Juan Carlos Kusnetzoff



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Referência:

KUSNETZOFF, Juan Carlos. Introdução à Psicopatologia Psicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p.220.


EDITORA NOVA FRONTEIRA
FICHA CATALOGRÁFICA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ.

CDD— 157 616.8917

CDU— 159.97:615.851.1 615.851.1

© 1982 by Juan Carlos Kusnetzoff

Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela

EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.


Kusnetzoff, Juan Carlos.

K98i. Introdução à psicopatologia psicanalítica / Juan Carlos Kusnetzoff. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

(Coleção Logos)

Bibliografia.

1. Psicanálise 2. Psicopatologia

1. Título II. Série

82-0127

Dedico este livro



ao Prof. Dr. Eustáquio Porteila Nunes.

Com ele, aprendi que ainda preciso ser aluno.

Ao Dr. Moisés Groismam.

Com ele, aprendi a ser amigo.

Ao Dr. Carmine Matuscelio Neto.

Com ele, aprendi o quanto me ensinam os que penso que aprendem comigo.

SUMÁRIO
Introdução - 13
CAPÍTULO 1

Aspectos genéticos. O conceito de causalidade

psicopatológica.

As séries complementares de Freud - Pág. 17

A ilusão da causa única - 17

A ilusão do encadeamento - 18

A insuficiência da causa múltipla - 19

Feedback ou causalidade de ação recíproca - 20

As séries complementares de Freud. As causas em psicopatologia psicanalítica - 21

Resumo sobre as causas ou motivações em psicopatologia psicanalítica - 23

Problemas e questionamentos sobre a ilusão da causa única - 24

Problemas e soluções do feedback – 25


CAPÍTULO II

Etapas da evolução psicossexual

Características da sexualidade infantil - Pág. 27

Estágio oral - 30

a. Fonte - 30

b. Objeto - 31

c. Finalidade pulsional - 32

1. Divisões da oralidade - 32


a. Oral primário - 32

b. Oral secundário ou canibalístico - 33 .

2. O relacionamento de objeto - 33

3. O primeiro objeto: a mãe - 34

4. A relação de dependência com o objeto primário - 35

5. A evolução no conhecimento dos objetos - 35

6. O desmame - 37

Estágio anal - 38

a. Fonte - 39

b. Objeto - 40

c. Finalidade pulsional - 42

1. O relacionamento do objeto na fase anal - 45

a. O sadismo - 45

b. O masoquismo - 46

c. A ambivalência - 46

d. Bi e homossexualidade; atividade e passividade; narcisismo anal - 46

Estágio fálico - 48

1. O desenvolvimento psicossexual - 49

O erotismo uretral - 49

A masturbação infantil - 50

a. A curiosidade sexual infantil - 52

A descoberta da diferença sexual anatômica - 52

A cena primária ou primitiva - 54

A escopofilia ou voyeurismo - 55

b. As teorias sexuais infantis - 56

Teorias infantis sobre a fecundação - 56

O parto anal - 56

A idéia do coito sádico - 57

2. O aspecto narcísico e pré-genital do estágio fálico - 57


  1. A ilusão narcísica - 58

  2. A descoberta e sua negativa - 59

3. Angústia de castração - 59

  1. A angústia de castração no menino - 61

  2. A angústia de castração na menina - 62

Estágios genitais - 63

    1. O complexo de Édipo - 63

a. Formas do complexo - 64

b.Alguns conceitos básicos em relação ao Édipo - 65

Hipótese natural - 68

Hipótese dualista - 68

Hipótese social - 69

2. O problema da estrutura pré-edipiana - 70

3. O relacionamento de objeto edipiano - 73

4. O complexo de Édipo no menino - 74

5. O movimento exogâmico do menino - 75

6. O complexo de Édipo na menina - 77

A importância da mudança de objeto - 77

As decepções estruturantes - 78

Conseqüências da inveja do pênis - 79

A procura do pai - 81

Os restos da fixação à mãe - 82

7. A finalização do complexo de Édipo - 82

8. Algumas considerações sobre a importância do estudo do complexo de Édipo - 84
CAPÍTULO III

O Ego, o Superego, o Ideal do Ego - Pág. 87

A identificação - 87

a. Identificação primária - 88

b. Identificação secundária - 90

e. Fixação, identificação e Édipo completo - 91

1. Genética e dialética das identificações. Identificação primária, narcísica e edípica - 93 Algumas definições e conceitos ligados à identificação usados em psicopatologia - 98

1. Identificação total - 98

2. Identificação parcial - 98

3. Identificação permanente - 98

4. Identificação transitória - 98

5. Identificação introjetiva - 98

6. Identificação projetiva - 99

7. Identificação com objeto total - 99

8. Identificação com objeto parcial - 99

9. Identificação progressiva - 99

10. Identificação regressiva - 99

11. Incorporação - 99

12. Assimilação - 99

13. Introjeção - 100

14. Ejeção - 100

15. Projeção - 100

16. Internalização - 101

17. Imitação - 101


18. Identidade - 101

As instâncias do ideal do ego e do superego –102

Funções do ego, do superego e do ideal do ego - 103
CAPÍTULO IV

Latência, Puberdade, Adolescência - Pág. 105

Período de latência - 105

1. Desenvolvimento psicossexual do período de latência - 106

2. O relacionamento de objeto - 107

A puberdade - 108

1. Desenvolvimento psicossexual da puberdade - 108

a. A pubescência - 108

A adolescência - 109

1. A masturbação - 110

a. Fatores externos de pressão - 112

b. Fatores internos de pressão - 112

2. O relacionamento de objeto e a escolha objetal na adolescência - 113
CAPÍTULO V

Noções de metapsicologia freudiana - Pág. 117

O que é um “modelo” - 118

O ponto de vista tópico ou topográfico - 120

1. O primeiro tópico - 120

a. O sistema percepção-consciente ou consciência - 122

b. O pré-consciente - 122

c. O inconsciente - 123

d. Censura - 125


    1. O segundo tópico - 126

  1. O id - 129

  2. O ego - 129

  3. O superego - 131

O ponto de vista econômico - 133

1. Energia livre e energia ligada - 135

2. Processo primário e processo secundário - 136

3. Princípio do prazer e princípio da realidade - 137

O ponto de vista dinâmico - 139

1. Teoria das pulsões - 142

primeira etapa - 143

Segunda etapa - 145

Terceira etapa - 148

a. Compulsão à repetição - 149

b. A problemática do sadismo, o masoquismo e a agressão - 150

Recapitulação e revisão das teorias pulsionais - 151

Teoria da angústia - 152

1. Primeira teoria da angústia - 153

a) Considerações sobre a angústia real ou a realidade da angústia - 154

b) Susto, angústia, ansiedade e medo - 155

2. Segunda teoria da angústia - 157

a) A importância do complexo de castração na segunda teoria da angústia - 158

b) Inibição, sintoma e angústia - 159

Angústia automática - 159

“Angústia-Sinal” ou o sinal de angústia - 161
CAPÍTULO VI

Sonhos, fantasias e função imaginária - Pág. 165

Sonhos - 165

Fantasias, devaneios, nível imaginário - 171

1. Fantasias originárias ou primitivas - 178

a. Cena primária ou originária - 179

b. Fantasia primordial de sedução por um adulto - 179

e. Fantasia primordial de castração - 180

CAPÍTULO VII

Defesas, mecanismos de defesa - Pág. 183

a) O papel do mundo exterior na defesa - 184

b) O papel do superego e do sentimento de culpa - 185

c) O papel da angústia na motivação defensiva - 185

Os mecanismos de defesa do ego - 187

1. Dois mecanismos fundamentais: A repressão (recalque) e a divisão (cisão) - 188

a) Repressão, recalque - 188

b) Divisão, cisão. Recusa, rejeição, renegação - 190

Algumas considerações sobre a importância da cisão (Spaltung) em psicopatologia psicanalítica - 195


CAPÍTULO VIII

Os critérios de diagnóstico e as operações defensivas - Pág. 199

1. Parâmetros principais para o diagnóstico funcional em Psicopatologia - 201

a) Diagnóstico estrutural - 201

b) Diagnóstico de níveis de integração neurótica OU psicótica - 202

c) Diagnóstico de clivagem e estereotipia dos níveis organizativos - 203

d) Diagnósticos de níveis e graus de dependência-independência - 203

e) Diagnóstico de índices do neurotismo e do psicotismo - 204

As operações defensivas - 206

a) Considerações gerais - 206

b) Defesa e contracatéxia - 207

e) Classificação dos mecanismos de defesa - 209

Projeção - 210

Repressão, recalque - 213

Deslocamento - 213

Regressão parcial - 214

introjeção - 215

Isolamento - 216

Inibição - 216

Formação reativa - 217

Sublimação - 217

Negação (negativa) - 218

Identificação projetiva - 219

Divisão - 220

Renegação (forclusion) - 220

Regressão total - 220

Identificação introjetiva - 220

Introdução


A psicopatologia psicanalítica é uma encruzilhada de vários caminhos. Nela desembocam o conhecimento da teoria psicanalítica geral, o conhecimento da psiquiatria dinâmica, o conhecimento das contribuições técnicas psicanalíticas, assim como os enquadramentos epistemológicos modernos que testam e avaliam todas essas produções discursivas.

Hoje, não resta dúvida sobre a imensa revolução. científica que significou a entrada em cena da psicanálise no início deste século. A sistematização dos seus modelos para a compreensão da conduta normal e anormal do homem, assim como a interpenetração de fatores biológicos, psicossociais e culturais na produção sintomatológica, foram — e continuam sendo — de valor inquestionável.

Mas, simultaneamente ao seu desenvolvimento como ciência, a psicanálise tornou-se cada vez mais sofisticada. Sofisticação que alcançou tanto o nível teórico quanto o nível de ensino. Entretanto, no meio de um vasto e às vezes confuso florescimento de escolas, surgiram tendências e redescobertas, novas gerações de estudantes de psicologia, medicina, assistência social, sociologia, antropologia, e até da própria psicanálise clínica. Como processo lógico, foi impossível a essas gerações, especialmente as dos últimos vinte anos, ter acesso às leituras teóricas simples, explicadas com certa candura.

Um dos efeitos dessa complicada pedagogia psicanalítica foi um desprezo, carregado de temor, pelo estudo dos conceitos elementares que sustentam o trabalho clínico. Outro efeito, tão daninho quanto o primeiro, foi o fato de ser considerado como cientista, apenas o psicólogo, o médico psiquiatra, o psicanalista, que se expressasse em “dialeto difícil”. Os profissionais acabaram


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falando em teoria psicanalítica, porém são poucos os que podem explicar o que dizem, a importância de seu conhecimento e — sobretudo — sua articulação com a clínica cotidiana. Parece existir uma espécie de consenso não explícito segundo o qual, quanto mais obscura, mais complicada e mais “barroca” a explicação, mais “científica” ela é. Talvez minhas afirmações sejam ingênuas. Efetivamente, pretendo ser ingênuo.

A ingenuidade consiste, por exemplo, em pretender ensinar as fases clássicas da evolução psicossexual, pensando clinicamente nelas. Ou seja, explicando de maneira relativamente simples a importância clínica de seu estudo e posterior aplicação. A ingenuidade consiste em querer mostrar os modelos metapsicológicos freudianos da forma mais clara, para depois refletir sobre eles.

Um esclarecimento importante: pretendo ensinar a psicopatologia psicanalítica a partir dos textos de Freud. Isso não significa desconhecimento dos autores que em grande parte contribuíram e contribuem para o enriquecimento da clínica psicanalítica. Mas, conforme foi dito acima, penso que é fundamental “começar desde o início”.

Este livro destina-se principalmente àqueles que precisam “pensar ‘psicopatologicamente’ com a ajuda da teoria psicanalítica”. Também pode ser consultado com proveito por aqueles que precisam alinhavar conhecimentos dispersos. Por exemplo: que relação existe entre a oralidade e os transtornos psicossomáticos da pele? Qual a importância do estudo do complexo de Édipo? Quais são os vínculos teórico-clínicos entre a identificação, a pulsão e a fantasia? Quais são os mecanismos de defesa fundamentais do aparelho psíquico? Qual a diferença e a importância prática dos conceitos de “susto”, “medo” e “angústia”? E assim por diante.

Ou seja: o livro pode ser lido como uma espécie de “alfabetização” em psicopatologia psicanalítica, ou como uma pequena obra de consulta de alguns conceitos não muito divulgados na bibliografia clássica.

De qualquer maneira — e como acontece com textos similares — o leitor só terá um conhecimento cabal de alguns temas numa segunda ou terceira leitura, além de consultar a bibliografia mínima referida em cada caso.


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Desde o aparecimento do Vocabulário da Psicanálise de e Pontalis, sua leitura, consulta e releitura tem-se tornado indispensável para o estudioso da psicanálise. Esse livro deve ser o acompanhante natural do estudo dos temas psicanalíticos. Contudo, a leitura dessa obra tão profunda não substitui a dos textos freudiallos originais.

A presente Introdução à Psicopatologia Psicanalítica pretende, através das transcrições textuais da Edição Standard Brasileira e de comentários de textos, incentivar o leitor a pesquisar no coração da obra do criador da psicanálise. Por formação e conhecimento, sou freudiano, sem saber muito bem que coisa é “iSSO”. Há muitos anos leio Freud, ouço falar de Freud e me aventuro em novos “retornos” a ele. Porém, em absoluto não acredito em nenhuma “pureza” de leitura, ou em grupos que se autodeterminam “verdadeiros” seguidores ou detentores da ortodoxia, do espírito de Freud. Não acho que a verdade exista de uma vez por todas; antes, creio na multiplicidade com que ela se manifesta e que permite criar, burilar, transformar.

Esta Introdução não teria sido feita sem a inestimável ajuda de Celina Portocarrero. Ela “traduziu” meu pensamento falado num português correto e sintaticamente bem articulado. Minha eficiente secretária, Mariza de Fátima da Silva Ramos, colaborou intensamente, datilografando uma e outra vez as correções.

Merece palavras especiais a colaboração direta do Dr. Carmine Matusceilo Neto. Introduzido no âmago de minhas intenções pedagógicas, foi ora um leitor delicado, ora um crítico hábil. Fez correções com paciência e sugestões com fino tato quando considerou que o texto estava obscuro ou incompreensível. Foi a única testemunha de meus devaneiOS docentes e ajudou corajosamente a lhes dar luz.

Todo autor pretende a imortalidade... Por que escreveria se não fosse assim? Nesse sentido, este livro pretende também veicular, ser porta-voz da palavra de um gênio: Freud. Mas pretende também que a sua imortalidade não seja dogmática, repetitiva, estéril. Os tempos de hoje reclamam criatividade, transformações, voltando-se para as necessidades dos que começam a percorrer a trilha complicada e apaixonante da clínica psicopatológica. Os pacientes serão os verdadeiros beneficiários.
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CAPITULO 1

Aspectos genéticos

O conceito de causalidade psicopatológica

As séries complementares de Freud


Um estudo dos fenômenos psicopatológicos tal como se apresentam aos olhos do clínico requer, antes de tudo, que este tenha permanentemente presente alguns princípios básicos relativos ao conceito de etiologia ou causalidade. Seguiremos o ordenamento pedagógico exposto por José Bleger em Psicologia de la Conducta (Ed. Eudeba, 1963, Buenos Aires).

A singular complexidade das manifestações psicopatológicas torna necessária a discriminação dos diferentes tipos de causalidade que se apresentam em nosso estudo científico. Abordaremos mais detalhadamente o conceito empregado por Freud, de uso corrente na comunidade psicanalítica atual.

É preciso esclarecer que estudar causalidade é estudar motivações e, portanto, responder ou tentar responder aos porquês:

Por que alguém adoeceu em determinado momento?

Por que um paciente fez uma esquizofrenia e não uma neurose obsessiva?

Quais as razões existentes para que, numa mesma família, alguns membros desenvolvam certos tipos de condutas patológicas e outros não?

Os cientistas descrevem diversos conceitos de causalidade:
A ILUSÃO DA CAUSA ÚNICA

Também chamada monocausalidade unidirecional: é a forma mais simples de se responder a um porquê determinado. Diz-se, igualmente, causalidade mecânica, por supor uma única causa atuando


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num determinado corpo que a ela reage, e cujo efeito esgota-se posteriormente (figura 1).
Figura mostrando um quadrado, em que uma seta vindo da esquerda para a direita aponta para ele.
A descrição desse tipo de causalidade simples é importante por se tratar da base dos conceitos descritos a seguir, e da modalidade mais comumente utilizada por cientistas jovens, que abordam ingenuamente fenômenos sumamente complicados, cuja explicação é tornada insuficiente quando se emprega esse tipo de conceituação. Frisamos que nunca os sintomas ou as doenças mentais reconhecem uma única causa produtora ou desencadeante. Pensar desta maneira é pensar ilusoriamente, o que pode conduzir o profissional a erros graves.
A ILUSÃO DO ENCADEAMENTO

Esta é uma variação da anterior, observando-se aqui uma causa que atua sobre um determinado corpo e produz efeitos que, por sua vez, se transformarão em estímulos para outros corpos, e assim sucessivamente (figura 2). Um exemplo clássico seria o jogo de sinuca, no qual um toque na primeira bola provoca o movimento subseqüente de várias outras. A duração do movimento será proporcional, entre outras variáveis, à força do estímulo.


Três quadrados dispostos lado-a-lado, e separados por setas que apontam da esquerda para a direita. A primeira seta atinge o primeiro quadrado, também da esquerda para a direita.
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Observando o tipo de causalidade analisado na figura 1 veremos que ele é válido também para esse segundo conceito de monocausalidade encadeada ou linear, onde a ilusão da causa única está potencializada mecaniCameflt5

A INSUFICIËNCIA DA CAUSA MÚLTIPLA


Esse tipo de causalidade corrige as falhas do mecanismo implícito das duas anteriores, adaptando-se melhor, porém, ao pensar psicopatológico. (Figura 3.)
Figura mostrando um quadrado com várias setas apontando para ele, uma vindo de cada direção.
Esta visão tenta explicar a complexidade fenomenológica mediante uma extensa gama de causas que atuam em diferentes ângulos e em diversas direções, incidindo sobre determinado corpo. Como resultado, teremos um somatório das forças intervenientes.

Este conceito de causalidade foi abordado e desenvolvido por Kurt Lewin (Lewin, K. Principies of Topological psychology, McGraw Hill, New York, 1936), sendo importante na explicação de determinados fenômenos que acontecem com O indivíduo, tanto em contato com seu grupo imediato, como com a comunidade. Os riscos de erros são, aqui, consideravelmente menores, mas a complexidade dos fatores intervenientes torna esta concepção ainda insuficiente.


* Os riscos de erros são tão grandes quanto os da concepção anterior.
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FEEDBACK OU CAUSALIDADE DE AÇÃO RECÍPROCA
Este tipo de causalidade é um aperfeiçoamento do tipo anterior, já que se admite nele a multiplicidade causal, mas acrescentando que os efeitos produzidos por essas causas retroagem sobre essas mesmas causas, produzindo-se um condicionamento mútuo às vezes extremamente complexo. (Figura 4.)
Figura mostrando três quadrados, A, B e C. Entre A e B e entre B e C, existem duas setas em direções opostas. Do quadrado A sai uma seta que atinge C e do quadrado C sai uma seta que atinge A.
Se A fosse uma mãe superprotetora e B seu filho que chora, cada vez que houvesse um afastamento entre ambos, se daria uma troca de estímulos que, na linguagem da Teoria da Comunicação, seria chamada de informações mutuamente condicionadas. A mãe estará sempre presente tão logo o filho manifeste necessidade de sua presença. Este estímulo é qualificado de superprotetor. Ele provocará o desaparecimento do pranto do filho, o que se constituirá em informação para a mãe de que o filho recebeu a mensagem por ela emitida. O filho, por sua vez, provocará a super- presença da mãe cada vez que chore.

Arbitrariamente digamos que C, em nosso esquema, é um outro filho desta mesma mãe que com estímulos apropriados faz chorar a seu irmãozinho B, desencadeando com isso todo o esquema de superproteção descrito acima.

No esquema podemos constatar que existem setas diretas que vinculam a mãe A ao filho C. Facilmente se deduzirá a informação
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que chega a C quando A está com B e a que chega a A, ,ou parte de C, quando este está com B.

É necessário esclarecer que este fenômeno de ação recíproca muito mais complexo, já que os personagens de toda ação se modificam e são modificados cada vez que são sujeitos e/ou objetos dos estímulos produzidos.

Isto é, embora aparentemente as causas atuantes sejam iguais, nunca sua qualidade é a mesma. Cada momento é um momento diferente, singular e distinto. Dentro deste pensamentos diremos que não há começo e fim. As causas são sempre mutuamente interdependentes.

É importante também acentuar que o fundo contextual, ou cenário, onde os fenômenos se dão, atua por sua vez como causa, interatuando e aumentando a complexidade das relações dos personagens. Em nosso exemplo, a configuração que arbitrariamente escolhemos por A, B e C se dá sob um fundo mais ou menos constante, que poderia ser, por exemplo, a casa onde vivem. Mas será suficiente mudarmos o cenário e transportá-los a outro contexto para que os fenômenos tanto dos personagens quanto do novo cenário adquiram uma configuração diversa.

A importância do princípio de ação recíproca está no fato de que é a que melhor se adapta ao modelo de causalidade oferecido por Freud, o que será abordado a seguir.
AS SËRIES COMPLEMENTARES DE FREUD.

AS CAUSAS EM PSICOPATOLOGIA PSICANALITICA


Esta 6 a teoria dos “porquês” introduzida por Freud e que é válida e pertinente como modelo explicativo dos fenômenos psicopatológicos. (“Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, Standard Brasileira, vol. XVI, p. 423 - 1916/17.) As séries complementares são assim chamadas precisamente por descreverem uma
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seqüência interdependente de causas que interatuam entre si.

Como podemos observar na figura 5, a primeira série está constituída pelos elementos transmitidos geneticamente e também pelos que se desenvolveram durante a vida intra-uterina.

A segunda série complementar se encontra composta pelas experiências infantis que, como ensinou Freud, adquirem relevante importância pela idade em que ocorrem, e são decisivas na formação da personalidade.

As duas séries em conjunto e combinando-se em proporções variáveis dão como resultado a disposição que interatuará com os diversos fatores atuais ou desencadeantes, produzindo a sintomatologia psicopatológica. Como facilmente se deduz, um sintoma ou um conjunto deles é o produto final de uma complicada série de fatores e situações que aparecem hoje, mas que na realidade se originaram em outro tempo e em outro lugar.

Este último conceito é sumamente importante e também foi desenvolvido por Kurt Lewin. Seguindo sua linha de pensamento
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poderemos dizer que os fatos passados não existem agora. O do passado e sua influência são indiretos.



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