José Saramago



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José Saramago



A caverna





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Romance


Novembro de 2000
Editorial Caminho

O Campo da Palavra



O homem que conduz a camioneta chama-se Cipriano Algor, é oleiro de profissão e tem sessenta e quatro anos, posto que à vista pareça menos idoso. O homem que está sentado ao lado dele é o genro, chama-se Marçal Gacho, e ainda não chegou aos trinta. De todo o modo, com a cara que tem, ninguém lhe daria tantos. Como já se terá reparado, tanto um como outro levam colados ao nome próprio uns apelidos insólitos cuja origem, significado e motivo desconhecem. O mais provável será sentirem-se desgostosos se alguma vez vierem a saber que aquele algor significa frio intenso do corpo, prenunciador de febre, e que o gacho é nada mais nada menos que a parte do pescoço do boi em que assenta a canga. O mais novo veste uniforme, mas não está armado. O mais velho traja um casaco civil e umas calças mais ou menos a condizer, leva a camisa sobriamente fechada no colarinho, sem gravata. As mãos que manejam o volante são grandes e fortes, de camponês, e, não obstante talvez por efeito do quotidiano contacto com as maciezas da argila a que o ofício obriga, prometem sensibilidade. Na mão direita de Marçal Gacho não há nada de particular, mas as costas da mão esquerda apresentam uma cicatriz com aspecto de queimadura, uma marca em diagonal que vai da base do polegar à base do dedo mínimo. A camioneta não merece esse nome, é apenas uma furgoneta de tamanho médio, de um modelo fora de moda, e vai carregada de louça. Quando os dois homens saíram de casa, vinte quilómetros atrás, o céu ainda mal começara a clarear, agora a manhã já pôs no mundo luz bastante para que se possa observar a cicatriz de Marçal Gacho e adivinhar a sensibilidade das mãos de Cipriano Algor. Vêm viajando a velocidade reduzida por causa da fragilidade da carga e também pela irregularidade do pavimento da estrada. A entrega de mercadorias não consideradas de primeira ou segunda necessidades, como é o caso das louças rústicas, faz-se, de acordo com os horários fixados, a meio da manhã, e se estes dois homens madrugaram tanto foi porque Marçal Gacho tem de marcar o ponto pelo menos meia hora antes de as portas do Centro serem abertas ao público. Nos dias em que não traz o genro, mas tem louças para transportar, Cipriano Algor não precisa de se levantar tão cedo. Contudo, de dez em dez dias, é sempre ele quem se encarrega de ir buscar Marçal Gacho ao trabalho para passar com a família as quarenta horas de folga a que tem direito, e quem, depois, com louça ou sem louça na caixa da furgoneta, pontualmente o reconduz às suas responsabilidades e obrigações de guarda interno. A filha de Cipriano Algor, que se chama Marta, de apelidos Isasca, por parte da mãe já falecida, e Algor, por parte do pai, só goza da presença do marido em casa e na cama seis noites e três dias em cada mês. na noite antes desta ficou grávida, mas ainda não o sabe.

A região é fosca, suja, não merece que a olhemos duas vezes. Alguém deu a estas enormes extensões de aparência nada campestre o nome técnico de Cintura Agrícola, e também, por analogia poética, o de Cintura Verde, mas a única paisagem que os olhos conseguem alcançar nos dois lados da estrada, cobrindo sem solução de continuidade perceptível muitos milhares de hectares, são grandes armações de tecto plano, rectangulares, feitas de plásticos de uma cor neutra que o tempo e as poeiras, aos poucos, foram desviando ao cinzento e ao pardo. Debaixo delas, fora dos olhares de quem passa, crescem plantas. Por caminhos secundários que vêm dar à estrada, saem, aqui e além, camiões e tractores com atrelados carregados de vegetais, mas o grosso do transporte já se efectuou durante a noite, estes de agora, ou têm autorização expressa e excepcional para fazer a entrega mais tarde, ou deixaram-se dormir. Marçal Gacho afastou discretamente a manga esquerda do casaco para olhar o relógio, está preocupado porque o trânsito se torna pouco a pouco mais denso e porque sabe que de aqui para diante, quando entrarem na Cintura Industrial, as dificuldades aumentarão. O sogro deu pelo gesto, mas deixou-se ficar calado, este seu genro é um moço simpático, sem dúvida, mas é nervoso, da raça dos desassossegados de nascença, sempre inquieto com a passagem do tempo, mesmo se o tem de sobra, caso em que nunca parece saber o que lhe há-de pôr dentro, dentro do tempo, entenda-se, Como será quando chegar à minha idade, pensou. Deixaram a Cintura Agrícola para trás, a estrada, agora mais suja, atravessa a Cintura Industrial rompendo pelo meio de instalações fabris de todos os tamanhos, actividades e feitios, com depósitos esféricos e cilíndricos de combustível, estações eléctricas, redes de canalizações, condutas de ar, pontes suspensas, tubos de todas as grossuras, uns vermelhos, outros pretos, chaminés lançando para a atmosfera rolos de fumos tóxicos, gruas de longos braços, laboratórios químicos, refinarias de petróleo, cheiros fétidos, amargos ou adocicados, ruídos estridentes de brocas, zumbidos de serras mecânicas, pancadas brutais de martelos de pilão, de vez em quando uma zona de silêncio, ninguém sabe o que se estará produzindo ali. Foi então que Cipriano Algor disse, Não te preocupes, chegaremos a tempo, Não estou preocupado, respondeu o genro, disfarçando mal a inquietação, Bem sei, era uma maneira de falar, disse Cipriano Algor. Fez virar a forgoneta para uma rua paralela reservada à circulação local, Vamos atalhar caminho por aqui, disse, se a polícia nos perguntar por que saímos da estrada, recorda-te da combinação, temos um assunto a tratar numa destas fábricas antes de chegarmos à cidade. Marçal Gacho respirou fundo, quando o tráfego se complicava na estrada, o sogro, mais tarde ou mais cedo, acabava por tomar um desvio. O que o afligia era a possibilidade de que ele se distraísse e tomasse a decisão tarde de mais. Felizmente, apesar dos temores e dos avisos, nunca tinham sido mandados parar pela polícia, Alguma vez se haverá de convencer de que já não sou um rapaz, pensou Marçal, de que não tem de estar a lembrar-me todas as vezes isto dos assuntos a tratar nas fábricas. Não imaginavam, um e outro, que fosse precisamente o uniforme de guarda do Centro que Marçal Gacho envergava o motivo da continuada tolerância ou da benévola indiferença da polícia de trânsito, que não era simples resultado de acasos múltiplos ou de teimosa sorte, como provável mente teria sido a sua resposta se lhes perguntassem a razão por que achavam eles que não tinham sido multados até aí. Conhecesse-a Marçal Gacho, que talvez fizesse valer perante o sogro o peso da autoridade que a farda lhe conferia, conhecesse-a Cipriano Algor, que talvez passasse a falar ao genro com menos irónica condescendência. É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe .Depois da Cintura Industrial principia a cidade, enfim, não a cidade propriamente dita, essa avista-se lá adiante, tocada como uma carícia pela primeira e rosada luz do sol, o que aqui se vê são aglomerações caóticas de barracas feitas de quantos materiais, na sua maioria precários, pudessem ajudar a defender das intempéries, sobretudo da chuva e do frio, os seus mal abrigados moradores. É, no dizer dos habitantes da cidade, um lugar assustador. De tempos a tempos, por estas paragens, e em nome do axioma clássico que prega que a necessidade também legisla, um camião carregado de alimentos é assaltado e esvaziado em menos tempo do que leva a contá-lo. O método operativo, exemplarmente eficaz, foi elaborado e desenvolvido depois de uma aturada reflexão colectiva sobre o resultado dos primeiros intentos, malogrados, como logo se tornou óbvio, por uma total ausência de estratégia, por uma táctica, se assim se lhe poderia chamar, antiquada, e, finalmente, por uma deficiente e errática coordenação de esforços, na prática entregues a si mesmos. Sendo quase contínuo durante a noite o fluxo de tráfego, bloquear a estrada para reter um camião, como tinha sido primeira ideia, significou caírem os assaltantes na sua própria armadilha, uma vez que atrás desse camião logo outros camiões vinham, portanto reforços e socorro imediato para o condutor em apuros. A solução do problema, efectivamente genial, como à boca pequena foi reconhecido pelas próprias autoridades policiais, consistiu em dividirem-se os assaltantes em dois grupos, um táctico, outro estratégico, e em estabelecer duas barragens em lugar de uma, começando o grupo táctico por cortar rapidamente a estrada depois da passagem de um camião suficientemente separado dos outros, e logo o grupo estratégico, umas centenas de metros mais adiante, informado adrede por um sinal luminoso, com ligeireza igual montava a segunda barragem, onde o veículo condenado pelo destino não tinha outro remédio que deter-se e deixar-se roubar. Para os veículos que vinham em direcção contrária não era necessário nenhum corte de estrada, os próprios condutores deles se encarregavam de parar ao perceberem o que se passava lá adiante. Um terceiro grupo, designado de intervenção rápida, se encarregaria de dissuadir com uma chuva de pedras qualquer solidário atrevido. As barragens eram feitas com grandes pedregulhos transportados em padiolas, que alguns dos próprios assaltantes, jurando e trejurando que não tinham nada que ver com o sucedido, vinham depois ajudar a retirar para a berma da estrada, Essa gente é que dá má fama ao nosso bairro, nós somos pessoas honestas, diziam, e os condutores dos outros camiões, ansiosos por que lhes limpassem o caminho para não chegarem tarde ao Centro, só respondiam, Pois, pois. A tais acidentes de percurso, sobretudo porque circula quase sempre por estes sítios à luz do dia, tem sido poupada a furgoneta de Cipriano Algor. Pelo menos, até hoje. De facto, porque as louças de barro são as que mais geralmente vão à mesa do pobre e mais facilmente se partem, o oleiro não está livre de que uma mulher, das muitas que mal-vivem nestas barracas, se lembre de dizer um dia destes ao chefe da família, Estamos a precisar de pratos novos, ao que ele de certeza responderá, Vou tratar disso, passa por aí às vezes uma furgoneta que tem escrito por fora Olaria, é impossível que não leve pratos, E púcaros, acrescentará a mulher, aproveitando a maré favorável, E púcaros, não me esquecerei.

Entre as barracas e os primeiros prédios da cidade, como uma terra-de-ninguém separando duas facções enfrentadas, há um largo espaço despejado de construções, porém, olhando com um pouco mais de atenção, percebe-se no solo uma rede entrecruzada de rastos de tractores, certos alisamentos que só podem ter sido causados por grandes pás mecânicas, essas implacáveis lâminas curvas que, sem dó nem piedade, levam tudo por diante, a casa antiga, a raiz nova, o muro que amparava, o lugar de uma sombra que nunca mais voltará a estar. No entanto, tal como sucede nas vidas, quando julgávamos que também nos tinham levado tudo por diante e depois reparámos que afinal nos ficara alguma coisa, igualmente aqui uns fragmentos dispersos, uns farrapos emporcalhados, uns restos de materiais de refugo, umas latas enferrujadas, umas tábuas apodrecidas, um plástico que o vento traz e leva, mostram-nos que este território havia estado ocupado antes pelos bairros de excluídos. Não tardará muito que os edifícios da cidade avancem em linha de atiradores e venham assenhorear-se do terreno, deixando entre os mais adiantados deles e as primeiras barracas apenas uma faixa estreita, uma nova terra-de-ninguém, que assim ficará enquanto não chegar a altura de se passar à terceira fase.



A estrada principal, a que haviam regressado, passara a ser mais larga, com uma faixa exclusivamente reservada à circulação de veículos pesados, e embora a furgoneta só por desvario de imaginação possa ser incluída nessa categoria superior, o facto de se tratar indiscutivelmente de um carro para transporte de cargas dá ao seu condutor o direito de concorrer em pé de igualdade com as lentas e mastodônticas máquinas que roncam, mugem e cospem nuvens sufocantes pelos tubos de escape, e ultrapassá-las rapidamente, com uma sinuosa agilidade que faz tilintar as louças lá atrás. Marçal Gacho olhou outra vez o relógio e respirou. Chegaria a tempo. Já estavam na periferia da cidade, haveria ainda que percorrer umas quantas ruas de traçado confuso, virar à esquerda, virar à direita, outra vez à esquerda, outra vez à direita, agora à direita, à direita, esquerda, esquerda, direita, em frente, finalmente desembocariam numa praça a partir da qual se acabavam as dificuldades, uma avenida em linha recta levava-os aos seus destinos, ali onde era esperado o guarda interno Marçal Gacho, além onde deixaria a sua carga o oleiro Cipriano Algor. Ao fundo, um muro altíssimo, escuro, muito mais alto que o mais alto dos prédios que ladeavam a avenida, cortava abruptamente o caminho. Na realidade, não o cortava, supô-lo era o efeito de uma ilusão de óptica, havia ruas que, para um lado e para o outro, prosseguiam ao longo do muro, o qual, por sua vez, muro não era, mas sim a parede de uma construção enorme, um edifício gigantesco, quadrangular, sem janelas na fachada lisa, igual em toda a sua extensão. Cá estamos, disse Cipriano Algor, como vês chegámos a tempo, ainda faltam dez minutos para a tua hora de entrada, Sabe tão bem como eu por que não devo atrasar-me, prejudicaria a minha posição na lista dos candidatos a guarda residente, Não é uma ideia que entusiasme por aí além a tua mulher, essa de quereres passar a guarda residente, É melhor para nós, teremos mais comodidades, melhores condições de vida. Cipriano Algor parou a furgoneta em frente à esquina do edifício, pareceu que ia responder ao genro, mas o que fez foi perguntar, Por que é que estão a deitar abaixo aquele quarteirão de prédios, Afinal sempre se confirmou, Confirmou o que há semanas que se andava a falar de uma ampliação, respondeu Marçal Gacho ao mesmo tempo que saía da furgoneta, Tinham parado em frente de uma porta por cima da qual havia um letreiro com as palavras Entrada Reservada ao Pessoal de Segurança. Cipriano Algor disse, Talvez, Talvez, não, a prova está aí à vista, a demolição já começou, Não me referia à ampliação, mas ao que disseste antes sobre as condições de vida, acerca das comodidades não discuto, em todo o caso não nos podemos queixar, não somos dos mais desafortunados, Respeito a sua opinião, mas eu tenho a minha, e vai ver que Marta, quando chegar a altura, estará de acordo comigo. Deu dois passos, parou, decerto tinha pensado que esta não era a maneira correcta de despedir-se um genro do sogro que o levou ao trabalho, e disse, Obrigado, desejo-lhe uma boa viagem de volta, Até daqui a dez dias, disse o oleiro, Até daqui a dez dias, disse o guarda interno, ao mesmo tempo que acenava a um colega que vinha chegando. Foram juntos, entraram, a porta fechou-se.

Cipriano Algor pôs o motor em marcha, mas não arrancou logo. Olhou para os prédios que estavam a ser arrasados. Desta vez, provavelmente por causa da pouca altura dos edifícios a deitar abaixo, não estavam a ser utilizados explosivos, esse moderno, expeditivo e espectacular processo que em três segundos é capaz de transformar uma estrutura sólida e organizada num caótico montão de cacos. Como seria de esperar, a rua que formava ângulo recto com esta estava vedada ao trânsito. Para fazer entrega da mercadoria, o oleiro ia ser obrigado a passar por trás do quarteirão em demolição, rodeá-lo. seguir depois em frente, a porta a que teria de ir bater estava na esquina mais distante, precisamente, em relação ao ponto em que se encontrava, no outro extremo de uma recta imaginária que atravessasse obliquamente o edifício onde Marçal Gacho entrara, Em diagonal, precisou mentalmente o oleiro para abreviar a explicação. Quando daqui a dez dias vier recolher o genro não haverá qualquer vestígio destes prédios, terá as sentado a poeira da destruição que agora paira no ar, e poderá até suceder que já esteja a ser escavado o grande fosso onde serão abertos os cavoucos e implantados os fundamentos da nova construção. Depois levantar-se-ão as três paredes, uma que lindará com a rua por onde Cipriano Algor terá de dar a volta daqui a pouco, duas que cerrarão de um lado e do outro o terreno ganho à custa da rua intermédia e da demolição dos prédios, fazendo desaparecer a fachada do edifício por enquanto visível, a porta de acesso do pessoal de segurança mudará de sítio, não serão precisos muitos dias para que nem a pessoa mais perspicaz seja capaz de distinguir, olhando de fora, e muito menos o perceberá se estiver no interior do edifício, entre a construção recente e a construção anterior. O oleiro olhou o relógio, ainda era cedo, nos dias em que trazia o genro era inevitável ter de aguardar duas horas que abrisse o serviço de recepção a que ia destinado, e depois mais todo o tempo que a sua vez tardasse a chegar, Mas tenho a vantagem de ocupar um bom lugar na fila, posso até ser o primeiro, pensou. Nunca o tinha sido, havia sempre gente mais madrugadora do que ele, o mais certo era que alguns daqueles condutores tivessem passado parte da noite na cabina dos seus camiões. Subiam à rua quando o dia aclarava para tomar um café, pão e algum conduto, uma aguardente nas manhãs húmidas e frias, depois deixavam-se ficar por ali, praticando uns com os outros, até dez minutos antes de se abrirem as portas, então os mais novos, nervosos como aprendizes, precipitavam-se pela rampa abaixo para ocuparem os seus postos, enquanto os mais velhos, sobretudo se estavam nos últimos lugares da fila, desciam conversando sossegadamente, chupando a derradeira fumaça do cigarro, porque no subterrâneo, havendo motores ligados, não era permitido fumar. O fim do mundo, achavam eles, não era para já, correr não adiantava nada.



Cipriano Algor pôs a furgoneta em andamento. Distraíra-se com a demolição dos prédios e agora queria recuperar o tempo perdido, palavras estas insensatas entre as que mais o forem, expressão absurda com a qual supomos enganar a dura realidade de que nenhum tempo perdido é recuperável, como se acreditássemos, ao contrário desta verdade, que o tempo que críamos para sempre perdido teria, afinal, resolvido ficar parado lá atrás, esperando, com a paciência de quem dispõe do tempo todo, que déssemos pela falta dele. Estimulado pela urgência nascida dos pensamentos sobre quem chegou primeiro e sobre quem depois chegará, o oleiro deu rapidamente a volta ao quarteirão e meteu a direito pela rua que limitava a outra fachada do edifício. Como era invariável costume, já havia gente à espera de que se abrissem as portas destinadas ao público. Passou para a faixa esquerda de circulação, para o desvio de acesso à rampa que descia ao pavimento subterrâneo, mostrou ao guarda o seu cartão de fornecedor e foi tomar lugar na fila de veículos, atrás de uma camioneta carregada de caixas que, a julgar pelos rótulos das embalagens, continham peças de vidro. Saiu da furgoneta para ver quantos outros fornecedores tinha à sua frente e assim calcular, com maior ou menor aproximação, o tempo que teria de esperar. Estava em número treze. Contou novamente, não havia dúvidas. Embora não fosse pessoa supersticiosa, não ignorava a má reputação deste numeral, em qualquer conversa sobre o acaso, a fatalidade e o destino sempre alguém toma a palavra para relatar casos vividos da influência negativa, e às vezes funesta, do treze. Tentou recordar se em alguma outra ocasião lhe calhara este lugar na fila, mas, de duas uma, ou nunca tal acontecera, ou simplesmente não se lembrava. Ralhou consigo mesmo, que era um despropósito, um disparate preocupar-se com algo que não tem existência na realidade, sim, era certo, nunca tinha pensado nisso antes, de facto os números não existem na realidade, às coisas é indiferente o número que lhes dermos, tanto faz dizermos delas que são o treze como o quarenta e quatro, o Mínimo que se pode concluir é que não tomam conhecimento do lugar em que calhou ficarem. As pessoas não são coisas, as pessoas querem estar sempre nos primeiros lugares, pensou o oleiro, E não só querem estar neles, como querem que se diga e que os demais o notem, murmurou. Com excepção dos dois guardas que fiscalizavam, um em cada extremo, a entrada e a saída, o subterrâneo estava deserto. Era sempre assim, os condutores largavam o veículo na fila à medida que iam chegando e subiam para a rua, para o café. Estão muito enganados se julgam que vou ficar aqui, disse Cipriano Algor em voz alta. Fez recuar a furgoneta como se afinal de contas não tivesse nada para descarregar e saiu do alinhamento, Assim já não serei o décimo terceiro, pensou. Passados poucos momentos um camião desceu a rampa e foi parar no sítio que a furgoneta tinha deixado livre. O condutor desceu da cabina, olhou o relógio, Ainda tenho tempo, deve ter pensado. Quando desapareceu no alto da rampa, o oleiro manobrou rapidamente e foi colocar-se atrás do camião, Agora sou o catorze, disse, satisfeito com a sua astúcia. Recostou-se no assento, suspirou, por cima da sua cabeça ouvia o zumbido do tráfego na rua, em geral também subia como os outros para beber um café e comprar o jornal, mas hoje não lhe apetecia. Fechou os olhos como se recuasse para o interior de si mesmo e entrou logo no sonho, era o genro que lhe estava a explicar que quando fosse nomeado guarda residente a situação mudaria como da noite para o dia, que a Marta e ele deixariam de morar na olaria, já era tempo de começarem uma vida independente da família, Seja compreensivo, o que tem de ser, diz o ditado, tem muita força, o mundo não pára, se as pessoas de quem dependes te promovem, o que tens a fazer é levantar as mãos ao céu e agradecer, seria uma estupidez virar as costas à sorte quando ela se põe do nosso lado, além disso estou certo de que o seu maior desejo é que a Marta seja feliz, portanto deverá estar contente. Cipriano Algor ouvia o genro e sorria para dentro, Dizes tudo isso porque julgas que sou o treze, não sabes que passei a ser o catorze. Acordou em sobressalto com o bater das portas dos carros, sinal de que a descarga ia começar. Então, ainda não completamente regressado do sonho, pensou, Não mudei número, sou o treze que está no lugar do catorze.

Assim era. Quase uma hora depois, chegou a sua vez. Desceu da furgoneta e aproximou-se do balcão de atendimento com os papéis do costume, a guia de entrega em triplicado, a factura respeitante às vendas efectivas do último fornecimento a declaração de qualidade industrial que acompanhava cada partida e na qual a olaria assumia a responsabilidade de qualquer defeito de fabrico detectado na inspecção a que as louças seriam sujeitas, a confirmação de exclusividade, igualmente obrigatória em todos os fornecimentos, em que a olaria se comprometia, submetendo-se a sanções no caso de infracção, a não ter relações comerciais com outro estabelecimento para a colocação dos seus artigos. Como era habitual, um empregado aproximou-se para auxiliar a descarga, mas o subchefe da recepção chamou-o e ordenou, Descarrega metade do que aí vier, verifica pela guia. Cipriano Algor, surpreendido, alarmado, perguntou, Metade, porquê, As vendas baixaram muito nas últimas semanas, provavelmente iremos ter de devolver-lhe por falta de escoamento o que está em armazém, Devolver o que têm em armazém, Sim, está no contrato, Bem sei que está no contrato, mas como também lá está que não me autorizam a ter outros clientes, diga-me a quem é que vou vender a outra metade, Isso não é comigo, eu só cumpro as ordens que recebi, Posso falar com o chefe do departamento, Não, não vale a pena, ele não o atenderia. Cipriano Algor tinha as mãos a tremer, olhava em redor, perplexo, a pedir ajuda, mas só leu desinteresse nas caras dos três condutores que haviam chegado depois dele. Apesar disso, tentou apelar à solidariedade de classe, Vejam esta situação, um homem traz aqui o produto do seu trabalho, cavou o barro, amassou-o, modelou a louça que lhe encomendaram, cozeu-a no forno, e agora dizem-lhe que só ficam com metade do que fez e que lhe vão devolver o que está no armazém, quero saber se há justiça neste procedimento. os condutores olharam uns para os outros, encolheram os ombros, não tinham a certeza do que seria melhor responder nem a quem conviria mais a resposta, um deles puxou mesmo de um cigarro para tornar claro que se desligava do assunto, logo lembrou-se de que não podia fumar ali, então virou as costas e foi acolher-se à cabina do camião, longe dos acontecimentos. O oleiro compreendeu que teria tudo a perder se continuasse a protestar, quis deitar água na fervura que ele próprio havia levantado, de todo o modo vender metade era melhor do que nada, as coisas acabarão com certeza por compor-se, pensou. Submisso, dirigiu-se ao subchefe da recepção, Pode dizer-me o que é que fez que as vendas tivessem baixado tanto, Acho que foi o aparecimento aí de umas louças de plástico a imitar o barro, imitam-no tão bem que parecem autênticas, com a vantagem de que pesam muito menos e são muito mais baratas, Não é razão para que se deixe de comprar as minhas, o barro sempre é o barro, é autêntico, é natural, Vá dizer isso aos clientes, não quero afligi-lo, mas creio que a partir de agora a sua louça só interessará a coleccionadores, e esses são cada vez menos. A contagem estava terminada, o subchefe escreveu na guia, Recebi metade, e disse, Não traga mais nada enquanto não tiver notícias nossas, Acha que poderei continuar a fabricar, perguntou o oleiro, A decisão será sua, eu não me responsabilizo, E a devolução, sempre me irão devolver o que cá têm, as palavras tremiam de desespero e com tal amargura que o outro quis ser conciliador, Veremos. O oleiro entrou na furgoneta, arrancou com brusquidão, algumas caixas, mal escoradas depois da meia descarga, deslizaram e foram bater violentamente contra a porta de trás, Que se parta tudo de uma vez, gritou irritado. Teve de parar no princípio da rampa de saída, o regulamento manda que o cartão seja apresentado também a este guarda, são coisas da burocracia, ninguém sabe porquê, em princípio quem entrou fornecedor, fornecedor sairá, mas pelos vistos há excepções, aqui temos o caso de Cipriano Algor que ainda o era quando entrou, e agora, se se confirmarem as ameaças, está em vias de deixar de sê-lo. A culpa deveria ter sido do treze, ao destino não o enganam artimanhas de pôr depois o que estava antes. A furgoneta subiu a rampa, saiu à luz do dia, não há mais nada a fazer senão voltar para casa. O oleiro sorriu com tristeza, Não foi o treze, o treze não existe, tivesse eu sido o primeiro a chegar e a sentença seria igual, por agora metade, depois se verá, merda de vida.

A mulher das barracas, aquela que precisava de pratos e púcaros novos, perguntou ao marido, Então, viste a furgoneta da olaria, e o marido respondeu, sim, obriguei-a a parar, depois deixei-a seguir, Porquê, Tivesses olhado tu para a cara do homem que lá ia dentro, e aposto que terias feito o que eu fiz.



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