Joana Banana



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JOANA BANANA
Cristina Porto




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Um time de futebol só de meninas? Essa os garotos vão ter de engolir. Bem feito, quem mandou cutucar onça com vara curta!

Vitória-Régia x Espelunca, Brasil x Argentina na decisão final da Copa. Tudo num dia só. Haja coração!

Os espelunquenses não estão nem aí para as vitorianas. Dizem que vai ser de goleada! Ih, a bola já está rolando. Vamos ver no que vai dar essa história?



Conhecendo Cristina Porto
Cristina Porto nasceu na cidade paulista de Tietê, onde morou até os sete anos. Depois, foi para a capital, estudou Letras, formou-se professora, deu aula, trabalhou em várias publicações infanto-juvenis. Até que descobriu ser uma grande escritora. Escreveu um livro, depois outro, e outro e mais outro... Hoje ela tem mais de cinqüenta livros publicados!

Além de divertir e emocionar os leitores com suas histórias, Cristina também gosta de cozinhar, viajar, ouvir música, cantar, namorar, enfim, curtir a vida.

E o futebol? Ela entende de futebol? Entende muito, gosta e vibra, tanto quanto a Joana Banana. É só conferir nesta história.

Sumário

1. À espera do camisa 11 7

2. A casa-lar 10

3. Um porém desafinado

4. O plebiscito 16

5. Apresentação da camisa 11 18

6. A camisa 11 em ação 25

7. O doce sabor da vitória 29

8. A Banana Rosa de Santo Antônio 33

9. um novo confronto 38

10. Os movimentos da nova rotina 42

11. Vitória: gestação e nascimento 46

12. Interferência inesperada 51

13. Tempo de sonhar 55

14. Interlúdio 59

15. Tempo de viver e sonhar 62

16. O clube dos vitorianos 66

17. Uma visita em sinfonia 71

18. A cabeça (sonhadora) no lugar 78

19. Contagem regressiva 80

20. À espera da grande festa 82

21. 13 de junho 86

22. Mahler, Bombom e Caramelo 93

23. A questão do sim ou não 98

24. O depois da festa 100

25. Férias, suor e saudade... 102

26. Agosto, mês do desgosto 106

27. Uma véspera mais que especial 109

28. Emoção em dose dupla 111

29. Primeiro tempo 114

30. Intervalo 117

31. Segundo tempo 118

32. A torcida verde-amarela 121

33. O dia seguinte

34 Epílogo 120

1.

À espera do camisa 11
- Olha lá, pessoal! Chegou o caminhão de mudança! Nossa! Como está carregado! Vasos de flores, camas, sofá, armários, fogão, geladeira, televisão... Ué... Mas cadê as pessoas?

- Calma, gente. Olhem, aquele deve ser o pai. Aquela, a mãe. E agora... Agora deve ser, agora tem que ser o nosso... o nosso camisa 11!

- Puxa, a gente custou tanto pra formar aquele timaço e, de repente, o Zito vem e diz que vai se mudar. Por essa a gente não esperava, hein?

- É mesmo! Foi um desfalque e tanto no time. Ponta-esquerda como o Zito vai ser difícil aparecer outra vez.

- Xi, pelo jeito esses pais não têm filhos. Eu nem estou ouvindo barulho de criança. Só faltava essa! A casa ficou desocupada um tempão e ainda vem uma família sem ponta-esquerda?

- Nem que seja um jogador de defesa, nem que seja goleiro, caramba! O que importa é que venha um jogador pro nosso time!

Eram dez carinhas cheias de expectativa, escondidas em cima da carroceria de um caminhão, um pouco afastado da casa que a nova família iria ocupar. Era um time que havia ficado sem o Zito e agora esperava desesperadamente pelo seu substituto.

Era uma rua calma, entre outras tantas, também calmas, ruas cheias de casas, praças cheias de crianças... Tudo isso fazia de Santo Antônio das Rosas um lugar alegre e aconchegante, que precisava urgentemente de novos craques...

O Espelunca Futebol Clube esperava ansiosamente por um deles para poder funcionar e brilhar naquele ano que estava começando. Ano novo e vida nova, com um time completo e entrosado, esse era o maior desejo de todos os seus dez jogadores.

- É. Pelo jeito a família não tem filhos mesmo. Já desceram pai, mãe, todos os móveis... Melhor a gente voltar pra casa, turma.

E o time desfalcado já ia se retirando desanimado, desolado, quando uma voz de mulher interrompeu o silêncio:

- Manoel do céu! Cadê Jo... Jo...

- Peraí, pessoal! A voz era de mãe. E a mãe falou Jo, Jo...

Outra vez a voz de mãe para aumentar ainda mais a expectativa da turma:

- Cadê Jo... Jo... Uaaaatchim! Virgem Maria, a gripe me pegou!

A expectativa havia atingido o grau máximo na cabecinha de cada um. O Espelunca já estava em ação, emplacando um gol de cabeça num lance primoroso de João, que havia rompido uma barreira de cinco adversários desde o início da grande área, driblando dois, dando um chapéu em outro... Dava para jurar, pela expressão dos rostos, que naquele exato momento cada um imaginava uma jogada diferente, mas igualmente espetacular!

Mas outra vez a voz, desta vez sem a interrupção de espirros:

- Cadê nossa filha, Manoel? Será que ficou dormindo no caminhão? Joaaaaaana! Acorde, menina, que a gente já chegou na casa nova!

Por essa a molecada não esperava!

- O quêêê? Joana? Joana?

- Então, só pode ser uma Joana Banana, isso sim! Dessa vez, em coro...

- Joana Banana, Joana Banana! Banana, banana e banana! Foi essa a recepção que a pobre da Joana teve quando desceu do caminhão, esfregando os olhos, sem entender nada de nada. Parada no meio da calçada, em frente à sua nova casa, ainda meio zonza, olhava de um lado para outro, tentando localizar de onde vinham as vozes.

- Já estou indo, mãe! Não precisa gritar desse jeito!

É, o pessoal não se conformava mesmo com a chegada de uma Joana no lugar de um João. E o Espelunca, como é que ficava? Só que a Joana, coitada, continuava entendendo cada vez menos.

- Mas que coisa! Mal cheguei e já começaram a implicar comigo? Que negócio é esse de me chamar de Joana Banana? Ah, mas depois que a gente se acomodar vou tirar isso a limpo. Esses atrevidos vão ver só!

- Ande, menina, entre logo, que ainda temos muito trabalho pela frente!



2.

A casa-lar
A casa da família Carvalho, de construção antiga, pintada de amarelo e azul, em tons claros, era térrea, grande e bem arejada. O jardim era pequeno, mas, em compensação, o quintal era enorme. Sorte de dona Teresa e seu Manoel, que adoravam lidar com a terra: ela poderia cultivar suas flores e ele, sua horta.

A família chegou e, aos poucos, foi ajeitando a casa: o sofá da sala mudou três vezes de lugar, até ficar na melhor posição e, em função dele, todos os outros móveis também foram mudando. Isso aconteceu com quase todos os cômodos da casa, menos com a cozinha, que já tinha definidos os lugares do fogão e da geladeira. À medida que os dias iam passando, pai, mãe e filha também iam se ajeitando, ocupando o novo espaço e tomando posse de seus respectivos ”cantos”.

Assim, a casa não demorou muito para ter o aconchego de um doce lar.

A maioria dos móveis tinha um valor afetivo: ou eram herança de família, como as cômodas, a cadeira de balanço, o lavatório, o porta-chapéu e as cristaleiras, ou tinham sido idealizados por seu Manoel.

Tudo isso criava um ambiente propício para aquecer, aconchegar... Quando dona Teresa estava na cozinha, às voltas com os quitutes que fazia sob encomenda, até quem passava na rua tinha vontade de entrar... Dava vontade de entrar e de não sair. E, por mais que o passeio estivesse bom, voltar para casa sempre era uma delícia.

Seu Manoel vivia dizendo:

- Foi muita sorte ter trabalhado a maior parte da minha vida numa fábrica de móveis, justo eu, que gosto tanto deles.

- Por que, pai? - retrucava Joana, toda vez, pois adorava ouvir a resposta.

- Ora, minha filha, porque eles podem dar conforto para as pessoas, que precisam de uma boa cadeira para sentar, uma boa mesa para reunir a família na hora da comida, uma ótima cama para dormir, um bom sofá ou uma boa poltrona para tirar um cochilo e esquecer da vida...

- O senhor adora fazer isso, né, pai? A poltrona da sala já está com a marca do seu corpo. Nem adianta a gente querer sentar, porque não se ajeita, não se acomoda. Parece até que ela fica dizendo: ”Saia, sou do seu pai, só dele!”.

- A mesma coisa vive me dizendo sua rede, filha...

Para completar o cenário, só faltava a companhia daqueles que sempre fizeram parte da vida de Joana: os animais. Com a morte do cachorro Farofa, a família resolveu dar um tempo para se recuperar da perda. Só que esse tempo tinha se alongado um pouco mais por causa da mudança para Santo Antônio.

E eles acabaram chegando, nem foi preciso ir atrás. Chegaram juntos, no mesmo dia, um pelas mãos de seu Manoel e outro pelas mãos de Joana. Ambos em uma caixinha de papelão, magrinhos e famintos.

Pai e filha se encontraram quase na porta de casa, numa tarde chuvosa, e, quando um olhou para a caixa do outro, foi um riso só.

- Onde o senhor achou essa feiurinha, pai?

- Coitadinho, Joana, não fale assim dele. Estava abandonado dentro de uma lixeira, imagine! Ainda bem que miou mais alto quando eu passava, e o jeito foi trazê-lo comigo.

- Outra coincidência, pai! Este sarnentinho também estava no meio de um monte de sacos de lixo, o senhor acredita? E gania de um jeito que cortava o coração!

A reação de dona Teresa? Quase chorou de pena dos enjeitados!

- Vamos tratar dos dois e ficar com eles, claro. Criados juntos, desde pequenos, vão se tornar amigos.

Foi assim que Caramelo, o vira-lata que, apesar da sarna, mostrava bem forte o tom de sua cor, e Bombom, o gato magro e quase sem pêlo, mas bonzinho que ele só, passaram a ter uma família. E, cuidados com tanto amor e carinho, em pouco tempo se tornariam irreconhecíveis.

Agora, sim, o lar da família estava completo.

- Quando a vó Rosa e o vô Teo voltarem, então, a nossa vida vai ficar mais alegre e mais completa!

Os avós de Joana, pais de dona Teresa, já moravam em Santo Antônio das Rosas há algum tempo, só que estavam viajando quando eles chegaram.
3.

Um porém desafinado
Se o lar estava completo, a paz era parcial, pois Joana ainda continuava enfrentando aquele probleminha... No começo, era mais constante, depois foi rareando, mas, de repente, quando a menina pensava que a provocação tinha acabado, lá vinha a voz, mal punha os pés fora de casa...

- Joana Banana, Joana Banana, Joana Banana!

Naquela manhã, ao ouvir novamente os gritos, Joana perdeu a paciência.

- De nooooovo? Ah, não, assim já é demais! Não está dando pra agüentar! Desta vez eu descubro de onde vem essa voz! De hoje não passa!

E lá se foi ela.

- Apareça, apareça se for capaz! Apareça se for homem, sim, pois essa voz não é de mulher!

Do outro lado da rua, escondidinhos atrás de um latão de lixo...

- E agora, Maneco? Parece que a menina é brava, hein? Como é... A gente vai aparecer ou não vai?

- E por que não? Vamos descascar logo essa banana, Duda!

O jeito de falar pode ter sido firme, mas os movimentos foram meio hesitantes, primeiro um dos pés, depois a cabeça, um empurrando e cutucando o outro, até que, de corpo inteiro, ficaram cara a cara com Joana.

- Ahá! Então são dois, é? Custou, mas resolveram criar coragem, hein? Pois vocês querem me explicar direitinho essa história de Joana Banana? O que significa me chamar desse jeito, ainda mais sem me conhecer?

- Tá legal, tá legal, a gente explica. Mas só se você parar de falar desse jeito, assim, mandão. Fale, Maneco!

- Eu, não. Fale você, Duda!

- Bem, o negócio é o seguinte: a gente está com o time desfalcado faz um tempão, desde que o Zito foi embora. O Zito morava na casa onde você está morando, não é, Maneco?

- É. É isso aí que o Duda falou. A casa ficou desocupada um tempão e a gente esperando que chegasse um menino pra ser nosso ponta-esquerda.

- Isso mesmo. E, depois de esperar todo esse tempão, chega justo você, uma Joana e não um João, né, Maneco?

- É, é isso aí que o Duda falou. Será que dá pra entender agora por que a gente só podia chamar você de Joana Banana?

- Ah, então a história é essa? Pois vou mostrar pra vocês que não sou nenhuma banana, ouviram bem? Quem é o capitão desse timeco? Quero falar com ele agora mesmo!

- Peraí, peraí, Bananinha. Mais respeito com o nosso time, hein? Ele só está desfalcado, entendeu? Des-fal-ca-do!

- Tá bom, tá bom, mas cadê o capitão?

- Bem, capitão, capitão a gente não tem...

- Não? Mas que raio de time perna-de-pau é esse? Sem ponta-esquerda, sem capitão... Pelo menos tem um nome, uniforme, chuteira?

- Claro que tem nome! Espelunca Futebol Clube! E uniforme a gente também já tem, sim senhora. Completinho!

- Pois então acabo de tomar uma decisão: apesar do nome horrível, vou jogar nesse time. Meia-esquerda, ponta-esquerda, direita, goleira, qualquer coisa serve. Jogo bem em todas as posições.

- O quêêê?! Você no nosso time? Ah, essa piada foi boa, hein, Duda?

- Ótima, Maneco, ótima! Escute aqui, sua convencida... Pelo menos você já pisou em um gramado alguma vez na vida?

- Num gramado nunca. Mas já joguei muito no time do colégio onde eu estudava. Amanhã encontro vocês aqui mesmo, na frente da minha casa, de tardinha, pra gente combinar tudo, tá? E agora tenho que ir pra comprar o pó de café que minha mãe pediu.

- Ei, espere aí! Combinar o quê? Espere aí!

Mas Joana já estava longe...

- E agora, Maneco? O que é que a gente faz?

Os meninos puseram as mãos na cabeça. E foram logo procurar os outros oito.

Diante da gravidade do problema, meia hora depois já estava marcada uma reunião de emergência para o final da tarde.



4.

O plebiscito
A reunião foi realizada na sede do clube, o quintal da casa de Duda, na hora prevista: ninguém chegou atrasado!

- Como é, pessoal? O que é que a gente faz com a Joana Banana? E se ela cismar mesmo de querer jogar no nosso time? A Bananinha é fogo, vocês vão ver!

- Eu sou contra! Uma mulher num time só de homens não vai dar certo. Ainda mais que ela nunca entrou num campo de verdade!

- Eu também voto contra. Já pensaram na gozação que a gente ia ter que agüentar dos outros times?

- E que times, que times, cara, se só com dez jogadores a gente não vai poder participar de campeonato nenhum?

- Xiii, isso é verdade. Mas a gente ainda tem alguns dias para fazer nossa inscrição. Quem sabe até lá...

- Três dias para a inscrição e mais uma semana para o campeonato começar. E se a gente não treinar firme, com o time completo, pelo menos nessa semana...

- É isso aí que o Maneco falou! Como é mesmo aquela história do passarinho? É melhor um na mão do que dois voando, não é isso?

- É, é sim! É isso aí que o Duda falou!

Foi assim que Maneco, Duda, Noel, Guilherme, Beto, Benê, Tato, Alfredo, Jorgito e Julinho resolveram fazer uma votação secreta para decidir: sim ou não para Joana Banana?

Isso mesmo! Só um plebiscito poderia resolver uma questão tão controvertida.

E quem foi que venceu? Foi o sim, sim senhores! A vontade de participar do Campeonato Varzeano, mesmo correndo o risco de se tornar alvo de gozação, foi mais forte do que qualquer preconceito. Pelo menos em sete das dez cabeças que tiveram de optar.

No dia seguinte, conforme intimação de Joana, Maneco e Duda voltaram ao lugar combinado, onde a menina já os esperava, impaciente.

- E então?

- Tudo bem, Joana Banana. A gente fez uma reunião, fez até votação e resolveu deixar você entrar no time, né, Duda?

- Pois fizeram muito bem. Mesmo porque, se vocês não tivessem deixado, eu ia acabar entrando, de um jeito ou de outro, mais cedo ou mais tarde.

- Ora, deixe de história, Bananinha. Outra coisa: amanhã à tarde, lá pelas quatro horas, todo o pessoal do Espelunca vai estar esperando você na casa do Duda, para uma primeira reunião. Não é longe daqui, mas a gente pode vir buscá-la.

- Não precisa, não. É só falar o endereço que eu guardo na memória, e vou muito bem sozinha.

- Você é quem sabe...

- Só tem mais uma coisa: chega dessa história de me chamar de Joana Banana ou de Bananinha, entenderam? Chega!

- Tá legal, tá legal...

Os meninos acharam melhor não esticar mais a conversa e passaram o endereço da sede do Espelunca. Com a preocupação de decorá-lo, Joana virou as costas, sem ao menos se despedir, repetindo baixinho:

- Acácias, 51, Acácias, 51...

- Além de tudo, mal-educada essa Bananinha! E ainda fala sozinha, dá pra ouvir os resmungos daqui!

Menos mal que ela já estava longe e não pôde escutar, caso contrário não levaria o desaforo para casa...

5.

A apresentação da camisa 11
No dia seguinte, às quatro em ponto, Joana chegou à casa de Duda, onde os dez jogadores do Espelunca já esperavam por ela ansiosamente. Recebida gentilmente pela mãe do menino, Joana foi levada até o quintal da casa. Ali, sentados em bancos de madeira que aproveitavam a sombra de uma velha e generosa figueira, dez curiosos se levantaram ao mesmo tempo.

- Aqui está a Joana, meninos. Fiquem à vontade.

Silêncio absoluto! Inibição, inquietação, constrangimento... Por alguns segundos, todos perderam a fala, eram só olhos sobre a figura da nova companheira.

- Bem, se ninguém vai me apresentar, eu mesma faço isso... Aliás, seria mais confortável que a gente se sentasse, não?

- Não, quero dizer, sim... Mas espere, Joana! O Duda vai dar início à reunião, não vai?

- Cla-claro, Maneco...

Como dono da sede e capitão do time (eleito às pressas, na última hora), Duda se encarregou das apresentações e tentou conduzir a conversa da maneira mais civilizada possível, embora o tom não fosse lá muito amistoso...

- Joana, pra começar a gente queria deixar bem claro que só aceitou você no time porque não quer ficar de fora desse campeonato, de jeito nenhum!

- Tá legal, tá legal... Mas quando é que a gente começa a treinar e que campeonato é esse?

- Bem, a gente não vai ter muito tempo pra treinar. As inscrições se encerram amanhã à noite e os jogos começam uma semana depois... Quanto ao campeonato, não é bem um campeonato, é mais um torneio entre os times de várzea da cidade... O pessoal curte muito essas peladas, sabe? Mas é um torneio organizado, com a importância de um campeonato: tem regulamento e até uma taça pro vencedor.

- Bem, o que importa mesmo é que vamos ter só esses sete dias para treinar, não é isso? Pois é só combinar um horário e pronto. Vocês treinam aqui mesmo?

- Calma aí, Ba... menina! Tá pensando que as coisas são assim, tão simples? Você prefere jogar em alguma posição especial? Ou melhor, por acaso você sabe o que quer dizer posição no futebol?

- Claro que sei, seus bobos. E fiquem sabendo que jogo muito bem no ataque e melhor ainda como meia ou ponta-esquerda, pois sou canhoteira. Adoro marcar gols!

Os meninos olhavam pro céu, coçavam a cabeça, cada vez mais intrigados. Será que aquela enxerida convencida entendia mesmo alguma coisa de futebol? Ou será que estava só blefando?

Os mais exaltados estiveram a ponto de perder a paciência com a petulância de Joana.

- Escute aqui, menina! Se você não abaixar esse topete, essa crista, não vai jogar coisa nenhuma, em time nenhum! Prefiro não participar do campeonato!

- É isso aí, Noel! Tô com você e não abro!

- E eu estou com o Noel e o Beto! Já me arrependi de ter votado no sim! Não vai dar pra agüentar essa convencida!

Foi aí que o capitão resolveu entrar em cena novamente...

- Calma, Tato, calma, pessoal... E quanto a você, Joana, será que não dava pra mudar um pouco esse jeito de falar?

- Tudo bem, tudo bem... Acho que exagerei um pouco mesmo.

Finalmente o bom senso acabou prevalecendo e a reunião continuou num tom mais leve.

O que ficou combinado? Que no dia seguinte, sexta-feira, Duda faria a inscrição do time; se Joana fosse aceita - afinal, certeza, certeza, com relação a isso, eles não tinham nenhuma -, os treinamentos poderiam começar no próprio sábado, depois que fosse feito o sorteio para determinar quem jogaria contra quem e em que data e horário seriam os jogos.

Tanto a inscrição quanto o sorteio seriam feitos na casa de Tonho Trovão, um senhor de voz potentíssima, que morava perto e cuidava com esmero e carinho do campinho de várzea onde o torneio costumava se realizar, desde que ele próprio resolvera instituí-lo. Tonho, que tinha sido locutor de rádio, animador de rodeio e jogador de futebol, era uma espécie de padrinho de toda a garotada que gostava do esporte como ele. Foi esse amor que os uniu de maneira muito forte e significativa.

Na manhã da sexta-feira, acompanhado do inseparável Maneco, Duda foi até a casa dele para fazer a inscrição do Espelunca.

- Joana na ponta-esquerda? Joana?! Mas... mas eu não sei se é permitida a inclusão de mulheres no time, Duda. Isso nunca aconteceu antes!

- Isso não quer dizer nada. Por acaso o regulamento proíbe, seu Tonho?

- Bem, proibir, proibir, acho que não, mas... Esperem aí que eu vou dar uma olhada...

Depois de revirar a gaveta da mesinha onde estava trabalhando, conseguiu encontrar uma pasta verde, toda desbeiçada, com algumas folhas de papel amarelecido dentro...

Mais algum tempo para encontrar seus óculos para enxergar de perto e, uns cinco minutos depois, finalmente chegou a uma conclusão...

- No regulamento não existe nada escrito sobre isso.

- Então quebre o nosso galho aí, seu Tonho! A gente tem de participar desse campeonato, custe o que custar. É uma questão de honra! No ano passado, nosso time não entrou porque não estava completo; no retrasado, porque não tinha uniforme...

- Tudo bem, Duda, tudo bem. Vá dizendo, então, o nome completo de cada jogador.

No sábado, antes mesmo da hora marcada para o sorteio, a notícia já corria de boca em boca.

- Vocês souberam da última? O Espelunca inscreveu uma menina na ponta-esquerda! É a Joana, daquela família que está morando na casa que era do Zito.

- Essa não! Estou pagando pra ver esse torneio. Pelo jeito vai ser o mais divertido dos últimos tempos!

O sorteio foi feito na presença dos capitães dos quatro times inscritos, de alguns de seus jogadores e mais alguns curiosos. Joana estava entre eles, claro: uma jogadora das mais curiosas, que não demorou muito para ser identificada...

- Só quatro times? Mas eu pensei...

Nesse instante, todos se voltaram para ver de onde vinha aquela voz feminina e palpiteira.

- Ah, só podia ser você, sua Banana!

- Mais respeito comigo, Duda. Afinal, sou sua companheira de time.

Entre risos contidos e esboçados, soou a voz de trovão:

- Não vamos começar com indisciplina desde já! Silêncio, que eu vou anunciar o resultado do sorteio. Bem, no domingo que vem o Espelunca enfrenta o Avenida, e o Santo Antônio enfrenta o Pelada; no outro domingo, os vencedores se enfrentam para decidir o campeão e o vice; os perdedores se enfrentam também para decidir o terceiro e o quarto lugar. Agora vamos fazer outro sorteio para ver quem joga às três horas e quem joga às cinco.

Mais alguns minutos...

- Aqui está... Domingo que vem, jogam primeiro o Santo Antônio e o Pelada; no domingo seguinte, o jogo mais importante, que vai aclamar o campeão, será o segundo, claro. Alguma dúvida?

- E os juizes, seu Tonho?

- O juiz aqui sou eu, Joana Banana... Desculpe, mocinha, mas eu até que gosto deste som... Joana Banana, Jo-a-na Ba-na-na...

- Pois sabe de uma coisa? Eu também passei a gostar a partir de agora! Acho até que vou passar a assinar Joana Rosa Banana da Terra... Não, Joana Banana Rosa da Terra Carvalho!

Aí, sim, foi um riso só, incontido e uníssono! Até a autora da graça não conteve uma boa risada, o que acabou desarmando o resto do pessoal e desanuviando o ambiente. Só que, enquanto ria, Joana pensava: ”Vou mostrar a todo mundo que de banana não tenho nada!”. E a vontade de rir até aumentava!

Esse episódio só fez aumentar a curiosidade que já cercava a situação do Espelunca. Por essa razão, o time achou melhor mudar o local de treinamento e tentar manter tudo em sigilo. Para o bom andamento dos trabalhos, naquele período tão exíguo, seria fundamental evitar a intromissão dos curiosos, que queriam, a todo custo, ter uma idéia do desempenho da camisa 11.

O lugar escolhido foi o quintal da casa de seu Manoel e dona Teresa. Embora um pouco contrariados, a princípio, com a idéia de ver a filha num time de futebol masculino, os dois acabaram aceitando.

- É melhor que seja aqui, Teresa. Assim a gente pode controlar a situação.

- É, nisso você tem razão, Manoel. Mas jogar futebol num time de meninos?

- Ara, Teresa, lá vem você com essa conversa de novo...

- Você sabe que sempre sonhei em ter uma menina só pra poder enfeitar, vestir com aqueles vestidinhos cheios de babados, bem engomadinhos, laço de fita combinando, meias brancas e sapatos de verniz pretos... Ah, não sei a quem ela puxou!

- Foi a criação, Teresa, quero dizer, foi por ter sido criada praticamente no meio de homens. Nenhuma prima, só primos!

- E dos dois lados, meu Deus, que falta de sorte! Até pra boneca ela nunca ligou muito! Não me conformo! E as roupas, então? Sempre folgadas, não gostava de nada que apertasse, que incomodasse...

- É mesmo... Nossa Joaninha, desde pequena, só gosta do que é confortável.

- E você ainda ri? E os sapatos, meu Deus, que dificuldade! No verão, vivia descalça. E só concordava em pôr aqueles sapatinhos, tipo boneca, se lembra?, em alguma situação muito especial e, assim mesmo, depois de muita insistência.

- E no inverno passado, então? Você lembra que fui com ela comprar aquele par de botinas que não apertavam e esquentavam mais seus pés? Como ela ficou feliz com as botinas, Teresa, dava gosto de ver!

- É, você nunca me apoiou na tentativa de deixá-la mais feminina, mais delicada...

- Deixe de história, mulher! O importante é que a Joana é uma boa filha, geniosa, tá certo, mas obediente, nunca deu trabalho na escola e tem um coração de ouro! Deixe que ela se vista como quiser! E que seja feliz assim, do jeito que é.

- É, no fundo acho que você tem razão...

Depois dessa conversa, parece que dona Teresa se conformou. Para dizer a verdade, tanto ela quanto o marido não demoraram muito para se contagiar pelo entusiasmo da molecada.

- Duda, traga os uniformes aqui que eu vou lavando, passando e costurando alguma coisa, se precisar.

- Legal, dona Teresa, legal! Hoje mesmo eu trago tudo.

Seu Manoel, então, quem diria... Foi se entusiasmando tanto, mas tanto, que acabou se tornando técnico, preparador físico e até massagista do Espelunca!

E o time treinou o quanto pôde naquela semana que antecedeu o início do campeonato.

Como foram os treinamentos? Como Joana se comportou dentro do time? Será que ela se adaptou ao esquema tático armado pelo seu Manoel? Ah, disso ninguém ficou sabendo. Tudo foi feito no maior segredo do mundo!



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