Judith krantz Luxúria



Baixar 1.85 Mb.
Página3/22
Encontro05.12.2017
Tamanho1.85 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22

No entanto, até ias melhores famílias de Boston têm ramos que, como podem preferir dizer, "não desfrutam dos mesmos meios" que o resto da família.

O pai de Billy Ikehorn, Josiah Prescott Winthrop, e a mãe, Matilda Randolph Minot, eram ambos os últimos de seus ramos laterais subsidiários dessas grandes tribos dinásticas. O dinheiro da família dele havia quase desaparecido no desastre financeiro ocorrido com Lee, Higginson e Co., a grande firma de corretagem, que perdeu 25 milhões de dólares do dinheiro dos clientes quando Ivar Kreuger, o "Rei do Fósforo", foi à falência e se suicidou. A família de Matilda não tinha dinheiro desde a Guerra de Secessão, embora fosse rica em tradição. Tudo o que sobrou dos fundos arrasados da família que Josiah levou para o casamento fora reduzido a uma renda de pouco mais de mil dólares por ano. Nas últimas cinco gerações não entrou dinheiro novo em nenhuma das famílias arruinadas. Por outro lado, não obedecendo ao costume sensato dos bostonianos, de restaurarem a fortuna precária da família por meio de um casamento com um membro de um clã vizinho com fundos sadios, as últimas gerações de Winthrops se haviam obstinadamente casado com filhas modestas e sensíveis de educadores e membros do clero, ambas honradas profissões bostonianas, mas não financeiramente compensadoras. A última importância razoável do dinheiro da família foi utilizada para mandar Josiah Winthrop estudar na Faculdade de Medicina de Harvard.

No entanto, ele foi um aluno esforçado que se diplomou entre os primeiros da turma e serviu com destaque como interno e residente no afamado Hospital Peter Bent Brigham. Sua especialidade era ginecologia e ele podia esperar uma excelente clientela, mesmo que se limitasse a tratar das amigas de suas parentas, que eram centenas.

Tarde, tarde demais. Em seu último ano de residência, Josiah Winthrop descobriu que não estava interessado na clínica particular. Apaixonou-se, ardente, permanentemente, pela pesquisa pura no momento em que começou a estudar o novo campo dos antibióticos. Dedicar-sé à pesquisa é o único meio seguro de um médico garantir que nunca terá o suficiente para viver decentemente. No dia em que devia ter-se estabelecido como clínico, Josiah Winthrop entrou para a equipe do Rexford Institute, entidade particular, como assistente de pesquisador, com um ordenado de 3.200 dólares por ano. Mesmo essa quantia modesta era cerca de 700 dólares mais do que o que poderia ganhar em qualquer estabelecimento de pesquisas oficial.

Matilda, um espírito superior desde o dia em que saiu dos cueiros, estava por demais absorta nos últimos meses de sua gravidez para se preocupar com o futuro. Juntos, ela achava que certamente conseguiriam viver com 4.200 dólares por ano e depositava a maior confiança no seu Joe, alto, magro, de ossos compridos, os olhos escuros cheios de quintessência do poder espiritual do ianque típico. Sua firmeza de propósito e a dedicação exclusiva ao seu ideal pareciam aos olhos dela o modelo do homem destinado à grandeza. A própria Matilda, beleza esguia, sonhadora, de cabelos escuros, parecia ter saído das páginas de Hawthorne. Nela pouco restava dos holandeses vorazes e da nobreza esquentada da Virginia que decoravam alguns dos ramos de sua árvore genealógica.

Quando nasceu a filha, deram-lhe o nome de Wilhelmina, em homenagem a uma tia querida de Matilda, literata de meia-idade que nunca se casara. Mas os dois reconheceram que Wilhelmina era um nome pesado para um bebê e chamavam a filhinha de Honey, diminutivo aceitável de seu primeiro sobrenome imponente, Hunnenwell.

Um ano e meio depois do nascimento de Honey, Matilda Winthrop foi atropelada e morreu, ao atravessar a Comonwealth Avenue com o sinal fechado, num momento de distração causado pela suspeita de que estava grávida novamente.

Durante algum tempo, Josiah, arrasado e sem poder acreditar naquilo, tomou uma ama para a pequenina Honey, mas logo compreendeu que não se podia dar a esse luxo. Não podia nem conceber a idéia de se casar de novo, e fez então a única coisa que lhe restava fazer: demitiu-se de seu amado Instituto, onde já estabelecera uma reputação invejável. Aceitou um trabalho desprezado mas mais bem pago, de médico do quadro de um hospital pequeno e com falta de pessoal, especializando-se em tudo desde sarampo até pequenas intervenções cirúrgicas, na cidade insignificante de Framingham, cerca de 45 minutos de carro de Boston. Aquele emprego apresentava várias vantagens. Permitiu-lhe alugar uma casinha nos arrabaldes da cidade, onde instalou Honey com Hannah, mulher simples e de bom coração que fazia as vezes de ama, cozinheira e tomava conta da casa; ficava próximo de boas escolas públicas, e ainda restava bastante tempo livre para continuar suas pesquisas no pequeno laboratório que construiu no porão. Josiah nem sequer pensou em voltar à ginecologia porque sabia que nesse setor da medicina nunca teria tempo livre.

Honey era um amor de criança. Gorducha demais, claro, e muito encabulada, era o veredicto das inúmeras tias que iam de carro até Framingham com os primos, para visitar a menina ou buscá-la para passar uns dias com eles. Mas quem a poderia culpar, aquela criaturinha órfã de mãe, coitadinha, e cujo pai, embora reconhecessem nele um homem dedicado, estava quase sempre no hospital ou fazendo alguma coisa naquele porão. Afinal, Honey só tinha Hannah para criá-la. Hannah fazia milagres, mas havia... bem... limites quanto à sua instrução. As tias resolveram que no ano seguinte, quando completaria três anos, Honey devia entrar mesmo para a escola maternal da Srta. Martingale em Back Bay, com a Prima Liza, o Primo Ames e o Primo Pierce, onde adquiriria a formação certa para uma futura apreciação da música e da arte e travaria relações com as crianças que, na ordem natural das coisas, formariam sua rede de amigos de toda a vida.

— De jeito nenhum — foi a resposta do pai. — Honey leva uma vida de campo boa e saudável aqui e há dúzias de crianças boazinhas para brincarem com ela. Hannah é uma boa mulher, decente e bondosa, e vocês não me convencem de que uma criança de três anos de idade que tem bastante vida ao ar livre e uma inteligência normal precisa de ser "apresentada" à pintura com os dedos e, Deus nos livre, à construção de blocos orientada. Não, não quero; e fim.

E nenhuma das tias conseguiu fazê-lo mudar de idéia. Ele sempre fora o mais teimoso de uma família de teimosos.

De modo que Honey, aos três anos, começou a tornar-se uma pária da tribo. As visitas das tias, mesmo as mais bem-intencionadas, diminuíram consideravelmente, pois seus filhos estavam ocupados com as "obrigações da escola maternal nos dias de semana e nos fins de semana queriam brincar com os novos amigos. Isso sem falar nos aniversários! Era mais sensato esperar pelas férias, quando o caro Josiah podia levar Honey para passar o dia com elas. Era uma pena que ele nunca pudesse passar a noite, pois insistia em voltar ao trabalho todas as noites.

Honey não pareceu sentir que se tornava mais fraca a ligação com seu bando de primos fleumáticos e tias dominadoras. Brincava muito satisfeita com as crianças que moravam nas casinhas modestas de sua rua e, no devido tempo, foi para um jardim de infância local. Tampouco se sentia sozinha com Hannah, que lhe fazia biscoitos e tortas e bolos todos os dias. O pai quase sempre chegava a tempo de jantar com ela, antes de desaparecer para trabalhar no porão. Era esse o seu modo de vida e, não tendo nada com que compará-lo, ela o aceitava. Depois de dois anos num jardim de infância local, Honey entrou para a Escola Primária Ralph Waldo Emerson, em framingham. Lá, desde os primeiros dias da primeira série, foi aos poucos apercebendo-se de que era de algum modo diferente de seus colegas. Todos tinham mães, irmãos e irmãs, em vez de só Hannah, que não era parente, e um pai que ela só via na hora de um jantar apressado. Os outros tinham uma espécie de vida familiar quotidiana, constituída de brincadeiras e brigas e o entrosamento de emoções, que a fascinava e intrigava. Por outro lado, não tinham primos que moravam em propriedades imensas em Wellesley ou Chestnut Hill ou em maravilhosos palacetes em Louis-burg Square ou em mansões Bulfinch em Mt. Vernon Street. Não tinham tias que faziam parte dos Círculos de Costura ou frequentavam as Noites de Valsa da Sra. Welch, mesmo que elas agora raramente fossem a Framingham. Tampouco seus colegas tinham tios educados em Harvard, que jogavam squash ou velejavam em grandes barcos, e que eram sócios do Somerset Club ou o Union Club, o Myopia Hunt ou o Athenaeum. Não eram levados por uma ou outra tia para ouvir a Sinfônica de Boston de vez em quando nas tardes de sexta-feira.

Honey adquiriu o hábito de se gabar dos parentes e primos e das casas deles a fim de dar menos importância à sua falta de mãe e irmãos e de uma vida doméstica normal. Aos poucos os colegas foram deixando de gostar de Honey, o que não a impediu de continuar a se gabar, pois ela nunca entendeu exatamente a razão do ressentimento deles. Em breve pararam de brincar com ela depois das aulas e de convidá-la para suas casas ou suas festas. Ela começou a compará-los com os seus primos importantes, cada vez menos: favoravelmente. Embora os primos não parecessem ter qualquer antipatia especial por ela, tampouco gostavam dela. Aos poucos, inevitavelmente, desamparadamente, e sem compreender por que, ela se tornou uma criança muito solitária. Hannah passou a fazer cada vez mais gulodices, mas nem mesmo torta de maçã com sorvete' de baunilha ajudava.

Não havia ninguém com quem ela pudesse falar a respeito dessas coisas. Honey nunca pensou em contar ao pai o que sentia. Eles não conversavam sobre sentimentos; nunca o haviam feito e nunca o fariam. Ela sabia, sem saber que sabia, que ele desapro-. varia se descobrisse que ela era infeliz. O pai dizia muitas vezes; que ela era uma "boa" menina, gorda demais, claro, mas que isso passava com a idade. Uma boa menina não pode, não ousa deixar que se saiba que não gostam dela ou que não a aprovam, fora do círculo de família. Não ser querida, para uma criança, parece ser um juízo final feito contra ela por motivos que ela não compreende mas que todo mundo entende. Uma criança aceita esse juízo gravemente nocivo e se envergonha de si. A humilhação da impopularidade é tão grande que tem de ser oculta de qualquer pessoa que ainda ame a criança e a aprove. Esse amor é preciso demais para ser exposto à verdade.

Quando chegou o momento em que as tias insistiram para que Honey tomasse lições de dança, até mesmo o obstinado Josiah Winthrop teve de concordar. Ele era por demais bostoniano de alma para não aceitar sem pestanejar o ritual sagrado da aula de dança do Sr. Lancingde Phister. Naturalmente, sem necessidade de explicação, aquilo era simplesmente parte da herança de Honey, assim como no futuro ser sócia das Colonial Dames. Sem nem pensar a respeito, ele sabia que se Matilda fosse viva, ela teria feito parte daquela turma eleita de mães bem vestidas que acompanhavam as filhinhas ao salão de baile do Vincent Club um sábado sim, outro não, de outubro até fins de maio.

As crianças começavam as aulas com o Sr. de Phister quando tinham nove anos no mínimo, e nem um dia antes. Dos nove aos onze anos eram consideradas principiantes; dos doze aos quatorze eram intermediárias; e quando as alunas dos quinze aos dezessete partiam quase todas para o colégio interno, as aulas eram dadas nas noites dos feriados e tornavam-se, de fato, festas de pré-debutantes.

Muito mais tarde na vida, Honey viria a descobrir que quase todas as mulheres que frequentaram ás aulas de dança conservavam recordações apavoradas de luvas perdidas à última hora, de anáguas que caíam no meio de uma valsa, e de meninos suados que pisavam nos pés delas de propósito. Mas, intimamente, estava convencida de que elas gostavam de exibir esses pequenos traumas nostálgicos para mostrarem que vinham do tipo de família que manda os filhos à escola de dança. Ela nunca contou a ninguém a respeito do Sr. de Phister. As lições que aprendeu tinham pouco a ver com a dança.

Em vez dos nove anos exigidos, ela já estava quase com dez anos quando começou as aulas, devido ao seu aniversário ser, incomodamente, em novembro. Uma garota de dez anos que tinha l,57m de altura e pesava 65 quilos. Uma pequena de dez anos com um vestido comprado na seção de adolescentes da filial de Filene em Wellesley, porque nada do departamento infantil lhe servia. Um vestido horrível, que Hannah a ajudara a escolher, um vestido realmente pavoroso de tafetá azul-vivo.

Várias tias a beijaram quando ela entrou no hall do Vincent Club, com Hannah, constrangida, a seu lado, e depois se lançaram olhares horrorizados.

— Maldito daquele Joe cabeça dura — resmungou uma para outra, furiosa, esquecendo-se completamente de acenar adeus à filhinha arrumada, bem-vestida de veludo rosa com gola de renda irlandesa. Os primos espalhados de Honey lhe acenaram quando ela entrou timidamente no salão cheio de gente.

Grande parte do sucesso do Sr. de Phister devia-se ao fato dele cobrar aos pais dos meninos a metade do que cobrava aos das meninas, de modo que todas as turmas tinham um excesso garantido de rapazes. A regra básica era que cada menino tinha de tentar arranjar um par. Nenhum menino podia passar uma dança sentado enquanto houvesse alguma menina sem dançar. No entanto, não havia meio de impedir que os garotos se atropelassem num grupo amontoado para convidarem certas meninas precoces para dançarem, aquelas que, aos nove anos, já tinham descoberto o poder de certos olhares, certos sorrisos, o tom de uma voz íntima contando uma piada íntima. Tampouco havia meio de evitar que uma das meninas fosse a última a ser convidada por algum garoto, obviamente aborrecido, e arrastando os pés (todos os psicanalistas de Boston acabaram ouvindo falar das aulas do Sr. de Phister).

A aula prática de dança era alternada com seis períodos de instrução dada pelo Sr. de Phister e a mulher, antes do intervalo para o bufê no meio da aula de duas horas de duração. Seis vezes Honey foi a última menina a ser convidada a dançar. Quando o pesadelo teve uma parada provisória, ela foi até a mesa posta num dos lados da sala e ficou ali sozinha, empaturrando-se freneticamente com bolinhos e biscoitos e muitos copos de ponche de frutas. Ficou de pé sozinha num canto e comeu o mais depressa possível. Quando a Sra. de Phister deu o sinal para começar a segunda metade da aula, Honey ficou no seu canto, forçando os últimos biscoitos para dentro da boca e engolindo uma décima taça de ponche. O Sra. de Phister observou-a depressa. Aquilo já acontecera antes. .

— Honey Winthrop — disse ele, em voz alta — queria fazer o favor de se reunir às outras meninas. Já vamos começar.

Honey vomitou de repente, num jato roxo e horrível. Todos os bolinhos e o ponche se esparramaram de modo nojento sobre a mesa do bufê e a toalha de Unho branca, salpicando até o assoalho encerado. A Sra. de Phister levou-a depressa para o banheiro das senhoras e deixou-a ali, depois de lhe dar alguns minutos de atenção, para se refazer sentada numa cadeira. Mais tarde, terminada a aula, Honey ouviu umas meninas se aproximando de seu esconderijo e correu para esconder-se num gabinete.

— Quem será aquela, eeeh, pequena gorda, horrorosa, esquisita, com aquele vestido azul jeca, imagine vomitar assim! Você a conhece mesmo?

"Alguém, me disse que ela é sua prima", falou uma voz estranha. Depois Honey ouviu sua prima-irmã Sarah responder, obviamente com relutância:

— Ah, aquela é a Honey Winthrop. Ela é só uma... espécie de prima longe, muito afastada, nem mora em Boston. Promete que não conta a ninguém, mas ela é uma prima pobre.

— Ora, Sarah May Alcott, minha mãe disse que nenhuma dama usa essa expressão!

A voz estranha parecia estar sinceramente escandalizada.

— Eu sei — riu-se Sarah, sem remorsos —, mas ela é mesmo. Ouvi a nossa Fraulein contar à Mamselle de Diana na semana passada, no parque. Só uma prima pobre, é o que ela disse.

Honey perdera o resto da recordação, se bem que soubesse que devia ter sido levada de volta a Hannah, no devido tempo, e que as tias deviam ter tido uma reunião de família, pois dali em diante uma ou outra sempre a levava para comprar seus vestidos da aula de dança numa loja discreta em Newbury Street, especializada em roupas para as meninas que "desabrocham cedo".

De vez em quando Honey ia a Cambridge, para visitar sua tia avó Wilhelmina. Aquela solteirona estudiosa era sua parenta preferida porque nunca lhe fazia perguntas sobre o colégio nem as aulas de dança nem amiguinhas, mas falava sobre a França e livros e servia uma mesa suntuosa de doces e sanduíches à hora do chá cm seu apartamento pequenino e arrumado. Honey desconfiava de que a Tia Wilhelmina também fosse uma prima pobre.

De 1952, quando ela tinha dez anos, até 1954, Honey suportou tudo aquilo, é cresceu e engordou cada vez mais. Dois anos do Sr. de Phister, dois.anos do Colégio Ralph Waldo Emerson, onde ela perdeu as poucas amigas que lhe restavam quando as meninas mais velhas começaram a dar festinhas íntimas e a falar de garotos e maquilar-se secretamente e experimentar sutiãs. Dois anos comemorando o Dia da Ação de Graças e Natal e passando uma semana no Maine ou Cape Cod com as tias e primos, as palavras insuportáveis "prima pobre", nunca lhe saindo da mente. Antes ela era infeliz, mas simpática. Agora essas duas palavras a tornavam sem jeito, emburrada e incomodamente intimidada. Poderia ter feito amizade com vários primos, se se sentisse à vontade com eles, pois não eram em absoluto malvados ou inabordáveis. Afinal, ela era uma Winthrop: Mas a recordação daquela tarde na aula de dança convenceu-a de que por trás de cada rosto risonho havia o desprezo, que por trás de cada comentário havia uma complacência oculta, que todos a renegariam se pudessem. A atitude reservada dela provocou a indiferença até nos melhores deles, e essa indiferença veio comprovar suas convicções.

Honey começou a detestar suas tias mandonas e seus muitos primos, os quais agiam todos como se nunca nem pensassem em dinheiro. Mas ela sabia que não era assim. Sabia que era a única coisa que realmente importava. Começou a detestar o pai por não ganhar mais dinheiro, por trabalhar num emprego maçante para poder ter muitas horas livres para a pesquisa que devia significar muito mais para ele do que ela própria. Começou a detestar Hannah, que a amava mas não a podia ajudar. Começou a detestar tudo menos a idéia de ter dinheiro, muito dinheiro. E comida.

Josiah Winthrop falou severamente com Honey a respeito de seus hábitos alimentares. Fez-lhe uma série de preleções severas e informativas a respeito de suas células de gordura, a bioquímica e a alimentação balanceada. Disse-lhe que era apenas uma questão de seguir uma dieta adequada, que ninguém na família nascera para ser gordo, e deu ordens a Hannah para parar de fazer bolos. Depois saiu para o hospital ou o laboratório e nem Hannah nem Honey fizeram caso de suas palavras. Ela estava quase com doze anos e pesava 75 quilos.

No verão antes de Honey fazer doze anos, a Tia Cornélia, a favorita de Josiah Winthrop, em toda sua família, foi visitá-lo numa tarde de domingo, em Framingham.

— Joe, você precisa mesmo fazer alguma coisa a respeito de Honey.

— Cornie, eu lhe garanto que já falei com ela sobre a gordura várias vezes, e ela não tem oportunidade de comer comidas que engordam nesta casa. Deve consegui-las com as amigas. De qualquer forma, meus pais tinham ossos grandes, como você provavelmente se lembra, e ela há de emagrecer quando chegar à puberdade. Dentro de dois anos, ou talvez três, ela deverá atingir seu peso: normal. Nunca houve um Winthrop gordo! Naturalmente, ela tem, a altura dos Winthrop — mas não há nada de errado nisso.

— Joe! Para um homem brilhante, você sabe ser incrivelmente burro. Não me refiro à gordura de Honey, muito embora só Deus sabe que alguma coisa deve ser feita e, além disso, ela tem ossos miúdos e não grandes, como você poderia observar se olhasse com meio olho. Estou falando da maneira como sua filha está sendo criada. Ela não faz parte de nada. Você está tão absorto no seu maldito trabalho que nem percebe como essa criança é infeliz. Não vê que ela não tem amigas de quem poderia conseguir alimentos que engordam? Ela nem conhece as pessoas que naturalmente devia conhecer — mal faz parte da família. E, Deus sabe, o Sr. de Phister foi uma tragédia. Joe, você sabe perfeitamente o que quero dizer, portanto não me venha com esse olhar de inocente. Ou, se não sabe pior ainda. O tipo de gente dela, para ser franca, o nosso tipo de gente, já que você me obriga a ser franca, vai excluir Honey se você não tomar alguma providência.

— Você não está sendo um pouquinho esnobe, Cornie? Honey é uma Winthrop, mesmo que por acaso estejamos numa situação de inferioridade.

Ele estava na defensiva, um homem voluntarioso, arrogante, egoísta, que detestava ter de prestar contas e sabia tecer suas desculpas interminavelmente.

— Não me importa realmente que termos você use, Joe. O que sei é que Honey está sendo criada como uma intrusa num grupo em que se tem muito pouco tempo para os intrusos. Eu não desejaria morar em lugar algum no mundo a não ser Boston, mas conheço os nossos defeitos. Não tem importância, quando se faz parte do grupo, mas Honey está começando a não fazer parte, Joe, e isso é ao mesmo tempo cruel e desnecessário.

A expressão de Josiah Winthrop mudou. Ele sempre fora importante, de um modo tão total, tão indiscutível, que onde quer que morasse, por menos dinheiro que tivesse, fizesse o que fizesse, sabia de sua importância com o tipo de convicção que não precisa de se assegurar. Ele seria um Winthrop de Boston mesmo que ficasse leproso, ou fosse assassino, até tarado. Era inconcebível que uma filha sua pudesse não pertencer à sua casta inconcebível e impossível. O seu egocentrismo total tinha sido penetrado pelas palavras bem escolhidas de Cornélia.

— Que você sugere que eu faça, Cornie? — perguntou ele, depressa, esperando que fosse alguma coisa que não lhe tomasse tempo. Estava fazendo muito progresso em seu laboratoriozinho no porão, mas precisava de todo seu tempo, cada minuto.

— Apenas que eu tome conta de certas coisas, Joe. Já tentei isso, como pode estar lembrado, mas você sempre me repeliu. Agora já é tarde- demais. Eu e George teríamos grande prazer se você permitisse que mandássemos Honey para a Emery Academy. A nossa Liza vai para lá este ano, sempre achei que as meninas de doze anos, criaturas impossíveis, estão melhor em colégio interno do que em casa, e lá haverá uma porção de boas meninas de Boston. Afinal, era a escola de sua mãe e de sua avó, não preciso dizer-lhe, que amizades de toda a vida se formam no colégio interno, preciso? Se Honey cursar o ginásio aqui em Framingham, nunca há de fazer essas amizades. É realmente sua última oportunidade, Joe. Tenho horror a parecer dramática, mas acho que você realmente tem o dever de aceitar, por causa de Honey e da querida Matilda, coitada.

Cornélia não se importava de usar todos os argumentos quando necessário, embora soubesse que isso não era nada bostoniano.

Era caridade, não havia outro nome, pensou Josiah Winthrop, mas ele certamente não podia pagar as despesas de Emery Academy. Toda a sua vida ele se orgulhara do fato de que nunca ninguém lhe oferecera caridade; ele resolvera não se dedicar à clínica particular e estava preparado para pagar o preço, mas Cornélia o assustara muito.

— Bem... obrigado, Cornélia. Aceito, muito grato. Tenho relutado ... bem, isso não vem ao caso... estou certo de que ambos sabemos o que estou querendo dizer. Por favor, diga a George o que eu sinto. Darei a notícia a Honey hoje à noite, ao jantar. Sei que ela também ficará encantada. E os papéis da matrícula e tudo o mais?

— Cuido disso. Há vaga para ela, claro, já verifiquei. E Joe, diga a Honey para tomar o trem de meio-dia para Boston no próximo sábado. Eu a espero na Estação de Back Bay e vamos encomendar os uniformes dela. É muito simples mesmo, meu bem; tenho de fazer isso para Liza, de qualquer maneira.



1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal