Judith krantz Luxúria



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Judith krantz

Luxúria

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Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.




Orelha do livro:

Billy, filha infeliz e feia de um médico obscuro de Boston, dá asas às suas paixões reprimidas, passando de um homem a outro até encontrar Ellis Ikehorn, milionário quase quarenta anos mais velho. Em sua vila na Riviera Francesa, no apartamento de Paris ou na vinícola da Califórnia, ela consegue esquecer as dores de seu passado. Após cinco anos de felicidade, fica sozinha novamente. Para ocupar sua vida ociosa, ela cria Luxúria, uma butique onde os ricos podem satisfazer seus mais extravagantes desejos. Saído das mãos da criativa Judith Krantz, o romance evoca os mundos público e privado dos milionários, ambiciosos e talentosos. Observadora sagaz e brilhante narradora, Judith Krantz retrata o sexualismo cru, as necessidades e impulsos do beautiful people.

Título original:

Scruples
Tradução:

Luzia Machado da Costa


Projeto gráfico:

Neslé Soulé


© 1978 by Steve Krantz Productions

Publicado mediante acordo com Crown Publishers, Inc., New York


Direitos de edição desta obra em língua portugesa no Brasil, adquiridos pela:

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVICIOS DE IMPRENSA, S.A.

Rua Argentina 171 - 20921 - 380 Rio de Janeiro, RJ - Tel. 585 20 00
Números Atrasados: Serviço ao leitor: Pça. Alfredo Issa, 18 - Centro, fone:

(011)230 92 99. Rio de Janeiro: R. Teodoro da Silva, 821 - Grajaú,

Fones: (021)5774225 e 57723 55.
Distribuição exclusiva em bancas para todo o Brasil: Fernando Chinaglia

Distribuidora S/A, R.Teodoro da Silva, 907, fone (021) 575 7766,

Fax (021) 577 63 63, Rio de Janeiro, RJ.
ISBN: 85-01-15612-4

Depósito Legal: B. 46.205-97

Impresso em Espanha - Printed in Spain

Impressão e encadernação:

Cayfosa, S.A.

1

Em Beverly Hills, só os enfermos e senis não dirigem carro próprio. A polícia local está acostumada a ver estranhas combinações de veículos e motoristas: o banqueiro aposentado e míope virando à esquerda num local proibido, em sua Ferrari Dino, o adolescente correndo em disparada para a aula de tênis em seu Rolls Royce Corniche de 55 mil dólares, a matrona que é líder cívica calmamente estacionando seu Jaguar vermelho-vivo junto de uma parada de ônibus.

Billy Ikehorn Orsini, entre cujos defeitos normalmente não se incluía dirigir feito louca, parou sua Bentley antiga com um ranger de freios impaciente defronte de Luxúria, a butique mais luxuosa do mundo, um verdadeiro clube de principado flutuante dos muito, muito ricos e dos realmente famosos. Ela estava com trinta e cinco anos e era senhora única de uma fortuna calculada entre 200 e 250 milhões de dólares pelo pesquisadores do Wall Street Journal. Quase a metade de sua fortuna estava investida comodamente em títulos municipais isentos de impostos, simplificação nada apreciada pelo Departamento do Imposto de Renda.

Embora estivesse apressada, Billy demorou-se um pouco defronte de Luxúria lançando um olhar penetrante sobre sua propriedade na esquina nordeste do Rodeo Drive e Dayton Way, onde, quatro anos antes, havia a loja de Van Cleeff e Arpeis, um lugar marcante, com fachada de gesso branco, dourados e ferro batido, que parecia ter sido cortado do Hotel Carlton em Cannes e despachado intacto para a Califórnia.

A capa de lã marrom de Billy tinha um forro de marta dourada, para protegê-la do frio da tarde de fevereiro de 1978. Ela enrolou-se na capa, enquanto olhava para cima e para baixo no coração suntuoso de Rodeo Drive, onde as duas fileiras opostas de butiques exageradamente opulentas brilhavam cada qual mais que a outra, formando a mais assombrosa exibição de luxo no mundo ocidental. A larga avenida era alegrada por fícus pontudos, de um verde vivo o ano inteiro, com montanhas baixas e verdejantes a pouca distância, como o fundo de um quadro de Leonardo da Vinci.

Alguns transeuntes mostraram reconhecê-la lançando aquele olhar de esguelha com que o verdadeiro nova-iorquino ou o frequentador de Beverly Hills reconhece com relutância a mesma celebridade que em outra cidade poderia atrair uma multidão.

Desde os vinte e um anos, Billy fora fotografada muitas centenas de vezes, mas as fotos dos jornais nunca tinham realmente captado sua realidade desafiadora. Seus cabelos escuros e compridos, do castanho escuro do melhor vison, tão castanho que parecia preto, banhado pelo luar, era penteado para trás das orelhas, nas quais ela sempre usava a jóia que era sua marca registrada, os grandes brilhantes de onze quilates, conhecidos como os Gêmeos Kimberley, presente de casamento do primeiro marido, Ellis Ikehorn.

Billy tinha l,77m de altura, descalça, e sua beleza era quase masculina. Dirigindo-se para a entrada, ela respirou fundo, em antecipação. O porteiro balinês, gracioso em sua túnica negra e calças apertadas, farda dá butique, fez-lhe uma mesura profunda, enquanto abria as portas duplas de dimensões imensas. Dentro daquelas portas havia um outro país, criado para seduzir, deslumbrar e tentar. Mas naquele dia ela estava por demais- apressada para examinar qualquer dos detalhes daquilo que sua,formação bostoniana — pois ela, em solteira, era Wilhelmina Hunnenwell Winthrop, da estirpe pura da Massachusetts Bay Colony — a fazia chamar de um "negócio" em vez de uma fantasia a que dera vida desembolsando cerca de onze milhões de dólares. Billy dirigiu-se rapidamente, com o seu passo característico de caçadora, em direção do elevador, resolvida a não olhar de frente para nenhuma das freguesas com quem pudesse ter de parar para conversar. Enquanto caminhava abriu a capa, exibindo um pescoço comprido e forte. Ela era aquela combinação mais perturbadora e rara, uma mulher de uma vitalidade sexual exuberante combinada com um sentido totalmente autoritário de estilo pessoal. Para qualquer macho observador, seus olhos esfumaçados, que tinham as íris listradas com leves linhas horizontais, turquesa e castanho escuro, e a boca cheia, de um rosa maduro sob uma leve camada de brilho incolor, enviavam uma mensagem, enquanto que o corpo longo e esguio, vestido severamente em calças de camurça verde-escuro e uma pesada túnica de seda creme, de corte largo e presa displicentemente na cintura, enviava outra mensagem, uma contradição da primeira. Billy sabia que qualquer ênfase sobre a bunda e os seios eram o diabo para a elegância. O chique total de suas roupas estava em guerra com a sua sensualidade inata. Ela deixava as pessoas perplexas, quase certamente de propósito, porque usava suas roupas descuidadas mas maravilhosas como se estivesse igualmente disposta a arrancá-las e cair na cama ou a postar-se diante de um fotógrafo e posar para uma revista de modas.

Billy chegou ao elevador sem ter de fazer mais que cumprimentar uma meia dúzia de mulheres com uma simpatia apressada, que indicava simultaneamente que estava satisfeita por vê-las ali, livrando-se de uma pequena parcela de sua riqueza ilimitada, e que não podia parar. Foi diretamente para o último andar, onde seu destino era o escritório particular partilhado por seus dois principais empregados, Spider Elliott, que dirigia Luxúria, e Valentine O'Neill, chefe dos compradores e figurinista. Deu uma batida rápida, que não era uma pergunta, e sim uma comunicação, e entrou numa sala vazia, que parecia mais vazia ainda devido à incongruência da mesa arranhada de mogno inglesa, pela qual Spider se apaixonara numa loja de antiguidades em Melrose Avenue e insistira em levar para Luxúria. Estava como uma ilha de dura realidade, no centro da sala, decorada por Edward Taylor em tons do mundo futuro, de castor, fulvo, biscuit e pano cru.

— Que diabo, onde se meteram? — resmungou Billy, baixinho, abrindo a porta que dava para a sala da secretária dela.

A Sra. Evans sobressaltou-se diante daquela aparição inesperada e parou logo de bater na máquina.

— Onde estão eles? — perguntou Billy.

— Ah, nossa, Sra. Ikehorn; quero dizer, Sra. Orsini. A secretária parou, confusa.

— Não faz mal, todo mundo se engana — disse Billy, tranquilizando-a depressa e maquinalmente.

Billy estava casada com Vito Orsini — o mais independente dos produtores cinematográficos autônomos — havia apenas um ano e meio, e as pessoas que tinham lido a respeito dela com o nome de Billy Ikehorn durante anos cometiam o mesmo erro, sem sequer perceber que se estavam enganando.

— O Sr. Elliott está com Maggie McGregor — informou a Sra. Evans. — Aliás, ele acabou de ir falar com ela e disse que se demoraria pelo menos uma hora, e Valentine está trabalhando no estúdio com a Sra. Woodstock. Estão lá desde a hora do almoço.

Billy apertou os lábios, aborrecida. Eles não podiam ser interrompidos, nem mesmo por ela. Justamente na hora em que precisava deles, Spider estava trancado com a mulher que talvez fosse a mais importante da televisão, e Vai estava ocupada desenhando um guarda-roupa completo para a nova embaixatriz americana na França. Droga. Billy mostrara claramente que estava acima do comportamento de uma Abelha Rainha em assuntos como horas marcadas e provas de roupas na butique. Dina Merrill que representasse, Gloria Vanderbilt que pintasse, Lee Radziwill que decorasse as casas dos amigos, e Charlotte Ford, acompanhada por um verdadeiro bando de figuras da sociedade, "desenhasse" coleções de roupas, mas ela, Billy Ikehorn Orsini, dirigia um próspero negócio de varejo, a loja de luxo de maior sucesso no mundo, uma brilhante combinação de butique, loja de presentes, o melhor prêt-à-porter e haute couture do mundo. O fato de Luxúria representar apenas a menor parte de sua fortuna não a tornava menos importante para ela, pois, de todas as suas fontes de renda, Luxúria era a única pela qual era pessoalmente responsável. Era ao mesmo tempo sua paixão e seu brinquedo, um segredo precioso que tomara vida, talhado numa escala humana que ela podia ver, cheirar, tocar, possuir, modificar e tornar perfeito e cada vez mais perfeito.

— Olhe, preciso falar com eles já. Por favor, avise que estou aqui no instante em que terminarem. Estarei na loja, em algum lugar.

Billy saiu e foi para seu gabinete, antes que a Sra. Evans, atrapalhada, pudesse pronunciar o discursinho desejando boa sorte, que vinha preparando nervosamente havia semanas. No dia seguinte veriam anunciados os filmes que concorreriam aos prêmios da Academia, e o filme de Vito Orsini, "Espelhos", tinha chance de ser escolhido como um dos cinco melhores filmes de 1977. A Sra. Evans não sabia muita coisa a respeito da indústria cinematográfica, mas sabia que a Sra. Ikehorn, Sra. Orsini, estava muito tensa por causa dos prêmios, pelas fofocas que ouvira na loja. Talvez, pensou ela, considerando como a patroa fora brusca, talvez fosse melhor que ela não tivesse dito nada. A Sra. Evans não entendia do protocolo dessas ocasiões.

Maggie MacGregor sentia-se ao mesmo tempo esgotada e eletrizada pela adrenalina da aquisição. Acabara de gastar pelo menos sete mil dólares em roupas para usar diante das câmaras nos próximos dois meses, e encomendara todo um guarda-roupa para o Festival de Cannes, que ela cobriria para a Televisão em maio. O guarda-roupa do festival custara mais doze mil dólares, roupas que seriam confeccionadas por Halston e Adolfo em Nova Iorque em cores e tecidos especiais para ela e entregues a tempo da viagem, pois do contrário ela faria as cabeças rolar. Naturalmente, estava estipulado em seu contrato que os bandidos da TV pagavam. Claro que ela não havia de gastar seu dinheiro assim.

Se alguém lhe tivesse querido convencer, dez anos antes, quando ainda era uma adolescente baixinha e gorducha chamada Shirley Nilverstein, filha do maior dono de loja de ferragens na pequenina Fort John, Rhode Island, que gastar dezenove mil dólares em roupas era um trabalho duro, ela teria... rido? Não, pensou Maggie, mesmo então ela era suficientemente ambiciosa para poder imaginar uma situação assim e bastante esperta para compreender que acarretava muita tensão nervosa, sem falar do que causava a seus pés. Ela apenas não pensaria nisso com relação a si. Mesmo agora aquilo ainda não se tornara rotina, embora, aos vinte e seis anos, ela fosse uma superpotência na televisão, tão dura quanto — e muitos achavam que mais dura do que — Mike Wallace, e muito menos óbvia em sua atuação; mais bonita até do que Dan Rather, e dotada de um talento para entrevistas tão forte, a seu modo, quanto o talento que faz Beverly Hills cantar. Ela possuía o seu próprio programa de rede de televisão no melhor horário nobre. Durante meia hora, todos os fins de semana, mais de um terço dos aparelhos de televisão nos Estados Unidos estavam sintonizados no programa de Maggie, enquanto ela apresentava, com o auxílio de uma equipe fiel, que quase tinha criado minicâmaras nos ombros, as notícias íntimas do negócio dos espetáculos, especialmente a indústria cinematográfica; histórias abalizadas e muito pesquisadas, que nada tinham a ver com os bocadinhos de maledicência que havia apenas três anos eram apresentados a um público incuravelmente curioso.

No momento ela era apenas uma mulher exausta, cujos olhos negros e redondos tinham visto tantos vestidos, nas três últimas horas, que eles estavam todos embaralhados em sua cabeça atrevida.

Mas a rede insistia em dizer que se ela falava sobre o mundo dos espetáculos, tinha de parecer que pertencia àquele mundo elegante. Enquanto esperava que Spider Elliott lhe fosse dizer quais das roupas que escolhera seriam perfeitamente adequadas para ela, tinha um aspecto enternecedoramente descabelado, a franja e os cabelos pretos separados em uma dúzia de madeixas. Ela nem se deu ao trabalho de olhar no espelho. Maggie sabia que, por mais dinheiro que gastasse, a única ocasião em que parecia arrumada era a meia-hora logo depois que o maquilador e o cabeleireiro do estúdio acabavam de arrumá-la, pouco antes de aparecer diante da câmara. Spider bateu à porta e Maggie respondeu apenas:

— Socorro!

Ele entrou, fechou a porta e encostou-se contra a parede do quarto de vestir, olhando para ela com um ar ao mesmo tempo divertido e terno.

— Ei, Spidy, você aprendeu a se encostar nos antigos filmes de Fred Astaire? Assim como praticou o andar e sentar? Onde está a sua cartola? — perguntou Maggie.

— Não procure mudar de assunto. Eu a conheço. Provavelmente você comprou roupas que não pode usar e está querendo me pôr na defensiva.

— Você — disse ela, pronunciando bem claramente — é um putz, um schmekel um scmuck, um schlong e um shvant.

— Minha senhora. — Spider beijou-lhe a mão. — Você tem classe, garota. Posso não passar de um ex-aluno da UCLA e moleque de praia mas sei quando me chamam de calhorda. Então você está com a consciência culpada e ainda nem vi as roupas?

Maggie fez um barulhinho denotando resignação. Ela já sabia que exagerara um pouco naqueles vestidos de baile para Cannes. Spider, aquele sacana, sabia ler os pensamentos, os pensamentos femininos, não havia dúvida. Onde é que aquele garanhão tão maravilhoso arranjava o seu dom de entender as mulheres? Como Maggie bem sabia, isso era raro num americano heterossexual, aquela intuição rápida e instintiva que nenhum sistema psicológico podia explicar. E tão viril quanto um rebanho de bodes novos.

Spider apertou um botão e a vendedora de Maggie, a serena e educada Rosei Korma, apareceu na porta.

— Rosei, quer fazer o favor de buscar as roupas novas de Maggie para nós? — pediu Spider, com um sorriso. Spider e Maggie eram muito amigos, mas ela sentiu certa apreensão, quando Rosei desapareceu. Ele era um raio de um ditador. Por outro lado, sempre tinha razão. Maggie já sabia que ele não ia permitir que ela ficasse com aquele modelo Bill Blass de manga de morcego, que ela adorara. Mas, fosse o que fosse que ele fizesse para frustrá-la, havia entre os dois um laço baseado na doçura da não-posse. Eles apreciavam o fato de não se haverem possuído porque aquilo criava uma corrente de carinho constante, o que, ambos sabiam, era mais importante para eles do que o sexo. Sexo eles podiam ter, como tinham, em toda parte. O carinho era raro.

Spider Elliott, aos 32 anos, era, na opinião de Maggie, um dos homens mais atraentes do mundo, e ela trabalhava observando o mecanismo que torna os homens e mulheres atraentes. Seu olho clínico era treinado para não perder nada do fenômeno da sedução; se um ator não for um sedutor, de uma forma ou outra, nunca se tornará um astro. Havia certas vantagens óbvias, em Spider, pensou ela. O Garotão Americano de Ouro com um corpo bonito nunca sai de moda. E ele tinha o cabelo, um cabelo naturalmente louro, que ficava mais escuro, mais rico, mais ouro malhado à medida que ele envelhecia. E tinha os olhos, olhos de viking, tão azuis que parecia só refletirem o mar. Eles chegavam quase a se fechar quando sorria, como ele sorrira para Rosei, e o meio chuveiro de rugas no canto de cada olho se acentuava, fazendo-o parecer muito alegre e sábio, como se tivesse estado em algum lugar muito longe e tivesse muitas histórias a contar. Ele tinha até o nariz quebrado, de algum jogo de futebol de ginásio, havia muito esquecido, e uma lasca num dente da frente, que emprestavam uma dureza agradável ao seu rosto. Mas basicamente, resolveu Maggie, era o jeito muito especial que Spider tinha de passar pela mente de uma mulher, falando com facilidade na linguagem dela, diretamente com ela, rompendo as barreiras da masculinidade e feminilidade sem qualquer besteira de viado, que fazia a mágica. Ele tinha uma absorção apaixonada pelos segredos sensuais da feminilidade crua, o que o atraía naturalmente para o palco central do ambiente narcisista que reinava em Luxúria, um contraponto masculino tão essencial quanto um paxá em seu harem. E por mais mulherengo que fosse, nunca deixava de ser um profissional. Se os homens de Beverly Hills, La Jolla ou Santa Barbara tivessem adivinhado a reputação de Spider como garanhão mundial e dedicado, espalhado fidedignamente, talvez não pagassem as contas astronômicas de suas mulheres na Luxúria com uma designação tão bem-humorada.

Então apareceu Rosei, acompanhada pela auxiliar, empurrando um carrinho pesado, de cabides. Uma coberta de linho branco cobria o conteúdo. Billy Orsini tinha concebido esse sistema como um meio de manter a intimidade da freguesa na Luxúria, uma intimidade quase não existente na maioria das outras lojas caras de Beverly Hills. Rosei deixou-os, logo que descobriu as roupas. Spider sempre trabalhava sozinho com as freguesas, o seu intercâmbio não diluído pelas vendedoras, que tinham o costume de se apaixonar pelo vestido que ficaria bem nelas, e não na mulher que o usaria. Juntos, ele e Maggie passaram em revista o que ela escolhera. Alguns Spider deixou passar sem comentários, outros eliminou, outros pediu que Maggie experimentasse antes de dar a sua decisão, e ela trocava de roupa atrás do biombo de quatro folhas num dos cantos da sala grande. Quando terminaram, Spider pegou o telefone e pediu ao chef que lhe mandasse um bule grande de chá, uma garrafa de V.S.O.P. e uma travessa de canapés de caviar fresco e de salmão defumado.

— Num instante vamos fazer o açúcar de seu sangue voltar ao normal — disse ele à moça exausta, tranquilizando-a. Enquanto tomavam o chá forte, bem temperado com conhaque, ambos se descontraíram, com a sensação de terem realizado um trabalho difícil.

— Você está sabendo — disse Spider, com preguiça — que ainda não escolheu o vestido mais importante de todos?

— Hein?

Ela estava tonta de alívio e com dor nas costas.



— O que você vai usar na entrega dos Oscar, baixinha?

— Sei lá. Alguma coisa. Será que ainda não comprei o suficiente, seu filho da mãe?

— Ainda não. Está querendo arruinar a minha reputação? Aquele programa tem o mundo todo focalizado nele, por satélite, um público de 150 milhões. São 300 milhões de olhos olhando para você. E bom você usar alguma coisa bem especial.

— Ah, merda, Spider, você me dá arrepios.

— Você nunca esteve tão em evidência numa distribuição de prêmios. É melhor pedirmos a Valentine para lhe desenhar alguma coisa bem especial.

— Valentine?

Os olhos de Maggie estavam inseguros. Ela nunca comprava roupa sob medida porque seu horário era muito apertado para poder provar a roupa muitas vezes.

— É. Não se preocupe, você arranja o tempo. Não quer deslumbrar essa gente toda?

— Spider — disse ela, agradecida — se eu lhe beijasse os pés, você não ia pensar que eu o estaria atracando, não é?

— Você não tem força para isso — respondeu ele. — Fique quieta e responda algumas perguntas. Quais as possibilidades de Vito ser premiado? Entre nós dois.

— Razoáveis, boas ou excelentes, depende. Há mais sete filmes que figuraram em muitas listas dos dez melhores, e que têm muito apoio. Obviamente, quero que ele ganhe um prêmio... mas não estaria disposta a apostar nisso.

— Como é que você pode saber tão pouco quanto eu? — queixou-se Spider.

"Show business" é isso aí. Billy está dando mostras de nervosismo? Ela tem a mesma mania daquele carcamano divino com quem se casou.

— Nervosismo? Parece até obsessão. Mas também, ela nunca foi de ter emoções moderadas, desde que a conheço. Se ainda faltassem mais algumas semanas, quando ela acordasse de manhã e olhasse no espelho, veria a Lady Macbeth. Que diabo, gosto de Vito, é um cara de muito talento, mas às vezes gostaria que ela tivesse casado com alguém que fizesse uma coisa menos perigosa, como saltos aéreos ou corridas de automóvel.

— Está assim tão mal, é?

— Pior.


Enquanto Maggie e Spider conversavam, Billy, inquieta, examinava parte do estoque da seção de presentes de Luxúria, que mais parecia um covil de ladrões repleto de cachepôs heráldicos chineses, biscoiteiras de prata vitorianas, bolsas de baile de contas do século XVIII, fivelas francesas de diamantes lapidados em forma de rosas, castiçais de Battersea e caixas de rapé estilo georgiano, o canto que ela chamava de "saque de Pequim". Ao mesmo tempo Billy ficava discretamente de olho nas mesas de gamão no pub, em que seis homens jogavam amigavelmente enquanto esperavam que as mulheres acabassem as compras, jogo em que provavelmente nunca menos de três mil dólares mudariam de mão. Luxúria passara a ser o clube masculino não organizado mais popular e no entanto mais exclusivo da cidade. Billy, ao mesmo tempo, conseguiu observar as duas mulheres do Texas, que acabavam de comprar quatro mantas de vicunha idênticas forradas de chinchila, vison, nutria e, de piada, toupeira tinta de listras em bege, marrom e branco. Irmãs? Amigas íntimas? Nunca conseguira compreender mulheres que faziam compras juntas e compravam as mesmas coisas. Achava uma abominação. Sua irritação com as duas mulheres, percebeu Billy, era apenas um reflexo de seu aborrecimento cada vez maior porque Valentine ainda não estava livre. Para o diabo com a freguesa, Muffie Woodstock, aquela mulher sem graça. E Spider, por que diabo não aparecia?

De repente, aborrecida com as pessoas que a cercavam, dirigiu-se para um dos quatro pares de portas, nos lados norte e sul do salão principal de Luxúria, e ficou olhando para os jardins formais que rodeavam a loja como um oásis. Alfenas anãs e santolinas cinzentas estavam plantadas em formas complicadas defronte das altas cercas de buxo que protegiam Luxúria de três lados. Duas dúzias de variedades de gerânios, em antigas urnas de terracota, já estavam em plena floração, levadas para lá das estufas de Billy. Ela sentiu o cheiro do fogo de eucalipto e lenha de árvores frutíferas que ardia na lareira por trás de um protetor enfeitado de bronze, no jardim de inverno em estilo eduardiano, na outra extremidade do salão, e ouviu o borburinho de vozes de alguns fregueses retardatários que tomavam chá e champanha. Mas nenhuma dessas cenas e sons conhecidos conseguiram tranquilizar sua agitação nervosa.

Valentine O'Neil, no seu estúdio de figurinista, se divertira muito naquela tarde. A Sra. Ames Woodstock apresentava o tipo do desafio que ela apreciava, unia mulher apavorada diante de roupas lindas e que no entanto seria obrigada pelas circunstâncias — e por Valentine — a usá-las, e com garbo. Tampouco Valentine menosprezava a quantia principesca que o marido milionário da Sra. Woodstock, muito versado na diplomacia do petróleo internacional, e que acabara de ser nomeado Embaixador em Paris, estava disposto a pagar pelo privilégio de ter um guarda-roupa completo feito de encomenda em Luxúria. Nenhuma francesa menosprezaria isso.

Se bem que Valentine morasse longe de Paris havia já cinco anos e fosse meio irlandesa, do lado do pai, aos 26 anos continuava tão francesa quanto a Torre Eifell. O detalhe definitivo e secreto que a tornava tão francesa, contrariando o seu colorido irlandês, podia ser a posição irônica dos lábios, ou nariz fino e deliciosamente pontudo com três sardas, ou ainda o brilho indagador de seus olhos verdes, de um verde-claro como o de folhas novas. Tinha olhos de sereia num rostinho branco, muito, muito vivo, que nunca mostrava aborrecimento ou tédio. Era astuta como uma raposa, graciosa como a canção de Maurice Chevalier pela qual a mãe, casada na guerra e com saudades da pátria, a batizou. Sob as expressões sempre variáveis de Valentine havia um bom senso sólido, uma base de obstinada lógica francesa, que muitas vezes se combinava com seu gênio forte de celta. Até mesmo sua cabeleira de cachos ruivos e curtos, pensou a Sra. Woodstock, apreensiva, enquanto Valentine lhe arrumava outro pano de seda sobre o ombro, era o cabelo mais positivo, mais agressivo que ela já tinha visto.

Muffie Woodstock estava com a expressão confusa de, uma mulher que sempre viveu de "slacks", pacatamente criando seus cães e montando a cavalo, e que naquele momento estava olhando para o esboço do vestido que usaria para a recepção de gala na residência do Presidente da França.

— Mas, Valentine é um pouco, bem, não sei.... — disse ela, desamparada.

De Washington lhe haviam avisado de que precisaria pelo menos de meia dúzia de trajes próprios para almoços de mulheres, uma série de vestidos para "jantarzinhos" e no mínimo uma dúzia de vestidos e agasalhos para a vida diplomática.

— Mas, Sra. Woodstock, eu sei — disse Valentine, que passara a maior parte de sua infância metida num canto de um grande ateliê da casa de alta costura de Pierre Balmain em Paris, vendo a confecção de vestidos de baile enquanto fazia os deveres escolares.

Ela sentia uma confiança total em si mesma e estava resolvida a tornar aquela mulher confiante também.

— Então a senhora não gosta da idéia de uma função de gala, Sra. Woodstock?

— Meu Deus, detesto isso, meu bem.

— Mas, Sra. Woodstock, a senhora tem um porte elegante.

— Tenho?

— E tem o melhor corpo possível para roupas. Não a estou lisonjeando. Se houvesse defeitos, nós duas íamos trabalhar juntas para disfarçá-los. Mas a senhora é muito alta, muito esguia e tem um andar tão bonito. Sei exatamente o tipo de vestido de baile que a senhora considera próprios, simples, sem pretensões, discretos, como os de todo mundo, talvez com uma joiazinha no pescoço, estou certa? Ah, eu, sabia — e realmente são próprios em seu chalé no Sun Valley, na sua fazenda no Colorado, sua propriedade em Santa Barbara. Mas no Palácio Elysée! Na Ópera de Paris! Nas grandes festas de embaixada! Não, nunca, a senhora se sentiria tola, inadequada, deslocada. Só se a senhora se vestir como todas as outras mulheres que lá estiverem é que poderá ter aquela sensação confortável de não chamar a atenção, que gosta de sentir. É interessante, não? Só sendo muito, muito chique é que não parecerá errada, diferente, estrangeira.

— Imagino que tenha razão — disse Muffie Woodstock, com relutância, mas convencida pelas últimas três palavras aterradoras de Valentine.

— Bom! Então está resolvido. Poderemos fazer a primeira prova daqui a quinze dias. E quando vier, pode tirar suas jóias do cofre e trazê-las? Tenho de ver o que a senhora possui.

— Como sabia que as guardo no cofre?

— A senhora não é o tipo de mulher que as use mais do que duas vezes por ano, o que é uma pena, pois tenho certeza de que são magníficas.

Muffie Woodstock parecia constrangida. Evidentemente Valentine era alguma feiticeira. Era bom comprar uns sapatos novos antes de pisar ali de novo; Valentine sem dúvida notaria que seus sapatos de baile já tinham visto, dias melhores. Ah, nossa, por que o marido havia de querer ser embaixador, afinal?

— Anime-se — disse Valentine. — Pense nos belos passeios a cavalo que poderá dar nos campos da França.

Muffie Wopdstock animou-se. Uma coisa em que ela realmente gastava dinheiro eram botas de montaria. Mas... poderia montar de calça Lee e um suéter velho?

— Valentine, já que estamos com a mão na massa, vamos fazer uns trajes de montaria também.

— Ah, não! — respondeu Valentine, escandalizada. — Para isso a senhora tem de ir diretamente a Hermes, quando chegar a Paris. Posso lhe fazer tudo menos isso — não seria correto.

Acompanhando a freguesa até a porta do estúdio, Valentine estava duplamente satisfeita. Seus desenhos seriam novamente vistos, concorrendo com o melhor que a costura européia tinha a oferecer. E a Sra. Woodstock, que nem desconfiava de suas próprias qualidades, logo aprenderia os segredos, ao usar os modelos dramáticos e ousados, e no entanto sobriamente elegantes, que Valentine planejava para ela. "Não chamar a atenção", realmente! Com seu porte e andar ela podia rivalizar com qualquer duquesa. Ela seria a sensação em Paris — as pessoas iam subir nas cadeiras para vê-la. E ela havia de aprender a adorar aquilo! Ou talvez não. Isso, infelizmente, Valentine, embora feiticeira, não podia controlar.

Além disso, Valentine mais uma vez tinha provado a si mesma que possuía o dote de saber realizar uma transação comercial, talento que toda boa francesa aprecia. Confeccionar e vender roupas era um negócio importante, no que lhe dizia respeito, mesmo quando realizado naquela terra de sonhos absurdamente extravagante, excêntrica e desperdiçada chamada Luxuria. Mais uma vez ela provara que até mesmo em Beverly Hills, que, depois de Palm Springs, é o quartel general das mulheres ricas mais malvestidas dos Estados Unidos, ela podia fornecer a alta costura para aquelas que a apreciavam, por quaisquer motivos.

Ainda usando o avental branco anônimo e engomado que sempre usava no trabalho, Valentine saiu do estúdio e foi para seu gabinete, levando os orçamentos do novo guarda-roupa da Sra. Woodstock. Spider estava ali, os pés sobre o couro vermelho da mesa que os dois partilhavam.

— Ah, Elliott, não pensava encontrá-lo aqui — exclamou ela, mostrando-se constrangida. Desde o Natal, seis semanas antes, desde aquela briga absurda que tinham tido e que passara num instante mas ainda pairava no ar, ambos vinham evitando as conversas habituais de todas as manhãs antes da loja abrir, sentados um defronte dó outro à mesa grande.

— Só passei para dizer que prometi a Maggie que você lhe faria um vestido para os Oscars — disse ele, num tom distante.

— Meu Deus — exclamou ela. — Tinha esquecido dos Oscars! Ela sentou-se.

— A Sra. Woodstock tirou tudo da minha cabeça, quem sabe afinal estou ficando maluca?

Para todos os vultos importantes no negócio de varejo em Beverly Hills, os Oscars são considerados um maná do céu, motivo de comemoração igual ao Ano Novo. Não interessa quem ganhe um Oscar, c sim quem veste o quê.

— Talvez — disse Spider, num tom neutro, que ela ignorou, ainda pensando em seu lapso de memória.

— Durante três horas inteiras nem pensei que existisse esse negócio de Oscar — disse Valentine, abismada. — E no entanto amanhã, afinal, saberemos quem foi escolhido e vai haver tantas freguesas que vêm comprar — afinal irão saber se vão à distribuição de prêmios e rezam ou se ficam em casa e assistem. Imagine só, nas próximas seis semanas teremos uma tensão atroz e depois, para um punhado de gente, algumas horas de um alívio feliz. Não é um teatro maravilhoso, manter toda uma grande indústria na expectativa, fazer o país todo discutir e até se interessar um pouco pelo destino de alguns atores, alguns filmes?

— Como você está complacente.

— Em absoluto. Ê simplesmente admiração, Elliott. Pense só em todo o belo dinheiro que essa comédia espalha por aí! Os estúdios gastam fortunas em relações públicas e publicidade, a vendagem de entradas de cinema vai lucrar milhões... mas o que me interessa tudo isso? Afinal só o que nos interessa são os vestidos para a grande noite.

— Imagino que sim — respondeu Spider, ainda sem entusiasmo.

O tom da voz dele logo a enraiveceu.

— Ah, para você está tudo bem, esse negócio do Oscar. Você dirige a loja toda, concedo isso, Elliott, mas no que diz respeito a roupas, é só o prêt-a-porter que o tem de preocupar, apenas uma questão de saber qual Chloé ou Holly Harp as suas mulherzinhas vão resolver comprar. Mas aqui em cima é que temos os verdadeiros problemas. Não é você que tem de se preocupar se a Divina Streisand engordou mais sete quilos no seu derrière nada pequeno, e que o vestido, claro, tem de esconder — e no entanto ser colante.

Valentine levantou-se da cadeira de um salto e foi para junto dele; os olhos verdes lutando contra o olhar azul dele.

— Você, Elliott, não tem de se preocupar se Raquel Welch resolveu parecer uma freira este ano, mas uma freira que mostra os seios, ou se Cher está convencida de que ainda não a notarão no meio da multidão a não ser que se enfeite como uma princesa Zulu no dia do casamento. E não são só os apresentadores que me preocupam. E os premiados? E às mulheres dos produtores e as amantes dos atores?

E, pensou ela com raiva, mas não disse, ele também não precisava estar sempre alerta para fugir a perguntas quanto a suas atividades sexuais. Valentine sempre sabia. Valentine sabia sempre, pelos diferentes tons e modalidades das perguntas displicentes que lhe faziam, se Spider ainda não tinha tido um caso com determinada freguesa, se estavam no meio de um caso, ou se o caso tinha terminado. Ela era perita em agir como se não soubesse nada e se importasse menos ainda, como era o caso, mas estava farta de ser usada sutilmente quer pelas conquistas de Spider ou por suas amigas curiosas.

— Olhe aqui, Vai — disse Spider, num tom de frieza indiferente, que só a enfureceu mais — você sabe que não são os vestidos dos Oscars que dão lucro a Luxúria. Nós temos a clientela de todas as mulheres ricas que põem o pé a oeste do Rio Hudson. Portanto, se esses personagens do cinema tão sensíveis são um abacaxi tão grande, por que não os manda de volta a Bob Mackie e Ray Aghayan e Halston e todos os outros caras que costuravam para elas antes de você aparecer e agarrá-las?

— Você está completamente biruta... — começou ela, antes de perceber a ironia nos olhos dele.

Antes teria sido um riso indulgente, hoje magoava. E no entanto ele sabia, tão bem quanto ela, como era importante para ela ter conquistado tantas das estrelas de Hollywood. Apesar de todas as suas lamúrias gaulesas, ela não cederia um centímetro do terreno, especialmente porque fora conquistado tão recentemente. Valentine sabia perfeitamente que, embora fosse então o novo nome necromântico no circuito Beverly Hills-Bel Air, ainda faltava um bocado para ela se tornar um nome nos círculos mais vastos da moda! E Spider também sabia disso. Que diabo havia com ele? Certamente devia lembrar-se, tanto quanto ela, do ranço do fracasso que eles haviam partilhado menos de dois anos antes, em Nova Iorque, a; cor triste da derrota. Ainda agora eles eram empregados, insubstituíveis, talvez, porém Luxúria pertencia a Billy Ikehorn Orsini, desde os vários milhões de dólares do terreno em que estava construída a loja até o último carregamento de vestidos da Sétima Avenida esperando ser apanhado no aeroporto.

Naquele momento Billy entrou no escritório e pilhou-os ali olhando-se com raiva. Ela lançou um olhar malévolo aos dois e; falou numa voz baixa, mas num tom que fez com que ambos se, esquecessem de sua irritação mútua.

A Sra. Evans estava com a impressão de que vocês estavam trabalhando e não podiam ser interrompidos. Algum dos dois tem idéia do tempo que me fizeram esperar?

Spider levantou-se da cadeira e lançou-lhe o seu sorriso, um sorriso de pura sensualidade, sem qualquer traço de astúcia ou espírito mordaz, um sorriso que encerrava uma direta expectativa de prazer. Em geral, dava certo.

— Não precisa se incomodar com esse raio de sorriso irresistível, Spider — disse Billy, bruscamente.

— Billy, estive com Maggie até há cinco minutos. Ela ainda está na sala de provas, se arrumando. Ninguém a esperava aqui hoje.

— Acabei de acompanhar a Sra. Woodstock até a porta — declarou Valentine, com dignidade — e gostaria que você visse como passei a tarde proveitosamente.

Ela exibiu os orçamentos, que Billy ignorou.

— Escutem aqui! Que diabo, comprei um pedação da terra mais cara do país e nele construí a loja mais cara do mundo e contratei vocês dois — das profundezas do desemprego, posso acrescentar — para dirigi-la e fazer as suas drogas de fortunas e só espero, uma vez na vida, é não ter de ficar aí mofando como alguma freguesa idiota que quer matar o tempo, quando preciso de vocês!

— Nenhum de nós é vidente, Billy — disse Valentine com calma, controlando o seu gênio devido à maneira estranha de Billy falar.

Nunca vira a chefe tão indignada sem sentido.

— Não era preciso ser vidente para saber que eu ia precisar de vocês esta tarde!

— Pensei que você ficasse em casa com Vito — disse Spider.

— Em casa... — Billy mostrou-se incrédula. — Qualquer pessoa com metade de uma cabeça havia de saber que eu estaria aqui para encomendar um vestido para a distribuição de prêmios. Amanhã todo mundo estará aqui — vocês acham que quero me amofinar com esse povo todo?

— Mas, Billy, até amanhã... — começou Valentine, os cabelos quase espumando, enquanto sacudia a cabeça, perplexa.

— Billy — disse Spider, com delicadeza —, qual é a pressa? Você tem pelo menos cem, vestidos de baile pendurados no armário. Até que sejam anunciados os vencedores, você não saberá se...

Spider parou, quando Billy deu três passos ameaçadores em direção a ele.

— Não saberei o quê?

— Bem, para sermos realistas...

— Para sermos realistas, O QUÊ?

Então, também zangada, ele respondeu francamente:

— Se Espelhos vai ser premiado. Você certamente não precisa de um vestido novo a não ser que isso aconteça.

Fez-se uma pausa prolongada.

De repente Billy riu-se e sacudiu a cabeça para os dois, como se fossem crianças tolas, loucas mas a quem se perdoa.

— Então é isso, é? É uma sorte você não estar no negócio do cinema, Spider, pois nunca havia de vencer. E você, Valentine. Que diabo você acha que Vitor e eu andamos fazendo o ano todo? Treinando para saber perder? Tirem os rabos da cadeira, os dois. E agora, o que é que eu vou usar para esses sacanas desses Oscars?




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