Introdução



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INTERTEXTUALIDADE E INTERDISCURSIVIDADE: UMA ANÁLISE DO FILME SHREK
Ana Paula Moreira Santos

Faculdade de Educação – UFB A


Leitura e escrita na escola: tecnologias possíveis
Resumo
O ensaio constitui-se numa análise do filme Shrek à luz dos conceitos de interdiscursividade e intertextualidade. Tem como objetivo principal analisar como o interdiscurso e a intertextualidade presentes nessa obra fílmica contribuem para uma desconstrução do ethos predominante nas histórias de fantasia e contos de fadas. O texto apresenta um breve resumo do filme Shrek, discute os conceitos de discurso, texto, interdiscursividade e intertextualidade – apoiando-se, sobretudo, nos trabalhos de Fiorin e Barros –, tece considerações sobre as estruturas narrativas dos filmes, fazendo contrapontos entre clássicos das histórias de fantasia/contos de fadas e a animação da Dreamworks – lançada em 2001 e ganhadora do Oscar de melhor animação. Apesar de não dar um destaque maior à relação entre linguagem cinematográfica e educação – o que fugiria do objetivo do trabalho -, fica, nas entrelinhas, a defesa do uso da linguagem cinematográfica na escola como mais um texto, e não como pré-texto. Nas considerações finais, conclui-se que o interdiscurso e a intertextualidade presentes em Shrek promovem uma desconstrução do ethos dos contos de fada e histórias de fantasias a que fazem referência.
Palavras-chave: Shrek – filme – intertextualidade – interdiscursividade
O filme
Era uma vez Shrek, um ogro que vivia sozinho e feliz, até as personagens dos contos de fadas invadirem o seu pântano e abalarem seu sossego. Disposto a se livrar daquelas criaturas e reaver sua tranqüilidade, Shrek decide procurar o responsável pelo despejo das personagens: o cruel Lord Farquaad. Para recuperar o seu pântano, Shrek terá que buscar a princesa Fiona, futura noiva do Lord, e salvá-la de um dragão que cospe fogo.

Acompanhado por um burro falante - que insiste em ficar perto de Shrek após este ter salvado sua vida - o ogro verde segue em busca da princesa.

Depois atravessar um lago de larva vulcânica, subir ao quarto mais alto da torre mais alta e se livrar – temporariamente – do dragão, os dois conseguem libertar a bela Fiona. Na volta para casa, o ogro e a princesa se apaixonam, e Shrek não quer entregar a sua amada para o Lord...

O filme é baseado no livro homônimo de William Steig (1990). É uma animação1 computadorizada dirigida por Andrew Adamson e Vicky Jenson. Foi lançado em 2001 e ganhou o Oscar de melhor animação. A versão original, em inglês, tem na equipe de dublagem personalidades hollywoodianas como Cameron Diaz, Mike Myers e Eddie Murphy.

Shrek, o primeiro filme de uma trilogia de muito sucesso do estúdio de animação norte-americano Dreamworks, é repleto de citações, alusões e estilizações literárias e cinematográficas, o que o torna um prato cheio para o tipo de análise proposta neste ensaio. Diante de um prato tão cheio, é necessário fazer escolhas. Neste ensaio, será dada maior atenção às personagens Fiona e Shrek.
Discurso e texto
A distinção entre discurso e texto é um elemento importante para a compreensão dos conceitos de intertextualidade e interdiscursividade. Para Barros (1988, p. 7) “o discurso caracteriza-se por estruturas sintático-semânticas narrativas que o sustentam e organizam”. Greimas e Courtès (citados por FIORIN, 1994, p.30) definem discurso como “o patamar do percurso gerativo de sentido em que um enunciador assume as estruturas narrativas e, por meio de mecanismos de enunciação, actorializa-as, especializa-as, temporaliza-as e reveste-as de temas e/ou figuras” (GREIMAS e COURTÈS citados por FIORIN, 1994, p.30). Ambas as afirmações nos permitem compreender o discurso como a categoria semântica que sustenta o texto; é algo implícito. E o que é o texto? O texto pode ser compreendido como a materialização do discurso, o lugar onde é possível “tocá-lo”. Nas palavras de Fiorin (1994, p. 30), “é o lugar em que diferentes níveis (fundamental, narrativo e discursivo) do agenciamento do sentido se manifestam e se dão a ler”.

Interdiscursividade e intertextualidade começam com o prefixo inter, o que traz a idéia de posição intermediária, de reciprocidade, de relação entre coisas. Deste modo, é possível inferir que intertextualidade está para relação entre textos e interdiscurso para a relação entre discursos.


Interdiscursividade
“A interdiscursividade é o processo em que se incorporam percursos temáticos e/ou percursos figurativos, temas e/ou figuras de um discurso em outro. Há dois processos interdiscursivos: a citação e a alusão” (FIORIN, 1994, p. 32). Quando um discurso repete percursos temáticos e/ou figurativos temos a citação. A alusão, por sua vez, ocorre quando temas e/ou figuras de um discurso são colocados para servir de contexto para a compreensão do que foi colocado (FIORIN, 1994).

Em Shrek, o processo interdiscursivo presente é a citação. O filme possui a mesma estrutura de clássicos como A Bela Adormecida, Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel, entre outros: uma princesa, um herói e um vilão/vilã. A narrativa do filme também é análoga à de muitos contos de fadas. Lançando mão do modelo Vanoye (citado por SILVA, 2001, p.86), podemos caracterizá-la da seguinte forma: ordem existente (vítima, objeto da perturbação); ordem perturbada (vilão, sujeito da perturbação); ordem (re)estabelecida (herói sujeito da restauração).

Entretanto, apesar da estrutura narrativa ser semelhante, Shrek distingue-se dos demais. Diferentemente da princesa Aurora (a Bela Adormecida), que depende do Príncipe Encantado para despertar do sono, ou da Cinderela, que depende do Príncipe Encantado para se livrar dos maus tratos da madrasta, o ogro verde é vítima e herói. A sua ordem inicial (pântano isolado, vida feliz) é perturbada; neste ponto ele é a vítima, ou seja, é o objeto da perturbação. Na tentativa de restabelecer a ordem é ele mesmo quem parte em busca da resolução do problema, nesta situação ele é o herói. Shrek não depende de outro que o salve. Ele é autônomo, o que não significa que em sua autonomia ele não possa contar com a ajuda de outros, como o Burro, por exemplo.

No filme, temos outra vítima além de Shrek: a princesa Fiona. Ela vive aprisionada em um castelo à espera do príncipe que a liberte e lhe devolva a sua verdadeira forma com o beijo do amor, pois se transforma em uma ogra após cada por-do-sol e o feitiço só pode ser quebrado com um beijo do amor verdadeiro. A ordem existente: a princesa livre e em sua forma humana. A ordem perturbada: a prisão no castelo e o tornar-se ogra. E qual seria a verdadeira forma da princesa – a ordem (re)estabelecida? Nos clássicos dos contos de fada, certamente seria a forma humana. Em Shrek, a princesa ogra é a verdadeira forma. O “ser ogra” que poderia ser caracterizado como ordem perturbada, na verdade é a ordem que se estabelece após a ação do herói.

O processo interdiscursivo de Shrek implode a estrutura dos contos de fadas e, ao mesmo tempo, cria um leque de possibilidades para o gênero – possibilidades que foram aproveitadas nas duas obras seguintes da trilogia e em muitas outras animações como, por exemplo, Deu a louca na Chapeuzinho, Deu a louca na Cinderela.
Intertextualidade
“A intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo. Há de haver três processos de intertextualidade: a citação, a alusão e a estilização” (FIORIN, 1994, p. 30). A citação pode confirmar ou modificar o sentido do texto citado; a alusão reproduz as construções sintáticas em que determinadas figuras são substituídas por outras, mas não cita as palavras (e/ou personagens, no caso dos filmes); a estilização é a reprodução do estilo – conjunto de recorrências formais – de outrem (FIORIN, 1994). Shrek apresenta esses três processos.

As citações são muitas, principalmente a de personagens. No momento em que o pântano de Shrek é invadido, podemos ver entre os hóspedes indesejados: Pinóquio, Branca de Neve sendo carregada pelos sete anões em seu esquife, os Três Porquinhos, os três ursos do conto de Cachinhos Dourados, o Lobo Mau da história da Chapeuzinho vestido de Vovozinha. Em outro momento do filme, no castelo do Lord Farquaad, vemos o Espelho Mágico – aquele da rainha má da Branca de Neve – e a célebre frase “Espelho, espelho meu”. Assim como na história de origem, o Espelho Mágico é uma espécie de conselheiro. É através dele que Farquaad toma conhecimento da existência de Fiona. O espelho apresenta três princesas candidatas a noiva do Lord: Cinderela, Branca de Neve e Fiona.

A maneira como o Espelho Mágico apresenta as candidatas alude aos programas de auditório em que se concorre a prêmios – no caso no Brasil, lembra muito o programa Tentação, que era exibido aos domingos pela emissora SBT. No início do filme temos outra alusão: a imagem de um livro e a voz de alguém que o lê – semelhante ao início do filme Branca de Neve e os Sete Anões na versão da Disney. Depois de ler algumas páginas, o leitor arranca-as para limpar o bumbum. O leitor é Shrek, e o seu gesto é bastante sugestivo em relação à proposta do filme.

No que concerne à estilização, é possível notar a presença de elementos dos contos medievos nas primeiras falas da princesa Fiona. As recorrências formais (FIORIN, 1994) que permitem tal afirmação são: o tratamento na segunda pessoa do plural e a utilização dos verbos em tempos derivados do pretérito perfeito. Ao se reportar a Shrek, diz a princesa “Vós devíeis me tomar em vossos braços, pular pela janela, descer por uma corda até a vossa bela montaria”. Há estilização também na estrutura arquitetônica dos castelos, que remetem aos castelos medievais apresentados em filmes.

O que há em comum entre esses três processos intertextuais no filme? A complexidade e a idéia de implosão.

Complexidade porque, segundo Maia (2008), a intertextualidade requer “um universo cultural muito amplo e complexo, pois implica a identificação / o reconhecimento de remissões a obras ou a textos / trechos mais, ou menos conhecidos, além de exigir do interlocutor a capacidade de interpretar a função daquela citação ou alusão em questão [grifo da autora]”.

Implosão porque o processo de desconstrução dos ethos predominante nas histórias de fantasia e contos de fada foi feito por dentro da própria estrutura narrativa desses gêneros. Não se trata de uma explosão lançando tudo pelos ares. A implosão converge para um ponto central: a idéia de rasgar os contos de fadas.

Seja na citação, na alusão ou na estilização, o que há é uma desconstrução do ethos a que se referem. Por exemplo, a Branca de Neve e os sete anões, em seus contos de origem, são figuras muito benevolentes, apresentam apenas virtudes; em Shrek, eles aparecem como criaturas incômodas, pois os sete adentram na sala carregando a Branca no esquife e colocam-na sobre a mesa em que Shrek estava jantando – derrubam tudo que estava sobre a mesa no chão, inclusive o jantar. O Lobo Mau convive com as outras criaturas dos contos de fada e nenhuma delas se sente ameaçada com a presença dele.

As personagens do filme Shrek são menos maniqueístas. Elas são boas e são más, educadas e mal educadas. A princesa que tem um linguajar culto também arrota alto. O ogro verde que mora no pântano e come rato também sabe ser romântico e cortês.

Que desfecho esperar para uma obra assim? Os ogros transformando-se em seres humanos e vivendo felizes para sempre em um castelo?

Segundo Calvino (1993, p. 19-20),

Se examinarmos as fábulas populares, verificaremos que elas apresentam dois tipos de transformação social, sempre com final feliz: primeiro de cima para baixo e depois de novo para cima; ou então simplesmente de baixo para cima. No primeiro tipo, existe um príncipe que por alguma circunstância desastrosa se vê reduzido a guardador de porcos ou alguma outra condição de miserável, para depois reconquistar sua condição real; no segundo tipo existe um jovem que não possui nada desde o nascimento, pastor ou camponês e talvez também pobre de espírito, que por virtude própria ou ajudado por seres mágicos consegue se casar com uma princesa e tornar-se rei.

Os mesmos esquemas valem para as fábulas com protagonista feminina: no primeiro tipo, a donzela de uma condição real ou menos privilegiada cai numa situação despojada pela rivalidade de uma madrasta (como Branca de Neve) ou de meias-irmãs (como Cinderela) até que um príncipe se apaixona por ela e a conduz ao vértice da escala social; no segundo tipo, se encontra uma verdadeira pastora ou camponesa pobre que supera todas as desvantagens de seu humilde nascimento e realiza núpcias principescas.

[...] No inconsciente coletivo, o príncipe disfarçado de pobre é a prova de que cada pobre é na realidade um príncipe que sofrera uma usurpação e que deve reconquistar seu reino.

O desfecho do filme Shrek surpreende o inconsciente coletivo: a princesa torna-se definitivamente ogra e vai morar no pântano com seu amado ogro. Podemos pensar o tornar-se ogra como um rebaixamento da condição de princesa. Mas podemos pensá-lo também como uma ascensão do ser ogra/o a uma possibilidade de existência feliz dentro dos contos de fadas e histórias de fantasia.
Considerações finais
Ao lançar mão dos conceitos de interdiscurso e intertextualidade para analisar o filme, estamos defendendo o uso da linguagem cinematográfica na educação como texto, e não como pretexto. Ao invés de usar o filme para ilustrar os conceitos, usamos os conceitos para compreender o filme.

O interdiscurso e a intertextualidade presentes em Shrek promovem uma desconstrução do ethos dos contos de fada e histórias de fantasias a que se referem. Mas, uma desconstrução não implica na construção de algo novo? A implosão de um prédio, por exemplo, constrói outra paisagem: a pilha de escombros é uma paisagem diferente da anterior. O prédio destruído construiu uma pilha de escombros.

O herói ogro e a princesa ogra implodem as figuras do herói e da vítima. O herói apresenta as características estéticas de um clássico vilão; a princesa, pouco a pouco, mostra-se casa vez mais semelhante a uma ogra. Ao se distinguirem do comum, as personagens abrem espaço para o diverso, para o que é diferente da maioria. Não é necessário que ambos tornem-se humanos para serem felizes. Eles são ogros, se amam e são felizes.

Se, de acordo com Calvino, citado anteriormente, na grande maioria das fábulas populares, contos de fadas e histórias de fantasia fica subtendido que em cada um de nós existe um príncipe ou uma princesa, a mensagem de Shrek é outra, totalmente diferente: dentro de cada um nós existe um ogro/a.


Bibliografia
BARROS, Diana Luz Pessoa de. Dialogismo, Polifonia e Enunciação. In: BARROS, Diana Pessoa de e FIORIN, José Luiz (orgs.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bahktin Mikhail. São Paulo: EDUSP, 1994. pág. 1-9.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria do discurso: fundamentos semióticos. São Paulo: Atual, 1988.

BRANCA de Neve e os Sete Anões (Título original: Snow White and the Seven Dwarfs). Direção: David Hand. Roteiro: Dorothy Ann Blank, Richard Creedon, Merrill De Maris, Otto Englander, Earl Hurd, Dick Rickard, Ted Sears e Webb Smith. Estados Unidos, 1937. 1 DVD (83 min). Produzido por Walt Disney Pictures. Baseado em história de Jacob Ludwig Carl Grimm e Wilhelm Carl Grimm.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

FIORIN, José Luiz. Polifonia textual e discursiva. In: BARROS, Diana Pessoa de e FIORIN, José Luiz (orgs.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bahktin Mikhail. São Paulo: EDUSP, 1994. pág.29-36.

MAIA, Maria Christina de Motta. Intertextualidade. Disponível em: http://acd.ufrj.br/~pead/tema02/intertextualidade2.htm. Acesso em jul. 2008.

SHREK. Direção: Andrew Adamson e Vicky Jenson. Roteiro: Ted Elliott. Glendale: Dreamworks Animation, c2001. 1 DVD (89 min), widescreen, color. Baseado no livro “Shrek” de William Steig.

SILVA, Salete Therezinha de Almeida. A linguagem cinematográfica na escola: uma leitura d’O rei Leão. In: CITELLI, Adilson (coord.). Outras linguagens na escola: publicidade, cinema e TV, rádio, jogos, informática. 2ª edição. São Paulo: Cortez, 2001 (Coleção aprender e ensinar com textos; v.6).



1 Animação refere-se ao processo segundo o qual cada fotograma de um filme é produzido individualmente, podendo ser gerado por computação gráfica, fotografando uma imagem desenhada ou repetidamente fazendo-se pequenas mudanças a um modelo, fotografando o resultado (http://pt.wikipedia.org/wiki/Anima%C3%A7%C3%A3o). A animação usada em Shrek foi a computação gráfica.


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