Irracionalismos da razãO (sobre os ensaios de josé saramago)



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IRRACIONALISMOS DA RAZÃO (SOBRE OS ENSAIOS DE JOSÉ SARAMAGO)
SANDRA FERREIRA

UNESP/Assis – BRASIL

san@assis.unesp.br
Gênero híbrido por excelência, o romance abriga em si gestos tomados a outras formas. Em se tratando de O ensaio sobre a cegueira (1995) e Ensaio sobre a lucidez (2004), o ensaio é a mais eminente delas, tendo-se em vista o fio filosófico que os perpassa e aflora em frases-síntese proferidas pelas personagens. Tais frases, fortemente aforísticas, concedem ao narrador o estatuto, por um lado, filosófico, já que a reflexão sobre as implicações do mal branco é constituída na sua palavra (freqüentemente tornada eco da voz de algumas personagens); e, por outro, demiúrgico, já que é o princípio organizador da narrativa, que não pretende criar a realidade narrada (referida como “vero relato”), mas organizar a matéria constitutiva dos relatos e sobre ela discorrer exemplarmente, compondo um continuum narrativo em que se mesclam acontecimentos e ponderações suscitadas pelos mesmos, produzindo-se, ao cabo, um fértil e harmonioso convívio entre o relato, entendido como narração ficcional, e o ensaio, em romances que parecem destinados a serem lidos também como ensaios na acepção primeira do vocábulo: avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou maneira de usar algo, teste, experimento.

O Ensaio sobre a cegueira, sendo assim, poderá ser lido como experimento em que Saramago se propõe a simular, por meio da alegoria, uma situação limite, em que o ser humano vê-se forçado a contemplar-se de frente, na sua inteira fragilidade e ferocidade, instado a lidar com o que é, bem como com o que cada um a sua volta torna-se, quando despojado de todos os dispositivos de domesticação (trabalho, moradia, família, nome, enfim, todas as referências sociais que modelam o ser e garantem que o mesmo se mantenha visível para si mesmo como humano). Suprimidos tais dispositivos, o que restaria? Obrigado a ver-se sem as miragens que os olhos captam no mundo socialmente configurado, alcançaria a mais cabal percepção do ser para compreender o quanto carece de valores mais lídimos e do quão dolorosa é sua luta para arrancar de si mesmo os rostos da verdade.

No Ensaio sobre a cegueira renova-se e intensifica-se a veia saramaguiana incapaz de conceber a literatura desvinculada do drama da existência, sobre o qual se debruça para nos apresentar um ensaio (experimento, estudo) profundo, impiedoso, cruel até, das várias formas de luta do ser consigo mesmo e com os que o rodeiam. Trata-se de um romance fortemente ensaístico, sobretudo porque, ao invés de reduzir a pluralidade do mundo a conceitos e definições, Saramago apresenta partículas do real organizadas a partir de um percurso não apenas causal ou retilíneo, já que o propósito não é a construção de conceitos fechados, mas sim de campos de força marcados pela tensão. No romance, o conceito de uma sociedade decadente existe de modo dinâmico e em relação múltipla com os conceitos criados na narrativa. É por essa razão que o romance se deixa embalar pelo ritmo do ensaio: é aberto, tenso, explicita a errância e a indeterminação da matéria para a qual se volta.

A representação do sofrimento torna o Ensaio sobre a cegueira uma narrativa que traz à luz, de modo violento, a barbárie humana recalcada, a qual é figurativamente nomeada como “cegueira”. Dessa cegueira ficamos logo a saber que tem origem desconhecida, é contagiosa e “branca” (p.13), “um mar de leite”(p.14), “brancura luminosa que absorvia tudo” (p.16), “treva branca” (p.27), “questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu” (p.39), sabemos também que é “atravessar a pele visível das coisas e passar para o lado de dentro delas”(p.65); não é, em sentido próprio, uma doença, segundo o oftalmologista (p.70), e, “quem nos diz que a cegueira branca não será precisamente um mal do espírito” (p.90), e ainda “não era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa” (p.94), “maré branca” que não poupou ninguém, exceto a mulher do médico e o narrador. Dela é dito também “o que verdadeiramente nos está a matar é a cegueira”(p. 282), “esta cegueira é concreta e real disse o médico, Não tenho certeza, disse a mulher, Nem eu, disse a rapariga dos óculos escuros” (p.282), “não há cegos, mas cegueira é, finalmente, o que a experiência dos tempos ensinou”(p.308).

Nesse rol de referências à cegueira destacam-se grupos assertivos centrados na metáfora (“mar de leite”, “brancura luminosa”, “treva branca”, “maré branca”, glória luminosa”); aforismos (“é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu”, “atravessar a pele visível das coisas e passar para o lado de dentro delas”, “não há cegos, mas cegueira”), (“não é doença”, “mal do espírito”, “concreta e real”) e, finalmente, descrição e tentativa de classificação por expressões que realçam a abrangência épica da cegueira (epidêmica, não poupou ninguém, está a matar, tipo desconhecido).

Destaca-se no grupo de metáforas a predominância do vocábulo “branca” como modificador, seguido por “luminosa”. Em óptica, define-se o branco como cor produzida pela emissão de todos os tipos de luz conjuntamente, sem absorção sensível. Sendo a soma de todas as cores, resulta sem cor. No romance, o “mar de leite”, que remete à cegueira como lugar de naufrágio, de imersão numa brancura sem remissão, paradoxalmente sintetizada no sintagma “treva branca”, já que treva remete à total ausência de luz, à escuridão e, figurativamente, à falta de conhecimento, à ignorância. Se é sinônimo de escuridão e ignorância, é também antônimo de luz, claridade, sapiência.

O atrito dos opostos amalgamados em “treva branca”, portanto, sinaliza a excepcionalidade da cegueira instaurada, desvelando o ethos alegórico da narrativa, empenhada em representar idéias de modo figurativo. As demais referências à cegueira são feitas por meio de contrapontos em que se entrelaçam aforismos e tentativas de definição que resultam invariavelmente na dificuldade de apreensão da cegueira em tela. Essa dificuldade pode ser matizada quando se atenta à significação de que o vocábulo olhos se reveste no romance:

Constrói-se uma rede metafórica em que o vocábulo “olhos” assoma reiteradamente como o termo comparado dos comparantes “espelhos virados para dentro” e “alma”. Os olhos, descritos como o lugar em que o ser se dá a conhecer em sua plenitude, são definidos proverbialmente como “janelas da alma”, razão pela qual podem revelar, como “espelhos virados para dentro”, o que está oculto sob as aparências; razão igualmente do desespero suscitado tanto pelo não-ver quanto pelo ver no dramático reino da cegueira branca: não ver equivale a dispor de acesso precaríssimo às condições que, conforme o senso comum, dotaram o homem de superioridade sobre o animal, equivale a ser reduzido à condição de “animal peçonhento”, conforme o narrador demonstrará exemplarmente. Ver, por sua vez, corresponde a testemunhar, sem atenuantes, todos os estágios dessa torturante metamorfose em que a borboleta retorna à condição de lagarta:


Chegado a estes dias, os meus e os do mundo, vejo-me perante duas probabilidades únicas: ou a Razão, no homem, não tem feito mais do que dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre animais, é, também, indubitavelmente, o mais irracional de todos eles. Com grande desgosto inclino-me para a segunda hipótese, e não por ser propenso a filosofias negativistas, mas porque o cenário do mundo, de todos os pontos de vista, me parece uma demonstração clara da irracionalidade humana. O sono da Razão, esse que nos converte em irracionais, fez de cada um de nós um pequeno monstro. De egoísmo, de fria indiferença, de desprezo cruel. O homem, por muito cancro e muita sida, por muita seca e muito terremoto, não tem outro inimigo senão o homem (Saramago, 1998, p.474).
Essa lúcida reflexão acerca do homem, inscrita nos Cadernos de Lanzarote, permite ver como Saramago valeu-se da cegueira para evidenciar literariamente a saúde imaginária das condições que o ser humano criou para a própria espécie. Por essa razão, é proclamado no romance: “não há cegos, mas cegueiras”. Ao negar o substantivo simples, “cegos”, que remete aos indivíduos, e afirmar o derivado, “cegueiras”, correspondente a uma abstração genérica que aponta para além da privação do sentido da visão e explicita a falta de lucidez.

A cegueira é, portanto, a figura central de um tema complexo e universal, porque centrado no desamparo dos seres que condenaram a si mesmos a um estado de indigência que leva tanto à perda do eu como do outro, ambos fechados num círculo estreito em que parecem ser a repetição de um eterno zero, num mundo em que triunfou uma indústria cultural que transforma toda cultura em propaganda do status quo e no qual a impossibilidade de se diferenciar reduz as pessoas à massa. Daí a ausência de nomes, daí a despersonalização das personagens. Designadas por meio de perífrases ("mulher do médico", "rapariga de óculos escuros", "velho da venda preta" etc.), as personagens compõem um grupo, formado graças a um misto de acaso e afeto. O narrador fará com que, ao longo de um processo agônico, a originalidade de cada membro do grupo seja restituída ou criada, de modo que sejam capazes de ser plenamente quem são, para si mesmos e uns para os outros

As mudanças das personagens são condicionadas pelo movimento mais amplo sofrido pela sociedade em que vivem. O narrador vai revelando que elas são como são porque foi preciso que elas se tornassem assim. Se o todo muda, o ser é modificado e, como se sabe desde Diderot, o todo está sempre mudando. Uma mudança radical – a privação da visão, alegoria de uma humanidade incapaz de reconhecer as totalidades em que sua realidade está articulada – é o argumento decisivo para criar um espaço narrativo repleto de interpenetração de contrários (a cegueira, a visão; o amor, o ódio; a solidariedade, a indiferença; a abnegação, o egoísmo), de modo a atestar que todos os aspectos da verdade se entrelaçam e dependem uns dos outros. Conforme o contexto em que ela, a verdade, esteja situada, prevalece, na ação das personagens, um lado ou o outro de sua realidade.

A narrativa, entretanto, vai evidenciando que o movimento geral de sua verdade não se esgota em contradições inteligíveis, num mecanismo em que a tese (humanidade do ser) é confrontada com sua antítese (desumanidade), nuançada pelas razões diversas que engendram os gestos desumanos, de um modo que impede que a antítese prevaleça, chegando-se a uma síntese narrativa: a humanidade e a desumanidade, faces da mesma moeda, são geradas pelos princípios de organização da sociedade humana, isto é, são produzidas por fatores subjetivos, por decisões e escolhas, não são uma fatalidade, mas um processo que comporta alternativas e depende de iniciativas. É por essa razão que a humanidade do grupo de personagens – mediada pela lucidez da mulher do médico – é constituída a partir da percepção de que tudo depende da ação de cada um, assim, na primeira camarata, apesar das condições precaríssimas, vive-se com dignidade e organização, enterram-se os mortos, são mantidos e ou estabelecidos vínculos afetivos.

Convém notar que no Ensaio sobre a cegueira, assim com em A jangada de pedra (1999), apesar do destaque inevitável de alguns dos componentes, é o grupo, uma espécie de personagem coletiva, que se move e se transforma, como a atestar uma crença de que o indivíduo isolado, normalmente, não pode fazer história, dada a limitação de suas forças, por isso a ênfase no grupo solidário e no tema da organização desse grupo, por meio da qual somam-se as energias individuais e ganha-se maior eficácia para agir, como se o narrador chamasse a atenção para o fato de que não há estruturas, por mais desumanizadas que se encontrem, e talvez sobretudo quando assim se encontrarem, nas quais não exista espaço para as iniciativas do sujeito humano. Esse é o ethos subjacente à visão distópica apresentada no Ensaio sobre a cegueira, de onde se conclui que o pessimismo produzido pela espécie é contrabalanceado pela esperança que indivíduos (o grupo de personagens) são capazes de suscitar.

A visão distópica é constituída por meio de uma focalização de um mundo do não-desejo, criado a partir de uma organização metafórica demoníaca. As imagens em Ensaio sobre a cegueira são demoníacas no sentido de que, conforme Northrop Frye,o mundo é representado como um lugar que o desejo rejeita completamente:


O mundo do pesadelo e do bode expiatório, de cativeiro e dor e confusão; o mundo como é antes que a imaginação humana comece a trabalhar nele e antes que qualquer imagem do desejo humano, como a cidade e o jardim, tenha sido solidamente estabelecida; o mundo, também, do trabalho pervertido ou desolado, de ruínas e catacumbas, instrumentos de tortura e monumentos de insensatez. (s.d., p.148)
As imagens demoníacas, portanto, constroem o inferno existencial. No Ensaio sobre a cegueira, esse lugar infernal é delineado, primeiramente, no aprisionamento dos infectados pelo “mal branco” em um manicômio abandonado. A decisão de que os cegos, bem como todos aqueles que tivessem contato com eles, fossem recolhidos e isolados, é uma das seqüências envolvendo autoridade governamental mais irônicas no revelar o mundo humano demoníaco como uma sociedade unida pelo que Frye denomina “espécie de tensão molecular de egos, uma lealdade ao grupo ou ao chefe que diminui o indivíduo” (id., p.149). Essa tensão converter-se-á na mola propulsora da crítica aos aspectos totalitários da democracia feita no Ensaio sobre a lucidez (2004), vindo à luz, em Portugal e no Brasil, um mês antes do trigésimo aniversário da revolução de Abril. Essa associação torna-se particularmente significativa em virtude de o enredo do referido romance apresentar, à maneira dos romances que o precederam, um acontecimento insólito: em um país indeterminado, o processo eleitoral, decorrido em plena normalidade, revela ao final do dia, apurados os votos, que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram em branco. Novas eleições são imediatamente convocadas para o domingo seguinte e o número de votos brancos ultrapassará 80%.

Apresenta-se, assim, uma das piores hipóteses para qualquer sistema que se proponha como democrático, já que fica evidenciada a rejeição esmagadora de todas as propostas eleitorais. De saída, as ações representadas no romance e as reflexões nele propostas convertem-se em diretrizes para uma visada literário-filosófica sobre o sistema político, os limites de seu caráter democrático e o alcance de seus matizes antidemocráticos. Nessa empreitada, o Ensaio sobre a lucidez se converte no contraponto alegórico de Ensaio sobre a cegueira, instaurando-se um diálogo fértil, tanto pelos matizes ensaísticos que regem a tessitura dos romances, quando pela composição dos elementos estruturais da narrativa, dada a reaparição do grupo de personagens liderado pela mulher do médico, na capital do país anônimo que fora cenário da cegueira epidêmica. Monta-se, assim, a clave dialética para o balanceamento das imbricações da cegueira e da lucidez, fundidas pelos aspectos simbólicos de representação das mesmas, já que tanto a cegueira quanto os votos são brancos. A brancura converte-se, assim, em suspensão de todas as crenças e representações, em tábula rasa.

Ambos os romances mobilizam situações em que o descompasso entre as forças da população e a dos governantes é flagrante e, a despeito de todas as boas intenções discursivas demonstradas pelas autoridades, a condução dos episódios desestabilizadores da ordem estabelecida será invariavelmente desastrosa. Assim, os romances de Saramago perfilam-se como lugares estéticos da crença de que a História não está orientada para um progresso imprescindível, de que os progressos precisam ser incessantemente reconstruídos e que nada – tampouco a democracia – é conquistado para sempre:
[...] (o primeiro-ministro) sentiu a nostalgia da capital, do tempo feliz em que os votos eram obedientes ao mando, do monótono passar das horas e dos dias entre a pequeno-burguesa residência oficial dos chefes de governo e o parlamento da nação, das agitadas e não raras vezes joviais e divertidas crises políticas que eram como fogachos de duração prevista e intensidade vigiada, quase sempre a fazer de conta, e com as quais se aprendia, não só a dizer a verdade como a fazê-la coincidir ponto por ponto, quando fosse útil, com a mentira, da mesma maneira que o avesso, com toda naturalidade, é o outro lado do direito. (SARAMAGO, 2004, p. 196)
As personagens, em Ensaio sobre a lucidez, podem ser compreendidas à luz do que Erich Fromm designou consciência autoritária e consciência humanista. Para Fromm, a consciência autoritária é marcada pela "disposição de seguir as ordens das autoridades a quem a pessoa se submete; é obediência glorificada" (s.d., p. 100). A consciência humanista, por sua vez, consiste na "disposição para ouvir a voz da sua própria humanidade e independe das ordens dadas por qualquer pessoa" (id., ibid.) As autoridades governamentais, os agentes policiais, o primeiro cego, representam a consciência autoritária, enquanto os eleitores do voto em branco, o núcleo em torno da mulher do médico e o comissário nutrem a consciência humanista. Elabora-se uma complexa rede em que o primeiro cego se converte em delator e na qual o comissário de polícia, oriundo das filas autoritárias, recusa-se a reconhecer qualquer culpa na mulher do médico e em seus companheiros, acedendo à consciência humanista, perceptível em sua exortação aos oficiais que o acompanhavam, após pedir demissão: "não se deixem enganar com falinhas mansas nem com promessas de avanço rápido na carreira [...] neguem-se a aceitar mentiras em nome de uma verdade que não seja a vossa” (SARAMAGO, 2004, p. 279).

Os eleitores dos votos em branco são sombras, expressivos percentuais anunciados pelo narrador, que aparecem como vozes soltas, cujos enunciados fortemente metafóricos ressoam nos interrogatórios. A conversão dessas personagens em sombra e cifra é bem-sucedida para sugerir o quanto o processo democrático, no sentido tradicional da participação do cidadão na tomada de decisões, não é mais viável. O imbroglio estabelecido entre representantes dos poderes executivo, legislativo e judiciário evidencia que o processo democrático parece uma forma vazia, sob a qual se oculta um governo disposto a tudo para sustentar sua hierarquia de vários níveis e manter seus papéis de encarregados da tomada de decisões.

Saramago reduz a complexa malha de partidos às nomeações fundadas nas metáforas espaciais: p.d.d. (partido de direita), p.d.m. (partido do meio) e p.d.e. (partido de esquerda). Esse alinhamento ideológico é explicitado enunciativamente pelos representantes partidários. O que resulta das distinções enunciadas nas siglas pelos partidos não é suficiente para mascarar o fato de que a idéia de expressar a vontade popular se deteriorou numa competição em que os partidos não se incomodam de adaptar seus programas aos propósitos que lhes darão mais votos. Eleitos, agem em conformidade com as várias pressões exercidas sobre eles, muitas vezes contra o interesse do eleitorado.

Ensaio sobre a lucidez revela que o perigo representado pelo estiolamento das representações democráticas só pode ser evitado pelo propósito firme do eleitorado de reafirmar sua própria vontade. Essa reafirmação da vontade é utopicamente delineada pela adesão majoritária aos votos em branco, os quais evidenciam que os cidadãos não crêem mais nos ídolos democráticos. Segundo Fromm, os ídolos contemporâneos são “os líderes, as instituições, especialmente o Estado, a nação, a produção, a lei e a ordem, e todas as coisas criadas pelo homem [...]. É a submissão do homem às coisas por ele criadas e às circunstâncias dos seus atos” (s.d., p. 159). Contra essa alienação, o narrador propõe o princípio da solidariedade dos seres humanos, a lealdade para com a vida e a humanidade, como prioritária em relação à lealdade a qualquer grupo particular. Essa humanismo radical é vivenciado pelo grupo em torno da mulher do médico e pelo comissário de polícia, luminosas personagens às quais se opõe a força brutal do Estado.

Os votos em branco surgem como alegoria de que é possível à opinião pública expressar-se – manifestando a insatisfação generalizada dos cidadãos de todas as classes e idades com o way of life vigente – a tal ponto que se faça presente na tomada de decisões executivas e legislativas. Os votos em branco compõem uma metáfora concreta da certeza de que o sistema democrático não tem se portado à altura de suas promessas e precisa ser revitalizado por novas direções, pelo fim do método desumanizado e burocrático:


Foi então que o outro lutador, farto de esperar, arriscou um passo em frente. Uma manhã as ruas da capital apareceram invadidas por gente que levava ao peito autocolantes com, vermelho sobre negro, as palavras, Eu votei em branco, das janelas pendiam grandes cartazes que declaravam, negro sobre vermelho, Nós votamos em branco, mas o mais arrebatador, o que se agitava e avançava sobre a cabeça dos manifestantes, era um rio interminável de bandeiras brancas [...]. Os altifalantes da polícia esgoelavam-se a berrar que não eram permitidos ajuntamentos de mais de cinco pessoas, mas as pessoas eram cinqüenta, quinhentas, cinco mil, cinqüenta mil, quem é que, numa situação dessas, se vai pôr a contar de cinco em cinco. (SARAMAGO, 2004, p. 74)
Esse movimento de celebração em massa do voto em branco dialoga com o iberismo deflagrado em todos os países europeus por ocasião da separação da Península Ibérica do continente europeu em A jangada de pedra, quando a frase “Nós somos ibéricos” pôde ser lida em todas as línguas européias. A assunção pública e plena do gesto de votar em branco protagoniza um despertar coletivo em torno de uma idéia capaz de tocar os habitantes da capital como um poderoso meio gerador de entusiasmo, o que será recebido como ameaça insuportável pela poder estabelecido. O confronto é inevitável.

Os eleitores do voto em branco serão sistematicamente referidos como despojados da razão e representados como inimigos, por meio dos seguintes sintagmas inscritos no romance em análise: “eleitorado enceguecido” (p.43); “os degenerados, os delinqüentes, os subversivos do voto em branco” (p. 59); “grupos subversivos organizados que reiteradamente haviam obstaculizado a expressão eleitoral popular” (p. 66); “brancosos” (p. 110); “malditos sediciosos” (p. 166); “contestatários” (p. 168); “elementos subversivos que continuam a minar a estabilidade do correto funcionamento do sistema democrático” (p. 318).

O processo eleitoral em que os votos brancos assomaram, por sua vez, será focalizado em termos de maléfica anomalia a ser combatida, como atestam os seguintes enunciados: “peste moral” (p.45); “peste negra, Branca, esta é branca, corrigiu...” (p. 60); “rebelião” (p.61); “nó cego” (p.62); “catástrofe” (p. 63); “atividade deletéria de mal encapotadas subversões” (p. 67); “caso de monstruosidade política” (p. 71); “o mal que nos ataca é simplesmente mortal” (p. 75); "comportamento sedicioso" (p. 81); “peste branca” (p.148); “epidemia” (p.171); “praga que estamos padecendo” (p. 172); “nova peste branca” (´. 176); “flagelo” (p.185); “atinge em cheio o coração dos fundamentos da democracia como nunca qualquer sistema totalitário tinha conseguido fazê-lo antes” (p. 187); "diabólica manobra que mantém humilhado o estado de direito" (p. 227; “conspiração contra a democracia mundial” (p. 233).

O direito à manifestação será desrespeitado, as autoridades não concedem ao eleitorado tomar decisões por si mesmo, pensar e sentir como desejar. A democracia política rapidamente vai desenhando o aleijão de um sistema autoritário ao qual falta treinamento democrático. Assim, a liberdade de expressão dos eleitores será atacada em nome da atitude antidemocrática atribuída ao eleitorado por pseudodemocratas no poder.

Nos primeiros tempos da democracia, conforme observa Erich Fromm, havia vários
[...]tipos de providência que permitiam ao indivíduo participar ativa e concretamente da votação de uma determinada decisão ou da eleição de determinado candidato a um cargo. As questões a serem resolvidas eram conhecidas por ele [...] Hoje em dia, o leitor é confrontado por partidos gigantescos [...], os problemas são complicados e ficam mais ainda graças a toda espécie de recursos usados para embaralhá-los. (1978, p.111)
Nesse universo complexo, as principais rotas sociais de fuga à liberdade são, conforme Fromm, a submissão a um chefe e o conformismo compulsivo prevalecente na própria democracia. É contra essa submissão e esse conformismo que os votos em branco são arremetidos, como representação metafórica da insatisfação dos indivíduos de se prenderem aos padrões vigentes, propondo a ruptura com a crença autoritária de que o que é será eternamente. Os votos em branco remetem à possibilidade de propor outro futuro, diferente da submissão aos modelos vigentes. As personagens associadas ao poder possuem caráter autoritário, opõem-se ao desejo de mudanças evidenciado. Como na filosofia autoritária inexiste o conceito de igualdade, seus adeptos são afeitos à dominação ou submissão, nunca à solidariedade. Assim sendo, reduzem tudo a sinais de superioridade ou inferioridade, numa lógica simplista desmontada pelo narrador ao evidenciar as manobras discursivas que rebaixam o processo eleitoral com maioria de votos em branco à categoria do irracional, subversivo e improcedente, enquanto os representantes do governo, autoritariamente, instituem-se como medida exata da razão, da ordem e a da procedência.

As situações narrativas não acenam para a perda de qualquer conquista fundamental da democracia. Não é contra o princípio democrático a investida, mas contra as conformações dadas a esse princípio, contra sua dificuldade para efetivar-se como assegurador das conquistas básicas pressupostas pela democracia. O romance Ensaio sobre a lucidez faz ver que a democracia não está consumada, que não tem se empenhado como deveria para conhecer a fundo os problemas sociais e beneficiar a causa da liberdade humana e da participação dos indivíduos na determinação de sua vida e de sua sociedade. O voto é apenas uma das vias dessa determinação.

O voto em branco converte-se, rapidamente, em um mecanismo de explicitação dos limites democráticos, já que, em nome do restabelecimento da democracia, ações totalitárias serão encenadas. O estado de exceção instalado pelo governo é apresentado no romance como contraponto do desejo de liberdade e renovação explicitado nas urnas pelos votos em branco. Pouco após os episódios eleitorais, o estado de exceção começa a se instalar e, gradativamente, as manobras conduzem a que o presidente, o governo, o parlamento e o exército abandonem a cidade, numa estratégia em que se pressupunha que conflitos aterradores ocorreriam. Surpreendentemente, apesar de episódios de violência serem ligeiramente mencionados, as personagens conseguem manter o andamento civilizado de suas vidas. Esse contraponto imprevisto envolve indagações sobre o que significa agir politicamente.

É sabido que há estreita relação entre estado de exceção, guerra civil e insurreição e, embora o léxico utilizado para fazer referência ao processo eleitoral aponte para esse campo semântico, não há nenhuma evidência de que os fatos decorridos na capital não nomeada possam ser tomados como justificativa para o estado de sítio, conforme os próprios governantes dão a saber:


Graças a Deus a retirada ia fazer-se tranqüilamente, sem causar excessivos traumas a uma população por ventura já arrependida, em parte, de um comportamento sedicioso a todas as luzes inexplicável, mas que, apesar disso, numa mostra de civismo digna de todos os louvores e que augurava melhores dias, não parecia ter a intenção de hostilizar, quer por atos quer por palavras, os seus legítimos governantes e representantes neste momento de dolorosa, porém indispensável separação. Assim se concluía de todos os informes e assim foi que aconteceu. (SARAMAGO, 2004, p, 81)
O romance impressiona pela desproporção com que a ocorrência espontânea dos votos em branco é tratada pelos governantes, pois infração alguma foi efetivamente cometida:
Peço licença para recordar ao nosso caro colega e ao conselho, disse o ministro da justiça, que os cidadãos que decidiram votar em branco não fizeram mais que exercer um direito que a lei explicitamente lhes reconhece, portanto, falar de rebelião num caso como este, além de ser, como imagino, uma grave incorreção semântica, [...] é também, do ponto de vista legal, um completo despropósito, Os direitos não são abstrações, respondeu o ministro da defesa secamente, os direitos merecem-se ou não se merecem, e eles não os mereceram, o resto é conversa fiada. Tem toda razão, disse o ministro da cultura, de fato os direitos não são abstrações, têm existência até mesmo quando não são respeitados, Ora, ora, filosofias, Tem alguma coisa contra a filosofia, senhor ministro da defesa, As únicas filosofias que me interessam são as militares, e ainda assim com a condição de que nos conduzam à vitória. (id., ibid, p.62)
A ocorrência dos votos em branco será tratada pelo poder estatal como conflito interno extremo, justificador da instalação do estado de exceção. De acordo com Giorgio Agambem, o totalitarismo moderno pode ser definido como a instauração, por meio do estado de exceção, "de uma guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político" (2004, p. 13). Conforme Agambem, essa é uma das práticas essenciais dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos. Por essa razão, o estado de exceção pode ser considerado um "patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo" (id., ibid.).

O romance de Saramago dá a dimensão exata da facilidade com que os considerados inimigos da ordem têm seu estatuto jurídico de indivíduos anulado e convertem-se em objetos de pura dominação. Assim, as medidas inicialmente adotadas, como colocar agentes disfarçados à escuta dos eleitores, submetê-los a interrogatórios, utilizar detectores de mentira, vão se intensificando rapidamente e o espaço público é invadido pelas forças militares , o direito de ir e vir é abolido, atentado – planejado pelo ministro da defesa para incriminar os cidadãos – resulta em mais de 34 mortes; fabricação de bode expiatório; extermínio de cidadãos.

Agambem faz ver que o estado de exceção moderno é uma "criação da tradição democrático-revolucionária e não da tradição absolutista" (2004, p. 16). Os desvãos totalitários da democracia estão passados a crivo em Ensaio sobre a lucidez, de modo a sublinhar a possibilidade da ditadura constitucional, que se propõe a salvar a ordem fazendo crer que as medidas excepcionais, justificadas como necessárias à defesa da constituição democrática, podem ser exatamente aquelas que a levam à ruína. Não por acaso, o romance se encerra remetendo ao predomínio da insensatez, representada pelo diálogo de abissal indiferença entre cegos.
Então um cego perguntou, Ouviste alguma coisa, Três tiros, respondeu outro, Mas havia também um cão aos uivos, Já se calou, deve ter sido o terceiro tiro, Ainda bem, detesto ouvir cães a uivar (SARAMAGO, 2004, p, 325).
O fim remete à epígrafe:"Uivemos, disse o cão", tomadas a um fictício Livro das Vozes. Se o Ensaio sobre a cegueira findava com a celebração coletiva da visão recuperada, o Ensaio sobre a lucidez se encerra em uivo silenciado a bala, em cegueira restabelecida. Os Ensaios, juntos, delineiam uma desconfiança terrível de que nenhum sacrifício em nome da humanidade é demasiado grande, nem mesmo o sacrifício temporário da própria humanidade, já que suas mais altas conquistas podem ser impunemente eliminadas e contestadas pela violência governamental, que ignora o direito e finge ainda aplicá-lo, fato claramente sumariado pelo ministro do interior: "há casos em que a sentença já está escrita antes do crime". (id. ibid., p. 244). Fica evidenciado, assim, que os seres humanos não matam apenas movidos por suas paixões, mas, sobretudo, à luz de suas racionalizações. Nessa sanha pela manutenção do poder a qualquer preço, as ações despolitizam-se, porque, como lembra Agambem, "verdadeiramente política é apenas aquela ação que corta o nexo entre violência e direito" (2004, p.133).

Os Ensaios de José Saramago focalizam a derrocada do ideal de emancipação da razão, revelando-o como uma dinâmica do poder. É a instrumentalidade do poder que é encenada como simultaneamente cegueira e lucidez, porque a lucidez se converte em cegueira ao impor mecanismos coercitivos absolutos; e a cegueira, em lucidez, ao tomar ciência do contexto social-político de dominação:


[...] o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra. Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou, Como se atreve, em pleno conselho do governo, a pronunciar semelhante barbaridade antidemocrática, deveria ter vergonha, nem parece um ministro da justiça, explodiu o da defesa, Pergunto-me se alguma vez terei sido tão ministro da justiça, ou de justiça, como neste momento. (SARAMAGO, 2004, p. 172)
Os romances analisados apontam para reflexões não só sobre o quanto a essência da subjetividade humana é a, mas também sobre a inevitável condenação à cegueira quando se mascara que o real – na política e na moral – é a opacidade, a incerteza, a ruptura, o confronto. O grande problema permanentemente posto para a humanidade é o de saber até onde se pode ir, tanto na audácia como na prudência, tanto na moral como na amoralidade:
Se algo sou capaz de entender do que se passa na cabeça da gente, o que o senhor tem ai é um remorso de consciência, Remorso pelo que não fiz, Há quem afirme que esse é o pior de todos, o remorso de termos permitido que se fizesse (Saramago, 2004, p. 119)
As situações narradas evidenciam que à humanidade, nos tempos sombrios em que se move, cabe o embate entre esperança e desespero, horror e admiração, jamais a resignação prostrada, porque o mundo, como diz Edgar Morin, "não é nem horrível nem maravilhoso, mas é horrível-maravilhoso" (2003, p.289). Os Ensaios de José Saramago evidenciam o quanto vivenciamos a era da mitologia do real. Conforme Morin, se as antigas mitologias acreditavam em uma realidade das lendas, a nova mitologia tece a lenda da realidade, reificando uma noção que deveria ser relativizada, "após ela mesma ter relativizado os mitos e as crenças" (id., ibid., p. 287).

A razão e a democracia fazem parte dessa mitologia do real. Saramago tem declarado em várias ocasiões não ser um romancista, mas um ensaísta que não sabe escrever ensaios e, por isso, escreve romances. "Faço ensaio com personagens", afirmou no programa de entrevistas Roda Viva (2003) Nesse mesmo programa, asseverou que a democracia converteu-se em fachada, e mais propriamente em "fantochada", porque vivemos no regime plutocrático e não democrático: "o governo é eleito com votos, a partir daí não podemos fazer mais nada. Daí para cima manda o dinheiro. Vemos uma sombra e dizemos: Olha a democracia" (id.).

Saramago certamente dialoga com a tradição ensaística – própria de nossa cultura desde Erasmo, Maquiavel, Montaigne, La Bruyère, Diderot, até Camus e Bataille –, tradição esta responsável por uma notável contribuição reflexiva sobre a condição humana. O autor de Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez constrói romances que evidenciam um empenho estético para sondar os caracteres existenciais, subjetivos do ser humano, colocando à mostra suas relações com o outro e com a sociedade. Nesses romances, está posta uma força de interrogação e de reflexão que os caracteriza como profundamente filosóficos. A problematização da condição humana neles efetivada inclui anunciar a amplidão do desastre, pôr às claras o contexto de ofuscamento e evidenciar a necessidade imperiosa do respeito ao sensível:
[...] a terra foi empurrada para dentro das covas, distribuíram-se as flores equanimemente, aqueles que tinham razões para chorar foram abraçados e consolados pelos outros, se tal era possível sendo a dor tão recente. O ente querido de cada um, de cada família, está aqui, porém não se sabe exatamente onde, talvez nesta cova, talvez naquela, o melhor será que choremos sobre todas elas, estava com a verdade aquele pastor de ovelhas que disse, vá lá saber-se onde o teria aprendido, Não há maior respeito que chorar por alguém a quem não se conheceu. (SARAMAGO, 2004, p.135)
Os romances de Saramago, desde O Ensaio sobre a Cegueira até As Intermitências da Morte (2005), trazem em seu bojo o modo tipicamente metafísico de pensar, porque sondam a oposição entre essência e aparência, verdade e falsidade, original e cópia, eterno e efêmero, ser e vir a ser, montando um horizonte de dualismos que transformam a experiência sensível e o conhecimento de senso comum em lugares de sombras e imagens imperfeitas de uma realidade que nos escapa. A imagem emblemática desse conceito é composta pelo pastor que troca o número das lápides no Cemitério Geral de Todos os Nomes, confundindo-as irremediavelmente.

Em um tempo não definido, em uma capital não nomeada, que pode ser quase o mundo todo, as eleições acumularam votos em branco e colocaram em xeque o processo democrático de representação política, permitindo a configuração de um mundo de pernas para o ar, a partir da recusa às encenações que consagradas vias de atuação política têm produzido. Por essa via, José Saramago compôs, em Ensaio sobre a Lucidez, um quadro narrativo complementar à reflexão sobre a genealogia violenta da racionalidade iluminista proposta em Ensaio sobre a cegueira.

Os Ensaios, portanto, empreendem, por meio de suas estruturas narrativas, uma reflexão alinhável com aquela feita por Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento, ao revelarem a recusa do pensamento mítico-mágico feita pela razão ocidental como tentativa reiterada de livrar o homem do medo, seguida pela conseqüente conversão da razão em ameaça, em fonte de medo. Saramago e suas alegorias têm insistido no quanto o esclarecimento pode não cumprir a tarefa a que foi chamado e aprisionar ainda mais o ser humano. Não é por acaso, sendo assim, que o temor individual da regressão ao amorfo produzirá regressões coletivas totalitárias, tanto em Ensaio sobre a cegueira quanto em Ensaio sobre a lucidez, lugares estéticos de crítica à possibilidade de totalização do pensamento e de reflexão sobre a racionalidade e a irracionalidade da condição humana.

BIBLIOGRAFIA


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SARAMAGO, José. Cadernos de Lanzarote. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.





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