Joana d'Arc L�on Denis �ndice Introdu��o Vida e mediunidade de Joana d'Arc. I domremy. II a situar�o em 1429 III inf�ncia de Joana d'Arc IV a mediunidade de Joana d'Arc; o que eram suas vozes



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Joana d'Arc L�on Denis �ndice Introdu��o Vida e mediunidade de Joana d'Arc. I - Domremy. II - A situar�o em 1429 III - Inf�ncia de Joana d'Arc IV - A mediunidade de Joana d'Arc; o que eram suas vozes; fen�menos an�logos, antigos e recentes V - Vaucouleurs VI - Chinon, Poitiers, Tours VII - Orle�es VIII - Remos IX - Compienha X - Ru�o; a pris�o XI - Ru�o; o processo XII - Ru�o; o supl�cio As miss�es de Joana d'Arc XIII - Joana d'Arc e a id�ia de p�tria XIV - Joana d'Arc e a id�ia de humanidade XV - Joana d'Arc e a id�ia de religi�o XVI - Joana d'Arc e o ideal c�ltico XVII - Joana d'Arc e o Espiritualismo moderno XVIII - Retrato e car�ter de Joana d'Arc XIX - G�nio militar de Joana d'Arc XX - Joana d'Arc e o s�culo XX; seus admiradores � seus detratores XXI - Joana d'Arc no estrangeiro Conclus�es Notas de Rodap� Introdu��o Nunca a mem�ria de Joana d'Arc foi objeto de controv�rsias t�o ardentes, t�o apaixonadas, como a que, desole alguns anos, se v�m levantando em torno desta grande figura do passado. Enquanto de um lado, exaltando-a sobremaneira, procuram monopoliz�-la e encerrou-lhe a personalidade no para�so cat�lico, de outro, por ora brutal com Thalamas e Henri B�renger, ora h�bil e erudita, servida por um talento sem par, com Anatole France, esfor�am-se por lhe amesquinhar o prest�gio e reduzir-lhe a miss�o �s propor��es de um simples fato epis�dico. Onde encontraremos a verdade sobre o papel de Joana d'Arc na hist�ria? A nosso ver, nem nos devaneios m�sticos dos crentes, nem t�o pouco nos argumentos terra-a-terra dos cr�ticos positivistas. Nem estes, nem aqueles parecem possuir o fio condutor, capaz de guiar-nos por entre os fatos que comp�em a trama de Mo extraordin�ria exist�ncia. Para penetrar o mist�rio de Joana d'Arc, afigura-se-nos preciso estudar, praticar longamente as ci�ncias ps�quicas, haver sondado as profundezas do mundo invis�vel, oceano de vida que nos envolve, onde emergimos todos ao nascer e onde mergulharemos pela morte. Como poderiam compreender Joana escritores cujo pensamento jamais se elevou acima do �mbito das conting�ncias terrenas, do horizonte estreito do mundo inferior e material, e que jamais consideraram as perspectivas do Al�m? De h� cinq�enta anos, um conjunto de fatos, de manifesta��es, de descobertas, projeta luz nova sobre os amplos aspectos da vida, pressentidos desde todos os tempos, mas sobre os quais s� t�nhamos at� aqui dados vagos e incertos. Gra�as a uma observa��o atenta, a uma experimenta��o met�dica dos fen�menos ps�quicos, vastos e poderosa ci�ncia pauto a pouco se constitui. O Universo nos aparece como um reservat�rio de for�as desconhecidas, de energias incalcul�veis. Um infinito vertiginoso se nos abre ao pensamento, infinito de realidades, de formas, de pot�ncias vitais, que nos escapavam aos sentidos, algumas de cujas manifesta��es j� puderam ser medidas com grande precis�o, por meio de aparelhos registradores (1). A no��o do sobrenatural se esboroa; mas, a Natureza imensa v� os limites de seus dom�nios recuarem sem cessar, e a possibilidade de uma vida org�nica invis�vel, mais rica, mais intensa do que a dos humanos, se revela, regida por majestosas leis, vida que, em muitos casos, se mistura com a nossa e a influencia para o bem ou para o mal. A maior parte dos fen�menos do passado, afirmados em nome da f�, negados em nome da raz�o, podem, doravante receber explica��o l�gica, cientifica. S�o dessa ordem os fatos extraordin�rios que matizam a exist�ncia da Virgem de Orle�es. S� o estudo de tais fatos, facilitado pelo conhecimento de fen�menos id�nticos, observados, classificados, registados em nossos dias, pode explicar-nos a natureza e a interven��o das for�as que nela e em torno dela atuavam, orientando-lhe a vida para um nobre objetivo. * Os historiadores do s�culo XIX - Michelet, Wallon, Quicherat, Henri Martin, Sim�on, Luce, Joseph Fabre, Vallet de Viriville, Lan�ry d'Arc, foram acordes em exaltar Joana, em, consider�-la uma hero�na de ,g�nio, uma esp�cie de messias nacional. Somente no s�culo XX a nota cr�tica se fez ouvir e por vezes violenta. Thalamas, professor substituto da Universidade, teria chegado a ponto de qualificar de �ribalda� a hero�na, conforme a acusa��o que lhe atiram certas folhas cat�licas? Ele se defende. Em sua obra Jeanne d'Arc; l'histoire et Ia l�gende� (Paclotc E C. editores) jamais sai dos limites de uma cr�tica honesta e cort�s. Seu ponto de vista � o dos materialistas: �N�o nos cabe a n�s, diz (p�g. 41), que consideramos o g�nio uma neurose, reprovar a Joana o ter objetivado em santas as vozes de sua pr�pria consci�ncia.� Todavia, nas confer�ncias que fez atrav�s da Fran�a, foi geralmente mais incisivo. Em t�rones (Tours), a 29 de Abril de 1905, falando sob os ausp�cios da Liga do Ensino, recordava a opini�o do professor Robin, de Cempuis, um de seus mestres, segundo quem Joana d'Arc nunca existira, n�o passando de mito a sua hist�ria. Thalamas, talvez um tanto constrangido, reconhece a realidade da vida de Joana, mas acomete as fontes em que seus panegiristas beberam. Engendra amesquinhar-lhe o papel, sem descer a injuri�-la. Nada, ou muito pouco teria ela feito de si mesma. Aos Orleaneses, por exemplo, cabe todo o m�rito de se haverem libertado. Henri B�renger e outros escritores abundaram em aprecia��es an�logas, e o pr�prio ensino oficial como que se impregnou, at� certo ponto, dessas opini�es. Nos manuais das escolas primarias, eliminaram da hist�ria de Joana tudo que trazia cor espiritualista. Neles n�o mais se amole �s suas vozes; � sempre �a voz de sua consci�ncia.� que a guia. Sens�vel a diferen�a. Anatole, em seus dois volumes, obra de arte e de intelig�ncia, n�o vai t�o longe. N�o tenta deixar de reconhecer-lhe as vis�es e as vozes. Aluno da Escola de Chartes, n�o ousa negar a evid�ncia, ante a documenta��o que lhe sobeja. Sua obra � uma reconstitui��o fiel da �poca. A fisionomia das cidades, das paisagens e dos homens do tempo, ele a pinta com m�o de mestre, com uma habilidade, urna finura de toque, que lembram Renas. Entretanto, a leitura de seu escrito nos deixa frios e desapontados. As opini�es que emite s�o �s vezes falsas, por efeito do esp�rito de partido, e, coisa mais grave, sente-se, varando-lhe a p�gina, unia ironia sutil e penetrante, que j� n�o � hist�ria. Em verdade, o juiz imparcial deve dar testemunho de que Joana, exaltada pelos cat�licos, � deprimida pelos livres pensadores, menos por �dio do que por esp�rito de contradi��o e de oposi��o aos primeiros. A hero�na, disputada por uns e outros, se torna assim urna esp�cie de joguete nas m�os dos partidos. H� excessos nas aprecia��es de ambos os lados e a verdade, como quase sempre, eq�idista dos extremos. O ponto capital da quest�o � a exist�ncia de for�as ocultas que os materialistas ignoram, de potencias invis�veis, n�o sobrenaturais e miraculosas, como pretendera, mas pertencentes a dom�nios da natureza, que ainda n�o exploraram. Da�, a impossibilidade de compreenderem a obra de Joana e os meios pelos quais lhe foi poss�vel realiz�-la. N�o souberam medir a enormidade dos obst�culos que avultavam diante da hero�na. Pobre menina de dezoito anos, filha de humildes camponeses, sem instru��o, n�o sabendo o A-B-C, diz a cr�nica, ela v� contra si a pr�pria fam�lia, a opini�o p�blica, toda a gente! Que teria feito sem a inspira��o e sem a vis�o do Al�m, que a sustentavam? Figurai essa camponesa na presen�a dos nobres do reino, das grandes damas e dos prelados. Na corte, nos acampamentos, por toda parte, simples vil�, vinda do fundo dos campos, ignorante das coisas da guerra, com seu sotaque defeituoso, cumprem-lhe afrontar os preconceitos de hierarquia e de nascimento, o orgulho de casta; depois, mais tarde, os chascos, as brutalidades dos guerreiros, habituados a desprezar a mulher, n�o podendo admitir que uma os comandasse e dirigisse. Juntai a isto a desconfian�a dos homens da Igreja, que, nessa �poca, viam em tudo que � anormal a interven��o do dem�nio; esses n�o lhe perdoar�o obrar com exclus�o deles, mau grado � autoridade que se arrogavam, e a� estar�, para ela, a causa principal de sua perda. Imaginai a curiosidade mals� de todos e particularmente dos soldados, no meio dos quais, virgem sem m�cula, tem que viver constantemente, suportando as fadigas, as penosas cavalgadas, o peso esmagador de uma armadura de ferro, dormindo no ch�o, sob a tenda, pelas longas noites do acampamento, presa dos acabrunhadores cuidados e preocupa��es de t�o �rdua tarefa. Todavia, durante sua curta carreira, vencer� todos os obst�culos e, de um povo dividido, fragmentado em mil fac��es, desmoralizado, extenuado pela fome, pela peste e por todas as mis�rias de uma guerra que dura h� perto de cem anos, far� uma na��o vitoriosa. Eis a� o que escritores de talento, mas cegos, flagelados por uma cegueira ps�quicas e morais, que � a piar das enfermidades intelectuais, procuram explicar por meios puramente materiais e terrenos. Pobres explica��es, pobres claudicastes, que n�o resistem ao exame dos fatos! Pobres almas m�opes, almas de trevas, que as luzes do Al�m deslumbram e tonteiam! E a elas que se aplica esta senten�a de um pensador: o que sabem n�o passa de um nada e, com o que ignoram, se criaria o Universo! Coisa deplor�vel: certos cr�ticos da atualidade como que experimentam a necessidade de rebaixar, de diminuir, de nulificar com frenesi tudo que � grande, tudo que paira acima de sua incapacidade moral. Onde quer que brilhe um luzeiro, ou uma chama se acenda, haveis de v�-los acorrer e derramar um dil�vio d'�gua sobre o foco luminoso. Ah! Como Joana, na ignor�ncia das coisas humanas, mas com a sua profunda vis�o ps�quica, lhes d� uma li��o magn�fica por estas palavras que dirigia aos examinadores de Poitiers e que t�o bem quadram aos c�pticos modernos, aos pretensiosos esp�ritos superiores de nosso tempo: �Leio num livro em que h� mais coisas do que nos vossos!� Aprendei a ler nele tamb�m, senhores contraditores, e a conhecer os problemas a que aquelas palavras aludem; em seguida, podereis, com um pouco mais de autoridade, falar de Joana e de sua obra. Atrav�s das grandes cenas da Hist�ria, cumpre vejais passar as almas das na��es e dos her�is. Se as souberdes amar, elas vir�o a v�s e vos inspirar�o. E' esse o arcano do g�nio da Hist�ria. � isso o que produz os escritores pujantes como Michelet, Henri Martin e outros. Esses compreenderam o g�nio das ra�as e dos tempos e o sopro do Al�m lhes perpassa nas p�ginas Os outros, Anatole France, Lav�sse e seus colaboradores s�o �ridos e frios, mau grado ao talento, porque n�o sabem, nem percebem a comunh�o eterna que fecunda a alma pela alma, comunh�o que constitui o segredo dos artistas de escol, dos pensadores e dos poetas. Sem ela, n�o h� obra imperec�vel. * Fonte abundante de inspira��o jorra do mundo invis�vel por sobre a Humanidade. Liames estreitos subsistem entre os homens e os desaparecidos. Misteriosos fios ligam todas as almas e, mesmo neste mundo, as mais sens�veis vibram ao ritmo da vida universal. Tal o caso da nossa hero�na. Pode a cr�tica atacar-lhe a mem�ria: in�teis ser�o seus esfor�os. A exist�ncia da Virgem da Lorena, como as de todos os grandes predestinados, est� burilada no granito eterno da Hist�ria, nada poderia esmaecer-lhe os tra�os. E' daquelas que mostram com a evid�ncia m�xima, por entre a onda tumultuosa dos eventos, a m�o soberana que conduz o mundo. Para lhe surpreendermos o sentido, para compreendermos a potestade que a dirige, � mister nos elevemos at� � lei superior, imanente, que preside ao destino das na��es. Mais alto do que as conting�ncias terrenas, acima da confus�o dos feitos oriundos das liberdades humanas, precisas s�o se perceba a a��o de uma vontade infal�vel, que domina as resist�ncias das vontades particulares, dos atos individuais, e sabe rematar a obra que empreende. Em vez de nos perdermos na balb�rdia dos fatos, necess�rios � lhes apreendamos o conjunto e descubramos o la�o oculto que os prende. Aparece ent�o a trama, o encadeamento deles; sua harmonia se desvenda, enquanto que suas contradi��es se apagam e fundem num vasto plano. Compreende-se para logo que existe umas energias latentes, invis�veis, que irradia sobre os seres e que, a cada um deixando certa soma de iniciativa, os envolve e arrasta para um mesmo fim. Pelo justo equil�brio da liberdade individual e da autoridade da lei suprema � que se explicam e conciliam as incoer�ncias aparentes da vida e da Hist�ria, do mesmo passo que o sentido profundo e a finalidade de dela e outra se revelam �quele que sabe penetrar a natureza �ntima das coisas. Fora desta a��o soberana, n�o haveria mais do que desordem e caos na variedade infinita dos esfor�os, dos impulsos individuais, numa palavra - em toda a obra humana. De Domremy e Remas (Remas) esta a��o se evidencia na epop�ia da Pucela. E' que at� a� � vontade dos homens se associa, em larga medida, aos fins visados l� do Alto. A partir da sagra��o, por�m, predominam a ingratid�o, a maldade, as intrigas dos cortes�os e dos eclesi�sticos, a m� vontade do rei. Segundo a express�o de Joana, aos homens se recusam a Deus�. O ego�smo, o desregramento, a rapacidade criar�o obst�culo � a��o divina servida por Joana e seus invis�veis auxiliares. A obra de liberta��o se tornar� mais incerta, in�ada de vicissitudes, de recuos e de reveses. Contudo, n�o deixar� de prosseguir, mas reclamar�, para seu acabamento, maior n�mero de anos e mais penosos labores. * �, j� o dissemos, unicamente do ponto de vista de uma ci�ncia nova, que empreendemos este trabalho. Insistimos em repeti-lo, a fim de que n�o haja equ�voco sobre nossas inten��es. Procurando lan�ar alguma luz sobre a vida de Joana d'Arc, a nenhum m�vel de interesse obedecemos, a nenhum preconceito pol�tico, ou religioso; colocamo-nos t�o longe dos anarquistas, quanto dos reacion�rios, a igual dist�ncia dos fan�ticos cegos e dos incr�dulos. E' em nome da verdade e tamb�m por amor � p�tria francesa que procuramos destacar a nobre figura da inspirada virgem, das sombras que tantos trabalham por lhe acumular em torno. Sob o pretexto de an�lise e de livre cr�tica, h�, ponderamos, em nossa �poca, uma tend�ncia profundamente lament�vel a denegrir tudo o que provoca a admira��o dos s�culos, a alterar, a conspurcar tudo o que se mostra isento de taras e de n�doas. Consideramos como um dever, que incumbe a todo homem capaz de exercer, por meio da pena ou da palavra, alguma influ�ncia '� volta de si, manter, defender, real�ar o que constitui a grandeza do nosso pa�s, todos os nobres exemplos por ele oferecidos ao mundo, todas as belas cenas que lhe enriquecem o passado e cintilam na sua hist�ria. A��o m�, quase crime, � tentar empobrecer o patrim�nio moral, a tradi��o hist�rica de um povo. Com efeito, n�o � isso que lhe d� a for�a nos momentos dif�ceis? N�o � a� que ele vai buscar os mais viris sentimentos nas horas do perigo? A tradi��o de um povo e sua hist�ria s�o a poesia de sua vida, seu consolo nas prova��es, sua esperan�a no futuro. � pelas liga��es que ela cria entre todos, que nos sentimos verdadeiramente filhos de uma mesma m�e, membros de uma p�tria comum. Assim, conv�m lembrar freq�entemente as grandes cenas da nossa hist�ria nacional e p�-la em relevo. Ela se mostra cheia de li��es brilhantes, ricas de ensinos fecundos e, por este lado, � talvez superior �s de outras na��es. Desde que exploramos os antecedentes de nossa ra�a, por toda parte, em todos os tempos, vemos erguerem-se vultosas sombras, que nas falam e exortam. Do fundo dos s�culos se elevam vozes que nos avivam not�veis recorda��es, lembran�as tais que, se estivessem presentes sempre ao nosso esp�rito, bastariam para nos inspirar, para clarear-nos a vida. Mas, o vento do cepticismo sopra e o olvido e a indiferen�a se fazem; as preocupa��es da vida material nos absorvem e acabamos por perder de vista o que h� de mais grandioso, de mais eloq�ente nos testemunhos do passado. Nenhuma, dentre essas lembran�as, mais tocante, mais gloriosa do que a da donzela, que iluminou a noite da Idade M�dia com a sua apari��o radiosa, da qual p�de Henri. Martim dizer: �Nada de semelhante ainda se produziu na Hist�ria, do mundo.� Em nome, pois, do passado, como do futuro de nossa ra�a, em nome da obra que lhe resta completar, esforcemo-nos por lhe conservar integra a heran�a e n�o hesitemos em retificar as opini�es falsas que certos escritores formularam em publica��es recentes. Trabalhemos por exaurir da alma do povo o veneno intelectual que se lhe procura inocular, a fim de guardarmos para a Fran�a a beleza e a for�a que ainda a far�o grande nas horas de perigo, a fim de restituirmos ao g�nio nacional todo o seu, prest�gio, todo o seu esplendor, ofuscados por tantas teorias malfazejas e tantos sofismas. * For�oso � reconhecer que no mundo cat�lico, melhor que algures, t�m sabido render a Joana homenagens solenes. Nos meios crentes, louvam-na e a glorificam, erigem-lhe est�bias e bas�licas. De seu lado, os republicanos livres-pensadores imaginaram, recentemente, criar em sua honra uma festa nacional, que seria ao mesmo tempo a do patriotismo. Por�m, num campo como noutro, nunca lograram compreender o verdadeiro car�ter da hero�na, entender o sentido de sua vida. Poucos h�o sabido analisar essa admir�vel figura que se al�a acima dos tempos e domina as mais elevadas concep��es da epop�ia essa figura que nos parece mais imponente � propor��o que dela nos afastamos. A hist�ria de Joana � inesgot�vel mina de ensinamentos, cuja extens�o total ainda se n�o mediu e da qual se n�o tirou ainda todo o partido desej�vel para a eleva��o das intelig�ncias, para a penetra��o das leis superiores da Alma e do Universo. H�, em sua vida, profundezas capazes de causar vertigem aos esp�ritos mal preparados; nela se deparam fatos suscet�veis de lan�ar a incerteza, a confus�o, no pensamento carecem dos dados necess�rios para resolver t�o majestoso problema. Da�, tantas discuss�es est�reis, tantas pol�micas in�teis. Mas, para aquele, que levantou o v�u do mundo invis�vel, a vida de Joana se aclara e ilumina. Tudo que essa vida cont�m se explica, se torna compreens�vel. Falo de discuss�es. Vede, com efeito, entre os que enaltecem a hero�na, quantos pontos de vista diversos, quantas aprecia��es contradit�rias! Uns buscam, antes de tudo, na sua mem�ria, uma ilustra��o para o partido a que pertencem; outros, mediante uma glorifica��o tardia, sonham aliviar certa institui��o secular das responsabilidades que lhe pesam. Contam-se ainda os que n�o querem ver nos sucessos de Joana mais do que a exalta��o do sentimento popular e patri�tico. Parece l�cito duvidar-se de que, aos elogios que sobem de todos os pontos da Fran�a � grande inspirada, n�o se mesclem muitas inten��es ego�sticas, muitos prop�sitos interesseiros. Pensa-se em Joana, � fora de d�vida; uma Joana; por�m, os que dizem querer-lhe - n�o pensar�o ao mesmo tempo em si pr�prios, ou no partido a. que se filiaram? N�o se procurar� tamb�m nessa vida augusta o que pode lisonjear os sentimentos pessoais, as opini�es pol�ticas, as ambi��es inconfess�veis? Bem poucos homens, infelizmente, sabe colocar-se acima de seus preconceitos, acima dos interesses de classe ou de casta. Ben, poucos se esfor�ar por descobrir o segredo daquela exist�ncia e, entre os que o penetraram, nenhum at� hoje, salvo casos restritos, ousou altear a voz e dizer o que sabia, o que via e percebia. Quanto a mim, se meus t�tulos s�o modestos para falar em Joana d'Arc, pelo menos um h� que reivindico ativamente: o de estar liberto de qualquer preocupa��o de partido, de todo cuidado de agradar ou desagradar. E' na liberdade plena de meu pensamento, com a minha consci�ncia independente, isento de qualquer liga��o, n�o procurando, n�o querendo em tudo sen�o a verdade, � neste estado de esp�rito que entro em t�o elevado assunto e vou buscar a chave do mist�rio que envolve t�o incompar�vel destino. PRIMEIRA PARTE Vida e mediunidade de Joana d'Arc I � DOMREMY Encantador o vale; deslumbrante, Ao vivo cintilar da luz esplendorosa, Desliza e brinca uma torrente: o Mosa. SAINT-YVES D'ALVEYDRE Filho da Lorena, nascido como Joana no vale do Mosa, tive a acalentar-me a inf�ncia as recorda��es que ela deixou no pa�s. Durante a minha mocidade, visitei ami�de os lugares onde ela vivera. Aprazia-me vagar por sob as grandes ab�badas das nossas florestas lorenas, outros tantos destro�os da antiga floresta das G�lia. Como Joana, muit�ssimas vezes prestei ouvido �s harmonias dos campos e dos bosques. Posso dizer que tamb�m conhe�o as vozes misteriosas do espa�o, as vozes que, na solid�o, inspiram o pensador e lhe revelam as verdades eternas. Homem feito, quis seguir-lhe as pegadas atrav�s da Fran�a. Refiz, quase que etapa a etapa, a dolorosa viagem. Vi o castelo de Chinon, onde Carlos VII a recebeu,reduzido hoje a ru�nas. Vi, ao fundo da Touraine, a pequenina igreja de Fierbois, donde fez que retirassem a espada de Carlos Martel; vi as grutas de Courtineau, onde buscou ref�gio durante uma tempestade; em seguida, Orle�es e Reims, Compi�gne, onde a prenderam. Em nenhum s� lugar por onde a virgem tenha passado deixei de ir meditar, orar, chorar em sil�ncio. Mais tarde, na cidade de Ru�o (Rouen), por sobre a qual adeja a sua sombra imensa, terminei a minha peregrina��o. Como os crist�os que percorrem passo a passo o caminho que leva ao Calv�rio, assim perlustrei a via dolorosa que conduzia a grande m�rtir ao supl�cio. Voltei depois a Domremy. Tornei a contemplar a humilde casinha que a viu nascer; o aposento, arejado por estreito respiradouro, cujas paredes seu corpo virginal, destinado � fogueira, ro�ou; o arm�rio r�stico, onde guardava as roupas e o s�tio onde, transportada, em �xtase, ouvia as suas vozes; finalmente, a igreja onde tantas vezes orou. Da�, pelo caminho que trepa a colina, cheguei ao lugar sagrado, onde ela gostava de cismar; vi de novo a vinha de que foi dono seu pai, a �rvore das fadas e a fonte de suaves murm�rios. Cantava o cuco no bosque pardacento; embalsamavam o ar os perfumes do espinheiro; a brisa agitava a folhagem e sussurrava um como lamento, ao fundo da balsa. A meus p�s se desdobravam as campinas risonhas, esmaltadas de flores, irrigadas pelos meandros do Mosa. Defronte, ergue-se abrupta a costa de Juliano, recorda��o da era romana e do C�sar ap�stata. Ao longe, outeiros cobertos de matas, grotas profundas se sucedem, at� ao horizonte fugidio; penetrante do�ura e serena paz dominam toda a regi�o. E' bem esse o lugar aben�oado, prop�cio �s medita��es; o lugar onde as vagas harmonias do c�u se misturam com os long�nquos e brandos rumores da terra. Oh! alma sonhadora de Joana! busco aqui as impress�es que te envolviam e as encontro v�vidas, empolgantes. Elas me enla�am o esp�rito e o enchem de pungente embriaguez. E tua vida inteira, epop�ia resplandecente, se desenrola ante o meu pensamento, como grandioso panorama, rematado por uma apoteose de chamas. Um instante viveu essa vida e o que meu cora��o sentiu nenhuma pena humana poderia descrever! . Por tr�s de mim, como forasteiro monumento, nota discordante nesta sinfonia das impress�es e das lembran�as, se ostentam a bas�lica e a escultura teatral onde Joana figura ajoelhada aos p�s de um S. Miguel e de duas imagens de santas, opulentas e douradas. S� a est�tua da virgem, rica de express�o, toca, interessa, prende o olhar. Um nome se l� gravado no soco, o de Allar. E' obra, essa, de um esp�rita. A alguma dist�ncia de Domremy, sobre um morro escarpado, em meio dos bosques, se oculta a modesta capela de Bermont. Joana a� vinha todas as semanas; seguia a vereda que, de Greux, se estira por sobre o planalto, se some por baixo das copas do arvoredo e passa perto da fonte de S�o Thi�bault. Galgava a colina para se ajoelhar diante da antiga madona, cuja imagem, do s�culo VIII, ainda se venera em nossos dias. Caminhei pensativo, recolhido, por essa pitoresca vereda e atravessei os copados bosques onde-os p�ssaros gorjeiam. Toda a regi�o est� prenhe de lembran�as c�lticas ; l� erigiram nossos pais um altar de pedra. Aquelas fontes sagradas, aquelas austeras sombras da folhagem oram testemunhas das cerim�nias do culto dru�dico. A alma da G�lia vive e palpita em tais lugares. Sem d�vida essa alma falava ao cora��o de Joana d'Arc, como fala ainda hoje ao cora��o dos patriotas e dos crentes esclarecidos. Levei meus passos mais longe; quis ver, nos arredores, tudo o que participara da vida de Joana, tudo o que no-la traz � mem�ria: Vouthon, onde nascera sua m�e, e a pequena aldeia de Burey-la-C�te, que ainda guarda a casa onde morava seu tio Durant Laxart, que lhe facilitou o cumprimento da miss�o, levando-a a presen�a do Senhor de Baudricourt, em Vaucouleurs. A humilde habita��o se mant�m de p�, com os escudos de flores de lis, que lhe decoram o limiar, por�m, transformada em est�bulo. Uma simples corrente lhe segura a porta; abro-a e, a meus olhos, um cabrito, encolhido � sombra, faz ouvir sua voz fanhosa e plangente. Errei em todos os sentidos por aquelas redondezas, embriagando-me com a contempla��o dos s�tios que serviram de quadro � inf�ncia de Joana. Percorri os apertados vales que ladeiam o Mosa, cavados por entre matas sombrias. Meditei na solid�o, � noitinha, � hora em que canta o rouxinol, quando as estrelas se acendem na amplid�o dos c�us. Dava aten��o a todos os ru�dos, a todas as vozes misteriosas da Natureza. Sentia-me, em tais s�tios, longe do homem; um mundo invis�vel me rodeava. A prece, ent�o, irrompeu das profundezas de meu ser; depois, evoquei o Esp�rito de Joana e logo percebi o amparo e a do�ura de sua presen�a. O ar tremia; tudo � volta de mim parecia iluminar-se; impercept�veis asas rufiavam na escurid�o; desconhecida melodia, baixada dos espa�os, embalava-me os sentidos e me fazia correr o pranto. E o Anjo da Fran�a ditou-me palavras que, conforme a sua ordem, reproduzo aqui piedosamente: Mensagem de Joana Tua alma se eleva e sente neste instante a prote��o que Deus lan�a sobre ti. Comigo, que a tua coragem aumente, e, patriota sincera, ames e desejes ser �til a esta Fran�a t�o querida, que, do Alto, como Protetora, como M�e, contemplo sempre com felicidade. N�o sentes em ti nascerem pensamentos de suave indulg�ncia? Junto de Deus aprendi a perdoar mas, esses pensamentos n�o devem fazer com que, em mim, nas�a � fraqueza, e, divino dom! encontro em meu cora��o for�a bastante para procurar esclarecer, �s vezes, aqueles que, por orgulho, me querem monopolizar a mem�ria. E quando, cheia de indulg�ncia, pe�o para eles as luzes do Criador, do Pai, sinto que Deus me diz: Protege, inspira, por�m jamais fa�as fus�o com os teus algozes. Os padres, recordando teu devotamento � p�tria, n�o devem pedir sen�o perd�o para aqueles cuja sucess�o tomaram. Crist� piedosa e sincera na Terra, sinto no Espa�o os mesmos arroubos, o mesmo desejo de ora��o, mas quero minha mem�ria livre e desprendida de todo c�lculo; n�o dou meu cora��o, em lembran�a, sen�o aos que em mim n�o v�em mais do que a humilde e devota filha de Deus, amando a todos os que vivem nessa terra de Fran�a, aos quais procuro inspirar sentimentos de amor, de retid�o e de energia. II - A SITUA��O EM 1429 Jazia a Fran�a como em t�mulo encerrada! Do seu grande esplendor restava quase nada; Chorosa urna - o Loire, a serpear no Oeste; E o Dauphin�, qual sombra, a Leste. SAINT-YVES D'ALVEYDRE Qual a situa��o da Fran�a no s�culo XV, no momento em que Joana d'Arc vai aparecer na cena da Hist�ria? A luta contra a Inglaterra dura h� perto de cem anos. Em quatro derrotas sucessivas, a nobreza francesa fora esmagada, quase aniquilada. De Cr�cy a Poitiers e dos Campos de Azincourt aos de Verneuil, nossa cavalaria juncou de mortos o solo. O que dela resta est� dividido em partidos rivais, cujas querelas intestinas enfraquecem e acabrunham a Fran�a. O duque d'Orle�es � assassinado pelos lacaios do duque de Bourgogne, que, pouco mais tarde, � morto pelos Armagnacs. Tudo isto ocorre �s vistas do inimigo, que avan�a passo a passo e invade as prov�ncias do Norte, sendo que j�, de muito tempo, ocupa a Guiena. Depois de encarni�ada resist�ncia, no curso de um cerco que excede em horror a tudo quanto � imagina��o possa engendrar de l�gubre, Rouen teve que capitular. Paris, cuja popula��o � dizimada pelas epidemias e pela fome, est� nas m�os dos Ingleses. O Loire os v� nas suas margens. Orle�es, cuja ocupa��o entregaria ao estrangeiro o cora��o da Fran�a, resiste ainda; mas, por quanto tempo o far�? Vastas superf�cies do pa�s se encontram mudadas em desertos; as aldeias abandonadas. S� se v�em sar�as e cardos brotando livremente das ru�nas enegrecidas pelo inc�ndio; por toda � parte os sinais das devasta��es da guerra, a desola��o e a morte. Os camponeses, desesperados, se ocultam em subterr�neos, outros se refugiam nas ilhas do L�ger (Loire), ou procuram abrigo nas cidades, onde morrem famintos. Muitas vezes, tentando escapar � soldadesca, os desgra�ados emigram para os bosques, se agrupam em hordas e logo se tornam t�o cru�is como os bandidos, a cuja sanha fugiram. Os lobos rondam as cercanias das cidades, nelas penetram � noite e devoram os cad�veres deixados insepultos. Tal �a grande l�stima em que se encontra a terra de Fran�a�, como � Joana dizem suas vozes. O pobre Carlos VI, em sua dem�ncia, assinou o tratado de Troyes, que lhe deserda o filho e constitui Henrique de Inglaterra herdeiro de sua coroa. Enquanto, na Bas�lica de Saint-Denis, junto ao esquife do rei louco, um arauto proclama Henrique de Lencastre rei da Fran�a e da Inglaterra, os restos dos nossos monarcas, sob as pesadas l�pides de seus t�mulos, certo fremiram de vergonha e de dor. O delfim Carlos, despojado e chamado por irris�o �o rei de Burges (Bourges) �, se entrega ao des�nimo e � in�rcia. Faltam-lhe engenho e valor. Cuida de ganhar a Esc�cia ou Castela, renunciando ao trono, ao qual pensa n�o ter talvez direito, pois que o assaltam d�vidas sobre a legitimidade do seu nascimento. E n�o se ouve sen�o a queixa lamentosa, o grito de agonia de um povo, cujos vencedores se aprestam para enterr�-lo num sepulcro. A Fran�a se sente perdida, ferida no cora��o. Ainda alguns reveses, e mergulhar� no grande sil�ncio da morte. Que socorro se poderia, com efeito, esperar? Nenhum poder da Terra � capaz de realizar este prod�gio: a ressurrei��o de um povo que se abandona. H�, por�m, outro poder, invis�vel, que vela pelo destino das na��es. No momento em que tudo parece abismar-se, ele far� surgir do seio das multid�es a assist�ncia redentora. Certos press�gios parecem anunciar-lhe a vinda. J�, entre outros sinais, uma vision�ria, Maria d'Avignon, se apresentara ao rei; vira em seus �xtases, dizia, uma armadura que o c�u reservava para uma jovem destinada a salvar o reino (2). Por toda a parte se falava da antiga profecia de Merlin, anunciando uma virgem libertadora, que sairia de Bois Chesnu (3). E como um raio de luz, vindo do alto, em meio dessa noite de luto e de mis�ria, apareceu Joana. Escutai, escutai! Do extremo dos campos e das florestas da Lorena ressoou o galope de seu cavalo. Ela acorre; vai reanimar este povo desesperado, reerguer-lhe a coragem abatida, dirigir a resist�ncia, salvar da morte a Fran�a. III - INFANCIA DE JOANA D'ARC Ao som plangente do Ave-Maria, Vibra a mem�ria sua e do C�u irradia! SAINT-YVES D'ALVEYDRE Ao p� das colinas que bordam o Mosa, algumas choupanas se grupam em volta de modesta igreja; para cima e para baixo, verdes campinas se estendem, que o riozinho de l�mpidas �guas rega. Ao longo das vertentes, sucedem-se planta��es e vinhedos, at� � floresta profunda, que se eleva qual muralha em frente dos outeiros, floresta cheia de murm�rios misteriosos e de gorjeios de p�ssaros, donde surgem por vezes, de improviso, os lobos, terror dos rebanhos, ou os homens de guerra, saqueando e devastando, mais perigosos que as feras. E' Domremy, aldeia ignorada at� ent�o, mas que, pela crian�a a cujo nascimento assistiu em 1412, se vai tornar c�lebre no mundo inteiro. Lembrar a hist�ria dessa crian�a, dessa donzela, constitui ainda o melhor meio de refutar os argumentos de seus detratores. E' o que, antes de tudo, faremos, apegando-nos de prefer�ncia �s circunst�ncias, aos fatos que h�o permanecido na obscuridade, alguns dos quais nos foram revelados por via medi�nica. Numerosas obras, primores da ci�ncia e de erudi��o, se t�m escrito sobre a virgem de Lorena. Longe de mim a pretens�o de igual�-las. Este livro se distingue de tais obras por um tra�o caracter�stico; ilumina-o, aqui e ali, o pensamento da hero�na. Gra�as �s mensagens obtidas dela, em condi��es satisfat�rias de autenticidade, mensagens que se encontram sobretudo na segunda parte do volume, ele se torna como que um eco de sua pr�pria voz e das vozes do Espa�o. � por semelhante t�tulo que se recomenda a aten��o do leitor. * Joana n�o descendia de alta linhagem; filha de pobres lavradores, fiava a l� junto de sua m�e, ou guardava o seu rebanho nas veigas do Mosa, quando n�o acompanhava o pai na charrua (4). N�o sabia ler nem escrever (5); ignorava todas as coisas da guerra. Era uma boa e meiga crian�a, amada por todos, especialmente pelos pobres, pelos desgra�ados, aos quais nunca deixava de socorrer e consolar. Contam-se, a este respeito, anedotas tocantes. Cedia de boamente a cama a qualquer peregrino fatigado e passava a noite sobre um feixe de palha, a fim de proporcionar descanso a anci�es extenuados por longas caminhadas. Cuidava dos enfermos, como por exemplo, do pequeno Simon Musnier, seu vizinho, que ardia em febre; instalando-se-lhe � cabeceira, velava-lhe o sono. Cismadora, gostava, � noite, de contemplar o c�u rutilante de estrelas, ou, ent�o, de acompanhar, de dia, as grada��es da luz e das sombras. O sussurrar do vento nas ramagens ou nos arbustos, o rumorejo das fontes, todas as harmonias da Natureza a encantavam. Mas, a tudo isso, preferia o toque dos sinos. Era-lhe como que uma sauda��o do C�u a Terra. E qualquer que fosse o acidente do terreno onde seu rebanho se abrigasse, l� lhes ela ouvia as notas argentinas, as vibra��es calmas e lentas, anunciando o momento do regresso, e mergulhava numa esp�cie de �xtase, numa longa prece, em que punha toda a sua alma, �vida das coisas divinas. Mau grado � pobreza, achava meio de dar ao sineiro da aldeia alguma gratifica��o para que prolongasse, al�m dos limites habituais, a can��o de seus sinos (6). Penetrada da intui��o de que sua vinda ao mundo tivera um fim elevado, afundava-se, pelo pensamento, nas profundezas do Invis�vel, para discernir o caminho por onde deveria enveredar. �Ela se buscava a si mesma�, diz Henri Martin (7). Ao passo que, entre seus companheiros de exist�ncia, tantas almas se mant�m fechadas e, por assim dizer, extintas na pris�o carnal, todo o seu ser se abre �s altas influ�ncias. Durante o sono, seu Esp�rito, liberto dos la�os materiais, se libra no espa�o et�reo; percebe-lhe as intensas claridades, retempera-se nas possantes correntes de vida e de amor que a� reinam, e, ao despertar, conserva a intui��o das coisas entrevistas. Assim, pouco a pouco, por meio desses exerc�cios, suas faculdades ps�quicas despertam e crescem. Bem cedo v�o entrar em a��o. No entanto, estas impress�es, estes cismares n�o lhe alteravam o amor ao trabalho. Ass�dua em sua tarefa, nada desprezava para satisfazer aos pais e a todos aqueles com quem lidava. �Viva o trabalho!� dir� mais tarde, afirmando assim que o trabalho � o melhor amigo do homem, seu amparo, seu conselheiro na vida, seu consolador na prova��o e que n�o h� verdadeira felicidade sem ele. �Viva o trabalho!� � a divisa que sua fam�lia adotar� e mandar� inscrever-lhe no bras�o, quando o rei a houver feito nobre. At� nas insignificantes min�cias da exist�ncia de Joana se manifestam um sentimento muito vivo do dever, um ju�zo seguro, uma clara vis�o das coisas, qualidades que a tornam superior aos que a cercam. J� se reconhece ali uma alma extraordin�ria, uma dessas almas apaixonadas e profundas, que descem a Terra para desempenhar elevada miss�o. Misteriosa influ�ncia a envolve. Vozes lhe falam aos ouvidos e ao cora��o; seres invis�veis a inspiram, dirigem-lhe todos os atos, todos os passos. E eis que essas vozes comandam. Ordens superiores se fazem ouvir. E lhe preciso renunciar � vida tranq�ila. Pobre menina de dezessete anos, dever� afrontar o tumulto dos acampamentos! E em que �poca! Numa �poca b�rbara em que, quase sempre, os soldados s�o bandidos. Deixar� tudo: sua aldeia, seus pais, seu rebanho, tudo o que amava, para correr em socorro da Fran�a que agoniza. A boa gente de Vaucouleurs que se apiada de sua morte, que responder�? A Foi para isto que nasci! * A primeira vis�o se lhe produziu num dia de ver�o, ao meio-dia. O c�u era sem nuvens e o Sol derramava sobre a Terra modorrenta todos os encantos de sua luz. Joana orava no jardim cont�guo � casa de seu pai, perto da igreja. Escutou uma voz que lhe dizia: �Joana, filha de Deus, s� boa e cordata, freq�enta a igreja (8), p�e tua confian�a no Senhor� (9). Ficou at�nita; mas, levantando o olhar, viu, dentro de ofuscante claridade, uma figura Ang�lica, que exprimia ao mesmo tempo a for�a e a do�ura e se mostrava cercada de outras formas radiantes. Doutra vez, o Esp�rito, o arcanjo S. Miguel, e as santas que o acompanhavam, falam da situa��o do pa�s e lhe revelam a miss�o. �E' preciso que v�s a socorro do delfim, para que, por teu interm�dio, ele recobre o seu reino� (10). Joana a princ�pio se escusa: �Sou uma pobre rapariga, que n�o sabe cavalgar, nem guerrear!� �Filha de Deus, vai, serei teu amparo�, responde a voz. Pouco a pouco seus col�quios com os Esp�ritos se tornavam mais freq�entes; n�o eram, por�m, de longa dura��o. Os conselhos do Alto s�o sempre breves, concisos, luminosos. � o que ressalta de suas respostas nos interrogat�rios de Rouen. �Que doutrina te revelou S�o Miguel?� perguntam-lhe. �Sobre todas as coisas, dizia-me: �S� d�cil e Deus te ajudar� ...� (11) Isto � simples e sublime ao mesmo tempo e resume toda a lei da vida. Os Esp�ritos elevados n�o se comprazem nos longos discursos. Ainda hoje, os que podem comunicar com os planos superiores do Al�m n�o recebem mais do que instru��es curtas, profundas e marcadas com o cunho de alta sabedoria. E Joana acrescenta: �S. Miguel me ensinou a bem proceder e a freq�entar a Igreja.� Com efeito, para toda alma que aspira ao bem, a inteireza nos atos, o reconhecimento e a prece s�o as condi��es primeiras de uma exist�ncia reta e pura. Um dia S. Miguel lhe diz: �Filha de Deus, tu conduzir�s o delfim a Reims, a fim de que receba a� sua digna sagra��o� (12). Santa Catarina e Santa Margarida lhe repetiam sem cessar: �Vai, vai, n�s te ajudaremos!� Estabelecem-se, ent�o, entre a virgem e seus guias, estreitas rela��es. No seio de seus �irm�os do para�so�, vai ela cobrar o �nimo necess�rio para levar a termo sua obra, da qual est� inteiramente compenetrada. A Fran�a a espera, � preciso partir! Aos primeiros albores de um dia de Inverno Joana se levanta e, j� tendo preparado a ligeira bagagem, um embrulhozinho e o bast�o de viagem, vem ajoelhar-se ao p� do leito em que ainda repousam seu pai e sua m�e e, silenciosa, murmura em prantos um adeus. Recorda, nesse momento doloroso, as inquieta��es, as car�cias, os desvelos da m�e, os cuidados do pai, cuja fronte a idade j� curva. Pensa, no v�cuo que a sua partida abrir�, na amargura de todos aqueles com quem at� ali partilhara vida, alegrias e dores. Mas, o dever ordena: n�o faltar� � sua tarefa. Adeus, pobres pais! adeus, tu que te encheste de tantos desassossegos por teres visto, em sonho, tua filha na companhia de gentes de guerra! (13) Ela n�o proceder� conforme as tuas apreens�es, pois que � pura, pura como o l�rio sem m�cula; seu cora��o s� conhece um amor: o de seu pa�s. �Adeus, vou a Vaucouleurs�, diz ao passar pela casa do lavrador Gerard, cuja fam�lia era ligada � sua. �Adeus, Mengette�, disse a uma de suas companheiras. �Adeus, v�s todos com quem convivi at� hoje.� Houve, entretanto, uma amiga, de quem evitou despedir-se: a sua querida Hauviette. Os adeuses, por demasiado comoventes, a abalariam talvez e ela precisava de toda a coragem (14). Joana partiu em dire��o a Burei, onde habitava um de seus tios, para l� ganhar Vaucouleurs e a Fran�a. Aos dezessete anos, partiu sozinha debaixo do c�u imenso, por uma estrada semeada de perigos. E Domremy nunca mais tornou a v�-la. IV - A MEDIUNIDADE DE JOANA D'ARC; O QUE ERAM SUAS VOZES; FEN�MENOS ANALOGOS, ANTIGOS E RECENTES De p�, banhada em pranto, escuta atentamente Alguma voz do c�u, dolente. PAUL ALLARD Os fen�menos de vis�o, de audi��o, de premoni��o, que pontilham a vida de Joana d'Arc, deram lugar �s mais diversas interpreta��es. Entre os historiadores, uns n�o viram neles mais do que casos de alucina��o; outros chegaram a falar de histeria ou neurose. Alguns lhe atribu�ram car�ter sobrenatural e miraculoso. O fim capital desta obra � analisar tais fen�menos, demonstrar que s�o reais, que obedecem a leis por muito tempo ignoradas, mas cuja exist�ncia se revela cada dia de modo mais imponente e mais preciso. � medida que se dilata o conhecimento do Universo e do ser, a no��o do sobrenatural recua e se apaga. Sabe-se hoje que a Natureza � una; por�m, que na sua imensidade encerra dom�nios, formas de vida, que durante largo tempo nos escaparam aos sentidos. Sendo estes, como s�o, extremamente limitados, n�o nos deixam perceber sen�o as faces mais grosseiras e elementares do Universo e da vida. Sua pobreza e insufici�ncia se manifestaram sobretudo quando foi do invento dos poderosos instrumentos de �tica, o telesc�pio e o microsc�pio, que alargaram em todas as dire��es o campo de nossas percep��es visuais. Que sab�amos dos infinitamente pequenos, antes da constru��o dos aparelhos de aumento? Que sab�amos das in�meras exist�ncias, que pululam e se agitam em derredor de n�s e em n�s mesmos? Entretanto, isso constitui apenas os baixos da Natureza e, por assim dizer, o substrato da vida. Para o alto se sucedem e escalonam planos sobre os quais se graduam exist�ncias cada vez mais sutis, et�reas, inteligentes, com um car�ter ainda humano; depois, em certas alturas, ang�lico, pertencentes sempre, pelo exterior, sen�o pela ess�ncia, aos estados imponder�veis da mat�ria, estados que, sob muitos aspectos, a Ci�ncia hoje reconhece, como, por exemplo, na radioatividade dos corpos, nos raios de Roentgen, em todo o conjunto das experi�ncias realizadas sobre a mat�ria radiante. Al�m dos que, vis�veis e tang�veis, nos s�o familiares, sabemos agora que a mat�ria tamb�m comporta m�ltiplos e v�rios estados invis�veis e impalp�veis, que ela. Pouco a pouco se apura, se transforma em for�a e luz, para tornar-se o �ter c�smico dos f�sicos. Em todos esses estados, sob todos esses aspectos, continua sendo a subst�ncia em que se tecem in�meros organismos, formas de viver de uma inimagin�vel tenuidade. Num largo oceano de mat�ria sutil, intensa vida palpita por sobre e em torno de n�s. Para l� do circulo apertado das nossas sensa��es, cavam-se abismos, desdobra-se um vasto mundo desconhecido, povoado de for�as e de seres que n�o percebemos, por�m que, todavia, participam de nossa exist�ncia, de nossas alegrias e sofrimentos e que, dentro de determinados limites, nos podem influenciar e socorrer. Nesse mundo incomensur�vel � que uma nova ci�ncia se esfor�a por penetrar. Numa confer�ncia que fez, h� anos, no Instituto Geral Polit�cnico, o Doutor Duclaux, diretor do Instituto Pasteur, se exprimia nos seguintes termos: �Esse mundo, povoado de influ�ncias que experimentamos sem as conhecer, penetrado de um quiri divinum que adivinhamos sem lhe percebermos as min�cias, � mais interessante do que este em que at� agora se confinou o nosso pensamento. Tratemos de abri-lo �s nossas pesquisas: h� nele, por fazerem-se, infind�veis descobertas, que aproveitar�o � Humanidade.� Oh! maravilha! n�s mesmos pertencemos, por uma parte do nosso ser, a mais importante, a esse mundo invis�vel que dia a dia se desvenda aos observadores atentos. Existe em todo ser humano uma forma flu�dica, um corpo impercept�vel, indestrut�vel, imagem fiel do corpo f�sico, do qual este �ltimo � apenas o revestimento transit�rio, � estojo grosseiro, dispondo de sentidos pr�prios, mais poderosos do que os do inv�lucro material, que n�o passam de enfraquecido prolongamento dos primeiros (15). No corpo flu�dico est� a verdadeira sede das nossas faculdades, da nossa consci�ncia, do que os crentes de todas as eras chamaram alma. A alma n�o � uma entidade metaf�sica, mas, sim, um centro imperec�vel de for�a e de vida, insepar�vel de sua forma sutil�ssimo. Preexistia ao nosso nascimento e a morte carece de a��o sobre ela. Vem a encontrar-se, al�m-t�mulo, na plenitude das suas aquisi��es intelectuais e morais. Tem por destino continuar, atrav�s do tempo e do espa�o, a evolver para estados sempre melhores, sempre mais iluminados pela luz da justi�a, da verdade, da beleza eterna. O ser, indefinidamente perfect�vel, colhe aumentado, quando no estado ps�quico, o fruto dos trabalhos, dos sacrif�cios, e das prova��es de todas as suas exist�ncias Os que viveram entre n�s e continuam sua evolu��o no Espa�o n�o se desinteressam dos nossos sofrimentos e das nossas l�grimas. Dos paramos superiores da vida universal manam de cont�nuo sobre a Terra correntes de for�a e de inspira��o. V�m da� as centelhas inesperadas do g�nio, os fortes sopros que passam sobre as multid�es, nos momentos decisivos; da� tamb�m o amparo e o conforto para os que vergam ao peso do fardo da exist�ncia. Misterioso la�o une o vis�vel ao invis�vel. Rela��es de diversas ordens se podem estabelecer com o Al�m, mediante o aux�lio de certas pessoas especialmente dotadas, nas quais os sentidos profundos, que jazem adormecidos em todo ser humano, s�o capazes de despertar e entrar em a��o desde a vida terrena. A esses auxiliares � que damos o nome de - m�diuns (16). * No tempo de Joana d'Arc estas coisas n�o eram compreens�veis. As no��es sobre o Universo e sobre a verdadeira natureza do ser permaneciam ainda confusas e, em muitos pontos, incompletas, ou err�neas. Entretanto, marchando, h� s�culos, de conquista em conquista, mau grado �s suas hesita��es e incertezas, o esp�rito humano j� hoje come�a a levantar o v�o. O pensamento do homem se eleva, acabamos de v�-lo, acima do mundo f�sico, e mergulha nas vastas regi�es do mundo ps�quico, onde principia a entrever o segredo das coisas, a chave de todos os mist�rios, a solu��o dos grandes problemas da vida, da morte e do destino. N�o esquecemos ainda os motejos de que estes estudos foram, a princ�pio, objeto, nem as cr�ticas acerbas que ferem os que, corajosamente, perseveram em semelhantes pesquisas, em manter rela��es com o invis�vel. Mas, n�o chasquearam tamb�m, at� no seio das sociedades s�bias, de muitas descobertas que, mais tarde, se impuseram como outras tantas refulgentes verdades? O mesmo se dar� com a exist�ncia dos Esp�ritos. Um ap�s outro, os homens de ci�ncia s�o obrigados a admiti-la e, freq�entemente, por efeito de experi�ncias destinadas a demonstrar o seu nenhum fundamento. Sir W. Crookes, o c�lebre qu�mico ingl�s, que pelos seus compatriotas � igualado a Newton, pertence a esse n�mero. Citemos tamb�m Russell Wallace e O. Lodge; Lombroso, na It�lia; os doutores Paul Gibier e Dariex, na Fran�a; na R�ssia, o Conselheiro de Estado Aksakof; na Alemanha, o bar�o du Prel e o astr�nomo Z�llner (17). Todo homem s�rio, que se conserva � igual dist�ncia de uma credulidade cega e de uma n�o menos cega incredulidade, � for�ado a reconhecer que as manifesta��es de que aqui se trata ocorreram em todos os tempos. Encontra-las-eis em todas as p�ginas da Hist�ria, nos livros sagrados de todos os povos, assim entre os videntes da �ndia, do Egito, da Gr�cia e de Roma, como entre os m�diuns de nossos dias. Os profetas da Jud�ia, os ap�stolos crist�os, as druidisas da G�lia, os inspirados das C�vicas, na �poca dos Camisardos, tiram suas revela��es da mesma fonte que a nossa boa lorena. A mediunidade sempre existiu, pois que o homem sempre foi esp�rito e, como esp�rito, manteve em todas as �pocas uma brecha aberta sobre o mundo inacess�vel aos nossos sentidos ordin�rios. Constantes, permanentes, tais manifesta��es em todos os meios se d�o e sob todas as formas, das mais comuns �s mais grosseiras, como as das mesas falantes, dos transportes de objetos sem contacto, das casas assombradas, at� as mais delicadas e sublimes, com o �xtase ou as altas inspira��es, tudo conforme a eleva��o das intelig�ncias que interv�m. Entremos agora no estudo dos fen�menos que, em avultado n�mero, a vida de Joana d'Arc nos depara. Conv�m primeiramente notar: gra�as �s suas faculdades ps�quicas extraordin�rias � que ela p�de conquistar r�pido ascendente sobre o ex�rcito e o povo. Consideravam-na um ser dotado de poderes sobrenaturais. O ex�rcito n�o passava de um agregado de aventureiros, de vagabundos movidos pela gana da pilhagem. Todos os v�cios reinavam naquelas tropas sem disciplina e prontas sempre a debandar. No meio de soldados assim, sem contin�ncia, sem vergonha, � que cumpria a uma jovem de dezoito anos viver. De tais brutos, que n�o respeitavam sequer o nome de Deus (18), tinha ela que fazer crentes, homens dispostos a sacrificar tudo por uma nobre e santa causa. Joana soube praticar esse milagre. Acolheram-na a principio como intrigante, como uma dessas mulheres que os ex�rcitos levam na cauda. Mas, sua linguagem inspirada, seus costumes austeros, sua sobriedade e os prod�gios que se operaram logo em torno dela, a impuseram bem depressa �quelas imagina��es gastas. O ex�rcito e o povo se viam, assim, tentados a encar�-la como uma esp�cie de fada, de feiticeira e lhe davam os nomes dessas formas fant�sticas a que atribuem o assombramento das fontes e dos bosques. O desempenho de sua tarefa n�o se tornava com isso sen�o mais dif�cil. Era-lhe preciso fazer-se ao mesmo tempo respeitada e amada como chefe; obrigar, pelo ascendente, aqueles mercen�rios a verem na sua pessoa uma imagem da Fran�a, da p�tria que ela queria constituir. Pelas predi��es realizadas, pelos acontecimentos verificados, conseguiu inspirar-lhes absoluta confian�a. Chegaram quase a diviniz�-la. Sua presen�a era tida como garantia de bom �xito, s�mbolo da interven��o celeste. Admirando-a, devotando-se-lhe, mais fi�is se lhe tornaram do que o rei e os nobres. Ao divisarem-na, sopitavam os pensamentos e sentimentos mal�volos e nos seus cora��es se acendiam os da venera��o. Todos a consideravam um ser sobre-humano, segundo o testemunho de seu intendente, Jean d'Aulon, no processo (19). O conde Guy de Laval escrevia � sua m�e, em 8 de junho de 1429, depois de t�-la visto em Salles-sur-Cher, na companhia do rei: �� coisa toda divina v�-la e ouvi-la� (20). Sem assist�ncia alguma oculta, como � que uma simples rapariga dos campos houvera podido adquirir tal prest�gio, alcan�ar tais resultados? O que soubera a respeito da guerra na sua meninice: os constantes sobressaltos dos camp�nios, a destrui��o das aldeias, os lamentos dos feridos e dos moribundos, o rubro crepitar dos inc�ndios, tudo isso fora antes de molde a afast�-la da profiss�o das armas. Era, por�m, a escolhida do Alto para levantar a Fran�a de sua queda e incutir a no��o de p�tria em todas as almas. Para atingir esse escopo, maravilhosas faculdades e socorros poderosos lhe foram outorgados. * Examinemos de mais perto a natureza e o alcance das faculdades medi�nicas de Joana. H�, em primeiro lugar, as vozes misteriosas que ouvia, tanto no sil�ncio dos bosques, como no tumulto dos combates, no fundo da masmorra e at� diante dos ju�zes, vozes freq�entemente acompanhadas de apari��es, conforme ela pr�pria o diz, no curso do processo, em doze interrogat�rios diferentes. Depois, h� os numerosos casos de premoni��o, isto �, as profecias realizadas, an�ncio dos acontecimentos vindouros. Antes de tudo: s�o aut�nticos estes fatos? Nenhuma d�vida � poss�vel. Os textos, os depoimentos a� est�o copiosos; as cartas, as cr�nicas abundam (21). Existe, sobretudo, o processo de Rouen, cujas pe�as, redigidas pelos inimigos da acusada, d�o a seu favor testemunhos ainda mais fortes do que os do processo de reabilita��o. Neste �ltimo, os mesmos fatos s�o atestados sob juramento pelos conhecedores de sua vida, depondo perante os inquisidores, ou em presen�a do tribunal (22). Acima, por�m, dos testemunhos, colocaremos a opini�o de um contempor�neo, que os resume todos e cuja autoridade � grande. Queremos falar de Quicherat, diretor da Escola de Chartes. N�o era um m�stico, um iluminado; mas, homem grave e frio, eminente cr�tico de Hist�ria, que se entregou a uma pesquisa aprofundada, toda de erudi��o, a um exame escrupuloso da vida de Joana d'Arc. Eis aqui a sua aprecia��o (23): �Aproveita ou n�o � Ci�ncia, imposs�vel � deixar de admitir-lhe as vis�es.� Acrescentarei: � ci�ncia nova aproveitar�, pois todos esses fen�menos, considerados outrora miraculosos, se explicam hoje pelas leis da mediunidade. Joana era ignorante: por �nicos livros tivera a Natureza e o firmamento estrelado. A Pedro de Versailles, que a interroga em Poitiers sobre o grau de sua instru��o, responde: �N�o sei o ABC.� Muitos o afirmam no processo de reabilita��o (24). Entretanto, realizou maravilhosa obra, como igual mulher alguma jamais empreendeu. Para lev�-la a bom termo, por� em jogo aptid�es e qualidades raras. Iletrada, confundir� e convencer� os doutores de Poitiers. Por seu g�nio militar e pela habilidade dos seus planos, adquirir� pronta influ�ncia sobre os chefes do ex�rcito e os soldados. Em Ru�o, far� frente a sessenta eruditos, casu�stas destros em sutilezas jur�dicas e teol�gicas; frustrar-lhes-� as ciladas e lhes responder� a todas as obje��es. Mais de uma vez os deixar� embara�ados pelo poder de suas r�plicas, r�pidas como rel�mpagos, penetrantes quais pontas de espadas. Como conciliar t�o esmagadora superioridade com a falta de instru��o? Ah! � que existe outro manancial de ensinamentos que n�o a ci�ncia da escola! Pela comunh�o constante com o mundo invis�vel, desde a idade de treze anos, quando teve a sua primeira vis�o, � que Joana alcan�a as luzes indispens�veis ao desempenho de sua miss�o espinhosa. As li��es dos nossos guias do espa�o s�o mais eficazes do que as de um professor, mais abundantes, sobretudo, em revela��es morais. Essas vias de instru��o, que se chamam as Universidades e as Igrejas, quase n�o as praticam; seus representantes pouco l�em nesse �livro de Deus� de que fala Joana, nesse imenso livro do Universo invis�vel, onde ela haurira sabedoria e luzes! �H� nos livros de Nosso Senhor muito mais do que nos vossos. - O Senhor tem um livro no qual nenhum cl�rigo jamais leu, por mais perfeito que seja no clericato!� afirma em Poitiers (25). Por estas palavras, faz sentir que os mundos ocultam e divino possuem fontes de verdades, infinitamente mais ricas e profundas do que as nascentes em que bebem os humanos, fontes que se abrem por vezes aos simples, aos humildes, aos ignorantes, �queles que Deus marcou com seu selo, os quais encontram nelas elementos de saber, que excedem quanto o estudo nos pode proporcionar. A ci�ncia humana nunca � isenta de um certo orgulho. Seus ensinos cheiram quase sempre a conven��o, a afeta��o, a pedantismo. Falta-lhe, de continuo, clareza, simplicidade. Algumas obras de psicologia, por exemplo, s�o de tal modo obscuras, complexas, eri�adas de express�es barrocas, que chegam ao rid�culo. E' divertido apreciar a que esfor�os de imagina��o, a que gin�stica intelectual, homens, como o professor Th. Flournoy e o Doutor Grasset, se d�o para edificar teorias t�o burlescas, quanto eruditas. As verdades que promanam das altas revela��es aparecem, ao contr�rio, em tra�os de luz e, com poucas palavras, pela boca dos humildes, resolvem os mais escabrosos problemas. �Eu te bendigo, � meu Pai, exclama o Cristo, por teres revelado aos pequeninos o que ocultaste aos s�bios� (26). Bernardino de Saint-Pierre exprime o mesmo pensamento, dizendo: �Para achar a verdade, � preciso procur�-la com um cora��o simples�. Era com um cora��o simples que Joana escutava suas vozes, que as interrogava nos casos importantes e que, sempre confiante na s�bia dire��o delas, se constitui, sob o impulso das pot�ncias superiores, um instrumento admir�vel, rico de preciosas faculdades ps�quicas. N�o s� v� e ouve maravilhosamente, como tamb�m sente pelo tato e pelo olfato as apari��es que se apresentam: �Toquei em Santa Catarina, que me apareceu visivelmente�, diz. �Beijaste ou abra�aste Santa Catarina ou Santa Margarida� perguntam-lhe. - �Abracei-as ambas� - A Rescendiam perfumes!�- bom se saiba que reascendiam perfumes� (27). Noutro interrogat�rio, exprime-se assim: �Vi S. Miguel e os anjos, com os olhos do meu corpo, t�o perfeitamente como vos vejo. E, quando se afastavam de mim, eu chorava e bem quisera que me levassem consigo� (28). � essa a impress�o de todos os m�diuns que entrev�em os esplendores do Espa�o e os seres radiosos que l� vivem. Experimentam um enlevo que lhes torna mais tristes e duras �s realidades deste mundo. Haver partilhado, por um instante, da vida celeste e cair de novo, pesadamente, nas trevas do nosso planeta: que pungente contraste? Mais ainda o era para Joana, cuja alma seleta, depois de se achar, por alguns momentos, no meio que lhe era familiar, donde viera, e de receber dele �grande conforto�, se via novamente em face dos rudes e penosos deveres que lhe corriam. Poucos homens compreendem estas coisas. As vulgaridades da Terra lhes encobrem as belezas do mundo invis�vel que os cerca e no qual penetram como cegos na luz. H�, por�m, almas delicadas, seres dotados de sutil�ssimo sentidos, para as quais o espesso v�u da mat�ria se rasga por segundos e que, atrav�s desses rasgos, lobrigam um recanto do mundo divino, do mundo das verdadeiras alegrias, das felicidades reais, onde nos encontraremos todos depois da morte, tanto mais livres e venturosos, quanto melhor tivermos vivido pelo pensamento e pelo cora��o, quanto mais houvermos amado e sofrido. Todavia, n�o era unicamente sobre esses fatos extraordin�rias, sobre suas vis�es e vozes, que Joana acentuava a confian�a que punha em seus amigos do Espa�o. A raz�o lhe demonstrava tamb�m qu�o pura e elevada era a fonte de suas inspira��es, porquanto aquelas vozes a guiavam sempre para a pr�tica de a��es �teis, no sentido do devotamento e do sacrif�cio. Ao passo que certos vision�rios se extraviam por entre devaneios est�reis, em Joana os fen�menos ps�quicos concorrem- todos para a realiza��o de uma grande obra. Da� sua f� inabal�vel: e Creio t�o firmemente, responde aos ju�zes, nos ditos e feitos de S. Miguel que me apareceu, como creio que Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu morte e paix�o por n�s. E o que me move a cr�-lo s�o os bons conselhos, o conforto e os ensinamentos que me deu� (29). Tudo ponderando com seguro crit�rio, � principalmente o lado moral das manifesta��es que constitui, a seus olhos, uma prova da autenticidade delas. Pelos avisos eficazes, pelo amparo que lhe concediam, pelas s�s instru��es que lhe prodigalizavam, reconhece que seus guias s�o enviados do Alto. No decurso do processo, como no de sua a��o militar, as vozes lhe aconselham o que deve dizer e fazer. Recorre a elas em todos os casos dif�ceis: �Pedi conselho � voz acerca do que devia responder, dizendo-lhe que, por sua vez, pedisse conselho a Nosso Senhor. E a voz me disse: Responde ousadamente; Deus te ajudar� (30). Os ju�zes a interrogam sobre esse ponto: �Como explicas que as santas te respondam?� - �Quando fa�o apelo a Santa Catarina, diz Joana, ela e Santa Margarida apelam para Deus e, depois, por ordem de Deus, me d�o a resposta� (31). Assim, para os que sabem interrogar o invis�vel por meio da concentra��o e da prece, o pensamento divino desce, degrau a degrau, das maiores alturas do espa�o at� �s profundezas da Humanidade. Mas, nem todos o discernem como Joana. Quando suas vozes emudecem, ela se recusa a responder sobre qualquer quest�o importante: �Por enquanto, nada obtereis de mim; ainda n�o tenho a permiss�o de Deus.� Creio que n�o vos digo tudo o que sei. Por�m, muito mais temo cair em falta dizendo qualquer coisa que desagrade �s minhas vozes, do que receio vos responder� (32). Admir�vel discri��o que muitos homens bem andariam imitando, quando as vozes da consci�ncia e do bom senso n�o lhes ordenam que falem. At� ao fim de sua vida tr�gica, Joana mostrar� grande amor aos seus guias, inteira confian�a na prote��o que lhe dispensavam. Mesmo quando pareceu que a abandonavam depois de lhe terem prometido a salva��o, nenhuma queixa, nenhuma blasf�mia proferiu. Na pris�o, confessa-o ela pr�pria, eles lhe haviam dito: �Ser�s libertada por uma grande vit�ria� (33) e, em lugar da liberta��o, era a morte o que lhe vinha. Seus inquiridores, que nenhum meio de a desesperar desprezavam, insistiam nesse abandono aparente e Joana respondia sem se perturbar: �Nunca praguejei nem de santo, nem de santa.� A hist�ria da boa Lorena apresentava casos de clarivid�ncia e de premoni��o em n�mero bastante elevado para lhe emprestarem, aos olhos de toda gente, um misterioso poder divinat�rio. �s vezes parece ler no futuro; por exemplo, quando diz ao soldado de Chinon que a injuriara, ao v�-Ia entrar no castelo: �Ah! tu renegas de Deus e, no entanto, est�s t�o perto da morte!� Efetivamente, nessa mesma tarde o soldado, por um acidente, morre afogado (34). Fato id�ntico sucede com rela��o ao ingl�s Glasdale, no ataque � bastilha da Ponte, diante de Orle�es. Ela o intima a se render ao rei dos c�us, acrescentando: �Tenho grande compaix�o de tua alma!� No mesmo instante, Glasdale cai, armado, no L�ger, onde se afoga (35). Mais tarde, em Jargeau, prev� o perigo que amea�a o duque d'Alen�on, cuja vida prometera proteger: �Gentil duque, exclama, retire-se da�, sen�o aquela boca de fogo que l� v� lhe dar� a morte.� A previs�o era justa, pois o Senhor du Lude, indo ocupar o lugar deixado pelo duque, foi morto pouco depois (36). Doutras vezes e com muita freq��ncia, atesta-o a pr�pria Joana, suas vozes a previnem. Em Vaucouleurs, sem jamais o ter visto, vai direito ao senhor de Baudricourt: �Reconheci-o, refere, gra�as � minha voz. Foi ela que me disse: �Est� ali ele!�(37). Conforme as revela��es que tivera, Joana lhe prediz a liberta��o de Orle�es, a sagra��o do rei em Reims e lhe anuncia a derrota dos Franceses na jornada dos Arenques, no instante mesmo em que acabava de verificar-se (38). Em Chinon, levada � presen�a do rei, n�o hesitou em descobri-lo entre os trezentos cortes�os no meio dos quais se dissimulara: Quando fui introduzida no aposento do rei, diz, logo o reconheci entre os outros, porque a minha voz mo indicou� (39). Numa entrevista �ntima, lembra-lhe ela os termos da prece muda que, sozinho no seu orat�rio, ele dirigira a Deus. Suas vozes lhe comunicam que a espada de Carlos Martel est� enterrada na Igreja de Santa Catarina de Fierbois e mostr�-la (40). E' ainda a voz que a desperta em Orle�es, quando, extenuada de fadiga, se atira no leito, ignorando o ataque � bastilha de Sannt-Loup: �Meu conselho me disse que v� contra os ingleses, exclama de repente. E n�o me diz�eis que o sangue da Fran�a estava sendo derramado.� (41) Porque seus guias lho predisseram, sabe que ser� ferida por um dardo no ataque as Tourelles, a 7 de maio de 1429. Uma carta do encarregado de neg�cios de Brabante, conservada nos arquivos de Bruxelas e datada de 22 de abril do mesmo ano, escrita, por conseq��ncia, quinze dias antes do fato, relata essa predi��o e a maneira por que havia de realizar-se. Na v�spera do combate, Joana ainda declara: �Amanh� sair� sangue de meu corpo� (42). Nessa mesma jornada, prediz, contra toda a verossimilhan�a, que o ex�rcito vitorioso reentraria em Orle�es pela ponte, que se achava ent�o destru�da. E foi o que se deu. Libertada a cidade, Joana insiste com o rei para que n�o defira a partida para Reims, repetindo: �N�o durarei mais que um ano, Sire; � preciso, pois, que me aproveitem bem!� (43) Que presci�ncia da curteza de sua carreira! Por suas vozes foi avisada de que Troyes, em breve, se renderia, assim como, mais tarde, o foi tamb�m do seu pr�prio cativeiro. �Na semana da P�scoa, achando-me junto ao fosso de Melun, minhas vozes me disseram que seria presa antes do dia de S. Jo�o - refere � acusada aos ju�zes de Rouen - e como eu lhes pedisse que, quando fosse presa, morresse logo, sem o prolongado tormento da pris�o, elas me disseram: �Recebe tudo com resigna��o. E' preciso que assim se fa�a. Mas, n�o me disseram a hora� (44). A prop�sito, citemos, de passagem, esta bela resposta aos seus inquiridores: �Se eu soubera a hora, n�o me teria ido entregar voluntariamente. Entretanto, teria feito segundo me ordenassem minhas vozes, quaisquer que fossem para mim as conseq��ncias� (45). Conta-se tamb�m uma cena tocante passada na igreja de Compienha (Compi�gne). Diz ela, chorando, aos que a cercavam: �Bons amigos e queridos filhos, sabei que me venderam e tra�ram. Dentro em breve, dar-me-�o a morte. Orai por mim! � (46). Na pris�o, seus guias lhe predizem a liberta��o de Compienha (47), o que lhe causa grande alegria. Teve tamb�m a revela��o do seu fim tr�gico, sob uma forma que ela n�o compreendeu, mas cujo sentido seus ju�zes apreenderam: �O que minhas vozes mais me dizem � que serei salva... Acrescentam: Recebe tudo com resigna��o, n�o te aflijas por causa do teu mart�rio. Vir�s, enfim, para o reino do para�so� (48). De cont�nuo suas vozes a advertem dos concili�bulos secretos dos capit�es, ciosos da sua gl�ria, e que dela se ocultam para deliberarem sobre os feitos da guerra. Mas, de s�bito, Joana aparece e, conhecendo-lhes de antem�o as resolu��es, as frustra: �Estivestes no vosso conselho e eu estive no meu. O conselho de Deus se cumprir�, o vosso perecer� (49). N�o �, igualmente, �s inspira��es de seus guias que Joana deve a posse das eminentes qualidades que formam os grandes generais: o conhecimento da estrat�gia, da bal�stica, a habilidade no emprego da artilharia, coisa inteiramente nova naquela �poca? Como teria podido saber que os Franceses gostam mais de avan�ar do que de combater por tr�s das trincheiras? E como explicar de maneira diversa que uma simples camponesa se tenha tornado, de um dia para outro e aos dezoito anos, incompar�vel comandante de ex�rcito, consumado t�tico? Sua mediunidade, v�-se, revestia formas variadas. Estas faculdades, disseminadas, fragmentadas, na maior parte dos indiv�duos do nosso tempo, nela se acham reunidas, grupadas em possante unidade. Al�m disso, seu grande valor moral as refor�ava. A hero�na era a int�rprete, o agente desse mundo invis�vel, sutil, et�reo, que se estende para al�m do nosso e cujas harmonias e vozes alguns seres humanos percebem. Os fen�menos que enchem a vida de Joana se encadeiam e concorrem para o mesmo fim. E' n�tida e precisa a miss�o que recebeu das altas Entidades e cuja natureza e car�ter mais longe procuraremos determinar. Foi anunciada previamente e se cumpriu segundo as linhas principais. Toda a sua hist�ria o atesta. Aos ju�zes de Ru�o, dizia: �Vim da parte de Deus; nada tenho que fazer aqui; mandai-me de novo a Deus, de quem vim� (50). E quando, na fogueira, as chamas a envolvem e lhe mordem as carnes, ainda exclama: �Sim, minhas vozes eram de Deus! Minhas vozes n�o me enganaram� (51). Poderia Joana mentir? Por ela respondem a sinceridade, a retid�o que manifestou em todas as circunst�ncias. Uma alma t�o leal, que preferiu todos os sacrif�cios a renegar da Fran�a e de seu rei, uma alma assim n�o podia degradar-se at� � mentira. H� nas suas palavras tal acento de verdade, de convic��o, que ningu�m, mesmo entre os seus detratores mais ardentes, ousou acus�-la de impostura. Anatole France, que, certo, n�o a poupa, escreve: �O que, sobretudo, ressalta dos textos � que ela foi uma santa. Foi uma santa, com todos os atributos da santidade no s�culo XV. Teve vis�es e estas vis�es n�o foram nem fingidas, nem for�adas.� E, mais adiante: �N�o pode ser suspeitada de mentira� (52). Sua lealdade era absoluta; para apoiar o que dizia, n�o se servia, como tanta gente, de termos excessivos, de express�es descomedidas. �Nunca jurara, diz uma testemunha no processo de reabilita��o, e, para afirmar, contentava-se com acrescentar: �Sem d�vida� (53). Estas palavras se encontram tamb�m nos interrogat�rios do processo de Ru�o. Revestiam uma significa��o particular na sua boca, pronunciadas no tom de franqueza e com aquela fisionomia aberta, que lhe eram peculiares. Outro ponto de vista: ter-se-ia ela enganado? Seu bom senso, sua lucidez de esp�rito, seu crit�rio firme, os rel�mpagos de g�nio que lhe iluminam, aqui e ali, a vida, n�o permitem que em tal se creia. Joana n�o era uma alucinada! Certos cr�ticos, entretanto, o acreditaram. A maior parte dos fisiologistas, por exemplo, Pierre Janet, Tr. Ribot, o Doutor Grasset, aos quais conv�m juntar alguns alienistas, como os Drs. L�lut, Calmeil, etc., n�o v�em na mediunidade sen�o uma das formas da histeria ou da neurose. Para eles, os videntes s�o enfermos e a pr�pria Joana d'Arc n�o lhes escapa �s aprecia��es sob este crit�rio. Ainda recentemente, o professor Morselli, no seu estudo �Psicologia e Espiritismo�, n�o considerou os m�diuns como esp�ritos fracos ou desequilibrados? E' sempre f�cil qualificar de quimeras, de alucina��es, ou de loucuras os fatos que nos desagradam, ou que n�o podemos explicar. Nisto, muitos c�pticos se consideram pessoas bastante criteriosas, quando n�o passam de v�timas dos seus preconceitos. Joana n�o era neur�tica, nem hist�rica. Robusta, gozava de sa�de perfeita. Era de costumes castos e, ainda que de uma beleza plena de atrativos, sua presen�a impunha respeito, venera��o, mesmo aos soldados que lhe partilham da vida (54). Tr�s vezes: em Chinon, no principio de sua carreira, em Poitiers e em Ru�o, sofreu exame feito por matronas, que lhe atestaram a virgindade. Suportava sem fraquear as maiores fadigas. �Sucede-lhe passar at� seis dias em armas�, escreve, a 21 de junho de 1429, Perceval de Boulainvilliers, conselheiro camarista de Carlos VII. E, quando a cavalo, excitava a admira��o de seus companheiros de armas, pelo tempo que podia permanecer assim, sem ter necessidade de apear-se (55). Muitos depoimentos lhe atestam a resist�ncia f�sica. �Ela se comportava de tal maneira, diz o cavaleiro Thibault d'Armagnac, que n�o seria poss�vel a qualquer homem melhor atitude no que respeita � guerra. Todos os capit�es se maravilhavam das fadigas e trabalhos que suportava� (56). O mesmo ocorre com a sua sobriedade: h�, sobre esse ponto, numerosos testemunhos, desde o de pessoas que a viram por pouco tempo, como � senhora Colette, at� os de homens de seu s�quito habitual. Citemos as palavras do pajem, Lu�s de Contes: �Joana era extremamente s�bria. Muitas vezes, durante um dia inteiro, n�o comeu mais do que um peda�o de p�o. Admirava-me que comesse t�o pouco. Quando ficava em casa, s� comia duas vezes por dia� (57). A rapidez maravilhosa com que a nossa hero�na se curava dos pr�prios ferimentos mostra a sua poderosa vitalidade: alguns instantes, alguns dias de repouso lhe bastam e volta para o campo de batalha. Ferida gravemente, por haver saltado da torre de Beaurevoir, recobra a sa�de assim consegue tomar algum alimento. Denotar�o todos estes fatos uma natureza fraca e neur�tica? E se, das qualidades f�sicas, passamos �s do esp�rito, a mesma conclus�o se imp�e. Os numerosos fen�menos de que Joana foi o agente, longe de lhe turbarem a raz�o, como sucede com os hist�ricos, parece, ao contr�rio, terem-na robustecido, a julgar pelas respostas l�cidas, claras, decisivas, inesperadas, que d� aos seus interrogadores de Ru�o. A mem�ria se lhe conservou fiel, o ju�zo s�o; manteve a plenitude de suas faculdades e foi sempre senhora de si. O Dr. G. Dumas, professor da Sorbona, em coment�rio publicado por Anatole France no fim do seu segundo volume, declara n�o ter conseguido, pelos testemunhos, descobrir em Joana qualquer dos estigmas cl�ssicos da histeria. Insiste demoradamente sobre a exterioridade dos fen�menos, sobre a clareza objetiva deles, sobre a �independ�ncia e autoridade relativas� da inspirada em presen�a das �santas�. N�o lhe parece que suas vis�es possam ser filiadas a qualquer tipo patol�gico verificado experimentalmente. �Nenhum ind�cio, diz por sua vez Andrew Lang (58), permite supor que Joana, enquanto em comunh�o com suas santas, se houvesse achado em estado de �dissocia��o�, ou inconsciente do que a cercava. Pelo contr�rio, vemos que, na cena terr�vel da abjura��o, ela ouve ao mesmo tempo, com igual nitidez, as vozes das santas e o serm�o do pregador, cujos erros n�o teme criticar.� Acrescentemos que nunca foi v�tima de obsess�o, pois que seus Esp�ritos n�o interv�m sen�o em certos momentos e sobretudo quando os chama, ao passo que a obsess�o se caracteriza pela presen�a constante, inevit�vel, de seres invis�veis. Todas as vozes de Joana tratam da sua grande miss�o; jamais se ocupam com puerilidades; sempre tem raz�o de ser o que fazem ouvir, n�o se contradizem, nem se mostram eivadas das cren�as err�neas do tempo, o que teria cabimento, se Joana fosse predisposta a sofrer de alucina��es. Longe de acreditar em fadas, nas virtudes da mandr�gora e em mil outras id�ias falsas da �poca, a donzela demonstra, nos interrogat�rios, ignor�ncia a esse respeito, ou exprime o desprezo que vota a tudo isso (59). Nada, nela, de sentimentos ego�stas, nenhum orgulho, como se nota nos alucinados que, atribuindo grande import�ncia �s suas insignificantes pessoas, s� v�em � roda de si inimigos e perseguidores. E' � Fran�a, e ao rei que se dirigem seus pensamentos, sob a inspira��o divina. O grande alienista Brierre de Boismont, que se consagrou a um estudo atento da quest�o (60), reconhece em Joana uma intelig�ncia superior. Entretanto, qualifica de alucina��es os fen�menos de que ela � objeto, mas emprestando-lhes car�ter fisiol�gico e n�o patol�gico. Quer com isso dizer que tais alucina��es n�o a impediram de conservar a integridade da raz�o; seriam fruto de uma exalta��o mental, o que todavia nada tem de m�rbido. Para ele, a concep��o da id�ia diretriz, �estimulante poderoso�, se fez imagem no c�rebro de Joana, em quem admira uma alma de escol, um desses �(mensageiros que nos s�o enviados do fundo do misterioso infinito). Sem ser da mesma opini�o do c�lebre pr�tico da Salp�tri�re, quanto �s causas determinantes dos fen�menos, o Doutor Dupouy, que os atribui � influ�ncia de Entidades celestes, conclui no mesmo sentido. Somente, no seu entender, as alucina��es de Joana teriam tido o dom de objetivar as personalidades ang�licas que lhe serviam de guias. Poder�amos adotar este modo de ver, pois sabemos que ela considerava suas santas como sendo aquelas cujas imagens adornavam a igreja de Domremy. Mas, diremos ainda: pode-se atribuir car�ter alucinat�rio � vozes que nos despertam em pleno sono, para prevenir-nos de acontecimentos presentes ou futuros, como foi o caso de Orle�es e durante o processo de Joana, em Ru�o? a vozes que nos aconselham proceder por forma diversa da que preferimos? Por ocasi�o de seu cativeiro na torre de Beaurevoir, recebeu bastante recomenda��es de seus guias, desejosos de lhe evitarem um erro; no entanto, n�o puderam impedi-Ia de saltar do alto da torre, do que teve que se arrepender. Dizer com Lavisse, A. France e outros, que a voz ouvida por Joana era a da sua consci�ncia, afigura-se-nos igualmente em contradi��o com os fatos. Tudo prova que as vozes eram exteriores. O fen�meno nada tinha de subjetivo, pois que ela � despertada, como vimos, aos chamados de seus guias e muitas vezes n�o apanha mais do que as �ltimas palavras do que dizem (61). N�o as escuta bem, sen�o nas horas de sil�ncio, conforme o reconhece o pr�prio Anatole France (62). �A agita��o das pris�es e as disputas entre os guardas (63) obstam a que compreenda claramente o que seus guias lhe comunicam.� �, pois, de toda evid�ncia que as palavras v�m de fora; o ru�do n�o embara�a a voz interior, que se percebe no segredo da alma, at� nos momentos de tumulto. Concluamos, pois, de nossa parte, reconhecendo, mais uma vez, em Joana, um grande m�dium. Em que pese ao Doutor Morselli (64) e a tantos outros, a mediunidade n�o se manifesta exclusivamente nos indiv�duos de esp�rito fraco ou de almas inclinadas � loucura. H� talentos de amplas envergaduras, tais como Petrarca, Pascal, Lafontaine, Goethe, Sardou, Flammarion e quantos mais, pensadores profundos, como S�crates, homens penetrados do esp�rito divino, santos ou profetas, que tiveram suas horas de mediunidade, nas quais essa faculdade, latente em todos, se revelou, sendo que, nalguns, repetidas vezes. Nem a altura da intelig�ncia, nem a eleva��o da alma servem de empecilho a esta esp�cie de manifesta��es. Se h� muitas produ��es medi�nicas, cuja forma ou subst�ncia deixam a desejar, � que s�o raras as altas intelig�ncias e os grandes caracteres, qualidades que se achavam reunidas em Joana d'Arc, raz�o pela qual suas faculdades ps�quicas atingiram t�o elevado grau de pujan�a. Da virgem de Orle�es se �pode dizer que realizava o ideal da mediunidade�. Agora uma outra quest�o se apresenta e da mais alta import�ncia: Quais eram as personalidades invis�veis que a inspiravam e dirigiam? Por que santas, anjos, arcanjos? Que devemos pensar dessa interven��o constante de S. Miguel, Santa Catarina, Santa Margarida? Para resolver o problema, seria necess�rio primeiramente analisar a psicologia dos videntes e dos sensitivos e compreender a necessidade, em que eles se v�em, de emprestar �s manifesta��es do Al�m as formas, os nomes, as apar�ncias que a educa��o recebida, as influ�ncias experimentadas, as cren�as do meio e da �poca em que vivem lhes sugeriram. Joana d'Arc n�o escapava a esta lei. Servia-se, para traduzir suas percep��es ps�quicas, dos termos, das express�es, das imagens que lhe eram familiares. E' o que fazem os m�diuns de todos os tempos. Conforme aos meios, os habitantes do mundo oculto receber�o os nomes de deuses, de g�nios, de anjos ou dem�nios, de esp�ritos, etc. As pr�prias intelig�ncias invis�veis, que interv�m ostensivamente na obra humana, se sentem obrigadas a entrar na mentalidade daqueles a quem se manifestam, de adotar as formas e os nomes de entes ilustres, conhecidos deles, a fim de os impressionar, de lhes inspirar confian�a, de melhor prepar�-los para o papel a que est�o destinados. Em geral, no Al�m, n�o se liga tanta import�ncia, como entre n�s, aos nomes e �s personalidades. L�, se empreendem obras grandiosas e as Pot�ncias prepostas � sua realiza��o recorrem aos expedientes reclamados pelo estado de esp�rito, poder-se-ia dizer de inferioridade e de ignor�ncia, das sociedades e dos tempos em que desejam intervir. Objetar-me-�o, talvez, que � virgem de Domremy essas Pot�ncias sobre-humanas teriam podido revelar sua verdadeira natureza, iniciando-a num conhecimento mais alto, mais largo do mundo invis�vel e de suas leis. Mas, al�m de muito demorado e dif�cil iniciar um ser humano, por melhor dotado que seja, nas leis da vida superior e infinita, que nenhum ainda apreende no conjunto, o mesmo fora que contrariar o fim visado; que tornar, no caso de Joana, irrealiz�vel a obra concebida, obra toda de a��o, com o criar, na hero�na, um estado de esp�rito e diverg�ncias de vista, que a houveram colocado em oposi��o � ordem social e religiosa sob que era chamada a operar. Examinando-se com aten��o o que diz Joana, respeito �s suas vozes, um fato significativo ressalta logo � que o Esp�rito, a quem ela d� o nome de S. Miguel, nunca declarou chamar-se assim (65). As duas outras Entidades teriam sido designadas pelo pr�prio S. Miguel, sob os nomes de Santa Catarina e de Santa Margarida (66). Lembremos que as est�tuas destas santas ornavam a igreja de Domremy onde Joana ia orar diariamente. Nas suas longas medita��es e nos seus �xtases, tinha quase sempre diante de si as imagens de pedra daquelas duas virgens m�rtires. Ora, a exist�ncia destas duas personagens � mais do que duvidosa. O que sabemos de ambas consiste em lendas muito contestadas. Cerca do ano 1600, um censor da Universidade, Edmond Richer, que acreditava nos anjos, mas n�o em Santa Catarina, nem em Santa Margarida, aventa a id�ia de que as apari��es percebidas pela donzela se fizeram passar, a seus olhos, como sendo as santas que ela venerava desde a inf�ncia. �O Esp�rito de Deus, que governa a Igreja, se amolda � nossa imperfei��o�, dizia ele (67). Mais tarde, outro doutor da Sorbona, Jean de Launoy, escrevia: �A vida de Santa Catarina, virgem e m�rtir, � inteiramente fabulosa, do come�o ao fim. N�o se lhe deve dar cr�dito algum� (68). Bossuet, na sua �Histoire de France pour 1'instruction du Dauphin�, n�o menciona as duas santas. Em nossos dias, Marius Sepet, aluno da Escola de Chartes e membro do Instituto, prefaciando a �Vie de Sainte Catherine�, de Jean Mi�lot (69), se manifesta com patentes reservas acerca dos documentos que serviram de base � obra: �A vida de Santa Catarina, diz ele, sob a forma que tomou no manuscrito 6449 do cabedal franc�s da Biblioteca Nacional, n�o poderia aspirar a nenhum valor can�nico� (70). Notemos ainda que o caso mais moderno do cura d'Ars apresenta muita analogia com o de Joana d'Arc. Como a donzela, o c�lebre taumaturgo era vidente e se entretinha com Esp�ritos, especialmente com o de Santa Filomena, sua protetora habitual. Sofria tamb�m as importuna��es de um Esp�rito inferior chamado Grapin. Ora, do mesmo modo que Catarina e Margarida, Filomena � simplesmente um nome simb�lico, significando que ama a Humanidade� (71). * Se � certo que os nomes atribu�dos �s Pot�ncias invis�veis que influenciaram a vida de Joana d'Arc s� t�m import�ncia relativa e s�o, em si, muito contest�veis, outro tanto n�o se d�, j� o vimos, com a realidade objetiva das mesmas Pot�ncias e com a a��o constante que exerceram sobre a hero�na. Parecendo-nos insuficiente a explica��o cat�lica, somos levados a nelas ver Entidades superiores, que resumem, concentram, acionam as for�as divinas, nas ocasi�es em que o mal se alastra sobre a Terra, quando os homens, por suas obras, entravam ou amea�am o desenvolvimento do plano eterno. Essas Pot�ncias se nos deparam, sob as mais diversas denomina��es, em �pocas bem diferentes. Mas, qualquer que seja o nome que se lhes d�, � fora de d�vida a interven��o que t�m tido na Hist�ria. No s�culo XV, s�o os g�nios protetores da Fran�a, as grandes almas que mais particularmente velam pelo nosso pa�s. Dir-se-� talvez: tudo isso � sobrenatural. N�o! por esta palavra o que se designa s�o as regi�es elevadas, as alturas sublimes e, por assim dizer, o coroamento da Natureza. Pela inspira��o dos videntes e dos profetas, pelos mediadores, pelos Esp�ritos mensageiros, a Humanidade esteve sempre em rela��o com os planos superiores do Universo. Os estudos experimentais, que v�m sendo feitos h� meio s�culo (72), j� lan�aram alguma claridade sobre a vida do Al�m. Assim � que sabemos ser o mundo dos Esp�ritos povoado de seres em n�mero incalcul�vel, ocupando todos os degraus da escala da evolu��o. A morte n�o nos transforma, sob o ponto de vista moral. No espa�o, achar-nos-emos de novo com todas as qualidades que houvermos adquirido, mas tamb�m com todos os nossos erros e defeitos. Da� resulta que na atmosfera terrestre formigam almas inferiores, s�fregas por se manifestarem aos humanos, o que �s vezes torna perigosas as comunica��es e exige, da parte dos experimentadores, um preparo laborioso e muito discernimento. Esses estudos tamb�m demonstram que, acima de n�s, h� legi�es de almas benfazejas e protetoras, as almas dos que sofreram pelo bem, pela verdade e pela justi�a e que, esvoa�ando sobre a pobre Humanidade, procuram gui�-la pela senda de seu destino. Mais para al�m dos acanhados horizontes da Terra, uma completa hierarquia de seres invis�veis se distende na luz. � a lend�ria escada de Jacob, a escada das Intelig�ncias e das Consci�ncias superiores, cujos degraus chegam at� aos Esp�ritos radiosos, at� �s poderosas Entidades, deposit�rias das for�as divinas. Estas Entidades invis�veis, temo-lo dito, interv�m de quando em quando na vida dos povos, de modo esplendente, como nos tempos de Joana d'Arc. As mais das vezes, por�m, a a��o que exercem permanece obscura, primeiro para salvaguarda da liberdade humana, e, sobretudo, porque, se � indubit�vel que elas desejam ser conhecidas, n�o menos certo � quererem que o homem se esforce e se fa�a apto a conhec�-las. Os grandes fatos da Hist�ria, devidos � interven��o delas, s�o compar�veis �s aberturas que se produzem de s�bito entre as nuvens, quando o tempo est� sombrio, para nos mostrarem o c�u profundo, luminoso, infinito, claros esses que, entretanto, logo se cerram, porque o homem ainda n�o se acha bastante maduro para apanhar e compreender os mist�rios da vida superior. Quanto � escolha das for�as e dos meios que os grandes Seres empregam para intervir no campo terrestre, cumpre reconhe�amos que o nosso saber � bem fraco para os apreciar e julgar, que nossas faculdades s�o impotentes para medir os vastos planos do invis�vel. O que sabemos � que os fatos a� est�o, incontest�veis, ineg�veis. De longe em longe, atrav�s da obscuridade que nos envolve, por entre o fluxo e refluxo dos acontecimentos, nas horas decisivas, quando a Humanidade se desencaminha, ent�o, uma emana��o, uma personifica��o da Pot�ncia suprema desce, para lembrar aos homens que acima do mundo em que se debatem, recursos infinitos existem, que eles podem atrair a si por seus pensamentos e apelos, e se grupam sociedades de almas, que eles alcan�ar�o um dia por seus merecimentos e esfor�os. A interven��o, na obra humana, das altas Entidades, a que chamaremos os an�nimos do espa�o, constitui uma lei profunda, sobre a qual cremos dever insistir ainda, procurando torn�-la mais compreens�vel. Em geral, j� por mais de uma vez o dissemos, os Esp�ritos superiores que se manifestam aos homens n�o se nomeiam, ou, se o fazem, tomam de empr�stimo nomes simb�licos, que lhes caracterizam a natureza, ou o g�nero da miss�o em que foram investidos. Mas, porque, ao passo que o homem neste mundo se mostra t�o cioso de seus menores m�ritos, t�o apressurado em ligar seu nome �s obras mais ef�meras, os excelsos mission�rios do Al�m, os gloriosos mensageiros do invis�vel se obstinam em guardar o inc�gnito, ou em usar de nomes aleg�ricos? � que bem diferentes s�o as regras do mundo terrestre e as dos mundos superiores, onde se movem os Esp�ritos de reden��o. Aqui, a personalidade prima e absorve tudo. O eu tir�nico se imp�e: � sinal da nossa inferioridade a f�rmula inconsciente do nosso ego�smo. Sendo imperfeita e provis�ria a presente condi��o humana, � l�gico que todos os atos do homem gravitem ao redor de sua individualidade, isto �, do c�u, que mant�m e assegura a identidade do ser, no est�dio inferior de sua evolu��o, atrav�s das flutua��es do espa�o e das vicissitudes do tempo. Nas altas esferas espirituais, d�-se o contr�rio. A evolu��o se opera sob formas mais et�reas, formas que, em certa altura, se combinam, associam e realizam o que se poderia chamar a compenetra��o dos seres. Quanto mais o Esp�rito sobe e progride na hierarquia infinita, mais se desbastam os �ngulos de sua personalidade, mais o seu �eu� se dilata e expande na vida universal, sob a lei da harmonia e do amor. Sem d�vida, a identidade do ser permanece, por�m sua a��o se confunde cada vez mais com a atividade geral, isto �, com Deus, que, em realidade, � o ato puro. Consistem o progresso infinito e a vida eterna em nos aproximarmos continuamente do Ser absoluto, sem jamais o alcan�armos, em confundirmos cada vez mais plenamente a obra que nos � pr�pria com a obra eterna. Chegado a t�o elevados cumes, o Esp�rito n�o mais � designado por meio de tal ou tal nome; j� n�o � um indiv�duo, uma pessoa, e sim uma das formas da Atividade infinita. Chama-se: Legi�o. Pertence a uma escala de for�as e de luzes, tal como uma parcela da chama pertence ao foco que a engendra e alimenta. E' parte integrante de imensa associa��o de Esp�ritos harmonizados entre si por leis de afinidade luminosa, de sinfonia intelectual e moral, pelo Amor que os identifica. Fraternidade sublime, ante a qual a Terra n�o passa de p�lido e fugidio reflexo! Por vezes, desses grupos harmoniosos, dessas pl�iades rutilantes, um raio vivo se destaca, uma forma radiosa se separa e vem, qual proje��o de luz celeste, explorar, iluminar os rec�nditos de nosso escuro mundo. Ajudar a ascens�o das almas, fortalecer uma criatura em hora de grande sacrif�cio, amparar a fronte de um Cristo na agonia, salvar um povo, resgatar uma na��o prestes a perecer: tais as miss�es incompar�veis que esses mensageiros do Al�m descem a cumprir. A lei da solidariedade exige que os entes superiores atraiam a si os Esp�ritos jovens ou retardados. Assim, uma imensa cadeia magn�tica se desenrola pelo incomensur�vel Universo e ata as almas e os mundos. E, como a sublimidade da grandeza moral consiste em fazer o bem por amor do bem, sem prop�sito ego�sta, os Esp�ritos benfeitores obram sob o duplo v�u do sil�ncio e do inc�gnito, a fim de que a gl�ria e o m�rito de seus atos se reportem s� a Deus e nele se reintegrem... Desta maneira se explicam as vis�es de Joana, suas vozes, as apari��es do arcanjo e das santas, que nunca existiram como personalidades individuais, batizadas com aqueles nomes, mas que, entretanto, s�o realidades vivas, seres luminosos, destacados dos centros divinos e que fizeram dela a libertadora de seu pa�s. Miguel, Mica�l, a for�a de Deus; Margarida, Margarita, a p�rola preciosa; Catarina, Katarina, a virgem pura: todos nomes simb�licos, que caracterizam uma beleza moral, uma for�a superior e refletem uma cintila��o de Deus. * Joana d'Arc era, pois, um intermedi�rio de dois mundos, um m�dium poderoso. Por isso, foi martirizada, queimada. Tal, em regra, a sorte dos enviados do Alto; exp�em-se �s persegui��es dos homens, porque estes n�o querem ou n�o podem compreend�-los. Os exemplos que d�o e as verdades que espalham s�o um �bice aos interesses terrenos, uma condena��o das paix�es ou dos erros humanos. O mesmo ocorre em nossos dias. Conquanto menos b�rbara do que a Idade M�dia, que os lan�ava em massa �s fogueiras, nossa �poca ainda persegue os agentes do Al�m. Eles se v�em quase sempre repudiados, desprezados, escarnecidos. Falo dos m�diuns sinceros e n�o dos simuladores, que s�o numerosos e se insinuam por toda a parte. Esses que tais prostituem uma das coisas mais respeit�veis que h� no mundo; mas, por isso mesmo, assumem pesadas responsabilidades para o futuro. Pois que tudo se paga, cedo ou tarde, todos os nossos atos, bons ou maus, recaem sobre n�s com as suas conseq��ncias. E' a lei do destino (73). As manifesta��es do mundo invis�vel s�o constantes, diz�amos; por�m, n�o s�o iguais. O embuste, o charlatanismo, �s vezes, se misturam com a inspira��o;, ao lado de Joana d'Arc encontrareis Catarina de La ftochelle e Guilherme, o pastor, impostores ambos. H� tamb�m m�diuns reais, que se enganam a si mesmos e obram, em dadas ocasi�es, sob o imp�rio da auto-sugest�o. A fonte nem sempre � pura; a vis�o � algumas vezes confusa. H�, todavia, fen�menos t�o brilhantes, que n�o permitem a d�vida, quais os fatos mediunicos que ilustram a vida de Joana d'Arc. A mediunidade, como todas as coisas, apresenta uma diversidade infinita, uma grada��o, uma esp�cie de hierarquia. Quase todos os grandes predestinados, os profetas, os fundadores de religi�o, os mensageiros da verdade, todos os que proclamaram os princ�pios superiores de que se tem nutrido o pensamento humano, foram m�diuns, pois que suas vidas estiveram em cont�nuas rela��es com os altos c�rculos espirituais. Demonstrei algures (74), apoiando-me em testemunhos abundantes e precisos, que o g�nio, sob diversos pontos de vista e em muitos casos, pode ser considerado um dos aspectos da mediunidade. Os homens geniais, na maior parte, s�o inspirados, na mais elevada acep��o desta palavra. Suas obras s�o como luzeiros que Deus acende na noite dos s�culos, para clarear a marcha da Humanidade. Depois da publica��o do livro que acima citei, colhi novos documentos em apoio desta tese. Mais adiante mencionarei alguns. Toda a filosofia da Hist�ria se resume em duas palavras: a comunh�o do vis�vel e do invis�vel, que se exprime pela alta inspira��o. Os homens de g�nio, os grandes poetas, os s�bios, os artistas, os inventores c�lebres, todos s�o, no mundo, executores do plano divino, desse plano majestoso de evolu��o, que carrega a alma para os pin�culos da vida universal. De algumas vezes, as nobres Intelig�ncias que presidem a essa evolu��o se humanizam para poderem exercer a��o mais eficaz e mais direta. Tendes ent�o Zoroastro, o Buda e, acima de todos, o Cristo. De outras, inspiram e sustentam os mission�rios encarregados de dar mais viva impuls�o aos v�os do pensamento. Mois�s, S. Paulo, Maom� e Lutero foram deste n�mero. Mas, em todos os casos, a liberdade humana � respeitada. Da� os m�ltiplos entraves com que os grandes Esp�ritos topam no caminho. O fato mais saliente, entre os sucessos que assinalam a vida desses mensageiros do Alto, � a id�ia religiosa sobre que se ap�iam, id�ia que basta para lhes exaltar a coragem e para congregar em torno deles, humildes quase todos e n�o dispondo de nenhuma for�a material, imensas multid�es, prontas a disseminar os ensinamentos cuja grandeza sentiram. Todos h�o falado de suas comunica��es com o invis�vel; todos tiveram vis�es, ouviram vozes e se reconheceram simples instrumentos da Provid�ncia, para o desempenho de uma miss�o. S�s, entregues a si mesmos, nenhum �xito teriam conseguido; a influ�ncia do Alto era necess�ria, indispens�vel ao triunfo completo da id�ia que defendiam e contra a qual se encarni�avam tantos inimigos. Tamb�m a filosofia conta gloriosos inspirados: S�crates, como Joana d'Arc, percebia vozes, ou, antes, uma voz, a de um Esp�rito familiar, a que ele chamava seu dem�nio (75), voz que se fazia ouvir em todas as circunst�ncias. No �Th�ag�s� de Plat�o se l� que Timarco houvera evitado a morte, se escutara a voz desse Esp�rito: �N�o v�s - aconselha-lhe S�crates, ao levantar-se ele do banquete com Fil�mon, seu c�mplice e o �nico sabedor de suas inten��es de matar Nicias - n�o v�s: a voz me diz que te retenha.� Se bem que advertido mais duas vezes, Timarco partiu, por�m, saiu-se mal da empresa e foi condenado � morte. Na hora do supl�cio, reconheceu, embora demasiado tarde, que devera ter obedecido � voz: �Oh! Clit�maco! diz ele ao irm�o, vou morrer por n�o haver dado ouvidos ao que me aconselhava S�crates.� Um dia, a voz recomenda ao fil�sofo que n�o v� mais longe pela estrada por onde passeava com alguns amigos. Estes se recusam a atend�-lo; continuam a caminhar e encontram um rebanho que os derruba e pisa. Depois de reconhecer bastas vezes o acerto dos conselhos que se lhe eram ditados pela voz, inteira raz�o tinha S�crates para acreditar nela e fazer sentir a seus amigos que, �tendo-lhes comunicado as predi��es que recebia, jamais verificara a inexatid�o de alguma.� Recordemos ainda a sua declara��o solene diante do tribunal dos Efeitos, quando para ele se agita a quest�o de vida ou de morte: �Esta voz prof�tica do dem�nio, que nunca deixou de fazer-se ouvir durante todo o curso de minha exist�ncia, que jamais deixou, at� nas circunst�ncias mais comezinhas, de me desviar do que me pudera causar dano, eis que esse deus se cala, agora que me sucedem coisas, que poderiam ser encaradas como o pior dos males. Porque isto? E' que, muito verossimilmente, o que ora acontece � um bem para mim. Sem d�vida, nos enganamos, supondo ser a morte uma desgra�a!� Na Fran�a, tamb�m os fil�sofos foram visitados pelo Esp�rito: Pascal passava horas em �xtase; a �Recherche de Ia V�rit�, de Malebranche, foi escrita em plena escurid�o; e Descartes nos conta como, por s�bita intui��o, r�pida qual rel�mpago, concebeu a id�ia da �Doute m�thodique�, sistema filos�fico a que devemos a liberta��o do pensamento moderno. Nos seus �Annales M�dico-psychologiques� (76), diz Brierre de Boismont: �Descartes, ao cabo de longo repouso, era instado por invis�vel pessoa para continuar as pesquisas da verdade.� Schopenhauer, na Alemanha, igualmente reconhece haver sofrido a influ�ncia do Al�m: �Meus postulados filos�ficos, diz ele, se produziram em mim sem que eu nisso interviesse, nos momentos em que tinha a vontade como que adormecida... Minha pessoa era tamb�m por assim dizer estranha � obra�. Quase todos os poetas de renome gozaram de uma assist�ncia invis�vel. Dentre eles, citemos unicamente (77) Dante e Tasso, Schiller e Goethe, Pope (78), Shakespeare, Shelley, Cam�es, Victor Hugo, Lamartine, Alfred de Musset (79), etc. Entre os pintores e os m�sicos, Rafael, Mozart, Beethoven e outros encontrariam lugar aqui, pois que, sem cessar, a inspira��o se derrama em abundantes jorros sobre a Humanidade. Diz-se constantemente: �Estas id�ias andam no ar�. Andam, com efeito, porque as almas do espa�o as sugerem aos homens. E' l� que se devem procurar as origens dos fortes movimentos de opini�o em todos os dom�nios. Cumpre, pois, reconhec�-lo: o fen�meno da mediunidade enche todas as eras. Toda a Hist�ria se aclara pela luz. Aqui se concentra numa personalidade eminente e brilha com vivo fulgor: � o caso de Joana d'Arc. Ali se dissemina, repartida por grande n�mero de int�rpretes, como na �poca atual. A mediunidade h� sido repetidamente a inspiradora do g�nio, o meio que Deus emprega para elevar e transformar as sociedades. No s�culo XV, serviu para tirar a Fran�a do abismo de males em que se precipitara. Hoje, � como um sopro novo que passa por sobre o mundo, para restituir a vida a tantas almas adormecidas na mat�ria, a tantas verdades que jazem na sombra e no esquecimento! Os fen�menos de vis�o, de audi��o, as apari��es de defuntos, as manifesta��es dos invis�veis pela incorpora��o, a escrita, a tiptologia, etc. v�o sendo in�meros; multiplicam-se cada dia em torno de n�s. As pesquisas de muitas sociedades de estudos, as experi�ncias e os testemunhos de s�bios eminentes, de publicistas de primeira ordem, cujos nomes temos declinado, n�o deixam d�vida sobre a realidade desses fatos. Eles foram observados em condi��es que desafiam qualquer mistifica��o. Mencionaremos apenas alguns dos mais recentes, entre os que apresentam analogias com os da vida de Joana d'Arc. H� primeiramente as vozes. Em �Human Personality�, F. Myers trata da que Lady Caidly ouviu, numa circunst�ncia em que sua exist�ncia perigava. Fran�ois Copp�e fala igualmente de uma voz misteriosa que o chamava pelo nome em certos momentos bastante graves de sua vida, quando, deitado, suas preocupa��es n�o lhe permitiam adormecer: �Seguramente n�o durmo nesse momento, afirma ele; e a prova � que, mau grado � forte emo��o que ent�o experimento, sempre respondi logo: �Quem � ? Quem me fala?�Por�m, nunca a voz acrescentou coisa alguma ao seu simples chamado� (80). No m�s de Maio de 1897, o Senhor Wiltshire foi despertado alta madrugada, ouvindo seu nome pronunciado por uma pessoa invis�vel. Como a voz insistisse, ele teve a impress�o de um perigo imediato na vizinhan�a. Acabou por se levantar e sair; chegou precisamente a tempo de salvar a vida a uma jovem que tentara afogar-se. (81). Na �Revue Scientifique et Morale du Spiritisme� (82), o Dr. Breton, m�dico da Marinha e presidente da Sociedade de Estudos Ps�quicos de Nice, refere o seguinte fato �A Srta. Lola, jovem russa, habitando uma casa de campo, pertencente � sua fam�lia, na R�ssia, v� em sonho entrar-lhe a m�e no quarto e gritar: �Lola, n�o tenhas medo, a granja est� incendiada!�Na noite seguinte, a Srta. Lola � bruscamente acordada por sua m�e, que, penetrando-lhe em pessoa no quarto, grita: �Lula, n�o tenhas medo, a granja est� incendiada!�exatamente as mesmas palavras que ouvira sonhando. A Srta. Lola se casa, torna-se esposa do Senhor de R., oficial russo. Morre-lhe o sogro. Algum tempo depois, a jovem Sra. de R. acompanha a sogra ao cemit�rio, p�ra, numa capela de fam�lia, orar sobre o t�mulo do defunto. Ajoelhada e orando, ouve distintamente uma voz dizer-lhe: �Tu tamb�m ficar�s vi�va, mas n�o ter�s a consola��o de orar sobre o t�mulo de meu filho�. Ouvindo isso, a mo�a desmaiou; acode-lhe a sogra e, logo voltando a si, ela refere a causa de sua emo��o. �Estala a guerra russo-japonesa, o coronel de R. recebe ordem de seguir. Parte e sucumbe na Manch�ria. Seu corpo, numa ambul�ncia, � transportado com outros para Mukden, a fim de ser enviado para a R�ssia. Mas, o destacamento que os conduzira teve que abandona durante a retirada geral do ex�rcito russo. N�o obstante as in�meras investiga��es efetuadas, nunca se p�de saber o que fora feito daqueles corpos. �A profecia do Esp�rito, pai do coronel de R., se cumprira: a jovem vi�va n�o poder� jamais orar sobre o t�mulo do marido�. Falemos agora das apari��es, que n�o s�o raras na �poca presente e cuja autenticidade, nalguns casos, se tem podido firmar por meio da fotografia. A �Revue�de 15 de janeiro de 1909 traz a narrativa de um fato deste g�nero, feito por W. Stead, o grande publicistas ingl�s, t�o conhecido pela sua lealdade, como pelo seu desinteresse e ainda pela sua coragem. Exigisse-o a verdade e v�-lo-�amos em qualquer ocasi�o enfrentar toda a Inglaterra. E' sabido que, com grave dano para seus interesses pessoais, esquecendo os muitos milh�es que herdaria de Cecil Rhodes, ousou apontar publicamente o poderoso milion�rio como um dos principais respons�veis pela guerra sul-africana, chegando a reclamar que lhe fosse aplicada a pena de trabalhos for�ados (hard labour). No decurso dessa mesma guerra, W. Stead se dirigiu ao gabinete de um fot�grafo muito ignorante, mas dotado de dupla vista, para experimentar o que poderia obter, pois que o estudo do mundo oculto o atra�a vivamente. Diante do fot�grafo e de Stead surgiu uma apari��o, que j� dias antes se mostrara ao primeiro. Convencionaram fotograf�-la com o escritor. Durante a opera��o, respondendo a uma pergunta, a personagem invis�vel aos olhos humanos disse chamar-se Piet Botha. Entre todos os Botha conhecidos de Stead, nenhum havia com aquele prenome. Efetivamente, a seu lado se via muito n�tida, na fotografia, a figura de um boer. Quando, conclu�da a paz, o General Botha veio a Londres, W. Stead lhe enviou a imagem obtida. No dia seguinte recebeu a visita de um dos delegados da �frica do Sul, o Sr. Wessels, que, muito admirado, lhe disse �Este homem nunca o conheceu! Jamais p�s p� na Inglaterra. E' meu parente e tenho dele um retrato em minha casa!� �Morreu?� perguntou-lhe Stead. �Foi o primeiro comandante boer morto no cerco de Kimberley, respondeu-lhe o interlocutor; chamava-se Petrus Botha, mas n�s o trat�vamos abreviadamente por Piet�. Os outros delegados dos Estados livres tamb�m reconheceram na fotografia o guerreiro boer. N�o raro as apari��es se apresentam a crian�as, incapazes de qualquer enredo, de qualquer fraude, e essa circunst�ncia milita fortemente a favor da autenticidade desejada em tais casos. Os �Annales des Sciences Psychiques�, de 1 a 16 de fevereiro de 1909, citam muitos desses fatos. Num deles, � protagonista uma menina de dois anos e meio que, por diversas vezes e em diferentes lugares, v� uma irm�zinha que lhe morrera havia algum tempo e estende-lhe a m�o. Noutro, figura uma crian�a de tr�s anos que, por ocasi�o da morte de um irm�o, v� uma de suas tias j� falecida e corre para ela, acompanhando-a para onde quer que se dirija o vulto. Brierre de Boismont, nos �Annales M�dico-Psychologiques�, 1851 (83), narra o seguinte: �Um rapaz de dezoito anos, sem nenhuma tend�ncia para a exalta��o, para o romanesco, ou para as supersti��es, fora habitar em Ramsgate por causa da sa�de. Indo passear a uma das aldeias pr�ximas, entrou, ao cair da tarde, numa igreja, e ficou transido de pavor ao dar com o espectro de sua m�e, que falecera meses antes, em conseq��ncia de uma enfermidade muito dolorosa, que infundia compaix�o a quantos lhe rodeavam o leito. A apari��o se conservou im�vel durante um tempo consider�vel entre a parede e o rapaz, que, afinal, fugiu para casa, aonde chegou quase desfalecido. Acontecendo repetir-se o fen�meno por muitas noites consecutivas, no seu pr�prio aposento, ele se sentiu doente e cuidou sem demora de regressar a Paris, onde residia seu pai, ao qual resolveu nada dizer da vis�o, com receio de aumentar a dor que o acabrunhava desde que perdera a esposa adorada�. �Obrigado a dormir no quarto do pai, causou-lhe surpresa haver a� uma luz acesa durante toda a noite, o que n�o era dos h�bitos nem do gosto de qualquer dos dois. Ao cabo de muitas horas de ins�nia produzida pela claridade, o rapaz levantou-se para apagar a luz. Imediatamente o pai despertou em grande agita��o e lhe ordenou que tornasse a acend�-la, o que o mo�o fez, muito admirado da irrita��o do velho e do terror que lhe alterava a fisionomia. Inquirindo do motivo de tanto pavor, obteve apenas uma resposta vaga e a promessa de que a explica��o do fato lhe seria revelada mais tarde�. �Passada uma semana, quando muito, depois dessa ocorr�ncia, o rapaz, n�o podendo dormir pelo inc�modo que lhe causava a luz, aventurou segunda vez apag�-la. Mal o fizera, eis que o pai salta do leito, agitado, a tremer convulso, censura-lhe a desobedi�ncia e novamente acende a l�mpada. Confessou ent�o que, estando no escuro, o fantasma da mulher lhe aparecia e se conservava im�vel, para s� desaparecer quando o quarto se iluminava�. �Profundamente impressionado com o que ouvira e temendo aumentar a afli��o ao pai, se lhe contasse a aventura de Ramsgate, o mancebo pouco tempo depois deixou Paris e foi para uma cidade do interior, a sessenta milhas de dist�ncia, visitar um irm�o que a� se achava num internato e ao qual nada comunicara do que lhe sucedera, receando o rid�culo�. Apenas entrara e trocara os cumprimentos de uso, o filho do diretor do internato o interroga: �Seu irm�o j� alguma vez manifestou sintomas de loucura? A noite passada ele desceu em camisa, fora de si, declarando ter visto o Esp�rito da m�e, acrescentando que n�o ousava mais voltar para o quarto e desmaiou de medo�. Poder�amos enumerar muitos outros fatos da mesma natureza. Os habitantes do espa�o n�o desdenham um s� dos meios de nos indicarem e demonstrarem que a sobreviv�ncia � uma realidade. Os Esp�ritos superiores d�o acentuada prefer�ncia ao fen�meno da incorpora��o, por ser o que lhes permite obrar mais conscientemente nas manifesta��es, o que lhes faculta mais amplos recursos intelectuais. Na incorpora��o, o m�dium, imerso em profundo sono, por efeito de uma a��o magn�tica invis�vel, abandona o organismo �s Entidades que se querem manifestar, as quais, apoderando-se dele, entram em rela��o conosco, mediante o emprego da voz, dos gestos e das atitudes. T�o sugestiva e imponente � �s vezes a linguagem do que, por ela, sem sombra de d�vida, se lhes reconhecem o car�ter, a natureza, a identidade. Tanto tem de f�cil a imita��o dos fen�menos f�sicos, tais como as mesas falantes, a escrita autom�tica, o aparecimento de fantasmas, qu�o dif�cil, se n�o imposs�vel, se mostra a simula��o das coisas de elevada ordem intelectual, pois que o talento n�o � imit�vel e ainda menos o g�nio. Muitas ocasi�es temos tido de assistir a cenas deste g�nero e sempre nos deixaram funda impress�o. Viver, um momento que seja, na intimidade dos grandes Seres, vale por uma das raras felicidades concedidas ao homem neste mundo. Gra�as � mediunidade de incorpora��o � que temos podido comunicar com os Esp�ritos guias, com a pr�pria Joana, e receber deles os ensinos e as revela��es que consignamos em nossas obras. Todavia, esta faculdade medi�nica, constituindo para os experimentadores uma fonte de gozo, n�o d� motivo de satisfa��o ao m�dium, que, ao despertar, nenhuma lembran�a conserva do que se passou, enquanto seu Esp�rito esteve ausente do corpo cedido a outro. Uma imensidade de pessoas tem o dom da mediunidade em estado latente. Por toda a parte, nas mo�as, nos rapazes, nas meninas, se encontram em g�rmen faculdades sutis e, em elabora��o, poderosos fluidos, capazes de servirem de liga��o entre o c�rebro humano e as intelig�ncias do espa�o. Ainda nos faltam, por�m, escolas e m�todos para desenvolver cientificamente e com perseveran�a t�o inestim�veis elementos e assim valoriz�-los, tornando-os capazes de produzir todos os frutos que poderiam dar e que colher�amos, se n�o fora a car�ncia, ainda reinante, de preparo met�dico e de paciente estudo. Infelizmente, em vez de frutos, o que com desconsoladora freq��ncia se observa � que, � m�ngua de saber e de um trabalho regular, os promissores embri�es secam e s� flores envenenadas d�o. Pouco a pouco, entretanto, uma ci�ncia nova e uma nova cren�a despontam e se propagam, levando a todos os homens o conhecimento das leis que regem o universo invis�vel e os meios de bem cultivarem as preciosas faculdades medi�nicas, transformando-as em instrumento das grandes Almas deposit�rias dos segredos do Al�m. Os experimentadores, em conseq��ncia, ter�o que renunciar aos acanhados pontos de vista em que se colocam, aos processos rotineiros de uma ci�ncia que j� envelheceu, para se consagrarem � utiliza��o dos poderes do esp�rito, mediante a eleva��o do pensamento, que � o motor supremo, o tra�o de uni�o entre os mundos divinos e as esferas inferiores. E desde logo ver�o que um raio de luz desce do Alto para lhes fecundar as pesquisas e verificar�o que o estudo dos grandes problemas filos�ficos, a pr�tica do dever, a dignidade e a retid�o da vida s�o as condi��es essenciais de bom �xito. Em mat�ria de experimenta��o ps�quica, al�m da ci�ncia e do m�todo, elementos indispens�veis, prodigiosa � a import�ncia dos surtos generosos da Alma por meio da prece. Eles constituem o �m�, a corrente flu�dica que atraem as pot�ncias benfazejas e afastam as influ�ncias funestas, como o demonstra sobejamente a vida inteira de Joana. No dia em que estiverem preenchidas todas essas condi��es, o Novo Espiritualismo ter� entrado plenamente no caminho de seus destinos e, para tantas cren�as que oscilam ao embate das paix�es, como para a alma humana que se chafurda na materialidade, por entre o rebaixamento geral dos caracteres e das consci�ncias, ser� um meio de salva��o, uma for�a, uma f� vivaz e ativa, que unir� o C�u � Terra e enla�ar� as almas e os mundos numa comunh�o eterna e infinita. V - VAUCOULEURS Eis, vou partir! Adeus, v�s todos a quem eu amava. PAUL ALLARD Retomemos o curso da hist�ria de Joana. Vimo-la sair de Domremy. A partir desse dia, as prova��es v�o surgir sob cada um de seus passos e ser�o tanto mais cru�is, quanto lhe vir�o daqueles cuja simpatia, afei��o e amparo devia esperar. S�o-lhe aplic�veis estas palavras: �Ela veio para o meio dos seus e os seus n�o a conheceram� (84). Desde os prim�rdios de sua miss�o, Joana sentiu as penosas alternativas que, depois, freq�entemente, a assaltaram. T�o devotada a seus deveres, t�o submissa � autoridade de seus genitores, ela se v�, mau grado ao amor que a ambos consagra, na conting�ncia de lhes infringir as ordens e de abandonar clandestinamente a casa onde nascera. Seu pai tivera em sonho a revela��o dos des�gnios que ela acariciava. Sonhou, uma noite, que a filha deixava a terra natal, a fam�lia, e partia, acompanhada de homens de guerra. Vivamente preocupado, falou disso aos filhos, ordenando-lhes que, de prefer�ncia a consentirem que se ausentasse assim, �a afogassem no Mosa�. E acrescentava: �Se o n�o fizerdes, fa-lo-ei eu pr�prio!� Joana fora obrigada a dissimular, resolvida, como estava, �a obedecer antes a Deus do que aos homens�. Em Ru�o, os ju�zes lhe fazem carga dessa circunst�ncia: �Acreditavas proceder bem, perguntam-lhe, partindo sem permiss�o de teu pai e de tua m�e?� - �Sempre obedeci a meu pai e a minha m�e em tudo, exceto no que respeitava � minha partida. Mas, depois lhes escrevi e eles me perdoaram�. Mostra-se assim cheia de defer�ncia e submiss�o para com aqueles que a criaram. No entanto, os ju�zes insistem: �Quando deixaste pai e m�e, n�o consideraste estar cometendo um pecado?!� Joana ent�o exprime todo o seu pensamento, nesta bela resposta: �Pois que Deus ordenava, era preciso fazer. Mesmo que eu tivesse cem pais e cem m�es e que fosse filha de rei, ainda assim teria partido! � (85) Acompanhada por um de seus tios, Durand Laxart, a quem, passando por Burey, se reunira, o �nico parente que lhe acreditou na voca��o, o �nico que a animou a executar seus projetos, apresenta-se a Roberto de Baudricourt, comandante de Vaucouleurs, em nome do delfim. O primeiro acolhimento foi brutal: Joana, por�m, n�o desanima, prevenida que fora por sua vozes. Escudada numa resolu��o inabal�vel, nada � capaz de desvi�-la de seu objetivo. Afirma-o em termos en�rgicos � boa gente de Vaucouleurs: �Antes que a quaresma v� a meio, hei de estar na presen�a do rei, ainda que tenha de gastar minhas pernas at� aos joelhos!� E, pouco a pouco, � for�a de insist�ncia, o vide comandante lhe presta mais aten��o aos prop�sitos. Como todos os que dela se aproximavam, Roberto de Baudricourt experimentou o ascendente daquela crian�a. Depois de mand�-la exorcizar por Jean Tournier, cura de Vaucouleurs, e de convencer-se de que nenhuma ten��o m� a guiava, n�o mais ousa negar-lhe cr�dito � miss�o, de obst�culos o caminho. Manda lhe d�em um cavalo e escolta. J� o cavaleiro Jean de Metz, dominado pela ardente convic��o de Joana, lhe prometera conduzi-Ia � presen�a do rei. E, como lhe perguntasse: �Mas, quando?� prontamente ela respondeu �Antes j� do que amanh�, antes amanh� do que mais tarde!� Finalmente, partiu, ouvindo do comandante da pra�a, por despedida, estas palavras de uma frieza pouco animadora: �Vai e suceda o que haja de suceder!� Que importam, entretanto, a Joana tais palavras! N�o � �s vozes da Terra que d� ouvidos, mas �s do Alto, que a estimulam e alentam. As incertezas e perigos do futuro lhe revigoram a for�a da alma e a confian�a, tanto que de cont�nuo repetir� o ditado de sua prov�ncia: �Ajuda-te a ti mesmo, que Deus te ajudar�!� O porvir � de infundir terror. Ela, por�m, de posse das for�as divinas, nenhuma coisa teme! D�, por esta forma, um exemplo a todos os peregrinos da vida. Emboscadas tremendas se multiplicam na estrada que cumpre ao homem percorrer: por todos os lados atoleiros, angulosas pedras, sar�as, espinhos. Todavia, para transpormos t�o perigosos �bices, temos em n�s, dados por Deus, os recursos de uma energia oculta, de que podemos usar com efic�cia, atraindo, pela media��o das pot�ncias invis�veis, os misteriosos socorros do Alto, que nos centuplicam as for�as pessoais, assegurando-nos o bom �xito na luta. Ajuda-te a ti mesmo e Deus te ajudar�! Joana parte, levando por companhia unicamente alguns homens de coragem. Viaja dia e noite por prov�ncias inimigas, para vencer as cento e cinq�enta l�guas que a distanciavam de Chinon, onde reside o delfim Carlos, cognominado, por esc�rnio, o rei de Burges, porque, sob o cetro, somente conserva uns farrapos de reino, vivendo despreocupado de seu infort�nio, absorvido pelos prazeres, cercado de cortes�os, que o traem e secretamente pactuam com o inimigo. Para chegar at� l�, tem que atravessar a terra dos borgonheses, aliados da Inglaterra, caminhar � chuva por atalhos escondidos, vadear rios transbordados, dormir sobre o solo encharcado. N�o hesita um s� instante. Suas vozes lhe repetem sem cessar: Vai, filha de Deus, vai, n�s iremos a teu aux�lio!�E ela vai, vai, a despeito dos obst�culos, por entre todos os perigos. Voa em socorro de um pr�ncipe desesperan�ado e sem coragem. E vede que mist�rio admir�vel! Uma crian�a � quem vem tirar a Fran�a do abismo. Que traz consigo? Algum socorro militar? Algum ex�rcito? N�o, nada disso. Traz apenas a f� em si mesma, a f� no futuro da Fran�a, a f� que exalta os cora��es e desloca as montanhas. Que diz a quantos se apinham para v�-Ia passar? �Venho da parte do Rei do c�u e vos trago o socorro do c�u! � VI - CHINON, POITIERS, TOURS Vai, avan�a ousadamente Que do triunfo ir�s � frente. PAUL ALLARD Para a maior parte dos autores, Joana entrou na Touraine por Amboise, seguindo a estrada romana que se alonga pela margem esquerda do Loire. Teria ent�o vindo primeiramente de Gien a Blois, pelo Sologne. Saindo de Amboise, teria atravessado o Cher, em Saint-Martin-le-Beau, o Indre, em Cormery, e parado em Sainte-Catherine-de-Fierbois, onde havia uma capela consagrada a uma de suas santas. Segundo antiga tradi��o, Carlos Martel, vencedor dos Sarracenos, tendo-os exterminado nos bosques bravios (ferus boscus, Fierbois), depusera a espada na ermida, que se erguia em meio desses bosques. Reconstru�da em 1375, ela era freq�entada pelos cavaleiros e homens d'armas que, para obterem a cura de ferimentos, faziam voto de l� ir a peregrina��o depositar seus gl�dios. A certa altura da estrada, fora posto de alcat�ia, provavelmente pelo p�rfido La Tr�moille, um tro�o de soldados pagos para se apoderarem de Joana. Ao enfrentarem, por�m, com a enviada de Deus, os bandidos ficaram como que pregados ao solo (86). Conforme aos depoimentos, id�nticos, de Poulengy e de Novelonpont, a viagem de Vaucouleurs a Chinon se efetuou em onze dias. Segue-se da�, diz o padre Bosseboeuf, que Joana chegou a Chinon a 23 de fevereiro, numa quarta-feira (87). Wallon, Quicherat e outros dizem ter sido a 6 de marco. Eis aqui a cidade e seus tr�s castelos, cujos contornos se confundem numa extensa massa cinzenta de muros ameados, de torres e torre�es. Ao entrar em Chinon, a pequena caravana desfilou pelas ruas ladeirentas, margeadas de edifica��es g�ticas, com os frontisp�cios chapeados de ard�sias e as quinas ornadas de estatuetas de madeira. Desde logo, �s portas das casas, ou nos ser�es � noite, junto � lareira crepitante, come�am a circular de boca em boca maravilhosos contos, em que figura como protagonista a donzela que viera dos confins da Lorena, para cumprir as profecias e p�r termo � insolente fortuna dos Ingleses. Joana e sua escolta pousaram �em casa de uma boa mulher, perto do castelo� (88), sem d�vida a do gentil-homem Reignier de Ia Barre, cuja vi�va, ou filha, recebeu a Pucela com muita alegria (89). Passou ai dois dias, sem conseguir a audi�ncia que pedira (90). Mais tarde, alojou-se no pr�prio castelo, na torre de Coudray. Afinal, a t�o desejada entrevista lhe foi concedida. Era noite. O flamejar das tochas, o estridular das fanfarras, o aparato da recep��o, tudo isso n�o ir� causar-lhe assombro e intimid�-la? N�o, que ela vem de um mundo mais brilhante do que o nosso. Desde tempos remotos, conheceu magnific�ncias ao lado das quais toda aquela encena��o � por demais descolorada. Muito para l� de Domremy, muito para al�m da Terra, em �pocas que lhe precederam o nascimento, freq�entou moradas mais gloriosas do que a corte de Fran�a e disso guardou a intui��o. Mais vibrante do que o tilintar das armas e o ressoar das trombetas � a voz que lhe fala no �ntimo, repetindo: �Vai, filha de Deus, estou contigo!� Entre meus leitores, alguns h�o-de estranhar estes dizeres. �, pois, chegada � ocasi�o de afirmar, de recordar que o Esp�rito existe anteriormente ao corpo; que, antes de seu �ltimo nascimento na Terra, j� ele percorreu dilatados per�odos de tempo, habitou muitos lugares, e que, revoltando a este mundo a cada nova encarna��o, traz consigo volumosa bagagem de qualidades, faculdades e aptid�es, reunidas durante o passado obscuro que atravessou. H� em todos n�s, nas profundezas da consci�ncia, um amontoado de impress�es e de lembran�as, constitu�do no decurso de nossas vidas antecedentes, seja na Terra, seja no Espa�o. Essas lembran�as e impress�es jazem adormecidas: o espesso manto da carne as abafa e apaga. Mas, �s vezes, e sob a a��o de algum agente exterior, despertam repentinamente. Chispam ent�o as intui��es, ignoradas faculdades reaparecem e nos tornamos, por instantes, um ser diferente do que �ramos aos olhos de nossos semelhantes (91). J� sem d�vida haveis de ter observado certas plantas que se balou�am na superf�cie das �guas dormentes dos lagos. A� tendes uma imagem da alma humana, a flutuar sobre as profunduras sombrias de seu passado, mergulhando as ra�zes em regi�es desconhecidas e long�nquas, donde haure a vivificante seiva, necess�ria � forma��o da flor esplendente que vai desabrochar, crescer, desdobrar-se no campo da vida terrena. Joana foi introduzida num imenso sal�o do castelo, onde se achavam reunidos trezentos fidalgos, cavaleiros e damas da nobreza, ricamente trajados. Que impress�o n�o devera produzir na humilde camponesa aquele espet�culo! De que coragem n�o precisou para afrontar tantos olhares licenciosos ou inquisitoriais, t�o numerosa assembl�ia de cortes�os, que ela percebia lhe ser hostil? L� estavam Regnault de Chartres, chanceler de Fran�a, arcebispo de Reims, sacerdote de alma empedernida, p�rfido e c�pido; La Tr�moille, o grande camarista, homem invejoso e dissimulado, que dominava o monarca e, em segredo, urdia trai��es com os ingleses; o duro e orgulhoso Raul de Gaucourt, mordomo-mor do rei, o marechal Gilles de Retz, infame feiticeiro, mais conhecido pela alcunha de �Barba Azul�; e uma infinidade de outros cortes�os titulares, de padres astuciosos e �vidos. Joana sentia em torno de si uma atmosfera de incredulidade e animadvers�o. Tal o meio em que vivia Carlos VII, amolentado pelo abuso dos prazeres, longe do teatro da guerra, entre os favoritos e as amantes. Suspeitoso e t�mido, o rei, para experiment�-la, pusera no trono um cortes�o e se ocultara na multid�o de fidalgos. A donzela , por�m, vai direto � sua presen�a, ajoelha-se e lhe fala por longo tempo em voz baixa. Revela-lhe pensamentos que ele guardava em segredo, as d�vidas que nutria sobre seu pr�prio nascimento, suas hesita��es ocultas, e um raio de confian�a e de f� ilumina, diz a Cr�nica, o semblante do monarca (92). Os que presenciavam a cena compreenderam, tomados de espanto, que um fen�meno extraordin�rio acabava de operar-se. Entretanto, �ningu�m houve que pudesse crer achar-se a sorte do mais altivo reino da cristandade confiada a tais m�os, nem que ao bra�o d�bil de uma pobre alde� estivesse reservado o desempenho de uma tarefa que malograra os conselhos dos mais avisados e a coragem dos mais fortes� (93). Contudo, Joana ainda teve que suportar muitas humilha��es e sofrer exame feito por matronas, para verifica��o de sua pureza. Em Poitiers, onde a mandaram, comparece diante de uma comiss�o de inqu�rito, composta de uma vintena de te�logos, dois dos quais bispos, os de Poitiers e de Maguelonne. �Era um belo espet�culo, diz Alain Chartier, escrevendo sob a impress�o da cena, v�-Ia disputar, ela, mulher, contra os homens; ignorante, contra os doutores, s�, contra tantos advers�rios�. Todas as suas r�plicas denotam grande vivacidade de esp�rito e s�o sempre de surpreendente oportunidade. A cada momento lhe irrompem dos l�bios ditos chistosos, t�o imprevistos quanto originais, que arrasam as lastimosas obje��es de seus examinadores. Os autos dos interrogat�rios de Poitiers foram destru�dos. Alguns historiadores responsabilizam por essa destrui��o os agentes da coroa da Fran�a, que se mostraram t�o ingratos e indiferentes para com a Pucela durante seu longo cativeiro. N�o nos resta mais do que um resumo das conclus�es a que chegaram os doutores chamados a emitir opini�o acerca de Joana (94). �Nela n�o se encontra maldade alguma, dizem eles, e sim tudo o que � bom; humildade, virgindade, devo��o, honestidade e simples� (95). Possu�mos, al�m disso, os testemunhos do processo de reabilita��o. Frei Seguin, da Ordem dos Dominicanos, exprimia-se assim, com muita bonomia e simplicidade. Eu que vos falo perguntei a Joana de que idioma se servia � voz que lhe falava. - �De um melhor do que o vosso�, respondeu-me. E, com efeito, eu falo. Interrogando-a de novo, disse-lhe: �Cr�s em Deus?� �Sim, melhor do que v�s�, �foi a resposta que me deu� (96). Outro dos ju�zes de Poitiers, Guilherme Aimery, lhe objetava: �Dizes que Deus te prometeu a vit�ria e pedes soldados. Para que soldados, se a vit�ria est� garantida? - �Os soldados batalhar�o em nome de Deus, replicou Joana, e Deus dar� a vit�ria� (97). Quando lhe pedem que mostre os sinais de ser verdade o que diz, isto �, quando lhe pedem milagres, ela observa: �N�o vim a Poitiers para dar sinais de coisa alguma. Levai-me, por�m, a Orle�es e vos mostrarei os sinais de que sou enviada� (98). Pela segunda vez, obrigam-na a sujeitar-se a ser examinada por um conselho de matronas, a que a rainha da Sic�lia preside; para lhe verificarem a virgindade. Depois de sair triunfante de todas essas prova��es, ainda foi for�ada a esperar mais de um m�s, para marchar contra os Ingleses. S� quando a situa��o de Orle�es se torna desesperadora � que Dunois consegue que a enviem, como �ltimo recurso, � frente de um comboio de v�veres. * Joana veio primeiramente a Tours, para mandar fazer sua armadura e seu estandarte. Reinava ai viva agita��o, entregues os habitantes a ativos trabalhos de defesa. A 14 de outubro de 1428, o Marechal de Gaucourt, bailio de Orle�es e mordomo-mor do rei, os avisara de que os Ingleses haviam posto cerco a Orle�es e que tencionavam em seguida marchar sobre T�rones (99). A cidade se aprestava para resistir. Por toda � parte pedreiros, obreiros de toda esp�cie, trabalhadores bra�ais, porfiavam numa atividade febril. Trabalhava-se com ardor em levantar baluartes, cavar e alargar fossos, reparar e aparelhar as pontes. Nas torres e trincheiras, constru�am-se guaritas de madeira para as atalaias. Abriam-se canhoneiras nas muralhas de circunvala��o. Bombardas e colubrinas, balas de pedra, p�lvora, tudo o que compunha a artilharia da �poca estava sendo armazenado. O inimigo podia vir: saberiam responder-lhe. A antiga cidade dos T�rones gozava ent�o de grande import�ncia. Chamavam-lhe as segundas Roma, por causa de seu numeroso igrej�rio, de seus mosteiros e, sobre tudo, por causa da romaria a S. Martinho, para a qual vinham peregrinos de todos os pontos da cristandade. A fim de fazermos id�ia de sua situa��o ao tempo de Joana d'Arc, subamos pelo pensamento a uma das torres da colegiada de S. Martinho, � de Carlos Magno, por exemplo, conservada at� hoje e que encerra o t�mulo de Luitgarde, esposa daquele rei, circunst�ncia que lhe deu o nome. Vista de relance, ela nos apresentar�, mais ou menos, aspecto id�ntico ao que ofereciam todas as grandes cidades francesas da Idade M�dia, raz�o por que conv�m demoremos um pouco a inspe��o. Cintavam-na quatro linhas cont�nuas de muralhas e de torres. No interior desse per�metro, um labirinto de ruas estreitas e pra�as apertadas, ao longo das quais se enfileiravam casas de front�es ogivais e coberturas, denticuladas, com os pavimentos inclinados uns sobre os outros, as portas guarnecidas de estatuetas, vigas esculpidas, altas trapeiras e vidros de cores variadas. Completando t�o pitoresco conjunto, grandes divisas de ferro, recortadas pelas mais extravagantes formas, substituem os n�meros das casas, balan�ando ao vento. Umas t�m sentido hist�rico ou her�ldico, o de outras � emblem�tico, comemorativo ou religioso. Eis aqui, por exemplo, algumas das da Grand' Rue : �Ao Unic�rnio�; �A Pega�; �Aos Padre nossos de Ouro�; �Ao Asno Vigilante�; da pra�a S. Martinho: �Ao Macaco Pregador�, �A Coruja�; da rua de Ia R�tisserie: �As Tr�s Tartarugas�, etc. (100). Do ponto elevado em que nos achamos, observai a floresta de lanternins agudos, de campan�rios, de muros donde emergem os tr�s corpos da catedral, que j� tem a nave principal mais ou menos acabada, por�m, cujas torres s�o altas apenas de dez ou vinte metros, a abadia de S. Juliano e a mole imponente da colegiada de S. Martinho, da qual hoje duas torres somente restam. A nossos p�s, a cidade inteira, com suas cinq�enta igrejas ou capelas, seus oito grandes claustros, cercados de muros, suas numerosas hospedarias e habita��es nobres; verdadeira brenha de flechas, de agulhas, de pontas de minaretes, de torrinhas em forma de fusos, de compridas chamin�s g�ticas. Em baixo, o D�dalo das ruas que se cortam e entrecruzam e as encruzilhadas atravancadas de gente e de cavalos. Prestai aten��o ao sussurro e ao rumor que sobem at� onde estamos. Escute o retinir de todos os sinos a darem as horas. Imaginai, luzindo sobre este panorama, um l�mpido raio de Sol; contemplai os reflexos cambiantes do rio; ao longe, as colinas cobertas de vinhedos, as florestas que ocupam os dois planaltos, especialmente ao Sul, e cujos maci�os profundos formam grandioso quadro � cidade, que se estende pelo rec�ncavo do vale. Considerai tudo isso e fareis id�ia do que era T�rones no dia em que Joana d'Arc l� chegou acompanhada de sua casa militar (101). Conforme ao depoimento de seu pajem Lu�s de Contes, no processo, ela se hospedou na casa de uma senhora chamada Lapau (102). Segundo o testemunho de seu capel�o, Jo�o Pasquerel, foi o burgu�s Jo�o du Puy (103) quem lhe deu agasalho. Essas contradi��es s�o apenas aparentes. Com efeito, o nobre turonense Jehan du Puy era casado com Eleonora de Paul e o povo, sempre avezado �s corruptelas, deformou este �ltimo nome. Yolanda, rainha de Arag�o e da Sic�lia, dera Eleonora, por dama de honra, � sua filha Maria d'Anjou, rainha da Fran�a. �Ela era enjovina, diz de Beaucourt em sua �Histoire de Charles VII� (104), e provavelmente fora educada com a jovem princesa�. Tendo-lhes a rainha Yolanda pedido hospedagem para a estrangeira, que tomara sob sua prote��o, Jo�o du Puy, conselheiro do rei e almotac�s, e sua esposa a acolheram. O pr�dio em que habitavam ficava perto da igreja de Saint-Pierre-le-Puellier e muitos arque�logos julgam reconhec�-la na casa chamada de Trist�o (105). Foi em T�rones que, na qualidade de capel�o,.entrou para o servi�o de Joana frei Pasquerel, ent�o leitor do convento dos Agostinho daquela cidade (106), o qual a acompanhar� fielmente at� ser presa em Compienha, um ano depois. Tamb�m foi em T�rones que a intr�pida menina recebeu seu equipamento militar, a espada e a bandeira. Seguindo suas indica��es, um armeiro da cidade foi procurar a espada que Carlos Martel depositara em Santa Catarina de Fierbois. Estava enterrada atr�s do altar e ningu�m no mundo sabia que se achava ali. Para a hero�na, essa espada sair� da poeira dos s�culos e novamente expulsar� o estrangeiro. Outro armeiro de T�rones lhe fabricou um arn�s de rutilante alvura (107). Obedecendo �s instru��es de suas vozes, Joana mandou fazer, por um artista turonense, uma bandeira branca, que serviria de estandarte e seria o emblema em torno do qual se reuniriam �s tropas dispersas. Ornavam-na franjas de seda e continha, al�m da imagem de Deus aben�oando as flores de lis, a divisa: �J�sus Maria! �(108). A hero�na jamais separava a causa da Fran�a dessa outra, mais alta, a inspira��o divina, donde lhe decorria a miss�o. A 25 de abril de 1429 partiu de T�rones para Blois, onde a esperavam os chefes militares e o grosso do ex�rcito. Doze dias depois, data de imperec�vel mem�ria, ganhava a batalha das Tourelles e for�ava o inimigo a levantar o cerco de Orle�es. Quando deixou T�rones, a popula��o inteira se premia nas ruas para v�-Ia passar e aclam�-la. Envergando a armadura todas brancas, que cintilava ao Sol da manh�, ela, garbosa, fazia caracolar o belo cavalo de guerra que montava. Empunhando a bandeira, trazendo � cinta a espada de Fierbois, avan�ava radiante de esperan�a e de f�. Dir-se-ia o anjo dos combates, como celeste mensageiro. VII � ORLE�ES Entrando em Orle�es, quanto era grande e bela! Premindo-se, os soldados fremem em torno Beta. Para os aben�oar, m�es os filhos lhe mostram, E, � medida que avan�a, eis que todos se prostram! PAUL ALLARD De T�rones a Orle�es a viagem foi uma continua ova��o. Por onde passava, ia Joana semeando a alegria. Se os cortes�os a olham com suspeita e desd�m, o povo esse ao menos acredita nela e na sua miss�o libertadora. Os pr�prios ingleses, tomados de estupor, permanecem im�veis nas trincheiras, vendo desfilar, sob o comando da Pucela, o ex�rcito de salva��o. Os habitantes de Orle�es, loucos de entusiasmo, esquecendo o perigo, transp�em os muros da cidade e correm ao encontro da hero�na. No dizer de uma testemunha ocular, �eles j� se sentiam reconfortados e desassediados pela divina virtude que lhes tinham dito haver naquela simples pucela, que todos consideravam muito afetuosamente, tanto os homens como as mulheres e as crian�as� (109). As campanhas de Joana d'Arc no Loire oferecem um espet�culo �nico na Hist�ria: o dos capit�es de Carlos VII, os Dunois, os La Hire, os Gaucourt, os Xaintrailles, marchando contra o inimigo sob as ordens de uma rapariga de dezoito anos! In�meras dificuldades se lhe atulham. Os Ingleses haviam feito um c�rculo de formid�veis fortifica��es em torno de Orle�es. Dentro em pouco, na cidade reinar� a mis�ria e ser� fatais a rendi��o de uma das maiores e mais fortes pra�as do reino. L� se acham as melhores tropas da Inglaterra, comandadas pelos seus mais h�beis generais, as mesmas que v�m de alcan�ar sobre a francesa longa s�rie de vit�rias. Eis o imenso e principal obst�culo que cumpre � donzela vencer. S�o bravos os que ela comanda, mas est�o desmoralizados por tantas derrotas sucessivas e pessimamente organizados para evitarem novos desastres. Um primeiro ataque �s trincheiras de Saint-Loup, tentado em sua aus�ncia, � repelido. Avisada, a hero�na se arroja a toda brida, com a bandeira desfraldada. Eletriza os soldados e, num �mpeto fascinador, arrasta-os ao assalto. �Era a primeira vez� - diz Anatole France, numa das raras passagens de sua obra, em que lhe faz justi�a - era a primeira vez que Joana via combater e logo, entrando na batalha, se tornou o chefe, porque era melhor que todos. Fez mais do que os outros. N�o que fosse mais versada do que eles em coisas de guerra; era-o muito menos; mas, por ter o cora��o mais abnegado. Quando cada um pensava em si, ela pensava em todos; quando cada um tratava de se resguardar, ela a tudo se expunha, pois de antem�o se votara sem reserva ao sacrif�cio. Assim, aquela crian�a que, como qualquer criatura humana, temia os sofrimentos e a morte, a quem suas vozes, seus pressentimentos haviam anunciado que seria ferida, tomou lugar � frente dos guerreiros e, sob uma chuva de proj�teis arremessados pelas bestas e colubrinas, permaneceu de p� � borda do fosso, empunhando o estandarte, para manter unidos os combatentes�(110). Com esse vigoroso ataque, conseguiu romper as linhas inglesas. Uma a uma, as fortifica��es foram tomadas e em tr�s dias Orle�es estava livre do cerco. Depois, os combates se sucedem, como rel�mpagos num c�u de fogo. Cada assalto � uma vit�ria. E' Jargeau, � Meung, � Beaugency! Finalmente, em Patay, os ingleses s�o batidos em campo raso e o General Talbot, que os comandava, cai prisioneiro. Em seguida, as tropas libertadoras marcham sobre Remos e Carlos VII � sagrado rei da Fran�a. Em dois meses Joana reparara todos os desastres; reconstitu�ra, moralizara, disciplinara, transfigurara o ex�rcito e reerguera todas as coragens. �Antes dela, dizia Dunois, duzentos ingleses punham em fuga mil franceses; com ela, algumas centenas de franceses for�am um ex�rcito inteiro a recuar� (111). �No Mist�rio do Cerco�, drama popular, representado pela primeira vez no ano de 1456, em Orle�es, um dos atores exclama: Um s� de n�s vale por cem sob o estandarte da Pucela (112). Alguns autores, como Thalamas (113), julgaram poder afirmar que a situa��o de Orle�es em 1429 n�o chegara a ser t�o grave, quanto geralmente se diz. Os ingleses eram pouco numerosos e os borgonheses se haviam retirado. A cidade, bem abastecida, se achava em estado de resistir longo tempo e os orleaneses podiam libertar-se unicamente por seus pr�prios esfor�os. N�o s� todos os historiadores, Micheles, Henri Martin, Wallon, Lavisse, etc., s�o un�nimes em atestar a situa��o prec�ria dos sitiados, como tamb�m o afirma um outro escritor, nada suspeito de parcialidade em favor de Joana: Anatole France, que escreveu os seguintes �Perturbados pelas d�vidas e temores, ardendo de inquieta��es, sem sono, sem repouso, n�o avan�ando um passo em qualquer sentido, os orleaneses come�avam a desesperar� (114). Enquanto isso, os ingleses aguardavam novos refor�os prometidos pelo Regente. Cinco mil combatentes se reuniram em Paris sob as ordens de Sir John Falstolf, com abundantes v�veres, para marchar em auxilio dos sitiantes (115). Lembremos ainda mais o depoimento do duque d'Alen�on no processo de reabilita��o. Falando das tem�veis fortifica��es constru�das pelos ingleses, diz: �Se me achara em qualquer delas com um punhado de homens armados, ousara desafiar o poder de um ex�rcito e creio bem que os atacantes n�o lograriam tom�-las. E, de fato, os capit�es que tiveram parte nas opera��es me declararam que algo de miraculoso houve no que se fez em Orle�es!� (116). A estes testemunhos conv�m aditar a afirma��o de um dos sitiados, Jo�o Luillier, not�vel comerciante da cidade, o qual assim se exprimia: �Todos os meus concidad�os e eu estamos certos de que, se a Pucela n�o viera socorrer-nos, em pouco ter�amos ca�do nas m�os dos sitiantes�. Fora imposs�vel aos orleaneses conseguirem resistir por muito tempo �s for�as inimigas, cuja superioridade era enormes (117). O entusiasmo dos habitantes d� a medida dos perigos por que passaram: �ap�s a liberta��o da pra�a, os orleaneses se ofereciam a Joana para que a hero�na dispusesse deles e de seus bens � vontade�, diz-nos o �Journal du Si�ge� (118). N�o menos probante � o testemunho que um modesto tabeli�o da cidade, Guilherme Girault, deixou consignado numa p�gina de um de seus livros de assentamentos. Em meio das aclama��es de toda a Fran�a, Girault escrevia que o livramento de Orle�es fora o �milagre mais evidente que j� houvera depois da Paix�o� (119). Esta parte da vida de Joana � rica de fen�menos de premoni��o, que devemos acrescentar aos j� assinalados. Suas vozes lhe haviam dito que, quando ela entrasse em Orle�es, os ingleses n�o se mexeriam. O fato se verificou. As chalanas que tinham de atravessar o rio para embarcar os v�veres n�o podiam faz�-lo, por ser contr�rio o vento que soprava. Joana diz: �Esperem um pouco. Tudo entrar� na cidade�. Com efeito o vento mudou e enfunou as velas (120). Nenhuma inquieta��o lhe produziu a partida do Marechal de Boussac, � frente do segundo comboio de v�veres. Dizia: �Sei que n�o lhe acontecer� mal algum.� E assim foi. Pouco a pouco, a alegria dos orleaneses ganha toda a Fran�a. � medida que as vit�rias de Joana se sucedem, o rei as comunica �s suas �boas cidades�, convidando as popula��es a �louvarem a Deus e renderem homenagem a Pucela, que sempre estivera presente � execu��o de todas estas coisas� (121). Por toda � parte as not�cias s�o recebidas com j�bilo delirante e o povo consagra � hero�na um culto cada dia mais elevado. * H� 480 anos, Orle�es festeja o anivers�rio de t�o prodigiosos acontecimentos. Graciosamente convidado pelo Maire, tive ocasi�o de assistir a muitas dessas solenidades (122). Transcrevo aqui as notas que ent�o escrevi, sob a impress�o do momento: O grande sino de alarma, velha testemunha do ass�dio, o mesmo que assinalava os movimentos dos ingleses, toca de quarto em quarto de hora. Suas vibra��es sonoras se propagam por sobre a cidade, se instilam pelas ruas estreitas e tortuosas da antiga Orle�es, penetram at� ao fundo das casas, despertam nos cora��es a lembran�a do levantamento do cerco. Acudindo-lhe ao chamado, logo todos os sinos das par�quias entram a bimbalhar. Suas a�reas vozes se elevam no espa�o e formam um concerto portentoso, em que predominam as notas graves do grande sino, sons que impressionam as almas sonhadoras. A cidade inteira se apresenta enfeitada e empavesada. Por cima dos edif�cios flutuam bandeiras; nas sacadas e janelas, misturam-se os pavilh�es nacionais e os estandartes com as cores e as armas da Pucela. A multid�o enche as ruas e pra�as. Abundam forasteiros, vindos uns dos arredores, outros de pontos long�nquos da Fran�a e at� do estrangeiro. Significativa particularidade! todos os anos, grande n�mero de ingleses v�m participar das festas da virgem Lorena. Entre os prelados franceses, via-se o cardeal Vaughan, arcebispo de Westminster. Um povo que procede assim n�o � um povo sem grandeza. Em parte alguma a lembran�a de Joana d'Arc se conservou t�o viva. Em Orle�es, tudo nos fala da Pucela. Cada esquina de rua, cada monumento nos recorda um epis�dio do cerco. Durante quatro s�culos, a Fran�a desconheceu sua hero�na. O sil�ncio e a obscuridade lhe envolveram a mem�ria. S� Orle�es nunca a esqueceu. A partir de 1430, um ano depois de levantado o s�tio, foram institu�das a cerim�nia e as prociss�es comemorativas e, desde ent�o, a municipalidade e o clero, numa digna emula��o, se esfor�am por dar � solenidade novos atrativos, sempre que ela se repete. Espet�culo raro e tocante: todos os poderes se unem para tornar a manifesta��o cada vez mais brilhante. S� a mem�ria de Joana � hoje capaz de restabelecer a uni�o dos pensamentos e dos cora��es, do mesmo modo que ela em pessoa restabeleceu a unidade da Fran�a, no momento dos supremos desastres e do esboroamento. Na noite de 7 de maio, por volta das 8 horas, Joana, vitoriosa nas Tourelles, entrava na cidade assediada. Comovedora e inolvid�vel cerim�nia consagra anualmente a lembran�a desse fato. O Maire, levando � frente a bandeira da hero�na, uma bandeira branca com as flores de lis bordadas a ouro, seguido pelos conselheiros municipais, sai da Municipalidade e vem at� ao adro da catedral, onde passa o estandarte sagrado �s m�os do bispo, que ali o aguarda cercado do clero e dos prelados estrangeiros. Sob uns c�us escuros, carregados de nimbos, avulta as torres maci�as da bas�lica da Santa Cruz. As tropas formam quadradas; troa o canh�o; o sino grande, o bord�o da catedral, e os das outras igrejas repicam vibrantemente. Abrem-se as portas do vasto templo; a passos lentos, o cortejo dos bispos e dos padres as transp�e e se estende ao longo dos p�rticos escancarados, diante dos quais se v�em desfraldadas as bandeiras de Santo Aignan e Santo Euverte, padroeiros da cidade. Ao clar�o das tochas, que os cavaleiros empunham, rutilam as mitras e os b�culos. L�mpadas, que subitamente se acendem no interior das torres, as iluminam, emprestando-lhes cores fant�sticas. Uma luz purp�rea se derrama por sobre os flor�es, as ogivas, o rendilhado de pedra da fachada, as bandeiras ondulantes, as estolas e as sobrepelizes. Etendard de Ia d�livrance A ia victoire tu menaa nas aietax. Fils de ces preux, disons comine eus: Vive Jeanne! Vive Ia France! Um fr�mito, um alento forte passa pela multid�o atenta e concentrada. As frontes se inclinam diante da bandeira branca, ornada de flores de lis, que lentamente sobe os degraus e desaparece em baixo das ab�badas, semelhando o fantasma da virgem Lorena a mostrar-se no seu anivers�rio. As grades tornam a fechar-se; apagam-se as luzes; as harmonias emudecem; a multid�o se retira e a bas�lica torna � escurid�o e ao sil�ncio nas trevas da noite. * 8 de maio, 10 horas. Batida pelos raios do Sol, a catedral se ostenta ornamentada de auriflamas e pavilh�es. E' s�bria, mas de muito efeito a decora��o interna. Longas bandeiras vermelhas e ouro, as cores de Orle�es, enfeitam o coro. Suspensos aos pilares, v�em-se os bras�es do Bastardo e dos outros companheiros da Pucela. Na altura do �rg�o, dominando todo o conjunto, as armas de Joana (123), num quadro virginal de alv�ssimos estofos. Nenhum lugar vazio na vasta nave. A Fran�a inteira: ex�rcito, magistratura, clero, poderes municipais, burgueses, artistas, est� representada naquela reuni�o. Aos uniformes agaloados, �s togas encarnadas dos ju�zes e aos trajes pretos dos funcion�rios, mesclam-se os garridos vestu�rios e os chap�us floridos das senhoras. O of�cio come�a pela �Missa em mem�ria de Joana d'Arc�, de Gounod. As harmonias do �rg�o, juntam-se as fanfarras de guerra e em seguida um coro de donzelas entoa as �Vozes de Joana�, do mesmo autor. As notas puras do canto descem da elevada tribuna, como se foram melodias celestes. Dir-se-ia um eco das esferas ang�licas, uma como evoca��o da virgem m�rtir que, Esp�rito radioso, todos sentem pairando sob aquelas ab�badas. Por um instante, esquecem-se as tristezas e as dores terrenas. A impress�o � grandiosa e profunda; de muitos olhos marejam l�grimas. Elevo ent�o a Joana o pensamento, dirijo-lhe ardente prece e um raio do Sol, coando-se atrav�s das vidra�as brasonadas, me banha de luz, enquanto que, ao meu derredor, larga sombra cobre a multid�o comprimida dos ouvintes. Depois, o bispo de Orle�es faz o paneg�rico da Pucela. Reconduz-nos � Terra e, em frases calorosas, exp�e a situa��o da cidade durante o cerco. Diz: Certamente ela se defende bem, a nobre cidade! Paris � inglesa, seja; Orle�es se conservar� francesa. Paris � apenas a cabe�a do reino; Orle�es � o cora��o. Enquanto o cora��o bate, restam esperan�as. Almotac�s, povo, burgueses, clero, guerreiros, resolvem morrer de prefer�ncia a se renderem. Queimar�o os arrabaldes, desmantelar�o as igrejas, estar�o dia e noite de atalaia; os negociantes bater-se-�o como se tal fora sua profiss�o habitual; e assim dar�o tempo ao rei de mandar refor�os. E, viva Deus! ver-se-� para que lado pende a sorte das batalhas. �Mas, a� o rei, nem dinheiro, nem soldados enviava; os sitiantes apertavam o cerco; erguiam fortifica��es de semana a semana; os viveres se esgotavam e a fome, a horr�vel fome, devastava (124). Mais meio m�s, e Orle�es sucumbir�o e o reizito de Bourges nem sequer continuar� a ser o simples reizito de Burges e a Fran�a baixar� ao t�mulo em que jazem as na��es mortas...� Pouco adiante, pinta o del�rio dos habitantes, ap�s as vit�rias de Joana: �Ah! os oito dias que se seguiram � jornada de Patay, quanto devera ser bom viv�-los! Qu�o mais suave deve ter parecido a Primavera! qu�o mais luminosa a superf�cie do nosso L�ger e embalsamado o nosso Vale de ouro! Podeis imaginar as visitas em a��o de gra�as a todas as vossas igrejas; os cantares que n�o mais cessavam; os entusiasmos de que eram objeto os her�is da maravilhosa epop�ia; o povo respirando pela primeira vez, depois das opress�es da guerra de Cem Anos; numa palavra, esta cidade aclamando-se a si mesma, na vit�ria da Pucela, e a ressurrei��o da P�tria?� Desce do p�lpito o orador. A turba imensa se precipita para o adro, baralha-se com as for�as do ex�rcito, ziguezagueia por entre os bispos, as bandeiras, as rel�quias, e a tradicional prociss�o desfila, comprida de dois quil�metros, sob um c�u escampo, atrav�s das ruas empavesadas. Vai percorrer as esta��es marcadas pelas vit�rias de Joana, em Orle�es sitiada. No local do forte das Tourelles uma cruz modesta guarda a mem�ria daquela, diz a inscri��o, que, �por seu valor, salvou a cidade, a Fran�a e seu rei�. A� a �ltima parada. Troa de novo o canh�o e as bandas militares sa�dam o estandarte; o cortejo regressa ao ponto donde partira e se dispersa. Contente, a multid�o vai entregar-se a seus folgares, enquanto os verdadeiros amigos de Joana ir�o orar e meditar na solid�o. VIII � REMOS Da Fran�a o reino, ao delfim, Restituir aqui vim. SAINT-YVES D'ALVEYDRE Cumprira-se a profecia de Joana com rela��o a Orle�es. Restava o segundo ponto: a marcha sobre Remos e a sagra��o de Carlos VII. Sem perda de um instante, a Pucela se p�s em campo para realiz�-la at� ao fim. Deixou o Orle�es e foi em busca do delfim no interior da Touraine. Encontrou-o em T�rones e dai o acompanhou a Loches, insistindo continuamente para que ele preparasse tudo que era necess�rio ao �xito da audaciosa empresa. Mas, indolente, sem vontade pr�pria, o pr�ncipe hesitava entre as solicita��es da hero�na e as observa��es de seus conselheiros, que julgavam temer�rio arriscar-se a uma viagem de sessenta l�guas, atravessando um pa�s eri�ado de fortalezas e de pra�as ocupadas pelo inimigo. A essas obje��es, Joana respondia invariavelmente : �Bem sei; mas, nada disso merece considera��o. Seremos bem sucedidos! � O entusiasmo do povo e do ex�rcito se alastrava progressivamente. De todos os lados se ouvia que era preciso aproveitar o aturdimento dos ingleses, que haviam evacuado o L�ger e se retiravam para Paris, abandonando bagagens e artilharia. At� a�, jamais tinham recebido t�o violento golpe. Aterrorizados, criam ver nos ares ex�rcitos de fantasmas, avan�ando para combat�-los. Por toda a Fran�a ecoava o rumor dos acontecimentos. Com o renascer da confian�a, despertavam as energias. T�o forte se fez a corrente da opini�o, que Carlos VII n�o p�de permanecer indiferente. Cumulou de honras a libertadora e sua fam�lia, continuando, entretanto, indeciso, sem coragem. Nem sequer foi visitar os orleaneses. Seus influentes conselheiros, La Tr�moille e Regnault de Chartres, viviam inquietos, intimamente irritados com o bom �xito da obra de Joana, que os punha na sombra, ciosos do prest�gio que a constitu�a objeto da aten��o e das esperan�as de todos. Assustava-os a possibilidade de verem submergir na poderosa e irresist�vel caudal do sentimento popular, que fizera recuar a invas�o inglesa, o cr�dito e a fortuna de que se orgulhavam. Afinal, a voz p�blica se tornou clamor e n�o houve rem�dio sen�o ceder. Reuniu-se em Gien um ex�rcito de 12.000 combatentes. De todas as partes acorriam os gentis-homens. Os que, por muito pobres, n�o podiam equipar-se, pediam para servir como infantes. A 29 de junho, partiu a expedi��o, com pouco dinheiro, escassos viveres e insuficiente artilharia. A 5 de julho chegou a Troyes. A cidade, muito forte, bem provida e defendida por uma guarni��o anglo-borgonhesa, recusou abrir as portas. Os ex�rcitos franceses, carentes de recursos, n�o podia empreender um longo ass�dio. Ao cabo de alguns dias, os soldados j� estavam reduzidos a se alimentarem de favas e das espigas de trigo que encontravam nos campos. O rei convocou um conselho para deliberar sobre as resolu��es que deviam ser tomadas. Quanto � Pucela, nem ao menos a convidaram. O chanceler exp�s a triste quest�o: deve o ex�rcito retroceder, ou continuar a marcha para Remos? A cada um dos presentes cumpria responder por sua vez. Roberto le Masson, senhor de Tr�ves-sur-Loire, fez ver que, n�o tendo o rei empreendido aquela opera��o, nem por consider�-la f�cil, nem por ter �s suas ordens um ex�rcito poderoso e o dinheiro preciso para mant�-lo, mas porque Joana afirmava que tal era a vontade de Deus e que nenhuma resist�ncia haviam de encontrar, convinha antes de tudo consultar a hero�na. Esta proposta logrou geral aprova��o. Ora, no momento mesmo em que isso se dava, Joana, prevenida por suas vozes, batia fortemente � porta. Entrou e, dirigindo-se ao rei, disse: �Gentil rei da Fran�a, se consentirdes em ficar mais dois dias apenas diante da vossa boa cidade de Troyes, ela, por for�a ou por amor, vos prestar� obedi�ncia, n�o tenhais a menor d�vida!� - Replicou o chanceler: �Se tiv�ssemos a certeza de que isso se verificaria em seis dias, esperar�amos de boamente!� - �N�o duvideis!� replicou Joana. E, sem tardan�a, p�s-se a percorrer os acampamentos, a fim de organizar o ataque, infundindo em cada um o ardor de que se sentia possu�da. A noite passou-se em preparativos. De cima das muralhas e das T�rres, os sitiados observavam os campos franceses, presos de febril atividade. A luz de archotes, cavaleiros, escudeiros, soldados trabalhavam � porfia, entupindo os fossos, preparando a faxina e as escadas, construindo abrigos para a artilharia. Era um espet�culo fant�stico e de impressionar. Aos primeiros arreb�is da madrugada, os habitantes de Troyes viram, terrificados, que tudo estava disposto para um furioso assalto: as colunas de ataque colocadas, com suas reservas, nos pontos mais favor�veis; as poucas pe�as de artilharia bem abrigadas e prontas a abrir fogo; os arqueiros e besteiros em seus postos de combate. 0 ex�rcito inteiro, formado em sil�ncio, esperava o sinal. De p�, junto ao fosso, com o estandarte na m�o, a Pucela ia ordenar �s trombetas que tocassem a avan�ar, quando os sitiados, transidos de pavor, pediram lhes permitisse capitular. F�cil foi o acordo sobre as condi��es da rendi��o. Interesse m�ximo tinha o rei em poupar as cidades que se quisessem entregar. No dia seguinte, 10 de julho, a guarni��o inglesa se retirava, levando como prisioneiros de guerra alguns franceses, cuja sorte os negociadores esqueceram de regular. Esses desgra�ados, ao passarem por Joana, lan�aram-se-lhe aos p�s, implorando-lhe que interviesse a favor deles. A hero�na se op�s energicamente a que fossem levados e o rei teve que os resgatar a dinheiro. Seguindo o exemplo de Troyes, Ch�lons e Remos abriram as portas a Carlos VII. Em Ch�lons, foi dada a Joana a satisfa��o de encontrar muitos habitantes de Domremy, que ali tinham vindo para v�-Ia, entre eles o lavrador G�rardin, de cujo filho Nicolau era ela madrinha. A esses amigos confiou tudo o que lhe ia ao pensamento e no cora��o, expondo as esperan�as que nutria e os temores que a afligiam, narrando as lutas que sustentara, as vit�rias que obtivera, falando do esplendor da sagra��o pr�xima e da ressurrei��o da Fran�a, at� ent�o aviltada e espezinhada. Sentia-se � vontade e se expandia sem reservas no meio dessa gente humilde, por�m boa, que lhe trazia viv�ssima recorda��o da inf�ncia. Fazia-lhes compreender que aquelas gl�rias a deixavam impass�vel e qu�o grande lhe seria o prazer de voltar para sua aldeia, de retomar, com a vida tranq�ila de outrora, as ocupa��es campestres, no seio da fam�lia. Sua miss�o, entretanto, a retinha perto do rei e for�oso lhe era submeter-se � vontade do Alto. Menos a inquietava a guerra contra os ingleses, do que as intrigas da corte e a perf�dia dos poderosos. �Nada receio, sen�o a trai��o�, dizia-lhes (125). E, com efeito, pela trai��o � que viria a perecer. Contra todo grande mission�rio, tramando-lhe a perda, haver� sempre, agachado na sombra, um traidor. * No profundo azul do c�u se recortam as altas torres da catedral de Remos, j� velha de muitos s�culos, na �poca de Joana d'Arc. Pelas tr�s largas portas, abertas de par em par, se lobrigam as vastas naves resplandecentes � luz de milhares de c�rios e nas quais se comprime uma multid�o policromia de padres, fidalgos, homens d'armas e burgueses em trajos de festa. As vibra��es dos c�nticos sacros enchem as ab�badas e, por instantes, ressoam as notas estridentes das fanfarras de guerra. Apinham-se no adro as confrarias, as corpora��es com seus estandartes, todos os que n�o conseguiram lugar na bas�lica. Cerca o edif�cio imensa turba de populares, cidad�os e camponeses dos arredores, contida a custo por cavaleiros barbados de ferro e por arqueiros que ostentam nos uniformes as armas da Fran�a. Pajens e escudeiros seguram pelas r�deas as magn�ficas cavalgaduras do rei, dos pares e dos chefes militares. E' objeto da curiosidade geral os cavalos pretos da Pucela, que um soldado de seu s�q�ito mant�m preso. Penetremos na alta nave g�tica e avancemos at� � capela-mor. O rei, cercado dos doze pares do reino, leigos e eclesi�sticos, ou de seus suplentes, e do condest�vel Carlos d'Albert, que conduzia a espada da Fran�a, acaba de ser armado cavaleiro. Perto, encostada ao pilar da direita, no s�tio que ainda hoje se aponta, est� Joana, armada em guerra, empunhando seu estandarte branco, aquele estandarte, que �depois de ser l�baro de tantos trabalhos, viria a ser objeto de subidas honras� (126). A un��o, o monarca recebeu-a do arcebispo de Remos, Reinaldo de Chartres, que, tomando a coroa de sobre o altar, a entregou aos dozes pares, os quais, com os bra�os erguidos, a sust�m por cima da cabe�a do rei. Depois de hav�-la cingido, Carlos de Valois revestiu os mantos reais, azuis, ornados de l�rios douro. Nesse momento, a Pucela, num �mpeto de emo��o, lan�ando-se-lhe aos p�s, se lhe abra�ou aos joelhos e disse: �Gentil sire, est� feito assim o que foi do agrado de Deus, cuja vontade era que eu levantasse o cerco de Orle�es e vos trouxesse a esta cidade de Remos, a fim de receberdes a� a vossa digna sagra��o e provardes por essa forma que sois verdadeiramente rei e herdeiro da coroa da Fran�a.� Clangorejam de novo as trombetas e o cortejo se move. Quando, no limiar da porta principal, aparece o rei, uma oscila��o imensa se produz na multid�o e as aclama��es reboam. As eminentes ab�badas vibram ao som das fanfarras. Pelo espa�o, elevam-se os c�nticos, os gritos de alegria e milhares de vozes lhes respondem do invis�vel. Eles l� est�o, todos os grandes Esp�ritos da G�lia, festejando o renascimento do pa�s natal, todos os que amaram e serviram at� � morte � nobre terra da Fran�a. Pairam por, sobre o povo em del�rio. Eis aqui Vercing�torix, acompanhado dos her�is de Gerg�via e de Al�sia! Eis Cl�vis e seus Francos! Ali, Carlos Martel e seus companheiros! E Carlos Magno, o grande imperador de crescida barba! Com sua espada, a Joyeuse, ele sa�da Joana e o rei Carlos. Al�m, Rolando e os valorosos! E a coorte inumer�vel dos cavaleiros, dos sacerdotes, dos monges, dos populares, cujos corpos repousam sob as pesadas l�pides das tumbas, ou sob o p� dos s�culos, todos os que deram a vida pela Fran�a! L� est�o e tamb�m gritam: Natal! festejando a ressurrei��o da p�tria, o acordar da G�lia! ... O cortejo se distende pelas ruas estreitas e pelas augustas pra�as. Ladeando o rei, v�-se Joana em seu garboso ginete, com a bandeira desfraldada; v�m a seguir os pr�ncipes, os marechais e os capit�es, ricamente trajados e cavalgando magn�ficos corc�is. Pend�es, fl�mulas e estandartes flutuam ao vento. Mas, entre os fidalgos de suntuosas vestes e os guerreiros de rebrilhantes armaduras, o alvo dos olhares curiosos era a donzela, que os conduzira � cidade da sagra��o, conforme predissera em sua aldeia, quando n�o passava de simples camponesa, de pastorinha desconhecida. Intensa alegria dominava a cidade inteira. De muito longe viera gente para assistir � coroa��o. Jaques d'Arc, pai de Joana, chegara de Domremy dois dias antes, com Durand Laxart. Hospedaram-se no albergue da Zebra, rua do Adro. Emocionante cena se desenrola quando a hero�na, em companhia de seu irm�o Pedro, se encontra com o velho pai. Prostrando-se de joelhos, ela lhe pede perd�o de haver partido sem o seu consentimento, acrescentando que essa era a vontade de Deus. Cedendo a inst�ncias suas, o rei os recebeu e outorgou aos habitantes das aldeias de Greux e Domremy isen��o de todos os tributos e impostos. As despesas de Jaques d'Arc foram pagas pelos cofres p�blicos e em nome da cidade lhe ofereceram um cavalo para regressar � sua aldeia. Joana percorreu as ruas, acolhendo com mod�stia os humildes e os mendigos. O povo se apertava ao redor dela; todos queriam tocar-lhe as m�os e o anel. Ningu�m havia que n�o estivesse convencido de que fora enviada por Deus, para fazer cessar as calamidades que pesavam sobre o reino. Tudo isso ocorria num domingo, a 17 de julho de 1429, data que assinala o ponto culminante da epop�ia de Joana d'Arc. Todavia, Michelet se equivocou, quando disse que a miss�o de Joana devia terminar em Remos e que ela desobedeceu �s suas vozes, continuando a luta. As pr�prias palavras da hero�na, suas declara��es aos examinadores de Poitiers e aos ju�zes de Ru�o desmentem semelhante asser��o. Mais positivo � ainda o desmentido, na intima��o que dirigiu aos capit�es ingleses diante de Orle�es, em documento datado de 22 de mar�o De onde quer que encontre vossos homens na Fran�a, fa-los-ei sair, queiram ou n�o queiram... �Vim da parte de Deus para vos p�r fora de toda a Fran�a� (127). Nenhuma d�vida, portanto, � poss�vel. A vers�o, segundo a qual o papel de Joana findava em Remos, come�ou a ter curso por ocasi�o do processo de reabilita��o, colimando esconder dos postemos a deslealdade, poder-se-ia dizer o crime, de Carlos VII e de seus conselheiros e livr�-los das tremendas responsabilidades que pesam sobre um e outros. Tiveram o cuidado, obedecendo a esse intuito, de fazer com que a Hist�ria fosse falsificada, mutilada, os depoimentos alterados, destru�do o registro dos interrogat�rios de Poitiers, que, em suma, se praticasse um ato odioso, uma obra de mentira e de iniq�idade! (128). Contudo, n�o foi sem apreens�o, sem pesar, j� o vimos, que Joana prosseguiu na sua �rdua tarefa. Alguns dias depois, indo a cavalo entre Dunois e Reinaldo de Chartres, dizia: �Quanto eu estimara que a Deus prouvesse permitir-me regressar agora, abandonando as armas, voltar ao servi�o de meu pai e de minha m�e e � guarda de seus rebanhos, na companhia de minha irm� e de meus irm�os, que se sentiriam muito felizes por me tornarem a ver� (129). Estas palavras demonstram que o fulgor dos triunfos e os esplendores da corte n�o a deslumbraram. Atingira o fast�gio da gl�ria, constitu�ra-se o �dolo de um povo, era na realidade a primeira do reino e seu prest�gio eclipsara o de Carlos VII. Entretanto, tinha por �nica aspira��o tornar � paz dos campos, �s do�uras do lar paterno. Nem as vit�rias, nem o poderio que adquirira a haviam transmudado. Conservava-se simples e modesta, em meio das grandezas. Que li��o para aqueles que se embriagam e enchem de orgulho com o bom �xito no mais insignificante empreendimento, para aqueles a quem os favores da fortuna causam vertigem! IX � COMPIENHA Nada receio, sendo a trai��o. JEHANNE A Paris! clamava a Pucela no dia seguinte ao da sagra��o. A Paris! repetia o ex�rcito inteiro (130). Se houvessem marchado logo sobre a capital, como Joana queria, teriam tido ensanchas de penetrar facilmente na cidade, gra�as � confus�o que reinava entre os ingleses. Mas, Carlos VII perdeu uns tempos preciosos, que o duque de Bedford aproveitou para refor�ar a defesa daquela pra�a, requisitando da Inglaterra o aux�lio de um ex�rcito, que o cardeal de Winchester, tio do rei Henrique, levantara com o objetivo de combater os Hussitas. A� come�a a estrela de Joana a empalidecer. Aos triunfos, �s brilhantes vit�rias, v�o seguir-se �s horas trevosas, as horas de prova��o, que preceder�o o encarceramento e o supl�cio. � medida que a fama da hero�na se dilata, que sua gl�ria sobrepuja todas as gl�rias, o �dio se lhe avoluma em torno e as intrigas se tecem entre os grandes fidalgos, cujos planos e tenebrosas maquina��es ela viera frustrar. Todos aqueles cortes�os p�rfidos, que se sentem eclipsados, aqueles ministros da Igreja, cujas almas destilam fel, que lhe n�o perdoam o dizer-se, menosprezando-lhes a autoridade, enviada do c�u e o preferir-lhes aos conselhos as inspira��es das vozes que escutava; muitos at� dos chefes militares vencidos em centenas de combates e que se v�em desbancados no que respeita � ci�ncia da guerra, todos esses homens, feridos no orgulho, juraram perd�-la e s� esperam o momento prop�cio. Vem pr�ximo esse momento. Os ingleses, a seu turno, est�o aterrados com os reveses sofridos. Fora destro�ado o principal ex�rcito de que dispunham. Morreram ou ca�ram prisioneiros os melhores capit�es com que contavam. Seus soldados desertam de medo da Pucela, a �feiticeira da Fran�a�, como lhe chamam e de cujo sobre-humano poder n�o duvidam. Assim, � inquestion�vel que, se Carlos VII, logo ap�s a sagra��o, tivesse avan�ado sobre Paris, a grande cidade se teria rendido sem combate. Em vez disso, seis semanas se gastam em hesita��es e quando, por fim, defrontam com a capital, nenhuma precau��o tomam. As ordens de Joana n�o s�o cumpridas; deixam de entupir os fossos e de sustentar o ataque. Deram-lhe por ajudantes os dois comandantes que mais a hostilizavam, �os homens mais ferozes que j� existiram�, diz Michelet: Raul de Gaucour e o Marechal de Retz, o odioso bruxo, que mais tarde subir� ao cadafalso para expiar o crime de feiti�aria (131). O rei n�o quis mostrar-se �s tropas. Em v�o mandavam-lhe mensagens sobre mensagem; n�o vinha. O duque d'Alen�on correu a busc�-lo em Senlis. Prometeu ir e faltou � palavra. No ataque � porta Saint-Honor�, Joana, como sempre, se portou heroicamente. Durante um dia todo permaneceu junto ao fosso, sob uma saraivada de projeteis, incitando os soldados ao assalto. Ao cair da tarde, recebeu um tiro de besta, que a feriu profundamente na coxa, obrigando-a a deitar-se no talude. Ainda assim, n�o cessava de exortar os franceses, exclamando continuamente: �O rei! o rei! o rei que apare�a!� O rei, por�m, nunca apareceu. Por volta das onze horas da noite, vieram retir�-la dali e a levaram contra a vontade. As for�as recuaram para Saint-Denis, onde j� o monarca se encontrava, tomando provid�ncias a fim de regressar aos castelos do L�ger. Joana n�o podia resignar-se a perder de vista os campan�rios de Paris acera como se estivesse presa � grande cidade por uma for�a extra-humana� (132). No dia seguinte, quis recome�ar o ataque. Por�m, que aconteceu? N�o puderam mais passar. O rei havia mandado destruir as pontes e impusera a retirada. Cometeu-se assim uma das maiores inf�mias que a Hist�ria registra. Coligaram-se contra a divindade aqueles mesmos a quem Ela enviara um messias salvador. Lograram desta forma entravar a miss�o de Joana d'Arc e, segundo a forte express�o de Henri Martin, �obrigaram Deus a mentir�. Revelaram tal ego�smo e t�o grande cegueira que, por sua pr�pria indignidade, sustaram a a��o da Provid�ncia. Com o desastre diante dos muros de Paris, abre-se para Joana extenso per�odo de incertezas, de inquieta��es, de intimas ang�stias. Durante oito meses, experimentar� as alternativas das vit�rias e dos reveses vence em Saint-Pierre-le-Mo�tier, � derrotada em Charit�. Sente que a boa fortuna a abandona. A borda dos fossos de Melun, suas vozes lhe dir�o: Joana, ser�s capturada antes do dia de S�o Jo�o! �. A uma causa �nica � licito atribuir esta reviravolta da sorte: - � m� vontade dos homens, � ingratid�o do rei e de seus conselheiros, que criaram mil obst�culos � hero�na e ocasionaram o malogro de seus empreendimentos. Apoucaram-na com isso? De maneira alguma. A partir desse momento � que ela se torna verdadeiramente grande, maior do que era por efeito de suas vit�rias. As prova��es, o cativeiro, o mart�rio suportado com tanta nobreza, a elevar�o acima dos mais ilustres conquistadores e a sublimar�o aos olhos da posteridade. No c�rcere, diante do tribunal de Ru�o, sobre a fogueira, ser� mais imponente do que no tumultuar dos combates, ou na embriaguez do triunfo. Sua atitude, seus sofrimentos, suas palavras inspiradas, suas l�grimas, sua dolorosa agonia, far�o dela uma das mais puras gl�rias da Fran�a, um alvo da admira��o dos s�culos, um motivo dos zelos de todos os povos! A adversidade lhe adornar� a fronte com uma aur�ola sagrada. Pelo hero�smo com que recebe a dor, pela grandeza d�alma nos reveses e em presen�a da morte, vir� a ser justa causa de orgulho para todos aqueles em quem vibram e palpitam o sentimento da beleza moral e o amor a seu pa�s. E' bela a gl�ria das armas; por�m, s� o g�nio, a santidade e o mart�rio t�m direito �s apoteoses da Hist�ria! * Fracassado o cerco da Charit�, Joana foi chamada � corte. Bem depressa, por�m, a ina��o come�a a pesar-lhe e ei-la novamente deixando-se arrebatar por seu ardor. Abandona o rei aos prazeres e festas em que se comprazia e � frente de uma tropa que lhe era dedicada voa para Compienha, ent�o assediada. E' a� que lhe sucede cair prisioneira do conde de Luxemburgo, do partido da Borgonha. Durante uma das sortidas, que ela constantemente fazia, o governador da cidade, Guilherme de Flavy, mandou arriar o rastilho e a hero�na, n�o tendo podido mais entrar na pra�a, foi capturada. Que responsabilidade cabe ao senhor de Flavy em tal sucesso? Muitos o consideraram resultado de premeditada trai��o. Fazia pouco que o chanceler Regnault de Chartres passara por Compienha, onde tivera entrevistas com o duque de Borgonha. N�o obstante, a maioria dos historiadores: H. Martin, Quicherat, Wallon e Anatole France cr�em na lealdade daquele capit�o (133). Mau grado a essas opini�es, seu papel no tocante � captura de Joana permaneceu equ�voco e mal definido. E' verdade que o moderno histori�grafo do comandante Flavy, Pierre Champion, n�o conseguiu, pelo exame dos textos existentes, chegar a uma conclus�o formal e, por seu lado, n�o descobriu documento algum probante (134). De conformidade com indica��es recebidas do Al�m, somos levados a acreditar que n�o houve premedita��o; mas, que souberam aproveitar a ocasi�o que se oferecia, para livrarem-se de uma personalidade que se constitu�ra empecilho a certas ambi��es. Embora, por�m, nenhuma conspira��o tenham tramado previamente contra Joana, nem por isso deixou de haver trai��o, uma vez que G. de Flavy n�o tentou sequer salv�-la. Encurralada pelos borgonheses no �ngulo da estrada de Margny com o baluarte que defendia a ponte, a alguns metros da entrada, a hero�na podia ser facilmente socorrida. No momento cr�tico, o comandante de Compienha ocupava o baluarte com muitas centenas de homens. Observando tudo o que se passava, nenhuma tentativa de socorro fez e abandonou a donzela � sua sorte. Nisto � que a trai��o parece flagrante. Joana foi primeiramente encarcerada no castelo de Beaulieu, a pequena dist�ncia de Compienha, sendo depois transferida para a torre de Beaurevoir, de propriedade do conde de Luxemburgo. Durante seis meses, andou de pris�o em pris�o, por Arr�s, Drugy, Crotoy, at� que a 21 de novembro, em obedi�ncia �s intima��es prementes e cominat�rias da Universidade de Paris, foi vendida aos ingleses, seus inimigos cru�is, por dez mil libras tornesas, al�m de uma renda consignada ao soldado que a prendera. Jo�o de Luxemburgo descendia de alta linhagem; era, por�m, mesquinho de cora��o e falto de fortuna. (Inscrevera no bras�o uma divisa de desalentado: Contra o imposs�vel nada se consegue. Qu�o mais vibrante a de seu contempor�neo Jaques Caeur: �Para um cora��o valoroso, nada � imposs�vel.)� �Muito endividado, arruinado quase, o conde n�o queria resignar-se a viver pobre�. N�o p�de, conseq�entemente, recusar as dez mil libras em ouro que o rei da Inglaterra oferecia. Por esse pre�o, vendeu Joana e a entregou. Dez mil libras em ouro! Era uma soma enorme para a �poca. Os ingleses, entretanto, estavam baldo de recursos; assim � que j� n�o podiam mais pagar os seus funcion�rios. A falta de dinheiro, suspendeu em Paris, durante semanas, o funcionamento da justi�a. O not�rio que redigia os atos do parlamento teve que interromper o trabalho, por n�o haver mais pergaminho (135). Desde, por�m, que se tratava de comprar Joana, os ingleses acharam meio de obter t�o grossa quantia. Que fizeram para isso? Uma coisa que lhes era familiar: lan�aram pesado imposto sobre toda a Normandia. E eis um fato que merece assinalado: com dinheiro franc�s � que o sangue de Joana d'Arc foi pago! No recesso do c�rcere, n�o era a sua pr�pria sorte o que mais atribulava Joana. Acima de tudo, afligia-a o pensamento, que assim, tristemente, exprimiu: �N�o mais poderei servir ao nobre pa�s de Franca!� Ao ter not�cia de que sobre a boa gente de Compienha pesa a amea�a de ser passada a fio de espada, se a cidade cair em poder dos inimigos, precipita-se do alto da torre de Beaurevoir, para ir compartilhar-lhes da sorte. �Eu ouvira falar, dir� ela aos ju�zes, que todos os de Compienha, at� � idade de sete anos, seriam tratados a ferro e fogo. Achei, ent�o, que mais valia correr o risco de morrer, (do que sobreviver � destrui��o das boas criaturas)� (136). De etapa em etapa, de pris�o em pris�o, chega finalmente a Crotoy, nos confins da Normandia, que os ingleses ocupavam. Metem-na numa torre de defesa, que guarda a embocadura do Soma. Da janela gradeada de ferro, descortina ela um panorama de praias e mais longe a amplid�o do mar. Pela primeira vez, dado lhe � contemplar o imenso len�ol l�quido e o espet�culo a impressiona fortemente. O mar! com suas vagas espumantes, seus horizontes ilimitados, seus reflexos multicores! Ela, t�o sens�vel �s harmonias do c�u e da terra, �s belezas dos dias luminosos e do firmamento estrelado, se extasia na contempla��o da vasta superf�cie, que ora apresenta a colora��o cinzenta da prata, ora a de um azul intenso, e reflete � noite as cintila��es dos astros; escuta, maravilhada, o sussurro misterioso do vento e das ondas. Quando, � hora de preamar, lhe chegam aos ouvidos o queixume das vagas, o solu�ar do Oceano, profunda sensa��o de tristeza a invade. Os ingleses v�o chegar, os ingleses que a compraram t�o caro! At� ent�o fora, desde Compienha, prisioneira dos borgonheses, seus advers�rios, sem d�vida, mas homens da mesma l�ngua, da mesma ra�a e que a tratavam com aten��es. Dali por diante, que � o que pode esperar dos b�rbaros estrangeiros a quem tantas vezes vencera e que, votando-lhe �dio feroz, jamais perderam ocasi�o de injuri�-la? Sentindo horr�vel ang�stia a lhe despeda�ar a alma, p�e-se a orar. Ouve, ent�o, a voz que lhe diz e repete: recebe tudo de bom grado! Passou assim em Crotoy tr�s semanas. Um dia, as senhoras de Abbeville foram visit�-la, consol�-la e, por Instantes, misturaram suas l�grimas com as da virgem (137). X - RU�O; A PRIS�O O escolhido por Deus para qualquer miss�o, M�rtir, soldado seja, ap�stolo ou salvador, D'alto valor precisa e muda submiss�o; Que belo � o combater, nobre sofrer a dor. PAUL ALLARD Joana est� nas m�os dos ingleses. Amorda�ada, para que n�o possa falar �s popula��es, conduzem-na bem escoltadas ao castelo do Ru�o. A�, lan�aram-na num calabou�o, encerrada numa gaiola de ferro: �Mandaram forjar para mim, diz-nos ela, uma esp�cie de gaiola em que me meteram e na qual fiquei extremamente comprimida; puseram-me ao pesco�o umas grossas correntes, uma na cintura e outras nos p�s e nas m�os. Teria sucumbido a t�o horr�vel afli��o, se Deus e meus Esp�ritos n�o me houvessem prodigalizado consola��es. Nada � capaz de pintar a tocante solicitude deles para comigo e os inef�veis confortos que me deram. �Morrendo de fome, seminua, cercada de imund�cias, machucada pelos ferros, tirei de minha f� a coragem de perdoar a meus algozes.� Procedimento atroz! Joana � prisioneira de guerra, � mulher e a enjaulam, como se fosse uma fera! Pouco mais tarde, � certo, o ingl�s se contentaram com o prend�-la pelos p�s a uma pesada trave por duas fortes correntes. Assim come�a uma paix�o de seis meses, paix�o sem exemplo na Hist�ria, paix�o mais dolorosa mesmo do que a do Cristo, pois que o Cristo era homem, ao passo que aqui se trata de uma mo�a de dezenove anos, posta � merc� de soldados brutos, est�pidos e l�bricos. Cinco deles, malfeitores, a esc�ria do ex�rcito ingl�s, dizem todos os historiadores, vigiam-na dia e noite dentro do c�rcere. Imaginai o que pode uma donzela acorrentada esperar de homens vis e grosseiros, b�bedos de furor contra aquela que consideram a causadora de todos os reveses que sofreram. Os miser�veis a atormentavam com os maus tratos. Muitas vezes procuravam violent�-la e, como n�o o conseguissem, batiam-lhe brutalmente. Ela se queixava disso aos ju�zes no curso do processo e, freq�entemente, quando estes lhe entravam na pris�o para interrog�-la, a encontravam banhada em l�grimas, com o rosto inchado e pisado pelas pancadas recebidas (138). Imaginai os horrores de semelhante situa��o, os pensamentos da mulher, os temores da virgem exposta a todas as surpresas, a todos os ultrajes, � priva��o cont�nua do repouso, do sono, o que lhe alquebrava o corpo e aniquilava as for�as, em meio das ansiedades, das incessantes agonias. Sozinha entre aqueles infames, n�o consentia em abandonar as vestes masculinas e este ato de pudor lhe era profligado como um crime! Os visitantes n�o se revelam menos abomin�veis do que os guardas. O conde de Luxemburgo, que a vendera, lembrou-se um dia de ir escarnec�-la no c�rcere. Acompanhavam-no os condes de Warwick e de Stafford e o bispo de Th�rouanne, chanceler do rei da Inglaterra. �Vim aqui para te resgatar - diz-lhe ele -, por�m sob a condi��o de prometeres que nunca mais pegar�s em armas contra n�s.� - �Escarneceis de mim - exclamou a donzela. Sei perfeitamente que n�o tendes nem o desejo, nem o poder de faz�-lo.� E, como o conde insistisse, acrescentou: �Sei perfeitamente que estes ingleses me far�o morrer, acreditando que depois da minha morte se apoderar�o do reino da Fran�a. Sejam eles, por�m, cem mil vezes mais numerosos do que s�o e ainda assim n�o ter�o o reino.� Estas palavras os p�em furiosos, chegando o conde de Stafford a desembainhar a adaga para feri-Ia. Warwiak obstou a que o fizesse (139). Depois, s�o os ju�zes que confiam a um padre indigno, traidor e espi�o, Loyseleur, a incumb�ncia de penetrar na pris�o em trajes de leigo e, dizendo-se loreno e prisioneiro dos ingleses, captar a confian�a de Joana e decidi-Ia a tom�-lo por confidente. Durante seus col�quios com a virgem, escriv�es postados � espreita ouviam, por uma abertura feita de prop�sito, e registravam todas as confid�ncias da hero�na. Acreditavam os ingleses que um �encantamento� havia na virgindade de Joana e que, se esta a perdesse, eles nada mais tinham que recear dela. Um exame pr�tico pela duquesa de Bedford, em companhia de iady Ana Bavon e de muitas matronas, demonstrara que aquela virgindade era real. Particularidade que revela a baixeza de um car�ter: o duque de Bedford, regente da Inglaterra, assistia, oculto, ao exame. Foi pouco depois desses fatos que o lorde condest�vel, conde de Stafford, levado tanto pela supersti��o, quanto por uma paix�o hedionda, entrou no c�rcere de Joana e tentou violent�-la (140). Quem poderia dizer o que ela sofreu nas trevas de sua enxovia! Abandonada de todos, tra�da e vendida a peso de ouro, experimentou os requintes da dor! Conheceu as horas de ang�stia, de tortura moral, em que tudo se nos escurece ao derredor, em que as vozes do c�u parecem que se calam (141), em que o invis�vel se conserva mudo, quando os furores, os �dios da Terra se desencadeiam e arremessam contra n�s. Todos os mission�rios h�o provado as amarguras dessas horas cruciantes e ela as amargou mais do que todos, ela, pobre menina, entregue indefesa �s mais vis ofensas. Porque permitem Deus tais coisas? Para sondar a alma e o cora��o de seus fi�is, para tirar a prova da f� que depositam n�Eles; para que os m�ritos dos que assim s�o feridos aumentem e para que a coroa que lhes reserva ganhe mais brilho e beleza. Mas, dir-se-�, como � que Joana, extenuada, carregada de ferros, p�de escapar �s tentativas ign�beis de seus visitantes e guardas? Como p�de manter inc�lume a flor da pureza, que era sua salvaguarda, pois que, de acordo com a opini�o corrente naquela �poca, a uma virgem n�o se podia imputar o crime de sortil�gio? Ora bem, eis aqui! Nessas horas terr�veis, que lhe causavam mais horror do que a pr�pria morte, o invis�vel interv�m. Uma legi�o radiosa se introduz na g�lida e sombria pris�o. Seres que s� ela v� e aos quais chama �seus irm�os do para�so�, v�m cerc�-la, ampar�-la, dar-lhe as for�as necess�rias para resistir ao que teria sido um sacril�gio abomin�vel. Esses Esp�ritos a reconfortam e lhe dizem: �Sofrer � engrandecer-se, � elevar-se!� Em meio das trevas que a envolvem, uma claridade se produz; suaves c�nticos lhe chegam aos ouvidos, como eco das harmonias do espa�o. As vozes a consolam e lhe repetem: �Tem coragem! ser�s libertada por uma grande vit�ria!� Na ingenuidade da sua f�, julga que essa liberta��o � a soltura. Ah! conforme o ensinavam nossos antepassados, os druidas, �(era a liberta��o da morte)�, a morte pelo mart�rio. O mart�rio era indispens�vel, para dar �quela santa figura toda a sublime radiosidade. N�o � privil�gio das almas superiores ter por destino sofrer pelas causas nobres? N�o � imprescind�vel que passem pelo cadinho das prova��es, para mostrarem todas as virtudes, todos os tesouros, todos os esplendores que encerram? Uma grande morte � o coroamento necess�rio de uma grande vida, de uma vida de devotamento, de sacrif�cios; � a inicia��o numa exist�ncia mais elevada. Por�m, nas horas dolorosas, durante a suprema purifica��o, sobre-humana for�a sustenta essas almas, for�a que lhes permite tudo afrontar, tudo vencer! XI - RU�O; O PROCESSO Entro todo a tremer nesta �rdua escuridade! Seja feita, o meu Deus, tua santa vontade! PAUL ALLARD Chegamos agora ao processo. Com efeito, ao mesmo tempo em que padecia t�o duro e horr�vel cativeiro, Joana ainda tinha que sofrer as longas e tortuosas fases de um processo, tal como nunca houve igual no mundo. De um lado, tudo quanto de hip�crita perversidade, de ast�cia, de perf�dia, de ambi��o servil ressumar pode o esp�rito do mal: setenta e um cl�rigos, padres e doutores, fariseus de cora��es petrificados, todos homens da Igreja, mas que fazem da religi�o uma m�scara destinada a dissimular ardentes paix�es - a cupidez, o esp�rito de intriga, o fanatismo tacanho. De outro lado, s�, sem amparo, sem conselheiro, sem defensor, uma crian�a de dezenove anos, a encarna��o da pureza e da inoc�ncia, uma alma her�ica num corpo de virgem, uns cora��es sublimes e ternos, prontos aos maiores sacrif�cios para salvar seu pais, para cumprir fielmente sua miss�o e dar o exemplo da virtude no dever. Jamais se viu a natureza humana subir t�o alto de uma parte e, de outra, cair t�o baixo. A Hist�ria j� definiu as responsabilidades. Nada quero dizer que possa acirrar os �dios pol�ticos, ou religiosos. Pois o nome de Joana d'Arc n�o �, entre todos os nomes gloriosos, aquele em torno do qual se devem coligar os sentimentos de admira��o, partam de onde partirem? A Igreja procurou desculpar-se da acusa��o que lhe pesava, havia s�culos, e para isso se empenhou na tarefa de lan�ar o odioso da condena��o de Joana exclusivamente sobre Pedro Cauchon, bispo de Beauvais. Renegou-o, coberto de maldi��es. Mas, Pedro Cauchon � o �nico grande culpado? Lembremos um fato. A 26 de maio de 1430, tr�s dias depois da captura de Joana �s portas de Compi�gne, o vig�rio geral do inquisidor-mor da Fran�a, residente em Paris, escrevia ao duque de Borgonha, suplicando e �ordenando que, sob as penas de direito, lhe enviasse presa uma certa mulher chamada Jehanne a Pucela, veementemente suspeitada de crimes cheirando � heresia, a fim de comparecer perante o promotor da Santa Inquisi��o� (142). Assim, o tem�vel tribunal do Santo Of�cio, que na �poca j� n�o era mais do que um fantasma, reaparecia, sa�a da sombra, para reclamar a maior v�tima de quantas lhe compareceram � barra. E a Universidade de Paris, a principal corpora��o eclesi�stica da Fran�a, lhe apoiava as reivindica��es. Anatole France, bem informado sobre este ponto, diz (143) �No caso da Pucela, n�o era unicamente um bispo quem punha a Sant�ssima Inquisi��o em movimento, era a filha dos reis, a m�e dos estudos, o belo e refulgente sol da Fran�a e da cristandade, a Universidade de Paris. Atribuindo-se o privil�gio de conhecer das causas relativas �s heresias, seus pareceres, reclamados de todas as partes, faziam f� por toda a face do mundo em que a cruz fora plantada.� Havia um ano que ela pedia a apresenta��o da Pucela ao inquisidor, como suspeita de sortil�gio. O mesmo autor acima citado ainda diz: (144): �Depois de se entender com os doutores e mestres da Universidade de Paris, o bispo de Beauvais surgiu, a 14 de julho, no acampamento de Compienha e reclamou a Pucela como pertencente � sua justi�a. Apresentava em apoio da reclama��o as cartas que a Alma Mater endere�ara ao duque de Borgonha e ao senhor de Luxemburgo.� Era a segunda vez que a Universidade reclamava Joana ao duque; temia que outros a libertassem �por vias obl�quas� e lha pusessem fora da al�ada. O emiss�rio levava tamb�m autoriza��o para oferecer dinheiro. Pedro Cauchon, bispo de Beauvais, que, por se ter aliado aos ingleses, o povo expulsara de seu s�lido, instruiu em pessoa e dirigiu o processo. Coube-lhe o papel mais importante, � incontest�vel; mas, o vice-inquisidor Jo�o Lemaitre aprovou todas as escolhas que o mesmo bispo fez para a composi��o do tribunal, em que os dois muitas vezes se sentaram lado a lado. E quando Cauchon estava impedido, Jo�o Lemaitre presidia �s sess�es. Todos os documentos comprovam este fato (145). O vice-inquisidor assinou e autenticou os autos das audi�ncias, que os escriv�es do tribunal redigiam em tr�s vias. Um desses exemplares ainda existe na Biblioteca da C�mara dos Deputados, trazendo aposto o selo da Inquisi��o. Era de direito que nos processos de heresia as decis�es e julgamentos fossem tomados e pronunciados pelos dois ju�zes: o bispo e o inquisidor. Foi o que se verificou em Ru�o, como algures. Imposs�vel, portanto, deixar-se de reconhecer que a- jurisprud�ncia inquisitorial acobertava Cauchon. Mas, n�o � tudo. Os bispos de Coutances e Lisieux, consultados no curso do processo, aprovaram a acusa��o. H� mesmo a este respeito uma particularidade, que conv�m seja posta em relevo: o bispo de Lisieux, Zanon de Castiglione, ao manifestar-se pela condena��o, fundamentou seu voto, dizendo que Joana era de muito baixa condi��o para ser inspirada por Deus. Realmente! Que teriam pensado de semelhante resposta os ap�stolos do Cristo, aqueles humildes art�fices e pescadores da Galileia, e o pr�prio Cristo, filho de um carpinteiro? Tamb�m figuram no processo os bispos de Th�rouanne, de No,yon, de Norwich. Todos tr�s tomaram parte nas admoesta��es � Pucela. Cauchon cercou-se de personagens consideradas e de te�logos de fama. Deu assento no tribunal a homens como Tom�s de Courcelles, apelidado mais tarde �a luz do conc�lio de Basil�ia e o segundo Gerson�, Pedro Maur�cio e Jo�o Beaup�re, que foram reitores da Universidade de Paris; a doutores e mestres em Teologia, tais como Guilherme �rard Nicole, Midi, Jacques de Touraine e o grande n�mero de abades mitrados das grandes abadias normandas. Ora, nenhum, dentre tantos cl�rigos eminentes, se mostrou imparcial. Todos eram partid�rios dos ingleses e inimigos de Joana. O promotor Jo�o d'Estivet, a alma danada de Cauchon, homem sem f� nem escr�pulos, se tornou particularmente not�vel pelo �dio e pelas viol�ncias contra a acusada. Nenhum direito lhe reconheceu a pretender, conforme pediu, que do tribunal fizessem parte, em n�mero eq�itativo, alguns eclesi�sticos amigos da Fran�a. Dessa decis�o ela apelou para o papa e para o conc�lio. Tudo em v�o. Os ju�zes, sem exce��o, assessores, c�negos, doutores em Teologia, recebiam dos ingleses, por sess�o, uma paga equivalente a 40 francos, moeda atual. Os recibos est�o juntos ao processo. Os assessores chegaram a ser quase cem, mas n�o funcionavam todos ao mesmo tempo. Os que se mostravam mais hostis a Joana, al�m da paga, tamb�m recebiam presentes. O rei da Inglaterra deu aos membros do tribunal cartas de garantia para o caso que �aqueles que tivessem tido por agrad�veis os erros de Joana tentassem pleite�-los perante o papa, o conc�lio, ou noutra parte� (146). Houve muitos pareceres da Sorbona, entre outros o de 19 de abril, confirmado pelas quatro Faculdades a 14 de maio. Todos conclu�am contra a Pucela. Cumpre acrescentar que o inquisidor geral Jo�o Graverend, num serm�o que pregou na igreja de S�o Martinho dos Campos, em Paris, ap�s o supl�cio de Joana, repetiu todos os termos da acusa��o e aplaudiu a senten�a. Pouco tempo depois, o papa nomeava Pedro Cauchon bispo titular de Lisieux. � exato que mais tarde a pena de excomunh�o o fulminou, por�m n�o como castigo de seu crime; simplesmente porque recusou satisfazer a um pagamento que o Vaticano exigia. Assim, foi por uma quest�o de dinheiro que esse prelado se viu atingido pelos raios pontif�cios, ao abrigo dos quais esteve, enquanto s� carregava a culpa de haver levado � condena��o a libertadora de seu pa�s (147). De fato, nenhuma voz se elevou em toda a cristandade, para protestar contra o in�quo julgamento de Joana, quer do lado do clero que se conservara franc�s, quer do lado do clero que se passara para os ingleses. Ao contr�rio, uma circular que a seus diocesanos dirigiu Regnault de Chartres, arcebispo de Remos, nos revela o vergonhoso estado de esp�rito de Carlos VII e de seus conselheiros. Num relat�rio escrito de acordo com os documentos da municipalidade e almotacelado de Reims, encontrou-se a an�lise de uma missiva do chanceler aos habitantes de sua cidade arquiepiscopal, concebida nos termos que se v�o ler. D� not�cia da pris�o de Joana diante de Compi�gne e diz que tal sucedera �por ela n�o ter querido aceitar conselho; mas, fazer tudo a seu bel-prazer... Deus consentira em que fosse presa, por se haver enchido de orgulho, por causa das ricas vestes que trajava e por n�o ter feito o que Deus lhe ordenara, mas s� o que era da sua vontade, dela Joana� (148). Entretanto, Carlos VII, embora pessimamente aconselhado, recebera altas e instantes solicita��es em favor da hero�na. Jaques G�lu, fidalgo, arcebispo d'Embrun, que fora preceptor do delfim Carlos, escreveu a seu real disc�pulo, depois da captura de Joana, lembrando-lhe o que a Pucela fizera pela coroa da Fran�a. Rogava-lhe que perscrutasse a pr�pria consci�ncia e visse se n�o

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