José Otacílio da Silva



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José Otacílio da Silva


ELEMENTOS DE SOCIOLOGIA GERAL


Marx / Durkheim / Weber / Bourdieu

Cascavel-PR /

Março -2004

PARTE I:

A ORIGEM DA SOCIOLOGIA



1- Uma Definição Sociologia


Qualquer área do conhecimento que pretenda receber a denominação de ciência há que definir o seu objeto de estudo específico e estabelecer as possibilidades de utilizar métodos científicos nos estudos desse objeto. Embora as linhas demarcatórias dos objetos de estudos das diversas ciências sociais não sejam nitidamente delimitadas, o propósito deste artigo é demonstrar qual é o objeto de estudo da sociologia e, além disso, mostrar a possibilidade de usar o método científico nos estudos da realidade social.

Florestan Fernandes, eminente sociólogo brasileiro, sugeriu certa vez que a sociologia é a “ciência que estuda os fenômenos sociais”, ou seja, o comportamento social que ocorre entre os membros de certos organismos sociais – como o é o agrupamento de abelhas, de formigas, de macacos ou de homens – na medida em que procuram, numa conjugação de esforços, satisfazer necessidades individuais ou coletivas. Os fenômenos sociais com que se ocupa a sociologia, em outros termos, são as “atividades (ou comportamentos) cuja manifestação, generalidade e repetição dependem, direta ou indiretamente, de condições internas ou externas dos organismos”; que dependem do modo de eles existirem; das dependências existentes entre eles no que concerne à adaptação ao ambiente natural, à alimentação, à reprodução ou á proteção mútua; dos laços invisíveis ou objetivos, que fazem da agregação e da associação mecanismos necessários nos processos de vida (Fernandes, 1970, p. 19).

Fernandes reconhece que a psicologia e a biologia, por exemplo, também se ocupam em estudar o que é social nos organismos. Entretanto, o enfoque que a sociologia direciona aos fenômenos sociais é diferente dos enfoques direcionados pela psicologia e pela biologia. No entender de Fernandes, se a biologia e a psicologia se ocupam “com a natureza, as variedades e as funções dos comportamentos sociais entre os seres vivos”, não cabe à sociologia “estudar os organismos sociais como tais, nem as propriedades deles, que determinam ou condicionam seus comportamentos sociais. Compete-lhe, especificamente, estudar os comportamentos sociais em si mesmos, ou seja, como parte de uma rede de interdependência e de interações sociais, características da espécie de organismos considerados” (Fernandes, 1970, p. 20). Assim como o biólogo e o psicólogo sabem que os processos biológicos e psicológicos são condicionados pelas situações sociais de vida dos organismos, o sociólogo reconhece que os processos sociais são variavelmente regulados por elementos e mecanismos extra-sociais, de natureza biológica, psicológica ou bio-psicológica. Apenas concentra sua atenção nas propriedades dos aspectos sociais da vida, que são objeto de sua especialidade (Fernandes, 1970, p. 20). O ponto de referência da sociologia na descrição dos fenômenos sociais não é o organismo, sua estrutura e mecanismo, mas a própria teia de interações e de relações sociais. Enfim, é a própria “a ordem social, inerente às diversas modalidades de manifestação organizada da vida, que oferece o ponto de referência através do qual os fenômenos sociais devem ser descritos sociologicamente” (Fernandes, 1970, p. 20).

No entendimento de Florestan Fernandes, há quatro níveis de organização da vida: biótico, biossocial, psicossocial e sociocultural. A ordem biótica se estabelece entre os aglomerados vegetais. Nesses aglomerados, ocorre a “condição mais elementar da capacidade dos organismos de estabelecer interação social com outros organismos da mesma espécie ou de espécies diferentes”. Entre os indivíduos que constituem um aglomerado vegetal ocorrem relações de interdependências puramente bióticas, produzidas por fatores orgânicos e por fatores inorgânicos. A ordem biosocial existe quando os “organismos dispõem da capacidade, biologicamente condicionada, de se locomoverem e de interagirem entre si”. Um exemplo de ordem biossocial seriam as sociedades de insetos, como as de abelhas ou de formigas. Nessas sociedades os fatores biológicos canalizam funções sociais e os padrões de comportamentos sociais derivam de fatores hereditários. A ordem psicossocial envolve “fatores orgânicos, psicobiológico e fatores sociais” na determinação da maneira de se viver em grupo e de se reagir apropriadamente à presença de outros organismos da mesma espécie ou de espécies diferentes”. A organização social dos primatas sub-humanos – chipanzés – seria um exemplo de ordem psicobiológica. Na ordem sócio-cultural os “fatores orgânicos são amplamente corrigidos e complementados por fatores supra-orgânicos”. Trata-se, na verdade, da organização social humana. Aqui, “os organismos se tornam capazes de produzir cultura, de transmiti-la, e de criar, por meio dela, importantes transformações nos recursos adaptativos condicionados biológica ou psicologicamente”. Homem, único animal a fugir de suas limitações na luta pela vida (Fernandes, 1970, p. 22-23).

Nestas diversas ordens sociais, como diz Fernandes, “cabe à sociologia estudar todas as espécies ou variedades de fatos sociais, pertinentes às comunidades vegetais, às comunidades animais e às comunidades humanas” (Fernandes, 1970, p. 29). A Sociologia, em síntese, “é a ciência que tem por objeto estudar a interação social dos seres vivos nos diferentes níveis de organização da vida” (Fernandes, 1980, p. 29)

O importante na discussão sobre o que é sociologia não é tanto saber qual é o objeto de estudo dessa disciplina, mas a possibilidade ou não de seu objeto ser estudado cientificamente, isto é, através dos métodos científicos. Há um certo consenso entre os diversos sociólogos de que sociologia é o “estudo científico do comportamento social ou da ação social dos seres humanos” (Bain e Kolb, 1987, p. 1147). Assim, ao invés de se indagar sobre o objeto da sociologia, sugere-se que se deve indagar, em primeiro lugar, se a sociologia é uma disciplina generalizadora ou uma disciplina histórica e, em seguida, se são legítimos os métodos de investigação adotados pela sociologia. Discutir se há possibilidade, ou não, de generalização na sociologia é discutir se há regularidades, ou não, na ocorrência dos fenômenos sociais e, portanto, se há ou não possibilidades de fazer previsão sobre a ocorrência desses fenômenos. Discutir sobre a legitimidade dos métodos é discutir se há ou não possibilidades de apreender os fenômenos sociais tais como eles se manifestam na realidade objetiva.

Na discussão acerca da possibilidade de generalização nos estudos sociológicos há duas correntes de pensamento: a corrente historicista formulada por Max Weber e a corrente positivista iniciada por Auguste Comte. O historicismo considera que o fato social é um fato único, isto é, manifesta-se de forma singular e que, portanto, inútil seria tentar estabelecer leis gerais no pressuposto de haver repetição na ocorrência desse fato. Para o historicismo, a generalização só pode ser estabelecida nas ciências naturais – física, química – pois, ali, é mais provável a repetição na ocorrência dos fatos naturais. Na sociologia e nas ciências sociais em geral, que estão preocupadas em estudar a ação e a interação social ou, mais amplamente, o comportamento humano, a generalização não é possível, pois tais fatos sociais são de natureza muito complexa, isto é, fatos constituídos de idéias, crenças, sentimentos, motivos, etc., que variaria de indivíduo para indivíduo e no mesmo indivíduo em contextos diferentes. A partir de Max Weber, entretanto, “tem-se acentuado o uso de categorias gerais de generalizações limitadas à compreensão de determinadas realidades históricas” (Bain e Kolb, 1987, p. 1147). Ao contrário do historicismo, o positivismo, no início, acredita não só que é possível, mas também desejável estabelecer a generalização no estudo dos fatos sociais. Assim, através da eliminação dos aspectos não observáveis diretamente no comportamento, os positivistas, através de métodos estatísticos, pretendem descobrir as leis gerais que regem os fenômenos sociais. Outros sociólogos, mesmo sem negligenciar os aspectos não observáveis diretamente da ação humana, avaliam que a sociologia, através de métodos mais refinados, deve-se mover “em direção a uma faixa o mais ampla possível de generalizações sistemáticas” (Bain e Kolb, 1987, p. 1148).

Saber se os métodos utilizados nos estudos sociológicos são legítimos, ou não, implica saber se eles possibilitam ou não a verificação das afirmações, descritivas ou generalizadoras, estabelecidas pelo sociólogo. As afirmações que as ciências naturais estabelecem sobre os fatos naturais são facilmente verificáveis, pois essas ciências podem recorrer ao método experimental e a medições exatas. A sociologia, impossibilitada de fazer experimentos diretos com os fatos sociais e desprovida de instrumentos de medições exatas, necessariamente deve recorrer a outros métodos e instrumentos de medição compatíveis com o seu objeto de estudo. Quando não é possível usar método experimental, a sociologia recorre a outros métodos alternativos para verificar suas afirmações: método histórico, método comparativo, método do tipo ideal, método dialético, etc. Quando não é possível a manipulação de variáveis, a sociologia recorre à estatística para medir ou quantificar os fenômenos analisados. Assim, dependendo do que se entende por ciência, pode-se dizer que a sociologia tem legitimidade ao requerer o estatuto de ciência, pois, além de possuir um objeto próprio de estudo, possui métodos e técnicas de observação e de verificação de afirmações que lhe conferem essa legitimidade científica.

A sociologia é a ciência que se ocupa com o estudo da ação social ou com a interação social dos seres dos seres vivos, particularmente, dos seres humanos e, para alcançar este objetivo, recorre a diversos métodos e técnicas de verificação de suas hipóteses ou de suas afirmações.



Questões para estudo:
1-Qual é o objetivo do texto?

2-Em termos de objeto de estudo é possível estabelecer alguma distinção entre sociologia, psicologia e biologia?

3-Em seu entender, como Durkheim avalia a possibilidade de se estabelecer generalizações nas ciências sociais?

4-Em seu entender, é legítima a pretensão da sociologia em ser uma ciência?

5-Em sua opinião, como se poderia definir a sociologia?

Sugestões para leitura:
BAIN, Read e KOLB, William L. Sociologia. In: Dicionário de ciências sociais. Rio de Janeiro: FGV, 1987. (p. 1147-1149)

FERNANDES, Florestan. Conceito de sociologia. In. CARDOSO, F.H. e IANNI, O. Homem e sociedade. São Paulo: Ed. Nacional, 1980. (p. 25-34)

FERNANDES, Florestan. Elementos de sociologia teórica. São Paulo: Nacional/USP, 1970. (p. 19-32)

CASTRO, Ana M. e DIAS, Edmundo. Sociologia. Rio de Janeiro: Eldorado, 1981. (p.11-38).

TOURAINE, Alain. Em defesa da sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. (p. 21-46)

ÁVILA, Fernando Bastos de. Introdução à sociologia. Rio de Janeiro: Agir, 1981. (p. 13-40)

SOUTO, Cláudio e SOUTO, Solange. A explicação sociológica: uma introdução à Sociologia. São Paulo: EPU, 1985. (p. 1-11).

2- A Sociologia no Século XVIII

Na literatura que trata da origem da sociologia é comum encontrarmos referências a Auguste Comte (1798-1857) como o “pai” ou o fundador da sociologia. De fato, foi Auguste Comte que, no século XIX, não só criou o termo sociologia (Bierstedt, 1980, p. 19), mas foi também o primeiro a elaborar uma teoria sociológica tratando das relações sociais do homem em sua vida social. Entretanto, antes de Comte, particularmente no século XVIII, muitos outros pensadores – embora sem uma preocupação clara em estudar as interações e as relações sociais que ocorrem na sociedade – já haviam tratado de temas que viriam constituir-se objeto de estudo da sociologia. O objetivo do presente texto é mostrar como se manifestou esse pensamento sociológico que, já no século XVIII, trazia consigo idéias sobre a própria sociedade; sobre as maneiras e costumes existentes nas sociedades daquele século. Embora outros pensadores tivessem tratado de questões sociológicas em suas obras – Voltaire, Diderot, Condorcet, Saint-Simon, Vico, entre outros – por falta de espaço, discutiremos aqui apenas os aspectos sociológicos do pensamento de Montesquieu e de Rousseau.

Montesquieu (1689-1755) – pensador que escreveu sua principal obra, O espírito das leis, com um século de antecedência aos escritos de Comte – é considerado por alguns estudiosos como um sociólogo, pois, em sua explicação das sociedades humanas, não só exclui o sobrenatural como supostas causas da ocorrência dos fenômenos sociais, como também estuda as instituições sociais com métodos, isto é, através da comparação. Em seu estudo sobre as causas da grandeza e da decadência do Império Romano, por exemplo, Montesquieu considera que a causa principal da decadência foi a centralização do governo – uma vez que esta centralização destruiu as forças das províncias – e a transformação da república em monarquia. Quer dizer, longe de Montesquieu indicar causas sobrenaturais como forças geradoras dos fenômenos sociais, ele está indicando causas que foram geradas pelos próprios homens – centralização do governo, mudança na forma de governo – como forças motrizes da história, no caso, da decadência do Império Romano. Como diz Montesquieu, “Não é a fortuna que governa o mundo, como vemos pela história dos romanos (...) Há causas gerais, morais ou físicas que operam em todas as monarquias, (que) as mantêm ou as derrubam. Tudo o que acontece está sujeito a essas causas, e se determinada causa, como o resultado acidental de uma batalha, arruinou um Estado, houve uma causa geral que fez com que a sorte desse Estado dependesse de uma única batalha. Numa palavra, o impulso principal determina todas as ocorrências particulares”. Quer dizer, Montesquieu “busca causas gerais para tornar a história inteligível e, portanto, formula também, perguntas sociológicas”. Ele “se volta para o povo não como uma multidão de indivíduos sob um governo, mas como uma comunidade distinguível das outras pelas suas maneiras e instituições. Todas as instituições, políticas, religiosas, domésticas, econômicas, e artísticas estão - aos seus olhos - inseparavelmente relacionadas entre si” (Bierstedt, 1980, p. 27).

Em O espírito das leis, como sugere Bierstedt, dificilmente se pode imaginar uma preocupação mais sociológica. Nesta obra Montesquieu aponta o clima como o principal fator responsável pela ocorrência dos fenômenos sociais. A seu ver, o clima exerce sua influência sobre a escravidão, sobre as relações entre os sexos, sobre os costumes morais de uma nação, etc. Numa palavra, Montesquieu considerou que o clima exerce grande influência na determinação do espírito das leis, ou seja, da cultura do povo. Como sugere Montesquieu, ”as pessoas são mais vigorosas nos climas frios. Nestes, a ação do coração e a reação das extremidades das fibras realizam-se melhor; a temperatura dos humores é mais elevada, o sangue movimenta-se mais livremente em direção ao coração e, reciprocamente, o coração tem mais força. Essa superioridade de força deve produzir vários efeitos; por exemplo, uma maior opinião da segurança, isto é, mais franqueza, menor desconfiança, menos política e artimanha. Em suma, isso deve produzir temperamento muito diferente”. “Nos países frios – continua Montesquieu – é pequena a sensibilidade ao prazer; nos países temperados é maior; nos países quentes, esta sensibilidade é requintada. Como os climas se distinguem pelos graus de latitude, poderíamos distingui-los também, em certa medida, pelos graus de sensibilidade. Freqüentei a ópera na Inglaterra e na Itália, tendo visto as mesmas obras e os mesmos executantes; não obstante, a mesma música produz efeitos tão diferentes nas duas nações: uma é tão fria e fleumática, a outra tão animada e entusiasta, que chega a parecer inconcebível” (Bierstedt, 1980, p. 28).

A escravidão, longe de ser resultado do destino do indivíduo ou de resultar de forças sobrenaturais, no entendimento de Montesquieu, ela é uma resultante do clima. Segundo Mopntesquieu, “há países em que o excesso de calor enerva o corpo e torna os homens tão indolentes e desanimados que nada, exceto o medo do castigo, pode obrigá-los a realizar qualquer trabalho: a escravidão é ali mais reconciliável com a razão; e sendo o senhor tão preguiçoso em relação ao seu soberano quanto seu escravo em relação a ele, isso contribui para uma escravidão política, além da escravidão civil”. Mas, continua Montesquieu, “assim como todos os homens nasceram iguais, a escravidão deve ser considerada como antinatural, embora em alguns países seja baseada na razão natural; e uma grande diferença deve ser estabelecida entre esses países e aqueles nos quais até mesmo a razão natural a rejeita, como na Europa, onde foi felizmente abolida” (Bierstedt, 1980, p. 29). O clima, segundo Montesquieu, influi até mesmo nas relações sexuais. Nos países quentes, o sexo feminino já se pode casar aos oito ou nove anos, envelhecendo aos vinte. É natural que nesses países os homens deixam uma mulher para tomar outra, e é por isso que os asiáticos permitem a poligamia, ao passo que nos países europeus não a admitem. Isso por sua vez tem conseqüência para a religião. Explica porque o Islamismo, que aprova a poligamia foi admitido na Ásia e não na Europa. Da mesma forma, diz Montesquieu, “há climas onde os impulsos da natureza têm tanta força que a moral não tem quase nenhuma” (Bierstedt, 1980, p. 30).

Além do clima, Montesquieu considera, também, a natureza do solo, a disponibilidade de água, a presença de portos, etc., como fatores determinantes do comportamento humano. Neste sentido, Montesquieu afirma que “os moradores da ilha têm um maior anseio de liberdade do que os do continente. As ilhas são comumente de pequenas proporções; uma parte das pessoas não pode ser tão facilmente usada para oprimir outra; o mar a separa dos grandes impérios; a tirania não pode manter-se facilmente dentro de uma área limitada; os conquistadores são detidos pelo mar; e os ilhéus, estando fora do alcance de seus exércitos, preservam mais facilmente suas próprias leis” (bierstedt, 1980, p. 30).

Rousseau (1712-1778), em seu discurso que trata dos efeitos das artes e das ciências sobre a moral, também já trazia para a discussão teses verdadeiramente sociológicas. Naquele texto Rousseau propõe, por exemplo, que “o fluxo diário das marés não é mais influenciado pela lua do que a moral de um povo pelo progresso das artes e das ciências. Quando sua luz se levantou acima do horizonte, a virtude fugiu e o mesmo fenômeno foi constantemente observado em todas as épocas e lugares”. Neste escrito, Rousseau demonstra, empiricamente e através da comparação entre as realidades de diversos países, que, nos países da Antiguidade onde as artes e as ciências mais se desenvolveram, suas respectivas culturas sofreram profundas transformações. Enfim, a tese de Rousseau neste artigo é clara: o aparecimento da ciência coincide com o declínio da moral (Bierstedt, 1980, p. 33-34).

Em sua obra, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (Rousseau, 1999, p. 49-116), Rousseau defende a tese de que há “dois tipos de desigualdade entre a espécie humana: um que chamo de natural ou físico, por ser estabelecido pela natureza e consistir na diferença de idade, saúde, força corporal, e as qualidades da mente ou da alma; e o outro, que pode ser chamado de desigualdade moral ou política porque depende de uma espécie de convenção, estabelecida, ou pelo menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Esta última consiste nos diferentes privilégios que certos homens desfrutam, em prejuízo de outros, como o de serem mais ricos, mais honrados, mais poderosos e mesmo estarem em posição de exigir obediência”. As pequenas desigualdades que existiam entre os homens em estado de natureza foram, assim, ampliadas pelas desigualdades produzidas pelas instituições sociais. As instituições sociais geradoras das desigualdades surgiram, segundo Rousseau, a partir do momento em que surgiu a propriedade privada. Neste sentido, como diz o próprio Rousseau, “o primeiro homem que tendo cercado um pedaço de terra imaginou-se dizendo ‘isto é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, horrores, infelicidades teriam sido evitadas se ninguém tivesse ouvido esse impostor”. Mas o impostor foi ouvido por todos e as desigualdades entre eles cada vez mais foram ampliadas. É neste contexto de crescente desigualdade que ameaçava a segurança e a vida de cada um e de todos, que alguém deve ter convencido a todos da importância de fazerem um pacto social para que, juntos e associados, pudessem promover a proteção mútua, e então, “todos correram ao encontro de seus grilhões” (Rousseau, 1999, p. 100) e, com isso, construíram a sociedade. A sociedade para Rousseau, portanto, não é algo que sempre existiu e nem é algo que resulta de causas sobrenaturais. Para o autor de O espírito das leis, a sociedade é obra dos próprios homens: ela nasce e evolui conforme ocorre a atuação dos próprios homens em suas relações sociais interativas.

Enfim, pode-se dizer que, embora a sociologia só tenha sido institucionalizada como ciência no século XIX, os pensadores de séculos anteriores já desenvolviam verdadeiras teses sociológicas.

Questões para estudo:
1-Por que Auguste Comte – pensador do século XIX – é tido por muitos estudiosos como o fundador da sociologia?

2-Por que Montesquieu – pensador do século XVIII – poderia ser considerado um sociólogo?

3-Quais fatores objetivos são considerados por Montesquieu como causas dos fenômenos sociais?

4-Por que Rousseau, pensador do século XVIII, também poderia ser considerado um sociólogo?




Sugestões para leitura:
BIERSTEDT, Robert. O Pensamento Sociológico do Século XVIII. In.: BOTTOMORE, T. e NISBET, Robert. História da análise sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. (p. 19-64)

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Nova Cultura, 1999. (Vol. II, p. 49-116)

MONTESQUIEU. Do espírito das leis. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

ÁVILA, Fernando Bastos de. Introdução à sociologia. Rio de Janeiro: Agir, 1981. (p. 161-171).



3- Auguste Comte e a Sociologia


Auguste Comte pode ser considerado o fundador da sociologia não só por ter sido o primeiro pensador a construir um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre a realidade social, mas também por ter indicado os métodos com os quais se pudesse explicar a realidade social e até mesmo por ter criado o termo sociologia (Bierstedt, 1980, p. 19). Devido à importância de Auguste Comte para a história da sociologia, de modo sintético, pretendemos ressaltar, aqui, três aspectos essenciais do pensamento sociológico de Auguste Comte: sua filosofia da história, ou seja, a teoria dos três estados; sua definição de “física social”, ou seja, de sociologia, e sua classificação das ciências.

Comte nasceu em Montpellier, na França, em janeiro de 1798 e morreu em setembro de 1857. Em 1814, com idade de dezesseis anos, Auguste Comte ingressou na Escola Politécnica de Paris, fato que teria significativa influência na orientação posterior de seu pensamento - Comte fala da Politécnica como a primeira comunidade verdadeiramente científica, que deveria servir como modelo de toda educação superior. Comte recebeu influência dos chamados ideólogos: Destutt de Tracy (1754-1836); Cabanis (1757-1808); Valney (1757-1820); teve a oportunidade de ler Adam Smith (1723-1790); Jean-Batiste Say (1767-1832); David Humes (1711-1776). Porém, o fator mais decisivo para a sua formação foi o estudo do Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano de Condorcet (1743-1794), ao qual se referia mais tarde como “meu imediato predecessor”. A obra de Condorcet traça um quadro do desenvolvimento da humanidade, no qual os descobrimentos e invenções da ciência e da tecnologia desempenham papel preponderante, fazendo o homem caminhar para uma era em que a organização social e política seriam produto das luzes da razão. Essa idéia tornar-se-ia um dos pontos fundamentais da filosofia de Comte (Giannotti, 1978, p. V-XVIII).

Em sua filosofia da história, Comte procura demonstrar que, em seu processo evolutivo, as ciências e o espírito humano passam, sucessivamente, por três estados distintos: estado teológico ou fictício, estado metafísico ou abstrato, e estado científico ou positivo. Isto significa dizer que, em sua evolução, “o espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas investigações, três métodos de filosofar, cujo caráter é essencialmente diferente e mesmo radicalmente oposto: primeiro, o método teológico, em seguida o método metafísico, finalmente o método positivo. O primeiro é o ponto de partida da inteligência humana, o terceiro o seu fim” (Comte, 1978, p. 3-4).

O estado teológico se caracteriza pelo fato de o espírito humano se direcionar para a busca das causas primeiras e finais dos fenômenos que se manifestam na realidade e por ter agentes sobrenaturais como produtores desses fenômenos. Quer dizer, neste estado de sua evolução, o espírito humano manifesta, espontaneamente, uma predileção característica por questões mais insolúveis e procura a “origem de todas as coisas, as causas essenciais, quer primeiras, quer finais, dos diversos fenômenos” e o modo fundamental como são produzidos. Neste empreendimento, o espírito humano atribui a corpos exteriores, vida essencialmente análoga à nossa, mas mais enérgica e mais potente. É o estado da adoração dos astros, o estado do “politeísmo”. Por fim, a vida atribuída aos objetos materiais é deles retirada para ser misteriosamente transportada para seres fictícios diversos, habitualmente invisíveis, que intervêm nos fenômenos exteriores e humanos (Comte, 1978, p. 44). A perfeição do sistema teológico seria atingida quando as diversas divindades são substituídas por uma única, isto é, quando o politeísmo se transforma em monoteísmo.

No estado metafísico, os agentes sobrenaturais são substituídos por “forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo”. A perfeição do sistema metafísico seria alcançada quando, em lugar de diferentes entidades particulares, fosse concebida uma única entidade geral, a natureza, considerada como fonte exclusiva de todos os fenômenos. No estado metafísico - fase intermediária da passagem do estado teológico ao estado positivo - as especulações dominantes nele conservam o mesmo caráter essencial de tendência habitual aos conhecimentos absolutos. O espírito humano continua tentando explicar a natureza íntima das coisas, mas, ao invés de empregar para isso agentes sobrenaturais propriamente ditos, ele os substitui progressivamente por entidades ou abstrações personificadas. A imaginação e a argumentação ainda predominam sobre a observação (Comte, 1978, p. 46-47).

No estado positivo, “o espírito, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais...”. A perfeição do sistema positivo, para “a qual este tende sem cessar, apesar de ser muito provável que nunca deva atingi-la, seria poder representar todos os diversos fenômenos observáveis como casos particulares de um único fato geral, como a gravitação o explica” (Comte, 1978, p. 4). O espírito humano na sua busca do conhecimento, “reconhece de agora em diante, como regra fundamental, que toda proposição que não seja estritamente redutível ao simples enunciado de um fato, particular ou geral, não pode oferecer nenhum sentido real e inteligível. Os princípios que emprega são apenas fatos verdadeiros, somente mais gerais ou abstratos do que aqueles dos quais deve formar o elo”. Numa Palavra, de agora em diante trata-se de substituir a busca das causas dos fenômenos pela simples “pesquisa das leis, isto é, das relações constantes entre os fenômenos observados. Quer se trate dos menores quer dos mais sublimes efeitos, do choque ou da gravidade, do pensamento ou da moralidade, deles só podemos conhecer as diversas ligações mútuas próprias à sua realização, sem nunca penetrar no mistério de sua produção” (Comte, 1978, p. 48-49).

No entendimento de Comte, em sua época – ou seja, na primeira metade do século XIX – os diversos fenômenos – astronômicos, físicos, químicos, fisiológicos (Comte, 1978, p. 9) – já estavam sendo estudado de modo positivista, ou seja, já se buscava, através da observação, as leis que regem estes fenômenos, e não, através da especulação, as suas causas primeiras ou finais. Entretanto, a seu ver, apenas os fenômenos sociais não eram estudados de modo positivista, isto é, os diversos pensadores sociais, ao invés observarem os fenômenos sociais para descobrir as leis que os regem, continuavam buscando suas causas primeiras e finais através da especulação filosófica. Como diz Comte, no que concerne aos fenômenos sociais – “a despeito de sua insuficiência já ser percebida por todos os bons espíritos, cansados de vãs contestações intermináveis entre o direito divino e a soberania do povo” – são ainda utilizados “os métodos teológicos e metafísicos” (Comte, 1978, p. 9). Com este entendimento, Comte julgou oportuno e tratou de fundar a ciência social por ele denominada física social ou sociologia (Comte, 1978, p. 3 e 9). Segundo Giannotti, um “aspecto fundamental da sociologia comteana é a distinção entre a estática e a dinâmica sociais. A primeira estudaria as condições constantes da sociedade; a segunda investigaria as leis de seu progressivo desenvolvimento. A idéia fundamental da estática é a ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte a dinâmica social subordina-se à estática, pois o progresso provém da ordem e aperfeiçoa os elementos permanentes de qualquer sociedade: religião, família, propriedade, linguagem, acordo entre poder espiritual e temporal, etc.” (Giannotti, 1978, p. XIII).

Comte considera que, com a fundação da física social, completa-se o sistema das ciências naturais e, com isso, surge a necessidade de sistematização das ciências. Como diz o próprio Comte, “posto que a fundação da física social completa o sistema das ciências naturais, torna-se possível e mesmo necessário resumir os diversos conhecimentos adquiridos, que atingiram, então, um estado fixo e homogêneo, a fim de coordená-los, apresentando-os como diferentes ramos de um mesmo tronco, ao invés de continuar considerando-os apenas como vários corpos isolados”. Trata-se, então, de considerar “cada ciência fundamental em suas relações com o sistema positivo inteiro e no que respeita ao espírito que a caracteriza, a saber, sob a dupla relação de seus métodos essenciais e de seus resultados principais” (Comte, 1978, p. 10). Com esse critério, Comte classifica as ciências de acordo com a maior ou menor simplicidade de seus respectivos objetos de estudo: matemáticas, astronomia, física, química, biologia e sociologia. As matemáticas possuem o maior grau de generalidade e estudam a realidade mais simples e indeterminada. A astronomia acrescenta a força ao puramente quantitativo, estudando as massas dotadas de força de atração. A física soma a qualidade ao quantitativo e às forças, ocupando-se do calor, da luz, etc., que seriam forças qualitativamente diferentes. A química trata de matérias qualitativamente distintas. A biologia ocupa-se dos fenômenos vitais, nos quais a matéria bruta é enriquecida pela organização. Finalmente a sociologia estuda a sociedade onde os seres vivos se unem por laços independentes de seus organismos. A sociologia é vista por Comte como “o fim essencial de toda a filosofia positiva”. Matemática, astronomia, física, química e biologia atingem o estado positivo antes da sociologia, mas, permanecendo adstritas a parcelas do real, não conseguem instaurar a filosofia positiva em sua plenitude. A totalização do saber somente poderia ser alcançada através da sociologia, na qual culminaria a formulação de um “sistema verdadeiramente indivisível onde toda decomposição é radicalmente artificial (...), tudo se relacionando com a humanidade, única concepção completamente universal” (Giannotti, 1978, p. XIII).

Em suma, com a fundação da sociologia como ciência – ciência que, através da observação, pretende descobrir as leis que regem os fenômenos sociais – Comte esperava ter coroado o seu sistema filosófico. Ao descobrir, gradativamente, as inquestionáveis leis que regem os fenômenos sociais, a sociologia estaria contribuindo para a criação do consenso sobre a realidade social e, com isto, as condições necessárias para que a sociedade pudesse marchar em “ordem” rumo ao “progresso”.



Questões para estudo:
1-Você concorda com aqueles que afirmam ser Auguste Comte o fundador da sociologia? Por quê?

2-Qual é a idéia central da filosofia da história de Auguste Comte?

3-Na filosofia comteana, o que são os três estados de evolução do espírito humano?

4-O que você entende por positivismo?

5-Qual é a importância da sociologia no sistema filosófico de Auguste Comte?

Sugestões para leitura:
GIANNOTTI, José Arthur. Comte: vida e obra. In: COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva / Discurso sobre o espírito positivista / Catecismo positivista. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores) (p. V-XIII).

COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva; Discurso sobre o espírito positivo; Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo; Catecismo positivista. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores, p. 1-94).

BOCK, Kenneth. Teorias do Progresso, Desenvolvimento e Evolução. In: BOTTOMORE, T. e NISBET, R. História da análise sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. (p. 65-110)



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