Jorge Amado



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Jorge Amado
Navegação de Cabotagem

Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei

2006
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Amado, Jorge, 1912-2001

A494n Navegação de cabotagem: apontamentos para um livro

6ª ed. de memórias que jamais escreverei / Jorge Amado. Rio de

Janeiro; 6a ed., Record, 2006.


ISBN 85-01-03989-6
1. Amado, Jorge, 1912-2001. Biografia. 2. Escritores brasileiros - Biografia. I. Título.
CDD - 928.699

92-0758 CDU - 92(AMADO, J.)


Copyright © 1992, by herdeiros de Jorge Amado

Projeto gráfico de capa e miolo: Victor Burton


Perfil de Jorge Amado © Francisco Scliar, representado por AMS

Agenciamento Artístico, Cultural e Literário Ltda.

Ilustrações de miolo: Santa Rosa, Calasans Neto e Carybé

Foto: Acervo Zélia Gattai Amado/Fundação Casa de Jorge Amado


Direitos exclusivos desta edição reservados pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina 171 - 20921 -380 - Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 2585-2000

Impresso no Brasil


PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL

Caixa Postal 23.052 - Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

Da capa do livro:


"Ele está lá, Jorge Amado, nestas páginas, suas prisões, seus exílios, suas farsas e armadilhas, em emoções infindáveis, seus olhos grandes, seu riso, sua mulher tanto amada, Zélia Gattai, seu gosto pelos mares, seu meio século de comunismo, seus 50 romances, com igualmente os negros, os pobres, as prostitutas e os pescadores de sua cidade adorada, Salvador da Bahia de Todos os Santos."

— Gilles Lapouge, Quinzaine Littéraire


"Quem mais, senão um gênio, teria criado toda uma nação, teria dado forma, expressão e identidade a uma terra e uma cultura como a Bahia, assim legando aos baianos e aos brasileiros em geral, pois a Bahia pertence a todos os brasileiros, um patrimônio inestimável?"

— JOÃO UBALDO RIBEIRO


"Com a chegada de Jorge Amado o povo brasileiro encontrou, pela primeira vez, sua expressão estética, conquistou sua autonomia literária."

— ROGER BASTIDE


"Na nossa literatura moderna, o senhor Jorge Amado é o maior romancista do amor, força da carne e de sangue que arrasta os seus personagens para um extraordinário clima lírico."

— ANTÔNIO CÂNDIDO


Das abas do livro
O ano era 1991. Creio que a proximidade dos oitenta anos fez papai - o escritor Jorge Amado - decidir-se por, finalmente, colocar no papel algumas lembranças e alguns pensamentos, fruto de uma vida intensamente vivida. A idéia o tentava há muito tempo, porém um pacto feito com Ilya Eremburg e Pablo Neruda, de nunca publicarem livro de memórias, o retinha. Depois da morte de Ilya, sua filha Irina publicou não um, mas uma série de livros de memórias, que o pai havia deixado prontos. O de Neruda, também póstumo, Confesso que vivi, saiu em plena ditadura Pinochet. Por que esperar mais? Já tinha o título para o pequeno conjunto de lembranças que iria oferecer ao público: Navegação de cabotagem.

Estavam em grande temporada francesa, para grande alegria minha, que vivia em Paris. O apartamento do Quai des Celestins era o local ideal para escrever, aconchegante, dona Zélia cozinhando risotos e brodos italianos deliciosos, o tempo friozinho, não precisou muito para seu Jorge botar mãos à obra. Aliás, o mesmo clima propício à escrita contagiou dona Zélia, que também foi para a máquina — no seu caso um computador —, escrever Chão de meninos.

Escreverem ao mesmo tempo não era comum, e na verdade criou um problema, já que mamãe sempre foi a datilografa dos originais de papai. Eu vinha de ficar desempregada, me candidatei e ganhei a vaga! Que privilégio.

Nunca vi papai tão entusiasmado, os textos fluíam com uma facilidade e uma rapidez impressionantes. Risos, lágrimas, foram grandes as emoções que sentimos juntos ao reler, corrigir, comentar cada episódio, cada luta, cada amor. Um dia chamei a atenção dele para o fato de que o "pequeno" livro já tinha mais de cem notas (era assim que ele se referia aos textos). Perguntei se a ordem de entrada em cena era a mesma da escrita e ele disse que não. Era preciso organizar o trabalho, já estava grande demais. Foi então que eu e Pedro (Pedro Costa, então meu marido) criamos uma espécie de quebra-cabeças: fiz, no computador, fichas onde se liam o título da nota e os dados principais: data, personagens, local, se político, se alegre ou triste..., identificadas por cores que facilitavam a ordenação.

A grande sala do apartamento era forrada de tecido levemente acolchoado, o que nos permitiu transformar as paredes em páginas de livro. Nelas papai prendeu com tachinhas as fichas, que trocava de ordem com grande freqüência, à medida que o livro ia sendo escrito. As pessoas paravam para ler, comentavam: Você fala de fulano em três notas seguidas... Ele concordava ou não. Passou a ser o jogo preferido da família. Nos divertíamos muito, ele mais que todos.

A editora dera um prazo para a entrega dos originais, pois estava prevista a publicação dentro das comemorações dos oitenta anos. O pequeno livro já ia para mais de 500 páginas e parecia longe do fim. Pedro fazia a diagramação, que deveria ir para o Brasil em disquetes, para entrar direto em impressão, mas cada nota que mudava de lugar exigia mudanças na diagramação. Estava ficando difícil.

Para atender aos prazos, papai resolveu marcar uma data para acabar o livro. Como não queria cair em tentação, comprou um cruzeiro de navio pela Grécia e Turquia, convidou Misette para acompanhá-los e partiram. Eu e Pedro ficamos em Paris terminando a parte gráfica.

Logo na chegada a Atenas, onde pegariam o navio, papai enviou um novo texto. Foi assim durante toda a viagem: escrito à mão, era passado a limpo também à mão por mamãe, dona de uma bonita letra, e enviado por fax. Como vivíamos os primórdios dessa invenção genial, um dia recebi chamado da France Telecom perguntando se eu tinha consciência do custo daquelas ligações (os telefonemas - a cobrar - dados do navio eram caríssimos), e naquele dia haviam chegado 11 metros de fax mandados do mar Egeu! O problema não era tanto o dinheiro gasto, mas os apelos da Record para que mandássemos o livro, que nunca ficava pronto. Eles tinham toda a razão. Papai começou a se desculpar: Este é o último, eu garanto. Depois vinha mais um. Este é o final. E ainda. Este é o derradeiro. Quando já não encontrou mais sinônimos para a palavra último, e já chegando ao porto de Veneza, final do passeio, escreveu assim: Desta vez é definitivo, este é o ponto final. Juro pela alma de sua mãe. Reagi imediatamente: Jure pela alma da sua, que já morreu, deixe a da minha em paz. Fiz bem, pois de Veneza ainda chegou um, este sim, o último final derradeiro!



O livro saiu a tempo, com suas mais de 600 páginas. Maravilhosas páginas de uma vida cheia de amor, experiências e generosidade, que eu recomendo a todos.
Paloma Amado

Reprodução da capa da primeira edição de Navegação de cabotagem, 1992, ilustração de Floriano Teixeira






Para Zélia,

namorada e cúmplice
Para meus filhos João Jorge,

Paloma, Pedro e Rízia
Para Nicole Zand,

José Carlos de Vasconcelos

e Otto Lara Resende
"Eu digo não quando todos dizem sim em coro

uníssono. Esse meu compromisso."
(J. A. — Tocaia Grande, a face obscura, 1984)
"...uma história se conta, não se explica."
(J. A. — O Sumiço da Santa, 1988)
"Sou um baiano romântico e sensual."
(J. A. — entrevista a Moacyr Félix, Paratodos, 1958)



As notas que compõem esta navegação de cabotagem (ai quão breve a navegação dos curtos anos de vida!), à proporção que me vinham à memória, começaram a ser postas no papel a partir de janeiro de 1986. Zélia e eu nos encontrávamos num quarto de hotel em Nova York, ambos com pneumonia os dois, parece incrível —, febre alta, ameaça de hospital. Viajáramos a Nova York para participar do Congresso Internacional do Pen Club, não comparecemos a nenhuma sessão, tampouco às festividades, não ouvimos um único discurso, relatório, comunicação, não soubemos dos debates. O que, na opinião de nosso compadre João Ubaldo Ribeiro, também ele convidado e presente ao Congresso, foi a vantagem que tiramos da dupla pneumonia. Vantagem e das boas afirmou o romancista ao nos visitar.

De logo quero avisar que não assumo qualquer responsabilidade pela precisão das datas, sempre fui ruim para as datas, elas me perseguem desde os tempos de colégio interno. Estudante de história, interessado nas figuras e nos feitos, esquecia as datas e eram as datas que os professores exigiam. A referência a ano e a local destina-se apenas a situar no tempo e no espaço o acontecido, a recordação. Quanto aos apontamentos não datados, traduzem a experiência adquirida no correr dos anos: sentimentos, emoções, conjecturas. Se alguém desejar as lembranças da infância do autor deve recorrer a um texto datado de 1980, publicado em livro sob o título de O Menino Grapiúna — as ilustrações de Floriano Teixeira compensam o preço do volume. Nesta navegação de cabotagem nomes de mulheres foram, por um motivo ou outro, substituídos pelo nome único de Maria, nenhum mais belo: Maria cada uma, todas elas, passageiras embarcadas nas escalas, sombras fugidias no cais do porto, de porto em porto, ciranda do velho marinheiro.

Tinha eu seis anos de idade ao término da Primeira Grande Guerra, a de 1914/1918, quando do impacto da Revolução de Outubro, do estabelecimento do Congresso dos Sovietes em nome dos trabalhadores, chego aos oitenta anos quando o mundo nascido de duas guerras mundiais e da revolução socialista se esboroa e nas ruas se discute e se planeja uma nova carta geográfica e política, quando o impossível acontece, ruem muros, nações, impérios. Fragmentos do Muro de Berlim são vendidos como brinde por espertos negociantes norte-americanos.

Teorias, ideologias teorias ditas científicas, ideologias consideradas de pureza incontestável que seduziram intelectuais, mobilizaram multidões, massas populares, comandaram lutas, revoltas, guerras em nome da felicidade do homem, dividiram o mundo em dois, um bom, um ruim, se revelam falsas, pérfidas, limitadoras: conduziram à opressão e não à liberdade e à fartura. Proletários de todos os países, perdoai-nos!, lia-se na faixa conduzida pelos moscovitas na Praça Vermelha durante o desfile de um 7 de novembro recente.

O que parecia definitivo se desintegra, deixa simplesmente de existir. A História acontece diante de nós, nos vídeos de televisão, transformações espantosas, mudanças inimagináveis, num ritmo tão rápido, tão absurdamente rápido que um dia vale anos, a semana tem a medida de um século. Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria.

Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da sabedoria do povo.

Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.

Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua, vivendo. Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!

Moscou, 1952.



Os desmemoriados
Ilya Eremburg* e eu chegamos silenciosos de uma conversa com figuras gradas nos altos escalões a propósito de nosso amigo Jan Drda**, atendendo pedido que ele me fez em Praga, de onde venho para receber o Prêmio Internacional Stalin da Paz: o prêmio me credencia. Estamos em janeiro de 1952, vinte graus abaixo de zero, vento gélido varre as ruas de Moscou, emborcamos os cálices de vodca no apartamento da rua Gorki, Ilya me diz: Jorge, somos escritores que jamais poderemos escrever memórias, sabemos demais. No abalo da conversa que acabamos de ter, balanço a cabeça concordando.

* Ilya Eremburg (1891/1967), escritor soviético.

** Jan Drda, (1915/1970), escritor tcheco.
Afirmação categórica, não impediu que, alguns anos depois, durante o período de Kruchev, ao se abrir uma brecha no obscurantismo soviético, ao despontar de uma pequena luz no meio das trevas, o autor de Degelo publicasse sete tomos de memórias, sete, nada menos: no sétimo Zélia e eu figuramos, simpáticos personagens. E isso não é tudo, pois Irina*** me contou, em 1988, estar pondo em ordem os papéis do pai com o fim de editar vários volumes de memórias inéditas que ele não conseguiu publicar sequer durante a abertura de Kruchev: Ilya sabia demais.

*** Irina Eremburg, filha de Ilya.
Durante minha trajetória de escritor e cidadão tive conhecimento de fatos, causas e conseqüências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. Deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive ações subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a atividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo real chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga conseqüência alguma, mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrem comigo.
Nova York, 1986.

Os apressados
Depois de uma semana de cama com pneumonia — o que me consolava era ver Zélia no mesmo leito com febre alta, lavada em suor, isto sim é solidariedade! —, desço pela primeira vez ao hall do hotel em Nova York onde me espera um jornalista de El País, de Madri.

Inverno rigoroso, o Central Park está gelado, o termômetro acusa quatorze graus negativos, o Congresso Internacional do Pen Club vem de terminar sem que a ele tenhamos comparecido uma vez sequer, o hotel está lotado de congressistas vindos de cerca de quarenta países. Envolto no sobretudo de gola levantada, preocupo-me em passar desapercebido, no desejo de evitar explicações e lamúrias.

Ao sair do elevador, avisto Mário Soldati que apressado se dirige para a cabine: também ele me viu, tenho certeza. Finjo que não o vejo, ele finge que não me vê, passamos um pelo outro, lado a lado, como se não nos conhecêssemos.

No dia seguinte, sem pressa, descontraídos, sentados nas poltronas do vestíbulo, conversamos à batons rompus, na rua o frio, o vento, a neve. Somos velhos amigos, leitores um do outro, sua narrativa (Le Festin du Commandeur, L'Ami Jesuite) parece-me da melhor ficção contemporânea, ademais Soldati presidiu o Júri do Prêmio Internacional Nonino que me foi conferido em 1984. Mais do que um prêmio, uma festa italiana de confraternização e alegria: polenta, cabrito, pasta — o melhor fetuccini que já comi —, vinhos e grapa, a grapa Nonino, é claro. Segundo me informou Soldati, com evidente conhecimento de causa, e eu repeti no pequeno discurso que pronunciei e ninguém ouviu, barulho ensurdecedor, a grapa Nonino não contente de ser a melhor do mundo é afrodisíaca.




Tenho horror a hospitais, os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte, mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço, não há flor bonita em campo-santo. Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram minha estima e a perderam.

Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.

Raros enterros ainda bem! de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.

Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.
Paris, 1949.

Educação sentimental
João Jorge chegou a Paris com quatro meses de idade, em língua francesa aprendeu a balbuciar as primeiras palavras, por muitos anos conservou o acento, o erre carregado.

Vasco Prado* vinha buscá-lo no hotel, colocava-o no colo, atrás do guidom, lá se ia João na bicicleta do escultor pelas ruas de Paris na primavera: adorava Vasco e a bicicleta.

Adorava também um zazou**, namorado de la bonne alsaciana que se ocupava dele enquanto Zélia estava nas aulas da Sorbonne ou em tarefas do Partido. No Jardim de Luxemburgo, bonne e zazou se encontravam, saíam empurrando o carrinho polonês, de madeira: João, nele sentado, os olhos vivos, aprendia a geografia da Rive Gauche.

Não apenas a geografia, pois o passeio se interrompia no sixième*** diante do prédio onde o zazou habitava pequeno quarto. O carrinho posto ao lado da cama de solteiro, sob os olhos vivíssimos do menino, o casal percorria os largos caminhos, as estreitas vielas da fornicação, em grande estilo, ao estilo dos existencialistas contestatários da sociedade burguesa. O zazou jurava por Sartre, a alsaciana suspirava em alemão, João Jorge aprendia.



*Vasco Prado, escultor.

**zazoujovem que se distinguiu pela paixão pelo jazz e pelos trajes excêntricos, em Paris de pós-guerra.

***sixième arrondissement bairro de Paris.


Paris, 1991.

Fuga
Fugi do Brasil no mês de agosto para não ver Mirabeau Sampaio* andar para a morte, sorrindo, a reviver, no adormecimento a que está reduzido, as histórias que amava contar, repetindo-as a qualquer pretexto ou sem pretexto algum, relembrando, emocionando-se, exaltando-se: suma de minha frente senão te mato, seu filho-da-puta! Quase podemos acompanhar nos sorrisos, nos esgares, nos estremecimentos, os lances da narrativa que nos é familiar, a Carybé* e a mim. Das visitas que lhe fazemos, saímos com os olhos úmidos, Zélia em lágrimas. Vou-me embora, não agüento mais, boto distância, deixo a morte do outro lado do oceano.

*José Mirabeau Sampaio, escultor e pintor.

**Carybé (Hector Júlio Páride Bernabó), pintor.
Mirabeau, o mais antigo dos meus companheiros de aventura, somos amigos desde o ano de 1923, das aulas do sábio padre Torrend, do bronco padre Faria no Colégio Antônio Vieira. Mirabeau ganhava todas as medalhas na festa de fim de ano, as que sobravam iam para Antônio Balbino* ou para Antônio Vieira de Melo**, no segundo ano ganhei uma, em catecismo, inexplicável engano. Pela vida afora andamos juntos durante quase setenta anos, o que nós fizemos só Deus sabe, se é que sabe.

*Antônio Balbino (1912/1992), político, governador da Bahia de 55 a 59.

** Antônio Vieira de Melo, jornalista.
Certa feita, aí por 1935, em frente ao Tabaris, de onde saímos tresnoitados, bêbados, Mirabeau, exibindo um revólver, propôs-me assassinarmos naquela mesma noite o chefe baiano da Ação Integralista, não tenho idéia de quem seria. Deu-nos trabalho, a mim e a Edgard, desarmá-lo, fazê-lo desistir do projeto político.

Edgard Rogaciano Ferreira foi seu chofer desde os tempos da rica e tresloucada juventude: o jogo, o tango, a bebida, as argentinas, os carros-esporte, as baratinhas, os cabriolés, os primeiros da Bahia. Permaneceu seu chofer inclusive durante os dez anos em que Mirabeau não teve automóvel, cuidava dele como se cuida de um filho ou de um pai, anjo da guarda a protegê-lo nas noites de boêmia.

Estendido na cama, Mirabeau nos fita, a Carybé e a mim postados diante dele a dizer tolices, a recordar Raquel Puccio e outras portenhas, fantasmas do passado, a repetir quem somos para ver se nos reconhece e se de novo nos reunimos a conversar e a rir, será que nos enxerga? De pronto sorri como se nos identificasse, mas permanece mudo e logo volta a ensimesmar-se.

Carybé escreve-me da Bahia: Mirabeau vivo e no além. Perseguido pela morte, busco escapar, perdê-la na distância tão difícil.

Milão, 1949.

Il piu noto
Diante da vitrine de uma livraria, na grande galeria no centro de Milão, Zélia, alvoroçada, aponta para um livro: olhe! Vejo um exemplar da edição de Terras do Sem Fim*, meu primeiro livro traduzido em italiano, a capa atraente reproduz cerâmica de Picasso.

*Terre del Finemondo, Bompiani, Milão.
— Veja o cartaz! — Zélia, assanhadíssima. O cartaz não é propriamente um cartaz, apenas um cartão retangular ao pé do volume, informando sobre o autor: Il piu noto scrittore brasiliano. Zélia lê em voz alta, repete; il piu noto. Vamos em frente, repletos.

Logo adiante, outra livraria, paramos em frente à vitrine em busca de Terras. Em vez, deparamos com a tradução de um livro de Erico Veríssimo, Olhai os lírios do campo, se bem me recordo. Ao pé do exemplar um cartaz, ou seja, um retângulo de cartão, a informação sobre o autor; Il piu noto scrittore brasiliano.



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