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Hidden Star (Estrela Oculta) Nora Roberts

Traduzido e corrigido por
Projeto_romances

Projeto_romances@yahoo.com.br

Tradução Juliana
Estrela Oculta
(Hidden Star)
Nora Roberts



The Stars of Mithra Trilogy - Book 1

Este Livro faz parte do Projeto_Romances,

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estritamente proibida

Capitulo 1

Cade Parris não estava em um dos seus melhores dias quando a mulher de seus sonhos entrou em seu escritório. Sua secretária tinha se demitido no dia anterior, de qualquer modo ela não servia para muita coisa mesmo, sempre prestando mais atenção nas suas unhas do que atendendendo aos telefonemas. Mas ele precisava de alguém para dar andamento nas coisas e arrumar os papéis nos arquivos. Mesmo o aumento que ele ofereceu em um momento de desespero não mudou a determinação dela em virar de repente uma sensação da música country.

O resultado era que sua secretária estava neste momento, seguindo para Nashiville em uma pickup de segunda mão a milhas de distância de seu escritório em – ele esperava sinceramente - uma estrada em péssimo estado.

Ela não estivera com a cabeça exatamente no trabalho nos dois últimos meses. Essa impressão tinha sido mais que confirmada quando ele encontrou um sanduíche de mortadela dentro da gaveta do arquivo. Ao menos era o que parecia ser aquela massa dentro do saco plástico.

E ele tinha sido arquivado na letra A-de Almoço?

Ele não tinha se preocupado em esclarecer, como também não tinha se preocupado em atender o telefone que tocava incessantemente na mesa vazia da recepção. Ele tinha relatórios para digitar e como digitação não era uma de suas melhores habilidades, ele queria acabar logo com aquilo.



Parris Investigations não era o que poderia se chamar de uma empresa próspera. Mas servia para ele, como o tumultuado escritório de duas salas espremido no último andar de um estreito prédio de tijolos , de péssimo encanamento, na North West D.C. também servia para ele.

Ele não precisava de carpetes macios ou maneiras polidas. Tinha crescido com tudo isso, com a pompa e pretensões, e estava cheio de tudo quando alcançou a idade de vinte anos. Agora aos trinta, com um casamento ruim deixado para trás e uma familia que continuava a desacreditar em sua ocupação, ele era, com tudo isso, um homem satisfeito.

Ele tinha sua licença de invertigador, uma reputação decente como o homem que fazia o trabalho e recebia o suficiente para manter a agência sem afundar.

Apesar que parte de seus problemas fossem os atuais trabalhos. Estava, no que se poderia chamar, de bonança. A maioria dos casos consistiam em seguros e certos trabalhos domésticos, alguns degraus abaixo da excitação que ele tinha imaginado quando se tornou investigador particular. Havia finalizado dois casos, dois pequenos casos de fraude de seguros, o que não necessitava de muito esforço ou inovação de sua parte para ser concluído.

Ele não tinha nada encaminhado no momento, o ganancioso sanguesuga do seu senhorio estava aumentando seu aluguel, e ultimamente o motor de seu carro estava fazendo um barulho duvidoso, seu ar condicionado estava aos pedaços e o teto estava pingando de novo.

Ele o pegou a delgada planta amarelada que sua antiga secretária tinha deixado para trás e colocou-a no chão sobre a goteira, esperando que assim talvez sobrevivesse.

Ele podia ouvir a voz saindo de sua secretária eletrônica. Era sua mãe.”Deus, alguma homem já conseguiu escapar da sua mãe alguma vez?” pensou.

“Cade, querido, espero que você não tenha esquecido do Baile na Embaixada. Você sabe que vai acompanhar Pamela Lovett. Eu almoçei com a tia dela hoje e ela me contou que Pamela está maravilhosa depois de uma pequena passagem por Mônaco.”



-Tá,tá,tá.-Ele murmurou, enquanto estreitava os olhos para o computador.

Ele e as máquinas tinham um pobre e não muito confiável relacionamento.

Recostou-se na cadeira e encarou a tela enquanto ouvia a mãe continuar a falar: “Você mandou limpar o seu smoking? Consiga um tempinho para cortar seus cabelos, querido. Você parecia tão desleixado da última vez que o vi.

- “E não se esqueça de lavar atrás das orelhas.”, pensou azedamente e parou de escutar a mãe.

Ela nunca iria aceitar que estilo de vida Parris não era seu estilo de vida, que simplesmente não queria almoçar no clube ou acompanhar chatas debutantes por Washington e que sua opinião não iria mudar por meio de sua persuação.

Ele queria aventura, pensou lutando para digitar o relatório com um fraco suspiro de aceitação, não era exatamente o Sam Spade1, mas ele fazia seu trabalho.

Na maioria das vezes não se sentia inútil, chateado ou fora de lugar. Gostava do som de trânsito do lado de fora da janela, mesmo que a janela só estivesse aberta por que o prédio e o mal-cheiroso do senhorio não tinham ar condicionado central e o seu estava quebrado. O calor era intenso, e a chuva se aproximava, mas com a janela fechada, o escritório ficaria tão abafado e sufocante como um caixão.

O suor escorria por suas costas,tornando-o grudento e irritadiço. Ele tinha se despido e só restava uma camiseta e o jeans, seus longos dedos batiam nas teclas do computador e tinha que afastar diversas vezes o cabelo do rosto, o que o deixava mais irritado. Sua mãe tinha razão. Ele precisava cortar os cabelos.

Então quando o cabelo novamente caiu, ele ignorou-o, como ignorou o suor, o calor, o barulho do tráfego, as gotas que continuavam caindo do teto. Sentou-se, e continuou a bater nas teclas metodicamente, um belo e memorável homem... com uma carranca no rosto.

Tinha herdado o olhos verdes e inteligentes dos Pais que podiam variar de frio como cristal a suave como névoa no mar, isso dependendo do seu humor. O cabelo, que precisava ser aparado, era de um castanho muito escuro e tendia a ondular-se. Como agora, enrrolando-se e grudando em seu pescoço, acima de suas orelhas, deixando-o cada vez mais aborrecido. Seu nariz era reto, aristocrático e um pouco grande, sua boca era firme e rápida para sorrir quando estava se divertindo. E para se estreitar quando não estava.

Seu rosto tinha se tornado mais endurecido desde da embaraçadora fase infantil e começo da adolescência, quando tinha o rosto rechonchudo, mas continuava com as covinhas. Ele tinha esperado ancioso pela meia idade, quando, com sorte, estas teriam se tornado rugas másculas.

Queria ter rugas, e ao invés disso, tinha sido presenteado com com uma agradável e sonhada boa aparencia de capa de revista, e tinha pousado para a revista GQ2 quando estava com vinte e poucos anos, mas sob muitos protestos e uma enorme pressão familiar.

O telefone tocou novamente. Desta vez escutou a voz de sua irmã, reclamando por ele ter faltado em uma festa chata em homenagem a um senador barrigudo que ela apoiava.

Ele pensou em arrancar a maldita secretária eletrônica da parede, jogá-la junto com a voz irritante de sua irmã pela janela no meio do tráfego na Avenida Wisconsin.

Então a chuva que se somava ao miserável e grudento calor começou a cair em sua cabeça, o computador pifou sem uma razão que ele pudesse perceber, a não ser uma inclinação para um desagrádavel senso de humor, e o café que esquecera na cafeteira aquecendo ferveu com um odioso assobio.

Ele se levantou de um pulo, queimou a mão na jarra de café e praguejou furiosamente enquanto a jarra se espatifava, espalhando vidro, e espirrando café quente em todas as direções. Ele abriu uma gaveta, procurando por guardanapos e cortou seu dedão com uma arma mortal que sua antiga secretária havia deixado em um arquivo junto com vários outros objetos de manicure.

Quando a mulher entrou, ele ainda estava praguejando e sangrando e tinha acabado de colocar a planta no meio do chão e nem tinha levantado o olhar.

Era preocupante o jeito que ela simplesmente parou ali, pingando, encharcada pela água da chuva, a face mortalmente pálida e os olhos arregalados com o choque.

-Desculpe-me - A voz saiu arranhada, como se ela não a usasse a dias - Eu devo estar no escritório errado - Ela deu alguns passos para trás, e aqueles olhos castanhos grandes e arregalados olharam para o nome gravado na porta. Hesitou, então olhou de volta para ele.

-Você é o Sr. Parris?

Houve um momento, um cego momento, quando ele não pode falar. Sabia que a encarava, não podia evitar. Seu coração simplesmente parou. Seus joelhos enfraqueceram. E o único pensamento que veio em sua mente foi ”Aí está você finalmente. Por que diabos demorou tanto?”

E porque isso era tão rídiculo, ele lutou para colocar uma amena, mesmo que cínica, expressão de investigador em seu rosto.

- Sim - Ele lembrou do lenço em seu bolso, e o enrolou ao redor do seu dedo que pingava sangue - Tive um pequeno acidente aqui.

- Entendo - Apesar dela não parecer que entendia, pelo jeito que continuava a encarar seu rosto - Eu cheguei em má hora. Não tinha hora marcada. Acho que talvez...

- Parece que estou livre.

Ele queria que ela entrasse. Apesar de absurda e sem precedentes reação, ela era uma cliente em potencial. E droga, ninguém que tinha entrado pela porta de Sam Spade parecia ser tão perfeita.

Ela era loira, linda e desconcertante. Seu cabelo estava molhado de chuva e por isso descia liso pelos ombros. Seus olhos eram castanhos claros ,em um rosto que poderia ter usado mais cores, era delicado como uma fada, em forma de coração, nas bochechas uma delicada curvinha e a boca era cheia, formal e sem pintura.

Ela tinha arruinado o terninho e os sapatos na chuva. Ele reconheceu os dois sendo de ótima qualidade, eram quase exclusivos, um estilo só encontrado em ateliês do designer. Contra o molhado terninho de seda azul, a sacola de lona que ela agarrava com as duas mãos, parecia intrigantemente fora de lugar.

Donzela em perigo , ele pensou, e os lábios se curvaram. Exatamente o que o médico tinha receitado.

- Por que você não entra, feche a porta, Srt...?

- Você é um investigador particular?

- É o que está escrito na porta. - Cade sorriu de novo, usando propositalmente as covinhas enquanto a observava morder o adorável lábio inferior. Maldição se não gostaria de morder o lábio dela ele mesmo.

E esta reação, ele pensou com pouco alívio, era muito mais que isso. Luxúria era um sentimento que ele podia entender.

- Vamos para o meu escritório - Ele examinou o vidro quebrado e a sujeira do café - Acho que terminei aqui por enquanto.

- Tudo bem - Ela inspirou profundamente, deu um passo adiante e fechou a porta. Ela achava que tinha que começar por algum lugar.

Escolhendo o caminho sobre os fragmentos, ela o seguiu para dentro da sala adjunta. Estava mobiliada com um pouco mais de uma mesa e umas velhas cadeiras. Bem,ela não poderia ser implicante com a decoração, lembrou-se.

Esperou até que ele sentou-se atrás da mesa, recostou-se na cadeira e sorriu para ela de novo, sorriso do estilo “confie em mim”.

-Você...eu poderia...- Ela apertou os olhos com força, concentou-se e tentou novamente: - Você teria alguma credencial que eu pudesse ver?

Mais intrigado, ele pegou sua credencial, e entregou a ela. Ela usava dois bonitos anéis, um em cada mão, ele notou. Um era de citrina de corte quadrado em um antigo modelo, o outro um trio de pedras preciosas. Seus brincos combinavam com o segundo anel, notou quando ela colocou o cabelo atrás da orelha para estudar sua credencial como se estivesse pesando cada palavra impressa.

- Você gostaria de me dizer qual é o problema,Srta...?

- Eu acho...-lhe devolveu a credencial, então se agarrou novamente ‘a sacola com ambas as mãos. - Eu acho que quero contratar você.- Os olhos dela estavam novamente em seu rosto, tão intensos, tão preocupados, quanto estavam quando olhara sua credencial. - Você cuida de casos de pessoas desaparecidas?

-Quem você perdeu, querida?- Ele quis saber. Esperava, pelo bem dela e da pequena fantasia que sua cabeça tinha criado, que não fosse o marido dela. -Sim, eu cuido de pessoas desaparecidas.

-Seu...ãh, preço?

- Duzentos e cinquenta mais despesas.- Quando ela acenou em concordância, ele colocou na mesa os papéis legais e pegou uma caneta. - Quem você quer que eu ache?

Ele respirou profundamente.

-Eu... Preciso que você me ache.

Olhando para ela, ele bateu a caneta contra o papel.

- Parece que eu já te achei. Você quer que eu mande a conta, ou você quer me pagar agora?

-Não - Ela podia sentir quebrando-se. Tinha se segurado por tanto tempo... ou achou que sim, mas agora podia sentir que, aquele galho ao qual ela vinha se agarrado quando o mundo que conhecia tinha desaparecido, começava a se quebrar. - Eu não lembro. De nada. Eu não...-A voz dela começou a falhar. Ela tirou as mãos da sacola que se encontrava em seu colo e apertou-as de encontro ao rosto. - Eu não sei quem eu sou. Eu não sei quem eu sou.- Então ela estava chorando as palavras saindo por entre os dedos - Eu não sei quem eu sou!

Cade tinha muita experiência em mulheres histéricas. Crescera entre mulheres que usavam lágrimas e soluços para tudo, desde unhas quebradas a casamentos desfeitos. Então ele se levantou, se armou com uma caixa de lenços e se agachou na frente dela.

-Agora, querida. Não se preocupe. Tudo vai acabar bem.- Com uma gentil experiência, ele limpava o rosto dela enquanto falava. Deu um tapinha na mão feminina, afastou seus cabelos e estudou os olhos marejados.

-Sinto muito.Eu não posso...

-Apenas chore - disse a ela. - Você se sentirá melhor. Levantando-se, entrou no banheiro e pegou um copo descartável de água para ela.

Depois de um colo cheio de lenços de papel e três copos estragados, ela soltou um suspiro trêmulo. – Desculpe-me .Obrigada. Eu me sinto bem melhor.-As bochechas dela coraram um pouco de vergonha quando pegou os lenços e os copos. Cade pegou tudo e jogou no lixo, depois descansou um lado do quadril na quina da mesa.

-Você quer me contar sobre isso agora?

Ela concordou, depois cruzou os dedos e começou a retorce-los.

-Eu... Não tenho muito o que contar. Eu apenas não me lembro de nada. Quem eu sou, o que faço, de onde vim. Amigos, família. Nada.- Prendeu a respiração e soltou devagar. -Nada.- repetiu

Era um sonho virando realidade, pensou, a linda mulher sem passado sai da chuva e entra em seu escritório. Ele deu uma olhada na sacola que ela ainda segurava no colo. Eles chegariam ali em um minuto. - Por que não me conta a primeira coisa que se lembra?

- Eu acordei em um quarto de hotel na rua Dezesseis.- Deixando a cabeça descansar contra a cadeira,fechou os olhos e tentou colocar as coisas em foco. -Até isso não está claro. Eu estava curvada na cama, e havia uma cadeira apoiada em baixo da maçaneta da porta. Estava chovendo. Eu podia ouvir a chuva. Estava meio grogue e desorientada, mas meu coração batia forte, como se estivesse acordado de um pesadelo. Ainda estava calçada. Lembro-me de me perguntar por que tinha ido dormir de sapatos. O quarto era escuro e abafado. Todas as janelas estavam fechadas. Eu estava cansada, então fui ao banheiro para jogar água no rosto. Abriu os olhos, encarando-o. -Vi meu rosto no espelho. Aquele pequeno e feio espelho com marcas pretas onde precisava ser recuperado. E não significou nada para mim. O rosto.- Ela levantou uma mão, passou pela bochecha,pela mandíbula. - Meu rosto não significava nada para mim. Eu não podia lembrar do nome que vinha com o rosto, ou dos pensamentos ou dos planos ou do passado. Eu não sabia como tinha chegado naquele horrível quarto. Olhei nas gavetas e no guarda-roupa, mas estavam vazios. Nenhuma roupa. Estava com medo de ficar lá, mas não sabia para onde ir.

- A sacola? Isto era tudo o que você tinha com você?

-Sim - As mãos dela agarraram a sacola de novo - Sem bolsa, sem carteira e sem chaves. Isto estava no meu bolso - colocou a mão em um bolso da jaqueta e tirou de lá um pequeno recado escrito em um pedaço de papel.

Cade pegou o papel dela,examinou a rápida mensagem.Bailey,encontro ás 7, tudo bem? M.J.

-Não sei o que significa. Eu vi o jornal. Hoje é Sexta-feira.

-Mmm. Escreva isto- Cade disse,entregando a ela uma caneta e papel.

-O quê?

-Escreva o que está escrito no recado.



-Oh - Mordendo o lábio de novo ela, ela copiou.

Apesar de ele não ter que comparar os dois para chegar a uma conclusão, ele pegou o papel dela, colocou os recados lado a lado. -Bem, você não é M.J., então eu diria que você é Bailey.

Ela piscou, engoliu em seco.

- O quê?


- Pelo jeito de escrever do M.J. ele ou ela é canhoto. Você é destra. Você tem a forma de escrita limpa, simples, M.J. tem a escrita impaciente. O recado estava no seu bolso. Provavelmente você é Bailey.

-Bailey - Ela tentou absorver o nome, a esperança, o sentimento e o gosto da identidade. Mas era não significava nada para ela. -Não quer dizer nada.

-Significa que nós temos um nome para chamá-la, e algum lugar para começar. Me conte o que você fez depois.

Distraída, piscou para ele.

- Oh,eu...Tinha uma lista telefônica no quarto. Eu procurei por agências de detetives.

- Por que você escolheu a minha?

- O nome. Soava forte.- Ela sorriu pela primeira vez, e apesar de hesitante estava lá. - Eu comecei a ligar, mas aí pensei que talvez devesse sair, e simplesmente aparecer...Então esperei no quarto até que fosse horário comercial, então caminhei um pouco e peguei um táxi. E aqui estou.

-Por que você não foi a um hospital? Chamou um médico?

-Pensei nisso.- olhou para as mãos. - Eu simplesmente não fiz.

Ela estava com o estômago roncando. Ele deu a volta na mesa, abriu uma gaveta, pegou uma barra de chocolate. - Você não falou nada sobre parar para tomar café da manhã - Ele a viu estudar a barra que ele oferecia com confusão e o que pareceu ser divertimento. - Isto vai segurá-la até possamos fazer melhor.

-Obrigada.- Com habilidade, movimentos precisos, ela desembrulhou a barra de chocolate.

Talvez parte da vibração em seu estômago fosse fome.

- Sr.Parris, talvez tenha pessoas preocupadas comigo. Família, amigos. Talvez eu tenha filhos. Eu não sei.- Seus olhos ficaram profundos, fixos em um ponto sobre o ombro dele. - Eu acho que não. Eu não acredito que alguém pudesse esquecer o próprio filho. Mas pessoas podem estar preocupadas, querendo saber o que aconteceu comigo. Por que não fui para casa ontem à noite.

-Você poderia ter ido a polícia.

-Eu não queria ir a polícia.- Desta vez sua voz foi cortante e definitiva.-Não até que...Não, eu não quero envolver a polícia.- Ela começou a bater os dedos no lenço de papel, então começou a rasgá-lo em tiras. - Alguém pode estar procurando por mim e talvez não seja um amigo, ou uma familiar. Uma pessoa que pode não estar preocupado com meu bem-estar. Não sei por que me sinto desse jeito, só sei que estou com medo. É algo mais do que o fato de não me lembrar. Mas não conseguirei entender, nada disso, até que eu saiba quem eu sou.

Talvez fossem aqueles grandes, suaves e úmidos olhos encarando-o, ou aquelas mãos inquietas. De qualquer jeito, ele não pode resistir a se exibir, só um pouquinho.

- Eu já posso contar algumas coisas sobre você. É uma mulher inteligente, com vinte e poucos anos. Tem um bom olho para cores e estilo, e o suficiente no banco para pagar sapatos italianos e ternos de seda. Você é precisa, provavelmente organizada. Prefere o entendimento ao óbvio. Desde que você não tente com afinco, eu diria que não é uma boa mentirosa. Tem uma boa cabeça sobre os ombros, pensa com clareza e não entra em pânico facilmente. E gosta de chocolate.

Ela formou uma bola com a embalagem vazia do chocolate.

- Por que você assume todas essas coisas?

- Você fala bem, mesmo quando está assustada. Pensou sobre como iria lidar com isso e fez isso através de passos, logicamente. Você se veste bem e com qualidade acima da média. Tem uma boa manicure, mas nada chamativo. Suas jóias são exclusivas, interessantes, mas não ostensivas. Além disso está segurando informações desde que entrou por aquela porta por que ainda não decidiu o quanto vai confiar em mim.

- Quanto deveria confiar em você?

- Você veio até mim.

Ela reconhecia isso, levantou-se e andou até a janela. A chuva esmaecia, enquanto uma vaga dor de cabeça começava a surgir bem atrás de seus olhos.

- Eu não reconheço a cidade - murmurou. - Mas sinto que devia .Sei onde estou por que vi no jornal, o Washington Post. Eu sei como a Casa Branca e o Capitol3 se parecem. Eu conheço os monumentos, mas poderia te-los visto pela televisão ou em um livro.

Apesar de estar molhado pela incessante chuva, ela descansou as mãos no peitorio da janela, apreciando o frio de sua superfície. - Eu sinto como se tivesse saído de lugar nenhum para um feio quarto de hotel. Ainda sei como escrever e ler, como andar e falar. O motorista do táxi estava com o rádio ligado, e eu reconheci o que era música. Reconheci árvores. Não fiquei surpresa pela chuva ser molhada. Senti cheiro de café queimado quando entrei aqui e não era um cheiro incomum. Eu sei que seus olhos são verdes. E quando a chuva clarear, eu que o céu será azul. - Ela suspirou. - Então eu não saí de lugar nenhum. Existe coisas que sei, coisas que tenho certeza. Mas meu próprio rosto não significa nada para mim. Posso ter machucado alguém, feito coisas. Eu posso ser egoísta e calculista, até cruel. Talvez ter um marido que traí ou um vizinho que atormentei.

Ela se virou, e seu rosto estava duro e sério, um contraste com a fragilidade dos cílios ainda molhados de lágrimas.

- Sr.Parris, eu não sei se vou gostar da pessoa que você achar quando me encontrar, mas eu preciso saber - Ela colocou a sacola na mesa dele, hesitou por um momento, então a abriu. - Eu acho que tenho o suficiente para pagar os seus honorários.

Ele viera do dinheiro, do tipo antigo que aumenta e se propaga em gerações. Mas mesmo com seu histórico, ele nunca tinha visto tanto em um só lugar ao mesmo tempo. A bolsa de lona estava cheia de pilhas embrulhadas de notas de cem dólares lisas e limpas. Fascinado, Cade pegou uma pilha, girou-a. Sim, ele pensou, todas as notas tinham o conhecido e digno rosto de Ben Franklin.

- Eu chutaria mais ou menos um milhão.

- Um milhão e duzentos dólares - Bailey murmurou enquanto olhava dentro da sacola. - Eu contei as pilhas. Eu não sei por que peguei ou por que elas estão comigo. Eu talvez tenha roubado.

Lágrimas começaram a aparecer de novo enquanto ela se virava.

- Pode ser dinheiro de resgate. Eu poderia estar envolvida em um sequestro. Poderia haver uma criança em algum lugar sendo presa, e eu estou com o dinheiro do resgate. Eu só...

-Vamos acrescentar imaginação fértil junto com as outras qualidades.

Foi o tom frio e casual na voz dele que a fez se virar em sua direção.

-Tem uma fortuna aí.

- Um milhão ou dois não fazem uma fortuna hoje em dia.- colocou o dinheiro de volta na sacola. - E me desculpe, Bailey, você simplesmente não se encaixa no frio e calculista perfil de sequestrador.

- Mas você pode checar isso. Pode descobrir, discretamente,se houve um rapto.

- Claro. Se a polícia estiver envolvida eu posso descobrir alguma coisa.

-E se houve algum assassinato? - Lutando para ficar calma, ela pegou a sacola de novo - Desta vez ela tirou uma 38.

Como um homem cautelodo, Cade colocou o tambor de lado, e o pegou. Era um Smith & Wesson e na sua rápida averiguação, ele descobriu que estava carregada.

- Como você sentiu isso em suas mãos?

- Não entendi.

- Como você sentiu quando a pegou? O peso, o formato?

Apesar da confusão pela pergunta, ela fez o melhor para responder cuidadosamente.

- Não tão pesado quanto eu achei que seria. Parecia ser aquele tipo de coisa poderosa que deveria ter mais peso, mais substância. Eu acredito que ficou estranho.

- A caneta não ficou.

Desta vez ela simplesmente passou a mão pelos cabelos.

- Eu não sei do que você está falando. Eu acabei de lhe mostrar mais de um milhão de dólares e uma arma. E você está falando de canetas.

- Quando eu entreguei a caneta para que escrevesse, você não se sentiu estranha. Você não teve que pensar sobre isso. Apenas a pegou e usou.- sorriu um pouco e colocou a arma no bolso em vez de devolver à sacola dela. - Eu acho que você está muito mais acostumada a segurar uma caneta do que um revólver calibre 38.

Houve um pouco de alívio nisso na simples lógica exposta. Mas não afastava todas as nuvens.

- Talvez você esteja certo. Mas não significa que eu não a tenha usado.

- Não, não significa. E como você colocou suas mãos em toda sua superfície, não podemos provar que você não o fez. Eu posso checar, para ver se está registrada e no nome de quem.

Os olhos dela brilharam de esperança.

- Pode ser minha. Ela o alcançou, pegou a mão dele em um gesto impensado e natural. - Então, nós teremos um nome. Então saberei meu nome. Eu não imaginava que poderia ser tão simples.

-Talvez possa ser simples.

- Você tem razão - Ela soltou a mão dele,e começou a andar. Seus movimentos eram suaves, controlados. - Estou me adiantando. Mas ajuda tanto, sabe, mais do que eu imaginava, contar para outra pessoa. Alguém que saiba como descobrir as coisas. Eu não sei se sou muito boa com quebra-cabeças. Sr.Parris...

- Cade - disse, intrigado por achar os economicos movimentos dela tão sexy. – Deixaremos isso menos formal.

- Cade - ela inspirou, soltou o ar. -É bom chamar alguém pelo nome. Você é a única pessoa que eu conheço, a única pessoa que eu lembro de ter tido uma conversa. Eu posso te dizer como isso é estranho, e nesse momento, também confortador.

- Por que não fazemos eu ser única pessoa que você lembra de ter feito uma refeição? Uma barra de chocotate não é muito para um café da manhã. Você parece exausta, Bailey.

Era tão estranho ouvir ele usar esse nome quando olhava para ela. Por que era tudo o que ela tinha... lutou para responder.

- Eu estou cansada - admitiu - Não parece que eu tenha dormido muito, e não sei quando comi pela última vez.

- Como você se sente em relação a ovos mexidos?

O sorriso apareceu nos lábios dela de novo.

- Eu não tenho a menor idéia.

- Bem, vamos decobrir - Ele começou a pegar a sacola, mas ela colocou a mão sobre a dele em cima das pilhas de dinheiro.

-Tem uma outra coisa - não falou por um momento, mas manteve os olhos nos dele do jeito como tinha feito quando entrou ali. Procurando, medindo, decidindo. Mas não havia, ela sabia, uma escolha. Ele era tudo o que tinha. -Antes de eu lhe mostrar, preciso de sua promessa.

- Você me contratou, Bailey, eu trabalho para você.

- Eu não sei se o que eu vou pedir é completamente ético, mas eu ainda preciso de sua palavra. Se durante a investigação você descobrir que cometi um crime. Preciso de sua palavra que você vai descobrir tudo que puder, todas as circunstâncias, todos os fatos, antes de você me entregar para a polícia.

Ele moveu a cabeça.

- Você acredita que eu iria entregar você.

- Se eu quebrei a lei, eu espero que você me entregue para a polícia. Mas preciso das razões antes de você o fazer. Eu preciso entender todos os porquês, as razões, como fiz isso e todas as pessoas envolvidas. Você vai me dar sua palavra?

- Claro - Ele pegou a mão que ela estendia. Era delicada como porcelana, firme como uma rocha. E ela, pensou, quem quer que fosse, era uma fascinante combinação de fragilidade e força. - Nada de polícia, até sabermos tudo. Você pode confiar em mim, Bailey.

- Você está tentando me deixar comfortável com o nome. Novamente, sem pensar, em um movimento que era natural como a cor dos olhos dela, ela beijou a bochecha dele - Você é muito gentil.

Gentil o suficiente, ela pensou, para abraçá-la se pedisse. E queria tão deseperadamente ser abraçada, confortada, escutar a promessa que o mundo dela voltaria ao normal a qualquer momento. Mas precisava se manter sozinha. Ela só poderia esperar que fosse o tipo de mulher que se mantinha sozinha e enfrentava seus próprios problemas.

- Tem mais uma coisa - Ela pegou a sacola novamente, colocou a mão lá no fundo, sentiu a grossa cartucheira de veludo, o peso do que estava dentro dela. - Acho que é provavelmente a coisa mais importante.

Ela o retirou e com muito cuidado, com o que ele pensou que era reverência, desamarrou a cartucheira e deslisou o conteúdo na palma da mão.

O dinheiro o tinha surpreendido, a arma o tinha preocupado. Mas isso o tinha aterrorizado. O vislumbre daquilo, o real brilho, até mesmo no escritório escuro pela chuva, tinha um surpreendente e suntuoso poder.

A pedra preciosa encheu a palma da mão feminina, tinha facetas claras e formas o suficiente para que o mais leve feixe de luz se refletisse no ar em brilhantes faixas. Tinha pertencido, ele pensou, a coroa de uma rainha mística, ou tinha descansado entre os seios de uma antiga Deusa.

- Eu nunca tinha visto uma safira tão grande.

- Não é uma safira. - E quando ela a passou para as mãos dele ela juraria que tinha sentido a troca de calor - É um diamante azul, com mais ou menos cem quilates. Corte brilhante, veio provavelmente da Ásia. Não há inclusões a olho nu, e é raro na cor e tamanho. Eu teria que chutar que vale facilmente três vezes a quantia de dinheiro que tem na sacola.

Ele não estava mais olhando para a pedra preciosa, mas para ela. Quando ela levantou os olhos para os seus , balançou a cabeça.

- Eu não sei como sei disso. Mas sei. Como também sei que isso não é tudo...não é...totalmente.

- O que você quer dizer?

- Quem me dera saber. Mas é um sentimento muito forte, um quase reconhecimento. Eu sei que a pedra só uma parte do todo. Como também sei que não é possível que me pertença. Não pertence a ninguém. Ninguém. - ela repetiu pausadamente. - Eu devo ter roubado isso.

Ela apertou os lábios, levantou o queixo, alinhou os ombros.

- Eu posso ter matado alguém por isso.





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