessoas, e as minhas redefinições e descrição empírica são amiúde im­potentes diante do poderoso hábito lingüístico de identi­ficar “eu” com “egoísta” e com autonomia pura. Para minha consternação, também verifiquei que alguns psicó­logos inteligentes e capazes (70, 134, 157a) persistem em tratar a minha descrição empírica das características de pessoas individuacionantes como se eu tivesse arbitraria­mente inventado essas características, em vez de desco­bri-las.

“Plena realização humana” evita, segundo me parece, alguns desses equívocos. E “diminuição ou deficiência hu­mana” também serve como melhor substituto para “doen­ça” e até, porventura, para neurose, psicose e psicopatia. Pelo menos, esses termos são mais úteis para a teoria psi­cológica e social geral, quando não para a prática psicoterapêutica.

Os termos “Ser” e “Devir” ou “Vir a Ser”, tal como os emprego em todo este livro, são ainda melhores, se bem que não estejam utilizados, por enquanto, de maneira su­ficientemente generalizada para servir como moeda cor­rente. Isso é deveras lamentável, porque a Psicologia do [pág. 16] Ser é certamente muito diferente da Psicologia do Devir e da Psicologia da Deficiência, como veremos. Estou con­vencido de que os psicólogos devem caminhar no sentido da reconciliação da S-psicologia com a D-psicologia, isto é, do perfeito com o imperfeito, do ideal com o real, do eupsiquismo com o existente, do intemporal com o tem­poral, da Psicologia como fim com a Psicologia como meio.

Este livro é uma continuação do meu Motivation and Personality, publicado em 1954. Foi elaborado mais ou menos da mesma maneira, isto é, fazendo uma peça de cada vez da mais vasta estrutura teórica. É um anteces­sor do trabalho a ser ainda realizado para a construção de uma Psicologia e Filosofia Geral, abrangente, sistemá­tica e empiricamente baseada, que inclua as profundezas e as alturas da natureza humana. O último capítulo é, em certa medida, um programa para esse trabalho futuro e serve de ponte para ele. É uma primeira tentativa para integrar a “Psicologia da Saúde e Crescimento” com a Psicopatologia e a dinâmica psicanalítica, a dinâmica com a holística, o Devir com o Ser, o bem com o mal, o posi­tivo com o negativo. Por outras palavras, constitui um esforço para construir, numa base psicanalítica geral e numa base científico-positivista de Psicologia experimen­tal, a superestrutura eupsiquiana, S-psicológica e metamotivacional que falta a esses dois sistemas, superando os seus limites.

Descobri que é muito difícil comunicar a outros o meu respeito e a minha impaciência simultâneos, ante essas duas psicologias abrangentes. Tantas pessoas insistem em ser ou a favor de Freud ou contra Freud, a favor da Psi­cologia Científica ou contra Psicologia Científica etc.! Na minha opinião, todas as posições de leadade desse gênero são idiotas. A nossa missão é integrar essas várias verda­des na verdade total, que deverá constituir a nossa única lealdade.

Para mim, é perfeitamente claro que os métodos cien­tíficos (concebidos em termos gerais) são o nosso único meio fundamental de estarmos certos de que temos a [pág. 17] verdade. Mas também aqui é demasiado fácil cometer um equívoco e cair numa dicotomia: a favor da ciência ou contra a ciência. Já escrevi sobre o assunto (97, capítulos 1, 2 e 3). Trata-se de críticas ao cientificismo ortodoxo do século XIX e tenciono prosseguir nesse empreendimento, no sentido de ampliar os métodos e a jurisdição da ciên­cia, de modo a torná-la mais capaz de assumir as tarefas das novas psicologias pessoais e experienciais (104).

A ciência, tal como é habitualmente concebida pelos ortodoxos, é inadequada para essas tarefas. Mas estou certo de que não precisa limitar-se a esses métodos orto­doxos. Não precisa abdicar dos problemas do amor, criati­vidade, valor, beleza, imaginação, ética e alegria, deixando tudo isso para os “não-cientistas”, os poetas, profetas, sa­cerdotes, dramaturgos, artistas ou diplomatas. Todas essas pessoas podem ter maravilhosas introvisões, formular in­terrogações que têm de ser feitas, aventar hipóteses desa­fiadoras e podem até estar certas e dizer a verdade na maioria das vezes. Mas, por muito seguras que elas pos­sam estar, nunca poderão tornar a humanidade segura. Podem apenas convencer aqueles que já concordam com elas e alguns mais. A ciência é o único meio de que dis­pomos para enfiar a verdade pela goela abaixo dos relu­tantes. Somente a ciência pode superar as diferenças caracterológicas no ser e no crer. Somente a ciência pode progredir.

Entretanto, permanece o fato de que ela chegou a uma espécie de beco sem saída e (em algumas de suas formas) pode ser encarada como uma ameaça e um perigo para a humanidade ou, pelo menos, para as mais elevadas e nobres qualidades e aspirações da humanidade. Muitas pessoas sensíveis, especialmente os artistas, receiam que a ciência macule e deprima, que dilacere coisas em vez de integrá-las e, por conseguinte, mate em vez de criar.

Acho que nada disso é necessário. Tudo o que a ciên­cia precisa para ser uma ajuda à plena realização humana positiva é ampliar e aprofundar a concepção da sua na­tureza, das suas metas e dos seus métodos.

Espero que o leitor não ache esse credo incompatível com o tom algo literário e filosófico deste livro e daquele que o precedeu. De qualquer modo, eu não acho. Quando se esboça, a traços largos, uma teoria geral, é necessário [pág. 18] esse tipo de tratamento — temporariamente, pelo menos. Em parte, isso também se deve ao lato da maioria dos capítulos deste livro ter sido preparada, inicialmente, como conferências.

Este livro, tal como o anterior, está repleto de afirmações que se baseiam em pesquisas-piloto, fragmentos de provas, observações pessoais, deduções teóricas e simples palpites. De um modo geral, estão redigidas de forma que se possa demonstrar a sua verdade ou falsidade. Quer dizer, são hipóteses, apresentadas mais para exame do que para crença final. Também são obviamente pertinen­tes, isto é, a sua possível correção ou incorreção é impor­tante para outros ramos da Psicologia. Despertam inte­resse. Portanto, devem gerar pesquisas e assim espero que aconteça. Por todas essas razões, considero que este livro se situa mais no domínio da ciência, ou pré-ciência, do que no da exortação, ou da filosofia pessoal, ou da expressão literária.

Uma palavra sobre as correntes intelectuais contem­porâneas em Psicologia talvez ajude a situar este livro no seu lugar próprio. As duas teorias abrangentes da natu­reza humana que mais influenciaram a Psicologia até uma época recente foram a freudiana e a experimental-positivista-behaviorista. Todas as outras teorias são menos abrangentes e os seus adeptos formaram numerosos grupos dissidentes e minoritários. Nos últimos anos, porém, esses vários grupos aglutinaram-se rapidamente numa terceira, cada vez mais abrangente, teoria da natureza humana — teoria essa a que poderíamos chamar uma “Terceira For­ça”. Esse grupo inclui os adlerianos, rankianos e junguianos, assim como todos os neofreudianos (ou neoadlerianos) e os pós-freudianos (os egopsicólogos psicanalíticos, assim como autores da linha de Marcuse, Wheelis, Marmor, Szasz, Norman Brown, H. Lynd e Schachtel, que estão tomando o lugar dos psicanalistas talmúdicos). Além disso, a influência de Kurt Goldstein e da sua Psi­cologia Organísmica está aumentando firmemente. Cada vez mais influentes são também a Gestalt-terapia, os psicó­logos gestaltistas e lewinianos, os semânticos gerais e os psicólogos da personalidade como G. Allport, G. Murphy, J. Moreno e H. A. Murray. Uma nova e poderosa influên­cia é a Psicologia Existencial e a Psiquiatria. Dezenas de outros contribuintes destacados podem ser agrupados como [pág. 19] psicólogos do Eu, psicólogos fenomenológicos, psicólogos rogerianos, psicólogos humanistas etc. etc. Uma lista com­pleta é impossível. Um modo mais simples de agrupá-los está à disposição do leitor nas cinco revistas em que esse grupo tem maiores probabilidades de publicar seus traba­lhos, todas relativamente novas. São elas: Journal of In­dividual Psychology (Universidade de Vermont, Burling­ton, Vt.), American Journal of Psychoanalysis (220 W. 98th Street, Nova York 25, N. Y.), Journal of Existential Psychiatry (679 N. Michigan Avenue, Chicago 11, I11.), Review of Existential Psychology and Psychiatry (Univer­sidade Duquesne, Pittsburgh, Pa.) e a mais recente de todas, o Journal of Humanistic Psychology (2637 Marshall Drive, Palo Alto, Calif.). Além disso, a revista Manas (P.O. Box 32.112, El Sereno Station, Los Angeles 32, Calif.) aplica este ponto de vista à filosofia pessoal e social do leigo inteligente. A bibliografia no final deste volume, embora não completa, é uma razoável amostra dos es­critos desse grupo. O presente livro pertence a essa cor­rente de pensamento.



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