Issn: 2362-3365 II seminario internacional de los espacios de frontera (II geofrontera): diferencias e interconexiones1



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ISSN: 2362-3365

II SEMINARIO INTERNACIONAL DE LOS ESPACIOS DE FRONTERA (II GEOFRONTERA): DIFERENCIAS E INTERCONEXIONES1

3 – Movimientos Sociales y Conflictos en la Frontera / Movimentos Sociais e Conflitos na Fronteira
CONFLITOS NA FRONTEIRA: A ATUAÇÃO DA COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT) JUNTO AOS TRABALHADORES RURAIS E A ITAIPU NAS DÉCADAS DE 1970-1980, NO OESTE DO PARANÁ.

Maria José Castelano2

Historiadora, profª Assistente do Curso de História

UNIOESTE, Campus de Marechal Cândido Rondon

majo_catelano@hotmail.com
Resumo:

Firmado o tratado da criação da Usina Hidroelétrica de Itaipu e iniciado o processo de desapropriação das terras que seriam alagadas pela mesma, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) passa a denunciar em pleno estado de exceção, a situação dramática enfrentada pela população a ser atingida pela construção da barragem da Itaipu, quando denuncia por meio de seus documentos (como foi o caso do boletim Poeira) algumas evidências do poder desigual no processo de negociação entre trabalhadores e representantes da Itaipu. O surgimento da CPT, no Paraná, coincide com o aprofundamento da crise e das contradições sociais agravadas com a reestruturação capitalista na cidade (greves dos operários) e no campo, posto em prática pela Ditadura Militar, em razão da necessidade de instituir organizações de resistências e de mediar os conflitos envolvendo o processo de expropriação dos pequenos proprietários, posseiros e trabalhadores rurais no Paraná. Nosso objetivo é identificar as críticas e as possíveis soluções apontadas pela CPT para os problemas que afligiam os pequenos agricultores e sem terra naquele período. Para alcançar esse objetivo, procedemos à análise criteriosa de diversas fontes documentais produzidas pela CPT, pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), pela consulta à jornais da época e entrevistas com os protagonistas do movimento de organização dos trabalhadores no Oeste do Paraná.

INTRODUÇÃO

Em 1973, o presidente brasileiro Emílio Garrastazu Médici e o presidente paraguaio Alfredo Stroessner assinaram o “Tratado de Criação de Itaipu”, com o objetivo de levar a efeito o aproveitamento hidroelétrico do rio Paraná, por meio da criação da Itaipu Binacional. Localizada numa zona de fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, a Usina de Itaipu, com o represamento do rio Paraná, em 1982, resultou na submersão dos saltos de Sete Quedas, alagando, também, ampla parcela de terras agricultáveis do extremo-Oeste do Paraná.

O projeto da Hidroelétrica de Itaipu, com a criação do lago, alterou o arranjo espacial de extensa área dos lados paraguaio e brasileiro, no caso desse último foram afetados os municípios paranaenses de Foz do Iguaçu, Guaíra, Santa Helena, Terra Roxa, Marechal Cândido Rondon e São Miguel do Iguaçu, com um contingente de 42.444 pessoas desapropriadas, 38.445 do meio rural e 3.999 do meio urbano, conforme dados extraídos de Germani (2003). Em 1975, o projeto Itaipu foi levado ao público com a promessa de que os desapropriados seriam indenizados com o “preço justo” ou assentados em outros locais. Mas isto aconteceu apenas para alguns poucos selecionados. A crise econômica brasileira da década de 1970 leva, a partir de 1981, à recessão, que atinge a agricultura. O Estado do Paraná destacou-se, durante esse período, pela intensidade e pela velocidade do processo de transformação agrária, cujo reflexo mais expressivo foi o êxodo rural, decorrente da decomposição de antigas formas de produzir, na esteira da introdução de novas culturas e novas técnicas de produção, e da decomposição da estrutura agrária através da acelerada concentração fundiária. Desse modo, os anos 1980 são considerados como a "década perdida". A política econômica da ditadura militar deixava um pesado legado para o nosso presente histórico. Para o economista Quadros:
[...] é no período compreendido entre 1981 e 1983 que a economia brasileira sofre o mais grave retrocesso de que se tem registro. Nesse período, o Produto Interno Bruto apresentou taxas negativas de crescimento em dois anos, com uma queda acumulada superior a 6%. O forte declínio da renda média por habitante fez com que em 1983 seu nível regredisse ao de 1976. O setor industrial foi especialmente afetado, verificando-se entre 1981e 1983 uma redução de 20% em sua atividade, sendo que a indústria de bens de capital foi a primeira e a mais duramente penalizada pela recessão. Este péssimo desempenho acumulou capacidade ociosa em níveis indesejados, e provocou forte aumento no desemprego, que não se limitou à indústria. (QUADROS apud RAGO FILHO, 1998, p.382).
Nessa conjuntura de maior precariedade das condições de vida da classe trabalhadora, aumentaram as mobilizações de produtores rurais de vários segmentos de produção que haviam sido, de certo modo, incorporados ao processo de modernização agrícola. Como entre esses “selecionados” poucos se capitalizaram, as contradições pelas quais passam no final da década de 1970 e as condições políticas desse período permitiram que se organizassem em cada setor específico de produção.

Na primeira metade da década de 1980 nós temos a somatória de uma conjuntura nacional desfavorável, marcada pela crise econômica (perda de renda, concentração fundiária) que atingiu diretamente os pequenos proprietários rurais, com a conjuntura local, com a desapropriação de milhares de famílias no Oeste paranaense para a construção de Itaipu. Nesse sentido, os agricultores da área atingida pela formação do lago de Itaipu - área majoritariamente caracterizada pela pequena propriedade - enfrentavam adversidades constituídas nas escalas nacional e local.

Sobre a temática da organização de movimentos sociais no campo, entre o período de 1970-1980, estudos consultados indicam a importância da Teologia da Libertação enquanto matriz teórica predominante na CPT e na formação ideológica dos movimentos populares emergidos no Oeste do Paraná, entre eles o MST. É preciso destacar o renascimento de movimentos de resistência por parte de parcelas de população do Oeste e Sudoeste do Paraná, durante o período de crise política-econômica que marcou os anos 1970/80 e atingiram os trabalhadores rurais e pequenos proprietários locais. Nas décadas de 1970 e 1980 o Oeste do Paraná foi palco de vários conflitos sociais envolvendo pequenos proprietários rurais e posseiros. Tais conflitos foram mediados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), fundada em meados da década de 1970 e vinculada a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para assessorar e auxiliar a Pastoral Rural nos conflitos na Amazônia.

Em nosso estudo, procuramos compreender melhor a forma como o Estado, através dos seus braços institucionais, como a Itaipu e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), conduziu as negociações das desapropriações em razão da construção da barragem para a hidroelétrica de Itaipu. Estas negociações foram marcadas por táticas perversas de isolamento e violência bonapartista, pela exclusão dos proprietários na discussão do processo, pela falta de planejamento e organização com relação ao INCRA, no sentido de reassentar as famílias no Paraná ou em outras regiões brasileiras. Mas, para além da especificidade desse conflito dimensão local, nos interessou descobrir que a organização da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Paraná, em 1976, teve relação direta com esse processo conflituoso em razão de atuarem como protagonistas na resistência e com papel definido de mediar conflitos envolvendo o processo de expropriação dos pequenos proprietários, posseiros e trabalhadores rurais no Oeste do Paraná.

A seguir apresentaremos, de forma sistemática, algumas reflexões norteadoras da pesquisa que ora desenvolvemos.

A Teologia da Libertação emergiu como resposta à necessidade de uma renovação teológica dentro da Igreja Católica e, sobretudo, na América Latina nos anos de 1950-1960. Nossa hipótese é que tal movimento pastoral é oriundo de uma reação da Igreja Católica em razão da necessidade de se posicionar frente aos conflitos sociais gerados pelo modelo econômico desenvolvimentista e subalterno ao capitalismo internacional que, desde a década de 1950, ampliou as mazelas sociais, sobretudo no campo brasileiro, em decorrência da Segunda Revolução Industrial intensificada pelo regime militar (1964-1985).

Numa entrevista publicada na Revista Brasil de Fato, Frei Beto afirma que:

Nos anos 1960 e 1980 a Igreja Católica, renovada pelo Concílio Vaticano II e pela conferência episcopal latino-americana em Medellín (1968), teve papel preponderante nas lutas sociais na América Latina. Através das Comunidades Eclesiais de Base e do advento da Teologia da Libertação, decorrentes da "opção pelos pobres", muitos militantes foram formados pela Igreja segundo o método Paulo Freire. Em países sobditadura, como Brasil e Nicarágua, essa formação resultou em opção revolucionária. Diria que, de certo modo, as eleições recentes de Lula, Correa, Evo, Funes e outros têm a ver com esse processo pastoral. (MONCAU, 2010.)


Identificamos a existência de uma multiplicidade de tendências e conflitos no interior da Igreja Católica. Se, nos anos 1970/80, seguimentos da Igreja Católica no Brasil e na América Latina sofreram uma inflexão à esquerda, antes desse período, até o golpe de 1964, predominava um discurso muito claro anticomunista e que pretendia cooptar os trabalhadores militantes em movimentos sociais para a luta contra o ateísmo comunista.

Considerando o contexto anteriormente mencionado, o objetivo da nossa pesquisa é entender o papel e a relevância da Teologia da Libertação enquanto ideologia mobilizadora junto aos trabalhadores rurais e pequenos proprietários em situação de conflito no campo, nas organizações de resistência ao modelo político-econômico da ditadura militar. A análise de alguns estudos sobre essa temática evidencia que integrantes da Igreja Católica fazem críticas à sociedade capitalista em desenvolvimento no período: quais eram essas críticas? Quais soluções eram apontadas para os problemas, sobretudo, no campo brasileiro? O que levou à Igreja a dar publicidade crítica à sociedade capitalista neste período de terror de Estado? E mais do que isso, o que motivou a determinados segmentos da Igreja a se envolver diretamente no apoio aos trabalhadores contra as mazelas sociais oriundas do processo de expansão do capital?



Neste sentido, o termo ideologia utilizado aqui é compreendido sob uma perspectiva marxiana, ou seja, tem sentido onto-nominativo como o empregado por Marx no Prefácio a Crítica da Economia Política, em que ideologia denomina-se um conjunto das formações superestruturais e as formas de consciência.
Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas estas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevém então uma época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas da produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o conduzem até o fim.” (Marx, 1974, p. 135-6).
Partimos do pressuposto de que a consciência ou a falsa consciência da realidade constituem o resultado não de uma particular ação ideológica educativa, mas o de uma particular divisão social do trabalho, plasmada em determinadas relações sociais de produção. (CASTELANO, 2012). Desse modo, compreendemos que “A produção da consciência como momento da prática humana concreta, é constituída no interior da própria sociabilidade. A fundamentação onto-prática do pensamento, onde a consciência emerge enquanto atributo insuperável do ser dos homens e enquanto tal, porta caráter necessariamente social." (CHASIN, 1995, p. 243-244). Ao sistematizar sua concepção materialista da História, Marx e Engels afirmam que:
A produção das idéias, representações da consciência está de início imediatamente entrelaçada na atividade material e no intercâmbio material dos homens, linguagem da vida efetiva. O representar, pensar, o intercâmbio intelectual dos homens aparecem aqui ainda como afluência direta do seu comportamento material. O mesmo vale para a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, de um povo. (MARX, 1984, p.192)
Até o momento, obtivemos informações sobre fontes documentais relevantes que possibilitarão a realização da pesquisa, como o Boletim Poeira, produzido pela CPT do Paraná nas décadas de 1970-1980, disponíveis nos arquivos da CPT no Paraná, documentos do DOPS, entrevistas e jornais da região. Levantamos teses e dissertações sobre a temática, como a de Guiomar Germani3 com o título Expropriados Terra e Água: o conflito de Itaipu, e o trabalho de Juvêncio Mazzarollo4, A Taipa da Injustiça.

No Paraná, a CPT existe oficialmente a partir de 1978, organizada na região Sudoeste do Estado, vinculado a Regional Sul II da CNBB. A constituição da CPT no Paraná, conforme depoimento de Gernote Kirinus, ex-secretário da CPT, ex-pastor e deputado estadual (MDB-PR), foi organizada pelo incentivo por parte de Dom Agostinho Sartori (bispo de Palmas), então secretário da CPT na Região Sul. O então pastor da Igreja Lutera foi liberado da paróquia de Entre Rios para se dedicar inteiramente ao trabalho da CPT, mas não havia infra- estrutura e nem dinheiro. Em entrevista concedida ao jornal Voz do Paraná, Kirinus afirma que “[...] a CPT é ecumênica porque trata do problema da terra, que não tem religião. Este problema é comum a todas as igrejas, porque é fundamentado nos direitos do homem.” (Kirinus, 1979, p. 137)

Em 1978 foi publicado documento da CPT com o interessante título O Mausoléu do Faraó: A Usina de Itaipu contra os lavradores do Paraná. O documento, que contém 50 páginas, faz denúncias da situação dramática enfrentada pela população a ser atingida pela construção da Itaipu já no ano de 1978, sobretudo ao explicitar concretamente o poder desigual no processo de negociação entre os trabalhadores e os representantes da Itaipu.

Chama a atenção neste documento:

1) A tensão e o medo dos colonos em falar sobre a Itaipu;

2) A desorganização inicial dos proprietários rurais, e a dificuldade de circulação das informações entre os moradores;

3) As táticas perversas de abordagem aos agricultores pela Itaipu;

4) O drama social, econômico e cultural das famílias que seriam e foram expropriadas pela Itaipu.

Os colonos foram abandonados à própria sorte, sem preocupação de promover uma política pública de reassentamento que procurasse amenizar alguns dos problemas, como a manutenção dos grupos e famílias próximos, sem isolá-las; a garantia de manutenção da posse da terra em iguais condições; a destinação de terras férteis, etc. Além disso, as medidas tomadas por parte do Estado foram marcadas pela falta de transparência no processo de cálculo das indenizações.

Cumpre destacar que um empreendimento da dimensão da Hidroelétrica de Itaipu, numa região densamente povoada, em qualquer momento histórico significaria um grande impacto com mudanças que repercutiriam nas dimensões ambiental, social e econômica. Mas, a questão é que nas décadas de 1970 e 1980, a conjuntura política adversa à qualquer possibilidade de debate aberto ou manifestações populares, imprimia maior pressão sobre as pessoas que teriam o seu cotidiano (e suas vidas) diretamente atingido. É preciso alertar para a necessidade do real entendimento quanto à gravidade da ação violenta exercida pelo aparelho de Estado contra qualquer manifestação de contestação política durante o governo militar.

Logo no início do documento O Mausoléu do Faraó afirma-se: “Há muitos anos eles (colonos) vieram e desbravaram o Oeste do Paraná: derrubaram as matas e mecanizaram os campos para a produção de soja e trigo. Depois veio o medo: Itaipu. O pesadelo de ter que deixar a terra e começas tudo de novo.” (CPT, 1978, p. 3). Ainda conforme este documento:
Outra descoberta que pode ser feita em Alvorada é sobre a ”justiça” do ”preço justo”. A capela católica do povoado e um galpão de reuniões – ambos bastante velhos – estão situados num terreno urbano de 7 mil metros quadrados. Esta área é igual aquela de propriedade da Igreja Evangélica, cujo templo, verdade seja dita, é bem mais modesto. Mas a diferença no preço fixado pela Itaipu, para uma e outra Igreja, foi muito grande. O próprio bispo de Toledo, diocese onde se encontra Alvorada, considerou ”muito bom, acima das expectativas”, o pagamento de cr$700,00 mil oferecido pela Itaipu. Enquanto isso, os evangélicos receberam apenas cr$142,00 mil (ou 162 mil, o informante não sabia com exatidão). A ”justiça” desses preços foi certamente calculado pelo grau de influência da Igreja Católica, que tem maioria de fiéis. Além disso, pode-se pensar que a Itaipu pretendeu ”comprar a aliança” de uma instituição de influências como a Igreja Católica: o apoio ao processo de desapropriação, ou pelo menos, o silêncio. Dom Armando Círio, ex-bispo de Toledo, mostrou-se bem consciente desse problema. (CPT, 1979, p. 24).
De acordo com a citação em epígrafe, muitas famílias foram expropriadas para viabilizar a materialização da Hidroelétrica de Itaipu. Mas, para além dos números as cicatrizes sociais deixadas por este evento ainda são possíveis de serem percebidas pelos relatos das pessoas desapropriadas para a construção da obra, como aquele feito pelo Sr. Henrique Szlapak, cuja “[...] situação de pobreza..., sem terra, sem outros bens senão sua mulher e nove filhos [...] ”são mencionados no documento da CPT, porque ele, inclusive, manifesta-se publicamente por meio de cartas ao Presidente da República, ao INCRA, mas, como resposta foi intimidado para calar-se. (CPT, 1978, p. 25).

Além das consequências socioeconômicas e culturais, não pode deixar de ser relatada também a questão ambiental. Nesse sentido, a perda das Sete Quedas, conjunto de quedas d´água localizadas no rio Paraná, que faz a divisa entre o município de Guaíra com o Paraguai, representa uma perda irreparável sob qualquer dimensão financeira. No entanto, mesmo sob esse aspecto, ela não foi mensurada no momento de calcular a compensação financeira que a Itaipu fez aos municípios lindeiros ao lago, pois, no cálculo correspondente à distribuição dos royalties considerou-se apenas a área alagada, o que resulta, até o presente, em flagrante desequilíbrio em prejuízo para o município de Guaíra.

Em pronunciamento feito na Assembleia Legislativa Paranaense Gernote Kirinus denunciou as táticas de abordagem aos agricultores da Itaipu na primeira desapropriação que ocorreu. Nas suas palavras
Em Sede Alvorada do Iguaçu nós encontramos um processo [...] em primeiro lugar desapropriaram na Sede do Distrito as casas comerciais, os postos de gasolina, as farmácias e, uma vez acabada essa infra-estrutura, o coitado do agricultor que ficou por último, teve que fazer 70 ou 80 quilômetros para comprar seu litro de gasolina, seu galão de gasolina ou então os produtos de que ele precisava e com isso se desvalorizou a própria propriedade. E, depois então, eram feitos os acordos com os colonos que, também são feitos de uma forma desrespeitando a comunidade e a organização social, porque é feito um aqui e outro acolá. Parece que, inclusive, com o intuito de decepar as lideranças, em primeiro lugar, para depois colher o resto já mansinho, já dócil e já dobrado aos interesses da desapropriação da Itaipu Bi-Nacional. (KIRINUS, 1979, p. 37).

Com a construção da Barragem de Itaipu e, consequentemente, o represamento do rio Paraná, houve a submersão, também, das terras férteis onde residiam de milhares de famílias, no ano de 1982. Foi esse cenário, de mudança radical da paisagem no extremo Oeste paranaense, com desdobramentos diretos nas condições de vida dessas pessoas que motivou ou, talvez se possa dizer, “forçou”, a mobilização dos agricultores, dando início ao movimento denominado “Terra e Justiça”. Este reivindicava o pagamento das indenizações em terras no próprio Estado do Paraná e melhores preços por suas benfeitorias e áreas inundadas e, em julho de 1981, como resultado do movimento anterior foi organizado o Movimento dos Agricultores Sem-Terra do Oeste do Paraná (MASTRO).

É nossa intenção (re)conhecer as experiências desses sujeitos sociais históricos em ação na busca de respostas aos problemas oriundos do projeto megalomaníaco da Usina Hidrelétrica de Itaipu implementado durante a Ditatura Militar e escrevê-la a contra pelo da história. Ou seja, estamos investigando a história destes sujeitos e o processo de consciência resultante da luta contra o projeto econômico implantado pela Ditadura. A história “vista de baixo”, como propõem Hobsbawm e Thompson, é nossa perspectiva de trabalho como historiadora. Neste sentido é que se busca compreender o modo de vida e a trajetória dos trabalhadores em suas lutas cotidianas. Segundo relato de um agricultor:
E nós aqui [...] com tanta terra boa, com a flor da terra do Oeste do Paraná, podendo produzir tanto alimento... Porque tem muitas pessoas no Brasil mesmo que tá passando fome. Falam que é para plantar com mais técnica, pra produzir mais alimentos para o Brasil, mas o que adianta? A flor da terra eles vão indenizar e cobrir com água... E nós temos que ir pra Rondônia, pro Mato Grosso. (CPT, 1978, p. 15).
Qual a experiência histórica e como ela pode nos auxiliar a compreender as novas relações que podem surgir da práxis dos trabalhadores nas Comunidades Eclesiais de Base, na Comissão Pastoral da Terra de homens e mulheres que aprendem a dar voz aos seus pensamentos e redefinem suas práticas e pensamentos constituindo um modo de vida e valores contrários às práticas e valores das classes dominantes.

Partimos da compreensão de ideologia como uma forma de consciência dos sujeitos sociais oriunda dos conflitos e das lutas em uma sociedade cindida em diferentes classes sociais. Portanto, a ideologia não é entendida por nós como falsa consciência. Ao contrário, concordamos com a concepção ontológica de que "Um pensamento qualquer, certo ou errado, não importa, só se torna ideologia quando vem a desempenhar uma precisa função social." Ser ideologia, exatamente, não é uma qualidade social fixa deste ou daquele procedimento espiritual, mas, ao invés, por sua natureza ontológica é uma função social, não uma espécie de ser. (LUKACS, p.544 apud CASTELANO, 2000, p.157)

O nosso objeto é a história real, buscar o “fazer-se” destes sujeitos históricos em sua prática social, por meio da reconstrução das ações das classes trabalhadoras contra a opressão realizada pelo capitalismo no campo. Mais particularmente a resistência aos métodos truculentos e as táticas utilizadas pelos diretores da Itaipu, empresa Estatal, no processo de expropriação das terras que seriam alagadas.

No contexto de retomada da organização de movimentos populares no campo, estudos consultados indicam a importância da Teologia da Libertação enquanto matriz teórica predominante na CPT e na formação ideológica dos movimentos populares emergidos no Oeste do Paraná, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, entre eles, o MST.

Por meio das fontes obtidas como o Boletim Poeira (da CPT) e entrevistas já realizadas com os protagonistas das mobilizações ocorridas na época estamos analisando a constituição e explicitação de um possível projeto politico e sua orientação ideológica que orientava a ação desses sujeitos sociais nas resoluções dos seus conflitos cotidianos.

Os grupos de agricultores estavam mais organizados por meios das Comunidades Eclesiais de Base e da Pastoral Rural na região de Medianeira, Santa Helena, Marechal Cândido Rondon, São Miguel do Iguaçu, Matelândia, Capanema, entre outras. Para a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) a CPT representava a oportunidade de organizar o movimento dos trabalhadores rurais por meio de instituição ecumênica.


O Pastor Kirinus, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, relata que, convidado pelo Pe. Angelo Perin, da ASSESSOAR – Associação de Estudos, orientação e Assistencia Rural -, foi participar de um encontro na recém-criada CPT de Goiânia. Daí surgiu a idéia de organizá-la no Paraná, conforme já estava em outros Estados. O que foi formalizado numa Assembléia da Pastoral Rural, realizada em Ponta Grossa, na casa de líderes em agosto de 1977. (ALEGRO, 1994, p.41).

Conforme Kirinus (1979, p. 137), “O trabalho de base nasce no seio da própria igreja, isto é nas comunidades – especialmente as do interior – que aglutinam pessoas homogêneas em termos de classe social. E por isso mesmo tem interesses comuns [...]”. Essa situação específica nos remete para a análise mais abrangente feita por Thompson, quando este afirma que está deve ser compreendida como uma categoria "[...] uma formação histórica autodefinidora, que homens e mulheres elaboram a partir de sua própria experiência de luta [...]. (THOMPSON, 1981, p.57).



Considerações Finais

Visamos compreender melhor a forma como o Estado, através dos seus braços institucionais, como a Itaipu e o INCRA, conduziu as negociações das desapropriações em razão da construção da barragem para a hidroelétrica de Itaipu. Estas negociações foram marcadas por táticas perversas de isolamento e violência bonapartista, pela exclusão dos proprietários da discussão do processo, pela falta de planejamento e organização com relação ao INCRA, no sentido de reassentar as famílias, no Paraná ou em outras regiões brasileiras. Mais ainda nos interessou descobrir que a organização da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Paraná, em 1976, teve relação direta com esse processo conflituoso que emergia no Oeste do Estado, em razão da necessidade de instituir organizações de resistência e com papel definido de mediar conflitos envolvendo o processo de expropriação dos pequenos proprietários, posseiros e trabalhadores rurais.

Nas décadas de 1970/80, o cristianismo por meio das comunidades de base torna-se lugar de engajamento das lutas cotidianas e mobilizações coletivas. Numa entrevista publicada na “Revista Brasil de Fato”, Frei Beto afirma que:
Nos anos 1960 e 1980 a Igreja Católica, renovada pelo Concílio Vaticano II e pela conferência episcopal latino-americana em Medellín (1968), teve papel preponderante nas lutas sociais na América Latina. Através das Comunidades Eclesiais de Base e do advento da Teologia da Libertação, decorrentes da "opção pelos pobres", muitos militantes foram formados pela Igreja segundo o método Paulo Freire. Em países sob ditadura, como Brasil e Nicarágua, essa formação resultou em opção revolucionária. Diria que, de certo modo, as eleições recentes de Lula, Correa, Evo, Funes e outros têm a ver com esse processo pastoral. (MONCAU, 2012,)
O curso de nossa investigação permite afirmar a importância do direcionamento ideológico cristão por meio da Teologia da Libertação (e sua possível aproximação com o marxismo) sobre o processo de conscientização política dos integrantes destes movimentos quando passam a lutar por uma maior participação nas decisões políticas na região Oeste do Paraná, e aqui estamos nos referindo a setores sociais que até então haviam sido excluídos deste processo. Além disso, vários segmentos vinculados à Teologia da Libertação sofreram intensa crítica por parte da hierarquia da Igreja, num processo em que foram silenciados e isolados, sofreram críticas dos órgãos de imprensa de grande circulação, como o Estado de São Paulo, além de serem alvos da repressão e violência praticadas por instituições e grupos vinculados ao regime militar.

Por outro lado, nos anos 1980 a nova teologia suscita conflitos internos. Em documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, denominado Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, de agosto de 1984, afirma-se:


A presente Instrução tem uma finalidade mais precisa e mais limitada: quer chamar a atenção dos pastores, dos teólogos e de todos os fiéis, para os desvios e perigos de desvio, prejudiciais à fé e à vida cristã, inerentes a certas formas da teologia da libertação que usam, de maneira insuficientemente crítica, conceitos assumidos de diversas correntes do pensamento marxista. (RATZINGER, 1984.).
A Instrução indicada acima é representativa do movimento de reação conservadora por parte da cúpula da Igreja, a partir de orientação direta do papa João Paulo II que, juntamente com o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger (depois papa Bento XVI) –“[...] varreu do mapa brasileiro, aos poucos, os líderes do movimento progressista, dentro do espírito da cruzada anticomunista que levou aos quatro cantos do planeta.” (VEJA on line). Assim como Bento XVI, João Paulo II tratou de combater toda e qualquer associação entre a doutrina católica e alguma ideologia política. Deve-se considerar o fato de João Paulo II ser originário da Polônia, país de maioria católica no qual o poder político do Estado estava nas mãos do Partido Comunista. João Paulo II assume o papado a partir de uma formação marcada pelo combate ao PC polonês e tudo que ele supunha estar vinculado ideologicamente às frentes de esquerda, principalmente na Igreja.

O Vaticano substituiu bispos e líderes brasileiros e lançou uma série de críticas formais à Teologia da Libertação, com a busca deliberada do seu esvaziamento enquanto fonte de influência na Igreja. Em sua dissolução, pesou também a redemocratização do país, aliada ao fim do "socialismo real" no Leste Europeu. No entanto, alguns de seus membros ainda hoje estão ativos. E com a mudança do papado, com a renúncia de Bento XVI e a eleição do papa Francisco, setores vinculados a Teologia da Libertação retomam expectativas positivas com relação a uma Igreja voltada para a “opção pelos pobres”.5

Nessa oportunidade apresentamos resultados parciais de um estudo que se encontra em andamento. Entre as questões que avançamos e aqueles que ainda nos exigirão mais tempo, temos os seguintes apontamentos: Até que ponto essa Comissão Pastoral da Terra rompe ou reafirma o seu apoio a algumas lideranças dos movimentos sociais que procuravam maior autonomia em meados da década de 1980, como o MST, em razão das contradições internas e os conflitos entre as lideranças da CPT e dos movimentos sociais? Qual o papel da Igreja, sob influência da Teologia da Libertação, na atuação da esquerda que se constitui nos anos 1970/80 no campo? Em que medida tal ideação permitiu uma crítica formulada e consistente ao regime militar? Dessas questões, decorrem as seguintes derivações: a Teologia da Libertação é um movimento de renovação “progressista” dentro da própria Igreja Católica? Ou foi um movimento de reação e alternativa ao “perigo comunista”?

Os atores sociais vinculados à Teologia da Libertação receberam influências do marxismo no Brasil. Isso explicaria a possível radicalização de alguns movimentos sociais. Qual a influência da Teologia da Libertação na CPT? Entre as tendências predominantes dentro da Teologia da Libertação, qual exercerá maior influência nos movimentos organizados no Oeste do Paraná?



Até o presente, no diálogo com as evidências, pode-se perceber a existência de alguns princípios da Teologia da Libertação na atuação dos movimentos populares no Oeste do Paraná, tanto sob o aspecto teórico, quanto prático até mesmo de intelectuais orgânicos vinculados a Igreja Luterana.
BIBLIOGRAFIA
ALEGRO, Regina Célia. Buscar o Reino de Deus e a sua Justiça - A mediação pedagógica da Comissão Pastoral da Terra. Maringá, 1994. Dissertação (Mestrado em Fundamentos da Educação) - Pós-graduação em Educação, UEM.
CASTELANO, Maria José. Um estudo da proposta de Educação do MST. Maringá, 2000, Dissertação (Mestrado em Educação), UEM-PR.
CHASIN, José. Posfácio. MARX – Estatuto ontológico e resolução metodológica. In: TEIXEIRA, Francisco José Soares. Pensando com Marx. São Paulo: Ensaio, 1995.
CPT. Comissão Pastoral da Terra. Boletim Poeira, 1978- 1984.
CPT. O Mausoléu do Faraó: a usina de Itaipu contra os lavradores do Paraná. 1978.
Florestan Fernandes (Org.) Marx & Engels. História. São Paulo, Ática, 1983.
Guiomar Inez Germani. Expropriados terra e água: o conflito de Itaipu. Salvador, BA: Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) - Universidade Luterana Brasileira (ULBRA), 2003.
KIRINUS, Gernote. Entre a Cruz e a Política. Curitiba: Beija Flor, 1979.
MARX, K. Contribuição para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Mandacaru, 1974.
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1 Editor: Facultad De Humanidades y Ciencias Sociales (FHyCS) Universidad Nacional de Misiones (UNaM). Direccion: Oficina de Relaciones Internacionales – 1er piso Biblioteca, Calle Tucuman 1946, Posadas, Misiones, CPA: N3300BSP, Correo electrónico: internacionalesfhycs@gmail.com

2 Vinculada à Linha de Pesquisa: Estado e Poder, com mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (PR).

3 Realizou esta importante pesquisa produzida no calor da hora dos acontecimentos, na década de 1980.

4 Jornalista e diretor do jornal Nosso Tempo, de Foz do Iguaçu, que se integrou à Comissão Justiça e Terra e, devido às suas denúncias e editoriais, foi condenado a quatro anos de prisão na época do governo militar.

5 Entrevista de Leonardo Boff concedida À mesa com Valor: Suplemento Eu & Fim de Semana, julho/ 2013, ano 14, n.663, p.12-16.



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