Isolamento de bactérias provenientes de abscessos de bovinos após aplicação subcutânea de vacina contra Febre Aftosa no Estado



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Análise microbiológica e histopatológica de abscessos de bovinos após aplicação subcutânea de vacina contra Febre Aftosa no Estado da Bahia.

Microbiological and histopatological analysis of abscesses of bovines after subcutaneous vaccine application against Aftosa Fever in the State of the Bahia.



Isabella de Matos Mendes da SILVA1*, Darcy Pìres de Matos PINHEIRO2, Hélio Gomes SOUZA3, Ana Letícia BAMBIRRA4, David Silva dos SANTOS5, Ricardo Mendes da SILVA5



1Médica Veterinária, Mestre em Nutrição, Doutoranda em Ciência Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Professora Assistente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

2Médica Veterinária, Mestre em Microbiologia e Imunologia, Professora da União Metropolitana de Educação e Cultura.

3Médico Veterinário, Mestre em Imunologia, Professor do Departamento de Biomorfologia da Universidade Federal da Bahia e da União Metropolitana de Educação e Cultura.

4Aluna do Curso de Medicina Veterinária da União Metropolitana de Educação e Cultura.

5Alunos do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia.

* Endereço para correspondência: isabellamatos@yahoo.com.br- vethelio@ufba.br


RESUMO

Foram analisados os conteúdos provenientes dos abscessos pós-vacinação contra Febre Aftosa de 66 animais abatidos em matadouros da região metropolitana de Salvador-Bahia, com o objetivo de identificar os agentes microbianos presentes no exsudato dos abscessos pesquisados e as alterações histopatológicas decorrentes do processo inflamatório. As secreções foram coletadas dos abscessos após esfola dos animais, acondicionados em tubos de ensaio esterilizados, mantidos resfriados em caixas térmicas com gelo e enviadas ao Laboratório de Microbiologia da União Metropolitana de Educação e Cultura. Fragmentos destes abscessos foram utilizados para análise histopatológica. Os resultados demonstram que foram identificados Staphylococcus spp (18,2%), Bacillus spp. (15,2%) Escherichia coli (10,6%) e Proteus spp. 9 (1%). As demais amostras examinadas (39,4%) observou-se ausência de crescimento e em outras (7,5%) isolou-se mais de um tipo de bactérias, com predominância de Staphylococcus spp., O estudo histopatológico evidenciou a presença de pio-granulomas com a presença de células do sistema monohistiocitario com predominância de macrófagos em área próxima dos granulomas e infiltrado linfocitário com localização mais externa aos piogranulomas, áreas de hialinização e fibrose com bastante células fibroblásticas.


Palavras-chave: Abscessos; vacina anti-aftosa; microrganismos.

SUMMARY


The contents proceeding from the abscesses had been analyzed after-vaccination against Aftosa Fever of 66 abated animals in slaughter houses of the region metropolitan of Salvador-Bahia, with the objective to identify to the microbians agents gifts in the exsudato of the searched abscesses and the decurrent histopatological alterations of the inflammatory process. The secretions had been collected of the abscesses after flay of the animals, conditioned in esterilized, kept pipes of assay cooled in thermal boxes with ice and envoy to the Laboratory of Microbiology of the Union Metropolitan of Education and Culture. Fragmentos of these abscesses had been used for histopatological analysis. The results demonstrate that they had been identified to Staphylococcus spp (18.2%), Bacillus spp. (15.2%) Escherichia coli (10.6%) and Proteus spp. 9 (1%). Excessively the examined samples (39.4%) growth absence was observed and in others (7.5%) a type of bacteria was isolated more than, with predominance of Staphylococcus spp., the histopatological study evidenced the presence of piogranulomas with the presence of cells of the system monohistiocitario with predominance of macrophages in area next to granulomas and infiltrated linfocitário with more external localization to piogranulomas, areas of hialinização and fibrose with sufficient fibroblásticas cells.
Key-words: Abscesses; anti-aftosa vaccine; microrganisms.

INTRODUÇÃO


O surgimento de abscessos nas carcaças de bovinos tem provocado expressivos prejuízos econômicos aos pecuaristas e a economia nacional, quando levamos em consideração a grande perda de carnes e depreciação da pele, produzindo nestas, baixos valores no seu preço final. Estudos feitos no Brasil nos últimos anos na linha de abate, de dez matadouros em diferentes estados no Brasil registraram em uma amostra de 4.000 animais abatidos um percentual próximo de 70%, apresentando lesões (MORO & JUNQUEIRA, 1999), gerando perdas em carcaças de aproximadamente 1.112,79 kg provocadas pela eliminação destes tecidos lesionados, apresentando, como média, 0,300kg de carne retirada por animal, estimando assim uma perda anual de aproximadamente US$ 11,3 milhões, sem computar a depreciação da pele que chega alcançar desvalorização próxima de 75% do seu valor comercial. Quadros semelhantes à realidade brasileira têm sido observados nos Estados Unidos da América, onde no ano de 1991 foram estimadas perdas em torno de US$ 55 milhões e no Canadá no ano de 1998 as perdas estiveram próximas de US$ 17 milhões (DONKERSGOED, DIXON, VANDERKOP, 1998).

A legislação brasileira trata o tema dos abscessos da seguinte forma: nas carcaças ou órgãos atingidos por abscessos ou regiões supuradas quando localizados, faz-se a remoção dessas lesões, condenando apenas os órgãos e partes atingidas. Ainda as carcaças ou parte delas que se contaminarem acidentalmente com pus serão também condenadas (BRASIL, 1952).

Este trabalho foi delineado com o objetivo de realizar uma investigação microbiológica e histopatológica do conteúdo da secreção presente, na formação dos abscessos que surgem após administração de vacina anti-aftosa com adjuvante oleoso, em animais destinados ao abate em matadouros no recôncavo baiano.

MATERIAL E MÉTODOS

a) Amostras das secreções


Foram coletadas 66 (sessenta seis) amostras de secreções purulentas provenientes de abscessos em carcaças de animais abatidos em matadouros, formados após aplicação subcutânea da vacina contra a Febre Aftosa em bovinos no Estado da Bahia, independente de raça e sexo, no período de agosto a dezembro de 2004 (Figuras 1 e 2).










Figuras 1 e 2. Fotos de bovinos apresentando abscessos localizados na região cervical, após a vacinação anti-aftosa.

a) Análise microbiológica dos abscessos


As amostras foram coletadas após esfola, colocadas em frascos estéreis, acondicionadas em caixas de isopor com gelo e transportadas ao laboratório de Microbiologia da União Metropolitana de Educação e Cultura (UNIME) em Lauro de Freitas-Ba, onde imediatamente foram realizadas as análises, sendo utilizados os métodos convencionais para isolamento e identificação dos microrganismos presentes nas lesões. Os exames bacteriológicos foram realizados segundo Santos Filho, 2003 e Quinn et al., 2005. As amostras foram semeadas em Ágar Sangue de carneiro e em meios seletivos, ágar Chapmann-Stone (para Staphylococcus), Agar MacConkey ou Agar Eosina Azul de Metileno (Agar EMB) para bacilos Gram negativos, sendo incubadas aerobicamente a 37ºc durante 24 a 48 horas. As colônias isoladas foram classificadas quanto às características morfotintoriais e culturais, e isoladas para caldo Infuso de Cérebro e Coração (BHI) e ágar tríplice açúcar ferro (Agar TSI). As colônias Gram positivas, crescidas em Agar Sangue e em Agar Chapmann-Stone, foram submetidas a prova da catalase e a fermentação do manitol. As Colônias Gram negativas crescidas em Agar Sangue, Agar MacConkey e Agar EMB, foram isoladas em TSI, e submetidas às provas bioquímicas.

b) Análise histopatológica dos abscessos

Foram retirados das amostras de abscessos fragmentos para a realização de cortes para análise histopatológica. Os fragmentos foram imediatamente imersos numa solução de formalina tamponada a 10% por um mínimo de 1 dia e processados para exame histológico de forma convencional. A partir dos blocos, os tecidos foram cortados em micrótomo numa espessura de aproximadamente 5 micrômetros (µm) e montados sobre uma lâmina de microscopia. Em seqüência, os cortes foram submetidos à técnica de coloração pela hematoxilina-eosina (H.E), para posterior análise histopatológica (PROPHET et al. 1992).

RESULTADOS
Das 66 amostras examinadas, foi observado o desenvolvimento de bactérias Gram positivas e Gram negativas, constituintes da microbiota local e de contaminação. Os gêneros e espécies bacterianas isoladas foram Staphylococcus spp. (18,18%), Bacillus spp. (15,15%), Escherichia coli (10,60%), seguida de Proteus spp. (9.09%). Em 39,39% amostras examinadas foi observada ausência de crescimento e em outras amostras isolou-se mais de um tipo de bactérias (Tabela 1).
Tabela 1. Bactérias isoladas de secreção de abscessos de animais vacinados contra Febre Aftosa


Bactérias isoladas Nº %





Staphylococcus spp. 12 18,2

Staphylococcus spp / Pseudomonas spp. 01 1,5

Staphylococcus spp / Proteus spp. 03 4,5



Staphylococcus spp / Escherichia coli 01 1,5 Escherichia coli 07 10,6

Proteus spp. 06 9.1

Bacillus spp. 10 15,2

Ausência de crescimento 26 39,4





Total 66 100,0
Corte histológico mostra abundante proliferação conjuntiva colagenosa densa, com estruturas vasculares envolvidas por exudação celular linfocitaria associadas a áreas multifocais de infiltração predominantemente linfo-histiocitária (1), com alguns plasmocitos presentes, ao redor de grandes estruturas vacuolizadas claras, muitas delas contendo, ao centro, exudação celular de polimorfonucleares (2), neutrofilos íntegros e degenerados. Grandes células com citoplasma abundante e eosinofilico contendo alguns poucos núcleos em disposição central, foram observados dispersas pelo tecido.







Figuras 3 e 4. Fotomicrografias dos abscessos localizados na região cervical de bovinos após vacinação anti-aftosa. Coloração H.E. 40X.
DISCUSSÃO
Os resultados bacteriológicos encontrados sugerem que houve contaminação do tecido subcutâneo por microrganismos existentes na pele ou ambiente, decorrentes provavelmente, da anti-sepsia ineficiente ou não realizada ou utilização de fômites contaminados.
A avaliação laboratorial das secreções identificou o Staphylococcus spp. como o agente etiológico mais comum; resultado previsível, já que este microrganismo é encontrado colonizando a flora natural, principalmente da pele, pode tornar-se patogênico em condições como a quebra da lâmina cutânea. Os traumas que comprometem a integridade da barreira cutânea constituem-se na principal causa de mudança de comportamento deste microrganismo para agente etiológico mais comuns das infecções cutâneas (FERREIRA et al., 1985; TORTORA, FUNKE & CASE, 2002).
Zavadinack Netto et al., 2001, analisaram 107 amostras de secreções coletadas de pacientes humanos do pronto atendimento do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Maringá-Paraná e 71 (66,35%) amostras provenientes de pacientes com abcedação de pele e tecido celular subcutâneo foram positivas para S. aureus.
O estudo histológico realizado mostra a presença de um quadro inflamatório agudo potencializado pela presença de microrganismos contaminantes estabelecendo um mecanismo de defesa tipicamente inato e adaptativo pela presença de células do sistema monohistiocitário no local da inoculação.
Resultado semelhante foi encontrado por Silva neto, 2005, que analisaram as lesões anátomo-histopatológicas em cobaias experimentalmente infectados pela Burkholderia mallei, com formação de piogranulomas e presença de macrófagos.

Moro & Junqueira, 1999, em estudo sobre lesões encontradas durante a inspeção de rotina no abate, realizado em frigoríficos de oito estados brasileiros, relataram uma média de 0,278 kg de material extirpado por animal. Esse valor é semelhante ao encontrado no presente estudo, ressaltando as perdas dos produtores decorrentes dos danos provocados nos cortes comerciais que prejudicam a disponibilidade e a apresentação comercial desse produto.

A não observância na escolha de áreas limpas de resíduos e da anti-sepsia da pele de bovinos durante a vacinação anti-aftosa com adjuvante oleoso, vem sendo responsável pelo elevado numero de abscessos formados após vacinação, tornando-se assim uma queixa constante por parte dos proprietários e pessoal envolvido no manejo do gado em todo território nacional, gerando grandes perdas de carnes e pele devido à condenação parcial da carcaça após o abate. A presença do adjuvante potencializa a reação inflamatória, atraindo células de defesa para a área de inoculação da vacina, desencadeando uma resposta inicialmente inata e posteriormente adaptativa à presença de microrganismos veiculados junto a vacina devido ao inadequado manejo de agulhas e seringas e a carência de anti-sepsia da pele no momento da vacinação.

CONCLUSÃO

Mesmo acreditando que os microrganismos veiculados no ato da vacinação, provenientes da microbiota de superfície, poderão potencializar a resposta imune em função de promover uma maior migração de células de defesa para área de inoculação vacinal, é imprescindível que seja feita como rotina anti-sepsia nos animais nas áreas escolhidas para administração da vacina contra Febre Aftosa. Esta prática evitará condenação parcial da carcaça que poderia ser utilizada como fonte de alimento, promovendo assim maior rentabilidade para os produtores, fomentando, desta forma, o agronegócio, além de suprimir o desconforto sofrido pelos animais apresentando abscesso pós-vacinal, propiciando melhoria no bem estar.



REFERÊNCIAS
BRASIL, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Decreto nº.30.692, de 29 de março de 1952. Aprova o novo regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem animal. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 7 jul. 1952. Disponível em: < http:// extranet.agricultura.gov.br/sislegis-consulta>. Acesso em 7 fev 2007.

DONKERSGOED, J. V.; DIXON, W; VANDERKOP, M. Injection site survey in Canadian-fed cattle: spring 1997. Can. Vet. Journal., v.39, n.2, p.97-99, 1998.


FERREIRA, M. S. et al. Como diagnosticar e tratar infecções estafilocócicas/Staphyococcal infections. Rev. Bras. Med., São Paulo, v. 42, n. 6, p. 179-189, 1985.
MORO, E.; JUNQUEIRA, J. O. B. Incidência de reações vacinais e/ou medicamentos em carcaças de bovinos em frigorífico no Brasil, Laboratório Pfizer Ltda. São Paulo- SP – Brasil , 2001.
MORO, E.; JUNQUEIRA, J. O. B. Levantamento de incidência de reações vacinais e/ou medicamentosas em carcaças de bovinos ao abate em frigoríficos no Brasil. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BUIATRIA, 3., 1999. Anais...São Paulo, 1999.

PROPHET, E. B.; MILLS, B.; ARRINGTON, J. B.; SOBIN, L. H. Laboratory Methods in Histotechnology. Armed Forces Institute of Pathology, American Registry of Pathology, Washington, 1992.



QUINN, P. J.; MARKEY, B.; CARTER, M. E.; DONNELLY, W. J.; LEONARD, F. C. Microbiologia Veterinária e Doenças Infecciosas. Porto Alegre: Artmed, 2005.
SANTOS FILHO, L. Manual de Microbiologia Clínica. 3. ed. João Pessoa: Universitária, 2003.
SILVA, L. B. G. et al. Lesões anátomo-histopatológicas em cobaias (Cavia porcellus), experimentalmente infectados pela Burkholderia mallei. Arq. Inst. Biol., São Paulo, v. 72, n. 1, p. 23-28, 2005.
TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. 6. ed. Porto Alegre. Porto Alegre: Artmed, 2002.
ZAVADINACK NETTO, M. et al. Staphylococcus aureus: incidência antimicrobiana em abscessos cutâneos de origem comunitária. Acta Scientiarum, Maringá, v. 23, n. 3, p. 709-712, 2001.









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