James van praagh



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"O contato de todos esses anos com o reino espiritual me ensinou — e talvez possa ensinar a você também — que a vida não é um campo de testes, algo que atravessamos apenas para no final sermos salvos ou condenados. Podemos aprender com tudo o que fazemos por aqui, e esse aprendizado é muito valioso para nós.

Quero que você pense na Terra como uma escola abençoada onde nosso espírito ganha um corpo em meio a um mundo de muita beleza e grandes contradições. A vida é um milagre. Deus nos concede aqui uma oportunidade maravilhosa de nos conhecermos, de crescermos no amor por nós mesmos e por nossos semelhantes.

Viemos ao mundo para viver experiências que nos ajudarão a elevar nosso espírito e atingir, um dia, a plenitude. Todos temos falhas e imperfeições. Se eu ou você fôssemos perfeitos, não estaríamos aqui, mas em outro plano do universo.

O dom do perdão existe dentro de nós. Fomos criados com ele. Fomos criados para amar e perdoar, não para tramar vinganças e perpetuar ressentimentos. Fomos criados para ter a oportunidade de elevar nosso espírito, para espalhar o amor. O perdão está em seu coração, esperando por você para iluminar a sua vida."
JAMES VAN PRAAGH





© James Van Praagh, 2000

capa

Raul Fernandes



tradução

Luiz Antonio Aguiar



preparo de original Regina da Veiga Pereira

revisão

Sérgio Belinello Soares



locução do CD Márcio Seixas

produção do CD Carlos Irineu da Costa

fotolitos

Mergulhar Serviços Editoriais Ltda.



impressão

Lis Gráfica Editora Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.


V297e Van Praagh, James

Em busca do perdão / James Van Praagh ; tradução Luiz Antônio Aguiar. - Rio de Janeiro : Sextante, 2000 : + CD

Tradução de: Forgiveness: the path to love Exercícios de meditação em CD ISBN 85-86796- 46-8

1. Perdão. 2. Perdão - Meditações. I. Título.

00-0306. CDD 158.12

CDU 159.98

Todos os direitos reservados, no Brasil, por

GMT Editores Ltda.

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Introdução



Para quem não me conhece, gostaria de começar contando um pouco da minha história e do meu trabalho, não apenas para me apresentar, mas também para explicar por que achei tão importante escrever este livro sobre o perdão.

Minha mãe era uma irlandesa muito católica. Seu sonho era que eu me tornasse padre. Nos nove primeiros anos de minha formação escolar, cursei colégios católicos e cheguei a entrar para um seminário em Nova York. No entanto, eu tinha muitos questionamentos sobre a fé e a religião que me ensinavam. Desde criança, nunca entendi o conceito de Deus. Havia uma contradição assustadora entre a imagem de um velho bondoso que nos amava e a idéia de que, se fizéssemos alguma coisa errada, ele nos castigaria, jogando-nos no fogo do inferno.

Deixei Nova York, e o seminário, e comecei a trabalhar em Los Angeles, querendo um dia escrever roteiros para a televisão. Tinha tido algumas experiências consideradas estranhas, quando criança, que estão descritas no meu primeiro livro, Conversando com os Espíritos. Visões, revelações intuitivas. Mas nada que, até então, me fizesse pensar que possuía qualquer dom especial. Então, levado por uma amiga, conheci um médium que me disse que, no futuro próximo, eu estaria fazendo a mesma coisa que ele: recebendo e transmitindo mensagens do outro lado.

Aquele encontro me deixou intrigado. Comecei a juntar as coisas, a ver com outros olhos algumas coincidências que me aconteciam, as percepções que tinha e, claro, aquelas minhas experiências da infância. Tudo isso me fez estudar e praticar, dedicadamente, tentando desenvolver minha intuição. Logo, estava usando minha sensibilidade aguçada para ajudar amigos e colegas de trabalho a entenderem a si mesmos e os problemas por que estavam passando. Entretanto, aos poucos, sem que eu pudesse mais negar, outras habilidades foram se revelando.

Durante as conversas com essas pessoas que vinham me ver, seus entes queridos já falecidos traziam mensagens de consolo e auxílio. Descobri que eu podia ver os espíritos, ouvi-los e captar suas sensações - dons denominados clarividência, clariaudição e clarisensibilidade.

Um mundo maravilhoso começou a se abrir para mim. Cada vez mais fui compreendendo que nascemos do Amor, temos o Amor sempre dentro de nós, estamos no mundo para espalhar o Amor, para aprender com ele, crescer e reencontrá-lo em sua forma mais plena, na passagem para o outro lado da vida. Foi isso que todos esses anos de contato com o Reino Espiritual me ensinaram de mais significativo.

Mas aprendi também que, como somos limitados em nossa forma física, podemos ferir, magoar e prejudicar nos­sos semelhantes, mesmo as pessoas mais próximas e queri­das. E, como nos ensinaram a ver o mundo e a relação com os outros por essa ótica da condenação e do castigo, car­regamos ódios, ressentimentos, mágoas e culpas. A culpa, inclusive, foi sempre muito estimulada por pessoas e religiões como um instrumento de dominação e poder. Tudo isso nos custa muito caro, nos maltrata, atrapalha nossa vida e nosso crescimento. Acima de tudo, ocupa nosso espaço interior, bloqueando a expressão do amor, e mobiliza uma energia que poderia ser direcionada para gestos positivos de entrega, solidariedade e afeto. Por isso, resolvi escrever sobre o perdão, que certamente não é um gesto nem um processo fácil, mas que, uma vez interioriza­do, tem um maravilhoso efeito libertador, essencial para nossa felicidade e desenvolvimento espiritual.

Neste livro, vou repetir muitas vezes a forma como passei a ver a vida - nossa passagem pelo mundo físico -, nossa relação com Deus e com as pessoas com quem convivemos. Vou dizer a você que o mesmo Deus que nos criou para o Amor nos concedeu também um dom fundamental para podermos nos reconciliar com a vida e com as pessoas: o dom de perdoar. Vou falar aqui daquelas feridas antigas que você parece não ter forças para superar. Das acusações que você se faz e que o torturam, muitas vezes paralisando o seu crescimento. Daquelas pessoas que você quer trazer de vol­ta para o seu convívio, e dos seus entes queridos ou mesmo conhecidos, que já partiram, com quem você gostaria de entrar em contato para reparar atos de omissão ou agressão cometidos contra eles quando ainda viviam. Vou falar de fazer as pazes com a sua consciência. De se livrar de culpas.

De tornar o mundo à sua volta mais hospitaleiro, sem a pressão de julgar nem de ser julgado. Um mundo no qual podemos buscar exercer o amor e encontrar nossa espiri­tualidade.

Tudo parte de uma nova compreensão. De um processo que pode ser difícil, longo, ter idas e voltas. De um desejo de resgatar o que é de fato importante, o que é mais caro a você. De abrir o seu coração. É por isso que também vou lhe oferecer um instrumento importante para curar as suas feridas e iluminar o seu íntimo, ajudando no exercício do perdão: a prática persistente da meditação.

Minha experiência pessoal, somada ao que vi acontecer com inúmeras pessoas, me convenceu de que a meditação pode efetivamente produzir transformações na vida. A meditação é como um caminho no qual, distanciando-se de tensões e condicionamentos, podemos reencontrar, intacta, essa essência amorosa dentro de nós. É uma prática que eleva nossa compreensão e nosso espírito a um plano em que o perdão surge como um toque da Luz.

Pode parecer talvez ingênuo, num cotidiano em que a pressa e a agressividade chegam a ser valorizadas, dizer que a vida recomeça a cada ato de amor. Você pode sorrir, achar que é mais fácil dizer do que fazer. Mas eu o estimulo a experimentar, todos os dias, expressar o amor, mesmo através de pequenos gestos. Você perceberá que, aos poucos, começará a sentir uma alegria especial, contagiando as pessoas e o ambiente em que vive.

Muitos me procuram para saber se seus parentes, amigos, companheiros e companheiras estão bem do outro lado. Os espíritos têm a mesma preocupação quanto a nós: querem nos ajudar a ficarmos bem deste lado da vida. Porque é aqui que aprendemos. São as experiências terrenas que desenvolvem nossos espíritos. Por isso, neste livro, você lerá mensagens dos espíritos estimulando seus seres amados a abraçarem o perdão, mesmo nas situações mais dolorosas. Peço a você que acompanhe estas histórias com carinho e reflexão. São mensagens repletas de esperança de uma vida nova que pode existir justamente porque se inicia den­tro de você.

Desejo que, com a leitura deste livro e a prática da meditação contida no CD que o acompanha, você se livre de culpas e de rancores, e vá assumindo consigo mesmo o amor misericordioso do Deus que nos criou, tornando-se cada vez mais capaz de compreender e de perdoar. Minha experiência pessoal e o testemunho de muitos me fazem acreditar que isso lhe trará grande paz interior e contribuirá deci­sivamente para o seu crescimento, sua felicidade e a cons­trução de um mundo melhor.

I

Nossa Escola Abençoada



Quando eu era criança, me ensinaram que o demônio estaria sempre à espreita, nos tentando. E que podia aparecer, de repente, como castigo a algum ato ou pensamento mau. Isso me aterrorizava. Vivia me perguntando se já teria esgotado todo o meu crédito, quer dizer, se os pecados que cometera, descontadas as boas ações, já haviam irremediavelmente me condenado às chamas eternas, incluindo aí sofrer tormentos inimagináveis.

Acho que todos nós que tivemos uma educação religiosa, mesmo as mais brandas, introjetamos algo parecido, seja em que grau for. Bom, mau, vou para o céu, vou para o inferno. O feroz e insidioso medo do castigo - do demônio se apossando de nós e das figuras de autoridade nos julgando, condenando e punindo - abre o espaço onde se instala em nosso íntimo a culpa pelo que fizemos de errado.

Em casa ou na escola, a maneira como fomos educados - e, ainda, muitas vezes, como educamos os filhos - também se baseava nessas noções. Recompensa e castigo. Os bons são premiados; os maus, condenados. Radicalizando, por vezes essas características são entendidas como inatas: boa ou má índole - ele é mau, ele é bom. E assim dividimos as pessoas entre as que devemos imitar e as que devemos rejeitar. Talvez, num mundo assim, algumas pessoas sintam-se mais seguras e achem as coisas mais definidas. Já eu, desde criança, tinha uma forte sensação de não poder contar com nenhuma ajuda amorosa, mas sempre com um julgamento severo.

Li histórias da Bíblia, quando garoto. O Velho Testamento me intimidava. Não conseguia aceitar que todas as pessoas em Sodoma e Gomorra, indiscriminadamente, tivessem sido condenadas a morrer calcinadas. Não aceitava nem mesmo que a enorme maioria fosse tão má, a ponto de não merecer uma outra chance. Na verdade, mesmo para os irrecuperáveis, fosse qual fosse seu crime, sofrer um castigo tão terrível me parecia cruel demais.

Mas o que mais me assustava e entristecia era o Dilúvio Universal. Eu me perguntava que deus era aquele, capaz de exterminar homens e mulheres, crianças e bichos - esses últimos os mais inocentes e com os quais eu mais me identificava -, numa chacina planetária. Quanto mais que a falta que mais rancor despertara no Todo-Poderoso fora o fato de algumas dentre essas pessoas terem escolhido outro(s) deus(es) para adorar. Mas isso não seria um direito delas? Ser diferentes? Acreditar em coisas diferentes? Ver o mundo de maneira diferente?

Sim, já na época me perguntava, até intuitivamente: será que nenhuma dessas pessoas e animais mereciam compreensão, quanto a suas escolhas de vida, e clemência, quanto ao que poderíamos considerar seus erros... Perdão? E logo de Deus, que devia ser a fonte de toda a misericórdia? Que deveria estar em outro plano, distante das paixões e desejos de vingança tão humanos?

Eu, uma criança atemorizada com a possibilidade de minha alma já estar comprometida por pecados imperdoáveis, também não tinha a Deus para recorrer. Como esperar sua benevolência e compreensão, se Ele me aterrorizava, se Ele tinha surtos de ira, se era um exterminador, se ver a terrível face de Deus era suficiente para alguém ser aniquilado. Uma face terrível, portanto, não um rosto acolhedor, um semblante terno e amoroso. Não era isso o que nos ensinavam?

Gostaríamos de ter sido educados por pessoas que, com delicadeza e afeto, avaliassem conosco cada experiência, cada ato praticado ou atitude assumida - pelo menos as mais importantes -, ajudando-nos a pensar o que aprendemos com cada uma. Hoje, com mais vivência, não levamos tão a sério nossos pecados de infância. Entretanto, com uma formação que penetrou profundamente em nossa cons­ciência, que nos ensinou a ver o mundo repartido entre o certo e o errado, o mais comum é mantermos o que o medo e a auto-recriminação nos inculcou. Da mesma forma Como nos sentíamos e ainda nos sentimos julgados e condenados, também julgamos e condenamos. Da mesma forma como nos deixamos atormentar por nossos arrependimentos e culpas, nos submetemos a mágoas e a ressentimentos. O medo do demônio e o exemplo do Deus inclemente do Velho Testamento podem ser coisas de criança, mas nunca desaparecem de todo do adulto.

Perdoar é difícil - a nós e aos outros. Sei que você vai me dizer isso. Sei disso, pela minha própria vida. E muito, muito difícil. E é tão difícil assim porque nossa educação nos ensinou a julgar e a condenar, não a compreender e perdoar. Não a nos colocarmos na posição do outro, buscando entender seus motivos, mas a tentar forçá-lo para dentro de nossa fôrma de certo e errado, a julgá-lo pelos nossos próprios critérios, projetando neles nossos sentimentos e intenções.

O contato de todos estes anos com o reino espiritual me ensinou - e talvez possa ensinar a você também - que a vida terrena não é um campo de testes, algo que atraves­samos apenas para no final sermos salvos ou condenados. Todo ato que praticamos é um ato humano. Podemos aprender com tudo o que fazemos por aqui - e esse aprendizado é valioso por si só.

Então, tenho uma carinhosa sugestão para você. E é o que inicia este livro sobre o perdão. Vamos tentar pensar de maneira diferente sobre a vida terrena, o que estamos fazendo aqui, de onde viemos, para onde vamos depois. Em vez de crime e castigo, compreensão, perdão, amor.

Pense na Terra como nossa escola. Uma escola abençoada onde nosso espírito ganha um corpo, em meio a um mundo de muita beleza e grandes contradições. Um milagre, sem dúvida. A vida é um milagre. Deus infinitamente generoso nos concede, aqui, uma oportunidade maravilhosa de nos conhecermos, de crescermos no amor por nós mesmos, pela Terra e por nossos semelhantes. De redescobrirmos a nossa essência, o que temos de fundamental.

Estamos aqui para aprender, para ter experiências que nos ajudarão a elevar nosso espírito e atingir, um dia, a plenitude. Todos temos falhas e imperfeições. Se eu ou você fôssemos perfeitos, não estaríamos aqui, mas em outro plano do Universo. Portanto, todos temos o que aprender aqui na Terra e é para isso que viemos ao mundo.

Há outra coisa que gostaria que você guardasse em seu coração. A Terra e a oportunidade de desfrutarmos de uma materialidade física foram criadas por puro amor. Amor, sim! Você é amado! A maior prova disso é que Aquele que tanto nos ama nos deu este caminho para aprender, um caminho no qual elevar-se significa descobrir e assimilar o que há de melhor no mundo e nos outros. E este Ser Supremo nos concedeu várias oportunidades de retornar à Terra e de viver diferentes existências - de experimentar sexos, raças, nacionalidades e credos diferentes -, para podermos aprender e nos desenvolver progressivamente. E bem diferente de acreditar que Deus nos tenha dado uma única chance direcionada para uma meta final - céu ou inferno - e que cada ato nosso seja sujeito a julgamento, com conseqüente prêmio ou punição.

Não consigo e nem quero mais conduzir minha vida como se estivéssemos aqui na Terra para nos julgarmos mutuamente, nem para trocarmos acusações amarguradas. Muito menos para condenarmos ou sermos condenados. E prefiro acreditar que cada uma de nossas vidas é uma oportunidade de aprendizagem e crescimento do que achar que temos apenas uma vida - uma chance - voltada para um resultado final. A existência física não é fácil. Há sofrimento e dor, há desapontamentos e perdas. Mas, hoje, o que acredito e sei é que Deus nos ama - incondicionalmente! Nos ama, apesar de nossos erros, e mesmo com nossos erros, que tanto podem nos ensinar. Somos todos manifestações desse amor. E esse amor que precisamos reencontrar, de forma plena, em nosso íntimo e no Universo. E foi para fortalecer em nós este amor, para podermos reconquistá-lo e torná-lo progressivamente a tônica de nossas existências, que Deus nos concedeu o dom de perdoar.

Um mundo onde podemos perdoar e ser perdoados é generoso, não esconde demônios sorrateiros, nem causa feridas impossíveis de serem curadas. Da mesma forma que o medo instala tanto a culpa como o ressentimento, que nos privam de oportunidades de vida e nos afastam de nossos semelhantes, o dom de perdoar desobstrui canais, para que possamos reencontrar o amor incondicional que nos deu origem e que nos abriga. E essa é a grande lição, afinal, o toque da Luz, o início, o fim e o transcorrer de tudo.

Perdoar e Ser Perdoado

Foi numa tarde de primavera que Anne me procurou. Assim que entrou em minha casa, senti uma forte vibração que a acompanhava necessitando manifestar-se. Também o rosto de Anne trazia marcas de sofrimento e a sua voz abafada me mostrou alguém que procurava escapar de suas lembranças. Enfim, tudo nela me comovia bastante.

Fiz minha oração de costume e me concentrei naquela atmosfera ao redor de Anne. Não precisamos esperar muito.


  • Há alguém aqui... é um homem... ele está dizendo que vem tentando se comunicar com você há muito tempo.

  • Como ele é? - perguntou Anne.

  • Um homem alto, bonito. Ele diz que seu nome é... Robert... Bob?

  • E o meu marido - Anne murmurou, hesitante.

  • Ele está dizendo que sente muito pelo que fez você so­frer.

- Ele sente muito? Mas a culpa foi toda minha. Eu... estava tendo um caso com um colega de trabalho. Estava muito confusa. Contei tudo a ele. Pouco tempo depois, Bob teve um enfarte e morreu. Não sei se conseguiríamos consertar as coisas entre nós, mas...

Anne não conseguiu mais falar. O choro cortou a sua voz. Senti que precisava se tranqüilizar e nos minutos seguintes mentalizei uma luz acima de sua testa, começando a envolvê-la, banhando-a e consolando a sua dor. Pedi a ela que visualizasse essa luz e que respirasse lenta e profun­damente. Só depois ela pôde prosseguir.



  • Bob está dizendo que não foi um bom marido. Diz que deixou de lhe dar atenção e que o casamento de vocês, de fato, não estava indo nada bem.

  • Não, não estava... Estava horrível! Houve momentos em que eu me sentia... esmagada... Era quase como se ele... Não, não consigo dizer isso!

  • Mas Bob sabe... que houve momentos em que você sentia que era ele que a estava empurrando para outro homem... E ele acha que fez isso, sim, de certa maneira. Não de propósito, não por ter deixado de amar você... E isso que ele está dizendo. Que continua amando você!

  • Ele... me perdoa?

  • Ele já a perdoou há muito tempo. Mas está precisando do seu perdão também. Pelo que fez você passar. Ele reco­nhece que... que poderia ter tentado reconquistar você, mas que havia desistido... de tudo.

Anne me olhava, buscando dar ordem a suas lembranças e sentimentos.

  • No íntimo, ele se sentia muito infeliz, Anne - tentei explicar. - E não sabia como mudar. Você não tem culpa por ele ter morrido.

  • Mas eu não poderia tê-lo ajudado?

  • Bob pede para dizer que não... não muito... só ele po­deria. E é o que está fazendo agora.

  • Eu só queria saber se ele está bem.

  • Bob está rindo. Diz que está muito bem, sim. E que você também vai ficar bem!

Deixei que, através de mim, os dois trocassem men­sagens sem palavras - apenas sensações, bênçãos mudas, ondas de amor que começaram a fluir entre ambos. O rosto de Anne se abriu, sua voz ganhou um tom manso e agradável. E toda a dor que ela carregava pareceu dissipar-se como vapor no ar. No final, Anne sussurrou:

- Eu também perdôo você, Bob.

Logo, Bob partiu, e Anne e eu fizemos uma oração jun­tos, agradecendo por aquele encontro.

Chega uma hora em que nosso coração quer se libertar. Ele já está pronto para isso, e nós também estamos prontos para reconhecer as nossas próprias faltas, e não apenas as dos outros. Basta um pouco de compreensão sobre o que nos feriu, ou sobre o ponto de vista daquele que nos feriu, para começarmos a deixar a dor ir embora. Às vezes, precisamos somente de uma pequena ajuda para retomar a via do amor. Para perdoar e pedir para ser perdoado.

A Herança

A Herança

- Está aqui presente uma senhora que se chama Clara, que veio conversar com a filha dela... Cris.

Falei olhando para a moça, que se levantou, mostrando emoção.



  • Sou eu! - apresentou-se Cris.

  • Clara está repetindo uma frase... "Diga a Cris para procurar o Phill!" Isso faz sentido para você?

A moça assentiu com a cabeça...

- Phill é o meu irmão e a situação entre nós... está me fazendo sofrer muito.

Cris mostrava-se nitidamente embaraçada de estar falando de sua vida privada em público. Assegurei-lhe que não entraríamos em pormenores constrangedores.


  • Dissemos coisas terríveis um ao outro. Joguei uma dúzia de advogados em cima do Phill... ele fez a mesma coisa. Tudo por causa da herança.

  • A herança da sua mãe.

  • Isso mesmo - assentiu Cris.

  • Clara está me dizendo que não deixou seus bens para os filhos para que eles perdessem um ao outro. Essa situação a entristece muito.

  • Eu sei! - exclamou Cris. - Eu também estou muito triste.

  • Clara está repetindo a frase. Ela quer que você procure o seu irmão.

  • Mas não será tarde demais? Estamos muito magoados. Nunca poderia imaginar... nós éramos tão amigos...

  • Clara está dizendo que não vai permitir que o dinheiro faça vocês perderem a noção do que é mais importante... do que é de fato importante... Parece que, em vida, sempre deu valor demais a isso e que talvez tenha transmitido a vocês esse apego a coisas materiais... Mas ela vê tudo agora de uma maneira diferente. Clara está insistindo: "Não é tarde demais, Cris... Vá falar com o Phill! Por favor!"

- Ele não quer mais falar comigo. E eu também não sei o que lhe dizer depois de tudo...

- Diga que o ama! - eu cortei.

- Mas...

- É o que sua mãe está me mandando transmitir a você. Não fale de dinheiro com ele... Diga que o ama! E peça perdão por tudo. É o que ele tem de fazer também!

Apesar de seu jeito contido, Cris estava bastante emo­cionada. Ainda lutava contra o orgulho, e pude imaginar, intuitivamente, quantas discussões e desentendimentos não haviam ocorrido entre ela e o irmão, para separá-los.



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