Jaguaribe – Memória das Águas – Uma narrativa autobiográfica



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Jaguaribe – Memória das Águas – Uma narrativa autobiográfica

Kamillo Karol Ribeiro e Silva

Aluno do programa de pós-graduação em História da UFC

Resumo: O presente ensaio busca investigar os elementos de uma escrita autobiográfica presentes no prólogo da 7ª edição, publicada no ano 2000, do livro Jaguaribe – Memória das águas, do poeta cearense Luciano Maia, a partir das contribuições teóricas pensadas por Giovani Levi, Phelippe Lejeune e Pierre Bourdieu.

Palavras-chave: Narrativa autobiográfica – Memória – Temporalidades.

Abstract: This paper investigates the elements of an autobiographical writing present in the prologue of the 7th edition, published in 2000, from the book Jaguaribe – Memória das águas, by the poet from Ceará, Luciano Maia. This study was based in the theoretical contributions done by Giovanni Levi, Phelippe Lejeune and Pierre Bourdieu.

Keywords: Autobiographical narrative - Memory - Temporalities.

Tempo e natureza – o rio e seus sujeitos

“Só o Rio sobrevive à passagem do tempo.”

Danúbio – Cláudio Magris

Quando começamos a estudar a relação natureza e cultura, recuperamos diversos elementos históricos que nos ajudam a compreender as possibilidades para se analisar um rio, como realidade física e geográfica, mas também histórica e elemento cultural de muitos povos. Um deles é o tempo. Entretanto, ao fazer nossa primeira pergunta - quais são os tempos de um rio? -, corremos o risco de, ao tentar responder a provocação, esquecer outras categorias igualmente importantes para a construção de uma aceitável resposta. O Rio Jaguaribe inspira sujeitos e a relação deste como o aquífero é o tema deste estudo. Pretendemos compreender algumas temporalidades da narrativa de Luciano Maia descrita no poema Jaguaribe – Memória das águas e entender até que ponto seu texto torna-se uma escrita autobiográfica.



Sujeito – Ser no e com o mundo

Um conceito fundamental para esta pesquisa é o entendimento sobre o que chamamos de sujeito.

Partimos do princípio que sujeito é aquele se faz, entende-se e compreende-se num cenário de coletividade. Embora a semântica nos conduza ao indivíduo, a compreensão não pode nos levar ao individual. Sujeito, sobretudo o histórico, nunca está sozinho1. E sendo ainda mais radical no entendimento, isto é, partindo do pressuposto que não há sujeito que não seja histórico, acreditamos que há sempre, para sua composição e atuação, um espectro coletivo no qual, o sujeito estudado faz parte, de forma consciente ou inconsciente. Ou seja, sujeito é aquele que não pode ser compreendido em separado.

Quando pensamos no Rio Jaguaribe pensamos também em inúmeros elementos reais e imaginários que criaram suas condições de possibilidade e existência. Reais, referindo-se aos homens e mulheres que com ajuda do rio também se tornam sujeitos históricos; e imaginários, apontando para todo o etéreo que envolve esta relação de mão dupla entre ser humano e rio, a saber, a técnica, a crítica, o pensamento (e aqui temos elementos como a produção científica, a literatura e a poesia), os modos de ser e conviver e até mesmo o fantástico forjado a partir desta convivência.

Desta forma, encontramos, ao olhar para o rio, os homens e mulheres que com ele convivem e dele retiram seu sustento. Para além, deste estudo, que, quando crescer, tornar-se-á uma tese de doutorado, e pensando ser grande, abordará, estes sujeitos na perspectiva material e histórica, hoje, nesta pausa, digamos, neste “afluente” textual, o sujeito que pretendo encontrar retira do Jaguaribe outro tipo de sustento: o espiritual, ou ainda, o artístico.

Refiro-me a Luciano Maia, poeta, escritor nascido na cidade de Limoeiro do Norte, Ceará, morador do interessante lugar nominado por ele como País do Jaguaribe.

Este texto buscará ser, pois, uma articulação entre os conceitos abordados pelos autores trabalhados na disciplina Tópicos Especiais Memória e Temporalidade2, ministrada pelas professoras Ana Rita Fonteles e Kênia Rios, no módulo sobre memórias, biografias e autobiografias e o prólogo da 7ª edição do livro Jaguaribe – Memória das águas, de autoria de Luciano Maia.

Apresentando Luciano Maia

Luciano está vivo e eu não o conheço pessoalmente. A frase foi escrita para que se afastem todas as suspeitas de possível interpretação que este texto pretende ser uma biografia. Na verdade, o que busco entender é a perspectiva autobiográfica presente em sua obra. O poema de mil versos, como ficou conhecido o livro Jaguaribe – Memória das águas, fala do Rio, mas fala também do autor, como deixa bem claro, no trecho do texto que para este ensaio tomarei como documento.

Nascido na cidade de Limoeiro do Norte, no dia 07 de janeiro de 1949, Luciano Maia tornou-se escritor. Escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, sem desconfiar do seu devir. Publicou, em 1982, Um canto Tempestado. No mesmo ano, chegou às livrarias, aquela que seria considerado sua obra-prima, Jaguaribe – Memória das Águas. Traduzido para o francês, inglês, espanhol e romeno, o livro alcançou em 2013 a sua 11ª edição.

A escolha do prólogo escrito para a 7ª edição, publicada em 2005 pela editora Escrituras, explica-se a partir das contribuições de Philippe Lejeune para se identificar um texto autobiográfico.

Para Leujene, no texto publicado originalmente em 1976, autobiografia é por definição, uma narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade3. Num reencontro com o mesmo texto, já em 1985, Lejeune reconhece as limitações de suas primeiras discussões a respeito das biografias e autobiografias, e, ao recuperar as definições para o gênero textual, reiterou a afirmação de Gustave Vapereau, escrita ainda em 1876 em seu Dictionnaire universal des littératures:

AUTOBIOGRAFIA (...) obra literária, romance, poema, tratado filosófico etc., cujo autor teve a intenção, secreta ou confessa, de contar sua vida, de expor seus pensamentos ou de expressar seus sentimentos.4

A partir desta nova abordagem, Lejeune passa a tratar daquilo que considero ser a marca do texto de Luciano Maia, no prólogo à 7ª edição de seu destacado poema: os sentimentos. O texto, de pouco mais de uma página de tamanho, é um rio de emoções, para não dizer, um libelo sobre sua relação com o Rio.

Para Luciano Maia, o rio é. Ouso dizer que o autor se apropria da paráfrase bíblica para Deus, aquilo que é5. O autor deixa claro nesta única página que encontrar-se com qualquer rio, seja importante caudal ou um minúsculo regato é encontrar-se com o Jaguaribe. E se ele – poeta, sujeito - pode estar em qualquer lugar, o Jaguaribe também pode estar.

Subitamente, estou a percorrer-lhe as margens, de onde avisto passarem os balseiros, aqueles garranchos carregados em sua correnteza vagarosa, vindos sabe-se lá de que árvores ou arbustos nascidos em torno de seu universo de ressonâncias em mim profundas, cujo eco repercute alhures. Quantas vezes naveguei o sonho de um barco até a foz do Jaguaribe!6

O que Philippe Lejeune define ser o pacto autobiográfico, identifica ser o prólogo do livro aqui estudado, um texto desta natureza. E, embora seja a abertura da obra, o que me levaria a supor que, por fim, todo o restante do livro seria também uma narrativa autobiográfica, não me atreverei a fazer tal afirmação.

A partir do que afirma Lejeune, neste prólogo, Luciano é autodiegético, isto é, escreve sua narrativa de modo que a identidade do narrador e do personagem principal se coincidem, através do discurso em primeira pessoa7. Mesmo sabendo que o personagem principal do livro é o Rio Jaguaribe, o autor desenvolve nesta única página outro conceito, também trabalhado por Lejeune que é o de espaço autobiográfico.

Por que estabeleço este parâmetro? Prólogos e prefácios, exaustivamente escritos por terceiros, tem como primaz função, apresentar a obra que se segue, e, em alguns casos, dar chaves de leitura e interpretação do texto principal. É, talvez, o que primeiro seja lido em uma obra, desconsiderando, elementos pré-textuais como, por exemplo, capa, contracapa, orelhas, ficha catalográfica e sumário. O prólogo analisado é escrito pelo mesmo autor do texto principal, e mais que apresentar o livro, funciona também, nesta interpretação, como texto referencial para entendimento do autor. Partindo desta forma de compreensão, ouso dizer que o prólogo é, hermeneuticamente falando, uma contribuição luxuosa para a última seção do livro, intitulada sobre o autor.

Quero dizer, o prólogo desta 7ª edição, onde se lê a perspectiva endógena do autor e de sua relação pessoal com a temática da sua obra é complementada pela objetividade dos dados expostos na página final do livro, esta sim, extremamente biográfica. A ligação estabelecida entre “prólogoe “sobre o autor constituem o espaço autobiográfico que convida o leitor a percorrer toda a obra.8 Começo a entender, por exemplo, que só compreenderei o que trata ser o país do Jaguaribe se percorrer com sabedoria os mil versos do poema.

Por fim, subliminarmente, passo a entender que Luciano Maia é sua obra. O desafio é posto, porém somente compreendido, caso aventuremo-nos a virar as páginas e adentrar a leitura do livro, que já é poesia desde a dedicatória. Nesta edição, após os quatro cantos que compõe o Jaguaribe – Memória das Águas – Canto dos elementos, Canto das nascentes, Canto da vida e da morte, Canto da água e do tempo – o autor ainda oferece outros dez poemas, na seção nominada Ainda o Jaguaribe, todos dedicados a familiares, amigos, outros poetas, cantores, estudiosos ou apenas moradores da ribeira do rio, como na tentativa de estabelecer um diálogo como os mesmos, mote, que o mesmo prólogo estudado já prenunciava:

Será porque os rios, são, para nós, de algum modo, também eles, habitantes de países em que nascemos ou vivemos e assim possuem uma alma? Terão eles uma relação de parentesco conosco? A essas perguntas não sabemos responder. Quem, a poesia nos trará algumas sugestões. Ou torne tudo mais misterioso ainda.9

Considerações finais – Da possibilidade impossível de falar de si (e/ou dos outros).

No texto A ilusão biográfica, Pierre Bourdieu discute diversas questões pertinentes ao estudo das biografias e autobiografias. Uma delas é entender a vida como uma história, que pode ser conhecida (ou concebida) como um conjunto de acontecimentos, tal qual um caminho orientado pela ideia do nascer-crescer-realizar-morrer. Isto é, sob esta perspectiva, a vida é vista como uma sucessão de fatos que indica um devir. Segundo Bourdieu,

produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica, uma representação comum da existência que toda uma tradição literária não deixou e não deixa de reforçar.10

Logo, devo dizer que o texto que ora se encerra – ora, porque ele (eu) pretende continuar-se sobre outras perspectivas – foi uma tentativa epistemológica de discussão que não pretendeu ser uma biografia, mas sim um exercício constituído da possibilidade de encontrar os traços da escrita autobiográfica11 no prólogo de um livro. Uma ação, guiada pelo próprio Luciano Maia quando disse que “às margens dos rios, vivem os que buscam no rio a completude de um sonho ou simplesmente a sobrevivência, de um modo ou de outro”.

Longe de ser uma biografia, o texto feito por Luciano Maia descreve um dos vários sujeitos possíveis contidos neste nome próprio. Para encontrar estes outros possíveis, penso ser necessário continuar a leitura do livro, aventurar-se pelas páginas de seus outros escritos e muitas outras coisas mais. Mas isso é uma outra história.

Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. De Rosseau à Internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008;

LEVI, Giovani. Usos da biografia. FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002.

MAIA, Luciano. Jaguaribe Memória das águas. São Paulo: Escrituras, 2000. 7ª edição.

Apêndice


Prólogo

Quando em Limoeiro do Norte, no interior do Ceará, comecei a escrever versos, época em que ainda contava com 13 anos de idade, não podia imaginar que um dia eu seria considerado poeta e muito menos que alguns de meus livros transporiam as fronteiras nacionais e alcançariam leitores em idiomas diferentes.

Quis o destino (ou a poesia) que assim fosse.

Este livro, cuja a primeira edição data de 1982, alcança a sétima edição e as suas tiragens, sempre esgotadas, indicam que ainda se verão muitas outras no futuro, mercê de sua sempre renovada vitalidade (habent sua fata libelli!), aliada a uma crescente afeição que nutro pelo seu texto, cada vez mais ressoando em minha memória. Afinal, o livro chama-se Jaguaribe – Memória das águas... E eu fui menino habitante das margens deste rio, quadra da minha vida cujas lembranças não se apagam nunca.

Ao contemplar as águas de um rio qualquer, aqui ou algures, seja um importante caudal ou um minúsculo regato, percorra geografias ilustres ou terra sem prestígio histórico, não há como não se estabelecer, de imediato, uma relação com o meu rio. Subitamente, estou a percorrer-lhe as margens, de onde avisto passarem os balseiros, aqueles garranchos carregados em sua correnteza vagarosa, vindos sabe-se lá de que árvores ou arbustos nascidos em torno de seu universo de ressonâncias em mim profundas, cujo eco repercute alhures. Quantas vezes naveguei o sonho de um barco até a foz do Jaguaribe!

Os percursos dos rios, sabemos, foram territórios visitados pelos ancestrais, em busca de repouso para suas longas, fatigadas e perguntadouras viagens. Às margens dos rios, vivem os que buscam no rio a completude de um sonho ou simplesmente a sobrevivência, de um modo ou de outro. As estrelas, piscando para as cintilações fluviais, são visitadoras longínquas desse mundo de bruxedos. A lua que grimpa as nascentes do Tejo inspira os poetas de lá. A que beija o azul do Volga dedilha balalaicas aos cossacos. O sol que lambe as vazantes dos rios sertanejos insulta os ribeirinhos do Nordeste brasileiro. O luar do Apodi clareia os sonhos dos nascidos no País do Jaguaribe.

Assim, vislumbro, tanto o Danúbio quando o Capiberibe, tanto o Tibre quando o Amazonas (não importa a designação das terras ou a latitude em que os rios desenham o seu trajeto), fazem-me visitante do Jaguaribe. Será porque os rios, são, para nós, de algum modo, também eles, habitantes de países em que nascemos ou vivemos e assim possuem uma alma? Terão eles uma relação de parentesco conosco? A essas perguntas não sabemos responder. Quem, a poesia nos trará algumas sugestões. Ou torne tudo mais misterioso ainda.

País do Jaguaribe, março de 2005



Luciano Maia

1 Para Foucalt, o sujeito é um ser histórico, produzido na sua própria história e pela história que o entremeia. Para uma discussão mais profunda a respeito do sujeito em Foucalt, consultar: FOUCAULT, M. Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Ditos e Escritos I. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1999; Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Ditos e Escritos II. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2000; A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes. 2004; A História da Sexualidade I: A Vontade de saber. 16ª ed. São Paulo: Graal. 2005

2 Para melhor referenciar este ensaio, os textos trabalhados foram: LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. De Rosseau à Internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008; LEVI, Giovani. Usos da biografia. FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002. BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002.

3 LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. De Rosseau à Internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. p. 14

4 Idem. Ibid. p. 53

5 BÍBLIA SAGRADA. Livro do Êxodo. 3:14. Edição Pastoral-Catequética – Editora Ave Maria, 2000.

6 MAIA, Luciano. Jaguaribe Memória das águas. São Paulo: Escrituras, 2000. Prólogo. 7ª edição.

7 LEJEUNE, Philippe. Op. Ct. p. 16

8 Idem. Ibid. p. 41-44

9 MAIA, Luciano. Op. Ct. Prólogo.

10 BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002. p. 185.

11 Cf. LEJEUNE, Philippe. Op. Ct.


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