Judith krantz Luxúria



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Durante as duas semanas seguintes àquele telefonema para casa, Spider precisou de toda a sua habilidade, todo o seu olho para detalhes, todo o seu senso de gosto, toda a sua imaginação e o sentido da percepção do que funcionava visualmente e do que não o consegue. Felizmente, era o fim de agosto, a época de movimento, em que as lojas de Beverly Hills começam a receber as mercadorias de outono. Além disso, ainda era a época das liquidações de verão na cidade toda.

Separadamente, ele e Valentine cobriam as ruas, de pedaço em pedaço.

Ao norte de Wilshire, cobriram, Rodeo, Camden e Bedford Drive, de um lado e outro das ruas. Depois investigaram todas as lojas em Dayton Way e Brighton Way e na "pequena" Santa Mônica, cruzando-as de leste a oeste. Vasculharam tudo menos as calçadas; de Wilshire Boulevard, de Robinson's no limite oeste, passando por Saks, Magnin's, Elizabeth Arden, Delman e, por fim, na esquina leste da parte comercial da rua, Bonwit Teller. Tudo aquilo formava uma rede densa, vagamente triangular, que na cidade de Nova York se teria estendido em quarteirões e mais quarteirões das avenidas Madison e Quinta, mas em Beverly Hills era tão comprimido que qualquer butique, qualquer loja ficava de fácil acesso a pé. Uma butique média em Rodeo pagava um aluguel anual de 96 mil dólares, de modo que os mal sucedidos fechavam depressa.

Às vezes Spider, que fazia tudo menos lamber a tinta das paredes em seus esforços para fixar as qualidades de uma loja na cabeça, esbarrava em Valentine, ocupada em percorrer os saldos para ver o que não se tinha vendido na última temporada, levando as vendedoras a desejarem sua morte enquanto ela examinava cuidadosamente cada peça das mercadorias novas, arquivando-as no seu caderninho mental mas nunca se "deixando entusiasmar" a ponto de comprar alguma coisa, como explicava, desculpando-se. Spider, obviamente um cliente em potencial, com suas roupas novas muito bem talhadas, compradas às pressas antes de sair de "Nova York, muitas vezes fingia estar querendo comprar um presente para a mãe ou uma das irmãs, enquanto passeava e escutava e batia papo com proprietário de lojas e clientes e pessoal de vendas. Juntos e separadamente, eles cobriram todas as butiques menores e lojas importantes como Dorso's, Giorgio's, Amélia Gray's, Jax, Mathews, a Right Bank Clothing Company, Kamali, Alan Austin, Dinallo, Ted Lapidus, Mr. Guy's, Theodore's, Courrèges, Polo, Charles Gal-lay, Gunn-Trigère, Hermes, Edwards-Lowell e Gucci.

Nessas duas semanas foram dadas oito festas para Spider, organizadas às pressas mas muito alegres.

Muito embora as meninas Elliott, em criança, achassem sempre que havia tanta fartura de amor de parte de Spider que elas não precisavam competir por ele, agora, adultas, elas se rivalizavam em receber o irmão fabuloso que os amigos conheciam tanto de nome mas que raramente haviam visto. Como nenhuma podia sequer começar a crer que Valentine fosse apenas sócia comercial de Spider, "quem é que ela achava que estava tapeando, com aquele aspecto francês sexy, aquele jeito vivo, e aqueles olhos", todas a trataram com uma polidez extrema, excessiva. Valentine muitas vezes pensava, quando tinha tempo para pensar de todo, que, embora não tivesse sido muito difícil fazer amizade com as mulheres de Elliott, meu Deus, as senhoras da família só sabiam pensar em uma coisa. Não obstante, valia bem a pena ser tratada com a maior delicadeza, como se ela tivesse ido lá para roubar o tesouro particular de cada irmã, pois aquelas festas, mais do que qualquer outro elemento isolado naquelas duas semanas exaustivas, deram a Valentine a oportunidade de ver como se vestiam de noite as mulheres abastadas desde São Francisco e San Diego. Josh lhe telefonava todos os dias mas ela, realmente, não tinha tempo para ele até passar essa maratona. Valentine sentia falta dele, mas não se podia dar ao luxo de se entregar a sentimentos emotivos naquele momento agitado e vital.

Durante as duas semanas que concedera a Valentine e Spider, Billy fez várias visitas enfurecidas a Luxúria, onde havia prateleiras e mais prateleiras de roupas em liquidação, espetáculo que a repugnava até a medula, embora soubesse que era necessário. Somente a necessidade de manter as aparências a impediu de esconder todas as roupas da liquidação e despachá-la para o Exército da Salvação, pois imaginava como se espalharia depressa uma tal notícia. Ela mal conseguia controlar seu desejo de ter a conferência final com aqueles dois impostores e acabar logo com aquele aborto.

Quando chegou o dia, Billy sentou-se à sua secretária como se fosse uma parede de pedra, olhando para Valentine e Spider com um ar de carrasco indiferente, pago. A essa altura ela chegara quase a se convencer de que tudo que não estava funcionando em Luxúria era culpa deles.

Spider estava encostado numa parede, maravilhosamente displicente, com um terno de escocês Glen leve, um dos ternos muito bons que ele comprara em Dunhill Tailors, em Nova York. Billy inflexível ficou satisfeita ao ver que apesar de sua pose displicente, ele parecia sério e preocupado. Valentine estava empoleirada numa 'cadeira, evidentemente esperando que ele falasse primeiro. Billy achou que a pequena parecia estar exausta, quase esgotada.

— Vamos de uma vez, Spider — disse Billy, com uma voz sem expresão, aborrecida. Tudo nela denotava a falta de interesse, até a pose.

— Tenho boas notícias.

— Que surpresa.

— Você só tem um rival a vencer para tornar-se a primeira loja em Beverly Hills e só há um meio de fazer isso.

— Isso é loucura. Procure falar com nexo, Spider. Pensei que tínhamos chegado a um acordo para acabar com as fantasias.

— O seu rival é Luxúria. Ele levantou a mão para impedir que ela o interrompesse, encarando-a bem de frente, de modo que ela cedeu, apenas as sobrancelhas escuras levantadas numa desconfiança irritada. — Eu podia falar mais claro. O seu rival é o seu sonho para Luxúria, a loja que você queria que ela fosse, a loja que você está convencida de que a Califórnia do sul deseja. Você estava enganada Billy. Em cerca de nove mil quilômetros. Compreendo o seu sonho era o resultado inevitável do seu gosto pessoal, mas foi tão inútil quanto pensar em construir o Petit Trianon no local do Museu de Cera de Hollywood. Há certas coisas que simplesmente não se podem transplantar. Você pode vender Coca-Cola na África e pode haver tantas Mercedes no centro de Abu Dhabi quanto em Beverly Hills, mas só existe um Dior possível, e está localizado na Avenue Montaigne e é lá que deve ficar. Desista de sua fantasia de Dior, Billy, ou compre uma passagem para Paris. A luz lá é diferente, o tempo é diferente, a civilização é diferente, as clientes e suas necessidades são diferentes, toda a atitude de se comprar um vestido é totalmente diferente daqui. Você, mais que ninguém, sabe que coisa séria é escolher uma roupa lá: é uma decisão da maior importância.

Billy ficou tão desconcertada, mais pelo modo como ele lhe falava do que pelo que ele dizia, que nem sequer tentou responder.

— Encare os fatos. Em Beverly Hills você tem uma zona comercial que se equipara e, em matéria de luxo e escolha, à melhor de Nova York. Não é tão vasta, mas a população também não o é. Ora, obviamente, essa área não existiria aqui, nem estaria aumentando dia a dia, se as clientes não estivessem aqui para sustentá-la. Mas Luxúria não as está conseguindo. Por quê? Porque não funciona.

— Não funciona? — disse Billy, furiosa. — É mais elegante e confortável do que qualquer outra loja do mundo, inclusive de Paris! Eu fiz questão disso.

— Não funciona como DIVERTIMENTO! — Tanto Valentine como Billy ficaram olhando para Spider, enquanto ele continuava. — Fazer compras tornou-se um tipo de divertimento, Billy, quer você queira, quer não. Uma visita a Luxúria não é divertida, e as suas clientes em potencial querem divertir-se nas lojas de visitam. Você pode até chamar a isso o conceito varejista de Disneylândia.

— Disneylância! Billy pronunciou a palavra numa voz baixa, horrorizada, com repugnância.

— Disneylância, sim. Compras como uma viagem, compras como uma risada. É o mesmo dinheiro que muda de mãos, sem dúvida, mas se a sua cliente, a sua cliente local, ou de Santa Barbara ou um turista de outro país, tem a escolher entre Luxúria e Giorgio's, o seu vizinho do outro lado da rua, qual ela escolherá? Você entra em Luxúria e vê um vasto espaço enfeitado decorado em 25 tons de um cinza supinamente sutil, com cadeirinhas douradas aqui e ali e um bando aterrador de vendedoras chiques, idosas, altivas, agindo todas como se preferissem mil vezes falar francês a falar inglês, ou você entra em Giorgio's e vê uma turma de gente alegre bebendo no bar, ou jogando sinuca, vendedoras que usam chapéus malucos e olham para você como se estivessem esperando que você entrasse para bater um bom papo, todas prontas a fazerem você sentir-se expansiva e mimada.

— Acontece que Giorgio's representa tudo o que Luxúria NÃO é — disse Billy, num tom gelado.

— E Giorgio's é a loja número um em varejo especializado no país, inclusive Nova York.

— O quê? Não acredito!

— Acreditaria em mil dólares de negócios por decímetro quadrado por ano? Eles têm 400 m2 de local para vendas, o que significa quatro milhões de dólares por ano só em roupas e acessórios. E estamos nos referindo apenas a uma grande butique. Comparando, o nosso Saks local, que tem 15.00 m2, só fez 20 milhões de dólares cm 1975, portanto você pode ver como Giorgio está aproveitando bem seu espaço. Há dúzias de mulheres que gastam pelo menos 50 mil dólares todos os anos em Giorgio's, clientes de todas as cidades ricas do mundo. Há até mulheres que vão lá todo dia para ver as novidades, pois é um meio de se ocuparem. E compram, como compram!

— Como podemos saber se você tem razão no que diz, Spider? — Billy, de algum modo, estava conseguindo bancar a indiferente.

— Eu... mais ou menos conversei com o proprietário, Fred Hayman, e ele me contou. Mais tarde confirmei as cifras com Women's Wear. Mas não pense que isso só está acontecendo em Giorgio's, Billy. Todas as lojas da cidade em que é divertido fazer compras estão indo muito bem, Dorso's em especial. Só de entrar lá a gente já se sente bem, quer se compre ou não. É um pouco como ir a uma boa festa, um pouco como ir a um museu simpático, uma experiência sensual, em todo caso, Billy, as pessoas querem que se goste delas quando elas compram roupas! Especialmente as ricas!

— Realmente, Spider — Billy deu de ombros. — E não querem ser julgadas pelas vendedoras — continuou Spider.

— Outro dia eu estava jogando sinuca no Giorgio's e vi duas pequenas entrarem juntas, uma de short de tênis e a outra de calça Lee suja, uma camiseta sem sutiã e sandálias surradas. Quando saíram, e eu pude ver tudo o que fizeram, pois as poucas cabinas de provas que eles têm são tão pequenas e incômodas que a pessoa tem de sair para se olhar direito no espelho, cada uma daquelas maltrapilhas tinha comprado três vestidos, um Chloé, um Thea Porter e um Zandra Rhodes, e nenhum custou muito menos de dois mil dólares. Perguntei a uma das pequenas se ela fazia compras em Luxúria, — aliás, até jogamos uma sinuca — e ela disse que tinha vindo aqui logo depois da inauguração, mas — e Billy, estou citando as palavras dela — "dá muito trabalho me vestir toda para fazer compras num lugar grã-fino e emproado, com todas aquelas vendedoras esnobes."

— Essa era a de short ou de calça Lee? — perguntou Billy, com desdém.

— Não importa. O caso é que estou tão convencido de que você deve aceitar o conceito de Disneylância de fazer o varejo divertido, que em caso contrário não adianta eu ficar aqui. Você pode aceitar a minha demissão, se quiser. — Billy olhou para ele irritada. Para variar, ele não estava com aquele sorriso habitual. Estava realmente falando sério. Ela já tinha bastante experiência com os homens para conhecer uma manobra. Aquela criatura estava falando sério mesmo.

— Cristo, estou começando a achar que devia ter comprado Giorgio's, em vez de construir Luxúria! — disse ela, com um riso amargo e de repente sentiu os olhos cheios de lágrimas.

— Errado! Luxúria pode ser dez vezes melhor do que Giorgio's porque você tem três coisas que eles não têm: espaço Valentine e eu. — Spider já tinha percebido uma modificação operando-se nela. Billy abandonara alguma coisa, com seu último comentário, e se afastara uns centímetros de uma posição defendida com ardor.

— E o que pretende fazer, instalar uma mesa de sinuca e dizer a minhas vendedoras para se vestirem espalhafatosamente?

— Nada de tão simples nem tão pouco original. Uma redecoração completa, inclusive em suas imaculadas salas de prova. Elas têm de se tornar sexy, diferentes, divertidas. Isso pode significar mais uns setecentos ou oitocentos mil dólares a serem gastos sobre os milhões que você já enterrou aqui, mas será o suficiente para fazer a loja dar uma guinada. Exemplo: quando você entrar pela porta de Luxúria, depois de redecorarmos, você se verá no armazém de interior mais encantador e extraordinário do mundo: repleto de todas as coisas necessárias e desnecessárias, desde botões antigos até lírios em vasos, balas em potes de vidro Waterford, brinquedos antigos, as tesouras de podar mais caras do mundo, papel de carta feito à mão, almofadas feitas de colchas da vovó, caixas de tartaruga e pios de passarinhos até... o que você quiser. E o armazém é tão divertido que você fica de bom humor, quer compre, quer não. Do jeito que eu planejei a coisa, vão comprar na saída, presentes comprados por impulso, mas pretendo que seja a entrada para a Feira de Amostras.

— A Feira, Billy, é a parte principal do andar térreo. Para os homens, teremos um pub. Enquanto eles esperam que as mulheres façam compras, e para não se sentirem fazendo papel de bobos, como se estivessem presos em um lugar constrangedoramente feminino teremos todas essas novas máquinas eletrônicas, e pelo menos quatro mesas de gamão e, naturalmente, um departamento masculino, só de acessórios, mas os melhores do mundo. Talvez uma duas mesas de pingue-pongue, ainda não sei bem. Agora, o resto da sala, a não ser a parte dos fundos, vai ser o paraíso dos acessórios para as mulheres: montes e montes de artigos maravilhosos, só as coisas melhores, mais caras, mais novas, mais recentes, mais exclusivas, sabe o que quero dizer, mas tudo com um tal senso de abundância de acessibilidade, de se poder tocar, que elas não resistirão. As mil e Uma Noites. Os Tesouros do Sultão. É por isso que elas fazem compras, Billy — e não porque, Deus sabe, elas precisem de mais uma bolsa ou lenço, e sim porque é uma sensação tão danada de boa. Elas querem ser tentadas, podem dar-se a esse luxo. E nos fundos, um jardim de inverno de luxo em estilo eduardiano, aconchegado, íntimo, antiquado, o lugar ideal para a pessoa se refazer cora um chá e bolinhos, um "malted milk" ou uma taça de champanha. E, claro, todas as vitrinas e balcões poderão ser facilmente removíveis, até mesmo as paredes entre a loja de interior e o jardim de inverno podem ser de correr, de modo que quando você der as festas, haverá bastante lugar para a orquestra e os dançarinos. — Ele parou para respirar.

— Dançarinos! — disse Billy, numa voz estranha.

— Mas claro, vamos ter de fechar as portas para a redecoração, de modo que reabriremos com um baile de gala. Depois disso,você dará bailes duas vezes por mês. Incluí o custo de transformar o primeiro andar em um salão de baile, nos planos para a redecoração, pois, a não ser algumas festas de caridade e muito poucas festas particulares, as mulheres aqui não têm muita oportunidade de se vestirem a rigor. Todas o desejam, e qual a mulher que não deseja, mas as donas de casa adquiriram o hábito de darem festas particulares em trajes de passeio, a não ser que seja alguma ocasião muito importante. De modo que se você começar a organizar bailes por convite apenas, duas vezes por mês, as mulheres vão precisar de mais roupas bonitas, não é? E depois, talvez uma vez por mês, nas maçantes noites de domingo, quando não há mais nada a se fazer nessa cidade, vamos ter um jogo aqui. O prêmio podia ser um vestido de Luxúria, mas seria jogo de verdade. O dinheiro seria destinado a uma obra de caridade, claro; mas é mais barato do que ir a Las Vegas e um bilhão de vezes mais classudo, e teriam de se vestir para isso e...

— As roupas, Spider, onde vamos pôr todas as roupas enquanto elas dançam? — Agora só havia um tom na voz de Billy: curiosidade.

— Ah, nunca guardamos as roupas aqui. Pensei que já tinha falado nisso.. As roupas são o divertimento sério de Luxúria. Vendemos no andar de cima. Assim as clientes podem ter uma liberdade de verdade entre elas e os espelhos. Cristo, mesmo no Saks de Park Avenue só têm cortinas nas cabinas, e nem se fecham direito. Qualquer pessoa pode ver a mulher de roupa de baixo, só passando por lá, por mais caro que seja o vestido dela, não compreendo como é que elas aturaram isso. Não, em Luxúria, quando elas vão comprar, sobem e merecem o tratamento completo, a sala de provas, o luxo, o almoço grátis, a massagem dos pés, lembra-se? Mesmo que você só venha olhar, é tratada como uma princesa. O tipo de gente que "só vem olhar" que virá aqui um dia será cliente..

— Spider, tudo isso é muito... interessante. Mas como é que as nossas clientes vão saber o que temos em estoque no andar de cima? Você só falou dos acessórios e presentes no primeiro andar. Não sei como é que você pôde esquecer disso — disse Billy, com voz arrastada.

— Já ia falar nisso, Billy. No primeiro andar, onde as compradoras vão se juntar, de qualquer modo, teremos uma equipe grande e permanente de manequins, talvez uma dúzia, talvez mais. Elas mudarão de roupa de minutos em minutos e desfilarão pelo andar, mostrando o estoque. Detesto manequins de vitrina, são desanimadores, mas as modelos vivas levam as mulheres a querer tocar nos tecidos e fazer perguntas e se imaginarem no vestido, as modelos fazem tudo o que um cabide não consegue fazer. Agora, quanto às vitrinas, já disse que estarão apinhadas, cheias de coisas lindas, como uma manhã de Natal, o ano inteiro. Arrumadas de três em três dias, vamos atrair multidões — olhe, vou desenhar para...

— Por favor, não se incomode, Spider — Billy tornou a interromper. — Eu estaria errada ao dizer que você quer transformar Luxúria em um tipo de galeria de diversões, com máquinas eletrônicas e balas e almoço grátis e salas de prova sexy, e um mundo de modelos desfilando, e massagens nos pés, e jogatina e bailes ou estarei exagerando? — Ela pronunciava cada palavra destacada, como se estivesse lendo um rol de lavanderia.

— Basicamente, sim. — Ainda havia muito mais, mas aquilo bastava, resolveu Spider. Se ela não podia ver...

— ADOREI! — Billy levantou-se de um salto de trás da mesa, como se tivesse sido lançada e beijou Valentine, aturdida, que ainda nem tinha aberto a boca. — Valentine! Querida! Adorei!

— Como dizem — concluiu Spider — todo mundo tem dois negócios: o seu próprio e o dos espetáculos. — Ele saiu de sua posição junto à parede para dar a Billy o beijo que achava que ela lhe queria dar mas estava muito constrangida para oferecer. Achava que estava começando a compreendê-la. Uma vaca, mas não totalmente burra.

Na manhã seguinte Luxúria fechou para a redecoração. Billy passou o dia localizando Billy Baldwin, decorador de fama internacional, que devia ser encarregado da decoração de cada uma das 24 salas de provas. Baldwin nunca tinha feito esse tipo de trabalho, mas Billy entabulara um bom relacionamento de trabalho com ele quando refizera o apartamento no Sherry Netherland, a casa em Barbados e a vila no sul da França que ela e Ellis possuíam. Eles se compreendiam, e, para agradar a Billy Ikehorn, Baldwin daria toda atenção à decoração de salas de provas. Ela entregou o primeiro andar a Ken Adam, o brilhante cenógrafo teatral, pois em essência ia ser um tour-de-force dramático, como um cenário de palco.

Billy não apenas soube perder, mas empenhou-se totalmente em sua derrota. Depois que aceitou o conceito básico de Spider, ela se dedicou a garantir que tudo fosse feito da maneira mais magnífica possível. Tendo cedido à idéia de construir um restaurante em Luxúria, ela roubou um dos melhores cozinheiros do Scandia e lhe deu carta branca nas obras da cozinha. Spider, que imaginara uma simples bandeja de sanduíches, escutava encantado enquanto ela e o chef conferenciavam sobre quanto salmão devia ser importado da Escócia e quanto caviar do Irã, quantas endívias da Bélgica, quanto siri da Maryland, quantos croissants frescos de Paris. A simples bandeja tornou-se uma mesa-bandeja de acrílico especialmente desenhada, a louça era do padrão Blind Earl, tremendamente cara, os cristais eram de Steuben, os talheres pesados de Tiffany e as toalhas e guardanapos estampados provençais de Pierre Deux no Rodeo Drive, porque Billy achava que todo mundo estava farto de Porthault; Spider resolveu escrever um memorando a Billy Baldwin, porque não tinha certeza se sua chefe tinha realmente compreendido o que ele queria dizer quando falara em tornar as salas de provas mais sexy.

"Prezado Sr. Baldwin:

As nossas clientes vêm aqui em parte porque têm a mania de gastar dinheiro, em parte porque precisam de um vestido novo, e muitas vezes, simplesmente porque gostariam de ter um pouco de romance em suas vidas, sem chegarem a trair os maridos. Elas são sofisticadas, mimadas, complacentes, egocêntricas, muito viajadas e totalmente conscientes da juventude, seja qual for sua idade. Todas elas desejam ser ACARICIADAS, psiquicamente. Para ser rude, pode-se pensar nelas como viciadas do prazer.

Por favor, dê asas a todas as suas fantasias. Não tem aqui uma cliente, mas centenas. Cada sala de prova individual terá as suas ad-miradoras especiais, quer resolva decorá-la como uma vila em Portofino ou um seraglio marroquino ou mesmo um boudoir da Rainha Ana em Kent. As nossas únicas necessidades específicas são um grande armário ou armário embutido para guardar os acessórios, muitos e muitos espelhos e uma peça de mobiliário confortável em que a cliente se possa esticar ao comprido.

Por fim, correndo o risco de parecer lascivo, posso sugerir que a existência de um bidê, num canto atrás de um biombo, pareça possível e apropriada? Não quero dizer que instalemos um bidê de verdade, mas só que o ambiente sugira a possível necessidade dessa comodidade.

Com admiração e respeito,

Spider Elliott"

Fora Billy que o inspirara para acrescentar o pedido do armário. Ela sabia que as mulheres gostam de usar os sapatos mais cômodos que têm quando vão fazer compras e que deixam em casa suas jóias melhores. Ela não podia suportar a idéia de deixar de vender um vestido de chiffon de Galanos devido à falta de um par de sapatos de noite e os colares de pérolas que deviam acompanhar o vestido e arrematar a venda. Pretendia encher os armários com montes de sapatos, echarpes e jóias fantasia mais novos, de todos os tipos, não para vender, apenas para servirem de acessórios para os conjuntos.

Talvez a maior contribuição de Billy para a nova Luxúria fosse sua capacidade de recrutar pessoal. Ela era muito conhecida de todas as vendedoras da cidade, de seus muitos anos como compradora compulsiva, e, uma vez convencida de que o conhecimento do francês não interessava nada comparado com o encanto e simpatia, ela revelou-se uma aliciadora muito hábil: primeiro Rosei Korman, antes da Sala Park Avenue do Sapes, distinta, calma e simpática; depois Marguerite, de Giorgio's, boêmia e sempre de chapéu; Sue, de Alan Austin, sábia de rabo-de-cavalo; Elizabeth e Mirelle, duas jovens francesinhas de Dinallo; Christine, simpática e loura e Ellen, descontraída e ruiva, ambas do General Store; Holly, diplomata e entusiástica, da Charles Galley, bem como mais uma dúzia dos melhores vendedores da cidade. Também contratou os maiores especialistas em provas de vestidos chefiados por Henriette Schor, de Saks. Seu único fracasso no recrutamento fora a linda Kendall, que não queria sair de Dorso's por nada, mas, como até Billy tinha de admitir, frustrada, Dorso's era um lugar especial. Billy também criou um serviço de entregas a domicílio numa cidade em que as clientes multimilionárias têm de carregar suas compras, em todas as butiques. Enquanto a loja esteve fechada, Valentine e Billy revisaram o estoque. Desde o dia em que concebera Luxúria, Billy fora sua própria compradora. Sua principal queixa quanto às outras lojas em Beverly Hills era que ela nunca encontrava nelas as coisas que queria. Estava convencida de que se pudesse ir a Nova York e ver toda a linha do varejo, ela mesma poderia escolher artigos muito mais interessantes.

Mas Billy não sabia nada sobre a técnica de comprar. Foi um erro tão desastroso quanto a tentativa de copiar Dior. Valentine tampouco era compradora profissional, mas pelo menos trabalhara em intimidade com os compradores da Sétima Avenida durante quatro anos e antes disso absorvera o ponto de vista do comprador em Balmain, conforme refletido nos ensaios das coleções novas e nas acaloradas discussões sobre se este ou aquele vestido ia "agradar". Com delicadeza, ela revelou a Billy o fato fundamental de que não é o gosto pessoal do comprador que deve influir e sim uma compreensão das necessidades e dos níveis de gosto de suas clientes.

A arte de comprar para uma loja é complexa até mesmo para veteranos de muito treino e experiência, com vários anos de sucesso atrás de si, pois cada nova estação está cheia de perigos. Existem os perigos óbvios, como erros de julgamento e decisões erradas sobre a aceitação das novas roupas pelas clientes. Depois, há as armadilhas que não podem ser previstas: entregas atrasadas, tecidos errados, mau tempo e os altos e baixos da Bolsa.

Billy sentiu diminuir sua humilhação pela falta de vendas em Luxúria — aquilo podia acontecer com qualquer um. Valentine, sentindo que Billy estava menos sensível no assunto do estoque, aventurou-se a sugerir que talvez grande parte do que ela encomendará no passado fora apenas um pouco intelectual demais para a maioria das mulheres. Sim, disse Valentine, uma mulher completamente chique alta como Billy Ikehorn podia usar tudo o que ela comprara para Luxúria, mas onde estavam as roupas para as mulheres menos adeptas de um chique rigoroso, onde as roupas bonitinhas de bom gosto, onde as roupas sexy, as femininas, as pode-me-tocar, as roupas francamente glamorosas? Em resumo, as roupas que venderiam bem. Onde estavam os "vestidinhos" que serviam a várias atividades diferentes sem serem "tão implacavelmente marcantes que não pudessem ser usados frequentemente?, E Billy não achava que, enquanto as mulheres estavam em Luxúria comprando roupas das coleções dos figurinistas, também deviam poder escolher roupas esportes, conjuntos, roupas de férias, vestidos simples? Menos caras, claro, mas, por outro lado, por que deixar que outra loja ganhasse até mesmo esses dolarecos? Claro que nunca deviam comprometer a qualidade, mas deviam ampliar seus horizontes.

— Você está-me manobrando de um modo muito sabido, Valentine — comentou Billy.

— Mas com bom senso — retrucou Valentine.

— E, espero, com juízo?

— Sim.


— E nesse caso... — indagou Billy, tentando ver um passo adiante dessa criatura demoníaca que contratara.

— Nesse caso, antes de reabrirmos precisaremos de um estoque completamente novo. Tenho de ir a Nova York, claro, e também a Paris, Londres. Roma e Milão para o prêt-à-poríer dos costureiros. Ainda está em tempo de conseguir entregas do alto-inverno, antes que seja tarde. Para as roupas esportes, você terá de contratar outra compradora, talvez duas, mas têm de ser das melhores. As nossas clientes são preguiçosas e não gostam de ter de estacionar, aqui para um tipo de vestido e depois pegar o carro para ir a outro lugar comprar calças, suéteres e blusas.

— Agora que conheço a amplitude do negócio e os perigos, se a gente adivinhar errado... — disse Billy, pensativa.

— Sim?


— Você acha — afinal, você nunca comprou para uma loja, Valentine — você acha que devíamos contratar alguém com muita experiência para ir a Nova York e à Europa?

— Como preferir. Quando você me contratou, queria que eu fosse sua compradora. Mas eu me satisfaço em permanecer como figurinista — nos mesmos termos, claro. Ou você pode me experimentar. Na pior das hipóteses, perderemos uma estação.

Billy fingiu estar considerando as alternativas. Não havia nenhuma, a essa altura, e ela sabia disso, e Valentine sabia que ela sabia. Não havia mesmo tempo a perder procurando outra compradora. Valentine já devia ter partido em sua viagem de compras uma semana antes.

— Minha Tia Cornélia dizia "Perdido por dez, perdido por mil", ou talvez fosse, "tudo o que vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito".

— Uma mulher muito sensata — disse Valentine, num tom neutro.

— É. De fato. Quando é que você pode embarcar?

Viajantes experientes muitas vezes discutem sobre qual o aeroporto mais diabolicamente inconveniente, o O'Hare International de Chicago ou o Heathrow de Londres. Valentine, que nunca tinha ido a Chicago e certamente não tinha intenção de ir, estava apaixonadamente inclinada a declarar Heathrow um posto avançado do inferno, depois de caminhar mais de um quilômetro por corredores vazios, envidraçados, vendo a noite inglesa úmida lá fora, carregando sua pesada bagagem de mão e ainda o casacão de malha, até descobrir que ainda teria de enfrentar o que parecia ainda mais um quilômetro e meio de esteira rolante. A grade de metal tremia aflitivamente, quando pisou nela, mas era melhor do que caminhar. Depois de passar pelo controle de passaportes e ao chegar à alfândega, estava quase gemendo de cansaço. Sua viagem relâmpago fora exaustiva, tanto mental quanto fisicamente. Ela desejava apaixonadamente que Luxúria fosse um sucesso, mas por mais inteligente que fosse a apresentação de Elliott, não haveria futuro real se o estoque não correspondesse às exigências das clientes muito especiais que ela observara com tanto cuidado em Beverly Hills e nas festas dadas para Elliott.

Mas, ao passar depressa pela alfândega, sua idéia fixa não tinha nada a ver com Luxúria. Queria encontrar o homem do Savoy. As últimas instruções de Billy tinham sido claras.

— Procure um homem de farda cinza com um boné que diz "The Savoy" na fita. Ele fica ali para receber as pessoas que têm reserva na cadeia do Savoy. Reservei quarto para você no Berkeley. É o melhor agora, oué o que dizem, e vão te tratar bem.

Valentine viu um homem alto, de aspecto bondoso, numa farda cinza, bem feita e dirigiu-se para ele, aliviada.

— Sou a Sta. O'Neill. Tenho uma reserva no Berkeley. Pode arranjar-me um táxi, por favor, e fazer alguma coisa, qualquer coisa com a minha bagagem?

Ele olhou para ela num misto perfeito de respeito e admiração, como se a conhecesse há anos e tivesse passado a vida toda no aeroporto só na esperança de que ela um dia chegasse.

— Ah, Madame! Sim, claro, Madame! Um prazer, eu lhe garanto. Espero que tenha feito uma boa viagem de Paris. Acredito que haja um carro e motorista à sua espera. Carregador. Carregador. Pode acompanhar-me, Madame, não se importe com o carregador, ele já vem. — Ele pegou a bagagem de mão de Valentine e o casaco e saiu andando depressa, enquanto ela o acompanhava, entorpecida.

Um carro com motorista, isso era gentil da parte de Billy, ela sem dúvida teria gostado disso em Paris, pensou Valentine, enquanto o homem do Savoy a ajudava a entrar no Daimler cinza, surpreendentemente grande, com um chofer uniformizado sentado na frente, por trás de um painel de vidro.

— Sei em que você está pensando — disse Josh Hillman, do banco de trás. Valentine olhou para ele, incrédula. — Está pensando quanto deve dar de gorjeta ao homem do Savoy e quanto ao carregador. Não se preocupe, já me encarreguei deles.

— O que você está fazendo aqui?

— É um sequestro — você está completamente em meu poder.

— Ah, Josh! — Ela ficou mole, de tanto rir. — Você dá um Bogart horrível.

— Espere até tornar a ouvir o meu Chevalier. Valentine, Valentine, tive tanta saudade, tive de vir, pensei enlouquecer quando você partiu tão depressa. Nunca tive de voar nove mil quilômetros para ter um segundo encontro, mas só ver esse seu rostinho triste valeu os quilômetros.

— Mas não compreendo. Como você conseguiu fugir? Onde a sua mulher pensa que você está? — Valentine conseguiu fazer essas perguntas, apesar dele a estar beijando com tanta persistência e habilidade que eles passaram por 15 quilômetros de subúrbios de Londres antes dela proferir a última pergunta.

— Londres, a negócios. Cale-se, querida. Pare de fazer perguntas. Não fique tão obcecada com os detalhes, aceite apenas que estou aqui.

Valentine descontraiu-se. Ele tinha razão. Ela não tinha forças para entender o sentido das coisas, naquele momento.

— Acorde-me quando chegarmos ao Palácio de Buckingham — murmurou ela e imediatamente adormeceu nos braços de Josh.

Meia hora depois ele a acordou com um beijo, quando o carro se aproximava de Buckingham Gate. Enquanto seguiam devagar pelo Mall, com o St. James's Park de um lado com suas grandes árvores, nobres e misteriosas no escuro e a glória do Carlton House Terracé do outro, ela ficou olhando para trás para ver o palácio iluminado. O vulto do Admiralty Arch erguia-se à frente deles. Aquele é talvez o passeio mais emocionante do mundo, para os que amam Londres.

Valentine, que nunca tinha estado em Londres, estava fervilhando de êxtase. Ao se aproximarem do hotel, ela olhou assombrada para o saguão imenso, com os mastros embandeirados nas quatro paredes como o salão de jantar de um regimento. Lá dentro, uma máquina de telex zumbia num canto e o piso de mármore era cruzado por uma dúzia de homens fardados, discretamente apressados, cada qual com um papel claramente definido, embora ela não adivinhasse qual, no bom funcionamento do hotel. Ela e Josh acompanharam um recepcionista jovem, rosado, por muitos corredores, até chegarem à sua suíte. Assim que o rapaz saiu, Valentine correu para as janelas, abriu as cortinas e olhou para fora, empolgada.

— Ah, Josh, venha depressa, olhe, o luar sobre o rio, se eu me debruçar posso ver... acho... sim... as Casas do Parlamento... e do outro lado... o que é aquele prédio grande todo iluminado... e olhe, logo abaixo, um jardim e um monumento... o que é tudo isso, depressa, explique, Billy nunca disse que o Berkeley tinha uma vista assim.

— Talvez seja porque o Berkeley não fica sobre o Tâmisa, Valentine.

— Onde estamos, então?

— Exatamente? Estamos acima do Victoria Embankment Gardens. Aquela é a Cleopatra's Needle, que você vê lá, do outro lado é o Royal Festival Hall, e, para ser mais exato, você está na suíte Maria Callas do Hotel Savoy. — Valentine afundou devagar num dos sofás de veludo na saleta com magníficos painéis e lindo mobiliário Chippendale e olhou para dentro do fogo na lareira. Aquilo soava tão deliciosamente como uma antiga novela risque: "mocinha inocente em perigo recebida no destino por semi-estranho moreno e bonito, levada para hotel desconhecido em cidade desconhecida, rodeada de um luxo sinistro.

— Suas intenções são desonestas? — perguntou ela, lançando-lhe um olhar de soslaio que pouca coisa escondia.

— Cristo, espero que sim! — gemeu ele. Quando um advogado tremendamente importante consegue livrar-se das crises e garras jurídicas de Strassberger e Lipkins, mais uma mulher e três filhos para poder correr para Londres perseguindo uma pequena estonteamente perversa e fugidia, "desonestas" não era bem a palavra, mais a idéia geral era essa.

— Neste caso — disse Valentine, o mais altiva possível — primeiro precisarei de um banho quente, vodca gelada, sopa e... tenho de desfazer as malas.

Josh apertou três botões dispostos num retângulo de metal numa mesinha. Dentro de minutos três pessoas estavam na porta: um camareiro, uma arrumadeira e um garçom.

— Por favor, ponha um banho para Madame e desfaça as camas —disse ele à arrumadeira. — Eu queria uma garrafa de vodca polonesa, duas de Evian, um balde de gelo, sopa de agrião quente e uma travessa de sanduíches de galinha — acrescentou ao garçom; e, ao camareiro, disse: — A bagagem de Madame está no quarto de dormir. Queira desfazer as malas e levar as roupas que precisam de ser passadas. Gostaria que estivessem de volta amanhã de manhã. — Os três desapareceram para cumprir suas tarefas, com naturalidade.

— Este não é mais o hotel da moda; estão todos no W.l — explicou Josh a Valentine, de olho arregalado — mas não há igual em matéria de serviço. — Os dois ficaram calados e pensativos, até os camareiros saírem.

— Há só uma coisa que devo avisar...

— Uma coisa?

Pelo amor de Deus, não se afogue na banheira. É muito funda e bem um metro mais comprida do que você.

— Talvez eu precise de um salva-vidas.

— Talvez, mas não para o seu primeiro banho, querida, nós dois nos afogaríamos. E a sua sopa quente deve estar chegando.

— O garçom ficaria escandalizado?

— Um garçom do Savoy, nunca!

Valentine desapareceu no banheiro com um olhar cativante, um brilho completamente imprudente nos olhos verdes, um meio sorriso tão provocante quanto um presente fechado e lindamente embrulhado. Josh, que havia vinte anos não era seduzido, levou bem quatro segundos para começar a tirar o casaco.

Nem a arrumadeira, nem o camareiro nem o garçom, ao comentarem o fato mais tarde, se surpreenderam em absoluto. Na suíte Maria Callas, predileta da Diva quando estava em Londres, esse comportamento era a regra, e não a exceção.

— Talvez seja alguma coisa no ar — sugeriu o camareiro.

— Não me surpreenderia — fungou a arrumadeira.

O garçom, como sempre, teve a última palavra.

— Eu disse a minha mulher, é aquele obelisco da Cleópatra. Mulher famosa foi aquela.

Eles tiveram cinco dias, cinco dias de que jamais se esqueceriam — cinco dias impenetráveis, invioláveis, em que as únicas coisas que existiam eram as excelentes satisfações da carne a emoção de serem maravilhosamente insensatos; sabiam que o tempo para a prestação de contas seria no futuro, mas num futuro- tão remoto que não importava, que quase não existia.

Valentine resolveu seus negócios com Zandra Rhodes, Bill Gibb, Jean Muir e Thea Porter com rapidez e segurança. Josh deu uns telefonemas e enviou uma série de mensagens por telex, mas fora isso ficaram encerrados no luxo aprovador do Savoy; aventurando-se a sair para explorar Londres e jantar no Tramp's, no Drone's, no Tiberio, no "White Elephant Qub e no restaurante do Connaught só pelo prazer de estarem em público mas sozinhos, juntos.

Existe um período em todos os romances, em que os amantes têm de se mostrar, admirando um ao outro e a si mesmos refletidos um no outro. Até mesmo o mais nobre dos ambientes é apenas um cenário. Será que a condenada Lady Jane Grey realmente aceitara a coroa da Inglaterra, mais de 400 anos antes, naquela galeria comprida e escura, lilás e ouro, de Syon House? Como os outros turistas deviam estar admirando Valentine, pensava Josh, enquanto eles passeavam por ali, escutando o guarda contar aquela triste história.

Era muito cedo para eles indagarem da natureza do seu amor. Valentine estava por demais fascinada pela adoração que ele demonstrava pelo corpo dela, pela sua própria sensualidade, realmente desperta pela primeira vez. Nunca lhe fora permitida uma experiência tão puramente animal quanto acordar numa cama com cheiro de sua paixão anterior, sentir Josh excitar-se ao estender a mão para pega-la de novo, os odores pungentes de seus corpos fundindo-se de tal modo que ela nem sabia se estava com o cheiro dele ou ele com o cheiro dela. Procurou fixar na memória o cheiro de Josh e a cama do Savoy. Sabia que a imagem do homem e do quarto rosa e creme, vagamente Art Deco, com uma curva grande de janelas sobre o Tâmisa, sempre ficaria com ela, talvez borrada ou defeituosa, mas inesprezável; porém o cheiro exato, ela inspirou, já com saudades. Era a primeira vez na vida de Valentine que lhe era concedido o luxo da satisfação dos sentidos, aquelas longas horas de crepúsculo em que o simples fato de se estar vivo é um todo em si, onde há fartura, fartura de tudo, e o prazer do corpo faz com que o mundo inteiro pareça bom.

Josh estava por demais repleto de uma liberdade espantosa, o ruir da represa do dever e da responsabilidade que o haviam mantido em um caminho firme desde o dia em que aprendera a ler, para que se perguntasse aonde aquilo ia dar, que futuro podia ter. Para ambos, aquele determinado momento, que, em qualquer romance potencialmente permanente, resolve o seu destino, estava provisoriamente suspenso, interceptado pela aceitação tácita dos dois da tolice que é tentar ponderar sobre o futuro.

— Acho que eu não aguentaria fazer amor com um homem que não tivesse um peito cabeludo — disse Valentine, o nariz encostado "à pele dele, cheirando como um gourmet ardoroso, as raízes dos escuros pêlos, misturados com um pouco de cabelos grisalhos, que lhe cobriam o peito. — E você? — E esta, durante cinco dias, foi talvez a pergunta mais séria que ela fez.

Valentine embarcou no voo polar um dia antes de Josh. A mulher dele e, com certeza, um dos filhos, sempre o iam esperar no aeroporto depois de qualquer viagem de negócios, coisa que fez com que Los Angeles se tornasse uma realidade de novo. Mesmo assim, no salão de embarque, ela não falou da semana seguinte nem do mês seguinte. Afinal, o que havia para dizer? Só quando o futuro se fosse desdobrando é que ela veria que forma ele tomaria. A tendência fatalista irlandesa que sempre existira em sua natureza impetuosa parecia ter tomado conta dela. Nada poderia ter levado Josh Hillman a se apaixonar mais profundamente por ela do que essa recusa a fazer planos, combinações, essa aquiescência ao evanescente. Ele ficou alucinado ao ver que ela não estava tentando prendê-lo, segurá-lo, ter certeza dele, exigir alguma coisa, qualquer coisa. O que era aquilo? Dois navios que se cruzam na noite? Bosta! Havia de ter aquela mulher, acontecesse o que acontecesse. Ele a acompanhou até ao último portão, notou a despedida afetuosa em seus olhos, bem como a displicência de seu passo leve e rápido e quase correu para o carro que o esperava.

— Para o Britsish Museum — disse ele ao chofer. Só aqueles salões de pedra monumentais, cheios do sangue de muitos séculos, eram adequadamente sombrios para testemunharem a bárbara sensação de abandono que sentia.

Billy Ikehorn

tem a honra de convidá-lo para

uma Comemoração

em Luxúria no primeiro sábado de novembro de 1976

21:00 horas

DANÇAS


BLACK TIE

Quase antes de serem enviados os convites, Women's Wear predisse que aquela seria a festa mais famosa desde que Truman-Capote deu a conhecer a Nova York quem era Kay Graham. Quando Billy perguntou quem devia convidar, Spider respondera:

— Todo mundo.

— Mas eu não conheço "todo mundo", Spider. De que você está falando?

Spider notara, enquanto eles trabalhavam juntos para ressuscitar a nova Luxúria, que Billy estranhamente não estava em contato com o ambiente social em que ele a imaginava viver. Para ele, a vida particular dela, com sua falta de laços de família e amigos íntimos, parecia estranhamente vazia e despojada. Não podia saber que ela passara grande parte da vida essencialmente só. Os acidentes da vida tinham criado uma mulher solitária. Sua juventude lhe roubara, talvez para sempre, a capacidade de fazer amigos com facilidade. Os anos passados como uma celebridade lhe tinham deixado cicatrizes que nem todas as modificações físicas externas poderiam jamais apagar. Ela deixara a família para trás, quando saíra de Boston. Quando partiu de Nova York, depois do 4errame de Ellis, nunca substituíra os conhecimentos de lá, que, de qualquer maneira, a não ser Jessica, nunca tinham sido amigos de verdade. Em Los Angeles, onde poderia ter começado uma vida inteiramente nova, seus anos de quase isolamento e preocupação, na cidadela de Bel Air, a tinham impedido de travar relações íntimas com outras mulheres.

Embora milhões de leitores de jornais e revistas soubessem que "Billy" significava Billy Ikehorn, assim como conheciam os sobrenomes de "Liza" ou "Jackie", ela, Billy, nunca aceitara a realidade de seu status de celebridade nos meios de comunicação. Não se sentia conhecida. Ellis a ensinara a desconfiar da mesquinharia do que geralmente se chama de "society" em Nova York, e ela se contentara em ficar à sua margem. Depois que se mudou para a Califórnia, nunca fez, de um modo substancial e significativo, qualquer tentativa para frequentar a sociedade de Los Angeles. Além disso, se bem que Billy não concordasse com o ponto de vista extremado da sociedade de Boston de que não existe outra "sociedade" digna desse nome, seu jeito de Boston e os resíduos do sotaque bostoniano nunca chegaram a desaparecer totalmente, e acentuavam a impressão que ela dava de ser, no fim de contas, uma estranha.

— Mesmo que você não conheça todo mundo, todos a conhecem — insistiu Spider.

— Bem, e o que é que isso importa? Não posso convidar estranhos, posso?

— Pode e deve, bolas! — respondeu Spider. — Acabamos de gastar perto de um milhão de dólares, moça, e seria uma pena deixar que só os vizinhos vissem isso.

— Olhe, Spider, já que você é especialista nisso, pode fazer a lista. — Billy fugiu, sentindo-se, por um minuto constrangedor, fará de sua posição de comando. Ultimamente Spider estava tendo esse efeito sobre ela. Ele se achava tão sabido, pensou ela, aborrecida com sua própria falta de sofisticação social.

Spider esbaldou-se. Começou a lista com os moradores locais mais importantes, depois os magnatas de toda a costa oeste, da fronteira do México à do Canadá. Primeiro as clientes, afinal de contas. Depois acrescentou celebridades selecionadas de Nova York, Chicago, Detroit, Dallas e Palm Beach. Hollywood, o velho e o novo. O mundo da moda, .claro. Washington? Por que não os maiorais? Bem, talvez não o Presidente Carter, mas certamente o Vice-Presidente Mondale, e a festa não seria festa sem Tip N'eill. Depois atacou o que só podia continuar a chamar de International Jet Set, mas cuidadosamente peneirada, essa turma tão heterogênea. Faltava alguém? Jesus, a imprensa! Spider deu um murro na testa, por sua burrice. Isso é o que interessava. Ele estava-se matando por celebridades e políticos e se esquecendo de seus criadores. Então, a imprensa: não só a imprensa da moda e sociedade, mas as pessoas certas de People e New York Magazine e New West e Los Angeles e as revistas de noticias e Conde Nast e Hearst e os mandões das redes. Rolling Stones? Talvez não. Será que Walter Cronkite iria? E Norman Mailer? E que tal Woodward e Bernstein? Que diabo, Luxúria comportaria facilmente 600 ou 700 pessoas se abrissem todas as paredes divisórias e tirassem todos os balcões de mostruário, como planejara Ken Adams. Isso lhe permitia convidar pelo menos 400 casais, já que, dizia Spider consigo mesmo, muitas das pessoas que ele estava convidando provavelmente não fariam a viagem de onde moravam só para ir a um baile. Convidou mais várias dúzias, sem se esquecer de sua família e Josh Hillman e a mulher. Talvez estivesse se deixando arrebatar, raciocinou, olhando para as páginas à sua frente. Riscou alguns nomes da Flórida e do Texas, não iam muito à Califórnia, mesmo. Depois percorreu todas as suas listas, riscando qualquer nome que fosse levemente duvidoso, quer como cliente em potencial ou por seu valor como celebridade. Acabou com 350 casais e a festa do decênio. Talvez a Última Grande Festa. Certamente a festa mais cara, a mais fotografada, a mais elétrica e a mais comentada da década de 1970.

Sem pensar muito no assunto, Billy tinha acertado ao resolver dar o baile no primeiro sábado de novembro de 1976, logo após as eleições presidenciais. Aqueles cujos candidatos não tinham ganho queriam esquecer, e os que estavam contentes com o resultado da eleição queriam comemorar. Antes de tudo, todos queriam pensar em alguma coisa que não fosse política, a libra britânica e a poluição.

Os últimos floristas e encarregados da iluminação estavam saindo quando chegaram os encarregados do bufê, para instalar os bares e mesas. No primeiro andar, que fora esvaziado para às danças, havia vários bares grandes. O tour de force de Spider foi instalar Um bufê, um bar e uma dúzia de cadeiras em cada uma das 24 salas de provas. Ninguém que comparecesse naquela noite podia deixar de visitar o segundo andar de Luxúria, que Billy Baldwin, trabalhando mais depressa do que jamais fizera em sua vida ilustre, transformara em um pasticho fascinantemente divertido e erótico de salas deliciosas, cada qual fornecendo aos seus colegas menos inventivos inspiração que lhes duraria anos. No andar de baixo a dança não parava nunca; os três melhores conjuntos de Peter Duchin se alternavam, de modo que nunca havia um momento sem música. As portas do jardim de inverno eduardiano estavam abertas, de modo que as pessoas podiam passear no jardim nos fundos de. Luxúria. Havia até uma lua cheia. A magia era completa naquela noite amena; na iluminação de Ken Adams, as mulheres apareciam mais belas do que jamais tinham sido, em qualquer idade de suas vidas; os homens sentiam-se mais românticos e no entanto mais poderosos, talvez somente por terem sido convidados a esse baile de gala mais glamoroso e cheio de estrelas, talvez porque tudo em Luxúria se fundia para tocar em algum lugar a fantasia mais luxuosa de cada um. Até mesmo o pipocar constante das luzes dos fotógrafos dava uma nota de prazer. É preciso fazer parte daquela dúzia de celebridades realmente misantrópicas para detestar ser fotografado.

Luxúria reabriu para negócios na segunda-feira. No meio da manhã, eles viram que tinham vencido. As mercadorias de Valentine, encomendadas no fim de agosto, chegaram a tempo e, junto com o que havia de melhor nas compras de outono anteriores, feitas por Billy, realizaram a manobra imensamente proveitosa chamada, em taquigrafia da moda, "não parar na prateleira". Às dez e meia da manhã Spider teve de chamar um serviço de secretárias, pedindo seis funcionários provisórios só para tratar da abertura de novas contas correntes. O chefe, acostumado com os montes de comida servidos no Scandia, se preparara com prudência, mas até ele se assombrou ao ver as suas geladeiras gigantescas quase vazias no fim do dia. Seus quatro garçons, três ajudantes de cozinha e dois sommeliers estavam trêmulos de exaustão. As vendedoras tremiam de exultação, sem poderem acreditar: nenhuma jamais vendera tanto em um só dia. As massagistas orientais, mortas de cansaço, pediram demissão em massa, mas não chegaram a fazê-lo.

Depois que as portas se fecharam naquele dia, Billy, Spider e Valentine se reuniram no escritório de Billy. Spider deitou-se estirado no chão e Valentine, que tinha ajudado como vendedora o dia todo esticou-se no precioso sofá Luiz XV de Billy e jogou fora os sapatos.

— Isso pode durar? — perguntou Billy, baixinho.

— Se pode — disse Spider.

— As compras de Natal estão aí — comentou Valentine.

— CONSEGUIMOS! — gritou Billy.

— Se conseguimos — respondeu Spider.

— Precisamos de mais estoque, imediatamente — disse Valentine.

— VOCÊS DOIS SÃO MARAVILHOSOS! — exultou Billy.

— Se somos — disse Spider.

— Trinta e oito mulheres me pediram para desenhar modelos originais para elas. Preciso de uma assistente, oficinas, oficiais, tecidos, tudo — murmurou Valentine.

— O que precisar, você terá, amanhã — garantiu-lhe Billy.

— Se terá — disse Spider.

— E tenho de partir para outra viagem de compras. Aliás, já estou com algumas semanas de atraso para o prêt-à-porter da primavera e verão francês e italiano — disse Valentine, cansada.

— Spider, diga, afinal, você já trabalhou mesmo no varejo? — perguntou Billy.

— Ora, claro, Billy, o que a levou a achar que não? — riu-se Spider.

— Ele agora trabalha — murmurou Valentine.

— SE TRABALHA! — gritou Billy, delirante.

Em toda aquela semana, todo aquele mês, os negócios em Luxuria excederam suas esperanças mais audaciosas. Mesmo depois de passada, em parte, a fase da novidade e da curiosidade como fator de visita à loja, as clientes se estabeleceram num padrão de compras que não variava.

O armazém de interior, concebido originariamente por ser bizarro e dar alegria, tornou-se o lugar mais procurado para se comprar presentes e coisas que a gente não sabe que precisa, de tanto sucesso que para o Natal seguinte Luxúria publicou um cobiçado catálogo de vendas pelo correio.

O jardim de inverno com treliças — com seus cantinhos aconchegantes e discretos, seus sofás de dois lugares bem acolchoados, antigas poltronas de vime e mesinhas redondas com toalhas de chintz sublimemente fora de moda, rosa e lilás estampado de flores; suas cestas de begônias, ciclames e orquídeas, as imensas samambaias e sua luz fraca e insinuante — tornou-se o lugar predileto, das mulheres importantes da cidade para os bate-papos e a troca de informações vitais — que, em muitos casos, eram a mesma coisa.

O salão principal, a Feira de Amostras de Spider, com a seção masculina, a caverna de Ali Babá de acessórios femininos, o pub, as mesas de gamão e as máquinas eletrônicas, tornou-se o substituto de Bloomingdale's que as pessoas sempre diziam estar faltando em Beverly Hills, um playground de adultos, um lugar onde se pode ser visto, onde se esbarra em pessoas, onde se é tanto estimulado como reconfortado por fartura sobre fartura.

Em breve os figurinos de alta costura de Valentine tomou tanto o seu tempo e energia que Billy contratou duas compradoras altamente experientes, deixando-a livre para fazer o trabalho que tanto contribuía para o prestígio de Luxúria, mas ela continuava a ser a principal compradora da loja. Mais duas compradoras, uma de acessórios e outra de presentes, viajavam constantemente, chegando suas mercadorias de todos os cantos do mundo.

E Spider? Spider supervisionava tudo, desde o estacionamento até o mais insignificante garoto que trabalhava no estoque, das vitrinas até a cozinha. Mas sua função mais importante era a de árbitro de elegância, função que ele se atribuíra na primeira semana de funcionamento de Luxúria. Mulher nenhuma saía de Luxúria sem que primeiro Spider aprovasse o que ela comprara. Ele estava sempre presente no final. O gosto dele era praticamente impecável e sua especialidade dupla: convencer uma mulher vacilante de que ela realmente ficava linda com determinada roupa, ou dissuadi-la de querer uma coisa que ela adorasse mas que não lhe ficasse bem. Ele trabalhava sem consideração por qualquer venda individual. Preferia mil vezes ver uma cliente sair sem ter comprado nada a saber que ela chegara em casa e verificara, com pesar, que se enganara. Se Spider percebia aquela leve relutância que uma mulher sente quando está concordando forçada com alguma coisa pela qual não está muito entusiasmada, ele usava todos os seus ardis para dissuadi-la da compra. Ele só ficava realmente feliz com uma venda quando a cliente mostrava sua convicção querendo convencer a ele. E, propositadamente, sempre conseguia levar cada cliente a resolver não comprar pelo menos uma coisa que adorasse, de modo que quando ela chegasse em casa, qualquer sentimento de culpa que pudesse ter por ter gasto tanto dinheiro seria anulado pelo seu sentimento de virtude por não ter comprado aquela coisa que ela realmente queria. A fim de ser aprovada por Spider, a cliente tinha de escolher roupas totalmente certas para ela, e tinha de estar louca por elas, tonta com um desejo que não pode ser forçado, assim como um orgasmo fingido não pode ser apreciado. Em última análise, foi Spider, com seu firme controle sobre o que era vendido e para quem, mais que qualquer outro fato, que tornou Luxúria, dentro de um ano, a loja de artigos especializados de luxo de maior sucesso por metro quadrado de área de vendas em Beverly Hills, nos Estados Unidos, no mundo.



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