Judith krantz Luxúria



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— É melhor dar-me o saco, Lester — disse ela — a não set que você queira voltar a trabalhar com privadas ambulantes.

— Você consegue abafar isso? — perguntou ele, desesperado.

— Lester, por mais idiota que você tenha sido, ao fazer isso, compensou sendo esperto o suficiente ao ligar para mim. Não somente Price Waterhouse terá os envelopes de volta, como, na qualidade de membro da imprensa, eu não tenho de responder a pergunta alguma, nem revelar as minhas fontes.

— Maggie, eu lhe serei eternamente grato. Só uma coisa: não podemos dar só uma espiada no envelope da Melhor Atriz Coadjuvante, só para livrar Dolly da tensão?

— Eu não quero — gemeu Dolly, quando Maggie falou.

— Não, em absoluto. Aí seríamos três a saber do vencedor e quando três pessoas sabem de um segredo, todo mundo sabe. Não é seguro. Dolly pode esperar, como nós todos. Você não abriu nenhum dos envelopes, abriu?

— Claro que não — mentiu Lester, prendendo o pé de Dolly entre seus dois pés enormes e apertando. — Só liguei para você.

— Você vai longe, Lester. OK, vocês dois, isso não aconteceu.

— Nem uma palavra a ninguém — garantiu-lhe Lester. . — Já que esqueci tudo — prometeu Dolly.

— Sempre tive vontade de ouvir as pessoas falarem assim na vida real — disse Maggie, e antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, ela saiu do Polo Lounge, o saco firme debaixo do braço.

— Mas você nem contou a ela sobre Mirrors — exclamou Dolly.

— Ela não nos deixa espiar, nós não a deixamos saber. Ela pode esperar, como todo mundo. Justiça para todos.

— Ah, Lester, como você é sábio.

Poucos minutos depois Maggie estava em sua cozinha, em casa. No caminho de volta à casa ela calculara rapidamente as várias dificuldades que teria para devolver os envelopes sem comprometer Lester e Dolly. Teria de usar todo o seu prestígio e muita astúcia, mas, afinal, Price Waterhouse tinha pelo menos tanto interesse quanto ela em impedir que o público soubesse que esse mais guardado dos segredos tinha sido revelado antes da grande noite. Ah, era um negócio enguiçado, mas podia ser feito. Ela olhou para os envelopes espessos, arrumados sobre sua mesa da cozinha. A chaleira no fogão estava começando a produzir quantidades satisfatórias de vapor. Um por um ela abriu os envelopes no vapor, escreveu os nomes e tornou a selá-los. A mulher tem de se cuidar nesta vida, pensou Maggie. Ah, como ia divertir-se no dia seguinte. Provavelmente faria uma dúzia de negócios até o meio-dia, todo mundo na cidade ficaria lhe devendo favores. E o programa na noite seguinte, incrível. Ela o abriria com a sua própria lista de pretensos ganhadores. Quem ela devia dizer errado? Melhor Realização no Som e Melhor Documentário de Curta Metragem? Claro, ninguém ligava para isso a não ser as poucas centenas de técnicos envolvidos. Talvez mais um — Melhor Figurinista? Esse não tinha a menor importância. Mas do contrário, "como essa pequena acertava"! E ela daria instruções à sua equipe de câmara para estar exatamente no lugar certo na hora certa e saberia quanto tempo devia entrevistar cada indicado. O céu protege a moça que trabalha, não havia dúvida. Sentiu uma sensação de empolgação maior, ao chegar aos cinco últimos envelopes. Ela os abrira na mesma ordem que a seguida durante o programa. Maggie sempre achava que o profissionalismo era muito importante, quando se dedicava ao crime funcional. Por último, abriu o envelope do Melhor Filme.

— Ov, gevalt! — O grito foi tão do coração, tão fervoroso, tão aturdido, que seu cão de guarda latiu loucamente do lado de fora da casa.

O profissionalismo também tem limites, pensou Maggie, pegando o telefone.

Maggie já telefonara havia uma hora, e Billy e Vito afinal começaram a aceitar sua notícia como verdadeira, como parte de suas vidas, e não apenas uma vitória depois de uma longa corrida, comprida. Eles começaram a assimilar a vitória, a incorporá-la a si, pelo processo de repetir certas frases.

— Você tem certeza de que Maggie estava falando sério? — perguntou Billy, pela quinta vez, mais pelo prazer de ouvir a resposta do que porque duvidasse.

— Sem dúvida.

— Mas por que ela não quis dizer como soube. Não é esquisito?

— É assim que Maggie opera. Pode crer, ela tem métodos sui generis.

— Ah, Vito, ainda nem posso acreditar.

— Pois eu posso.

Mirrors é o melhor filme — disse Billy. Era uma afirmação uma declaração, e no entanto por algum motivo parecia uma pergunta.

— Talvez — observou Vito, pensativo. — Na verdade, não é possível formar um juízo absoluto sobre um filme. Você pode pegar cinco marcas de farinha de trigo, fazer um teste com elas e resolver qual funciona realmente melhor do que as outras, mas um filme? A única coisa que prove basicamente, é que, num conjunto de cinco filmes, Mirrors teve o maior número de votos, como numa prévia. E o único motivo pelo qual consigo ser tão superior e distante e filosófico é que nós ganhamos. Se tivéssemos perdido, eu diria que Mirrors era o melhor, sem dúvida alguma, e que atribuíram o prêmio a outro filme por uma porção de motivos complicados e errados.

— Mas o que é que você sente? Quero dizer, você acha que ganhou uma medalha de ouro olímpica ou coisa assim? — perguntou Billy, curiosa.

— Sinto-me como Jack Nicholson quando ganhou com Estranho no Ninho. Ele disse que ganhar o Oscar é como fazer amor pela primeira vez: se você faz uma vez, não precisa mais se preocupar com isso. Você tem de acreditar que é bom mesmo só para ter coragem de ser produtor, mas quando toda essa gente lhe diz que eles acham que você é bom, bem, não importa que você saiba dentro de si, é bom ter um certo apoio do mundo exterior. É mais do que bom, está além das malditas palavras.

Billy olhou para Vito, rondando o quarto, de pijama e robe. Ele parecia um maçarico. Nem mesmo ela, acostumada com sua energia pulverizadora, sua segurança audaciosa, jamais o vira tão fosforescente. Ele parecia pronto, pensou ela, a começar uma dúzia de projetos novos. De repente, no meio de seu tumulto de gratidão, ela sentiu o coração dar um mergulhinho assustador de apreensão.

— Um Oscar muda realmente a vida da pessoa, ou é apenas uma grande proeza, como ser rei por um dia? — perguntou ela, com naturalidade.

Vito parou para pensar um pouco antes de responder. Devagar ele disse, quase que falando para si:

— Para qualquer pessoa no negócio, tem de mudar de vida, por dentro e por fora. Permanentemente. Sei que dentro de uma semana, que diabo, em três dias, a metade das pessoas que estarão assistindo amanhã à noite terão esquecido quem ganhou o quê. Mas, de agora em diante, terei sempre esse Oscar a meu favor. Estará sempre presente, em algum lugar, nas cabeças das pessoas com quem eu tenho negócios. Não afetará os problemas crus de meu trabalho; todos os filmes continuarão a ter tantas crises e agonias, a seu modo, quanto os outros, mas esta é uma cidade industrial, e por um pouco de tempo eu serei o seu dono! Aquela sacanagem que o Arvey fez com Mirrors, esse tipo de coisa, nunca mais vai acontecer comigo. No momento, por algum tempo, eu sou intocável.

— Negócios! Você conseguirá fazê-los como quiser?

— Nem com dez Oscars — riu-se ele. — Mas serão bem mais fáceis do que os últimos. Ainda não sei bem, terei de descobrir. Mas posso prometer-lhe, querida, não vamos mais editar um filme na biblioteca. Esse tipo de coisa não vai tornar a acontecer.

Sem acreditar, Billy sentiu-se desfazer em lágrimas. Quis controlá-las, mas foi impossível. Uma convulsa sensação de perda comprimia o seu peito. Passaram-se vários segundos antes que Vito o notasse, e. então ele a abraçou com força, beijando seus cabelos escuros, beijando-a nos braços até ela conseguir falar.

— Desculpe, sinto muito, que hora horrível para chorar, mas é uma tolice tão grande, é só que, ah, adorei que o filme fosse editado aqui, participei tanto dele, e agora isso acabou. Nunca mais estaremos tão unidos, você não precisará que eu trabalhe ao seu lado, terá todas as auxiliares que quiser. Que burrice a minha, querido, não quero estragar a sua alegria. — O rosto de Billy estava desolado e ela tentou sorrir.

Vito não sabia o que dizer. Ela estava completamente certa. A situação que ocorreu com Mirrors fora uma coisa que acontece uma vez na vida, como um naufrágio. Ele esperava nunca mais ter de trabalhar naquela pressa maluca e frenética. Tinha dado certo, milagrosamente, mas seria muito mais fácil ter resultado num desastre total. E ele não via Billy no papel de auxiliar de produção. Não condizia nada com ela, e ele tinha certeza de que ela sabia disso.

— É só por isso que você está chorando, minha querida? — perguntou ele carinhosamente, abraçando-a com força e lambendo algumas das lágrimas do seu rosto. — Como você pode dizer que nunca mais estaremos tão unidos? Você é a minha mulher, minha melhor e mais querida amiga, a pessoa mais importante e mais adorada no mundo para mim, ninguém jamais poderá ser tão unida a mim.

Billy, atraída pela ternura imensa que sentia fluir para si, ousou exprimir os pensamentos que ocultara durante meses.

— Vito, você vai sempre ser um produtor, certo? — Ele fez que sim, sério. — E isso quer dizer que você sempre estará ocupado, e quando terminar um filme, logo começará outro porque é assim que você sempre trabalhou, com pelo menos duas bolas no ar — três é melhor — ao mesmo tempo, senão você não fica feliz?

Ele tornou a concordar, com uma expressão divertida nos olhos diante do tom solene dela.

— Você não vai querer que eu ande sempre atrás de você como uma criança perdida num parque de diversões, chorando pelo pai, vai? Pois bem, afinal consegui aprender a fazer amizades num set sem quase me afogar num poço, mas ajudar você com Mirrors não fez de mim uma profissional, sei disso. Então o que nos resta, realisticamente? Quanto mais sucesso você tem, menos eu tenho você. Amanhã de noite você passa para todo um novo plano, no que diz respeito ao seu trabalho. Mas, Vito, e eu? O que eu faço agora?

Ele olhou para ela sem saber o que dizer. Não tinha resposta. Não era uma pergunta que pudesse ser respondida por qualquer homem que goste de seu trabalho e dedique suas melhores energias a ele.

— Billy, querida, você sabia que eu era produtor, quando nos casamos.

— Mas eu não tinha a menor idéia do que realmente significa ser um produtor. Quem poderia ter, que diabo? A você parece perfeitamente natural, é o seu ritmo, você teve anos para se habituar a isso. Cristo, a essa altura você nem saberia levar uma vida normal. Quando foi a última vez que você tirou férias E não me venha dizer que foi em Cannes, aquilo não são férias, aquilo é negócio.

Billy estava começando a ficar zangada, ao ver a expressão preocupada no rosto dele ser substituída pela firmeza obstinada de alguém que está dizendo consigo mesmo, "é assim que eu sou, e daí"?

— Você já pensou o que é para mim quando você está rodando um filme?

Ela afastou-se dele e apertou o cinto do robe.

— Quer eu vá com você ou fique em casa, não importa. De qualquer maneira, eu me sinto só. A filmagem é só metade da coisa; e as noites em que você tem reuniões para a adaptação ou desaparece numa sessão de edição. Não paga dez que o presidente da General Motors ou US Steel trabalha menos horas por dia do que você, que quando não está trabalhando, está pensando no trabalho. — Ela estava ofegante, de tanta raiva.

Vito não respondeu logo. O que poderia prometer? Que trabalharia oito horas por dia, e faria um filme de dois em dois anos? A não ser que ele estivesse trabalhando num filme, só se sentia vivo pela metade. Seu rosto, com suas linhas fortes, assumiu uma expressão sólida, impenetrável, o que o fazia parecer mais que nunca com uma escultura de Donatello. Era isso que ele temia antes de concordar em casar-se com Billy, o desejo dela possuir tudo de todo, de tê-lo nas condições dela, como ela queria.

— Billy, não me posso moldar para me adaptar à sua idéia de um marido cômodo. É assim e é assim que vai ser. O que eu não der ao meu trabalho, eu dou a você. Não há mais ninguém, nem haverá, nunca, mas não lhe posso dar o meu trabalho também.

De repente Billy ficou apavorada com o tom de decisão na voz dele. Ele nunca lhe parecera tão distante. Um Vito distante era um Vito sem energia, uma flecha assustadora no coração dela. Billy ouviu o eco estridente e queixoso de suas próprias palavras e viu que se tinha excedido. Esquecera-se completamente de como Vito era dono de sua vida. Chegou perto dele e pegou em sua mão, magicamente reassumindo sua conhecida atitude de caçadora. A menina furiosa tinha desaparecido, e a armadura da milionária predatória, invulnerável, estava fixada no devido lugar, num piscar de olhos.

— Querido, estou sendo tola. Claro que você não pode mudar. Acho que deve ser uma reação maluca ao seu Oscar, provavelmente estou apenas com ciúmes. Por favor, pare de fazer essa cara, estou bem. Não dê atenção, por favor?

Ele olhou para ela sem sorrir, perscrutando-lhe o rosto. Ela o olhou de volta, oferecendo seus lindos olhos ao exame, arrependida, mas não furtiva.

— Querido, nem posso esperar até amanhã! Tanta coisa que vai acontecer. Mais que tudo, mal posso esperar para ver a cara de Curt Arvey. Ele não vai suportar a coisa, vai? — Ela conseguira mudar de assunto.

— Não — respondeu Vito animando-se. — Não vai acreditar, quando lhe disserem. E depois provavelmente vai pedir para contarem de novo, até perceber que o filme é dele. Acho... acho que vou almoçar com ele amanhã.

— Vito..., por quê? Com aquele traste?

— O lema da família dos Orsini é "não fique zangado, fique quites".

— Você é que inventou isso. — Ela mordeu a orelha dele, brincando. — Mas gostei. Acho que vou adotá-lo. Posso usá-lo, amor?

— Claro, você não é uma Orsini? — Ele beijou-a, indagando. Ela o beijou também, de um modo destinado a bloquear todas as perguntas, especialmente as que não queria responder.

Na manhã seguinte Billy chegou em Luxúria assim que a loja abriu. Ela sabia que nos fins daquela tarde de fim de março, aquilo ia ser um pandemônio. Várias mulheres tinham preferido deixar os vestidos novos pendurados em Luxúria para não se amassarem, pretendendo vestir-se lá para irem à cerimônia dos prêmios. Não houvera meio de evitar que combinassem com os cabeleireiros para; irem lá dar-lhes uma vitima escovadela, e no meio da tarde todos os quartos de provas estariam cheios de senhoras complicadas e ondas de cabeleireiros. Billy só esperava que os fusíveis não queimassem quando eles todos ligassem seus secadores ao mesmo tempo, como sem dúvida fariam. Ia lembrar a Spider para ter um eletricista à mão, para uma emergência.

Dirigindo pelo Sunset, ela pensou na conversa da noite da véspera. Claro, nada fora resolvido, como poderia ter sido, mas ela esperava ter convencido Vito de que o que dissera fora um ataque temporário de vapores de senhora maluca da parte dela. Esperava, mas duvidava. Vito era esperto demais para não conhecer a verdade, quando a ouvia. Ele agora estava disparado; tudo estava para ele, mas a única diferença na vida dele é que precisava encontrar o lugar certo na casa para colocar o Oscar, nem em evidência demais, nem pretensiosamente largado. Quem é que tinha dito: "toda a sabedoria humana está resumida em dois mandamentos, espere e tenha esperança." Ela gostaria de agarrar o pescoço daquele fodido.

Billy cumprimentou Valentine com um abraço tão efusivo que ambas ficaram espantadas.

— Aposto que você vai ficar feliz quando acabar este dia — disse Billy.

— Na verdade, embora muito cansada, estou aguardando esse dia com ansiedade. Esta noite afinal vou ver todo mundo usando as minhas roupas, fora dessas salas de provas.

— Bem, nem todos — comentou Billy. — Mais da metade dessas roupas afinal foram compradas para serem usadas em festas, particulares.

— Não importa.

— Onde está Spider?

— Ah... quem sabe? Estou ocupada demais para vigiá-lo — disse Valentine friamente.

— Isso é maneira de uma sócia falar? — implicou Billy.

— Esse negócio de sócio não é legal, sabe — disse Valentine depressa. — É só uma expressão. Tudo começou quando eu a convenci a dar um emprego a ele. Ele não é meu sócio, Billy.

— Como quiser, meu bem, contanto que ele trabalhe para mim.

Elas pareciam estar falando misteriosamente, pensou Billy, só que não sabia por quê. Ela mudou de assunto. Tinha os seus problemas.

— Olhe, vou só pegar meu vestido e deixar você trabalhar.

— Billy, experimente de novo.

— Por quê? Ficou pronto há séculos e estava perfeito. Não sei por que não o levei para casa naquele dia, devia estar nervosa demais por causa de Mirrors para poder pensar direito.

— Eu gostaria mesmo de vê-la de novo dentro dele. Só para ter certeza. Faz a minha vontade.

Valentine chamou uma assistente para buscar o vestido da Sra. Orsini.

— Você já parou para pensar quanto negócio nós fizemos só para os prêmios e todas as outras festas dadas esta noite? — perguntou Billy, enquanto esperavam. — Outro dia tentei calcular e parei quando cheguei aos 150 mil dólares. E nós somos apenas uma loja. Se você olhar a coisa de certo modo, os Oscars são concedidos para ajudar os varejistas de Beverly Hills.

— O que está muito certo — disse Valentine, satisfeita. — Ah, cá está.

A assistente tinha levado um vestido reluzente, sem alças, de cetim em pregas finas, de um tom de vermelho sutil e delicioso. Billy tirou os sapatos para vestir o forro de tafetá justíssimo, que impedia que o vestido colante de cetim se agarrasse ao corpo dela em qualquer ponto.

— Que jóias você vai usar com ele? — perguntou Valentine, enquanto se abaixava para fechar o forro.

— Não as minhas esmeraldas, parece muito Natal. Nem os rubis, basta um vermelho. E nem as safiras, tampouco, eu parecia a bandeira americana. Acho que só brilha... Valentine! O forro não me cabe!

— Fique quieta um instante. Devo ter puxado mal o ziper. — Valentine abriu o fecho até embaixo e tentou de novo. Novamente, o fecho parou na altura da cintura de Billy. As mãos de Valentine começaram a transpirar.

— Por acaso terá sido mandado para lavar a seco? — Isso é impossível. Esse forro não tinha nada de errado antes. — Billy estava desolada.

— Billy, o que você andou comendo? — perguntou Valentine, em tom acusador.

— Comendo? Nada, obrigada. Tenho andado nervosa demais para comer. Só de pensar fico enjoada. Não, há alguma coisa errada tom o forro. Se houve alteração, eu até emagreci.

— Pelo amor de Deus, Val, você sabe as minhas medidas de cor. Guarde essa fita. Isto está ficando ridículo.

Sem dar atenção a Billy, Valentine mediu a cintura dela e, depois de refletir um instante, o busto. Murmurou alguma coisa em francês.

— O que você está falando, que diabo? Pare com esse cantarolar e fale direito. Detesto quando você fala francês como se eu não entendesse!

— Eu só disse, Madame, que a cintura é a primeira coisa que aumenta.

— Aumenta? Aumenta como, pelo amor de Deus? Você está querendo me dizer que estou ficando gorda?

— Não precisamente. Três centímetros e meio na cintura, dois e meio no busto. É isso o que você aumentou. Muita gente consideraria isso um corpo aceitável, mas você não pode usar esse vestido sem esse forro.

— Que diabo — exclamou Billy, aborrecida. — Fazem só cinco meses que deixei as aulas de ginástica. Venho trabalhando como um cão para este corpo desde os dezoito anos e quando o abandono alguns meses, veja o que me faz, não é justo!

— Não se pode tapear a natureza — disse Valentine.

— Pare de rir. Isso é sério. Ah, que diabo, não é o fim do mundo. Uso outra roupa hoje, e começo a fazer ginástica no Ron todo dia, peço a Richie para me obrigar a trabalhar mesmo, e dentro de um mês estarei de volta ao normal.

— Dentro de um mês vai começar a aparecer.

— Aparecer?

Aparecer. — Valentine fez um gesto com as mãos, estufando uma barriga imaginária.

— Biruta! Valentine, você ficou completamente biruta! Você acha que Dolly tem alguma doença contagiosa? Deus todo poderoso, dão-lhe um vestido de gravidez para desenhar e você aparece com um caso grave de bebês no cérebro.

Valentine não disse nada, ergueu as sobrancelhas, com um ar sabido, obviamente mantendo-se firme na sua opinião.

— Você é figurinista, não ginecologista; não sabe de que está falando. — Billy estava gritando.

— Em Balmain nós sempre sabíamos primeiro, antes do médico, antes até da mulher. A cintura é a primeira que aumenta, é sabido — explicou Valentine, baixinho e ardentemente. Seu rostinho estava empolgado com a certeza.

Billy estava vestindo suas roupas de rua, gritando sempre.

— Suas francesas fodidas! Sempre tão seguras de si. Sabe tudo. Não podia ser o forro que não servia, tinha de ser eu que estou grávida. Até onde se pode levar essa besteira? Uma das malditas-manequins usou o vestido para ir dançar e mandou para o tintureiro. Verifique e verá! Nunca mais deixo um vestido aqui, isso é certo. — Ela virou-se para sair.

— Por favor, Valentine, não quero saber de desculpas. Não posso nem ter um vestido decente para usar, em minha própria loja. Diabo, diabo, diabo. — Ela saiu, batendo a porta.

Valentine ficou olhando para os montes vermelhos de cetim e tafetá no chão e a fita métrica na mão. Sabia que devia estar zangada. Onde estava seu famoso gênio? Mas uma lágrima rolou da ponta de seu narizinho pontudo. Uma lágrima por Billy.

Curt Arvey tinha ficado satisfeito com o telefonema de Vito. O filho da mãe quer fazer as pazes, pensou ele, com sarcasmo, ao aceitar o convite de Vito para almoçar com ele. Obviamente, Orsini tinha visto que se excedera e estava querendo consertar as coisas enquanto não era tarde. Era tão declarado, mas pelo menos satisfazia o sentido de importância de Arvey ser cortejado por alguém com quem estivera num conflito amargo ainda havia poucas semanas. Claro, Mirrors estava fazendo uma fortuna para ele, mas Orsini estava maluco-se achava que isso desculpava todos os truques vulgares que usara. Ò sujeito era um filho da puta cheio de manhas. Mas por que não deixar que Vito pagasse o almoço para ele? Teriam de se cumprimentar nos Oscars de noite, de todo jeito.

Encontraram-se em Ma Maison, outro golpe esperto de Vito, pensou Arvey. Na mesa ao lado deles Sue Mengers estava tomando um daiquiri de banana. Depois do almoço, todo mundo na cidade saberia que os dois tinham almoçado juntos e haviam de supor que eram novamente amigos. Bem, aquele bicha que se agarrasse às saias do estúdio por mais umas horas, e bom proveito. Depois daquela noite, Vito Orsini seria apenas mais um produtor cujo filme não teve sucesso. De volta à estaca zero. Alguém por acaso se lembrava dos quatro filmes que não tinham ganho o Oscar, no ano anterior? Ou mesmo o que tinha? Mas um estúdio durava a vida toda, e um chefe de estúdio sabido também.

Arvey gostou da conversa ao almoço. Tinha uma platéia nova f para os assuntos que lhe eram mais caros: histórias de desastres em outros estúdios, os nomes dos magnatas da indústria que estariam procurando emprego a qualquer momento; o número de filmes que estavam atrasados em outros estúdios e sua impossibilidade de recuperar o custo; as fofocas sobre quais firmas de Wall Street estavam desapontadas com os ganhos de quais estúdios e o que pretendiam fazer a respeito.

Vito meneava a cabeça interessado, encorajando aquela dissertação em que o outro tripudiava.

— Mas e você, Curt. Você está em forma, espero?

— É bom acreditar, Vito. A experiência vale neste negócio, e, não é por me gabar, mas eu adivinho mais certo do que errado. Este ano vamos apresentar outro lucro de 25% por ação. Os acionistas devem ficar satisfeitos uma vez na vida, esses sanguessugas.

— Quanto desse lucro será que vem de Mirrors?

— Parte, sem dúvida. Dou-lhe o crédito devido. Se eu não lhe tivesse dado o sinal verde, antes mesmo de você ter um argumento pronto, o dividendo seria de alguns centavos a menos. Um bom produtorzinho de dinheiro.

— Ouvi dizer que você teve sorte vendendo aquelas estações de televisão que a companhia possuía e que o resto do lucro, o grosso, vem de Mirrors.

— Quem é que lhe dá as suas informações financeiras, alguma cigana? — Arvey ficou levemente contrariado.

— Ou quem sabe você espera tirar o lucro daquele seu grande filme, David Copperfield? — indagou Vito, educadamente.

Pickwick! — Arvey largou o garfo ruidosamente.

Pickwick! David Copperfield, é o mesmo filme, só com um título diferente, quem vai saber? Em todo caso, só vai aparecer nos resultados do ano que vem, e pode aparecer como prejuízo. Ouvi dizer que ainda nem começaram a editar o negócio. É, é melhor dar um outro título. — Vito sorriu, de modo encorajador.

— Acontece que Pickwick! vai estrear no Radio City Music Hall na semana da Páscoa — disse Arvey, mordaz.

— O Radio City? Não foi Horizonte Perdido que estreou lá? Um bom lugar para esse tipo de filme infantil. Boa idéia, Curt, se há alguma coisa que possa ajudar esse filme, deve ser o Radio City.

— Vito — começou Arvey, sufocado de indignação, mas Vito interrompeu-o, tranqüilizando.

— Escute, você não tem com que se preocupar. Com esse aumento de renda, os acionistas hão de gozar nas calças. Tenho certeza, quase positiva, de que renovarão o seu contrato, Curt. Você este ano está numa situação esplêndida. E se Mirrors vencer esta noite...

Arvey interrompeu-o, com raiva.

— A gente dá uma oportunidade a um produtor e ele pensa que sabe tudo. É bom aproveitar enquanto é tempo, Vito; Mirrors vai ser notícia de ontem, e já estamos no meio do dia.

Vito respondeu como se não tivesse ouvido as palavras de Arvey.

— É, se Mirrors vencer, acho que o meu próximo filme vai ser um grande filme. Um homem criador precisa variar, e eu sempre quis ver Redford e Nicholson juntos. Há um filme que ambos estão loucos para fazer, é uma questão de se chegar a um acordo sobre o preço, mas acho que conseguirei comprá-lo.

— Pare com isso, Vito. Conheço essas conversas moles. Redford e Nicholson. Se você ganhar! Você sabe tão bem quanto eu que não há a menor possibilidade. Eu quero que você ganhe tanto quanto, você. Afinal, estamos juntos nisso, mas contra aqueles quadro arrasa-quarteirões. não há possibilidade! Mirrors é um filme pequeno; lembre-se, eu lhe disse isso desde o princípio. Os filmes pequenos quase nunca vencem. Rocky foi um golpe de sorte que acontece uma vez na vida. Certamente não pode acontecer duas vezes seguidas.. Não vá nutrir esperanças vãs, pois de noite só será A pior — acrescentou Arvey, retomando o seu tom condescendente.

— Quem sabe eu ganhe o voto dos que são contra os arrasa quarteirões — respondeu Vito, sonhador. — O pessoal da indústria sabe que cada um desses filmes grandiosos que fracassam significa que há seis ou oito ou dez outros filmes que não têm possibilidade de serem produzidos, milhares de empregos perdidos. Grandes filmes que decepcionam, e este ano tivemos um bom quinhão, desanimam o público, e a indústria sabe disso.

— Pode sonhar, Vito, pode sonhar. Olhe, escute a voz da experiência. Você tem idéia do tempo que já sou chefe do estúdio? Desde antes de você distinguir uma lente de um visor. E sei muito bem como é que você conseguiu a sua indicação: aquelas matinês para as donas-de-casa. Pensa que eu não sabia o que você andava fazendo? Mas de uma indicação a vencer são outros quinhentos, meu filho.

Vito dedicou-se ao seu souflê de chocolate individual, servido com creme batido gelado num pratinho separado. Comeu com atenção. Arvey examinou-o com curiosidade.

— Então está pensando em comprar alguma coisa? — perguntou ele, por fim. O filho da mãe queria alguma coisa dele. Seria um prazer recusar.

— Hum, hmm. Um livro. The WASP. Já ouviu falar?

— O que você pensa que eu sou, analfabeto? Meus leitores o adoraram. Susan adorou. Não tenho tempo para ler, mas tenho os resumos. Onze meses nas listas dos best-sellers, se se pode confiar nelas, o que não acontece comigo. Mas um milhão e meio pelos direitos cinematográficos, estão malucos. Ninguém vai pagar isso.

— Billy ficou maluca com o livro, quer comprá-lo para mim. Você não quer o seu souflê...?

— Pode comer, eu não devo comer chocolate mesmo. Então Billy quer comprá-lo, hem? Imagino que seja o seu aniversário? Bom, muito bom.

— É bom mesmo, Curt, quando a nossa mulher tem fé na gente. Ela tem um faro quase tão bom quanto o meu. Você acha que Mirrors não vai ganhar, pois o meu nariz italiano diz que sim. Diga que é um palpite, se não quiser ser realista.

— Quando a gente dirige uma companhia de muitos milhões de dólares, não segue os palpites com a mesma facilidade de quem tem uma mulher rica. Não quero ofender, são apenas os fatos. Nicholson e Redford... querem mesmo fazer o filme?

— Querem.

— Não posso acreditar. E só os salários deles. Jesus, você chegaria aos cinco, seis milhões antes mesmo de comprar o livro. Você está falando de um orçamento de 20 milhões de dólares. Não, Vito, esses negócios são um pouco exagerados para as suas posses.

— Vou-lhe dizer uma coisa, Curt, eu mesmo vou comprar o livro, ou melhor, Billy compra, e eu lhe darei uma opção de 30 dias se você tiver razão e Mirrors não ganhar.

— Qual é a alternativa?

— Se eu estiver certo, você compra os direitos para mim. Simples

— Um milhão e meio.

— As probabilidades estão contra mim, e você não acha que eu tenha possibilidade. Mas não se preocupe. Se você não quer arriscar o seu critério, compro o livro e arranjo outro estúdio. Merda ia demorar muito se eu pedisse outro souflê, não é? São tão pequenos.

— Você come demais. Vito, continuo a achar que é um idiota, mas se quiser fazer esse negócio, OK. Se você não se importa, por que não fazemos uma carta-contrato, aqui mesmo? — Ele chamou o garçom e pediu um menu.

— Curt, Curt, você pode confiar em mim — protestou Vito, fazendo-se de magoado.

— Depois que você me roubou o filme? — respondeu Arvey, escrevendo animadamente.

— Mas você o recebeu de volta.

— Não obstante, prefiro as coisas por escrito.

Arvey e Vito assinaram a carta e o garçom e Patrick Terrail, proprietário do restaurante, firmaram como testemunhas. Vito pegou o menu e ia dobrá-lo para guardá-lo no bolso quando Arvey o arrancou de suas mãos.

— Vamos pedir a Patrick que o guarde para nós, hem, Vito? Lembre-se, esta é a única cópia. E eu pago o almoço. Senão, ele te custaria um milhão e meio, mais o almoço. Hoje estou generoso.

Billy foi dirigindo para casa, quando saiu de Luxúria, com todos os sentidos empenhados em chegar lá sã e salva. A pequena distância entre Luxúria e o Sunset Boulevard está cheia de oportunidades de se atropelar pedestres imprudentes e ela sabia que estava tão zangada que tinha medo de não se concentrar. Conseguiu controlar-se enquanto passava pela casa enorme, sem falar com nenhum dos empregados. Atravessou sua saleta, seu quarto de dormir e o banheiro, e por fim trancou-se em seu refúgio final, seu quarto de vestir principal. O quarto, de dez metros de largura, tinha um tapete espesso de tom marfim, seda lilás-claro nas paredes e continha cabides e mais cabides de roupas. No centro do quarto uma ilha de acrílico era dividida em centenas de gavetas, cada qual contendo um acessório, diferente. Além do quarto, em outro quarto trancado, refrigerado numa temperatura permanente de sete graus, estavam penduradas as peles de Billy. Em ambos os quartos, só entravam Billy e sua empregada pessoal. Havia uma ampla janela em curva no centro de uma das paredes, com uma larga banqueta coberta de veludo marfim e um amontoado de almofadas de seda da cor de anêmonas e papoulas. Ela sentiu-se ofegante de sua corrida pela casa, e puxou uma manta velha da qual nunca se separara desde que a tia Cornélia a tricotara para ela. Meteu os pés frios debaixo das coxas, passou um dos braços em volta do outro e fez-se o mais pequenina, e quente possível. Aquela banqueta de janela era seu lugar particular e final, onde ela ia para pensar nas coisas. Continha um telefone; que só ela usava, e uma campainha para chamar sua empregada. Enquanto ficasse na janela, ninguém na casa ousava perturbá-la, e em seu estado de espírito do momento, ela achava que bem poderia passar o resto da vida ali. O filho da mãe a encurralara!

Ah, como era conveniente, e oportuno, como fora bem planejado! Encurralada, Cristo, na armadilha mais antiga que o homem conhecia. No minuto em que Valentine falara, ela sentira a armadilha fechar-se. Sem dúvida Vito esperava transformá-la numa esposa italiana à moda da Itália antiga, feliz por produzir bambinos e mais bambinos, talvez aprendendo a cozinhar com muito azeite e alho, certamente engordando enquanto ele saracoteava pelo mundo afora brincando de produtor cinematográfico, de vez em quando voltando para ver a família justo o tempo suficiente para tornar a engravidá-la. Ah, que filho da puta maquiavélico ele se revelara! Mama Orsini, quem diria que ela, Billy Ikehorn, se transformaria em La Mama Orsini? Como ele o conseguira, o desgraçado? Como programara aquilo para aquele dia, justamente quando ela lhe dissera, afinal, algumas das coisas que tanto a afligiam; como é que ele tinha planejado que isso lhe acontecesse justamente no momento exato, de modo que ele pudesse afagá-la na cabeça e dizer que havia outras coisas com que se ocupar, em vez de se preocupar era se sentir sozinha? Que manipulador infernalmente esperto ele era!

Billy apertou os olhos enquanto calculava. Ela sempre tivera uma menstruação irregular, e, enquanto esperava as indicações do Oscar, tinha estado sob uma tal tensão que não dera importância à ausência das regras. Quando, exatamente, fora a última? Consultou, a agenda semanal que mantinha perto da banqueta. Depois levantou-se de um salto, destrancou a porta de seu banheiro e espiou. Não viu nenhuma das arrumadeiras pondo toalhas limpas nem regando as plantas floridas. Foi depressa até o armário de remédios e encontrou a pilha de recipientes redondos de plástico com as pílulas de controle de natalidade que guardava ali. Contou-as duas vezes e voltou para o quarto de vestir, trancando a porta. Tornou a verificar a agenda. Tinha ido ao ginecologista na manhã em que fora visitar Dolly, no Natal, e tinha acabado uma menstruação naquele dia. O médico dela tinha um meio hábil de forçar que todas as suas "pequenas" de mais de 30 anos o consultassem duas vezes por ano, só receitando as pílulas de seis em seis meses. Então por que é que ela ainda tinha seis recipientes cheios de pílulas?

Se ela não soubesse que era impossível, teria de dizer que desde o Natal não tomava uma pílula. Se não soubesse que era impossível. Se não soubesse.

No quarto vazio, Billy de repente lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Ah, ela dessa vez se embrulhara mesmo. Um trabalho bem feito mesmo, quase três meses, meu bem, que tal isso como distração?

Billy não precisava de ter orientação psicanalítica para saber e aceitar imediatamente que ela fizera aquilo de propósito. Mas então por que, se ela queria ter um bebê, ficara tão zangada com Vito ainda havia poucos segundos, e por que fora tão detestável com a pobre Valentine?

Billy ficou se balançando para a frente e para trás, ainda rindo, os braços agarrando os joelhos, enquanto ponderava sobre o mecanismo que a impulsionava: seria sua mente, seu subconsciente ou seu inconsciente? Ela não sabia mesmo, faltavam-lhe o vocabulário apropriado e as percepções, aquilo era realmente a única coisa fora de seu alcance intelectual. Ela agira por impulso durante tanto tempo, lançando-se às situações, debatendo-se nelas, fazendo com que se resolvessem de um modo ou de outro, mais ou menos bem-sucedida, mas nunca com o auxílio de uma previsão.

Previsão? Rememorando, pensou ela, havia algo de notavelmente resoluto numa mulher que se esquece de tomar a pílula durante quase três meses. Billy bateu em sua barriga chata. Aquele bebê seria mais um produto de sua impulsividade inveterada, como... como todo o resto de sua vida. Seus dedos procuraram seu seio direito, depois o esquerdo. Ela os pesou, experimentando, nas mãos. Maiores, e mais quentes do que eram desde que tinha dezoito anos. Como é que uma mulher, especialmente uma mulher tão consciente do corpo quanto ela, poderia não notar indícios tão elementares quanto aqueles? Que tipo de mulher se envolve com cuidado para ter um bebê, mas não quer encarar o fato de que está grávida? E por quê?

Boa pergunta.

Billy puxou um bloco e uma caneta de onde estavam na banqueta e começou a tomar notas, cerrando os dentes, resolvida a descobrir a primeira camada daquilo. A camada do fundo, ela sabia, estava perdida no limbo.

Em primeiro lugar, ela não se sentia preparada para ser mãe. Depois que fosse mãe, nunca mais seria uma mulher despreocupada, sem qualquer responsabilidade, totalmente irrevogável.

Em segundo lugar, queria ser a noiva de lua-de-mel de Vito por muito tempo, um tempo adorável. Mas, nesse caso, ela perdera a luta para Mirrors antes mesmo deles se casarem. Uma mulher, sim, mas uma noiva? Não propriamente. Eles tinham saltado aquela parte.

Em terceiro lugar, ela queria tomar todas as decisões de sua vida por si, quando quisesse, a seu bel prazer, com a autoridade que desfrutara por tantos anos. Nada desse negócio da natureza surpreendê-la a sacudi-la pelo pescoço. Billy não aceitava que a vida a dominasse. Mas, nesse caso, por que não se casara com um desses homens mansos, decorativos, divertidos e pouco másculos que estão sempre à disposição das mulheres com dinheiro? Não fora por engano que escolhera Vito, e hoje o escolheria de novo, sabendo de tudo o que sabia agora, não só por ele ser o homem determinado que ela amava, mas também porque era o tipo de homem que ela amava. A autoridade dele, a capacidade dele tomar resoluções, a autonomia dele, todas as coisas que lhe permitiriam trabalhar longe dela por grande parte do tempo, eram as próprias coisas que ela mais admirava. Ela não lhe podia cortar o fornecimento de ar, sufocando-o com suas necessidades. Para começar, ele não lhe permitiria fazer isso. A vida fica meio paradoxal, disse Billy consigo mesma, quando a gente começa a crescer.

Em quarto lugar, ela queria estar em primeiro lugar com Vito, antes de qualquer outra pessoa, ser tudo na vida dele, nunca ter de partilhá-lo. E esse era o motivo mais absurdo de todos. Ela o partilhara desde o princípio, desde o primeiro momento em que o vira, partilhara-o com as preocupações dele, seus argumentos em processamento, suas intermináveis reuniões, toda a caravana de circo que tinha de ser reunida para se fazer um filme, com Fifi, com Svenberg, com a maviola. A colaboração é a alma da produção de filmes. Mas para a emoção, para a confiança absoluta, para o simples calor humano, ele sempre voltaria para ela. Um bebê não seria alguém que lhe roubasse Vito; ao contrário, um bebê seria alguém que ela poderia partilhar com Vito.

Billy olhou para as três ou quatro palavras chaves que rabiscara em seu bloco de notas. A única que ainda fazia algum sentido era que aos 34 anos ainda não se sentia preparada para ser mãe. Trinta e quatro anos? Ela deu uma risada alto diante de seu próprio absurdo, pois conseguira esquecer-se de seu 35.° aniversário em novembro, quando estavam em plena atividade de edição. Ela certamente andava monumentalmente esquecida, ultimamente. Pretendia esperar até ter 60 anos?

E no entanto, no entanto, como era difícil, como era realmente arrasador renunciar à liberdade. Obviamente, sua mente subconsciente, ou seria inconsciente, tinha tomado essa decisão por ela. O in ou sub provavelmente sabiam mais que ela, funcionavam segundo um relógio lunar ou coisa assim. Billy contemplou sua lista com tristeza. Não havia dúvida que ela era uma puta safada. Aliás, uma vaca muito boba. Ela queria tudo, o possível e o evidentemente impossível, e só desistia com relutância, arrastando os pés e gritando contra a injustiça até o último momento. Belo exemplo para dar a um pobre bebê inocente. Ela olhou para o papel com as palavras que tinha escrito. Devagar, com cuidado, e decididamente, riscou todas. Depois, com traços fortes, escreveu: CORNÉLIA ORSINI? WINTHROP ORSINI? — e examinou os dois nomes com um misto de aquiescência, uma fascinação lenta e tema, e os resquícios rapidamente em desaparecimento de uma surpresa pura. Só meia hora depois é que saiu de seu devaneio para pensar que ainda não tinha resolvido o que ia vestir naquela noite.

Pousou o papel na mesa, com cuidado, despiu-se e foi diretamente para a parte do quarto de vestir onde estavam pendurados seus vestidos de baile. Passou em revista dúzia de vestidos, cada um dentro de sua capa de plástico, e logo encontrou o duas peças de seda branca Mary McFadden que ela comprara havia um mês. Vestiu pela cabeça a frágil túnica pregueada, pintada num desenho abstrato de concha multicolorido, tão bonito que merecia ser pendurado numa parede. Depois vestiu com cuidado a saia comprida, vendo que fechava na cintura, embora apertada. Hesitou entre sete pares de sandálias prateadas, escolheu um par e calçou-o. Caminhando para o espelho triplo com a iluminação especial que reproduzia a luz da noite, apertou o cordão que era o cinto da túnica.

Nada mau. Aliás, bom, muito bom mesmo. Billy examinou-se em cada uma das três faces do espelho; de frente, de ambos os lados, e por fim de costas. Não tão deslumbrante quanto a criação vermelha de Valentine, mas bem aceitável. Foi até o divã e pegou uma almofadinha de seda; depois afrouxou e abaixou o cinto e enfiou o travesseiro embaixo da túnica. Voltou ao espelho, aproximando-se de lado, como que para surpreender sua imagem. Hmmmm. Não deixava de ter um certo estilo, meio Botticelli, com todos aqueles ondeados suaves: E se ela acrescentasse mais uma almofadinha? Não. Não mesmo. A túnica não tinha toda essa amplidão. Mas, e se a substituísse por uma blusa longa, frouxa, de Geoffrey Beene, de fio dourado e prateado? Certamente havia lugar nela para três bebês. Ela amarrou o cinto da Mary McFaldden sobre a blusa de Beene no nível da virilha e pôs mais uma almofada. Um efeito estranho mesmo. Parecia uma Madona de Memling, embora não completamente. Mas tinha certa classe, se bem que nem Beene nem McFadden o reconhecessem.

Valentine agora podia desenhar roupas de gravidez à vontade, Ah, meu Deus! Valentine. Como poderia desculpar-se? A verdade era complicada demais. Ela mesma só estava começando a entender. Não importa, havia de pensar em alguma coisa, refletiu Billy, e pegou o fone.

Maggie chegara em Luxúria logo depois de um almoço com um ator a quem convencera de só assinar o contrato de seu próximo filme depois dos prêmios, por mais pressão que o agente fizesse sobre ele. Ela conquistou a gratidão eterna daquele ator quando, de Oscar na mão, ele conseguiu mais três quartos de um milhão de dólares pelo papel que quase aceitara 24 horas antes. Tinha sido esse tipo de manhã. Para cada prêmio, havia cinco ganhadores em potencial. Alguns dos muitos telefonemas de Maggie encerravam a mensagem inconfundível: "agarre o dinheiro e fuja." Outros aconselhavam "espere e veja". Nem todos com quem Maggie falou seguiram seus conselhos, porém todos se lembravam deles depois. Sua reputação cresceu, devido ao trabalho daquela manhã, e passou a ter o oráculo de Hollywood. Maggie McGregor sabia como funcionava o negócio de cinema, o que a tornava uma das poucas pessoas, talvez a única no mundo, que soubesse.

Valentine estava pronta para enviar o vestido de Maggie para o camarim que a jornalista ocuparia no Pavilhão Dorothy Chandler, onde se realizaria a entrega dos prêmios. Tinham feito uma prova final do vestido vários dias antes, mas Maggie insistiu em vesti-lo para Spider ver.

— Ele que o veja na televisão, foi para isso que o desenhei — opôs-se Valentine.

— Quero ver a cara dele quando ele vir o que você fez, insistiu Maggie, emproando-se, os olhos castanhos e redondos apertados com seu sentido de humor e poder inteligente. — Vai ter um troço.

Mas Spider, depois de localizado e convocado ao estúdio de Valentine, olhou para Maggie através de sua bolha, roçando os dedos distraído e com respeito por cima de cada um dos seios magníficos. Aprovou com a cabeça, como se tivesse tocado uma estátua fria.

— Deslumbrante. — Ele deu-lhe uma aproximação de seu sorriso antigo. Olhando para Maggie e tocando nela, a bolha afinou-se até que ela quase não a sentia. O sorriso acentuou-se. — Só posso permitir isso uma vez por ano, Mag. Do contrário o seu público vai parar de levar você a sério e passar o tempo esperando que um deles, ou o outro, saia do vestido. Boa sorte para hoje, e não se abaixe

Deu-lhe um beijo, maquinalmente, e saiu da sala, o cansaço aparente em seu andar elegante.

— Ele deve estar apanhando alguma doença — disse Maggie, preocupada.

— Provavelmente é gonorréia — retrucou Valentine. — Escute, beleza, a Colette aqui vai ajudá-la a sair de dentro desse convite à orgia e pendurá-lo no cabide. Lembre-se, nada de jóias. Estarei assistindo, de modo que não queira me tapear. Agora tenho de ir dar um telefonema antes que esse negócio vire um pandemônio. Bonne chance!

Valentine retirou-se para o quartinho em que desenhava e pegou o telefone. Tinha de ligar para Josh. Ele lhe telefonara duas vezes, na véspera e ela estava ocupada demais para poder atendê-lo. De noite estava tão cansada que desligara o telefone e mandara que a mesa embaixo tomasse os recados. Ele ligara para lá uma vez e lhe disseram que ela não estava atendendo ao telefone e naquele dia ele já telefonara de novo, quando ela estava ocupada com Maggie. Devagar, discou o número do escritório dele, na esperança de que ele ainda estivesse no almoço. A secretária dele completou logo a ligação.

— Valentine! Você está bem? Deve estar exausta, coitadinha. — A voz dele demonstrava muita preocupação.

— É. É uma loucura, Josh, mas também estou-me divertindo, sabe? Se ao menos cada mulher que ajudo a ficar bonita não parecesse estar levando umas gotas de meu sangue junto com o vestido.

— Não gosto nada que você trabalhe tanto. Billy não devia permitir.

— Ela não tem nada a ver com isso, você sabe. Sou só eu — eu podia ter recusado-atender qualquer das mulheres que nos procurou — não se preocupe. — Valentine percebeu que eles estavam falando forçados, como dois estranhos. Ela deu um suspiro, esperando as palavras que certamente se seguiriam.

— Querida, você estará cansada demais para jantar comigo hoje? — Ele estava falando com toda a naturalidade, como se eles; não tivessem nada em especial para falar. De repente Valentine sentiu um desejo irreprimível de adiar o momento da decisão final pelo menos por mais um dia.

— Perdoe-me, Josh, mas estou quase caindo de joelhos, e ainda estamos no princípio da tarde. Ainda faltam horas para eu me livrar da última mulher, e a essa altura, nem vou saber mais o que estou dizendo. Hoje não, meu bem, amanhã. Amanhã vou dormir até tarde. Talvez nem venha trabalhar. Você compreende, Josh?

— Claro. — Ele tinha a sensação de estar sentado a uma mesa, levando a cabo uma negociação muito delicada, mas sobre a qual tinha todo o controle. — Vou deixar você voltar ao seu trabalhou — Cristo, pensou ele, e ainda falam do noivo relutante. Valentine era uma mulher que tinha de ser seduzida para comprometer-se a comprometer-se a comprometer-se. No entanto, não era essa própria característica esquiva dela que constituía grande parte do prazer que ela lhe dava? Com o telefone ainda na mão, Josh ficou ali sentado por mais tempo do que se deu conta, meditando sobre um futuro em que voltar para casa, para Valentine, seria uma coisa diária, que com o tempo se tornaria rotina, maravilhosa, certo, mas ainda assim rotina. Ele sabia o suficiente para prever essa coisa inevitável. Sentiria falta de levar uma vida dupla, os prazeres de um caso de amor mantido em segredo de todo o seu mundo de trabalho? As amigas de Joanne e as mulheres de seus associados algum dia perdoariam a Valentine, ou ele simplesmente teria de formar um círculo de amizades totalmente novo? E como seria ter em casa uma cesta de fraldas, depois de tantos anos? Engraçado que a gente sempre podia sentir o cheiro delas, por maior que fosse a casa. Mas ele tinha de enfrentar a possibilidade. Já vira muitos homens de meia-idade com segundas famílias, para pensar que conseguiria evitar isso. E hoje em dia havia fraldas descartáveis, de modo que talvez as cestas de fraldas tivessem tido o fim das escarradeiras. Bem, em todo caso, depois que ele e Valentine se casassem, ele estaria estabelecido para o resto da vida: uma divisão de bens bastava, numa vida. Estabelecido. Estranho, essa palavra tinha um som de ranço. Nessa altura Josh tirou as mãos do telefone, de repente, disse consigo mesmo para não ser adolescente, e chamou a secretária. Pensar melhor, à última hora, era para outras pessoas. Josh Hillman era um homem sério, e quando tomava uma resolução séria, agarrava-se a ela seriamente.

Bem no fim da tarde frenética, com todas as senhoras vestidas e penteadas e arrebatadas de Luxúria numa frota de limusines alugadas, Dolly entrou na loja, meio bolinho de massa, meio raio de luar, com o vulto cabeludo e aflito de Lester pairando sempre junto dela.

— Valentine — disse Dolly, feliz — sinto-me como uma menina de novo.

— É mesmo? — Valentine examinou a fisionomia infantil e casta de Dolly com um sorriso cansado. — A que milagre você atribui isso?

— O bebê desceu! Ah, não sabe? Umas duas semanas antes do parto o bebê desce para a posição certa. Só alguns centímetros, mas puxa, que alívio. Sinceramente, parece até que já tenho cintura outra vez.

— Posso dizer-lhe com franqueza que não tem, não. Mas Lester sim. Emagreceu uns cinco quilos.

— É a tensão pré-natal — gemeu Lester. — Ela me deu isso. E também uma ressaca. Nem pergunte.

Valentine pediu da cozinha um Bloody Mary ultratemperado para Lester, para ativar o fígado, enquanto levava Dolly para se vestir e deixar que Helen Saginaw, aquela melhor das profissionais, desse um jeito nos cabelos e maquilagem dela. Depois de 40 minutos e dois Bloody Marys para Lester, Dolly apareceu, fazendo com que Lester e Spider, que se juntara a ele, se levantassem assombrados. A cabeça pequenina de Dolly, em seu pescoço comprido, estava posta como uma estrela brilhante no topo de uma nuvem, esvoaçante e rodopiante de vestido, de um azul-cinza enevoado, nos doze diferentes tons de mar dos olhos dela. Começando bem acima do busto, era salpicado de milhares de brilhantinhos costurados à mão. O pescoço dela era suficientemente comprido, de modo que Valentine lhe pudera fazer uma gola de rufos, dura, brilhante e pontuda, em estilo meio elizabetano. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça e polvilhados com mais brilhantes, e nas orelhas usava os grandes brilhantes de Billy. Parecia estar banhada em minúsculos refletores, se bem que na sala não houvesse iluminação especial. Dolly lembrava uma fada nove meses depois de um ligeiro escorregão. Só a risada dela, aquela garantia bem-vinda da existência de uma fonte inesgotável de riso, não tinha mudado. Os dois homens ficaram olhando, boquiabertos com admiração e uma espécie de reverência. Valentine olhava para ela com uma intensa satisfação. Uma figurinista que conhecia o seu ofício, e não tinha medo de usar truques que tinham centenas de anos de idade, podia ensinar alguma coisa até a própria natureza. Lester, engolindo era seco, rompeu o- silêncio encantado.

— Vamos chegar atrasados, Dolly, não temos um minuto. Ei, onde você arranjou esses "brincos?

— Billy. Emprestou-me para dar sorte. Pode acreditar que são nove quilates em cada?

— O Senhor tenha piedade de nós, pobres pecadores — disse Lester, sombrio. — Só espero que estejam no seguro.

— Puxa, nem pensei em perguntar, talvez não deva usá-los se for perigoso. — Dolly parecia uma criança de onze anos oferecendo-se para renunciar à sua boneca favorita.

— Tolice — disse Valentine, com energia, conduzindo-os para a porta. — Billy ficaria sentida. Vá, a sua abóbora está esperando.

— Valentine — murmurou Dolly, virando-se para dar um último beijo se você o apertar um pouco, eu ainda poderei usá-lo depois, não é?

— Faremos pelo menos dois com este. Prometo.

De pé, em duas janelas separadas de seu escritório, Valentine e Spider ficaram olhando enquanto Dolly e Lester saíam no comprido Cadillac preto que o estúdio alugara para a ocasião. Então, a não ser os dois, Luxúria ficou vazia, do porão ao telhado. Ambos acenaram, embora soubessem que o casal no térreo não os podia ver, e depois viraram-se um para o outro, as fisionomias ainda iluminadas pela alegria quase paternal de participarem de uma história da Gata Borralheira. Era o primeiro olhar que trocavam, havia muitas semanas.

— Dolly vai ganhar — disse Spider, baixinho.

— Como pode ter certeza? — Valentine ficou intrigada com a convicção tranquila na voz dele.

— Maggie me contou, pouco antes de sair, hoje à tarde ninguém, nem mesmo Dolly sabe. É um segredo absoluto.

— Ah, mas que maravilha! Que notícia fantástica, Elliot! — Valentine hesitou um instante e depois declarou, para não ficar para trás: acontece que Vito também vai ganhar.

— O quê! Quem lhe contou?

— Billy. Mas é mais um segredo absoluto. Maggie contou a eles, ontem à noite. Eu não devia contar a ninguém; Billy só me contou para desculpar-se de uma coisa — disse Valentine, vaga.

— Maggie e seus segredos absolutos — disse Spider, assombrado. — que diabo, Val, mas isso é uma maravilha. Estou começando a... Vito... Dolly... Melhor Filme, Valentine? Valentine, o que é que há? Por que está com essa cara? Por que diabo havia de chorar?

— É só que estou tão feliz por eles todos — disse ela, numa vozinha desconsolada, disfarçada.

— Essas lágrimas não são de alegria — disse Spider, num tom imperioso.

Quando Valentine se recusou a ser sincera com ele, Spider sentiu que alguma coisa de muito má pairava no ar que rodeava sua bolha. Viu que ela respirava fundo, como alguém que vai saltar de um trampolim muito alto, e depois soltava o ar com um suspiro de estremecimento. Ela virou-se um pouco para ele e disse alguma coisa tão baixinho que ele pensou não ter ouvido direito. Impaciente, apavorado instantânea e irracionalmente, sacudiu o ombro dela.

— O que foi que você disse?

— Disse que vou casar com Josh Hillman.

Ah, não, mas não vai mesmo — rugiu Spider, sem refletir nem um milésimo de segundo.

A bolha estourou com uma explosão que só ele ouviu, a ruptura de uma membrana de depressão invisível que ele construíra para proteger-se do golpe que vinha esperando havia meses. Com um estrondo, ele caiu na realidade; num clarão de percepção atrasada, as barreiras caíram, se desmoronaram em sua mente e ele viu a luz ardendo no fim do túnel. Todos os seus sentidos estavam refeitos, renovados como se estivesse despertando de um encantamento. Cambaleou diante da alegria de seu coração cativo. Nunca vira Valentine com tanta clareza, mesmo naquela meia-luz. Viu que ela ainda não estava compreendendo, antes mesmo dela falar.

— Você está-me dizendo de novo o que posso fazer?

— Você não o ama. Não pode casar com ele.

— Você não entende nada disso — disse ela, tentando fingir desdém.

Ah, mas ela continuava burra como ele tinha sido. Aquilo que ele agora sabia em seu sangue e suas células e sua medula, teria de explicar a ela até que aquela sua obstinação sublime fosse vencida. Spider dominou sua impaciência, sua chama de antecipação, e obrigou seus olhos a se desviarem de sua boca para os seus olhos confusos e na defensiva.

— Eu a conheço tão bem que basta um olhar para saber que você não está apaixonada por Josh. Jesus, como pude ser um débil mental tão completo e incrível!

— Talvez tenha sido, Elliott, mas o que tem isso a ver comigo? Ou com Josh?

— Até o fim, a minha Valentine, lutando até o final. — Ele pôs as mãos sobre as dela e segurou-as com força, falando no tom que poderia usar para domar um potro selvagem. — Agora venha cá, sente-se no sofá. Agora, Valentine, você vai me escutar, e sem me interromper, porque tenho uma história a lhe contar. — O olhar dele era tão complexo, tão cheio de uma ternura azul-dourada, tão límpido em sua. candura, tão triunfante, tão sem dúvidas, que por uma vez na vida conseguiu eliminar todas as objeções da cabeça dela. Calada,,ela permitiu que ele a levasse para o outro lado da sala. Eles se sentaram, as mãos dela ainda nas dele.

— É uma história de duas pessoas, um jovem garanhão sabidão, que pensava que todas as pequenas são iguais, e uma mulherzinha irritável que achava que o cara era desesperadoramente frívolo. Há uns cinco ou seis anos eles se conheceram e se fizeram bons amigos, embora ela não o aprovasse. Aliás, eles se fizeram os melhores amigos. Apaixonaram-se, era o que pensavam, e se desencantaram, pelas pessoas erradas, mas continuaram amigos. Até salvavam, a vida um do outro, de vez em quando.

Spider parou e olhou para ela. Estava de olhos baixos e não queria olhar para ele. Mas não o estava interrompendo. Estava tão parada que Spider não podia imaginar que dentro de Valentine havia uma tormenta de conjeturas loucas, um assombro trovejando em seu sangue. Ela concentrou-se nas mãos dele. Se se mexesse tinha medo de cambalear.

— Valentine, essas duas pessoas não sabiam nada do longo caminho que é o percurso até o coração do amor; eram impacientes, ficavam-se desviando, perdiam oportunidades óbvias, estavam tão ocupadas que nunca se deram uma oportunidade um ao outro; quando um dizia A o outro dizia B, mas o tempo todo, sem o saberem, mesmo com esses desencontros ridículos e tudo, eles se estavam tornando completamente necessários um para o outro, permanentes, tão permanentes quanto... quanto o Louvre.

— Permanentes? — A palavra pareceu despertá-la do transe em que se encontrava. — Permanentes? Como você pode falar em permanência com todas as suas pequenas, desde que o conheço? — Ela falava tremendo e em seus olhos havia um reservatório de desconfiança.

— Primeiro, foi porque eu era moço e burro. Depois, mais tarde, havia tantas porque nenhuma era a certa. Nenhuma era a que eu realmente queria e, Deus sabe, você nunca me encorajou, de modo que continuei a procurar. Ah, você, você. Valentine, você é tudo o que eu jamais quis, tudo o que hei de querer jamais. Cristo, por que eu não fui capaz de ver isso? Não compreendo. Diabo, eu devia ter beijado você na primeira oportunidade, lá em Nova York, e teria nos poupado cinco anos de andar dando voltas. Aquela briga que tivemos, foi ciúme puro, um ciúme doido. Você não adivinhou?

— Por que você nunca me beijou lá em Nova York?

— Acho que eu tinha um pouco de medo de você. Pensei que a assustaria e não queria isso.

— E ainda está com medo? — A pergunta dela continha uma ironia rara. Apanhada de sopetão por um incêndio florestal de felicidade, Valentine ainda conseguia rir do homem que ela amara, recusando-se a admitir que o amava, desde o primeiro momento em que o viu, orgulhosa e teimosa demais para lutar por ele.

— Ah... você... — Ele abraçou-a, desajeitado, quase tímido, até que afinal beijou os lábios que conhecia tão bem. Afinal, pensou ele, a terra do prazer perdido.

Depois de um minuto ela se afastou um pouco.

— Você tem razão, Elliott, teria certamente sido um atalho. Irresistivelmente, impetuosamente, ela passou as mãos sobre todos os planos do rosto dele, tocando, tocando, tocando afinal a carne que ela ansiara por tocar por tanto tempo. Ela o despenteou, roçou-se contra os pêlos das costeletas dele, amassando e empurrando e alisando-lhe a pele com a entrega indagadora de uma paixão reprimida por tempo demais. Os olhos dela estavam meio fechados, enquanto se apoderava do rosto dele, de sua textura, de seu cheiro. Enterrou o narizinho no pescoço dele, cheirando, mordendo, provando, chupando com ferocidade, alimentando-se como um vampiro francês exigente daquele manjar masculino.

— Ah, criatura enorme e burra, esperar tanto tempo. Tinha vontade de sacudi-lo até seus dentes chacoalharem, só que você é muito grande.

— A culpa não é só minha — protestou ele. — Há meses que você .está intocável, eu não conseguiria chegar a você nem que tentasse.

— Mas nunca saberemos disso com certeza, não é? Você poderia ter tentado beijar-me antes, seu idiota. Em todo caso, não se dê ao trabalho de se defender. Pretendo guardar isso contra você por muito, muito tempo. — Ele nunca ouvira palavras tão triunfantes como as ameaças dela.

— Enquanto nós dois vivermos?

— Pelo menos por esse tempo.

A noite estava caindo, lá fora, e só havia uma lâmpada acesa na mesa de sócios deles. Spider começou a desabotoar o avental branco dela, seus dedos, geralmente ágeis, atrapalhando-se com os botões grandes, até que ela o ajudou. Apesar de sua experiência, ambos estavam curiosamente desajeitados, como se cada gesto separado estivesse acontecendo pela primeira vez. E no entanto cada gesto, ao se despirem, parecia ser o único adequado. Quando por fim os dois estavam despidos, deitados no grande sofá de camurça, Spider pensou nunca ter visto um todo, uma unidade tão perfeita. Os seios dela, pequenos e arrebitados, eram tão delicadamente vivos, tão impertinentemente arrogantes quanto sua expressão. Seu emaranhado de pêlos púbicos era mais crespo que seus cabelos, mas do mesmo ruivo picante. Ele sentia, ao tocá-los delicadamente pela primeira vez, que conhecia sua elasticidade, seu suave emaranhado, de* muitos, muitos sonhos. Valentine, tão voraz quando lhe mordera o pescoço, estava agora deitada imóvel enquanto ele olhava para seu corpo nu, oferecendo-se com orgulho ao olhar dele, como uma princesa refém, presa de uma grande vitória.

Ela era tão luminosamente branca, junto do bronzeado de seu peito, que Spider pensou que seria frágil, mas, quando começou a lhe acariciar os seios, ela o agarrou em seus braços belos e jovens e o puxou para junto dela, passando uma coxa lisa sobre o quadril dele, de modo que ele ficou preso.

— Fique, fique só assim um pouco, quero sentir todo o seu corpo junto do meu, apreender a sua pele, — murmurou ela, e ele ficou parado, uma presa ferozmente querida. Ficaram deitados de lado, apertados, respirando juntos, os pulsos se tocando, escutando com seus corpos enquanto sua paixão se concentrava como uma névoa quente sobre um lago, cobrindo-os num casulo rodopiante. Logo estavam os dois arquejantes, ainda imóveis, mas famintos de curiosidade e necessidade.

Quando sentiu que ela queria aquele ato simples e irrevogável, mais que tudo no mundo, ele a penetrou, diretamente, com simplicidade. Ela era pequenina, soltou uma exclamação de prazer, e depois não era mais pequenina. Ele estava agarrado, completamente preso, e não sentiu nenhum desejo arrebatado de impelir, tão quente, tão apertado era o sonho. Mas Valentine balançou o pélvis com languidez até eles passarem os limites e sentirem a urgência, uma urgência alucinada, repentina, tanto da alma como do corpo, para afinal se conhecerem, se unirem, se tornarem um só. Eles inventaram o ato do amor um para o outro enquanto o crepúsculo de março entrava pela noite, e depois os dois estavam tão humildes quanto ateus que de repente se tornam peregrinos, tão grande era o seu espanto diante de sua capacidade de juntos criarem uma coisa nova que nenhum dos dois jamais conhecera.

Valentine dormiu por muito tempo, encerrada nos braços de Spider como um buquê exótico de flores vermelhas, rosas e brancas, úmida e aromática e toda desarrumada, no sono com a mesma confiança com que agora estava comprometida com ele acordada. Spider também podia ter dormido, mas queria olhar para ela, espantado e ao mesmo tempo totalmente seguro. Ela era Valentine, e ao mesmo tempo não era Valentine. Apesar de pensar que a conhecesse, nunca suspeitara da existência de uma Valentine que escondesse um tal tesouro de doçura profunda e pura sob um exterior explosivo. O mundo inteiro estava cheio de surpresas maravilhosas. O escritório deles se transformara num quarto nupcial. Ele algum dia poderia sentar-se diante dela na mesa e falar sobre negócios sem se lembrar da sala como eslava agora? Poderia vê-la de avental branco sem ter vontade de tirá-lo? Se não, sorriu Spider, eles provavelmente teriam de redecorar o escritório e ela teria de arranjar outra roupa para vestir no trabalho.

Acordando nos braços de Spider, Valentine soube, simplesmente, que aquele era o momento mais feliz de sua vida. Nada jamais tornaria a ser igual. O passado estava noutro planeta. A busca por um lugar natal terminara. Ela e Elliott eram o seu próprio principado.

— Dormi muito?

— Não sei.

— Mas que horas são?

— Também não sei.

— Mas... a televisão... os prêmios..., provavelmente nós os perdemos.

— Provavelmente. Faz diferença?

— Claro que não, meu Elliott. Entre nós, só tínhamos umas 200 clientes na platéia ou no palco. Vamos dizer a cada uma que estava sensacional.

— Você vai me chamar de Elliott o resto da vida? Valentine pensou a respeito.

— Você não insiste em Spider, não é? Por que não Peter? É o seu nome, afinal.

— Não. Deus, não.

— Eu podia chamá-lo de querido ou de marinheiro, gosto disso, marinheiro. O que você acha?

— Como quiser, contanto que me chame.

— Ah, meu querido... — Eles foram pródigos com os beijos, não mais desajeitados, crescendo junto como uma árvore forte. Por fim Spider fez a pergunta que sabia que tinha de fazer.

— O que você vai fazer com o Hillman?

— Terei de dizer a ele amanhã. Ele vai saber, em todo caso, no minuto em que me vir. Pobre Josh... mas assim mesmo, nunca lhe dei mais que um talvez indefinido.

— Mas... do jeito que você me falou... pensei que estivesse resolvida.

— Eu ainda não tinha resolvido, de verdade. Não podia.

— Então você disse a mim antes de dizer a ele?

— É o que parece, não?

— Por que seria?

Eu é que não sei.

Ela parecia tão inocente quanto um cachorrinho. Spider resolveu guardar para si suas intuições repentinas. Há perguntas que não devem ser feitas, desde que as respostas sejam certas.

— Imagine só — falou ele, afastando os cachos dela para trás, para poder ver mais de seu rostinho maravilhoso — como todo mundo vai ficar surpreendido.

— Todos menos sete mulheres — observou Valentine, malícia pura saltando de seus olhos verdes.

— Ei, o que é isso? — perguntou Spider, novamente desconfiado. — A quem é que você contou?

— Como eu podia contar quando nem sabia? Estou falando de sua mãe e suas seis irmãs. Elas sabiam de tudo, acho, no dia em que me conheceram.

— Ah, Val, linda e boba, isso é imaginação pura, elas só acham que sou irresistível para todas as mulheres.

— Ah, mas você é, marinheiro, você é.

Billy permanecera a tarde toda em seu quarto de vestir, vagando, sonhadora, enquanto lhe passavam pela cabeça uma porção de idéias, agitadamente examinando várias roupas como olhos que viam tudo mas eram vagos, revistando até 60 bolsas vazias em suas peregrinações e colhendo uma safra de 23 dólares e 20 centavos de trocados. Sentia-se muito sensível, no corpo todo, quase como se tivesse criado uma nova pele, para sair de seu retiro, mas de repente se deu conta, com um sobressalto, de que Vito já devia estar em casa, vestindo-se para a noite, enquanto ela ainda continuava incomunicável. Já tirara o Mary McFadden havia tempos, para não amarrotá-lo, e estava embrulhada num velho robe dos grandes dias de Balenciaga, de veludo de seda açafrão com forro de tafetá rosa-shocking com punhos do mesmo rosa. Por fim, ao perceber a hora, destrancou a porta e foi para o banheiro. Era como entrar num jardim na primavera, cheio dos perfumes frescos e cheiros de terra dos vasos de narcisos, jacintos e violetas que se enfileiravam nas bordas de sua banheira funda e formavam uma massa colorida sob a dúzia de roseiras, no banheiro grande, que o chefe dos jardineiros levava das estufas para lá. Estavam cheias de botões. Dentro de duas semanas, pensou ela, ausente, estarão em flor. Tocou a campainha e atravessou o quarto de dormir, procurando sinais de Vito. Ele não estava no quarto de vestir, nem no banheiro imenso, de mármore verde e branco, nem na sauna. Por fim ela o encontrou em sua saleta, que formava parte da suíte deles, uma sala íntima toda forrada de lã estampada em tons ricos de castanho e amarelo, com brilhos de negro e ouro de um antigo biombo coreano e um grupo de cachepots japoneses do Século XVII, contendo oito dúzias de tulipas cor-de-tangerina meio abertas. Ele tinha ido até a despensa junto da saleta para pegar uma garrafa de Château Silverado da geladeira que lá havia, e que continha sempre vinho branco, champanha, caviar e pâté de foie gras, e parecia que ia beber um brinde a si mesmo. Billy pegou um segundo copo da pesada bandeja de prata sobre a mesa de laça portuguesa e estendeu-o a ele, o rosto sereno, os olhos escondendo uma emoção forte.

— Ah, amor, que bom que você chegou, estou atrasada mas vou-me apressar. Como foi o almoço com aquele titica de galinha? — perguntou.

— Puxa vida — disse Vito — os termos que vocês moças ricas usam. Você não devia ser tão dura com aquele pobre monte de bosta de viado. Meus contadores acabaram de receber as cifras finais de Mirrors, e ao que parece estávamos quase 50 mil dólares acima do orçamento quando ele tentou assumir o filme. Pode acreditar?

— Acredito, e ele continua a ser uma titica de galinha. Quem pagou o almoço?

— Ele insistiu. Eu o pus numa sinuca, de modo que ele foi forçado.

E, pensou Vito, só lhe custou pouco mais de 40 dólares, mais um milhão e meio. Resolvera não contar a Billy sua aposta com Arvey até o dia seguinte, até depois dos Oscars. Já bastava o que ela teria de engolir com o sucesso dele naquela noite, sem ter de saber ainda que sua próxima produção já estava toda planejada, a não ser a grita que o pobre do Arvey faria. E, quem sabe, talvez Redford e Nicholson realmente se interessassem... era o livro do ano, ou talvez da década.

— Bem, era o mínimo que ele podia fazer — disse Billy. Ela evidentemente estava pensando em alguma coisa de que Vito não sabia, mas nunca parecera tão animada.

— E o que, posso saber, a acendeu como uma árvore de Natal maravilhosa?

— Meu Deus, Vito, esta é a grande noite. Quando é que devo me empolgar, no dia de Natal, no dia da Queda da Bastilha, no aniversário de Fidel Castro, no dia em que Amy Carter se forma no primeiro .grau — Ela rodopiou, o robe girando, bebendo o vinho, esvaziando o cristal antigo e precioso e jogando-o na lareira, onde ele se estilhaçou em cem cacos. — Devo ter sangue de cossaco — disse ela, muito satisfeita consigo mesma.

— É bom você ter sangue de cavalo de corrida. Tem exatamente 15 minutos para se vestir e estar dentro do carro.

Ele deu-lhe uma boa palmada na bunda e ficou olhando, intrigado, enquanto ela lhe soprava um beijo e se afastava. Havia algo diferente em Billy naquela noite, e não era só que ela não estava de brincos. Alguma... potência, alguma vitória secreta. Ela estava com o aspecto de como ele se sentia.

Na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas afinal se conversa de que, a não ser alguns minutos muito esperados, as cerimônias dos prêmios estavam precisadas de um pouco mais de animação, para os telespectadores. Mais do que as pompas e cenários grandiosos, aquelas centenas de milhões de espectadores queriam na verdade era ver caras famosas nos momentos em que a pessoa comum podia ter empatia com elas, momentos de uma espera ansiosa, de esperança, de crise, de decepção disfarçada, de nervosismo e blefe e de uma alegria explosiva.

Os funcionários da Academia tinham permitido que a equipe de Maggie, todos bem vestidos, de smoking, tomassem posição bem no salão do Pavilhão Dorothy Chandler, com seus microfones portáteis e minicâmaras. Assim, em vez daqueles flashes rápidos de astros sentados numa fila de pessoas, às vezes acompanhados de um close-up em zoom de um piscar de olho célebre, que, mais frequentemente, desaparecia da tela antes que o público conseguisse vê-lo direito, a platéia nesse ano foi regalada por uma orgia de close-ups demorados e pôde escutar pedaços de conversas em vários momentos durante a apresentação, quando a platéia não estava em um silêncio de expectativa. O pessoal de Maggie era tão discreto e se misturava tão bem com a platéia que depois de algum tempo nem parecia estar presente e os indicados para os vários Oscars, todos sentados convenientemente perto do palco, quase se esqueceram de que estavam sendo televisionados ao vivo.

Billy e Vito só chegaram aos seus lugares muito depois que Maggie terminou suas entrevistas com os astros que chegavam, mas conseguiram entrar antes de começar a cerimônia. A essa altura Maggie estava nos bastidores. Tinha acabado de falar com os apresentadores nos vestiários, a maioria dos quais estavam tão nervosos com medo do palco que a acolheram com uma torrente de palavras, e ela agora se retirara para a cabina de controle, com seu diretor, para cobrir a entrega dos prêmios propriamente dita. Maggie tinha concebido um plano de ação baseada numa diretriz simples, que ditara a seus subordinados.

— Se Sly Stallone estiver cocando o traseiro enquanto o cara que ganhar o Oscar para os melhores efeitos sonoros estiver subindo pelo corredor, FIQUEM NO SLY até que cheguem a entregar a estatueta ao filho da puta e então, e só então, cortem para ele.

E o discurso de aceitação, Maggie? — indagou um diretor assistente.

— Filmem 25 segundos do discurso, não, 20, e voltem ao movimento no salão.

A platéia do Oscar é realmente cativa. Nem mesmo o céu pode ajudar a pessoa que sente vontade de ir ao banheiro durante a transmissão por televisão. Não há intervalos comerciais para eles, nenhum intervalo de jogo. Billy começou a devanear durante a primeira apresentação interminável de um dos cinco indicados para a melhor canção.

Seu cérebro, ela percebeu, nunca funcionara com tanta lógica quanto agora. Alguma coisa no calcular e encarar os fatos de como ela conseguira engravidar tinha liberado poderes de raciocínio que, sentia vagamente, estavam começando a vencer o seu velho hábito de impulsividade. Sempre houvera muita coisa boa em se fazer uma lista. Mais cedo naquele dia, quando pegara a caneta, parecia ouvir tia Cornélia dizer, com severidade mas carinho: "Wilhelmina Winthrop, puxe as meias para cima."

Agora ela sabia que ia chegar ao centro de sua vida e não queria fazê-lo numa luta, agarrando-se e debatendo-se, tentando manter o seu mundo amarrado e sob seu controle como se fosse um balão em fuga.. Já era tempo de largar o balão e permitir que ele a carregasse consigo, pairando tranquilamente sobre uma paisagem nova, vasta, ensolarada, com a mão leve nos controles. Um balão tinha controles, um leme, cordas, o quê? Não importa, disse ela consigo mesma, pelo menos não estaria sozinha no balão. Haveria o bebê, e, claro, outro bebê em seguida. Ela fora filha única e não permitiria, que isso acontecesse com seu filho. Talvez três. filhos ao todo? Havia tempo, se ela se apressasse. Não, disse consigo, é exatamente aí que você começa a agarrar, pegar e organizar tudo direitinho, e aí você se enrasca. Primeiro aquele bebê e depois ela veria. Aliás, da próxima vez, ela e Vito veriam. E se ela, afinal, passasse alguns anos fazendo o papel de La Mama Orsini? Se deixasse as coisas acontecerem, poderia descobrir que adorava aquilo, refletiu ela, desconfiada, sentindo um tremor não premeditado e indomável de antecipação.

Aplausos para a canção e dois novos apresentadores, um rapaz encantador e uma moça encantadora, gaguejando de tão nervosos, tentavam .anunciar um prêmio para o melhor desenho animado, ao que Billy pôde entender. Enquanto os títulos dos filmes e os nomes dos animadores, muitos deles tchecos ou japoneses, rolavam, com muitos erros de pronúncia, em seus lábios trêmulos, será que eles não ensaiavam? Billy voltou a seus pensamentos.

Seria fácil, aliás inevitável, passar, sob a proteção providencial da fertilidade, às alegrias da maternidade, mas ela estava começando a conhecer-se bem demais agora, e já não era sem tempo, para imaginar que se satisfaria com a maternidade tardia pelo futuro afora. E se quisesse compensar sua incapacidade de controlar Vito tentando controlar os filhos, o filho, os filhos? Seria certamente uma tentação e ela não era muito boa em matéria de resistir à tentação, mas isso não poderia acontecer. Vito sempre se pertenceria a ele e portanto deduzia-se que seus filhos também se pertenceriam, afinal. Ela não era obrigada a gostar desse conhecimento básico ao qual chegara tão recentemente, mas tinha de aprender a viver com ele, enfim. Não, a única pessoa para quem ela sempre viria em primeiro lugar, que sempre lhe pertenceria, era ela mesma.

Estavam acabados, há muito, muito tempo os dias em que Ellis a colocava acima de tudo o mais. Acabados, não havia muito tempo assim, os dias em que ela conseguia separar a vida de seu corpo do resto de sua vida e resolver como a levaria, com tanto sangue frio quanto poderia ser uma cadela no cio. Todos aqueles paus de todos os enfermeiros, inclusive Jake, foram exatamente o que dizia uma das palavras que os designavam: ferramentas. Peças de maquinaria. O pênis de Vito era como aquelas outras palavras, as vitorianas, vagas: um membro, um órgão. Quando estava dentro dela, não era uma coisa, era Vito, o amor de sua vida, acontecesse o que acontecesse.

Billy dirigiu sua atenção novamente para o palco, onde quatro cavalheiros de barbas negras idênticas recebiam Oscars. Animadores? Raskolnikov, Rumpelstiltskin, Rashomon e von Rundstedt? Será que não? Mas eram de Toronto, portanto deviam ser animadores. Tudo como sempre.

Os indicados seguintes eram para melhor figurinista, Billy ficou olhando, distraída do fluxo de seus pensamentos, pelas imagens que apareciam na tela gigantesca. Quando a vencedora foi anunciada, seria Edith Head, de novo, conquistando o seu nono Oscar? Não, não era Edith dessa vez, mas outra figurinista. Que impulso mal guiado a levara a tentar a volta da armadura de paetês naquela noite, entre todas? Billy retomou seu monólogo interior, divagando.

Havia um grande dilema na mosca do alvo de sua vida. Aliás, ela podia resumi-lo em uma frase. Se quisesse continuar casada com Vito, e ela queria, sem ressentimentos demais, sem ciúmes demais e sem mais que o normal em matéria de tensão e dor de qualquer casamento, teria de criar um interesse permanente em sua vida que não dependesse dele de modo algum. Será que isso por acaso era a conversa sobre a qual Jessica se mostrara tão pouco esclarecedora?

Ela não precisava fazer uma lista tipo tia Cornélia para saber onde estava essa escolha, entre todos os interesses que o mundo oferecia. Tudo apontava para Luxúria. Ela tivera a idéia original. Ela conseguira levá-la a efeito até se tornar funcional. Verdade, ela quase metera os pés pelas mãos. Quando cometia um erro, não era apenas um belo erro, era um raio de uma obra de arte, um diabo de uma obra-prima. Mas vira que estava errado e escolhera Valentine para endireitá-lo. O fato de Valentine ter aparecido com Spider, que tinha tido a imaginação de dar uma virada em Luxúria, não significaria nada se ela não tivesse cooperado plenamente assim que eles lhe mostraram o caminho. Em outras palavras, modéstia à parte, ela possuía o que geralmente se chamava de capacidade executiva.

Billy interrompeu as suas autofelicitações ao aparecer o prêmio de melhor realização em cinematografia. Svenberg fora indicado e ela pilhou-se prendendo a respiração. Diabo. John Alonzo. Coitado do Per, mas ele estava tão feliz com os anúncios de Mirrors, e já tinha dois Oscars.

Enquanto outra canção recebia uma produção digna do Radio City Music Hall nos anos 1950, "onde é que iam desencavar essas canções, a cabeça de Billy se enchia de idéias assim como um fogo de artifício emite centelhas de luz. Ainda havia mulheres ricas no mundo que moravam muito longe de Luxúria. Ela podia abrir filiais de Luxúria em cidades espalhadas pelos continentes. O Rio estava no ponto para isso. Zurique, Milão, São Paulo, Monte Cario, todas cheias de' mulheres muito ricas, muito caceteadas, muito elegantes. Munique, Chicago, ou Dallas ou Houston.

E Nova York. Ah, Nova York. Uma vez, num almoço, uns seis anos antes, Gerry Stutz lhe contara por que nunca abrira uma filial de Bendel's. Disse que não havia mulheres suficientes em qualquer cidade dos Estados Unidos a não ser Nova York que compreendessem e apoiassem o estilo de Bendel no varejo. Ela gostaria de fazer concorrência a Gerry. O estilo de Luxúria não era tão limitado a um chique avançado como o de Bendel. Podia ser modificado, dobrado a se adaptar a qualquer metrópole, contanto que o país em que a cidade se localizasse contivesse uma grande classe abastada

Billysentia as pontas dos dedos vibrando com o entusiasmo de suas visões. Todas essas cidades a visitar, locais a examinar, ofertas de terrenos a fazer, negócios a fechar, arquitetos a encontrar e contratar, decoradores a escolher, a consultar, os hábitos da comunidade rica a explorar. Cada Luxúria seria diferente de todas as outras lojas do mundo, com exceção de seu parentesco básico com a Luxúria de Beverly Hills. Havia vendedores a treinar, novos compradores a descobrir, gerentes de lojas a contratar, uma infinidade de novos refinamentos sobre o tema único e básico de Luxúria. O suficiente para uma vida inteira. Billy estremeceu de prazer. Ela se- sentia, pensou, como Vito devia sentir-se quando um novo filme entrava na fase de pré-produção. Não era menos amor por ela, mas apenas mais paixão por algo que nada tinha a ver com ela, e não ameaçava seu lugar de modo algum. Ah, lindo! Mas uma coisa de cada vez, senão o seu balão ficaria pesado demais e cairia por terra.

Vito cutucou-a de leve. Ela parecia estar perdida num sonho e iam ser anunciados os indicados para melhor diretor. Billy ficou logo alerta e surpreendeu-se diante da onda de emoção que sentiu. Ela gostava tanto de Fifi. Os dois apresentadores, Cristo, quem os teria escolhido? Pareciam mais absortos em suas piadas, e más piadas, mal decoradas, do que em abrir os envelopes. Era sádico. A leitura dos cinco nomes pareceu levar cinco minutos. O manusear ritualista do envelope pareceu durar séculos. Como era humanamente possível duas pessoas normais não conseguirem abrir um envelope? Fiorio Hill. Coitado do Fifi. Por que Vito pulando na cadeira e... era Fifi. Olhando para seu vulto conhecido, vestido de modo quase irreconhecível com um elegante smoking de veludo marrom, correr para o palco, Billy se perguntava se ela algum dia soubera o nome todo de Fifi, ou se estava cheia demais de suas idéias para ligar as coisas?

Pelo amor de Deus, mais uma canção. Nova espera. Sentiu vontade de ter levado um bloco e lápis. Não, não, não. Isso estava errado. Era exatamente o que ela não devia fazer. Ela sabia que se, num estado de espírito de ganância emocionante, sequer escrevesse os nomes das cidades onde sonhava fundar filiais de Luxúria, dentro de horas estaria no telefone, cobiçosa e imperiosamente dando ordens para corretores de imóveis, agarrando esquinas selecionadas, louca para começar, impaciente até ao frenesi para ver suas idéias tomarem vida. Ela mudara o suficiente, disse consigo mesma, solene, para poder ver a facilidade com que poderia cometer esse erro. Mudara até o suficiente para evitá-lo. Rápida, mas implacavelmente, Billy se lembrou de algumas coisas que engolira avidamente na vida: uma vez, há muito tempo, fora a comida; depois, em Nova York, todos aqueles rapazes; depois de conhecer Ellis, os ricos anos de viagens, casas demais, todas as jóias, vindo quando era tão jovem que se viu saciada antes de completar os 30 anos; depois as roupas, as montanhas de roupas, mais de nove décimos não usadas; e por fim novamente os homens, Jake no pavilhão da piscina, os outros no atelier. Ela tinha tido demais, muito demais, e grande parte não saboreado, engolido sem mastigar. Agora sabia aonde queria ir. Os dias de uma cupidez não satisfatória tinham acabado, tinha adiante de si dias de uma escolha de prioridades sensata e de discernimento. Como isso era bostoniano. Então, afinal, ela não deixara Boston para trás.

Billy resolveu não cometer o erro de tentar planejar o futuro de Luxúria sozinha, numa capacidade secreta e egoísta. Ela não era suficientemente esperta. Era preciso ter capacidade de executivo para reconhecer isso. Valentine, e especialmente Spider, teriam de participar de tudo. Ambos seriam vice-presidentes das novas filiais, da nova companhia a ser constituída, com mais dinheiro e maior participação nos lucros para ambos. Quem sabe, poderia até animar Spider, curá-lo do que o estivesse infernizando.

Vito beliscou-a com força, levando-a de volta para o auditório imenso e apinhado. Ele cochilou no ouvido dela:

— Que diabo Dolly está fazendo? — e apontou para Dolly, que, até então, estivera sentada algumas filas adiante deles.

Os dois apresentadores de melhor atriz coadjuvante tinham acabado de chegar ao pódio. Ficaram parados, sem dizer nada, os rostos lindos fixados em expressões de uma confusão paralisada, olhando para o auditório onde Dolly Moon estava de pé, dizendo alguma coisa no meio do silêncio. Um homem grande estava-se levantando na poltrona ao lado da dela. Era inimaginável. Talvez fosse algum protesto, tipo Marlon Brando, mas na hora errada? De todo o auditório as pessoas olhavam para Dolly, vendo que havia alguma coisa errada no funcionamento perfeito dos prêmios. Aquele era um momento de suspense sagrado. A tradição ditava que, como todas as indicadas, ela devia ficar sentada quieta, uma expressão serena e vaga na fisionomia, todas as feições num repouso disciplinado, pronta para sorrir falsamente quando o vencedor fosse anunciado, ou dissolver-se devagar numa alegria incrédula. Em.vez disso, ela estava de pé e falando demoradamente num tom de certa, agitação. Dentro de segundos o produtor de Maggie focalizou nela tanto a minicâmara como o microfone. A platéia no Pavilhão Dorothy Chandler não podia toda ouvir o que ouviam os telespectadores, de modo que muitos se levantaram para olhar na direção de Dolly.

— Vamos, Lester, Lester querido, não fique tão aflito, é só a bolsa d'água arrebentando, ainda há muito tempo, ah, meu Deus, coitada' da Valentine, estraguei o vestido.

Ela agora estava andando pelo corredor, o operador de minicâmeraa trás dela, o do microfone a seu lado. Conforme Billy disse mais tarde, teria parecido mais arrumado e indubitavelmente mais glamoroso se a câmera tivesse estado em frente, mas o operador conhecia uma tomada clássica e a vista posterior de Dolly, a imensa mancha molhada em seu vestido de espuma de mar, o riachinho caudaloso de líquido amniótico que ela ia deixando atrás de si enquanto se dirigia sem pressa para a saída, valiam mil vistas do rosto dela. Em todo caso, ela não estava correndo para lugar algum, estava é virando a cabeça de um lado para outro, falando com a platéia abismada.

— Vocês todos podem olhar para ver se há um brinco caído no chão? Parece que está faltando um, provavelmente está rolando debaixo dos pés de vocês. Pare com isso, Lester, não há nada para se preocupar, só todos procurarem o brinco, é um brilhante de nove quilates e não tenho certeza se está no seguro. O que, Lester? Não, deixe de ser tolo, por que eu havia de dizer que é imitação, Billy nunca usaria uma imitação. Não, Lester, não posso andar mais depressa, é subida, sabe, não, por favor, não tente me carregar, eu peso mais do que você. Ah, Deus, isso não era para acontecer daqui a uma semana, verdade, mas de repente foi "pop", eu não pretendia que fosse aqui, e ela riu-se. E riu e riu. Em milhões de casas em todo o mundo, as pessoas estavam rindo. Mais gente estava rindo junta naquela ocasião do que em qualquer outra ocasião desde o início da história, quando Dolly Moon fez a sua histórica retirada dos Oscars.

Billy assistiu a tudo num estado de choque. A fisionomia de Dolly ao passar por ela! Ela nunca se esqueceria daquela expressão de êxtase em expectativa quando ela passou, atenta a mais uma tarefa importante, enquanto lidava com o constrangimento do momento à sua moda natural, que sempre parecia dar certo no fim. Dolly, a sua Dolly, conhecia o segredo. Ela esperava com paciência e no fim tudo acontecia, mesmo que a sua cronometragem não fosse muito certa. O que importava? Ninguém, pensou Billy, nem mesmo ela, podia fazer a vida "dar certo". Talvez assim fosse melhor? Não que ela tivesse escolha. Que interessante compreender, afinal, que mesmo com todas as suas imensas opções havia setores em que ela não tinha escolha. Como todo mundo. Era um alívio tão grande. Sentiu tiras rígidas se afrouxando no lugar que sempre considerara a barriga, mas que agora teria de tratar com um pouco mais de respeito.

Enquanto a grande agitação por causa dos brincos se acalmava, os apresentadores anunciaram o Oscar de Dolly e Fifi, lágrimas de riso correndo pelo rosto, depressa recebeu-o por ela. Os apresentadores agora tinham chegado aos prêmios para melhor ator, melhor atriz e melhor filme. Vito apertou a mão de Billy com força. Enquanto esperavam, pelo prêmio do melhor ator, Vito também estava distribuindo os papéis dos protagonistas de The WASP, para a hipótese de que Redford ou Nicholson não estivessem livres, enquanto Billy era levada de um lado para outro em seu balão, o vento resolvendo a direção. Haveria caso de gêmeos na família de Vito? E enquanto a melhor atriz fazia o seu discurso de agradecimento, Billy começara a pensar se a palavra Luxúria seria bem aceita para a loja do Rio, e Vito a calcular a participação que poderia negociar para o seu novo filme.

Na espera final, em que a febre dos Oscars atinge o seu máximo, enquanto os apresentadores saíam dos bastidores e desciam o palco para ler as indicações para o Melhor Filme, Vito começou a suar. E se Maggie estivesse enganada? Jesus, ele teria de comprar os direitos para o filme com seu lucro de Mirrors, que afinal estavam começando a aparecer. Mas que diabo. Ele deu de ombros e sorriu. Certo ou errado, e quando é que Maggie algum dia havia errado, ele tinha de ter aquele livro. Fora escrito para ser produzido por ele. Ele o sabia.

Billy não teve nenhum desses pânicos de última hora. Dolly lhe telefonara logo de manhã, sem poder esconder as boas novas, e contara toda a história. Mas Billy não quis contar a Vito porque desconfiava que ele podia achar que, de algum modo, seu Oscar ficaria diminuído por terem duas pessoas diferentes aberto o envelope antes da apresentação, assim como só lhe contaria a respeito do bebê no dia seguinte, quando a glória daquela noite estivesse menos nova. A notícia, para Vito, que adorava bambinos, ofuscaria qualquer reconhecimento que a indústria lhe pudesse dar. E, ao sentir a mão de Vito apertar a sua com mais firmeza do que nunca, ela se recomendou que fosse sincera. Wilhelmina Winthrop Ikehorn Orsini não tinha a mais leve intenção de dividir a sua glória com uma reles estatueta folheada a ouro dada pela Academia.

— Alguém algum dia encontrará o seu brinco? — murmurou Vito em seu ouvido, de repente, quando os apresentadores começaram a ler a lista de cinco filmes e seus produtores.

— Esqueça o meu brinco — disse Billy, beijando-o nos lábios. —Temos coisa melhor em que pensar.

* * *

Fim



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